maio 23, 2005

Dois primeiros dias: Sanaa

Tentarei, na medida do possível, ir contando a minha viagem por terras iemenitas. Na capital Sanaa [ou Saná], onde estou, não é difícil. Depois, não prometo nada.

Às 6 da manhã, a cantilena da chamada para a oração entra pela minha janela. Muitas cantilenas em despique. Não há mais nenhum som na cidade. Só a chamada para a oração. Como a cidade fica cercada por montanhas altas, os muezzin fazem se ouvir em eco. Parecem lobos a uivar. Ainda é de noite. Começou o dia em Sanaa.

Olho para a janela e vejo terraços desordenados e pequenos pátios internos, onde se come, se ouve música e se conversa. Como nas cidades do sul de Portugal. Como em qualquer cidade árabe. É o dia da unificação iemenita. Feriado nacional. Na rua, o barulho é permanente. As buzinas dos carros misturam-se com a música vinda de todo o lado. Na Estrada que circunda Sanaa Velha, que é um ribeiro em dias de chuva, até parece que souberam da vitória do Benfica, tal a festa de buzinas sem razão aparente. Em todo o lado se vende ou compra alguma coisa.

O primeiro suq [ou suco, como já se disse em português antigo e é de onde vem a palavra açougue] em que estive, em Sanaa Velha, é gigantesco. Os cheiros, os gritos, a música, tudo misturado. E gente. Imensa gente. Sai gente de todos os lados. E vultos negros, milhares de vultos negros. Nem uma mulher de cara destapada. A presença de um ocidental num pais com pouco turismo não provoca mais do que olhares curiosos, mas discretos. Os miúdos metem conversa. Tudo se tenta vender, mas não há muita gente a pedir dinheiro, num dos países mais pobres do Mundo.

Sanaa Velha é indescritível. É a medina mais bem preservada do Mundo. Fica-se sem fôlego. Parece que se fez uma viagem no tempo.

Os homens andam todos com os seus jambia, uns pequenos “sabres” retorcidos. As mulheres são um pano negro com dois olhos. Mas o ambiente é descontraído e amistoso. Basta fazer uma pergunta e logo se junta gente para ajudar, para me levar de moto, para me indicar o caminho, para saber o meu nome, de onde venho...

A tarde, toda a gente anda com uma bola de "qat" na bochecha. O "qat" é o vicio nacional. Uma droga leve que todos os homens (e mulheres) consomem a partir das duas da tarde. O habito nacional transformou-se num problema nacional. Sempre foi. Mas hoje consome-se com menos moderação. Resultado: ninguém trabalha à tarde e as plantações de "qat" estão a consumir toda a água de um pais que já foi fértil.

As mulheres tapadas escondem uma outra existência. Basta olhar para as pequenas lojas de roupa feminina, no suq, para descobri-la. Lingerie e roupa que, em Portugal, só se poderiam encontrar numa sex shop. As pessoas com quem estou estiveram num casamento. Mulheres de um lado, homens do outro. Sendo mulheres, foi com as mulheres que ficaram. E as mesmas mulheres, que na rua só deixam ver os olhos (as que deixam) ostentam, longe dos homens, generosos decotes em justos vestidos cheios de cores berrantes e brilhos sortidos. É este o seu pecado, só permitido longe do olhar lascivo dos homens. Não julguem que por ali eram modernas. A noiva nem sequer conhecia o noivo.
 
O Iémen é dos países mais duros para as mulheres, em todo o Mundo. A quase totalidade das mulheres é analfabeta, as execuções por questões de honra, que na maioria dos países árabes são a excepção, são aqui corriqueiras. Neste momento, uma mulher de vinte e pouco anos esta à espera de um julgamento (graças a alguma pressão internacional o já realizado terá de se repetir), por supostamente ter assassinado o marido. Casou com o homem aos 11 anos, aos 13 já era mãe, aos 15 mãe duas vezes. Chama-se, como a [sua companheira de infortúnio] nigeriana , Amina. Toda a gente sabe que foi um outro homem, por uma disputa de terras, que matou o seu marido. Mas ficou mais fácil assim. Uma sessão de tortura na prisão chegou para resolver o problema do assassínio. É para isto que as mulheres servem. Aos 16 anos já esperava a morte. O processo prolongou-se porque as execuções de menores se tornaram num problema internacional para o Iémen. Agora, Amina tem mais de vinte. Se for condenada, terá morte certa. Se não for, na aldeia é a morte que também a espera. Uma ONG ofereceu-se para a tirar do pais.

Estamos, dizem os livros, numa “democracia”. O Parlamento é eleito e até tem uma ministra, a dos direitos humanos. Ou seja, por aqui, isto quer dizer relações públicas para estrangeiros. Não é democracia nenhuma e esta ministra é uma aberração na realidade política e cívica iemenita. O Presidente não passa de um ditador, como qualquer outro. Mas o Iémen é um importante aliado dos EUA. Há que manter as aparências.
 
Meio dia. Recomeça a chamada para a oração. Alguns homens dirigem-se à mesquita, de mão dada. Mas, em geral, a vida continua imperturbável, apenas cortada por aquele despique de vozes. A religião está em todo o lado mas a vida corre sem ela. Os iemenitas não são fanáticos religiosos. O pais é que é brutalmente atrasado, e a Sharia vale mais do que a Lei e do que o Corão.

Já estou em Sanaa, capital do Iémen, no extremo meridional da Península Arábica. Estou noutro tempo onde o ambiente de festa, a simpatia e a generosidade das pessoas se mistura com enorme atraso e pobreza. Tudo é lento, tudo é barulhento. Nunca me senti tão estrangeiro em toda a minha vida. E gosto.

Publicado por danieloliveira em
Comentários

Obrigado pela crónica.
Informa-te se o tal de qat é legal para os estranjas. Se fôr, experimenta e depois conta como foi.

Afixado por: Eric Blair em maio 23, 2005 05:39 PM

Cronica, Daniel, agente consola-se a ler as tuas luas de escrita. Já agora se puderes, ajuda essa Amina, e as outras que puderes. Gente como a gente, mesmo que não pssam ler as tuas crónicas nem o Corão

Afixado por: Bicho em maio 23, 2005 07:58 PM

"droga leve"...o que é isso?
Tem cuidado com os comentários senão ainda se tem que meter uma "cunha" para ti tirar daí.

Afixado por: loureiro em maio 23, 2005 09:41 PM

é bom cheirar outras fragâncias. O Daniel tem o dom da palavra, confesso que não lhe conheço o da escrita (falta de atenção, culpa mea) mas vou ficar atenta a este "diário". Quiçá consiga trazer-nos o açafrão, a canela, outra qualquer especiaria feita letra.

Afixado por: Maria em maio 23, 2005 11:03 PM

Bolas!Já acabou!...Estive um bocadinho no Iémen, e soube-me tão bem...

Afixado por: lucrecia em maio 24, 2005 02:29 AM


Não bebas água da torneira. Independentemente da qualidade do "qat" bochecha SEMPRE com um elixir dentífrico depois de mascares um bocadinho.

Mais vale levares uma lancheira com caprissone e sandes de ovo do que andares aí a comer sabe Deus lá o quê que os Iemenes comem.

Não te metas com as mulheres daí porque só no quarto do hotel é que dá para perceber o que é que te calhou e podes ter más surpresas.

Cuidado com o Sol do Iemen que nesta altura do ano pode constipar-te.

Afixado por: O Bom Selvagem em maio 24, 2005 08:55 AM

Daniel, essa coisa qat não e ilegal cá em Portugal, pois não? A cannabis é que é.

Então, podias trazer para cá umas plantinhas e plantavas num vaso em tua casa. Depois comercializavas. Tudo legal, meu!

Afixado por: Luis Lavoura em maio 24, 2005 10:38 AM

qat'espero

Afixado por: Eric Blair em maio 24, 2005 12:26 PM

Cuida-te.
Não te abaixes muito qus gajos não são de confiança.
Logo me dirás.

Afixado por: zedopipo em maio 25, 2005 12:48 PM