abril 02, 2005

Murais e Morais ou República e Laicidade 2

Caros Rui e Ricardo Alves, e ilustres comentadores

Não conhecia essa estatística sobre os frequentadores de colégios religiosos. Mas a ser verdade, é mais uma prova de que os argumentos jacobinos que levaram à proibição e fecho de todas as instituições de ensino religiosa em 1911, inclusive dos seminários, não faziam sentido.

O argumento artístico a “favor dos crucifixos” não é novo, nem é católico. Data pelo menos da Revolução Francesa, quando o pintor David e alguns outros jacobinos corajosos se opuseram à destruição de igrejas ou ao seu uso para paióis, fábricas ou cavalariças, precisamente com o argumento do valor artístico. Não estou a falar de crucifixos feito em massa, mas de coisas de mais monta. Murais e por aí adiante. E por falar em murais. Qual é a vossa posição, e já agora da Associação República e Laicidade, a respeito do mural do MRPP no átrio da Faculdade de Direito de Lisboa? É para limpar em nome da neutralidade do Estado, ou será que se for propaganda política pode ficar, não viola a neutralidade do ensino público? Por mim deixava ficar, por causa do valor artístico e sobretudo histórico. E nem era preciso colocar uns santinhos à volta para compor o ramalhete. Mas na universidade suponho que já podemos pressupor que os alunos trazem alguma independência de espírito de casa.

O facto de a maioria das igrejas serem edifícios públicos veio à baila a este propósito. Suponho que ninguém defenda que se aplique aí a doutrina laicista no seu sentido mais estrito, o que resultaria na sua demolição. Pelo menos para isso, felizmente há concordata... A confiscação de todos os bens da Igreja Católica – inclusive todo os bens imóveis – por Afonso Costa em 1911 é um facto histórico. Como o é, por exemplo, a condenação sem julgamento de todos os membros de ordens religiosos ao exílio perpétuo se não abdicassem desse estatuto. No século XIX, como aliás antes, muitas igrejas foram feitas substancial ou integralmente com doações privadas. Mais, a prestação de serviços religiosas fazia parte do papel de todos os monarcas até ao período contemporâneo, as pessoas esperavam isso do Estado.

Mas sim, caro Rui, como falámos, acharia bem interessante e pedagógico que houvesse uma zona da escola onde os alunos pudessem colocar os seus variados ícones. Compro! Como acharia bem que a Associação República e Laicidade promovesse cursos livres em livre-pensamento nas escolas públicas. Eu não sou a favor do Estado mínimo, e acho que na medida do possível os fundos públicos devem servir para apoiar as iniciativas da sociedade civil. Com uma preocupação de equidade claro. Isso é aliás eficiente, traz sinergias que permitem com pouco dinheiro público fazer mais do que seria possível de outra forma. O Estado ajuda a construir igrejas e outros templos, para não falar de todo o tipo de obras de assistência social por grupos religiosos? Faz muito bem. Como faz bem quando ajuda outras actividades culturais como a ópera ou o teatro com um público bem mais restrito...

A única coisa confusa no meu argumento sobre o Padre Lereno é que pelos vistos se invoca uma violação da lei eleitoral e não da constituição como inicialmente referi e corrigiu o atento comentador Caznocrat. Mas isso não altera o essencial: não se pode discriminar contra cidadãos na tomada de posições políticas ou mesmo partidárias por serem sacerdotes de qualquer religião. Confusa é a posição da Associação República e Laicidade que defende uma interpretação altamente restritiva da separação entre o Estado e as Igrejas, mas depois se socorre de uma lei que equipara os sacerdotes aos detentores de poder público ou aos funcionários do Estado! Isso nem o Rui nem o Ricardo comentam. A única forma da lei fazer algum sentido era proibir todos os dirigentes de pessoas colectivas ou funcionários das mesmas de fazerem declarações que pudessem constituir um apelo ao voto. O que seria manifestamente insensato e inaplicável.

Os velhinhos vão-se deixar levar pelo padre? É um argumento muito fraquinho. E os velhinhos do PCP deixam-se levar pelos sindicalistas? Mesmo que seja verdade, cada um tem o direito de se deixar levar por quem entender. É essa a essência de uma democracia liberal! E já agora, o que é que são posições políticas? Quem é que define o que é a política? O aborto é política? Que óptima definição de liberdade religiosa a de deixar quem quiser rezar fechadinho no seu quarto ou num local de culto qualquer, mas que não venham incomodar ninguém cá para fora com as suas convicções! Que generosidade! Claro que a ironia, para um erasmiano como eu, é que estes padres conservadores são bem capazes de, dentro da Igreja Católico, serem activos polícias da consciência... Mas isso são outras conversas.

Finalmente, caro Rui, a Associação República e Laicidade é corajosa porquê? Legítima é com certeza, e enriquecedora do debate sobre estas questões. Mas há algum risco de perseguição de ateus ou agnósticos em Portugal? Ou será que só quando não tiver oposição é que o livre-pensamento se considera livre? Algum comentador, caro Rui, considerou, como me sucedeu a mim, que o teu poste era “justa causa de despedimento” do Barnabé? Ainda outro comentador num poste anterior dizia-se perseguido pela propaganda religiosa porta-a-porta. Esse tipo de “perseguição” admito que exista. É um dos incómodos de um regime democrático.

Publicado por bruno cardoso reis em
Comentários

1) Um dos argumentos «jacobinos» para fechar os colégios católicos em 1910 foi o rapto de uma jovem menor de idade, enfiada num convento por padres. Chamava-se Rosa Calvon. Houve outros casos semelhantes.
2) Estou convencido de que a frequência da Universidade não é obrigatória, mas posso estar enganado.
3) Até 1910, a Igreja não estava separada do Estado. Portanto, os padres eram funcionários públicos. Afonso Costa «civilizou-os», literalmente. Um caso de menos Estado e melhor Estado.
4) As ordens religiosas tinham entrado em Portugal ilegalmente.
5) Porque será que o Bruno Reis não fala dessas outras malfeitorias de Afonso Costa que foram a lei do divórcio e a lei do registo civil?
6) «No século XIX, como aliás antes, muitas igrejas foram feitas substancial ou integralmente com doações privadas. Mais, a prestação de serviços religiosas fazia parte do papel de todos os monarcas até ao período contemporâneo, as pessoas esperavam isso do Estado.» Hm. Em que ficamos?
7) Claro que não há ateus perseguidos em Portugal. Aliás, as crianças que não frequentam a «religião e moral» são tratadas com o máximo respeito pelos professores desta disciplina, que recomendam sempre aos meninos católicos que nunca discriminem um ateu. Não é assim? É justamente por isso que não há uma única escola em Portugal onde a comunhão pascal faça parte das actividades lectivas...

Afixado por: Ricardo Alves em abril 2, 2005 05:57 PM

Uma ideia a pensar: em vez de retirar os crucifixos, complementá-los com umalegenda educativa.
Exemplo:
"Crucifixo (fábrica de...). Data. Colocado nesta e em todas as escolas do Estado, no tempo do Estado Novo, em que a Igreja Católica deteve privilégios em Portugal e o analfabetismo era considerado virtude pelo Governo. Também mandado nas instalações militares, nos tribunais e nas prisões, incluindo as políticas" (De certeza que ha´ normativos legais a referir, estabelecendo estas coisas, com datas, nomes de responsáveis, e até se calhar verbas dispendidas, convertíveis em dias de trabalho de um agricultor, por exemplo, ou de um sapateiro).

Recordo que há muitos cristãos que não são católicos, e mesmo cristãos que não reconhecem o crucifixo como símbolo (sabiam?). E que a luta pela liberdade de culto e pela liberdade de ensino não foi iniciada em Portugal pela Igreja Católica...
Aqui não se trata essencialmente de crenças, mas de representação de Poder Temporal de uma Instituição - a Igreja Católica, sustentada na Fé, na Revelação e nos seus dogmas - e de uma limitação de um outro Poder, o da República, baseado no voto democrático dos cidadãos, durante um período historicamente determinado. Símbolo é coisa séria, Liberdade também, Conhecimento ainda mais. Julgar? Julga quem lê e entende - 8 em cada 10, 1 em cada 100, sempre haverá quem pense por si...

Afixado por: Bicho em abril 2, 2005 06:24 PM

Bruno Reis acho que há um certo simplismo histórico da sua parte na analise das relações da Republica com a Igreja Católica.

Lembre-se que na luta entre Pedro de Alcantara e Brangança e Miguel de Marialva 100 anos antes o papel da Igreja na luta contra o liberalismo, e que levou á extinção das ordens religiosas.

Lembre-se que se a Republica teve alguns laivos de anti-clericalismo a Igreja foi sempre FEROZMENTE anti-republicana e conspirou sempre contra ela, é nesse contexto que surge Fátima.

Sobre o Padre Lereno o que se pode dizer, é se se deve utilizar o pulpito para fazer propaganda nitidamente partidária, mas depois de ter-mos visto a defesa da guerra colonial o apoio á ditadura de Salazar, o papel que teve neste país essa figura sinistra esse odre de corrupção chamado Cerejeira qual é a admiração de haverem filhotes do MONSTRO.

Afixado por: a.pacheco em abril 2, 2005 06:40 PM