abril 02, 2005

Negócio fechado

«Quanto à cruzada mais recente contra os crucifixos nas escolas, nada tenho a opor, desde que os mesmos não tenham valor artístico. Mas em termos de qualidade de ensino não esperaria milagres, afinal há muito que os colégios religiosos estão entre os melhores no secundário. E em alternativa a Associação República e Laicidade podia sempre pensar em propor algo de positivo, por exemplo, imagens de ilustres ateus a par das cruzes.»

Eu teria para aí uns quinze anos quando uma manhã entrei no Conselho Directivo da minha Escola Secundária pública (a Luísa de Gusmão, à Penha de França) e reclamei por termos forçosamente de passar em frente a uma estatueta de Nossa Senhora ao ir para as aulas. Disse que isto evidentemente era ilegal e anti-pedagógico não só do ponto de vista da neutralidade que a escola pública deve guardar em relação às crenças religiosas ou não-religiosas dos seus alunos mas também do ponto de vista da igualdade de tratamento entre eles. Perguntaram-me o que propunha que se fizesse e eu disse que havia duas soluções evidentes:

– Prioridade à neutralidade: a estatueta seria retirada.
– Prioridade à igualdade: outros alunos poderiam propôr outras imagens, a ser colocadas no mesmo local, à mesma altura e com o mesmo destaque da estatueta.

A resposta foi "nem pensar, "porquê?", "porque não", "mas porquê?", "porque nem pensar". Apesar de toda a vitimização bem ensaiada do cristianismo, o cidadão não-religioso, ateu ou agnóstico já é naturalmente tratado como cidadão de segunda em Portugal.

Daí que não possa deixar de concordar com a proposta do Bruno Cardoso Reis que reproduzi aqui acima. E digo mais: os católicos deste país que escolham. Se optarem pela neutralidade, teremos as nossas escolas públicas limpas de símbolos religiosos. Se optarem pela igualdade teremos prateleiras pejadas de iemanjás, sousas martins, ganeshes, voltaires e espinosas, com um sagrado coração de jesus lá pelo meio. Eu durmo descansado com qualquer das soluções, e creio que a Associação República e Laicidade – que faz um trabalho corajoso e difícil no nosso país – também.

Quanto aos colégios privados religiosos, farão o que muito bem entenderem. São de facto óptimos para conseguir criar oito ateus em cada dez alunos. Se não fosse pela alta probabilidade de os restantes dois acabarem a precisar de psicoterapia intensiva, eu não deixaria de inscrever os meus filhos num.

Publicado por ruitavares em
Comentários

disso não haja dúvidas! nada como um bom colégio católico para eliminar todos e quaisquer resquícios de fé! se serão 8 em cada 10 os 'desenvagelizados', disso já não estou tão certo..mas posso avançar uma dica em primeira mão: meter o puto na catequese aumenta consideravelmente as probabilidades de sucesso! comigo resultou, plo menos..

Afixado por: apolo em abril 2, 2005 02:34 AM

o raio da palavra saiu-me mal..onde está 'desenvagelizar' ler 'desevangelizar'! obviamente..

Afixado por: apolo em abril 2, 2005 02:36 AM

'tá difícil..bem, o que está escrito (mal!) é 'desenvagelizados', não 'desenvagelizar'..daí que a correcção é, logicamente, para 'desevangelizados'..e pronto, nunca mais escrevo esta treta!!

Afixado por: apolo em abril 2, 2005 02:41 AM

Você dá mau nome ao ateísmo.
Deixe lá a merda da estátua em paz. E os crucifixos.
Alguém o intimidou quando trajava a t-shirt do São Guevara?

Afixado por: caznocrat em abril 2, 2005 03:10 AM

Caznocrat: se quer mesmo saber, nunca usei qualquer t-shirt de Che Guevara porque não tenho hábito de dar publicidade a assassinos.

De resto, a sua comparação não é válida

Afixado por: rui tavares em abril 2, 2005 03:24 AM

Não há símbolo que não dê amuleto, maxime quanto mais dele se abusar.

E glória aos nossos antigos que prestavam culto ao Sol à Àgua e às árvores do caminho, que é que às vezes faltam e com um pouco de sorte não nos hão-se fazer mal

Agora cruzes, amuletos, corações... cada um use-os onde quer da forma e para o que quiser

Amen

Afixado por: Amen em abril 2, 2005 04:04 AM

caznocrat:

Às instituições do estado pede-se que reflictam o seu ideal laico. Aos cidadãos pede-se que tenham a liberdade de exprimir os seus ideias políticos e/ou religiosos.

Mas, como disse, é uma questão de tolerância:

-Demonstra tolerância (ou, no mínimo, preocupação com esta) achar que uma religião não deve ser imposta, na escola pública, aos cidadãos. Tolerância pelas opções religiosas individuais de todos os que têm direito a ir à escola, e cujo direito a uma educação laica é salvaguardado pela constituição.

-Da mesma forma, demonstra tolerância defender que o cidadão deve ser livre de expressar os seus ideias políticos e religiosos, usando, por exemplo um broche com a imagem da nossa senhora de fátima, um turbante, um crucifixo ao pescoço ou uma t-shirt do são che.

Porque sinal de tolerância é não impôr as nossas convicções aos outros, mas ser livre de demonstrá-las.

Afixado por: João em abril 2, 2005 06:34 AM

em relação as probabilidades não me vou pronunciar, pois nunca fui a catequese, nunca andei num colegio privado religioso e muito menos andei com uma tshirt do che...
nunca ninguem me tentou impor, pois é essa a palavra, um pensamento determinado sem eu atingir uma idade (maturidade) em que começasse a pensar por mim... vai contra os meus principios... liberdade de opiniao (desde que com pés e cabeça) de escolha e pensamento.

isto faz parte do meu pensamento, que como anti autoritario que sou, não tenho o direito nem os outros me podem introduzir numa instituição tendenciosa por principio.

mais uma vez sou obrigado a bater na mesma tecla, a esquerda não é toda igual...

Afixado por: oscar pinto em abril 2, 2005 07:31 AM

Rui, caso seja possível solicito-lhe um endereço email a enviar para o meu. assunto. crucifixos nasd escolas públicas. obrigado.

Afixado por: pintoribeiro em abril 2, 2005 09:05 AM

Você, já com 15 anos prometia...
(é do clube de um outro da nossa praça, que aos 12 já elaborava constituições)

Afixado por: portugal_liberal em abril 2, 2005 09:23 AM

Excelente.
Todos devem tomar consciência que a escola pública é um local de formação intelectual que não deverá ser usada por qualquer confissão. Para isso existem os templos e aí deverá existir toda a liberdade para as imagens, rezas e tudo o resto.
Louvo a iniciativa da Associação República e Laicidade e compreendo a reacção de quem está a perder mercado, no ramo das almas.

Já agora, nem todas as escolas particulares são católicas, nem todas as escolas católicas estão nos primeiros lugares no "ranking" nacional das melhores. Por outro lado, os alunos das escolas particulares não se debatem com uma série de problemas, sejam eles sociais, escolares, materiais, etc. Quando acima foi referido o sucesso das escolas privadas, alto aí, calma, não é bem assim.

Afixado por: Frei Tomás em abril 2, 2005 11:34 AM

Este post foi comentado no meu blogue:
http://esquerda-republicana.blogspot.com/
(Acho que não há espaço que chegue para os símbolos todos...)

Afixado por: Ricardo Alves em abril 2, 2005 12:27 PM

Ò Tavares Rico, vc tem o nariz empinado desde pequenininho, empinado e espetado que nem o Pinóquio.
Devia ser um puto reguila para aos 15 aninhos já entrar no CD e protestar daquela maneira.
No meu tempo os putos reguilas davam em boas pessoas e os sonsinhos em pessoas pouco fiáveis.
Pelos vistos ainda não amadureceu.
Dè tempo ao tempo.
Não se precipite em soluções , nem dogmaticas nem alternativas.


Afixado por: maneldomoinho em abril 2, 2005 12:55 PM

Qual neutralidade ? O que se tem assistido neste país é que educações alternativas (das quais se incluem as de inspiração católica) só estão ao alcance das populações mais abastadas. A plebe, por falta de meios, tem que se submeter à educação laica imposta nos estabelecimentos públicos, mesmo que não o queira. Chama a isto de neutralidade? Eu chamo-lhe de cinismo prepotente.

Depois, só pelo facto de aqui se admitir que os estudantes são tão laicos dentro das escolas católicas quanto o geral da sociedade estudantil, só diz por si muito sobre tolerância interna que se encontra dentro dos meios católicos. Tolerância essa que não tem paralelo nos meios laico/republicanos ainda com os trejeitos de Afonso Costa.

Afixado por: Agualuza em abril 2, 2005 02:18 PM

Fui educado 3 anos num colégio católico (o Externato da Luz, ao Largo da Luz, em Lisboa), e chegou-me. Já tendia para o ateísmo antes de lá entrar, quando de lá saí estava convertido de vez.

Afixado por: Luís Lavoura em abril 2, 2005 03:14 PM

Na minha escola primária tinhamos o cruxifixo,dominador e omnipresente, bem em cima na parede fria, avé marias todos os dias às 9 em ponto, santinhas e nossas senhoras em tudo o que era desenho, catequese à tarde com os srs. padres do seminário vestidos de preto.

Resultado: um ateu convicto uns anitos mais tarde.

Quanto a símbolos nas escolas, que tal o emblema do Glorioso? Tá bem que nem toda a população iria concordar. Mas 6 milhões de portugueses sempre são 6 milhões de portugueses...

Afixado por: Fernando Isidoro em abril 2, 2005 04:24 PM

"Quanto aos colégios privados religiosos, farão o que muito bem entenderem. São de facto óptimos para conseguir criar oito ateus em cada dez alunos. Se não fosse pela alta probabilidade de os restantes dois acabarem a precisar de psicoterapia intensiva, eu não deixaria de inscrever os meus filhos num."

Pena. Uma opinião tão bem fundamentada e escrita, quase eu a pensar "estes gajos começaram a pensar direito e a dizer coisas com jeito", para logo depois caírem outra vez na esparrela da inveja.

Acho que a ideia em si tem lógica e cabimento, daquilo que me é proposto a seguir. Acho também ridícula a postura "os privados que façam o que bem entenderem com os seus", escarnando dos alunos que os frequentam, revelando duas coisas.

A primeira, o vosso completo desinteresse pelas pessoas. A cada um a sua vida, não quero nada saber disso. Individualismos exacerbados em conjunto com um corporativismo à portuguesa, explosiva combinação, final da democracia sem dúvida. É uma filosofia da morte, do desencontro. Não subscrevo.

A segunda, um escárnio esconde sempre uma inveja contida. Suspeito de não só uma maior qualidade profissional de tais escolas, mas também da sua humanidade, paradoxalmente ligada a uma crença dita obsoleta e ultrapassada. "Superstições". Este paradoxo cria-vos uma sensação estranha de incompreensão do objecto em questão. A reacção que vos conheço, escárnio. Gozo.

A verdadeira vida e conhecimento está em abrir a mão, e não em fechá-la como se tivessem o conhecimento dentro dela. Lembrem-se de Sócrates. Fazia-vos bem alguma humildade. E alguma experiência sobre estes casos também.

Afixado por: Luís Dias em abril 2, 2005 04:27 PM

Ó Rui, então entramos em damagogias de centro liberal? O Che Guevara assassino? Para depois deizer que o Pinochet também foi? Ou pior ainda, por convicção? Como se a violência revolucionária de esquerda fosse assassinato. Olha, suspender o quadro legal demo-liberal, que suponho que seja a tua posição- defesa do estado de direito, dos direitos humanos, etc.- não é necessariamente mau, pode até ser bom, se for de esquerda. A não ser que aches que a revolução Cubana foi uma coisa má. Ou talvez aches que devia ter sido uma revolução light, sem execução daqueles que a punham em causa? Esquerda e direita não são a mesma coisa, e enquanto a verdadeira violência de esquerda se justifica pelos propósitos universalistas que a animam, já a de direita mais não é do que sangue vertido em nome de particularismos exclusivistas- a raça, a nação,etc.
Fica bem.

Afixado por: Bruno Peixe em abril 2, 2005 07:00 PM

Mais estranho do que ainda existirem escolas com crucifixos nas paredes, é existirem escolas públicas (de ensino básico) onde padres podem ser professores.

Afixado por: Susana Nunes em abril 2, 2005 07:15 PM

Bruno Peixe,então acha que as execuções da Esquerda são necessárias "pelos propósitos universalistas que a animam"? Ou está a gozar, ou então é mais um dos orfãos de Mao, Hoxha, Estaline e outras aberrações. Quando vir uma opinião sua aqui, não me vou esquecer que se trata de alguém que defende a violência e ao assassinato para impôr pontos de vista políticos. Um adepto da tirania, portanto.E que merece todo o desprezo.

Afixado por: João Pedro em abril 3, 2005 05:31 PM

Calma, João Pedro. Não se trata de defender a violência e muito menos o assassinato para impôr ideias políticas. Esse é o tipo de terror em que de facto degeneraram projectos inicialmente emancipatórios como a Revolução Francesa e o Comunismo Soviètico. Nada disso. Trata-se apenas de afirmar a legitimidade da violência quando está em causa a continuidade de um projecto revolucionário igualitário. A violência só pode ser um meio, não um fim em si mesmo, como na estetização fascista da guerra.

Afixado por: Bruno Peixe em abril 3, 2005 05:47 PM

Senhor Bruno Peixe, a violência NUNCA pode ser um meio. É graças a senhores como você que guerras como a do Iraque existem. É graças a você que o mundo está SEMPRE em guerra.

A sua mulher não fez algo que devia ter feito. O seu filho arreliou-o. Que meios utiliza?

Arre que gente...

Afixado por: Luis Dias em abril 3, 2005 11:03 PM

é tão óbvio...a comparação é tudo menos válida, uma coisa é uma pessoa vestir usar uma roupa um brinco uma t-shirt uma porra qualquer,com os desenhos e letras e bem entender,ngm tem nada a ver com isso, outra coisa é obviamente haver numa escola pública onde deve reinar a igualadade,o facto de se espetar uma estatueta cristã para todos verem. digamos q,é o cartão d visita duma escola,é uma imagem,d uma religião,é mau de mais.uma coisa é a liberdad d cada um,outra é impingir o visionamento dum simbolo católico numa instituição publica. como é possivel alguém não perceber esta diferença?...

Afixado por: igor grave em abril 10, 2005 02:44 PM