Para falar sobre os usos políticos do passado nos tempos que correm era preciso um blogue inteiro e vários meses de trabalho. Ia-se juntando material avulso, um pouco como os Estudos sobre o Comunismo (que talvez também merecesse lugar nesse blogue, o qual, acrescente-se, estaria também contaminado politicamente pelo seu objecto). E, no fim de muitos meses, talvez se pudesse dizer qualquer coisa de fundamentado. Haveria muita coisa motivada pelas comemorações do 25 de Abril, haveria muita coisa sobre a guerra. Haveria o extremo(?) do uso político, a mistura da memória do 25 de Abril com a guerra.
O uso do passado como arma de arremesso sobre a política do presente sempre existiu. Qualquer investigação histórica, qualquer que seja a época estudada, tem um investimento político por trás e é susceptível de uma leitura política. Mas hoje dá a sensação que toda a invocação do passado no espaço público extra-académico serve objectivos políticos. Ela ocupa o espaço todo em nome da História com maiúscula. Mas este passado não tem nada a ver com a história que nos contaram no liceu (fui para o curso de história, entre outras coisas, por causa de um 12° ano em que estudei Marc Bloch e os Annales), que nos continuaram a contar nas universidades em que aprendemos história. Este passado é um servo do presente. Não é para ser explicado, entendido, interpretado. Não tem autonomia própria. Não tem contexto, especificidade, diferença. Ilustra o presente político, serve propósitos alheios, situados no contexto político do presente. É um passado em tribunal, exemplar, carregado de moral. Ou seja, exactamente aquilo que nos disseram para deixar à porta da biblioteca e do arquivo (numa ilusão positivista, é certo, mas bem intencionada). Enquanto a história académica ainda se lembra de vez em quando que também é política e moral, o uso político do passado despreza as regras da academia e apresenta-se como a verdade histórica positiva. Sendo todo político, auto-ignora-se como político para melhor executar a sua tarefa.
O uso político do passado é democrático. Fazem-no tanto não historiadores como historiadores. Fazem-no até historiadores que começam artigos e conferências dizendo ritualmente que a história não deve julgar mas compreender.
O epítome do uso político do passado, no contexto guerreiro de hoje, é o par Churchill-Chamberlain. Churchill foi o herói que soube dizer não. Chamberlain foi o cobarde, o "appeaser", o perdedor, aquele que falhou a ocasião histórica perante o tribunal da posteridade. Aquele que Churchill resgatou para a posteridade. Churchill, o salvador. Mas Chamberlain não é Chamberlain, nem Churchill é Churchill: são personagens com um guião pré-definido, escrito no futuro. Podiam ser outros os personagens se as referências fossem outras. Em vez de Churchill, podia estar De Gaulle, outro que soube dizer não. Não sei nada sobre Chamberlain, mas espero que, algures, num discreto arquivo inglês, haja um investigador a escrever uma tese sobre Chamberlain que lhe faça justiça histórica. Fazer-lhe justiça, note-se, não seria vir demonstrar o contrário do que se escreve hoje sobre ele (isso seria apenas uma reacção política ao uso político de Chamberlain). Seria, muito simplesmente, vir-nos mostrar como Chamberlain foi responsável por uma parte limitada da história do seu tempo, na qual outros responsáveis houve, sociais, colectivos, humanos, mas que, como qualquer actor histórico, ele não sabia o que ia acontecer no futuro. E que, ao dizê-lo historiograficamente, estivesse a dizer-nos implicitamente que Chamberlain fez certamente asneiras no seu tempo, mas que ele não foi responsável por todas as asneiras posteriores dos homens que precisam do exemplo de Chamberlain para legitimar essas asneiras. Um investigador que simplesmente libertasse Chamberlain da permanente chantagem póstuma e o deixasse morrer um pouco em paz.
Publicado por andrebelo em | TrackBackEste post é sensacional. Quem chama cobarde a Chamberlain parece que só conhece a história da 2ª Guerra Mundial. Esquece que antes dela houve a Guerra de 14-18, que é o que explica o demonizado "pacifismo" do dito Chamberlain. A 1ª Guerra Mundial foi um massacre inaudito, que toda a gente depois concordou que poderia ter sido evitado se tivesse havido menos belicismo e intransigência de todas as partes . Em 38, Chamberlain estava obcecado em não repetir os erros e as precipitações de 14 e por isso procurou apaziguar Hitler, que não se imaginava ainda que fosse o monstro que se revelou depois. Churchill, que fora um falcão em 14-18, continuou, pelo contrário, a ser um belicista. Sabemos hoje que era ele quem, naquela ocasião, tinha razão: para fazer frente a Hitler, eram precisos falcões. Mas isso não quer dizer que os falcões tenham sempre razão.
Afixado por: André Murteira em maio 23, 2004 04:12 PMCaro Andre
Nao e preciso esperar pelos arquivos! Basta ler o livrinho recomendado pelo camarada Ze Manel!
Parabéns Andrebelo por este magnífico texto !
O "trabalho de historiador" - ah, grande Marc Bloch! - é tremendo, e está recheado de armadilhas. A História recente, é uma delas. É bem mais fácil fazer uma análise isenta e correcta do feudalismo, que da Revolução Francesa.
A propósito de Revolução Francesa: conhece a magnífica obra de François Furet "Penser la Révolution Française" ? Dá cá uma tacada no velho Michelet ...
Pois ... com II Guerra Mundial (ou 25 de Abril) ainda se há de passar o mesmo. Talvez só daqui a 200 anos, mas enfim ... Tudo o que se diga e escreva até lá, não passará de "contributos para".
Afixado por: Isabel Coutinho em maio 23, 2004 07:43 PM
Não sei se percebi o post. De qualquer modo, para ajudar a curar as angústias do André:
John Charmley, Chamberlain and the Lost Peace, s.e., Chicago, Ivan R. Dee, Publisher, 1989.
John Charmley, Churchill: The End of Glory. A Political Biography, s.e., s.l., Sceptre, 1995.
A. J. P. Taylor, The Origins of the Second World War, s.e., s.l., Penguin Books, s.d..
O primeiro é um historiador "ultraconservador". O segundo, que há já uns bons anos não está entre nós, era um esquerdista empedernido, defensor, durante a Guerra Fria, de uma aproximação do Reino Unido à URSS. Nunca foi marxista mas achava o marxismo política, filosófica e ideologicamente muito importante. Viveu e morreu obcecado com o poder desproporcionado - real ou potencial - da Alemanha na Europa.
O Pedro Oliveira e o Bruno Reis podem dar mais umas dicas e fazer muitos comentários sobre o tema.
Finalmente, para bater nos "appeasers", a obra clássica é: Martin Gilbert e Richard Gott, The Appeasers, s.e., Londres, Phoenix Press, 2000 (1.ª ed., 1963).
R. A C. Parker, Chamberlein and Appeasement: British Policy and the Coming of the Second World War, s.e., Nova Iorque, St. Martins’s Press, 1993. Sério e equilibrado. Em português... não me lembro de nada.
Obrigadinho Bruno Reis, camarada Zé Manel e Fernando Martins pela bibliografia.