Pacheco Pereira recorre ao argumento entaladinho ("então-falou-disto-mas-sobre-aquilo-ficou-caladinho") para acusar o Barnabé de ter uma "memória elástica". A razão: ter reproduzido uma fotografia de Durão Barroso nos tempos do MRPP (que por acaso até veio da Visão) e "e esquecer-se do passado colectivo das organizações que lhe são próximas, em particular o Bloco de Esquerda".
Respondo com uma história. Uma vez eu e os meus irmãos pedimos ao meu pai para irmos todos ao funeral de um autor importante que nós admirávamos lá em casa. A resposta do meu pai foi a seguinte: "Para que hei-de eu ir ao funeral de fulano? Ele também não vai ao meu!".
Da mesma forma, também eu só comentarei "em particular" o passado colectivo da UDP e do PSR quando Louçã e Fazenda se pronunciarem "em particular" sobre as postas do Barnabé. Aquele passado não é o meu, comentá-lo-ei eventualmente, mas não o farei a pedido.
Acho que toda a gente entende uma coisa tão simples quanto esta: nós não somos nem deixamos de ser "próximos do BE". Um de nós – o Daniel – é militante do BE. Os outros quatro são de esquerda. Isto certamente faz de nós mais próximos dos partidos da oposição do que do PSD/PP, pelo menos tanto como faz a oposição estar mais próxima do Barnabé do que do Abrupto. Apoiamos mais vezes a oposição do que o governo. Sei que há gente que acha isto estranho – mas deve ser porque leram demasiado António Barreto. No entanto, as perguntas sobre o passado colectivo "em particular" do BE devem ser endereçadas a quem de direito.
Além disso, não tem o mínimo cabimento acusar o Barnabé de "memória elástica".
Publicámos aqui cartazes revolucionários de quase todos os quadrantes políticos (incluindo os desses partidos) sem preocupações de branqueamento ou embelezamento algumas. Está aqui o Álbum, é só comprovar. Exceptuando os cartazes anarquistas (cof cof cof) que envelheceram melhor do que o vinho do Porto, todos eram igualmente ingénuos / datados / comoventes / caricatos.
Naquilo que diz respeito aos nossos curtos passados também falámos todos. Aquele que tem mais vida partidária – o Daniel, mais uma vez – já escreveu várias vezes sobre a sua vida no PCP. Só faltou um – o Celso – que ainda nos deve um texto sobre o ponto de vista do miúdo retornado de Moçambique nos anos 70.
Neste aspecto, Pacheco Pereira foi uma espécie de carteiro. Só que bateu duas vezes na porta errada.
Publicado por danieloliveira em abril 30, 2004 06:51 PM | TrackBack