
Blair ou o seu ministro das finanças Gordon Brown?
Hoje continuamos a nossa volta ao mundo em postes, falando da Velha Albion. As eleições legislativas britânicas são amanhã. Uma vitória esmagadora dos Trabalhistas de Blair seria certa não fossem as dificuldades criadas pela guerra do Iraque – a sua ilegalidade e ter sido defendida com dados falsos. O que para os britânicos, pouco dados a devaneios messiânicos, pesa muito. Até porque Bush é detestado pela maioria - o Spectator na véspera das eleições americanas de Novembro passado tinha na capa o desenho de um alvo com a cara de Bush e perguntava: Porque o detestamos tanto?
Mas a maioria dos analistas pensa que apesar das sondagens darem agora uma margem menos folgada aos Trabalhistas, eles ainda assim irão conseguir uma histórica terceira vitória consecutiva (ver o texto e linque do Pedro Magalhães). A verdade é que os Conservadores não são uma alternativa para os críticos da guerra no Iraque. Os Liberais Democratas são. E têm um programa um pouco mais à esquerda do que os próprios Trabalhistas. Mas não são vão vistos no quadro do sistema eleitoral britânico como uma alternativa real. O busílis da questão estará portanto em saber até que ponto o voto táctico destes últimos nos Trabalhistas (e vice-versa) contra os Conservadores vai continuar a funcionar. Timothy Garton-Ash faz um apelo precisamente a isso, num dos melhores textos sobre as falhas de Blair e as virtudes dos Trabalhistas e dos Lib-Dems.
O maior temor do Labour é que a irritação com Blair leve muitos dos seus eleitores tradicionais a (não) votarem com os pés. Daí estarem a dramatizar neste últimos dias. Mas a verdade é que na política interna, onde geralmente se decidem eleições, os trabalhistas parecem imbatíveis, como refere o Luís. Os descontentes não gostam de Blair? Ainda gostam menos de Howard e dos conservadores. Temem o retorno a uma política de desinvestimento nos serviços públicos para financiar cortes nos impostos. E como qualquer governo de sucesso, e como tradicionalmente faziam os Conservadores britânicos, os Trabalhistas no poder têm roubado temas, como o combate ao crime, quer eram típicos da oposição de direita.
Mas sobretudo os Trabalhistas provaram que conseguem gerir a economia melhor do que os conservadores. Presidem ao período de maior prosperidade na Grã-Bretanha de que as pessoas se lembram. Com o crescimento das receitas têm desenvolvido uma política de reforma do Estado que aposta na eficiência no sector público – com metas e avaliações – mas também em mais investimento em áreas como a saúde e a educação. Ou seja, Blair e Gordon Brown, o seu mago económico – é assim que muitos britânicos o vêm – provaram que é possível reformar e reforçar o Estado Social. Mostraram que uma política reformista liberal de esquerda é imbatível! A Lady Thatcher aparentemente está tão «contente» que até saiu do país por uns dias... Será que ela sabe quem vai ganhar?
Blair, dizem fontes próximas, quer bater o recorde desta sua antecessora em Downing Street, mas prometeu não continuar para além deste mandato. Ironicamente este é um trunfo eleitoral importante. Vote Blair get Brown foi um dos slogans menos felizes dos Conservadores. Que recrutaram um australiano especialista em campanhas negativas no modelo americano. Os efeitos notaram-se numa campanha descrita por alguns como tendo descido a níveis nunca vistos; sobretudo na manipulação da questão da emigração. Mas pelos vistos escapou a este génio das antípodas que Gordon Brown é precisamente quem muitos britânicos querem, apesar de Blair! Isso ficou cada vez mais claro com o aproximar da hora da verdade. Depois de ter tentado afastar da campanha este delfim demasiado poderoso, Blair acabou por fazer o máximo uso possível do seu popular ministro das finanças (como se pode ver neste artigo fresquinho).
Blair preferia escolher um herdeiro que lhe devesse o lugar exclusivamente a ele, e que não deixasse dúvidas sobre quem tinha sido a figura chave nesta era de domínio trabalhista. Veremos se a sua alegada vontade de transferir de Brown para o Foreign Office, privando-o assim da sua base de poder nas Finanças, se concretiza. A sua margem de manobra para marginalizar Brown diminuiu. Mesmo que Blair tenha bons resultados eles serão atribuídas por muitos trabalhistas sobretudo a Brown. Mas é um sinal do actual predomínio Trabalhista que o mais sério rival a Blair surja do interior do seu próprio partido!
Em suma, a não ser que exista uma abstenção acima do normal e que os Liberais Democráticas decidam marcar a sua oposição a Blair mesmo onde não podem ganhar, ficaria surpreendido se os Trabalhistas não conseguissem uma terceira maioria histórica. Mas, convém lembrar que em 1997 Blair contava chegar ao governo graças ao apoio dos Liberais e, no entanto, venceu com uma maioria nunca vista. E que na eleição de 1992, as sondagens apontavam os Trabalhistas como vencedores, e foram os Conservadores de Major a ganhar. Ou seja, resultados só mesmo amanhã; prognósticos só no fim do jogo. Até porque o sistema eleitoral britânico em que mesmo por dois ou três votos um deputado é eleito num determinado círculo, e todos votos dos demais partidos não servem para nada em termos de eleger deputados, torna as previsões muito difíceis. Mas se Blair conseguir perder bem pode ir pedir uma medalha ao seu amigo Bush!
Finalmente, last but not least, dois dados interessantes para quem acha que os círculos uninominais - o modelo britânico - significam necessariamente menos poder para os líderes dos partidos e uma escolha em função das qualidades dos deputados.
Uma sondagem recente mostra que só 8% dos britânicos vê na pessoa do deputado um factor decisivo no seu voto.
Mais, embora em princípio seja a «concelhia» a escolher o seu candidato a deputado, na prática a liderança do partido pesa imenso. Há um par de semanas um deputado conservador foi afastado por Michael Howard depois de fazer uma declarações imprudentes – os cortes nos impostos agora anunciados pelo Conservadores, eram apenas o princípio, esperem para ver, dizia ele! A «concelhia» a contragosto lá teve de engolir a decisão de excluir o seu candidato. E a propósito, querem melhor exemplo do que este de que Blair deslocou o eixo da política britânica para a esquerda? Nem os conservadores se atrevem a falar demasiado em cortes nos impostos!!!
Publicado por bruno cardoso reis emquem vai ganhar é o mr blair...há duvidas?
aposto 20 mocas.
Afixado por: oscar pinto em maio 5, 2005 01:54 AM"uma política de reforma do Estado que aposta na eficiência no sector público – com metas e avaliações"
Hmmm...
E que tal fazer uma coisa semelhante por cá?
Isto é uma política "de esquerda" no Reino Unido. Em Portugal, também seria "de esquerda"?
Afixado por: Luis Lavoura em maio 5, 2005 11:14 AM"querem melhor exemplo do que este de que Blair deslocou o eixo da política britânica para a esquerda? Nem os conservadores se atrevem a falar demasiado em cortes nos impostos!!!"
Mas a esquerda tem alguma aversão a cortar nos impostos? Eu pensava que diminuir os impostos fosse sempre bom, quer para a esquerda, quer para a direita!
De qualquer forma: os conservadores não se atrevem a falar demasiado em cortes nos impostos, porque o Reino Unido já tem mesmo agora um deficit razoável nas contas do Estado (para além de um deficit enorme no comércio externo). Se cortasse nos impostos, o deficit disparava.
Afixado por: Luis Lavoura em maio 5, 2005 11:19 AMMeus caros
Penso que o Blair vai ganhar as eleições, mas a questão que levantei é quanto tempo vai ficar a gozar o lugar e quem vai ser o seu herdeiro político.
Claro que reformar o Estado e torná-lo mais eficiente é sempre uma coisa boa. Não devia ser de esquerda ou de direita. Mas há muita direita que acha que o Estado é irreformável. E por isso o melhor é privatizar tudo ou quase tudo, e cortar impostos o mais possível.
Ninguém gosta de pagar, os impostos não são uma excepção. Eu também gostava muito de ir a lojas privadas e comprar tudo o que apetecesse sem pagar nada. Mas não há almoços grátis... Os serviços públicos têm de ser pagos. O que os britânicos não querem é descer os impostos sem garantias de que o nível de despesa pública em serviços essenciais é mantida. E neste momento ninguém acredita que isso é possível. Muitas das infraestruturas de base - dos edifícios das escolas até ao metro de Londres - são muito antigas e precisam de enormes investimentos.
Afixado por: bruno cardoso reis [barnabé] em maio 5, 2005 12:00 PMQuem vai ganhar vai ser o Gordon Brown! Esse vai ser o verdadeiro vencedor destas eleições.
Afixado por: NeuroGlider em maio 5, 2005 04:15 PM