[Desde há tempos que estou a dever um texto aos fiéis barnabitas sobre os planos de Norman Foster para o quarteirão da Bela Vista. Aproveito o balanço e falo também, não num texto mas em dois, das "torres de Alcântara" de Siza Vieira e da hipótese de referendo sobre ambas. É um bocado grande mas há coisas que ou se discutem com detalhe ou ficam mal discutidas.]
Ao permitirmos a construção de torres em Alcântara ou na Bela Vista, ainda que assinadas por arquitectos de renome, não estaremos a abrir uma caixa de Pandora? Alguns arquitectos queixam-se de discriminação. Se Siza Vieira e Norman Foster podem construir torres, porque é que outros não o podem fazer?
É comum haver dois tipos de respostas a esta pergunta.
A primeira é manter o tabu da construção em altura, independentemente da qualidade dos projectos em apreço hoje em dia. Dizem os adeptos desta posição, e com muita razão, que a história recente de Lisboa nos tem de deixar num estado de desconfiança permanente. Que o interesse particular destes ou de outros projectos, se é que ele existe, não nos pode fazer baixar a guarda e admitir o precedente. A pressão económica do imobiliário fará com que a seguir a estas torres venham outras, e depois outras ainda. Se muitos arquitectos se queixam já de discriminação, podemos dar por garantido que as torres que se seguirão a estas torres serão cada vez mais banais, feias, desinteressantes. A seguir a Norman Foster ou Siza Vieira a porta ficará aberta, e daí para a frente será sempre a subir em altura e a descer em qualidade.
Outra resposta será dizer que a arte não é democrática. Que temos de reconhecer que o talento não se encontra igualmente distribuído e que devemos agir em conformidade, abrindo excepções para projectos excepcionais. Caso contrário arriscamo-nos a ter uma cidade banal. Como teria sido ridículo ter proibido Brunelleschi de fazer a Catedral de Florença como ele a quis, com a sua cúpula ultrapassando em muitas vezes a altura dos edifícios da cidade. E não houve também muita gente que se opôs à construção da Torre Eiffel? Como teria sido estúpido deixá-los ganhar essa batalha [por acaso discordo, porque acho que nem daqui a 500 anos a torre Eiffel deixará de ser uma coisa abominável]. Quanto aos restantes arquitectos que queiram construir em altura, fecha-se-lhes a porta, como se fez na Paris pós-Eiffel e na Florença pós-Brunelleschi. Será anti-democrático, mas é melhor assim.
Podemos chamar à primeira posição comunitarismo ético e à segunda elitismo estético. É justo dizer que cada uma delas tem inúmeras sub-posições que não se encontram aqui contempladas. Nenhuma das posições está errada: devemos ser éticos em comunidade, e talvez em nenhum campo que não na estética seja possível ser-se elitista sem causar dano a ninguém.
Nem uma nem outra, contudo, são satisfatórias quando se fala de arquitectura. É verdade que o talento não se encontra uniformemente distribuído. Mas o argumento é um non sequitur por muitas razões. Desde logo, porque a apreciação do talento tão-pouco é consensual. Nem toda a gente gosta de Siza Vieira. Mas mais importante do que isso, porque a arquitectura não é uma arte qualquer. Podemos sempre escolher não ouvir um compositor que nos desagrada ou fechar um livro a meio. Se as torres forem feitas, isso não vai ser possível. Ali vão estar elas, todos os dias, à vista dos que as adoram e dos que as abominam. A arquitectura interfere de forma decisiva com a cidade, que é (para mim) o mais nobre de entre todos os terrenos da política. Não podemos encolher os ombros como se ela não tivesse nada a ver com política.
Podemos afastar desde já um falso argumento. É evidente que devemos exigir democracia na construção da cidade. Mas essa democracia não é "democracia" para com os construtores ou arquitectos que não participam nos actuais projectos de torres. Pode ser muito chato não sentir igualdade de oportunidades entre arquitectos. Mas é muito chato ter uma cidade esquizofrénica só para respeitar essa suposta igualdade de oportunidades. A democracia de que necessitamos mais do que tudo é democracia para connosco em geral, todos os habitantes da cidade de Lisboa. Somos nós que temos de decidir.
Em Portugal existe uma desconfiança profunda em relação aos referendos. À esquerda e à direita enumeram-se, numa desproporcionalidade gritante, os defeitos que eles têm. Esse nunca foi o meu problema. Acho que os referendos têm mais vantagens do que desvantagens (e note-se que em Portugal nunca "ganhei" nenhum) e que os seus defeitos tendem a diminuir com a prática deles. E não vejo razão para não os aplicar mais na política local. As populações podem, em muitos casos, dar mais garantias de saber proteger as suas cidades do que a lei – e mesmo que assim não fosse quem deve decidir são eles.
Ao propôr um referendo para as torres, Santana Lopes removeu um obstáculo ético essencial. Do meu ponto de vista, o essencial agora é garantir duas coisas: que o Presidente da CML ponha no calendário essa ideia e que garante que o(s) referendo(s) se realizarão mesmo em boas condições de divulgação, liberdade, e justiça. E, em segundo lugar, garantir que o verdadeiro precedente a abrir seja – não o da construção em altura – mas o da realização de referendos quando obras de vulto estiverem em causa. São dois grandes "ses", para mais num político escorregadio como Santana Lopes. Mas deve constituir-se uma corrente de opinião que diga que, sem eles, nada feito.
***
Aproveito para dizer que, pela lógica dos referendos em Portugal, a resposta será provavelmente não. Pouco habituados a ter de decidir sozinhos, os cidadãos têm optado para deixar tudo na mesma. Por outro lado, quem for contra as torres vai votar de certeza; quem for a favor já não sei.
Eu, num referendo, votarei a favor dos dois projectos. Num próximo texto explicarei porquê.
Publicado por ruitavares em | TrackBackbom, se fôssemos por aí não existiriam grandes obras arquitectónicas como o guggenheim de Frank Lloyy Wright em Nova Iorque só porque os artistas achavam que não ia dar para expor os seus trabalhos convenientemente ou porque os cidadãos e os críticos de arte achavam que era inestético. Não tinhamos também a ponte da Arrábida, falando de um objecto que é mais conhecido, da autoria de engenheiro Edgar Cardoso que, ainda hoje, muitos esperam que caia..
Enfim, poderia ficar aqui a citar exemplos que nunca mais acabariam.
O que é importante ver é que, por norma, o cidadão normal odeia tudo o que é novo e que vem desestabilizar a sua querida cidade. Mesmo sem pensar, a sua primeira reacção é dizer que não.
Aliás, é por causa destes preonceitos que depois se cai no erro de fazer edifícios novos a imitar os antigos para "melhor se enquadrarem". O resultado, obviamente, são edifícios incaracterísticos que tentam ser o que definitivamente não são, acabando por resultar num objecto sem personalidade...
O que é novo tem que se afirmar como tal, e o que é antigo tem que se respeitar mas não tem que se copiar nem fazer uma vénia ininterrupta... Os velhos do restelo erguem-se sempre, mas poucas vezes têm razão...
Construir em altura, principalmente naquela zona, só tem consequências positivas e consegue dar um aproveitamento muitíssimo maior ao espaço do que seria conseguido com a construção típica, meia revivalista meia moderna que acaba por não ser nada... Já era altura de se perceber que a construção em altura, se for bem pensada e estruturada só tem vantagens e que eu saiba a proposta não é propriamente para pôr um arranha céus no meio do terreiro do paço... sejamos realistas e acima de tudo, deixemo-nos de preconceitos, e, sobretudo, avancemos, avancemos, avancemos!, temos que evoluir, as maioria dos portugueses tem mentalidades demasiadamente fechadas e não está minimamente aberto a novas mudanças, é urgente modificar essa situação, e só se pode mudar se se fizer alguma coisa, não é rejeitando tudo o que aparece de novo apenas porque é novo e o que é novo é mau...
MAL GIBSON
“Quem nasceu para Mel Gibson nunca chega a Glauber Rocha”
Joaquim José de Andrade Neto
Sexta-feira santa. Os shoppings centers comemoram uma nova etapa da globalização: todos abertos. Nas salas de cinema destes enormes centros de convivência cujo objetivo principal é o consumo, em cartaz o “polêmico” filme de Mel Gibson. Na condição de observador da natureza e em caráter de estudo sociológico cometi a liberalidade de me dirigir a um destes locais. Raras vezes assisto a filmes, pois, por convicção estudada, sei que quanto mais a mídia incensa e quanto maior o número de oscars recebidos mais ordinárias são as obras. E eis que constato nesta aterrorizante viagem uma das maiores propagandas subliminares da História.
O infeliz – vade retro mencionado - pseudodiretor de cinema, é considerado, pelos jornalistas internacionais remunerados por Íblis, um católico conservador. No entanto, pelo que tudo indica, não passa de um reles secretário do diabo, mesmo porque soltou, de forma maquiavélica, o maior balão de ensaio de todos os tempos. Tudo com apoio do clero, de rabinos (estes com uma aparente reação raivosa) e até de laicos, os quais divulgaram pelo mundo inteiro que consideraram sua película recém-lançada “anti-semita”. Todos, porém, na realidade, dando um show em termos de dissimulação e cara-durismo capaz de fazer de palhaços milhões de pessoas e roubando das mesmas, somente na primeira semana de exibição nos EUA, mais de 400 milhões de dólares! Isto porque todos os incautos que pagaram os suados R$13,00 de ingresso ainda não haviam até então alcançado a tão almejada clareza de noção capaz de os fazer concluir, após assistir o Mal de Gibson, que a “arte” nunca chegou a um nível tão baixo!
Vejamos:
Depois de aguardar aproximadamente uma hora numa fila, você, amado leitor, poderá adentrar um daqueles milhares de recintos que, de 13 em 13 reais, com certeza, já embolsaram dos ingênuos cinéfilos a surpreendente soma de um bilhão de dólares! Deparamo-nos então, com aqueles senhores, senhoras e senhoritas, que abraçados a enormes sacos de pipocas, sentam-se para assistir ao filme e que, mesmo antes de iniciar o melancólico espetáculo, sem saber porquê já estão a derramar discretas lágrimas... de crocodilo. Tal fenômeno se dá pelo efeito propagandístico de um verdadeiro dilúvio de comentários sobre o dito lançamento por parte da “conceituada” e “respeitável” mídia do sistema.
Mas eis que de repente, não mais que de repente, após termos sido obrigados a suportar longos traillers enlatados, intercalados por publicidades institucionais do tipo pança-cheia barriga-vazia, ou seja, fome-zero macaco-assovia, tem início o mais ridículo espetáculo de todos os tempos.
Resultado de uma colcha de retalhos da pior qualidade e reunindo atores da mais baixa categoria, o filme apresenta, apesar de totalmente americanizado, um exótico tempero oriental: é todo falado em latim e aramaico! O suposto diretor, mal-feitor travestido de puritano conservador, faz surgir o Divino Mestre (cujo nome por respeito não vamos pronunciar) “representado” na figura de um jovem escondido atrás de uma barba, misto de garoto-de-programa com surfista, daqueles que pupulam nas praias de Ipanema. Apesar de tentar reproduzir quem o leitor está pensando, o que se vê do início ao fim é uma mistura de um Sansão com Schwarzenegger. E para quem o assiste sem a necessária inteligência, (interlegere) ou seja, sem perceber o que está nas entrelinhas, não consegue enxergar nada além de um herói.
O deslumbrado pseudodiretor caipira mescla a sua ameaça de longa-metragem com cenas que tentam a todo custo dar um toque místico à sua peça de vulgaridade, a qual está mais para terror-chanchada do que para algo capaz de expressar o mínimo de espiritualidade. Tais cenas, ou melhor, tais pára-quedas totalmente desconectados que caem de tempos em tempos durante a narrativa - fracassada tentativa de imitação de um outro filme sobre o mesmo tema, do Diretor de cinema Martin Scorsese - faz aumentar a nossa certeza de que não estamos diante de um filme anti-semita conforme tenta nos induzir o massivo e subliminar jogo de marketing da imprensa do sistema. Na realidade, a condenação do Nazareno no filme por parte dos judeus acontece apenas de forma teórica, enquanto que durante toda a sessão os protagonistas da tortura e do suplício não são senão os romanos! Ou seja, a encenação é totalmente direcionada a demonstrar o preconceito e a perseguição dos romanos aos judeus, visto que é sabido e notório que a elite patrícia dos romanos costumava considerar os judeus seres primitivos e atrasados a ponto de as dedicadas práticas dos rituais religiosos judaicos serem motivo de chacota, afirmando-se que Deus nem sabia da existência deles. Tal pensamento era corrente entre os pragmáticos romanos.
Confirmando essa condenação teórica do filho de Deus (numa indecorosa representação) pelos judeus, Mal Gibson apresenta durante todo o longuíssimo filme figuras de romanos grotescos, bêbados, selvagens, representantes de gente da pior espécie, que chicoteiam, cospem, esbofeteiam, ofendem, achincalham, ridicularizam e humilham o personagem-título. Ou seja, os incivilizados, bárbaros e desumanos que provocam reações nauseabundas nos milhares de espectadores de todo o mundo são os romanos e não os judeus. O procurador romano, por exemplo, semelhante a um caricaturesco Mussolini com pernas abertas e com uma expressão dramática propositadamente frágil e insegura, é um contraste marcante com o grupo composto do Sumo Sacerdote e de seu séquito, o qual, sob ricas vestimentas, mantos e cetros, é apresentado de uma forma bem mais civilizada e imponente apesar da indisfarçável hipocrisia e cinismo.
Então, caro leitor, cá entre nós, se nos lembrarmos de Cincinato, Cícero, Marco Aurélio, César e inúmeros expoentes da Justiça e do Direito, representantes da Roma que gerou a célebre frase “Onde nasce o sol pertence a Roma”, não poderemos considerar os personagens romanos desfigurados pela ótica de Gibson senão como cômicos e ridículos, os quais induzem o espectador do degradante espetáculo a acreditar na versão apresentada.
Enfim, o objetivo da película é subliminarmente defender uma tese que contraria e tenta desmoralizar passagens marcantes e inesquecíveis do livro mais lido do planeta, considerado o mais venerado documento histórico-religioso, além de omitir trechos que por si, de tão reveladores, seriam capazes de impedir a farsa cinematográfica. O que facilmente se constata na mesma é uma descarada e perigosa tentativa de enjudaizar o Divino Mestre que teve a coragem de se opor à mentira e à hipocrisia e se entregar em holocausto enfrentando, na época, o poder mais forte e fanático que era representado pelo sinédrio. Nesse sentido, considerar o Divino Mestre um judeu seria um dos maiores disparates já cometidos, uma vez que esta encarnação da Coragem e do Mistério representa um estado de espírito puro e elevado que não pode ser – como efetivamente não é - limitada a uma etnia, mas sim universal. Além disso, a trajetória deste Verdadeiro Homem veio marcada por contestações ao que era considerado na época crime capaz de conduzir à crucificação. Por exemplo:
Ressuscitar os mortos.
Fazer ver aos cegos.
Defender uma mulher adúltera de ser apedrejada.
Afirmar que o sábado não foi feito para o homem, mas, o homem feito para o sábado.
Ousar afirmar ser o Messias e Filho de Deus.
Transmitir a doutrina de um Deus único a todos os homens, independentemente de serem romanos, gregos, ou egípcios.
Chamar os detentores do poder e da chave do cofre de raça de víboras, mentirosos e filhos da mentira.
Só o fato de terem optado por um protagonista que não passa de uma figura ridícula e brega, por si só já é mais que uma ofensa: é um acinte a quem sente verdadeiramente respeito e afeição pelo Homem de Nazaré.
Cumpre, a bem da justiça destacar dois personagens do filme. O primeiro, figura de tradicional família de políticos, cujo pai, um assassino contumaz, já havia convencido Marco Antônio a nomeá-lo “rei dos judeus”, deixou de herança a seu filho, Herodes Antipas, pornográfico e macabro personagem, a coroa comprada de Marco Antonio cravejada de gotas de sangue que pareciam verdadeiros rubis. Herodes, apesar de não ser romano, mas com habilidade política hereditária, conseguiu obter o status de cidadão romano e além disso era também idumeu e ainda judeu. Se fôssemos comparar a desnaturada geração dos Herodes só poderíamos encontrar similar grau de criminalidade na família daquele que se encontra hoje no comando do governo do país que ultrapassa Roma no que havia de pior e fica muito aquém das qualidades daquela que era reconhecida como a eterna concepção do pensamento divino. É difícil saber qual das duas matou mais criancinhas, se os Herodes ou os Bushs.
E também destacamos a atriz que representa Maria. Esta, durante toda a trama só observa, impassível, servindo de testemunha às nossas próprias observações como quem diz: “Não posso me emocionar nem me envolver porque se trata de uma farsa”. E esta, misteriosamente, durante as penosas e quase intermináveis duas horas, praticamente não abre a boca a não ser para dizer: “Meu filho, eu estou aqui!”. E tem-se a nítida impressão de que ela completa a frase dizendo: “Calma, tem paciência, daqui a pouco isso acaba, pois, é apenas quase um filme”.
E diga-se de passagem que quase um filme qualquer um pode fazer: basta ter dinheiro. Ou ainda, em outras palavras, com quaisquer milhões de dólares qualquer fariseu pode fazer uma qualquer legítima porcaria.
Artigo extraído do anuário cultural Humanus V, Sama Editora.
www.samamultimidia.com.br
Afixado por: HUMANUS em abril 22, 2004 08:07 PM
Rui, antes de mais tenho uma grande dúvida: Quem vota no referendo? Os habitantes do concelho de Lisboa, da Ameixoeira a Benfica, do Lumiar aos Olivais? E a malta de Algés ou de Almada, que se calhar é muito mais "influenciada" pela construção em altura na zona ribeirinha?
Afixado por: expatriado em abril 22, 2004 08:53 PMexpatriado, não percebo a dificuldade. votam os munícipes de lisboa, os mesmos que votam para presidente da câmara. os outros também são influenciados por tantas outras medidas da câmara municipal de lisboa e nem por isso deixam de votar nos autarcas das suas cidades e passam a votar em lisboa.
Afixado por: rui tavares em abril 22, 2004 11:07 PMEstou inteiramente a favor de um referendo sobre as torres para Alcântar, depois da revisão do PDM estar concluído.
O Santana sabe que não pode construir as torres porque as normas actuais do PDM não o permitiriam. No entanto, o referendo servir-lhe-ia para ganhar legitimidade política na defesa das torres contra o PDM de Lisboa.
Mas o PDM está em processo de revisão e vai estar a debate público. Porque razão é que ele não prefere fazer esse debate, da alteração da altimetria da construção na zona ribeirinha, no âmbito do processo de revisão do PDM? Que óptima oportunidade tem o Santana para promover, assim, uma revisão participada do PDM!
Caso o novo PDM acolhesse essa alteração, então que viesse o referendo sobre as torres em concreto.
Recuso-me a alinhar no torpedeamento santanista do PDM. Seja qual for o discurso estético-modernaço sobre as torres (independentemente de estar de acordo ou não com as torres), seria um enorme erro pôr em causa a credibilidade dos instrumentos e dos processos de regulação urbanística. Mesmo que, para isso, me atirem "prá frente" com a figura do referendo que, aliás, muito prezo e defendo.
a excepção de facto já lá existe, é a ponte sobre o tejo.
a primeira excepção seguinte terá como agradável consequencia um sujeito ir na ponte 25 de abril e poder admirar ao seu lado três torres com o dobro da altura do tabuleiro . (para quem vai em cima da ponte até nem é muito, são só mais uns cinquenta metros para cima, enquanto que existem ruas em alcântara cujos alinhamentos vão obrigar a que terminem numa parede. Paciência, olha...).
a terceira excepção é que as três torres do siza estão previstas no terreno da antiga fábrica do açúcar. Nos terrenos da gráfica mirandela ao lado e provavelmente da carris, preparam-se novas operações de mudança de donos, certamente com o intuito de se criarem mais "espaços verdes" a juntar aos "libertados" pelo projecto do siza (que qualquer realista o dirá- sobrarem do estacionamento que vai ser necessário- ao contrário das restantes especialidades, os projectistas e regulamentos que prevêem os lugares de estacionamento pecam sempre por defeito ). Mais uma excepção (a quarta?), o arquitecto que na câmara teve a seu cargo a revisão do PDM projectou mais um empreendimento na pedreira do alvito fronteira com monsanto, mais uns cento e tal mil metros quadrados de área de construção, nada comparado com o milhão que o richard rogers se prepara para enfiar na antiga lisnave em almada. (para consumo interno só existe um vago pdm para a pedreira do alvito, em certames internacionais foi já exibida uma bela maquete e tudo).
depois o norman foster claro mais uma torre de cem metros ( a título excepcional.
Enfim fiquemos por aqui para já quanto a excepções, e retenhamos a bela imagem das excepções e do interessante contributo para a demonstração da "singularidade" da arquitectura portuguesa que todos podemos admirar na sua brilhante diversidade pela avenida malhoa abaixo, um dos locais mais aprazíveis da grande Lisboa, e oh oh sabe deus quantos campos verdes para as vaquinhas pastarem se poupou com aquela construção em altura, quantos postos de trabalho na covina, na technal e nas fábricas de ar condicionado que tão bem tratam a nossa atmosfera se dinamizaram. apenas notar que do que se trata aqui é só volume de construção, política e poder e só muito secundariamente estética.
claro que o povo vai votar ao referendo. o povo está sedento de "pogresso". "pogresso"- torres altas (inexplicavelmente limitadas aos cem metros, porra já agora porque não bater o record mundial, deve ser giro ter uma penthouse a quinhentos metros de altura, vista linda ... de setúbal à nazaré aquase...) tudo interligado... é quase quase estarmos ao nível de kuala lumpur.
Nao querendo alongar muito a discussao sobre quem vota, acho limitativo fazer o paralelo com as autarquicas. Ai, votamos de acordo com a divisao administrativa existente. Se se pretende fazer um referendo para de alguma forma substituir ou deferir as decisoes da administracao, julgo que temos que ver bem quem e afectado pelas decisoes a tomar e ir mais alem do que a simples relacao municipe/municipio, de forma a potenciar todas as vantagens que a realizacao de um referendo implica. E que uma pessoa que viva em Alcantara ou trabalhe em Santos e mais directamente afectada que alguem que faca a sua vida longe da faixa ribeirinha. Julgo que o sistema suico preve, por exemplo, a existencia de maiorias em varios circulos. Nao seria interessante (embora perigoso) que um possivel referendo tivesse que ter resultados positivos nao so globalmente mas tambem nas freguesias directamente afectadas? Desculpem a falta de acentos.
Afixado por: expatriado em abril 23, 2004 09:10 AMCuriosidade: já alguém pensou no caos em termos de trânsito que as torres causariam? Não seria melhor investir dinheiro a tornar a cidade mais flexível em termos rodoviários? Note-se que não estou a defender o túnel do marquês, aliás, acho que o ideal seria começar a cobrar dinheiro, e muito, para circular em Lisboa (ou noutras cidades).
Parece-me que construir as torres é colocar o carro à frente dos bois. É realizar o sonho e esperar que as coisas à volta se resolvam por si próprias (muito à portuguesa, portanto). Pode ser que esteja errado, mas mesmo nesse caso não vejo grande vantagem nas torres.
Não voto, afinal de contas não sou munícipe de Lisboa. Mas acho que a construção das torres, essa história de construir em altura, apenas atrairia mais pessoas para a cidade de Lisboa. Isso teria vérias consequências: uma, a (continuação da) desertificação do resto do país; duas, o estrangular ainda mais a cidade; três, o descaracterizar a cidade. As cidades mais bonitas da Europa, pelo menos nas suas zonas mais bonitas, não têm torres. Tentam manter o padrão existente. É um dos pontos fortes de Lisboa, não me parece que deva ser alterado.
Afixado por: João André em abril 23, 2004 09:23 AMExcelente comentário do tcherignobyl que desmontou logo o provinciano que fez o primeiro comentário. Quem anda a dizer para um lado e para outro a dizer que "é moderno, é moderno" só pode ter em si um matriz provinciana, tal como o caríssimo presidente da câmara que é um protótipo exemplar do provinciano que se fascina cada vez que lhe sussuram "moderno" ao ouvido.
Afixado por: Bruno Costa em abril 23, 2004 12:13 PMImagino o espaço que as torres vão libertar na avenida da india, na avenida 24 de julho e na avenida brasilia. e o espaço que vai sobrar naquele moderno e seguro viaduto que existe em alcântara. Sim porque existe um aproveitamento maior do espaço!! O que eles querem dizer é que da para encafuar mais gente dentro de um espaço de vidro e de cimento. sendo lisboa uma cidade de turismo, pergunto eu se os estrangeiros procuram lisboa para ver torres?
Afixado por: Bruno Costa em abril 23, 2004 12:18 PMO que é que está a fazer um comentário sobre cinema numa caixa de comentários a um post sobre urbamismo? A vontade de aparecer de alguns mete impressão.
Afixado por: Saul Pereira em abril 23, 2004 12:38 PMO que se disse na altura em que se construiu o Cristo Rei? E a ponte 25 e Abril? E as pontes D. Luís e D. Maria? Não desvirtuaram a paisagem de então?
Hoje seria proibido a construção do Palácio da Pena mesmo no topo da Serra de Sintra, dos Castelos de Almourol, de Guimarães, da ponte de Ponte de Lima?...
As cidades são organismos vivos e crescem por camadas: claro que devemos ter cuidado e não "plantar" cancros, mas também não devemos rejeitar o novo e diferente por ser novo e diferente... A "Manhattan de Cacilhas" era um projecto fabuloso, mas foi imediatamente rejeitado, sendo os argumentos, meramente preconceitos...
E pensar que a Torre Eyfell esteve para ser demolida...
A volumetria de construção é a mesma com ou sem torres. O que está em causa é se se deve ocupar quase todo o espaço disponível no solo e construir mais baixo, ou se, pelo contrário, de deve libertar espaço à superfície construindo em altura.
A não ser que o que esteja em causa sejam os famosos 'direitos adquiridos' dos proprietários dos terrenos.
jcd
Afixado por: jcd em abril 23, 2004 04:15 PMjcd, a minha única dúvida é se será estritamente necessário construir as torres. É que continuo a dizer que as torres, por muito que possam contribuir para a beleza da cidade (na minha opinião não contribuem, mas isso é subjectivo), não serão necessárias para nada em Lisboa. Para mais há a falácia de se libertar espaço ao nível do solo. Os estacionamentos são obviamente construídos ao nível do solo, a maioria dos portugueses tem a mania de andar sempre de carro e de o estacionar sempre ao nível do solo.
Afixado por: João André em abril 23, 2004 04:50 PMO tchernignobyl disse mais e melhor do que eu poderia dizer. Devo apenas acrescentar que o projecto de Almada leva-nos a outro dado importante nestas questões: estas torres estão planeadas para alojar entre 12 a 20 mil pessoas (o anterior, a "manhattan" de Graça Dias, alojaria 30 mil!); sabendo que empreendimentos de arquitectos como os que estão em causa não são propriamente destinados a habitação social, é fácil deduzir as mudanças a que isto conduzirá na orientação de voto numa cidade como Almada...Se bem que em Lisboa o problema não se ponha da mesma forma, é sempre gratificante imaginar as classes mais abastadas "empoleiradas" sobre o rio e os outros cada vez mais confinados ao gueto. Em cidades nas quais a abertura para o rio é uma mais-valia fundamental,a construção em altura na zona ribeirinha é em si mesma uma aberração. Lembremo-nos do quanto foi criticada - e bem - a existência dos barracões do porto de lisboa, por constituirem uma fronteira entre a cidade e o rio. Mas isto é diferente, claro: barrar a zona ribeirinha pode ser bom, desde que esteja em boas mãos.
Afixado por: lucrecia em abril 24, 2004 04:08 AMsó uma pequena nota sobre o comentário do jcd:
é que uma das coisas que está em causa precisamente é a legitimidade dos documentos que segundo os proprietários fundamentam a volumetria proposta.
e uma correcção ao meu primeiro comentário. No alvito não existe um pdm (Plano Director Municipal), e sim um Plano de Pormenor (PP - oops...)
Afixado por: tchernignobyl em abril 24, 2004 06:35 PMO meu comentário não vai sequer ser sobre torres. Houve alguém aqui que disse que as torres iriam atrair mais pessoas para dentro da cidade, o que era mau. Há aqui um grande equívoco. O problema de Lisboa é o facto de as pessoas viverem nas periferias e não dentro da cidade, o que causa movimentos pendulares diários de milhares de pessoas a entrar e a sair de Lisboa. Barcelona é uma cidade mais ou menos com a mesma área de lisboa, mas é cheia de vida, e moram dentro da cidade mais de 1 milhão de habitantes. Lisboa fica-se pelos 650 mil. Na AML moram 2 milhões e 650 mil pessoas, ou seja 2 milhões moram nas periferias. Evidentemente se moro nos arredores sou tentado a trazer o carro, mas se morar perto do centro se calhar apanhava o metro para ir trabalhar.
Os arredores de lisboa crescem desmesuradamente, e com má qualidade urbanística, sem que alguém diga alguma coisa. A cidade está vazia. Se forem a rua augusta a noite não está la ninguem. Se estiverem numa rua do mesmo género em Barcelona a essa hora, está cheia de pessoas.
Afixado por: Paulo em junho 23, 2004 08:07 PMo meu comentario é este: os portugueses são um povo retrogrado ,e isso é visivel em diversoa assuntos, como a recusa total acerca de predos altos, seja lá onde estes se situarem, em lisboa.
tem medo da mudaçoa e persistem em viver no passado.
Que se abra a caixa de pandora, deixemo-nos de demagogias, as criticas á construção em altura são muitas, mas as viagens a Nova York para ver contrução em altura são ainda mais ainda, além do mais foi devido a uma postura anti constução em altura que lisboa se prolongou de Alverca até Sintra, ou seja, não se feriu a vista mas feriu-se o meio hambiente.
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