maio 04, 2005

Os talibãs de Cristo

Segundo texto publicado no Expresso, no último fim de semana.

«A Igreja deve ter direitos e fazer exigências sobre lei civil e não pode meramente retirar-se para a esfera privada», escreveu Ratzinger, em 1988. E não lhe faltam seguidores. Para os novos teocratas, a política e a fé são inseparáveis. As convicções religiosas não devem ser apenas opções individuais mas leis de Estado. E a cruzada contra o “relativismo moral” é só a versão soft da sua guerra santa.

Em Espanha, a hierarquia religiosa incita os funcionários públicos católicos a recusarem-se a casar homossexuais, impondo ao Estado a Lei de Deus. Em Timor, em defesa da obrigatoriedade das aulas de religião e moral, a Igreja exige a demissão de Alkatiri, líder de um partido que obteve, democraticamente, a esmagadora maioria dos votos. Dizem os bispos que «a remoção do primeiro-ministro pelo povo é constitucional». O povo, entenda-se, é representado por eles, bispos, não pelos deputados. O poder só não chegou a cair na rua porque se ficou pelo altar.

No meio de tantos episódios, é interessante ouvir o silêncio dos que fazem da justa defesa da laicização dos Estados islâmicos o alfa e o ómega do confronto civilizacional. A evangelização da política, no Ocidente, não os incomoda. Nos Estados Unidos, teoconservadores, como o líder dos republicanos no Senado, Bill Frist, vão conseguindo impor a sua mundividência, e eles não se apoquentam. É com as mesquitas que perdem o sono. E, contra fundamentalismo islâmico, até aceitam, se for preciso, uma ajudinha do fundamentalismo cristão.

Não nos enganemos. Não são nem laicos, nem liberais. Quando se atiram ao “relativismo moral”, não é em defesa dos valores ocidentais. É com os valores da Revolução Francesa que vivem mal. Quando se indignam com o fanatismo religioso, não é em defesa de um Estado laico que se movem. É contra o infiel. Que Deus nos salve do Ocidente que estão a inventar.

Publicado por danieloliveira em
Comentários

A mim também me incomoda o misturar religião e política, mas a verdade é que estes dois ramos da ideologia não se encontram assim tão separados.

Entre o evangelho segundo S. Mateus e o Kapital segundo Karl Marx não existem diferenças muito significativas nas raizes teóricas, que se resumem numa palavra: .

Afixado por: Pedro Oliveira em maio 4, 2005 05:45 PM

Pedro Oliveira, essa fé é de cariz muitissimo diferente. Aliás, se quisermos ir por aí tudo se resume à fé. Mas acho redutor e simplista.

Afixado por: João Abreu em maio 4, 2005 05:56 PM

Tu podes ver alguma diferença, João, eu só consigo ver fé (mas não sentir, feliz ou infelizmente).

Afixado por: Pedro Oliveira em maio 4, 2005 06:34 PM

Esta armada religiosa é preocupante. Eles são salvadores e agressores. Em nome de valores tão altos se cometem actos tão baixos. João Paulo II teve na altura da guerra uma posição acertada, se ele silenciasse ou pactuasse com a ideia, podia estar implícita a ideia de uma guerra santa.

Muitas vezes ouço crentes dizer que a religião orienta um tipo de conduta, parece que ratzinger não se contenta com o "orientar", ele quer mesmo é ao empurrão.

Está criado um confronto de religiões com o qual eu não tenho nada a ver, mas ao qual não consigo ficar indiferente. Pois gera-se intolerância e estupidez em nome de valores que deviam "salvar" a civilização.

Afixado por: João Dias em maio 4, 2005 06:56 PM

claro que não se contenta só com o orientar nem com a conduta é só analisar a parte relativa a salvação do famoso "dominus iesus" que se chega lá...

e quem tiver duvidas que leia as "dimensões da espiritualidade" de dalai lama, e descubra as diferenças.

Afixado por: oscar pinto em maio 4, 2005 08:20 PM

talibãs camarada ?
mas o camarada daniel não gosta dos talibãs ?
ou será que só gosta dos talibãs muçulmanos ?

Afixado por: fidel em maio 5, 2005 09:21 AM