
Tem sido dito e escrito que os EUA não podem nem devem abandonar o Iraque. Vamos partir do princípio de que quem defende este ponto de vista considera que a guerra foi e é um erro. Só com estes se pode fazer este debate. Quem defende a guerra tenta apenas, com este argumento, encontrar no facto consumado a defesa da continuação da guerra.
Deixemos de lado a questão moral. Apenas digo, sobre ela, que o papel do agressor, depois da certeza de que o seu argumento para a agressão não tinha qualquer validade, deveria ser o de pagar a factura: pagar a reconstrução feita pelos e para os Iraquianos, indemnizar um país que foi destruído e pagar o esforço de pacificação que tivesse de ser feito por outras forças que não as responsáveis pela situação em que o Iraque se encontra. Isto é que seria justo. Mas adiante.
Um dos argumentos que tem sido utilizado é o de que a saída dos Estados Unidos do Iraque, agora, tendo em conta a inexistência de autoridade e a luta pelo poder que se adivinha, seria entregar o Iraque ao caos. Dito assim, parece um argumento de bom-senso. Mas não é. Não é porque os EUA são o último país que ali conseguirá a pacificação. Não é porque existem alternativas.
A permanência dos EUA no Iraque apenas acentuará a espiral de guerra. As forças americanas serão mais vezes atacadas, responderão com ataques, serão de novo atacadas, mais forças serão enviadas, e por aí adiante. Não serei o primeiro a fazer um paralelismo com o Vietname. Os EUA serão um factor de instabilidade. Até porque enquanto estiverem no Iraque atrairão toda a espécie de movimentos não-iraquianos, agravando ainda mais a situação. Sendo pragmáticos (e o argumento da defesa da presença dos EUA apela ao pragmatismo), eles serão, ali, um íman para a desgraça.
Não se conhece, nunca se conheceu, qualquer capacidade pacificadora a forças que são vistas como ocupantes. As forças ocupantes, quando não são vistas como libertadoras, acabam sempre ou por ter de abandonar os territórios que ocupam ou por transformá-lo em colónia sua. Pior: temo que se a saída não se fizer quanto antes terá de ser feita em muito piores circunstâncias, sem a possibilidade de garantir qualquer tipo de transição pacífica. A história colonial de muitos países, Portugal incluído, ensinou-nos isto.
A alternativa passa pela transição negociada. Só uma organização está em condições de o fazer: a ONU. As forças dos Estados Unidos e dos seus aliados nesta guerra devem ser substituídas por forças de países não envolvidos no conflito, aceites pelas forças iraquianas no terreno (as que se mostrarem disponíveis à negociação - e muitas delas, com a mira no poder, estão disponíveis), e dirigidas pelas Nações Unidas. O governo provisório iraquiano deve ser nomeado pela ONU e incluir as várias organizações no terreno, muitas delas indisponíveis hoje para trabalhar com o ocupante. A transição para a democracia deve conter em si a própria democracia. Ela terá de ser feita com esta gente. Se a negociação com esta gente é impossível, então a própria democracia será uma impossibilidade.
A prova provada da incapacidade negocial dos EUA é o facto de, em Fallujah, terem tido a necessidade de recorrer a sectores do governo provisório toleradas pelos revoltosos. Ou seja, os únicos que podem ser ouvidos e ouvir no Iraque são iraquianos. E eles existem.
Dir-me-ão que nunca os restantes países, no âmbito da ONU, sem os EUA, conseguirão garantir 130 mil militares no terreno. É verdade. Só que os EUA precisam de 130 militares porque estão a ocupar um país. Estão a defender os seus interesses na região e estão em guerra. O país é-lhes hostil e a ocupação inclui a tomada dos recursos naturais do Iraque. Para proteger o saque precisa-se de mais forças no terreno do que para garantir a paz. Para fazer uma guerra é preciso mais força do que para defender os cidadãos.
Mesmo assim, o Iraque não viria a ser um exemplo de paz e segurança? Não. Mas, cerca de 11 mil mortos depois, alguém pode dizer que agora o é?
Publicado por danieloliveira em | TrackBackSerá que as nações mais desenvolvidas do mundo, onde a democracia e a liberdade são conceitos adquiridos, não têm a legitimidade de, em nome da segurança de um mundo cada vez mais globalizado e da defesa do combate à pobreza em que (sobre)vive a população árabe (pobreza essa que fomenta o ódio ao mundo ocidental), dizia, não têm a legitimidade de orientar políticas que levem à democratização do mundo árabe? Para mim, essa legitimidade é total... De facto, penso que, tal como aconteceu na Europa Ocidental, após a 2ª Guerra Mundial e na Europa de Leste após a queda do muro de Berlim, já para não falar dos casos do Japão ou da África do Sul, a melhor forma de se garantir um mundo mais pacífico e menos desigual em termos de desenvolvimento humano é, precisamente, através da criação de condições de fomento da democracia e da liberdade nos países onde reina a ditadura e a censura.
O exemplo do Iraque poderá ser o princípio de um processo de democratização de uma região do mundo onde a falta de uma educação dos jovens assente em pilares tão básicos como a democracia e a liberdade, tem levado ao fortalecimento do fundamentalismo islâmico e do ódio ao Ocidente. Urge, agora, travar esta batalha, para que as próximas gerações possam viver num mundo mais pacífico e harmonioso...
Peixoto: o exemplo da Euopa de Leste? Então o Ocidente bombardeou Praga, ocupou Moscovo e cercou Budapeste?
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 12, 2004 07:55 PMConcordo o essencial do post mas até Junho (data marcada para a transição) eles têm que ficar lá a gerir o caos que criaram, sob pena de a saída imediata antecipar a guerra civil que parece cada vez mais inevitável. Agora resta saber se os "libertadores" vão respeitar a data limite que eles próprios impuseram.
Afixado por: luzes em abril 12, 2004 07:55 PMClaro, até Junho é daqui a dois meses.
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 12, 2004 07:56 PMParece a via mais honesta...
Mas os Estados não são honestos...
(E se começassemos tudo de novo?...)
A do hímen para a desgraça é que não entendi. 11 mil virgens é isso ? Está-me a custar a entender.
Tambem me custa a entender que se tenha acusado os EUA de terem ocupado o Iraque para saquear o petróleo e agora se acuse de quererem saír. trazem o petróleo nos bolsos do uniforme.
Oh ingénuos acham mesmo que eles querem saír ? Querem é mais companhia .
Experimentemos colocar-nos na pele de um cidadão iraquiano imaginário, o que reconheço não é tarefa fácil.
Mas há decerto interrogações legítimas a colocar:
1.O que é que significa não ter havido um acto formal de rendição? Será que apesar de os EUA o terem tentado(mera hipótese), não havia ninguém disposto a essa responsabilidade do lado iraquiano?
2.O desmantelamento do aparelho de estado iraquiano, incluindo as forças armadas e forças policiais civis, serviu que propósitos?
3.A paralesia do sistema económico durante meses não justificou uma economia de ocupação, condicionada pelas opções políticas do ocupante, em procurar internamente quem estivesse disposto a executá-las?
4.O calendário político iraquiano foi feito à medida dos intereses da recandidatura do líder ocupante, porquê?
5.Que interesses estão em jogo, por parte dos vizinhos Irão, Jordânia, Síria, Turquia e Arábia Saudita? Todos estes esperam pelo seu momento...
Demasiados factores para interpretar as causas do sofrimento e morte...
Será que o Iraque, como estado uno e indivisível, tem futuro?
Parece que há demasiados interesses em permitir que os iraquianos tenham uma palavra a dizer...
Onde afirmo "...em permitir" deveria ser dito "...em IMPEDIR"
Afixado por: Maria da Fonte II em abril 12, 2004 08:15 PMfin, está lá iman. essa gralha esteve lá 4 minutos e foi corrigida ainda antes do teu comntário
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 12, 2004 08:28 PMAh, Peixoto, tanta cegueira... que rol de disparates...
"...melhor forma de se garantir um mundo mais pacífico e menos desigual em termos de desenvolvimento humano é, precisamente, através da criação de condições de fomento da democracia e da liberdade nos países onde reina a ditadura e a censura."
Lindo! Aprovo totalmente (sem ponta de ironia). Mas o Peixoto esqueceu-se de adicionar no fim, talvez se sinta um pouco mal a fazê-lo: E se a maneira de garantir um mundo mais pacífico, democrático e livre fôr através da guerra, seja! Há que bombardear os pobres coitados, seja quem fôr, claramente burros, até que sejam pacíficos, livres e democráticos. E sem pinga de ressentimento contra o Ocidente e os EUA, senão levam outra vez!
Ridículo...
O que os EUA têm a fazer é simples:
(1) anunciar que não têm intenção de manter quaisquer tropas no Iraque, e um calendário para a retirada das tropas de tal modo que no final de 2005 (no máximo) não haverá um único soldado americano no Iraque;
(2) abdicar (a sério, e não de fachada) do controlo político do Iraque em favor das Nações Unidas - Bremer sai, e entra um árabe nomeado pelas Nações Unidas, com o objectivo de marcar eleições o mais rapidamente possível;
(3) alargar o conselho Iraquiano a TODAS as facções, incluindo representantes dos insurrectos sunitas e Sadr;
(4) com estas condições satisfeitas, provavelmente muitos mais países estariam dispostos a contribuir com efectivos policiais para o Iraque, sendo os mais importantes os vindos de países árabes e islâmicos, que substituiriam progressivamente as tropas americanas.
Infelizmente, neste momento os americanos ainda não estão dispostos a (1). Porque foi sempre esse o objectivo da invasão: construir bases no Iraque que permitissem aos EUA controlar o Médio Oriente. Não vão abdicar dele tão cedo. E a resistência continuará. E a violência. Como John Kerry uma vez disse perante o Congresso Americano, a propósito do Vietname: Como é que se pede a alguém para ser o último a morrer por um engano?... Quantos mais, americanos e iraquianos, vão morrer por teimosia e estupidez?...
Afixado por: viana em abril 12, 2004 08:37 PMConcordo em geral, Daniel, mas acho que se acreditas mesmo que a democracia no Iraque é minimamente possível estás a ser mais ingénuo que uma colegial das antigas (e lendárias).
No momento em que os EUA invadem o Iraque ignorando a democracia internacional representada pela ONU (que tem os defeitos que tem mas é a única legitimidade internacional minimamente democrática, enviaram um sinal poderoso quer a amigos quer a inimigos que a democracia é assim uma espécie de ditadura em que as pessoas fingem que conversam enquanto concordam umas com as outras, passando para a pancadaria assim que discordam.
Para qualquer iraquiano, o conceito de democracia à americana é participar das instituições formais enquanto se for concordando mais ou menos e/ou ganhando alguma coisa com isso, mas partir para a pancadaria assim que as coisas parecem começar a ficar mal paradas. É a consequência da política do "concordem connosco ou morram" que no seu fulcro não se diferencia em nada da do seu "querido" ditador Sadam Hussein, ou dos proto-ditadores que vão aparecendo no pós-Saddam, do Chalabi a uma infinidade de sheiks e imans.
Não vai haver democracia nenhuma no Iraque. Nem agora nem nos próximos anos. Não há a mais pequena dúvida quanto a isso. A única dúvida que resta será quem irá controlar o país daqui a um ano.
Se eu tivesse de pôr dinheiro num cenário, iria apostar nos fundamentalistas. Ou noutro cenário pior ainda, se existir.
Ó Peixoto, esse seu comentário parece mais ter sido escrito no dia 12 de Abril de 2003 do que hoje. Um ano passado, e nem com os dados que hoje se conhecem, e você continua a dizer o mesmo: as democracias podem instalar-se à bomba e sem nenhum plano para o cenário pós queda do ditador. Mas, que digo eu, o que é preciso é fé. Muita fé.
Afixado por: Pedro Sales em abril 12, 2004 09:35 PMmas será que o papel do,jornalismo e principalmente o escrito não deve investigar, mais do que ter os olhos nas televisões?
Afinal qual é a personalidade de um JORNAL? INVESTIGAR MUITO POUCO. E SABER QUE AS NOTÍCIAS POSITIVAS SÃO as dadas pelos TELEFONEMAS DOS ACESSORES DOS PR DAS CÂMARAS.
Fazer cobertura não é mais que uma excurção colectiva, tipo inquérito de rua.
Já agora, já nos esquecemos de voltar ao Afganistão, ou á Bósnia vermos o resulado prometido pelos inflamados discursos políticos.
"Não vai haver democracia nenhuma no Iraque. Nem agora nem nos próximos anos. Não há a mais pequena dúvida quanto a isso. A única dúvida que resta será quem irá controlar o país daqui a um ano.
Se eu tivesse de pôr dinheiro num cenário, iria apostar nos fundamentalistas. Ou noutro cenário pior ainda, se existir."
Não podia estar mais de acordo consigo caro "Jorge".
Caro Peixoto se eu quiser concordar com a sua argumentação terei de concordar também com um papel intervencionista do Estado, que quer o nosso bem, e sabe melhor do que nós o que é que é bom para nós. Se eu não admito isso ao Estado português face à minha vida, como posso admiti-lo ao Ocidente face ao Iraque? Seria admitir que o Ocidente é uma entidade bondosa que sabe melhor do que os iraquianos o que é bom para os iraquianos... só que quem decide são os iraquianos... isto de política internacional reconheço é areia de mais para a minha camioneta... porque se seguir este raciocinio também não fazem sentido algumas campanhas como a que está contra a lapidação da senhora nigeriana... também somos nós ocidentais a impor o nosso modelo de valores... tenho de manter bola baixa nestes assuntos porque só me enredo em contradições... mas se calhar também é porque a política internacional é um mundo de oportunismos nacionalistas e nada tem de ter de lógico ou racional.
Olá! Eu sou fascista reaccionário:
http://www.economica.blogger.com.br/besq.jpg
Afixado por: anti-comuna em abril 12, 2004 10:39 PMÓ diógenes, eu não sou "Jorge". Sou Jorge, mesmo.
Nada frustra mais o brigão do que o encolher de ombros e o virar de costas. Na construção da rede que tem sido proposta basilar deste blogue é forçoso respeitar regras - pelo menos um pacto de não agressão, um compromisso de civilidade e respeito recíprocos que são pressuposto dessa coexistência e convergência de sensibilidades diversas.
E quando alguém ostensivamente quebra essa convenção tácita, direis vós?
Por mim, respondo claramente: eu nessa não caio. Se alguém, por propósito deliberado ou por tendência irreprimível, tentar desviar-me do caminho arrastando-me para combates estéreis, duelos ridículos, esbanjamento de tempo e de energia, por meio de desafios abertos ou velados, encontrará apenas indiferença - e nenhuma resposta. A disponibilidade para falar com todos não significa disposição para desconversar.
Sei muito bem o que quero e para onde vou. Não serão outros a ditar-me a agenda - e a estragar-me o trabalho.
Retirar agora será um desastre. Mas, entenda-se, o agressor terá que assumir responsabilidades, pagar a reconstrução, assegurar o custo da segurança. E devem demitir-se os que no Ocidente provocaram esta guerra, assumindo-se responsabilidades.
Há no Iraque uma maioria interessada numa sociedade laica, nacional, pacífica, e democrática (seja lá isso o que for), provam-no os resultados eleitorais já realizados em assembleias locais. Sempre houve, essa é a tradição do país desde os anos 40/50 (apesar do regime de Saddam, entre 1979 e 2003). Desmantelar o partido Baas, dissolver a administração pública, e abolir as forças armadas, trocando-as por milícias de radicais xiitas, reduziu as esperanças nessas forças. Agora, é mais difícil.
Retirar assim levará a um resultado igual ao que teve a saída do exército soviético do Afeganistão. Aos talibans, e às milícias tribais, aos caciques armados, silenciando uma população que durante décadas soube evitar regimes religiosos. Até que o Ocidente entendeu que preferia os regimes religiosos.
Não vale a pena estarmos aqui a cagar postas de pescada, porque os gajos saiem quando tiverem que sair. O que tem que ser tem muita força... mudemosde assunto, o Porto já é campeão ?
Afixado por: Reaça em abril 13, 2004 02:02 AMEu estive de acordo com a intervenção. Não que os americanos (com ou sem Bush) me dessem muita confiança, mas acreditei no bom senso dos ingleses.
Agora tenho que dar a mão à palmatória: se o Iraque não constituia um perigo para nós, então mais valia ter deixado tudo como estava ... e que se matassem uns aos outros.
Neste momento, não estou a ver qual a solução.
1)Sair agora, é um crime.
2)A ONU ? mas onde, quando e onde é que a ONU resolveu alguma coisa ?
3)Mandar para lá mais tropa, também não vai resolver nada.
Eu também não suportaria que outros - quaisquer que eles fossem - invadissem Portugal para nos salvar de quaquer ditadura, fascista ou comunista, tanto faz.
Deixar a solução na mão dos Iraquianos ? Mas quais ? eles próprios não se entendem !
Talvez o melhor fosse mesmo devolver-lhes o Saddam.
A minha aposta é que aquilo se vai mesmo tornar num Irão, dominado pelos xiitas. Mas se eles gostarem ...
Afixado por: Isabel Coutinho em abril 13, 2004 05:43 PM