Hoje vamos começar uma volta ao mundo, talvez em menos de oitenta dias. Não vamos de balão ou avião, mas à boleia de alguns postes. E claro teríamos de começar pelo centro do mundo nestes últimos dias: Roma e o Vaticano. A minha primeira reacção à eleição de Ratzinger foi, como é que é possível uma escolha tão má? Depois pensei melhor. E a minha reacção mais reflectida foi, como que é possível uma escolha tão, tão má? Ratzinger, um velho da Velha Europa, e sobretudo um homem de ideias velhas. Que afirmou: ‘os fiéis são pessoas simples que é preciso proteger dos intelectuais’. Uma frase reveladora, de facto, da sua grande inteligência, porque é difícil pensar numa afirmação mais insultuosa para os católicos e para a rica tradição intelectual da Igreja. O homem que afirmou que não há salvação fora da Igreja Católica e que se opôs completamente à entrada da Turquia na Europa em nome das suas raízes cristã. (Aparentemente a parábola do bom Samaritano nunca lhe chegou aos ouvidos).
Há portanto um problema da imagem do papa Ratzinger por causa da sua total falta de carisma pessoal. Mas ela é agravada pelo seu desempenhado e pelas suas declarações como orgulhoso herdeiro dos inquisidores. E há a oportunidade perdida de eleger um líder que influenciasse as questões internacionais com uma autoridade acrescida numa época em que se está a fazer o reequilibrar do poder no mundo entre os seus centros tradicionais na América e na Europa e o resto do planeta. Ou seja, de levar até à sua conclusão lógica o esforço de internacionalização do Vaticano e do colégio dos cardeais nos últimos cem anos e sobretudo por parte de João Paulo II.
Um papa de transição? Talvez, mas não creio. Porque Ratzinger é o mais próximo a um chefe de facção que se encontra no catolicismo. A eleição de uma personalidade com este perfil é tão rara que se pode considerar revolucionária. E teve sempre consequências péssimas se não foi rapidamente corrigido no conclave seguinte. Aqueles que em Portugal nos vêm explicar que tudo isto é normal e devia ser esperado, só mostram a sua própria ignorância, de que ridiculamente acusam os católicos liberais. Nada de espantar, afinal, num país em que muitos na Igreja Católica durante muito tempo adoptarem como mote a frase de Ratzinger, e em que os anticlericais acharam que a melhor forma de lidar com as religiões era procurar negar-lhe qualquer espaço no campo intelectual. Portugal deve ser o único país na Europa que não tem um único centro ou departamento ou faculdade dedicado ao estudo das religiões no ensino superior público. A Igreja Católica é necessariamente conservadora, e o liberalismo católico não faz qualquer espécie de sentido? As reformas na Igreja são uma aberração? Claro que as tradições são para defender? Esta eleição foi o que se esperava? Vamos por partes...
A Igreja conservadora? Nem conservadora nem progressista. É verdade que o papa anterior beatificou Pio IX. Mas Pio IX foi eleito como a grande esperança dos liberais católicos, antes de se voltar contra o liberalismo depois de várias conflitos. E a própria ideia de convocar um concílio, em 1870, foi uma inovação significativa em relação aos séculos anteriores. Mais, João Paulo II também beatificou frei Bartolomeu dos Mártires que tinha participado no concílio de Trento e tinha como mote ‘A Igreja está sempre a precisar de reformas’; e João XXIII, de que muito me tenho lembrado nestes dias, nomeadamente no seu ataque ‘aos profetas da desgraça' que só vêm os males do mundo actual. Tradição? As mulheres desempenharam funções, alguns dizem que até de bispo, nos séculos iniciais do cristianismo, as quais depois, por uma série de reformas, se tornaram exclusivo de sacerdotes homens. Preservar qual tradição? A Igreja Católica, ao contrário da Igreja Ortodoxa, por exemplo, tem evoluído muito, frequentemente no meio de grandes polémicas e conflitos, mas o lado que tem o apoio papal a determinado momento muitas vezes acaba por ceder ao espírito dos tempos. Evoluir é parte da tradição do catolicismo, embora ao rimo de uma instituição muito vasta e muita antiga, o que é bem diferente de ser imobilista.
O liberalismo católico não faz qualquer sentido? Suponho que nunca tenham ouvido falar da polémica no século XVI entre intelectuais protestantes defensores do servo-arbítrio, como Lutero, e pensadores católicos, como Erasmo, defensores do livre-arbítrio do homem; as discussões entre os defensores da importância do que se faz nesta vida e os defensores da predestinação. A ideia de liberdade é um dos eixos importantes do pensamento teológico católico. E nem vou detalhar a geneologia nos séculos seguintes. Mas muitos dos grandes pensadores liberais no século XIX eram católicos. Claro que a uns nomes é sempre possível opor outros. E o pensamento católico e o papado não pode ser reduzidos à política, a conservadores e progressistas. Mas esse é precisamente o ponto! Houve frequentes conflitos entre as autoridades da Igreja e os alguns pensadores mais ousados, como em qualquer organização, mas esta tensão não foi sempre resolvida, sobretudo no longo prazo, no sentido de manter o que estava. Tem havido muitas reformas no catolicismo, e algumas até foram num sentido «conservador», ou seja, de reforçar a autoridade do centro e fazer interpretações mais restritivas da doutrina e da disciplina. Outras foram no sentido contrário. Dizer que no catolicismo ser a favor de reformas não faz sentido, isso é que não faz sentido nenhum.
Era normal que o chefe da facção conservadora na Igreja fosse eleito papa? Na verdade não era. Por isso se costuma dizer que quem entra papa sai cardeal. Os favoritos, os líderes de uma ou outra corrente na Igreja acabaram quase sempre por ser preteridos por uma figura pelo menos vista como sendo de compromisso e geralmente menos conhecida. É essa a lógica das regras quase milenares que estabelecem que os cardeais que participam no conclave precisam de uma maioria de dois terços para eleger um papa. O objectivo desta reforma muito antiga foi evitar as lutas de facções, acabar com as violentas campanhas eleitorais que se tinham verificado até então. Em 1996, João Paulo II, segundo se diz com o apoio de alguns dos cardeais da Cúria, fez uma reforma que alterou esta regra, ao permitir a eleição do papa com maioria simples. O que altera a dinâmica do conclave. Ou seja, todos os cardeais sabem que a facção dominante pode esperar até ao trigésimo sufrágio e decidir por maioria simples que o seu homem será papa! Isso retira o incentivo ao compromisso, torna mais fácil perpetuar no poder um determinada corrente, e cria um maior risco de divisões e conflitos no futuro. Claro que há quem ache isso bem, e prefira uma seita a uma igreja verdadeiramente global e portanto muito diversa, mas essa não é a tradição católica.
Estou portanto curioso em saber se o papa Ratzinger, que denunciou o relativismo, mas deu algumas cambalhotas significativas na sua vida – de jovem teólogo progressista e crítico radical do seu antecessor na Congregação da Doutrina da Fé, a bispo e cardeal cioso da sua autoridade –, é realmente um tradicionalista numa questão central: a eleição do papa. Ou seja, se irá restabelecer a regra dos dois terços para a eleição papal. Afinal se ele foi uma figura tão consensual como cardeais que lhe são próximos têm dado a entender, isso não deveria ser um problema.
Finalmente, para um analista destas questões a eleição de Ratzinger é um teste interessante. Até que ponto o agora Bento XVI ultrapassará a lógica de poder e de facção que foi a sua durante tantos anos, e virá a ser, como alguns prevêem, em mais uma cambalhota, um construtor de pontes e de novos caminhos? Ou será como papa um continuador do cardeal: um disciplinador, um vigilante, um defensor de quanto menos melhor desde que absolutamente fiéis à sua linha? Quanto do carisma e influência do papa se deve ao prestígio do lugar e quanto à sua personalidade? Até que ponto um alemão de 78 anos consegue ser uma figura mobilizador dentro e para além da Igreja, seja na Europa, que reage ao seu conservadorismo, seja no resto do mundo que vê mais um velho branco numa posição de poder? As suas primeiras nomeações e a sua primeira encíclica serão uma primeira pista. Mas a sua última homilia como cardeal e as primeiras como papa parecem apontar para um papa Ratzinger.
Mas até pode ser que o papa Ratzinger venha a ter algo de disciplinador e algo de benévolo. Desconfio, no entanto, que tenderá a ser disciplinador de teólogos incómodos e de esquerda, e compreensivo e benévolo para, por exemplo, os cardeais conservadores seus amigos que vieram já violar o segredo do conclave para dizer que ele foi sempre o favorito. Pai (severo) do povo e mãe (benévola) dos ricos diziam no Brasil de Getúlio Vargas...
Publicado por bruno cardoso reis emMas quer dizer, agora TODOS os Domingos temos homilia deste tipo???????????????????????????
Ninguém tem aí um pacote de hostias para o calar?
Afixado por: noiseformind em abril 24, 2005 02:59 PMDesculpem lá mas tenho de dizer isto em público a um colega barnabé: excelente texto, Bruno.
Depois de semanas daquilo a que eu chamo propaganda, mas que só podia ter como efeito aproximar a igreja católica e o povo mundial, vem um papa que não podia ser menos eleito pelo "espírito santo" e mais pelo carreirismo, manobrismo político no interior da sua instituição e espírito sectário. Ratzinger não é da Opus, mas a Opus, a Comunhão e Libertação e outros não desejavam ardentemente mais nenhum papa senão este.
Os católicos em geral, e não só os católicos liberais e moderados têm de tomar muito cuidado com esta gente e este papa que, como bem nota o Bruno, diz que os fiéis têm de ser protegidos dos intelectuais mas é apresentado ele próprio como um intelectual de envergadura e até (já vi para aí escrito nos textos dos seus sectários) "o homem mais inteligente do mundo". Isto é culto da personalidade muito semelhante ao do pior marxismo-leninismo. O povo é simples, o chefe é o único que está ali para pensar. E o pior é que Ratzinger não foi eleito para ficar de braços cruzados.
QUanto a si, noiseformind, aposto 20 euros em como não perdeu mais do que dois minutos a ler o texto.
Afixado por: rui tavares em abril 24, 2005 03:39 PMRecomendo uma notícia no jornal Observer de hoje(http://observer.guardian.co.uk/international/story/0,6903,1469055,00.html) em que é se revela a existência de uma carta de Ratzinger que apelava ao secretismo e investigações internas de casos de pedofilia.
O guardião da ortodoxia é também o zelador mor da imagem da Igreja, mesmo que o seja à custa da lei e das vítimas de pedofilia. Ratzinger acha que, mais do que a cidade dos homens, importa manter imaculada a imagem daqueles que têm a chave dos céus.
Papa revolucionário...bem "esgalhada" essa.
Como era uma escolha rara é uma escolha revolucionária. Atenção, não estou a contestar a ideia. Se formos ao dicionário procurar revolução:
(1)insurreição que tende a modificar a política ou as instituições de um Estado;
(2)perturbação moral;
(3)indignação;
(4)nojo;
(5)repulsa.
É de facto uma revolução(1), mas o que eu sinto por esta revolução(1) é uma profunda revolução(3) e revolução(5). Sinto revolução(4) e acho que Ratzinger poderá padecer de uma revolução(2).
Estou a brincar, não me levem muito a sério, se não caem no ridículo.
P.S. é só ir acima e fazer o puzzle.
Afixado por: João Dias em abril 24, 2005 04:12 PMQuando quem apela à desobediência civil dos funcionários espanhóis é o Cardeal que quer ver Isabel a Católica canonizada, parece-me bem claro qual o modelo de relação estado-igreja a que aspiram. Veremos se no frenesim beatificador que grassa pelo Vaticano um dos próximos não será o Generalissimo...
Afixado por: map em abril 24, 2005 04:27 PMPela primeira vez comentarei algo num blogue onde venho frequentemnte ler(todas) as intervençoes e respectivos comentarios, mesmo quando delas discordo ou tenho diferente visao.
Suponho que a maioria dos autores nao sao catolicos (eu proprio me tornei agnostico, infelizmente) mas nao compreendo muito bem esta crispaçao contra o papa, seja ele quem for,e a actual doutrina da igreja.Aceite-se ou nao é uma questao de fé... e a fé que por aqui predomina nada tem a ver com religiao, mas com ideais politicos,sociais e filosoficos a que o espiritualismo nada acrescenta.Separemos pois as aguas...e'deixemos a César o que é de César' mesmo quando 'César' nao corresponde ao que cada um deseja.Mas isso é outra historia...
Para registo, a religiao catolica nao é ja a primeira religiao mundial, foi ultrapassada pelo islamismo, nos ultimos tres anos,em termos absolutos(de crentes), porque em estados confessionais a sitaçao é conhecida(espero)de todos.
Vivo num pais, onde os catolicos(portugueses) se viram(oficiosamente)forçados a suspender vulgarissimas procissoes anuais a volta da sua igreja por susceptibilidade de muçulmanos, os quais porém defendem a se tolerados ao sacrificar animais dentro de suas casas(absolutamente interdito por lei como se compreende) imporem o véu a suas filhas e mulheres, recusarem ginastica e nataçao mista, e reinterpretarem a seu modo a Historia e Ciencia que ensinam na escola sempre que tal colide com o Corao, entre outras opçoes...
Para criticar o catolicismo, nada como conhecer outras religioes, outros modos de vida (que estao ja presentes em Portugal,evitemos ou nao olhar para eles)e fazer uma sintese.
E depois esperar... a ver vamos como dizia outro...
É muito fácil tirar frases soltas fora do contexto para atacar este Papa. Não é dificil perceber que o papa não quer esconder as pessoas simples de todos os intelectuais, mas de alguns intelectuais que usam da astúcia e meias-verdades, para tentar destruir a igreja... mas fico feliz por ouvir dizer que a igreja sempre teve grandes intelectuais.... vá lá , vá lá ...
Afixado por: Anti-barnabé em abril 24, 2005 05:09 PMÉ muito fácil tirar frases soltas fora do contexto para atacar este Papa. Não é dificil perceber que o papa não quer esconder as pessoas simples de todos os intelectuais, mas de alguns intelectuais que usam da astúcia e meias-verdades, para tentar destruir a igreja... mas fico feliz por ouvir dizer que a igreja sempre teve grandes intelectuais.... vá lá , vá lá ...
Afixado por: Anti-barnabé em abril 24, 2005 05:12 PMDiz um leitor do Barnabé que as palavras do Papa terão sido mal interpretadas e que ele apenas proteger o povo de "alguns intelectuais que usam da astúcia e meias-verdades,". Pois, selecionar para o povo aquilo que lhe interessa e não perturbe a tranquilidade. O problema é esse mesmo. Será que cabe à Igreja Católica selecionar quem são estes pregadores de falsidades e libertar o Povo dos fardos da mentira?
O Papa arroga-se do direito de interpretar pelos outros quais são os seus verdadeiros interesses. A isto chama-se "falsa consciência" e já foi usado por gente que tem (ou talvez não) muito pouco em comum com a ICAR. Por isso, as palavras não foram mal interpretadas, o problema é que sabemos exactamente o que é que leas querem dizer.
Existe pelo menos uma Universidade portuguesa que tem um departamento de «Ciência das Religiões».
Afixado por: Ricardo Alves em abril 25, 2005 01:20 AMPara parafrasear o cherne este papa é "uma mistura de Zandinga com Gabriel Alves", ao que eu acrescento, mas ao contrário!
Afixado por: NeuroGlider em abril 25, 2005 10:19 PMCaro Bruno:
Bater no ceguinho com mentiras não vale. Nunca Ratzinger afirmou nem afirmaria que não existe salvação fora da Igreja Católica. Para se criticar não é necessário recorrer a uma acusação tão grosseira. Dizer que só há salvação na Igreja Católica seria uma heresia e Ratzinger é um teólogo competente, independentemente de se concordar ou não com ele, pelo que nunca incorreria nessa heresia.
Talvez seja bom dizer-lhe que nos anos 30 do século passado, nos EUA, o P. Feeney pregou aos quatro ventos tal coisa, que não existe salvação fora da Igreja Católica. Ironicamente foi excomungado pelo Papa de então! «Extra Ecclesia nulla salus» não significa que não há salvação fora da Igreja Católica.
A Igreja é sempre um «bombo» fácil, mas convenhamos que nem tudo vale.
Afixado por: Alef em abril 25, 2005 10:36 PMAo tipo que me quer oferecer hóstias: obrigado pela simpatia, mas disso trato eu. E muitissimo obrigado por ter ilustrado perfeitamente o meu ponto sobre a miséria intelectual de muito anticlericalismo português.
Quanto aos que defendem as declarações de Ratzinger com o contexto, diria que a única forma de isso fazer sentido era se na frase seguinte ele tivesse dito, 'desculpem mas a frase anterior está completamente errada e eu queria dizer algo completamente diferente!' Se me conseguirem arranjar exemplos eu agradeço.
Criticar as declarações do cardeal Ratzinger não é atacar a Igreja Católica. Tal como atacar a Inquisição ou o papa Alexandre VI Bórgia não é atacar a Igreja Católica. É atacar um pessoa altamente responsável da Igreja Católica, por sinal antes de ele ser papa. E na esperança de que melhore, embora ela seja pouca.
Quanto aos problemas dos católicos mais liberais e reformistas, dos erasmianos, eles não são novos. Sempre combateram em duas frentes. E não são nada comparado com os do século XVI ou até do século XX (onde por exemplo católicos que se recusaram a alinhar com Franco foram sumariamente fuzilados pelas milícias republicanas). Mas sabe sempre bem ver que há quem aprecia um argumento mesmo que não seja a partida o seu.
Quanto a existirem centros de estudos das religiões. Há, que eu saiba um na Lusófona, que é privada. Há muita coisa na Católica, claro. E há, parece-me alguma coisa na Nova sob a égide do esotérico Moisés Espírito Santo, e ainda alguma coisa de sociologia das religiões na Covilhã. Mas tudo muito embrionário e muito recente. Espero que prosperam, mas sobrevivem num clima adverso.
Finalmente sobre a "mentira" em relação a Ratzinger e a não haver salvação fora da Igreja. A resposta curta é que não é mentira, é uma declaração formal muito inoportuna nos tempos de pretenso choque de civilizações e religiões, por parte da Congregagação da Doutrina da Fé, datada de 2000 e assinada pelo cardeal Ratzinger. A resposta longa, ou seja, a declarção na íntegra, pode ser lida aqui http://www.catholic-defense.com/dominus.htm. Suponho que ele pelo menos respeite a emenda consagrada no Vaticano II a este doutrina tradicional (aliás comum a muitas religiões), no sentido de que podem salvar-se alguns que sem o saber fazem afinal parte da Igreja em espírito...
Afixado por: bruno cardoso reis em abril 26, 2005 06:47 PMBruno:
De novo: apesar do que escreveu, repetindo um erro anterior, e apesar de num "post" mais recente incluir um texto de José Vítor Malheiros que cai no mesmo equívoco, tenho que lhe dizer com toda a frontalidade e em nome da verdade dos factos que NUNCA o cardeal Ratzinger afirmou que não há salvação fora da Igreja Católica. Desafio-o a mostrar-me o contrário, com citações devidamente documentadas. A «Dominus Jesus», a que remete o seu «link», não diz tal coisa. É uma pena que se continue a afirmar tal barbaridade, porque atribuir tal coisa a Ratzinger (o que seria uma heresia) é uma barbaridade. E um absurdo teológico, que Ratzinger nunca cometeria. Caro Bruno: aguardo e agradeço a sua resposta.
Afixado por: Alef em abril 27, 2005 02:58 PMPara quem gostar destas coisas, o Português é uma das sete línguas em que o sítio do Vaticano disponibiliza a tal declaração Dominus Iesus:
http://tinyurl.com/52p7f
Depois de ler umas partes, devo confessar que para mim esta tradução é apenas ligeiramente mais inteligível do que a versão em Latim. Mas seria útil que alguém entendido no assunto explicasse se afinal é ou não é dito que não há salvação fora da Igreja Católica. E, se é dito, em que passagens.
Caro Míope:
O documento está em Português no site do Vaticano, em http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html.
Conheço razoavelmente bem o documento e a história do aforismo «Extra Ecclesiam nulla salus» e da problemática que o envolve. O documento citado não diz -- ao contrário do que escreveu o Bruno, o José Vítor Malheiros, o Miguel de Sousa Tavares e muitos outros «opinion makers» da nossa praça -- que não há salvação fora da Igreja Católica, e nunca Ratzinger afirmaria tal coisa.
Como escrevi noutra minha intervenção, a única pessoa que pregou tal coisa aos quatro ventos (o americano P. Feeney) foi declarada fora da comunhão da Igreja (=excomungado), nos anos 30 do século passado, pelo Papa de então.
O que me espanta é que estes «opinion makers» se copiem uns aos outros e pensem que por afirmarem um erro até à exaustão fazem disso uma verdade. Ratzinger pode ser criticado por muitas coisas, mas não por esta barbaridade teológica. Ora, espero que com esta intervenção chamar a atenção para o facto de que nem tudo vale nas críticas que se fazem, sobretudo se são acusações falsas. Por isso fiz o desafio de me provarem documentalmente o que afirmam. Uma de duas coisas se espera: a prova do que afirmam, ou o desmentido formal.
Afixado por: Alef em abril 27, 2005 11:47 PMEsta passagem parece pertinente para o assunto, na parte VI, "A Igreja e as religiões no que concerne à salvação":
"A Igreja é « sacramento universal de salvação »,79 porque, sempre unida de modo misterioso e subordinada a Jesus Cristo Salvador, sua Cabeça, tem no plano de Deus uma relação imprescindível com a salvação de cada homem.80 Para aqueles que não são formal e visivelmente membros da Igreja, « a salvação de Cristo torna-se acessível em virtude de uma graça que, embora dotada de uma misteriosa relação com a Igreja, todavia não os introduz formalmente nela, mas ilumina convenientemente a sua situação interior e ambiental. Esta graça provém de Cristo, é fruto do seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo ».81 Tem uma relação com a Igreja, que por sua vez « tem a sua origem na missão do Filho e na missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai ».82"
E a nota 82, referida no final, é:
"(82) Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 2. É no sentido aqui explicado que se deve interpretar a conhecida fórmula extra Ecclesiam nullus omnino salvatur (cf. Conc. Lateranense IV, Cap. 1. De fide catholica: DS 802). Cf. ainda Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston: Denz., n. 3866-3872."
Tanto quanto pude apurar, a frase "extra Ecclesiam nullus omnino salvatur" significa algo como "fora da Igreja absolutamente ninguém se salva". Porém, se o sentido em que isto é interpretado pelos cristãos é o que se explica na declaração Dominus Iesus, então por mim tudo bem. Como agnóstico, não me faz qualquer mossa que os cristãos creiam que, se eu me "salvar" (e o significado disto daria para outra discussão interminável), isso acontecerá porque, mesmo sem o saber, mantive uma "misteriosa relação com a Igreja". Não me choca que creiam que essa "graça provém de Cristo". É uma visão do mundo, um modelo de como as coisas funcionam, que não revela desrespeito, antes pelo contrário. Não estão a querer humilhar-me com a noção de que, se não sou formal e visivelmente cristão, não serei "salvo". Não estão a querer convencer-me pelo medo a converter-me. Estão a respeitar as visões não-cristãs do mundo e simplesmente a interpretá-las a partir do seu ponto de vista (inevitavelmente) cristão.
Caro Míope:
Basicamente o que diz está correcto. O aforismo «Extra Ecclesiam nulla salus» provém originariamente de S. Cipriano e referia-se àqueles cristãos que apostatavam sob perseguição. S. Cipriano vincava assim a «insensatez» de renegar a fé para salvar a pele (ou a vida). Contudo, a história deste aforismo na História da Igreja oferece igualmente uma visão positiva do próprio significado da Igreja. Trata-se, como sugere e bem, de uma visão cristã (explicação teológica «ad intra») de um problema grave: «como se podem salvar aqueles que não fazem formalmente parte da Igreja?». Dizer que «fora da Igreja não há salvação» (e note-se que aqui se diz «Igreja» e NÃO «Igreja Católica»!) significa também que aqueles que se salvam têm uma qualquer ligação «mística» com a Igreja, porque se salvam por acção de Cristo, que é, na terminologia de S. Paulo, «Cabeça da Igreja».
Portanto, longe de ser uma atitude fundamentalista ou sectária, é uma visão muito mais alargada e optimista: os confins da «Igreja», no sentido daqueles que se ligam à sua «Cabeça», são muito mais amplos que os limites formais de uma confissão religiosa ou de uma «denominação». É, portanto, uma visão muito positiva e «esperançada» da salvação...
Por essa mesma razão, desde os primeiros séculos se desenvolveu a ideia teológica do «baptismo de desejo» (aqueles que não se baptizaram, por desconhecimento do Cristianismo ou por outra razão não culpável, poderão ter no seu íntimo as mesmas disposições de um catecúmeno que se baptiza) e nunca foi esquecido aquilo que diz Paulo numa das suas cartas: «Deus quer que todo o homem se salve». E na Bíblia o querer de Deus é operativo, só «vencido» pela liberdade do homem de rejeitar uma felicidade oferecida. E -- perguntam os crentes -- alguém que «veja» a felicidade oferecida por Deus a poderá recusar? Também por isso nunca a Igreja disse em qualquer documento doutrinário que alguém esteja no Inferno.
Ligada a esta noção do «baptismo de desejo está também a conhecida ideia teológica dos «cristãos anónimos», do famoso teólogo católico alemão Karl Rahner, muito preocupado com a questão do ateísmo e posteriormente com a questão do pluralismo religioso.
A parte da «Dominus Jesus» que o Míope cita é importante e basicamente fez a leitura correcta. A nota também é muito importante, até porque refere o caso que eu mencionei: a carta do Santo Ofício ao bispo de Boston, que era o bispo do P. Feeney, o tal que afirmava que só os católicos se salvavam e que, por isso, foi excomungado.
De anotar ainda que o documento em questão («Dominus Jesus») refere-se à «Lumen Gentium», que se recusou a identificar a «Igreja» com a «Igreja Católica», usando uma expressão subtil: «A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica». Isto significa que a Igreja Católica também é Igreja de Cristo, mas esta vai para lá da Igreja Católica. E Ratzinger sabe muito bem disto, pois esteve na discussão desse importante documento do Concílio como perito. Tal como Karl Rahner.
É claro que a «Dominus Jesus» tem alguns pontos problemáticos e teologicamente discutíveis, mas não ao nível do por aí se escreve. Obviamente há também que entender o porquê da «Dominus Jesus»: uma visão positiva da salvação e uma ideia alargada da Igreja não deve confundir-se, entre os Católicos (é um documento para os Católicos), com a ideia de que tudo vale o mesmo. É o tal medo do relativismo.
E há que dizer que nesse aspecto tem razão e não se poderia esperar outra coisa: os Católicos têm boas razões para continuar a serem Católicos. O problema é que o documento carrega demasiado nas tintas em certas formulações, certamente discutíveis, que desagradaram a muita gente.
Mas daí a dizer que só os Católicos é que se salvam, vai um abismo de diferença.
Afixado por: Alef em abril 28, 2005 03:37 PMEntão Barnabés, que dizem aos últimos posts?
Afixado por: Sebastião Sibarith em abril 29, 2005 09:46 AMComo imaginam não me pagam para por postes e portanto infelizmente perdi esta polémica. Em todo o caso cabe notar o seguinte. O comentador Alef, que muito valorizou este debate diga-se, afirma que referir que Ratzinger tinha dito que não há salvação fora da Igreja é uma mentira, pura e simples propaganda. Ora, não é mentira, é o cerne de uma declaração da congregação que ele dirigia. A sua exacta interpretação teológica pode ser discutida. Mas não se pode desqualificar a crítica como uma simples mentira.
Como eu próprio referi e seria quase inevitável, a declaração referida incorpora algo da lição do Vaticano II (e uma longa tradição anterior de distinção entre Igreja visível e invisível). A questão é, em que sentido é que a declaração vai? O que é que ela acrescenta a isso? É o cuidado em afastar erros nascidos do ecumenismo. Nomeadamente afirma (para 17) 'Existe portanto uma única Igreja de Cristo que subsiste na Igreja Católica.' Ou ainda (para 20) 'a Igreja peregrina na terra é necessária à salvação. Só Cristo é mediador e caminho de salvação'.
Noto ainda na recente homilia do papa Ratzinger a quase ausência de qualquer referência a outras religiões. Mesmo quando refere outras confissões cristãs, é sob a forma hegemónica daqueles 'que ainda não estão em comunhão connosco' (no que repete a citada declaração que tem ainda o cuidado de referir no paragrafo 17 que aqueles grupos cristãos que 'não conservaram um válido episcopado [...] não são Igrejas em sentido próprio.') A referência aos judeus é qualificada por umas 'promessas irrevogáveis' que parecem uma referência nomeadamente à promessa de que todos os judeus se convertarão no final dos tempos. Como exemplo de ecumenismo é curto.
São também bem conhecidas as declarações de Ratzinger, aliás elogiando o marxismo en passant, sobre nem todas as religiões serem iguais, e existirem 'religiões doentes'. Continuo a achar tudo isto pouco feliz num papa, especialmente no momento actual. Nunca tive grande consideração, em geral, por quem acha que faz parte dos seus deveres atacar a concorrência. O meu ponto fundamental, que mantenho, é que não penso que Bento XVI seja um papa ecuménico. Pode ser que me engane, espero que me engane, mas não apostaria nisso.
Afixado por: bruno cardoso reis em abril 30, 2005 03:37 AMCaro Bruno:
Ver esta questão em termos de perder ou ganhar polémicas é empobrecedor. Muitas vezes é preferível não termos razão nas nossas críticas. Pode ser um sinal de que o mundo não está tão mal como o pintamos...
Não será necessário repetir o que já foi dito; apenas sublinhar uma distinção capital na Teologia e nos documentos oficiais católicos, pois, aparentemente, a sua mensagem não regista essa «subtileza». É a distinção entre «Igreja» (ou «Igreja de Cristo») e «Igreja Católica», que já expliquei brevemente a propósito do «subsiste». Dizer que «não existe salvação fora da Igreja» é uma coisa, que, apesar da formulação pela negativa, tem um sentido positivo que o Míope evidenciou e que também sublinhei. Dizer que «não existe salvação fora da Igreja CATÓLICA» é outra, porque se introduz um elemento «denominacional» de tipo exclusivo. Há uma enorme diferença teológica entre as duas afirmações e o salto de uma a outra não é legítimo, como já expliquei, sobretudo se com a segunda afirmação se entende que os não-Católicos não se salvam. A «mentira» ou «falsidade» está aí. Na primeira afirmação há algo aceitável teologicamente e até positivo, como já foi explicado; na segunda há uma heresia e Ratzinger pode ser conservador, mas não é tonto.
De qualquer forma, sanado este problema, a sua última mensagem tem vários elementos de verdade. O documento «Dominus Iesus» tenta travar leituras ecuménicas mais abertas, suspeitas de relativismo, problema a que também já aludi. De uma forma simples, o que o documento tenta vincar (e recordo mais uma vez que é um documento para Católicos e não trata propriamente do diálogo inter-religioso enquanto tal, mas de algo prévio) é o seguinte: os católicos têm boas razões para continuar a ser católicos e para não pensar que para eles tudo vale o mesmo. A ver se me explico: uma coisa é que eu aceite que um budista se salva, outra é que por causa dessa ideia eu me faça budista, porque tanto faz ser católico como budista. E posso ter até pensar que o melhor para este budista é que seja um bom budista. Mas isso não me deve impedir de propor Jesus Cristo também a um budista. E mais: para mim, para a minha situação vital, devo continuar a ser católico e dar razões da minha fé (=relação de confiança com Jesus Cristo), porque é aqui que Deus me chama a crescer em plenitude, e acredito que este é um caminho que deve ser mostrado e proposto a outros. Não esqueçamos que a evangelização (=testemunho da «Boa Notícia» da Ressurreição de Jesus Cristo) é parte integrante do Cristianismo, desde o seu início.
E convém notar que, mesmo para quem esteja «fora», isto se entende perfeitamente e até poderíamos usar analogias humanas, como a da pertença a uma família. Por exemplo, seria lógico que a Igreja dissesse que todas as religiões valem exactamente o mesmo, pelo que em vez de participarem numa Eucaristia os católicos podem participar num culto religioso numa mesquita ou ir aos serviços religiosos das Testemunhas de Jeová, ou ainda substituir o Baptismo pelo rito da circuncisão tal como se faz no Judaísmo? Creio que não, o Ecumenismo e o diálogo inter-religioso são outra coisa, que nem sequer tem muito a ver com a «negociação de pontos de vista». Basta falar com um hindu para perceber isso.
Há aqui muitas outras questões de pormenor que poderia referir, como é a questão do episcopado válido, da recepção da Eucaristia (comunhão) com pessoas de diferentes confissões cristãs, etc., mas isso levar-nos-ia longe e possivelmente este não é o espaço mais apropriado. Passe a publicidade, normalmente discuto estes temas mais «técnicos» num fórum católico onde participo regularmente, em Paroquias.org. De referir apenas que as «promessas irrevogáveis» em relação aos Judeus têm a ver com as promessas feitas a Abraão e não com essa ideia de uma conversão massiva ao Catolicismo.
Sobre as referências a outras religiões, o Papa Bento XVI já as fez, embora ainda seja muito cedo para «avaliar». Para já, «estamos» na fase da «suspeita» e há que esperar uns meses para ver algumas «tendências». Num certo sentido também suspeito que este Papa terá menos entusiasmo por uma franca abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso (são coisas diferentes), mas também é verdade que, se este Papa o quiser fazer, tem toda a autoridade para o fazer, não só por ser o Papa, mas precisamente por ser tido por conservador. Como dizia há dias alguém, há coisas assim, que «à bruta» se pode enunciar com esta comparação (haverá melhores exemplos): «Só Sharon pode retirar da Faixa de Gaza»... Neste sentido, há boas razões para não ficar demasiado alarmado com a escolha deste Papa. Pode ser uma boa surpresa. E assim o espero.
Afixado por: Alef em abril 30, 2005 03:51 PMQueria agradecer os esclarecimentos VALIOSÍSSIMOS de Alef, porque esclarecimentos destes andam, nos dias que correm, bem longe dos jornais que todos se gabam de ler.
A distinção teológica fundamental esclarecida pelo Alef, entre "Igreja de Cristo" e "Igreja Católica", não é apenas um detalhe que o Bruno Cardoso Reis possa sacudir como água do capote.
Bruno, quando diz:
"afirma que referir que Ratzinger tinha dito que não há salvação fora da Igreja é uma mentira, pura e simples propaganda. Ora, não é mentira, é o cerne de uma declaração da congregação que ele dirigia."
Está descaradamente a fugir a um facto: você estava equivocado.
"A sua exacta interpretação teológica pode ser discutida. Mas não se pode desqualificar a crítica como uma simples mentira."
Não, meu caro. Não!
Não há lugar a dúvidas, porque o Alef explicou-lhe bem o significado das palavras de Ratzinger. Mais uma vez, a opinionite aguda sobrepõe-se ao bom senso, e à tentativa de conhecer o contexto.
Sem conhecer a história por detrás do "extra Ecclesia nulla salus", torna-se infantil comentar certas frases como o Bruno comentou.
Todos nos podemos enganar.
O carácter sublime de uma mente honesta e humilde está em deixarmo-nos corrigir por outrém.
Entristece-me constatar que, mais uma vez, é tão difícil reconhecer um erro, e admitir humildemente uma falha por desconhecimento.
Sei que o Bruno aprendeu com as explicações de Alef, mas ficar-lhe-ia muito bem, pelo menos, reconhecer de forma clara que estava equivocado...
Para quem leu a sua resposta atrapalhada, mesmo sendo um leitor ateu ou agnóstico, isto soa muito mal e é feio.
Afixado por: Bernardo em maio 1, 2005 12:58 PM