
Caxias, noite de 24 para 25 de Abril de 1974 (até parece que foi ontem!): somos “informados”, através de um código sonoro, que tinha havido um golpe de estado. Alerta geral. Como, quem, etc,etc.. É que o “informador” do exterior não tinha dito – saberia?- qual a tendência ou orientação do golpe. E dentro de Caxias os guardas prisionais não sabiam patavina. Na dúvida, e à cautela, havia que tomar medidas de protecção e de segurança. Tínhamos bem presente na nossa memória o que ia acontecendo em certos países da América latina: golpes de estado da extrema/extrema direita levavam a que os presos políticos fossem simplesmente massacrados. A tensão e a ansiedade, que eram grandes, foram-se amenizando quando vimos os pára-quedistas rodearem a prisão, substituindo a GNR. Como os páras eram fiéis ao Spínola e como este tinha, pouco tempo antes, escrito “Portugal e o futuro”... Contudo, os suores só desapareceram quando vimos aparecer os fuzileiros navais com sorrisos e o dedo bem levantado para cima. Aí sim, respiramos fundo e libertamo-nos. As portas das celas foram escancaradas e os portões foram abertos para dar passagens aos nossos advogados e a alguns jornalistas. Os abraços quase que partiam ossos e as lágrimas, desta vez de alegria, escorriam abundantemente. Estávamos todos preparados para abandonar a famigerada cadeia, quando surge um oficial, a mando do Spínola, comunicando-nos que o sr. General tinha dados ordens para que não saísse ninguém. Os casos/processos seriam analisados um por um. Blá, blá, blá, blá. O absurdo ainda teimava em reinar em Portugal e o Spínolo já pensava que mandava em tudo. Depois da nossa firme e determinada recusa, com imediata greve da fome, e depois de negociações e pressões, o malabarista Spínola, determinou que os presos poderiam sair mas aos grupos; assim: uma camioneta iria descarregar um grupo no Areeiro, outro faria o mesmo no Campo grande, e por aí fora. Entretanto, as pessoas, aos milhares, rodeavam a cadeia e gritava: “Queremos os presos, queremos os presos”. E pronto, agora sim, lá saímos, cantando e rindo, mas desta vez com alma, alegria e determinação. No dia 26 de Abril. Na rua, já a Festa tinha começado!
Casimiro Ribeiro
Publicado por danieloliveira em | TrackBackLembro-me bem, mas tinha 6 anos. Só agora me ocorre dizer-lho: bem vindo Casimiro! (e a todos os seus camaradas)
Afixado por: Varrido em abril 25, 2004 07:40 AMObrigado por ter lutado contra o fascismo. Muito obrigado.
Afixado por: Pedro Lima em abril 25, 2004 10:23 AMa todos os que durante anos sofreram na prisão os horrores do fascismo:
a nossa homenagem
a todos os que viveram na clandestinidade fazendo de cada dia uma fuga para a frente:
o nosso reconhecimento
a todos os que de uma maneira ou de outra, à esquerda ou à direita, resistiram ao fascismo:
os meus parabens
aos Capitães que naquele dia decidiram que já era demais:
o nosso obrigado
Saudo todos os lutadores antifascistas, em particular aqueles que pagaram com a vida a ousadia de resistir à mentira e à opressão da ditadura, muitas vezes na clandestinidade , muitas vezes na prisão. Sem eles a liberdade não teria existido. Eles fazem parte do 25 de Abril.
Afixado por: dsousa em abril 25, 2004 02:54 PMObrigado Casimiro Ribeiro.
Afixado por: Branco Velho em abril 25, 2004 05:49 PMe ainda há quem, uns textos abaixo, questione a liberdade...
Obrigada, Casimiro
Afixado por: ana rita em abril 25, 2004 07:48 PMQuando a força da razão vence as amarras da arrogância...Abril vence...vencerá sempre!!!
Afixado por: Ju em abril 25, 2004 11:54 PM