É bom que meditemos sobre as chocantes imagens do uso que alguns soldados americanos deram às câmaras de tortura da prisão de Abu Ghraib após a “libertação” do Iraque. Elas podem bem não ser um caso isolado, uma aberração que todos nós condenamos, mas algo que reflecte uma prática muito mais difundida entre as tropas da coligação (essa é, pelo menos, a convicção da Amnistia Internacional). Que indivíduos em uniforme possam perder o sangue-frio em situações de stress e ameaça à sua integridade física é um fenómeno de todas as guerras. E todos nós sabemos que a desumanização do inimigo foi durante muito tempo considerada essencial para conduzir uma guerra com êxito. Para não recuarmos demasiado, no Vietname o racismo foi elevado à categoria de virtude patriótica. A missão americana no Vietname tinha por objectivo resgatar os nativos das garras do comunismo, mas ao fim de algum tempo, o único vietnamita bom era o vietnamita morto. Só que a guerra do Iraque foi-nos vendida como uma “intervenção humanitária”, conduzida por um exército diferente, um exército cujas “regras de engajamento” incorporavam noções básicas de direitos humanos. Os iraquianos ansiavam por ser libertados e, tirando os indefectíveis de Saddam, estavam dispostos a receber os libertadores de braços abertos. Como se sabe, esta bela ilusão durou muito pouco tempo e agora os libertadores começam a ficar impacientes com a ingratidão dos libertados. Mas as indignidades cometidas na prisão de Abu Ghraib precedem a explosão de violência em Falluja e Najaf. Ou seja, não foram uma resposta emocional, impensada, a outros actos de violência. O Sargento Chip Fredericks, um dos soldados que pode enfrentar um julgamento militar, e que alega não ter recebido qualquer cópia da Convenção de Genebra, admite ter “forçado um pouco a nota” para ver a “missão cumprida”. Mas terá sido apenas o “elixir do poder”, a sensação de impunidade que os carcereiros adquirem em certas situações, que explica a conduta do Sargento Fredericks? Em parte sim, mas só em parte. O contexto político e cultural onde o Sargento Fredericks está inserido também é importante. E o contexto político e cultural da “guerra ao terrorismo” possui algumas facetas muito inquietantes. Quando se desencadeou o ataque ao Iraque, Guantánamo já estava repleto de indivíduos detidos no Afeganistão. E o mais provável é que o Sargento Fredericks não leia os editoriais indignados do New York Times, mas o tablóide da sua terra natal; que não veja a BBC World, mas sim a Fox News. Para a maioria dos mass media americanos, Guantánamo não é, acreditem, uma aberração. Aquelas pessoas estão lá porque ou fizeram algo de mau, ou tencionavam fazê-lo – e agir preventivamente, conforme explicou o Presidente Bush, é vital para evitar novos atentados. Um artigo de Paul Robinson (“Extremism in the name of liberty”) no Spectator da semana passada cita vários intelectuais e jornalistas que têm contribuído para propagar a lógica da justiça retributiva. Ralph Peters, um comentador de questões de segurança, defendeu no Wall Street Journal (“Civilian Casualties: no apology needed”, Julho de 2002) que a guerra ao terrorismo visa “exterminar monstros”, e que se for necessário os familiares dos terroristas também deverão ser considerados alvos (“Nós Americanos devemos estar dispostos a chegar aos terroristas através dos seus familiares ... Se não podes matar o teu inimigo, ameaça o que ele preza mais”). O advogado Dershowitz, por exemplo, defendeu a legalização da tortura em interrogatórios, propondo, nomeadamente, a introdução de agulhas esterlizadas debaixo das unhas dos suspeitos a fim de lhe causar uma “dor excruciante”. “A dor não é a pior coisa do mundo”, acrescentou Dershowitz, “a dor passa”. E o que dizer do ex-esquerdista Christopher Hitchens, agora um zeloso apoiante de Bush, que durante a Guerra do Afeganistão confessou que nada lhe dava mais gozo do que saber que um combatente inimigo tinha sido morto com o estilhaço de uma cluster bomb, e de preferência com o Corão na mão? Ora, não é assim que vai estalando a fina película da civilização?
Publicado por pedrooliveira em | TrackBackO problema é que os discursos estruturantes da teoria da Guerra das Civilizações e da Guerra Total ao Terrorismo fizeram-se adubar desde o início com a ideia da Superioridade da Civilização Ocidental. E todos sabemos o quão labiríntica e ambígua pode ser a ideia de Superioridade na cabecinha de muitos ocidentais. Mas se calhar a intenção era mesmo essa. Doping psiquiátrico. Estão aí os resultados.
Afixado por: thirdbacus em maio 1, 2004 03:29 AMÓ diabo, o link da Spectator não vai pró artigo mencionado. Escrevam então um post sobre este:
http://www.spectator.co.uk/article.php?table=old§ion=current&issue=2004-05-01&id=4554
para poupar alguma resposta desnecessária afirmo desde já que concordo genéricamente com o post
Afixado por: caznocrat em maio 1, 2004 03:42 AM
retirem o 'genéricamente'
Afixado por: caznocrat em maio 1, 2004 03:44 AMA "fina pelicula da civilização" nunca excluiu esse tipo de sentimentos. Aliás, a para se fazer "civilização" é indispensável contar com cada um deles, de preferencia em livros grossos e bem escritos. Separar o Homem aos bocadinhos e fingir que o que não se conforma com a nossa ética e o nosso desejo não é fazer civilização, é, isso sim, acabar com ela.
Penso ao contrário, penso ao contrário. Eu acho que se devia, de imediato, arranjar pelotões de fuzilamento para abater os turistas japoneses que me entopem os pasteis de belem e os Jerónimos assi que saiem dos autocarros... infelizmente sei que isso não seria simpático.
Um abraço
PS: não domino nem a 5 por cento os termos "ética", "civilização", "homem", "desejo". Perdoem-me qualquer coisinha.
Afixado por: maradona em maio 1, 2004 10:15 AMConcordo completamente com o post. No entanto, acho que existem dois níveis distintos de confronto ideológico, e o post refere-se a apenas um deles. Num dos níveis, dentro do qual é consensual que para difundir/proteger a "liberdade e democracia" é inevitável e até desejável o recurso à violência e à guerra, confrontam-se aqueles que desejam que a violência seja o mais dirigida possível, tentando ao máximo diminuir "danos colaterais", e os que advogam que a violência indiscriminada deve ser utilizada abertamente porque "intimida" (para estes é melhor ser temido que amado ou respeitado). Essas duas posições podem-se considerar como sendo Blair versus Sharon. E pedrooliveira chama a atenção para a cada vez maior aceitação da "doutrina Sharon", em particular nos círculos mais (neo)conservadores dos EUA.
Mas existe outro nível de confronto ideológico, que em certa medida atravessa a Esquerda, e que opõe aqueles para os quais o uso da violência (ofensiva) e da guerra (preventiva) não pode nunca ser usado em qualquer situação, mesmo para promover a liberdade e a democracia, por mais controlada que seja essa violência/guerra, e os que acham que em certas circunstâncias tal é justificado (aproximando-se da posição de Blair). Eu, claramente, considero-me um dos primeiros. E o que acho que, mais uma vez, as notícias de torturas feitas por americanos e ingleses mostram, e elas vêm no seguimento de dezenas de milhares de mortos e estropiados, uso indiscriminado de violência massiva, humilhações individuais e colectivas, é que não há guerras "limpas", não há exércitos de "anjos" libertadores. O exercício da violência é sempre "sujo", a guerra é sempre "suja e maldita".
Não acho que possa assim haver mais ilusões. É me muito mais difícil compreender como alguém que diz defender a democracia e a liberdade pode em alguma situação apoiar o exercício da violência, da guerra, do que compreender a existência de sujeitos como os que pedrooliveira menciona para os quais o "inimigo" é por definição inferior, não humano.
Afixado por: viana em maio 1, 2004 03:44 PMA fina película da civilização estala de cada vez que os EUA entram em guerra, caro Pedro Oliveira. O Iraque não é caso único. Veja o que se escreveu aquando da guerra do Kosovo. Ou, para ir mais longe, tudo começou aquando da Primeira Guerra Mundial, quando os alemães foram pintados na literatura americana como "Hunos" que fariam as maiores atrocidades deste mundo.
Não falemos já da fina película da civilização aquando dos bombardeamentos terroristas de Wuerzburg e Dresden, na Segunda Guerra Mundial.
No Kosovo, um comentador americano sugeriu que os bombardeamentos americanos poderiam continuar até onde os sérvios quisessem ser levados. Que rem que os ponhamos ao nível de 1945? Fá-lo-emos. Querem ser reduzidos ao nível de 1344? Imediatamente. E assim por diante.
A Sérvia é uma nação branca e civilizada. Nem se trata de racismo. Trata-se de selvajaria, pura e simples.
Está implantada na história dos EUA. Leia o Pedro Oliveira um livro qualquer sobre o extermínio das nações índias. É coisa de caixão à cova. Selvajaria sem limites, valeu tudo.
Ah!
Afixado por: Artur em maio 3, 2004 10:50 AM