abril 27, 2005

O "relativismo" dá mesmo um jeitão

Na mouche, a crónica de José Vítor Malheiros, no Público de ontem [sem link]:

«Quando alguém como Ratzinger chama a atenção para o "relativismo moral" da sociedade moderna mas, ao mesmo tempo, afirma que "não há salvação fora da Igreja Católica" [...] ou condena o aborto em nome da defesa da vida mas se mostra compreensivo para com a pena de morte, compreendemos que os "valores morais universais e absolutos" que defende são apenas a supremacia das posições do Vaticano sobre todas as outras, com as variantes regionais e temporais que este entenda defender.
O Vaticano não possui qualquer autoridade para falar de "relativismo moral" pois essa é a sua moeda corrente. Um dos domínios onde isso é gritante – e só não vê quem não quer – é a questão dos direitos das mulheres no seio da Igreja. A Igreja não pode considerar que o mais alto papel a que uma mulher pode aspirar é lavar os pés do Papa e falar de duplicidade de critérios. Como não pode abençoar torcionários e autores de massacres e falar do direito à vida, ou amordaçar as opiniões divergentes no seu seio e falar dos direitos humanos. Ou condenar milhões de africanos a morrer de SIDA ameaçando-os com o inferno se usarem o preservativo e falar da piedade, do perdão e do amor de Cristo.»

Publicado por ruitavares em
Comentários

So é pena que não perceba nada do que é Moral... nem o significado do lava-pés! É que essa é a maor honra de um Cristão! Mas o triste diz uma graçolas e a beatice vermelha aplaude...
Carneirada ignara!

Afixado por: Queriam... em abril 27, 2005 03:00 AM

Rui, esta discussão Papa versus preservativo parece-me que já passou o prazo de validade. Sejamos intelectualmente honestos. Se os católicos e não católicos (pelo que percebi) ouvem o Papa quando este diz para não usarem preservativo, também, o ouvem quendo diz para não terem relações sexuais fora do casamento. Ora se a moral católica prevê a virgindade até ao casamento, não há grande perigo de se contrair Sida por esta via, pois não?

Afixado por: afonso salgueiro em abril 27, 2005 03:58 AM

Afonso, sabes que há infectados com SIDA que são casados?
Afonso, sabes que é fácil convencer as pessoas a não serem fieis mas é difícil convence-las a usar preservativo e que com os seus discursos a Igreja dá uma desculpa moral para não usar o preservativo?
Queriam, explica-nos lá o que é Moral?

Afixado por: danieloliveira em abril 27, 2005 05:39 AM

Daniel Oliveira,

Se calhar as pessoas não querem mesmo usar preservativo, e não estando infectadas, estão no seu direito. As beatices católicas ainda se percebem. Eles já andam nisto há 2000 anos. Agora a esquerda quer criar uma nova beatice: há que convencer as pessoas a usar preservativo, mesmo que elas não queiram.

Afixado por: JoaoMiranda em abril 27, 2005 01:20 PM

e a maioria dos catolicos são virgens até ao casamento...
por outro lado, não é obrigar, é dar lhes a conhecer algo que lhes permite ter relações sexuais sem prejudicar ninguem. a partir daí que façam o que bem entendem, tendo em conta a sua moral, claro.

este é o conceito basico de prevenção. dentro deste conceito está tambem a educação sexual e o pleneamento familiar.

há alguem contra a educação sexual ou o planeamento familiar?

não há contradição entre preservativo e moral catolica, o problema é que há quem não entenda isso.

Afixado por: oscar pinto em abril 27, 2005 01:44 PM

Caramba, o "Público" traz destas preciosidades?! Não é ironia, mas sério. Que isso é uma súmula de verdade. Pois não é o que se procura à vezes, a verdade? Sem tirar nem pôr, a lídima verdade acerca de Bento e da sua Igreja? Compreende-se que ovelhas não gostem e ainda chamem os demais "carneirada".

Afixado por: daimon em abril 27, 2005 02:53 PM

É uma pena que este senhor misture alhos com bugalhos e não se informe um pouco melhor. Já o disse noutro comentário, mas repito-o: NUNCA Ratzinger disse que não há salvação fora da Igreja Católica e desafio qualquer pessoa a mostrar-me documentalmente o contrário. O senhor articulista diz uma grave mentira.

Quanto aos outros pontos, muito haveria a comentar, não para «justificar o injustificável», pois há críticas pertinentes, mas mesmo aí há muitas distinções a fazer, muitos matizes a ter em conta. Mas que interessam os matizes a quem parece interessado simplesmente em dizer mal por dizer mal? E, afinal, «aquila muscas non capit»...

Afixado por: Alef em abril 27, 2005 03:12 PM

Caro Alef, o anti-relativismo não se dá lá muito bem com a preocupação com as diferentes marizes de que fala no seu comentário.

Afixado por: MBento em abril 27, 2005 08:49 PM

Mais uma vez leio provocações contra a Igreja Católica. :-(

Meus caros bloguistas, como disse o noso Papa Bento XVI: "Temos de ter paciência".

Afixado por: tatau em abril 27, 2005 10:47 PM

Já para não se falar na campanha de desinformação que tá a decorrer em africa em que a igreja afirma que 80% dos preservativos estão furados. E pior que são furados intencionalmente para propagar a SIDA.

Afixado por: NeuroGlider em abril 28, 2005 02:27 AM

Caro MBento:

A necessidade de distinções e matizes na discussão de uma questão nada tem a ver com relativismo. Posso dar-lhe um excelente exemplo disto mesmo. Sugiro-lhe que alguma vez folheie a «Summa Theologica» de Tomás de Aquino e verá como aí se combinam as mais refinadas distinções e matizes sem que isso signifique relativismo.

Afixado por: Alef em abril 28, 2005 10:51 AM

Caro NeuroGlider:

É feio falar de cor e dizer coisas à toa. As suas afirmações sobre os preservativos em África revelam uma leviandade inclassificável. Deveria saber que, na realidade, o que se passa, de facto, por exemplo, em Moçambique e na África do Sul, é que muitas instituições da Igreja, além do imenso trabalho no terreno de trabalhar com os doentes (ah, como é fácil mandar bitaites do conforto de uma poltrona com um computador na frente!), também distribuem preservativos. E o mesmo acontece em muitos sítios na Europa, concretamente em casas de acolhimento de toxicodependentes sob a responsabilidade de instituições ligadas à Igreja. A Igreja Católica vive um problema de «esquizofrenia» em vários âmbitos da moral, porque os seus documentos oficiais apontam a ideais muito elevados, mostrando aparentemente incompreensão em relação às situações em que as pessoas vivem, mas muitas pessoas há na Igreja que, não negando o valor dos ideais, também sabem que por vezes há que escolher o mal menor. Aqui se insere o uso do preservativo para evitar a propagação da SIDA. E não esqueça (se alguma vez soube disso) a secular doutrina católica sobre a consciência.

E uma coisa é dizer que a insistência da Igreja na abstinência como único meio eficaz -- não o é -- de conter a SIDA não chega, porque as pessoas infectadas não se abstêm (e a maior parte dos casos de SIDA acontece por via sexual); outra, bem diferente, é afirmar que a Igreja anda a furar preservativos... Caro NeuroGlider, pouco de seriedade também não lhe ficaria mal, para se evitar comentários deste calibre...

Afixado por: Alef em abril 28, 2005 11:31 AM

Caro Alef.
De facto a necessidade de distinções e matizes e não apenas numa lógica “Aquiniana” (chamemos-lhe assim), são pertinentes e intelectualmente exigíveis, qualquer que seja o plano em que a reflexão se situe. Agora, a cautela que resulta do exercício do bom senso poderá permitir a emergência de alguma forma de relativismo. Mesmo nas questões teológicas esta atitude não é de todo desprezível. A vontade da entidade divina (eu chamar-lhe-ei sempre Deus) está para além do nosso entendimento. Sobre ela, ao longo da história do povo de Deus, apenas temos acesso a manifestações parciais e nunca à totalidade do “pensamento divino”. Logo, ao não sermos detentores da Verdade, porque aceito que essa está apenas em Deus, poderemos ter de ser menos assertivos e talvez mais… “relativistas”.

Afixado por: MBento em abril 28, 2005 11:17 PM

Na sequência do post "Ratzinger : o papa revolucionário e o tradicionalismo", bastou-me consultar um documento oficial da Igreja (apontado por um dos autores dos respectivos comentários) para perceber que a interpretação que a própria Igreja faz da frase "não há salvação fora da Igreja" é afinal perfeitamente razoável e (pasme-se) respeitadora das outras religiões e convicções. Distorcer uma coisa destas é tão desnecessário como inútil. Se uma determinada fonte nos desinforma a respeito dum assunto, torna-se legítimo perguntar se a mesma fonte está a ser exacta em relação a todos os outros assuntos. Pela pequena vantagem de se colocar mais uma acha na fogueira, prejudica-se a confiança que se calhar se justifica em relação a todas as outras achas. Incrivelmente, acabo com vontade de perguntar: alguém pode apontar quais são os documentos oficiais da Igreja onde se estabelecem as suas posições em relação ao aborto, às mulheres no seio da Igreja e ao uso de preservativo?

Afixado por: Mí­ope em abril 29, 2005 12:38 AM

Caro MBento,

Você pareceu-me bastante lúcido no seu comentário, porventura ignora a alegoria da planície que esclarece bem a presença da Igreja na Terra:

Milhões de Arquitectos e Engenheiros desenhavam e construíam pontes para o infinito na imensa planície, construíndo cada vez mais alto, cada vez mais forte, sempre em direcção às estrelas.
Mas não chegaram ao infinito. Apenas um bocado mais alto do que o que estavam. Chega então um Homem e diz-lhes: "O vosso coração é enorme, porque desejam o infinito mas a vossa tarefa é frustrada porque nunca lá hão de chegar."
E continua: "Deus teve misericórdia de vós e compreendeu o vosso dilema. Ele mandou-me para que o infinito chegasse até vós, por mim."

Escusado será dizer quem foi. Simplesmente o método alterou-se. Claro que o processo da "verdade" é muito mais vasto do que isto, mas é nesta base que se sustenta.

Depois é apenas uma questão de fé, que resulta da evidência que se tem na experiência de vida.

Afixado por: Luis Dias em abril 29, 2005 09:39 AM