abril 26, 2004

Quando lhes estala o verniz

Também eu, às vezes, me deixo embalar pelo canto da sereia. Acredito, por vezes – fraqueza minha – que anda para aí uma “nova direita”. Dizem-se liberais, o que não é mau, porque é coisa que em terras lusas nunca se viu. Uma direita que encha a boca com o mercado mas não esteja sempre na fila de espera dos favores do Estado. Uma direita que encha a boca com o “primado do indivíduo” mas não esteja sempre na primeira linha dos guardiões da família tradicional. Uma direita que se assanhe contra o comunismo mas não viva tão mal com a revolução que pôs fim a uma das mais longas ditaduras europeias. Uma direita urbana, cosmopolita, liberal na economia e nos costumes. Nunca se viu e eu gostava de ver. Porque assim, no debate, sempre se atalhava caminho.

Ultimamente, por ingenuidade, ainda cheguei a acreditar que ela andava por aí. Que tinha largado o pingalim e as botas, as patilhas e a farda, a batina e o nome de família. Engano meu. Bastou um dia de comemorações para que não se aguentasse. Mexemos-lhe no baú do seu passado e logo ficam à solta todos os seus fantasmas. O senhor Rui, do Blasfémia, deu um ar da graça da direita portuguesa. Não muda. E a questão é saber se esta direita periférica e atrasada alguma vez deixará de o ser. Título sugestivo do seu post: «25 de Abril, Nunca». Algumas passagens:

«O 25 de Abril histórico desmente cabalmente esta versão [a do “25 de Abril Mítico”] dos factos. Desde logo, na natureza do regime deposto: não se consegue compreender, por mais distraída que seja a alma portuguesa, que uma tirania com aquelas características não tenha dado, como não deu, um tiro em sua defesa.»

«À PIDE/DGS sucedeu uma polícia política bem mais temível.»

«Do ponto de vista da História, da História grande e verdadeira, o 25 de Abril serviria para a União Soviética manipular alguns “revolucionários” de ocasião e deitar mão aos territórios africanos»

Gabriel Silva, também do Blasfémia, lá tenta salvar a honra do convento. Mas tamanha alarvidade é difícil de remendar.

Por mim, poderia debater cada um dos argumentos do senhor Rui. Mas não o faço. Prefiro esperar pelo nascimento de uma direita portuguesa civilizada. Mas vou-me sentar, que esta espera é capaz de demorar.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Sentar só não chega.. demora muito mais que isso..

temos a direita mais beata, salazarenta, retrógrada, anti-europeísta.. de toda a Europa.. que raio de sorte!

Afixado por: Boss em abril 26, 2004 03:05 AM

Sim, Daniel, não debata. O debate é perigoso. Especialmente com a direita "não civilizada".

Ainda para mais, para quê debater "cada um dos argumentos" se toda a gente sabe que a Razão está do lado da esquerda progressista e civilizada?

Afixado por: AAA em abril 26, 2004 03:06 AM

PS: não lhes bastava ser de direita? Livra...

Afixado por: Boss em abril 26, 2004 03:06 AM

Há coisas que não debato: se a ditadura era ditadura, se a PIDE era PIDE, se a liberdade foi liberdade. Olhe, manias que eu tenho.

Afixado por: Daniel Oliveira em abril 26, 2004 03:10 AM

Todos temos coisas que não debatemos, não é?

Ontem foram umas, hoje serão outras.

As manias, certamente, divergem mas a atitude, essa, é a mesma...

Afixado por: AAA em abril 26, 2004 03:28 AM

"Todos temos coisas que não debatemos, caro AAA, a diferença é que parece que ainda há quem, 30 anos passados do 25 de Abril, continue a defender um regime em que nada se debatia, porque o nada era a exacta medida do que era permitido. Tanta indignação com o Daniel, e nem uma palavra (que não seja de elogio) para a nostalgia da ditadura e do colonialismo...

Deve ser isso a que chama liberalismo.

Afixado por: Pedro Sales em abril 26, 2004 04:03 AM

Caro Pedro,

1- Não estou indignado com o Daniel. Apenas faço notar a utilização de uma argumentação inconsequente (debater afirmando que não se debate) e ad hominem.

2- Não escrevi uma única palavra de elogio à "ditadura" ou ao "colonialismo" e não é muito simpático criticar-me por posições que não expressei.

Saudações liberais,
AAA

Afixado por: AAA em abril 26, 2004 04:39 AM

Daniel, discordo: essa direita existe. Tu conheces algumas pessoas de direita que cabem nesses padrões. Elas andam é demasiado ocupadas com coisas da cultura, à procura de si próprias e dos seus fios condutores. E ainda não têm partido, ou associação ou grupo. Essa direita moderna (e ainda talvez demasiado jovem) o que precisa é de uns Estados Gerais. Mas tenho esperança. Ainda nem têm 30 anos. Dá-lhes tempo.

Afixado por: Paulo em abril 26, 2004 05:36 AM

AAA,

De facto não escreveu uma "única palavra de elogio à "ditadura" ou ao "colonialismo", mas nem por isso deixou de fazer o link e recomendar um texto do Blasfémias que o fazia.

Há de convir que é muito ténue a diferença entre quem escreve um longo elogio à ditadura e ao colonialismo e quem linka para esse mesmo texto. Os primeiros sempre têm a vantagem de assumirem o que pensam, preto no branco. Se bem que a primeira cor lhes costume fazer confusão.

Afixado por: Pedro Sales em abril 26, 2004 09:29 AM

Durante o estado novo Portugal estava sob a opressão de um regime autoritario.
Algumas forças de esquerda, com o PCP à cabeça mas acolitado por alguns partidos em que militavam os actuais dirigentes do blonco de esquerda, tentaram implantar um regime totalitario.
Felizmente esses "democratas" não conseguiram senão Portugal iria de mal para pior.

Afixado por: bitrecula em abril 26, 2004 09:45 AM

Pelos vistos, a nós, barnabianos e familia, cabe-nos a missão de alimentar persistentemente Abril (com direito a repasto reforçado na data simbólica). Para manter vivo o espírito. Para não deixar que os tristes como esse rui o matem.

Afixado por: tintlhão em abril 26, 2004 09:55 AM

Eles são tão divertidos.
Ao que parece a direita "moderna" prepara os seus "Estádios Gerais" e esperam-se grandes contribuições dos skin heads para o debate político durante o próximo europeu de futebol...

Afixado por: tchernignobyl em abril 26, 2004 10:33 AM

Caro Daniel,

Por mim, preferia que comentasse e debatesse. É que as «teses» do texto desse senhor Rui coincidem bastante com as de um outro texto, muito mais sofisticado, o do artigo do Vasco Pulido Valente que o «DN» publicou na edição de ontem. Trata-se de um artigo importante, que merece ser discutido (e, em muito pontos, rebatido) pela Esquerda pensante em Portugal. Seria lamentável que essa Esquerda acolhesse tal texto com um silêncio ensurdecedor. Um abraço.

Afixado por: Mário Artur em abril 26, 2004 10:36 AM

A ditadura não dispaeou um unico tiro em sua defesa?
Correcção: a ditadura não disparou um unico tiro contra militares, é muito mais fácil fazer tiro à multidão.
E se não dispararam mais tiros foi porque não tinham praticamente militares nenhuns do lado deles.

Afixado por: Saul Pereira em abril 26, 2004 11:13 AM

Mas nada há a esperar da direita a não ser o 'avianço',a corrupção,os assassinatos,a defesa dos conselhos de admnistracção,o capital-o verdadeiro mal deste mundo.Fogo,não vêem?são os Valentins,os Albertos,oa Sharons,os Ben Ladens,...

Afixado por: ezer em abril 26, 2004 11:58 AM

A si estalou-lhe completamente a fina camada de verniz com este post.
"Mas tamanha alarvidade é dificil de remendar" ...
É pena, lamento ...
Margarida

Afixado por: Maria Margarida em abril 26, 2004 03:21 PM

A si estalou-lhe completamente a fina camada de verniz com este post.
"Mas tamanha alarvidade é dificil de remendar" ...
É pena, lamento ...
Margarida

Afixado por: Maria Margarida em abril 26, 2004 03:22 PM

A si estalou-lhe completamente a fina camada de verniz com este post.
"Mas tamanha alarvidade é dificil de remendar" ...
É pena, lamento ...
Margarida

Afixado por: Maria Margarida em abril 26, 2004 03:22 PM

Tem razão Maria Margarida, a alarvidade é difícil de remendar. Mais fácil será, certamente, saber usar a internet e não encher as caixas de comentários com tantas mensagens repetidas, repetidas, repetidas.

Afixado por: Pedro Sales em abril 26, 2004 05:11 PM

Daniel,

Acho que é necessário cuidado no modo como é usada a palavra liberal. O Liberalismo genuíno é de esquerda. A Direita "liberal" é neo-liberal ou, um termo ainda pouco utilizado em Portugal, libertária. O liberal clássico defende que o Estado deve existir para criar condições que levem à maximização da liberdade tendo em conta todos os cidadãos (portando regulando todas as liberdades que pelo seu exercício podem diminuir a capacidade de exercício de outras, e possibilitando a todos o usufruto ao máximo das suas liberdades). Os neo-liberais ou libertários apenas pretendem maximizar a liberdade do indivíduo, mesmo que algumas dessas liberdades se exercidas sem regulação impeçam o exercício de liberdades por outros cidadãos. Havendo colisão entre liberdades, para os libertários quem tem poder ganha. Defendem assim um Estado que financie apenas os aparelhos judicial, policial e militar. O exemplo mais óbvio é a atitude perante a propriedade privada. Para os liberais o direito à propriedade privada e ao seu uso é sempre condicional à não restrição de outras liberdades. Para os libertários, esse direito é sacrossanto. Concretizando, por exemplo: para um liberal há que manter a liberdade de circulação mesmo que isso limite o direito de um proprietário de decidir quem passa pelo seu terreno; para um liberal há que manter a liberdade de poder usufruir de um ambiente saudável mesmo que isso limite o direito de um proprietário de decidir se pode construir ou não uma fábrica ou uma lixeira no seu terreno. Um libertário opõe-se a qualquer dessas limitações.

A Direita libertária é ferozmente anti-Esquerda. Quando estão perante a escolha entre uma Esquerda liberal que defende as liberdades cívicas e a Direita conservadora que as ataca, eles preferem ficar na sombra com medo de prejudicar a manutenção do poder pelos seus correlegionários conservadores. Veja-se o caso do aborto em Portugal. Veja-se o caso dos libertários americanos, os quais tradicionalmente votam no Partido Republicano, e que perante uma administração Bush que ataca as liberdades cívicas e tem o maiore déficit orçamental da história, não se conseguem imaginar a votar no Partido Democrata, porque representa para eles a Esquerda.

Um exemplo de um libertário típico que odeia a Esquerda, mesmo a Liberal, talvez especialmente a Liberal, é a Helena Matos, que escreve no Público aos Sábados.

O que os termos usados na linguagem significam é algo extremamente importante do ponto de vista político. Veja-se o que se passa nos EUA (em resumo). Não podemos deixar a defesa da Liberdade ser apropriada pela Direita.

Afixado por: viana em abril 26, 2004 07:44 PM

Excelente, Daniel. Uma análise brilhante e muito pertinente.
Eu acho que você talvez possa esperar sentado. Só que não acredito na direita civilizada. Agarro-me logo à carteira. Prefiro esperar de pé e alerta.
A direita civilizada é uma ficção da democracia e aquilo que me incomoda nela nem é bem a fachada de pacificação social do seu discurso, mas antes a certeza de que o seu modelo escandaloso de mercado sem regras, de populismo demagógico, de manipulação, vai pôr em saldo barato o pouquíssimo que nos resta de dignidade como povo e como país. Quanto a isso não tenha dúvidas.

Afixado por: dsousa em abril 26, 2004 11:37 PM

Não sei quem é mais saudosista se o Rui do Blasfemias se o Daniel do Barbané.

Afixado por: BP em abril 27, 2004 12:44 AM

viana: compreendo os seus comentários mas discordo do uso que dá à palavra "libertário". o libertário no sentido clássico, que se mantem na europa, é de esquerda. a palavra aparece com proudhon e é a melhor denominação da maior parte do movimento a que chamamos anarquista, de que é praticamente sinónimo. o libertário defende a ampliação das liberdades individuais e a sua generalização a toda a sociedade. isto incluindo a liberdade económica, que não se define da forma capitalista mas antes como sendo a equivalência de poder económico entre todos os indivíduos de uma sociedade de forma a impedir a opressão de uns pelos outros. por vezes libertário significa aquele que está próximo dos anarquistas mas que não utiliza ele próprio o termo anarquista (exemplos: tolstoi, godwin, orwell). outras vezes é utilizado como sendo uma expressão filosoficamente mais correcta daquilo que pretendem os anarquistas.

embora o socialismo libertário seja a corrente maioritária entre os libertários (ainda hoje), o libertarismo clássico conhece autores que não se identificam com a dicotomia esquerda-direita (tucker, stirner, thoreau) e que muitas vezes são agrupados como anarquistas individualistas. mas o individualismo destes não permitiria nenhuma das políticas anti-libertárias dos neo-liberais de hoje.

já o libertarismo de direita é coisa recente e só nos EUA o nome libertário divergiu em relação ao sentido original europeu, nomeadamente depois da obra do robert nozick (anarchy, state and utopia, que se não me engano é de 1969). devo dizer que acho esta obra muito interessante mas que, do meu ponto de vista, as suas premissas não poderiam nunca deixar de resultar em atropelos gravíssimos, que o autor simplesmente menospreza, à liberdade individual. ele de facto define a propriedade como você a explica: o direito de uso e abuso (jus utendi et abutendi). nisso afasta-se completamente da tradição libertária clássica, que na formulação célebre de proudhon considera a propriedade de uso e abuso um roubo (mas não a posse para uso individual, o que por vezes é menos conhecido). se bem me lembro, nozick chega a concordar com o proprietário do terreno em volta do único lago de uma região que vedasse o acesso ao mesmo. é fácil de ver como esta posição resulta em atropelo à liberdade do maior número. deste ponto de vista, rawls é mais liberal do que nozick.

o anarco-capitalismo (é a expressão mais correcta) de nozick é aparentado ao neo-liberalismo de hoje (à falta de melhor expressão) e ao objectivismo de ayn rand. a diferença é que apesar de tudo em nozick ainda se encontra um raciocínio fresco, inteligente e bem humorado. já as duas outras doutrinas são boas para mentes filosoficamente débeis, fanáticas (no caso dos randianos) e limitadas (no caso dos neo-liberais, que se preocupam demasiado com a economia e muito pouco com o resto). quem não acreditar que leia praticamente qualquer blogue "liberal" português.

de resto, concordo com a sua análise. um liberal que leve o seu john stuart mill a sério e que não se deixe levar pelos seus preconceitos está hoje em dia à esquerda. só não acho que se deva deixar a direita sequestrar o belo termo de "libertários" para mascararem os seus propósitos que actualmente são na maioria repressivos e retrógrados, se é que não o foram sempre. hoje em dia propõem as políticas mais securitárias em todo o mundo, hoje em dia aliam-se aos fundamentalistas autoritários de várias religiões, hoje em dia (e desde sempre) admitem que as empresas e os patrões enxovalhem os seus empregados. será preciso dizer mais?

Afixado por: rui tavares em abril 27, 2004 01:23 AM

Obrigado pelo comentário, rui. O problema é que com um mundo cada vez mais globalizado torna-se necessário encontrar termos políticos consensuais quanto ao seu significado em qualquer parte do mundo. E infelizmente houve um período em que a tradição política europeia continental e a americana/anglo-saxónica divergiu. É do interesse da Esquerda em ambos os lados do Atlântico a criação de laços cada vez mais fortes para ser possível e efectiva a oposição às políticas conservadoras/neo-liberais da Direita, que possuem um impacto cada vez mais global. E esta convergência passa necessariamente pela criação de uma linguagem política comum.

Pensando bem, talvez seja melhor para a Esquerda utilizar o termo libertário em vez de anarco-sindicalista. E "colar" o termo anarco-capitalista aos "libertários" americanos, dado, infelizmente, o carácter negativo que a palavra anarquia tem associado para a maior parte das pessoas.

Afixado por: viana em abril 27, 2004 11:04 AM

Para Pedro Sales - "Não encher as caixas de comentários com tantas mensagens repetidas".

Lamento, não era minha intenção mandar mensagens repetidas, uma vez que só a enviei-a uma vez apenas.Por motivos alheios à minha vontade ela apreceu-a replicada.

Afixado por: Margarida em abril 27, 2004 01:09 PM

Tem razão o Daniel.

Todas as boas pessoas são de esquerda e todos os bons pais de familia são benfiquistas.

E todos os portistas são Pinto da Costas em miniatura e todos as pessoas de direita secretamente apoiam o texto do sr. Rui A.

Espero que descubra um banquinho confortável para esperar e apareça em Monsanto. Eu sou o do sofá azul (isto de ser de direita têm os seus confortos). Estou, desde 1975 (antes o debate não era possivel - como todos menos o Rui A. sabem), sentado à espera que os politicos portugueses se deixem de debates clubisticos e de insultos (como os do Rui ao 25 de Abril - mais grave porque de todos nós; e do Daniel à direita - menos grave porque só insulta 50% dos portugueses).

25 de Abril, Sempre.

Daniel Marques

Afixado por: dmarques em abril 28, 2004 10:15 AM
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