
São os últimos 12 dias de Hitler. Enfiada num bunker, a “fina-flor” do nacional-socialismo assiste à derrocada do regime e à queda do seu Führer. Hitler dirige tropas inexistentes e salta do delírio eufórico para a cólera ressentida, da fúria para o desalento. No meio da depressão colectiva, fanáticos delirantes como Goebbels e sua mulher Magda juntam-se ao seu ídolo na morte, oportunistas como Himmler, Hans Krebs ou Göring tentam salvar a pele, ingénuas, como a secretária de Hitler, Traudl Junge, vivem o pesadelo como viveram o sonho, longe de tudo o que se passa lá fora, homens como Albert Speer têm, depois de todo esterco em que mergulharam, um último segundo de decência. Na hora da queda, a tragédia transforma-se em farsa.
Hitler gostava da sua cadela, era afectuoso com Eva Braun e com a sua secretária, chorava. Era humano. E parece que houve quem se chocasse com a revelação do óbvio. Não percebo a polémica. Hitler não era um monstro. Os monstros não existem. Era um homem. É bom que se saiba que o Holocausto não foi um acidente da história nem um acontecimento sobrenatural. Pode sempre voltar a acontecer. Porque o Inferno é feito por homens que choram, que amam e que sofrem. Isso é que o torna mais abjecto.
“A Queda” (“Der Untergang”), de Oliver Hirschbiegel, é um dos melhores retratos de um ditador que já vi. Sem caricaturas (como se fosse necessário). O Hitler ali mesmo ao pé de nós. Quase como se fosse intimo. E uma visita dos alemães ao seu passado. Um muito bom sinal. Conseguissem todos os países manchados pelo horror (é verdade que nenhum chegou onde chegou a Alemanha nazi) fazer o mesmo e dormiríamos mais descansados.
Publicado por danieloliveira emAs postas não precisam de ser muito elaboradas, para serem pertinentes.
Neste caso, a pertinência justifica-se com: “Hitler não era um monstro. Os monstros não existem. Era um homem. É bom que se saiba que o Holocausto não foi um acidente da história nem um acontecimento sobrenatural.”
Gostei.
ps. será que reduzir um pouco o tamanho da fotografia? (faz-me impressão)
Caro Daniel,
óptimo post. Sim é fundamental lembrar que não podemos falar do Mal e deixar cair a palavra Homem. JMO do público criticou o filme por não nos dar um retrato do ditador, do monstro. O filme não tem de confirmar o Monstro, como se isto fosse necessário para tranquilizar as nossas consciências. Um Monstro e um Homem, sim, e ainda bem. O filme enfrenta a complexidade do fenómeno do Mal e mostra-lo, em toda a sua humanidade.
Muito bom e a não perder...
ufa, xiça penico por momentos pensei que finalmente não teria nada a apontar a um post do nosso camarada daniel até que cheguei à ultima frase.
Então não houve nenhum país a chegar tão longe como a Alemanha nazi?
Querem ver que Estaline nunca existiu?
Querem ver os khmers vermelhos foram uma invenção dos reaccionários?
E o regime comunista da china, certamente foram toda a vida uns anjinhos.
Em relação a todos estes exemplos os nazis “apenas” foram mais eficazes na barbárie porque em tudo o resto foram iguais.
"Porque o Inferno é feito por homens que choram, que amam e que sofrem"...então agora andamos a usar a música do Santana...
Afixado por: Kaiser em abril 22, 2005 05:24 PMBelo Post, o barnabé dos bons "velhos" tempos...
Afixado por: João Gunddersen em abril 22, 2005 05:50 PMBelíssimo texto! Fiquei ainda com mais vontade de ir ver o filme!
Afixado por: Marina em abril 22, 2005 07:00 PMÓptimo filme. A preocupação de verdade histórica na reconstituição de todos os pormenores foi levada ao paroxismo. As criticas dos que só gostam de caricaturas históricas são perfeitamente idiotas. Quanto ao pior assassino da História, Hitler esforçou-se bastante... but the winner is...
Paizinho dos Povos, Zé do martelo, o Camarada ESTALINE !
Afixado por: Saladino em abril 22, 2005 08:25 PMEste post dá vontade de ir ver o filme. "A queda" e "Mar adentro" já estao na minha lista de indispensáveis.
Afixado por: sabine em abril 22, 2005 09:19 PMMeus parabéns pelo excelente texto. É realmente necessário vermos o Hitler não somente como um monstro sanguinário, e sim como um ser humano normal, capaz dos mesmos sentimentos que todos nós compartilhamos.
Afixado por: Bruno Freitas em abril 22, 2005 10:13 PMUm homem.
Como o calígula, o sharon, sadam ou bush, igual e só mais uns do que outros, mas um homem.
E não há mais reparo ao post, impecável.
Porque sem maldade grande ou deficiência, nenhum homem é pior que os outros em iguais circunstâncias.
Fizesse Saddam no Ohio, se pudesse, o mesmo que Bush fez no Tigre e Eufrates e diríamos quem era o tirano.
E mandasse Hitler na América de hoje, como Bush na Alemanha de ontem, com a mesma onda de apoio e um móbil semelhantes, a ver se os distinguiríamos.
Que assim difíl é o papel da História.
Num dia em que os posts de Barnabé não me agradaram lá muito devo admitir que este está excelente. Já há muito tempo que ouço falar neste filme, que desencadeou polémica no Reina Unido e em Israel, e irei com certeza vê-lo. Para testemunhar até que ponto a paranóia e a magalomania dos homens pode chegar.Só tinha ideia que Goering e Himmler, na altura, já não estivesem com hitler. Os mais inocentes, como Guderian e doenitz, conseguiram escapar. E o melhor deles todos, Rommel, já tinha desaparecido.
Curioso como o actor que desempenha o papel de Hitler, Bruno Ganz (de forma notável, ao que dizem), se tenha celebrizado por interpretar umanjo no magnífico "AS asas do Desejo", de Wenders.
Eu imaginei logo que surgissem comentários à tal última frase. No entanto é simples: nenhum outro ditador chegou realmente onde chegou Hitler. Não porque tenham morto menos, mas porque o fizeram em mais tempo e de forma menos sistemática e fria que os nazis. Isto não os torna menos maus, atenção. É como um combate de boxe, em que Hitler ganhou aos pontos. Seja como for foram todos monstros, ainda que humanos...
Afixado por: João André em abril 23, 2005 12:06 AMVocê, Daniel, confirma-me o óbvio, isto é :
não tem o, actual protagonismo, que tem ,por um mero acaso.
Hoje, provocou o mais polémico e dos melhores momentos do Barnabé. No entanto, preocupa-me , por arrasto de conclusões, da evidente fina perpiscácia, (de um tipo que detesto), refiro-me ao "seu chefe Anacleto", que o escolheu ( segundo consta). Ele não fez uma escolha ao acaso. Ele tem objectivos bem concretos, provavelmente muito diferentes dos seus.O tempo nos dirá. Por outro lado, os seus camaradas mais chegados , os mais televisivos, os mais "jet-set", os melhores na preocupação de se monstrarem fardados à Armani e Lacoste, nunca assumiriam o que você acaba de afirmar : os grandes carniceiros da história , não são monstros, são unicamente homens . Simples homens.Isto vai mudar muita coisa , depois do filme começar a ser visto e discutido. Veremos! Também desejo, que este tema passe a ser discutido no Barnabé e que não fique por aqui.Mas você ,também me surprende por se apresentar diferente do seu Bloco politicamente correcto .
Você, Daniel, vai longe ... até começar a ver o BE por um canudo !
Azedo
Penso exactamente assim. A barbárie não é coisa do passado.Pode voltar amanhã. É feita por homens aparentenente humanos e normais. Como muitos dos que conhecemos.
Afixado por: rui aguiar em abril 23, 2005 12:48 AMNão vi ainda o filme, mas a descrição fez-me recordar uma das melhores séries televisivas que alguma vez vi: Holocausto (lembram-se, com Meryl Streep e James Woods ainda muito novinhos?). Acho que uma das facetas mais interessantes da série era exactamente dar essa noção de que toda a máquina de produção de dor era constituída por pessoas. Uma pirâmide de pessoas, sem doenças mentais, casadas, com filhos. E Hitler no topo, sim; mas não é por acaso que só vagamente ele surge ao longo dos episódios. Havia um claro esforço de ilustrar o processo inquestionavelmente humano por que as outras pessoas, gradualmente, se iam deixando incorporar na máquina. Permitindo que a pirâmide tomasse forma. Hesitavam, tremiam, mas cediam, iam cedendo cada vez mais. Foi de milhares e milhares de momentos assim que tudo se fez. Pois é, os significados de "humano" incluem "bondoso, benigno, compassivo". Mas fomos nós que os atribuímos, e somos por certo suspeitos na matéria... No fundo, "humano" é mesmo só "próprio do homem".
Afixado por: Míope em abril 23, 2005 03:30 AMÉ fundamental perceber que os grandes assassinos também são pessoas ditas "humanas". Não vi o filme, mas recordo a mini-polémica criada pelos filmes de Syberberg e seus retratos da Alemanha. Talvez fossem "avant-la-Lettre" e não tenham tido o impacto deste filme. Mas, como em tudo, é bom que a memória não se restrinja e esqueça o papel do dito realizador na análise do nazismo!!!
Quem esquece a história, encontra-a ao virar da esquina... Estas palavras, ditas por não sei quem, recordam a volatilidade da memória...
Numa época em que os skinheads pretendem fazer uma manif em Peniche - o que não é por acaso...- é bom que pensemos que o Mal ou o Abjecto podem surgie em qualquer esquina!!!...
Isis
STALIN, POL POT, MAO, FORAM PIORES MATARAM BEM MAIS!!!!!
Afixado por: cristiane scarpat em abril 24, 2005 12:26 PM
O que é engraçado é ver que o filme se tornou num objecto de culto entre neonazis, inclusivé em Portugal, que tecem mil elogios nos seus blogues e fóruns, entremeada por propaganda ao PNR.
Já agora, a série "Holocausto", que provocou uma autêntica hecatombe na Alemanha e na Europa, quando cá passou em 1979, foi editada em DVD há uns meses. Estava disponivel na Fnac, e também pode ser encomendada por lá ou pela Net:
http://www.amazon.fr/exec/obidos/ASIN/B0001ZF5AE/qid=1114368371/sr=1-1/ref=sr_1_2_1/402-0610751-2069730
Afixado por: Vítor em abril 24, 2005 07:46 PMJá que esta linha de comentários parece continuar "viva", não resisto a reproduzir aqui um pequeno excerto dum livro de António Damásio que ando a ler, "Looking for Spinoza". Parece-me bastante pertinente na tentativa de compreender a tal raiz humana do mal. Do segundo capítulo, traduzindo o melhor possível:
"Numa nota prática, compreender a biologia das emoções e o facto de que o valor de cada emoção varia imenso no nosso presente ambiente humano, oferece consideráveis oportunidades para a compreensão do comportamento humano. Podemos aprender, por exemplo, que algumas emoções são terríveis conselheiras e considerar como podemos, ou suprimi-las, ou reduzir as consequências do seu conselho. Estou a pensar, por exemplo, que as reacções que levam a preconceitos raciais e culturais se baseiam em parte no disparo automático de emoções sociais [expressão definida no livro] que em termos evolutivos se destinavam a detectar /diferença/ nos outros, porque diferença poderia assinalar risco ou perigo, e promover recuo ou agressão. Esse tipo de reacção provavelmente atingiu objectivos úteis numa sociedade tribal, mas deixou de ser útil, quanto mais apropriada, na nossa sociedade. Podemos dar ouvidos à sabedoria de que o nosso cérebro continua a transportar a maquinaria necessária para reagir da maneira que reagia num contexto muito diferente há muito, muito tempo. E podemos aprender a desprezar tais reacções e persuadir outros a fazer o mesmo."
O que acho extraordinário nesta passagem é que ousa sugerir uma base biológica para o racismo (apenas parcial, note-se) e, simultaneamente, explica como essa base se tornou perfeitamente inútil e mesmo prejudicial desde há muito, sublinhando a necessidade de a contrariar culturalmente. Adorava ver isto comentado por malta da Antropologia. Há vestígios de cultura noutras espécies, mas somos a única espécie cuja cultura avançou ao ponto de tornar inúteis e prejudiciais características biológicas que chegaram a ter alguma importância em termos evolutivos. Paradoxalmente, parece haver algo de eminentemente pré-histórico nessa tal rapadura (do fundo do tacho) neo-nazi que apregoa a sua "superioridade" racial.
Afixado por: Míope em abril 25, 2005 12:58 AMUm filme bom, de facto.
O post também é bom, para variar. Devia tê-lo escrito para o Expresso, mudava a toada enjoativa da coluna.
Só quem não viu o filme não compreende a mistura explosiva entre ideologia e culto do líder. O perturbante é sermos todos um pouco nazis durante aqueles breves segundos em que o subconsciente se sobrepõe à crítica (memória e conhecimento), em que o poder fascina, os ritos, a megalomania, as personalidades....
E sim, pode, aliás vai, voltar a acontecer um dia. Melhor ainda, foi acontecendo ao longo dos dias, noutra escala.
Fiquei sabendo sobre o filme e quero muito assistir,não por ser fã da figura principal,mas para poder fazer comentários sobre o assunto,afinal saber nunca é demais.Quanto a minha opinião,creio que é para mostrar que "qualquer pessoa" pode agir como ele,pois são "homens" como ele ,então cuidado com quem esta ao seu lado...,não precisa estar no poder.
Afixado por: dayse em maio 3, 2005 03:09 AM