De Seiyun a Mukala

Seiyun
Um grupo de homens com bengalas prepara-se para começar a actuação na rua principal de Seyiun. Começam. Como sempre, algum convida para participar. Aceito. Daí a cinco minutos estou com uma bengala em riste, um turbante na cabeça e a fazer figuras tristes. Nasceu uma estrela em Seiyun. A noite, quando passeio pela cidade, todos imitam o meu movimento e, demasiado simpáticos, elogiam a minha actuação. Um branco careca de turbante e calcas de ganga não passa despercebido.
No dia seguinte vamos a Shibam. E difícil explicar. São prédios de oito, nove e dez andares, feitos de lama e palha, em ruas estreitas. Não parece real. Imensos miúdos e cabras. Um cheiro pesado. Passamos um tempo razoável a regatear numa loja de antiguidades iemenitas. Uma especialista nesta arte consegue levar por tuta e meia (achamos nos) um cinto e uma janela. Depois, para pagar o que pedem, exige mais uma janela em miniatura. No fim, ficam contentes com uma hora de combate e oferecem-lhe dez pulseiras. Os árabes gostam tanto de negociar como de conversar.

Shibam
No dia seguinte, hoje, partimos para Mukala, a maior cidade de Hadhramout, já na costa do mar arábico. Vamos num taxi colectivo. Corremos grande parte daquele que e um dos maiores oásis do Mundo. Depois subimos as imponentes montanhas que o cercam. La em cima, tudo e diferente. Nada. Pedra e terra, pedra e terra, pedra e terra durante horas e horas.

Mukala
No meio desta viagem continuo a ler “As Cruzadas vistas pelos Árabes” de Amin Maalouf. É a história das cruzadas vistas do lado de lá. Os massacres, o fanatismo religioso incompreensível então para os muçulmanos, dos cristãos em conquista. Mas o mais impressionante é mesmo o olhar sobre os lideres árabes. Iguais ao que são hoje. Enquanto o povo sente a humilhação a que a nação árabe e exposta, os seus dirigentes entretêm-se em guerras internas, pequenas traições, alianças com o inimigo. Ao ler o livro e ao ver a cara de Saleh, o amigo de George W. Bush, por todo o lado, não posso deixar de pensar que nada mudou. E estes homens fracos e sem espinha dorsal que tomaram, há quase mil anos, conta do povo árabe, são os principais responsáveis pela sua desgraça e pelo crescimento de grupos radicais que dão a um povo maioritariamente pacifico, acolhedor e curioso em relação a diferença uma ponta de orgulho e esperança. Estão enganados no caminho. Mas um povo que foi tantas vezes enganado, precisa de acreditar em alguma coisa. Em alguém. É geralmente nestes momentos que surgem todos os monstros.
Olhar, naquela avenida, para a fotografia de Saleh e saber que ele é um dos exemplos da democratização do Mundo Árabe, faz-me ter a certeza de um triste fim para toda a região. Um fim, que na realidade, é a mesma historia de sempre. Que se repete há mil anos.

Presidente Saleh
Agora, em Mukala, limito-me a transpirar. Um calor e uma humidade insuportáveis. Amanhã cedo parto para Socotorá, uma ilha por onde portugueses passaram e pela qual hoje não passa quase ninguém. Ali espero encontrar Um Iemen antigo, junto a costa de África. E, com este calor, também não dizia que não a uma praia com uma água fresca. Quatro dias depois regresso para Sanaa e no mesmo dia para Lisboa. Só então vos poderei contar a minha experiência insular.
Publicado por danieloliveira em