maio 04, 2005

Os medos da esquerda

Como sempre, à quarta, publico aqui as ´crónicas do "Expresso" do último fim-de-semana.

O PCP, a quinta força em Lisboa, queria ser tratada como se fosse a primeira. Razão apresentada: o PCP é muito mais forte nas autárquicas e nas últimas em que concorreu sozinho em Lisboa, em 1985, teve 27%. Só que nessas mesmas eleições, recorde-se, teve 20% dos votos, a nível nacional. Nas últimas autárquicas, há quatro anos, teve metade. Mais: em 1985 teve, em eleições legislativas, 18% no concelho de Lisboa. Agora tem menos de metade. Não preciso de continuar, pois não? Nem o PCP vale o mesmo que valia há vinte anos, nem as diferenças dos seus resultados entre autárquicas e legislativas são as mesmas de então. Que o PCP se queira conservar em formol, é legítimo. Que possa fazer o mesmo aos seus resultados é que é mais discutível.

É normal que, na negociação com o PS, não se tenha passado ao debate programático. Todos sabiam que era nos lugares que coisa ia empanar. As propostas do PCP eram de tal forma estapafúrdias que só podiam querer dizer que, não querendo a coligação, também não queria ser responsabilizado pela sua inexistência. Só que, para ser justo com o PCP, é preciso dizer que não esteve sozinho nesta estratégia. Na verdade, toda a esquerda fez o mesmo.

Trata-se de uma história antiga. Mesmo quando o seu eleitorado as quer ver juntas, como parecia ser o caso, as esquerdas têm medo. Medo do “frentismo”. Medo de não ditar as regras. Medo de perder a pureza original. E, apesar de tantos medos, todos parecem ter mais olhos que barriga. As esquerdas vivem assim há 31 anos. Porque a nossa democracia nasceu de um combate entre elas e elas ainda não saíram desse tempo. Ainda não ultrapassaram, todas elas, a arrogância ideológica, os ódios acumulados, as guerras do passado. E é pena. Lisboa estava precisada de algum sentido prático. Não houve.

Publicado por danieloliveira em
Comentários

Subscrevo o post, o medo da esquerda não é partilhado pelos seus eleitoresm.

Afixado por: João Dias em maio 4, 2005 06:05 PM

Olá.

Partindo do princípio que:

Objectivamente:

1. Factos são factos.

2. Opiniões são opiniões.

Subjectivamente:

1. Determinados factos podem servir para expressar opiniões.

2. Opiniões podem ser expressas para justificar determinados factos.

Chego aqui:

Geralmente partimos de convicções pessoais que posteriormente procuramos justificar encontrando factos sobre os quais estas possam assentar.

As questões que coloco perante os números que apresentas são simples: Estão eles apresentados e avaliados de forma correcta? Números são números ou haverá algo mais a ler perante alguns números?

Respondendo desde já às duas questões que coloco: Não. Nim.

O Não: Para analisarmos números, temos que recolher todos os que estejam disponíveis e não apenas alguns destes. Temos depois que ser rigorosos na sua análise. Procurar definir uma reflexão sobre 20 anos partindo de meia dúzia de números será no mínimo insensato. Dizer depois que o PCP teve determinada votação nas últimas autárquicas é esquecer/omitir algo demasiado importante para que tal aconteça. O PCP não concorreu sozinho. Foi uma das forças políticas que integrou a coligação Amar Lisboa. E é precisamente este facto que penso ser fulcral para tornar mais objectiva a análise subjectiva que se tem procurado fazer em relação à gorada reedição da coligação para Lisboa. Desta forma,

O Nim: Recordar a coligação Amar Lisboa para compreender o(s) momento(s) políticos vividos na cidade nos últimos anos. Tanto por parte do PS como pelo PCP, duas figuras pouco, ou mesmo nada, consensuais: João Soares e João Amaral, respectivamente. Os resultados são conhecidos: a coligação de Direita ganhou a Câmara. A coligação Amar Lisboa ganhou a Assembleia. O rosto do PCP ganhou a Assembleia Municipal. O rosto do PS perdeu a Câmara. Relativamente às Juntas de Freguesia, as coisas permaneceram equilibradas.

Que leitura fazer a estes resultados? Ou não contam para a história?

Pessoalmente sei uma coisa e aposto fortemente em outras duas: Dentro do PCP, este era o resultado desejado por quase todos. Por parte do PS também acredito que o sentimento fosse idêntico. Quanto ao BE, tudo terá corrido de feição. Seria certamente complicado entrar na carruagem PS-PCP com ela em marcha. Agora, o caminho está aberto para que sigam separados ou editem uma nova carruagem: PS-BE.

Entendo que os resultados não deverão nunca ser antecipados, mas algo está desde já garantido: a corrente humana do PCP que garantia quase integralmente as anteriores campanhas da extinta coligação vai desta vez aumentar o seu caudal, dedicando-se exclusivamente à CDU.

Afixado por: vasco em maio 4, 2005 08:26 PM


Fico elucidado com esta argumentação: a negociata entre PS e PCP traduz-se basicamente numa espécie de transacção comercial: toma lá mão-de-obra e dá-me cá lugarzinhos...

Como eleitor lisboeta e de esquerda, fico muito decepcionado com este tipo de comportamento. Então e os programas? E as ideias? E os objectivos? (podem chamar-me lírico...)

Nada, isso parece ser pedir de mais a estes dois partidos. Aliás, basta ver o conteúdo lastimável das mensagens nos primeiros grandes cartazes de rua (penso que destinados a deficientes mentais): PS/Carrilho "-Estamos a preparar um Projecto para Lisboa/Lisboa com Projecto" (encomendado a Arquitectos?...); CDU/Adão Barata (neste caso para um Concelho limítrofe) "-Até já, Loures". Significativo, não?...

Pois foi assim, com esta largueza de vistas e perspectiva estratégica, que a coligação "Amar Lisboa" (de boa memória) perdeu as eleições e, agora, ainda corremos o risco de ver voltar à Presidência o Eng. Carmona...

Da minha parte, vaticino uma luta muito árdua para o ex-Ministro da Cultura, se não começar a debitar algo de concreto, desejo boa sorte à "corrente humana" (mas correm para onde?) e espero confiadamente as propostas do B.E., seja qual for o rosto principal (é nestas coisas que a esquerda não pode imitar a Direita!).

Depois ninguém se admire que o Bloco venha a ser a terceira força política da Capital (com a ajuda da Comunicação Social e blá, blá, blá...)!

Afixado por: A. Castanho em maio 5, 2005 06:47 PM

Tens a certeza de que o "eleitorado as quer juntas"? Eu não. Acho que o eleitorado (e eu também) quer é ver projectos e coisas feitas. E que está (e eu também) farto da lógica do votar à esquerda 'porque sim', como se fosse evidente o que é que a esquerda fará se ganhar as eleições em Lisboa e o que é a direita fará se ganhar as eleições em Lisboa. Não é nada evidente, excepto, ao que parece, para os dirigentes partidários. Parece-me bem que, pelo menos no que toca à política autárquica, os dirigentes vivem num mundo de ficção.

Afixado por: Pedro em maio 9, 2005 07:50 PM

Queremos muito mais!!!

Afixado por: Pedro em maio 9, 2005 07:51 PM