maio 08, 2005

O Bloco e a pluralidade

Um senhor chamado Alberto Gonçalves, que passa por intelectual e escreve no "Correio da Manhã", disse isto:
«Como o nome indica, aqui há apenas um bloco, sólido e sem fissuras ideológicas. Um calhau, portanto, junto do qual o PCP passa por um modelo de pluralidade (...) Presumir que a Convenção “debata” é como esperar que um encontro de ‘skinheads’ (que por acaso hoje também há) promova a recolha de fundos para os refugiados do Sudão. Mas não custa tentar.»

À Mesa Nacional do BE concorreram duas listas alternativas, eleitas por voto secreto e com direito a representação proporcional naquele órgão, e uma terceira tendência fez várias propostas de emenda à moção maioritária, de forma organizada. As três linhas políticas em confronto apresentaram listas separadas à Convenção, todas elegeram delegados, sempre por voto secreto e representação proporcional, viram todos os seus textos publicados na imprensa interna do BE, e deram entrevistas para jornais nacionais e televisões. Houve debates com um representante de cada uma das duas moções em todos os distritos do país. Existe, no Bloco, o direito estatutário de organização de tendências e não há qualquer tipo de obrigação de silêncio público sobre as discordâncias internas. E os militantes, como se leu no "Expresso", fazem uso, sem qualquer problema, deste direito de falar para fora do Bloco sobre a vida do Bloco. A Convenção é aberta do primeiro ao último minuto. Os delegados falam com os jornalistas, durante a Convenção, sem ser em off, sobre as suas divergências. Não tem nada de especial. Chama-se a isto democracia.

No PCP os estatutos não permitem a ninguém nem apresentar moções alternativas (apenas propostas, que são ou não aceites) de alteração às teses apresentadas pela direcção, nem apresentar listas alternativas para qualquer órgão dirigente nacional. Não há voto secreto em Congresso, não há direito de organização por correntes, não é permitida a discussão pública sobre a vida interna do partido, o debate sobre a eleição do Comité Central é à porta fechada. Não estou a fazer nenhum juízo de valor, apenas a constatar um facto. Nem sequer a dizer que o PCP é menos democrático. Mas a pluralidade e a divergência pública não são, em geral, valores defendidos em estruturas leninistas. É uma opção. Não é a do Bloco.

Basta ler os estatutos do BE e as notícias dos jornais sobre a Convenção que hoje acaba para perceber que Alberto Gonçalves não faz a mais pálida ideia do que está a falar. Como sempre, aliás. Nem quer saber.

Para a semana escreverei um texto com base na minha intervenção à Convenção do BE, sobre a pluralidade política no Bloco e a necessidade de não fazer clarificações ideológicas artificiais. Se escrevo tanto sobre os outros está na altura de dizer alguma coisa sobre a minha casa.

Publicado por danieloliveira em
Comentários

Daniel estás a fazer confusão, no pasquim orgão oficioso do PSD ,chamado correio da manha não escrevem nem jornalistas dignos desse nome nem muito menos intlectuais.

Preocupa-te em responder aos Expressos e Públicos. porque aí as criticas do Bloco têm outra gravidade.

Afixado por: condor em maio 8, 2005 04:07 AM

Para quem faz gala de chamar os touros pelo nome, não consigo perceber esse pudor nas referências ao PCP. "Não estou a fazer nenhum juizo de valor, apenas a constatar um facto. Nem sequer a dizer que o PCP é menos democrático".
Que é que se passa? Aliança secreta Bloco/PCP? Ou um mau partido de esquerda ainda assim é bom? Independentemente de não ser democrático? Ai essa coerência...

Afixado por: NG em maio 8, 2005 12:20 PM

De facto "intelectuais" destes, são os meus preferidos. Têm um objectivo e, ao tentar cumpri-lo, acabam por sabotar o próprio objectivo. Ou seja este tipo queria descredibilizar o Bloco, mas acabou por dar uma preciosa ajuda ao mesmo, eu como simpatizante do Bloco agradeço ao Alberto Gonçalves.

Afixado por: João Dias em maio 8, 2005 03:45 PM

Uma semana à espera das ideias da ala direita do BE

Afixado por: Real em maio 8, 2005 07:55 PM

Pois
1º alas, interessam mais as que permitem dizer "ala, que se faz tarde". E faz-se tarde para tanta coisa, que temos que ir devagar para chegar a algum lado.

2º já que vamos falar do Bloco, a ver se conseguimos descodificar as evidências (o que se diz que é evidente para toda a gente), porque, como diz A. Nóvoa num livro recente a propósito de outro tema com imensos sabedores - a educação - o que é evidente, mente.

Afixado por: Bicho em maio 8, 2005 09:36 PM

Ao que parece, o Congresso do BE (ou é Convenção? Whatever!) confirmou como Grande Educador das Massas Nacionais o Xico Louçã, coadjudado por um 'historiador' e outros acessórios interessantes, tudo num unanimismo (pelo que li, as intervenções da lista opositora foram apupadas) digno dos stalinistas do PCP. Para quando as purgas internas?

Afixado por: Pedro Oliveira em maio 9, 2005 10:23 AM

Isto que o Daniel aqui escreve é tudo verdade, mas o facto é que as duas moções em apeciação pela Convenção do BE estavam ambas escritas em newspeak: quem (sendo aderente do BE) não conhecesse pessoalmente os seus promotores, não perceberia aonde queriam eles chegar, que estratégia e táticas defendiam para o Bloco. Quando as moções de estratégia estão escritas em newspeak, quando elas só são para iniciados, os aderentes não têm verdadeiras escolhas. Eu tentei ler as moções, mas não consegui. Em todo o caso, percebi que nelas não estava escrito se o Bloco deveria apoiar José Sá Fernandes para a Câmara de Lisboa, se deveria formar uma candidatura independente à Câmara do Porto, e muitas outras coisas relevantes. Nas moções só estava escrito paleio abstrato.

Aliás, é significativo que a moção da direção não tenha tido votos contra. Então afinal toda a gente concorda?

Esta falta de transparência, estas decisões tomadas não se sabe por quem nem quando, foi uma das coisas que me fez afastar do Bloco.

Afixado por: Luis Lavoura em maio 9, 2005 11:43 AM

Não Luis, é tudo transparente e democrático. Se até existe mais que uma lista!... Como é que se pode ser mais democrático que isto? Só se - Marx nos perdoe! - se corresse o risco de as massas perderem os seus educadores.

Afixado por: Pedro Oliveira em maio 9, 2005 12:25 PM

Estou de acordo com a sua crítica à falta de democracia interna no PCP, mas não concordo com o seu veredicto de “leninista” em relação à forma de organização desse partido. Paredes forradas com fotos de Lenine não são um atestado de leninismo – o mesmo para a relação entre cruzes e cristianismo.

Passei o fim-de-semana na quarta Convenção do Bloco de Esquerda, para mim a primeira. Não fazendo parte de nenhuma das tendências organizadas no interior do BE, testemunho aqui, também, que o Direito de Tendência é a melhor forma de garantir a expressão de todas as sensibilidades. No caso do B.E., eu vi: as propostas alternativas foram editadas em conjunto, em dois boletins que foram distribuídos aos aderentes (estiveram e estão ao dispor de toda a gente na Internet), foram debatidas em pé de igualdade em reuniões por todo o país e, por fim, foram sufragadas por delegados eleitos por voto secreto.
Comparado a isto, só o Pravda dos anos em que publicava os textos das várias posições políticas do partido. Nos tempos de Lenine, para que conste.


Não tive a oportunidade de ler todas as entrevistas e textos sobre a Convenção do B.E. que passaram na imprensa. Daquilo que li: repugnaram-me algumas adjectivações feitas nas várias direcções - detestei as “alas”-, abominei os recados para o interior da convenção e não gostei particularmente de ler na imprensa argumentos que preferiria esgrimidos na sede do debate. É a minha opinião, não se interprete como incómodo pela liberdade de cada um falar daquilo que entende.

Entendo que vivemos na “sociedade do espectáculo”, o jornalismo que se vai fazendo por aí já pouco se distingue de uma técnica de entretenimento para suportar receitas publicitárias – e não se pense que isto só acontece nas TV generalistas e nos tablóides, “referência” já não é o que era. Constato que a forma como a generalidade dos media cobre estes eventos é mais na busca dos fait-divers (“tabus”, zangas, etc.) do que no intuito de esclarecer causas politicas. Exemplo: passaram completamente ao largo do debate sobre a participação das mulheres, ocorrido no segundo dia da convenção - em que ocorreram algumas intervenções “espectaculares”.

A jeito de conclusão: tenho para mim que a forma como se desenrola a vida interna de uma organização diz muito acerca dos seus propósitos. Dito de outra forma, e como leninista que não gosta do estereótipo, “os Meios que utilizas caracterizam os Fins que proclamas”.
Por outro lado, e por vergonha: “lá porque vivemos na sociedade do espectáculo não temos de ser palhaços”.

Afixado por: CausasPerdidas em maio 9, 2005 12:56 PM