Nos últimos tempos tem havido sempre ponderosas razões para, como às vezes nos gritam aqui os comentadores, "deixar os papas em paz!". Primeiro era por respeito à fé dos outros; depois porque o papa estava doente; depois porque o papa morreu; agora porque há papa novo. E outras tantas variações sobre o tema: "se não vais dizer bem, cala-te".
Às vezes há uns rodriguinhos. Por exemplo, no Blasfémias escreve o João Miranda o seguinte: "Um liberal que defende que a Igreja não deve ter um Papa conservador faz tanto sentido como um liberal que defende que o líder do PCP não deve ser comunista". Não é um post ao melhor nível do João Miranda porque a analogia está longe de ser perfeita. Reparem: na primeira metade fala-se de um papa "conservador" e na segunda de um líder do PCP "comunista", quando o par correcto seria católico-comunista ou então conservador-ortodoxo. Ou seja: defender que um papa não fosse católico é que seria como defender que um líder do PCP não fosse comunista, porque de resto existem católicos que não são conservadores e comunistas que não são ortodoxos.
A propósito, lembro-me bem de quando Brejnev morreu. Na altura, toda a gente – e especialmente os não-comunistas – tentava adivinhar quem seria o sucessor e que consequência traria cada um dos nomes: Gromiko? Tchernenko? Andropov? Gorbatchev? Toda a gente, meus caros, metia o bedelho, para grande irritação de Cunhal e dos PCPs. E posso garantir que a maior parte das pessoas no Ocidente e no Leste – numa época de guerra fria e pânico nuclear – desejava um comunista moderado e modernizador.
Já não estamos na guerra fria, mas no meio de uma guerra religiosa latente e vivemos no pânico de um choque de civilizações – contexto no qual João Paulo II, convém dizê-lo, se comportou impecavelmente. Ora anteontem a chaminé da capela sistina deitou fumo branco. O novo papa veio à varanda, e vimos que seria o equivalente católico ao homem do KGB, o frio funcionário capaz de censurar Brejnev por moderação.
No entanto um gajo dá uma volta pelos blogues de direita liberal e o que vê? Estão felicíssimos. Porque, supostamente, a esquerda está chateada. Acham uma boa solução, porque o Espírito Santo nos livrou de um papa de esquerda. Estas fixações mórbidas na esquerda, no entanto, não os impedem de usar argumentos passíveis de render royalties a Jerónimo de Sousa: "É tempo da «inteligentzia» perceber que a Igreja Católica não é uma agremiação recreativa e cultural...", exactamente o mesmo que o camarada secretário-geral diz quando quer calar uns camaradas mais recalcitrantes.
Já agora, deixem-me assinalar aqui uma coisa que pode ter escapado ao pessoal no meio deste entusiasmo todo. Para a esquerda ateia e libertária Ratzinger não faz mossa absolutamente nenhuma. Bem pelo contrário, é uma escolha divertidíssima. Até já voltaram as missas em latim que George Brassens reclamava ("sans le latin, sans le latin / la messe nous emmerde")! Para quem Ratzinger é a pior de todas as escolhas é para os católicos moderados e reformistas. E não estou só a falar dos católicos de esquerda, mas dos próprios católicos liberais de direita: Pedro Mexia ou Andrew Sullivan compreenderam-no bem. E não é por serem menos liberais nem menos católicos. Mas claro que não é Mexia nem Sullivan quem quer: é preciso prezar mais o raciocínio do que o desdém pela esquerda, tarefa manifestamente esgotante.
O que é mais extraordinário é que gente que passa o tempo com "nhã-nhã-nhã o liberalismo isto" e "nhã-nhã-nhã nós os liberais" se tenha esquecido em poucas horas de que Ratzinger coloca o liberalismo ao mesmo nível das outras falsas ideologias de que os católicos devem fugir – como aliás, da modernidade em geral. Os católicos têm de ter uma "crença simples nas verdades da igreja" – e acabou-se.
Mas que importa? O homem é anti-relativista! Viva! Hurra! Nem vale a pena perguntarmo-nos se o anti-relativismo de alguém que acredita numa verdade revelada tem sequer a mínima semelhança com o anti-relativismo, por exemplo, de um empirista.
Até dá pena Bin Laden não ser católico, porque anti-relativista maior do que ele não sei se há.
Publicado por ruitavares emA emproeirada "Direita Liberal" sofre do sintoma de necessidade absoluta da autoafirmação categórica de um "nós" iluminado,descendente directo dos "papas" do liberalismo clássico, pai filho e espírito do mercado livre. Têm, salvo raras e honrosas excepções, uma atitude "clubística", bacoca, fechada e elitista. É claro que deste mal também padece alguma esquerda que por vezes se manifesta aqui no Barnabé, mas isso não justifica uma atitude oca, em sentido circular sobre os arautos da Teologia do Mercado. Por isso tudo o que posssa irritar a esquerda é apreciado. Nem que seja um papa conservador, dogmático que se opõe ao liberalismo, neoliberalismo e conservadorismo. É a velha questao de ser liberal na economia e conservador nos valores. Certamente, percebo. Mas haja mais inteligência para debater os assuntos. Quanto ao Papa Bento XVI espero que a sua acção contrarie as baixas espectativas. Que possa abrir caminhos para um debate teológico que possa abrir caminho para um Concílio Vaticano III verdadeiramente reformador. E espero que continue a consciência crítica das perigosíssmas acções hegemónicas dos Estados Unidos e da ordem económica mundial assente no aumento das desigualdades e commodification dos bens públicos. Tenho dito,
A Paz esteja conviosco, o Senhor Vos Acompanhe,
Amen!
se dúvidas houvesse, com a vossa fixação...o homem deve ser mesmo muito bom!
Afixado por: PINTO RIBEIRO em abril 21, 2005 08:22 AMCOncordo. Para a esquerda ateia, libertaria esse papa é uma boa escolha. O João Paulo II ainda escondia o seu lado reaccionario com as viagens e o discurso de perdão e tutti quanti. Esse Bento não vai seguramente viajar muito. E disfarçar pouco o conservadorismo. Mas quem vai ganhar com essa escolha papal? As diferentes seitas protestantes (evangélicas, etc.) e outras na América Latina (Brasil...e tb aquelas que encontramos em Portugal) e o Islão e outras seitas em Africa.... Imagino que Roma vai perder mais "mercado" nesse mundo fora...A igreja universal do Reino de Deus e outros concorrentes agradecem....
Afixado por: Vitor em abril 21, 2005 10:08 AMTambém não sou católico e a, por isso, a minha primeira reacção foi:- quero lá saber.
Todavia,não podemos esquecer o peso que a Igreja Católica tem no nosso povo e pior ainda em certos países como o UE.
Este papa não poderá durar muito(valha-nos isso) mas pode influenciar muito na direcção das políticas internacionais.
Parabéns Rui Tavares.
Foi mesmo na mouche!
Vivo com um gajo que acha giro ser de direita e vivia obcecado com a intolerância da esquerda, "a minha". Deixei de discutir, a relação estava tornar-se desgastante. Agora só lhe respondo:"Epá, quanto a isso lê Rui Tavares". As discussões acabaram e somos um casal feliz. Obrigada.
Afixado por: anónima em abril 21, 2005 11:24 AMÉ capaz de ter razão Pinto Ribeiro, deve-se sempre ter em conta um PASTOR ALEMÃO
Afixado por: a.pacheco em abril 21, 2005 11:40 AMó Pacheco, agora xenofobia? Você?... nã. por mim prefiro pensar em serras da estrela. 1 abraço.
Afixado por: pinto ribeiro em abril 21, 2005 01:28 PMp.s.. e falando de coisas importantes, mesmo que andem um bocado afastadas do blogue, que tal a palhaçada hipócrita mas políticamente correcta, ontem, no parlamento?...
Afixado por: pinto ribeiro em abril 21, 2005 01:30 PMEu era "ateu" até ler o post do Rui Tavares, agora acredito no Tavarismo. Vou começar a fazer orações com o cu virado para Lisboa.
Excelente post.
Com uma "punch line" digna desse nome. KO
"Até dá pena Bin Laden não ser católico, porque anti-relativista maior do que ele não sei se há."
LOL o comentário da anónima está o máximo. Excelente responso Rui. O triste é ter que andar sempre a explicar a estes liberais de meia tijela o que é o liberalismo, é que não percebem nada do assunto..
Afixado por: Boss em abril 21, 2005 03:04 PMPelo que leio, Ratzinger faz mossa e muita. É só ver o tom irritado com que o artigo foi escrito. Não me parece que tenham achado divertida a nomeação de Ratzinger. Afinal sempre são milhões de pessoas em todo o mundo que ouvem o papa, incluindo ateus e agnósticos.
Afixado por: Eurico Teles em abril 21, 2005 03:44 PMEu prefiro os são bernardo...
Afixado por: a.pacheco em abril 21, 2005 04:20 PMAnónima: é bom saber que ajudei a salvar a harmonia doméstica contra as investidas anti-família da direita tradicionalista.
Afixado por: rui tavares em abril 21, 2005 04:56 PMsó faltava aparecer o clube de fans:
é rat
é zinger
é ratzinger...
como se diz aqui no norte, tavares és um senhor.
Afixado por: oscar pinto em abril 21, 2005 06:26 PME continua, mesmo nestes comentários, a conversa do "epá, se o pessoal ateu não gosta do Ratzinger, então Ratzinger deve ser mesmo bom".
Lembram-se quando o Santana foi para 1º ministro? A esquerda barafustou (com razão), mas nunca teve uma vitória eleitoral tão expressiva.
Façam a analogia. Não é difícil...
Afixado por: João Vasco em abril 21, 2005 10:18 PMNão concordando com algumas coisas, é um post bastante pertinente.E gostei também do comentário do Sebastião Melo.
Afixado por: João Pedro em abril 23, 2005 03:35 AM