junho 13, 2005

À boleia

[recebido num email do Zé Neves, amigo do Barnabé]

Aproveito a boleia do Barnabé para deixar pedaços de uma pequena preciosidade:
um texto de Jorge Amado sobre Álvaro Cunhal que foi publicado no jornal brasileiro «Imprensa Popular» em Outubro de 1953. O texto seria colectado para uma brochura que o PCP editou em 1954, sob o título “Contribuição à luta pela libertação de Álvaro Cunhal”. Nessa brochura encontrava-se ainda o poema de Neruda que Amado refere em baixo. Se entretanto encontrar a cópia da brochura – que está disponível na Fundação Mário Soares – envio-a igualmente.

Essa Vida Preciosa, Salvemo-la
por Jorge Amado

«Tão magro, de magreza impressionante, chupado a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português. Falava sobre Portugal, sobre que poderia falar?
Sua paixão e sua tarefa: libertar o povo português da humilhação salazarista, libertar Portugal dessa já tão larga noite de desgraça, de silêncios medrosos, de vozes comprimidas, de alastrada e permanente fome do povo, de corvos clericais comendo o estômago do país, de tristes inquisidores saídos dos cantos mal iluminados das sacristias e da História para oprimir o povo e vendê-lo à velha cliente inglesa ou ao novo senhor norte-americano. Sua paixão e sua tarefa: fazer de Portugal outra vez um país independente e do povo português um povo novamente livre e farto e dono da sua natural alegria.
Ah! Aqueles cansados olhos fundos sorriam e a voz estrangulada de cólera se abria em doçura de palavras de amor para falar de Portugal e do povo português. Eu compreendia que aquele homem de magreza impressionante, de físico combalido pela dura ilegalidade perseguida, era o seu próprio país, seu próprio povo e que, com seu cansaço, sua fadiga de anos, sua rouca voz de velho sono, suas mãos ossudas, eles estava construindo a vida, o dia de amanhã, o mundo novo a nascer das ruínas fatais do salazarismo.
Como era terno seu sorriso ao falar das festas populares nas aldeias do Minho ou dos homens rudes de Trás-os-Montes! Conhecia tudo do seu país e do seu povo, tudo o que era autentico de Portugal, desde o mar-oceano com a sua história portuguesa e gloriosa até as vinhas ao sol e as cantigas e os poemas dos poetas reduzidos na sua grandeza pela censura fascista; desde as histórias heróicas dos militantes presos, torturados até à loucura e à morte, as tenebrosas histórias do Tarrafal, o campo de concentração mais antigo e mais cruel da Europa, até às doces histórias de amor da província portuguesa, com um sabor romântico das velhas legendas.

Contou-me coisas de espantar com sua voz ora doce, grávida de ternura, ora violenta de cólera desatada quando falava da fome dos trabalhadores, da opressão salazarista sobre o povo, da opressão imperialista sobre a sua pátria de primavera e mar.
(...)
os comunistas portugueses, heróis anónimos do povo, os invencíveis, os que estão rasgando a noite fascista com a lâmina de sua audácia e de sua certeza para que novamente o sol da liberdade ilumine o país dos pescadores e das uvas. De um me disse: «Esse esteve no Brasil e aprendeu com vocês»
(...)
Falou do campo, dos homens que habitam as montanhas, daqueles que Ferreira de Castro, o grande romancista, descreveu em «Terra Fria» e «A Lã e a Neve». (...) Falou dos operários das cidades daqueles que Alves Redol descreveu em seus magníficos romances e contou da sua irredutível resistência ao regime salazarista. (...)
Naquela tarde como que me apossei por inteiro de Portugal, do melhor Portugal, do Portugal eterno, como se Álvaro Cunhal o trouxesse nas suas mãos ossudas, tão descarnadas e nervosas, como se trouxesse – e o trazia em verdade – no seu coração de revolucionário e patriota.
Voltei a vê-lo ainda uma vez, dias depois, e a longa conversa sobre Portugal continuou. Falou-me dos escritores, dos plásticos, dos pescadores, fadistas, e sobretudo da luta subterrânea, dura e difícil e jamais vencida. (...)
Veio o processo, dentro dos métodos infames dos tribunais fascistas. Ali se ergueu Álvaro Cunhal (Militão morrera de torturas) e não era o réu, era o acusador, a voz de fogo a queimar o vergonhoso rosto dos carrascos do seu povo, dos vendilhões da sua pátria.
(...)
Pretendem matá-lo e nós sabemos que são frios assassinos os que querem matá-lo. É uma vida preciosa, preciosa para Portugal e para o mundo, ajudemos o povo português a salvá-la!
(...)
Há alguns meses eu estava em frente ao mar Pacífico, na costa sul do Chile, em Isla Negra, em casa de Pablo Neruda, meu companheiro de lutas de esperança. Uma figura de proa de barco se elevava em frente ao mar de ondas altas e violentas. Por isso falámos de Portugal e do seu destino marítimo. Contei ao poeta sobre Cunhal e Pablo levantou-se, deixou-me com o pescador que parara para escutar-nos e quando voltou havia escrito esse maravilhoso poema que é «A Lâmpada Marinha» sobre Portugal, seu povo, Álvaro Cunhal e o dia luminoso de amanhã»
(...)
Hoje o mais bravo dos filhos desse povo heróico, aquele que tudo sacrificou para ser fiel à esperança do povo está com sua vida ameaçada.»

Publicado por ruitavares em
Comentários

É mesmo uma preciosidade. Obrigada pela partilha.

Afixado por: Nina em junho 14, 2005 12:46 AM

Caros Barnabés,

Podem encontrar o poema de Pablo Neruda, "La Lámpara Marina", dedicado a Álvaro Cunhal e à luta pela libertação de Portugal, em http://ciberjus.blogspot.com/2005/06/la-lmpara-marina.html#comments
e em http://ciberjus.blogspot.com/2005/06/la-lmpara-marina.html#comments

Afixado por: Virgilio Ribeiro em junho 14, 2005 12:58 AM

Os artistas tem o dom de comover.

Afixado por: abego em junho 14, 2005 01:32 AM

obrigada, barnabés :)

Afixado por: laura em junho 14, 2005 01:22 PM

Tanta unanimidade nem o próprio cria. Todos os saídos do PCP se têm posto em bicso de pé. Será que virá a haver um partido do verdadeiro cunhalismo?
Eu, que nunca fui do PCP de Cunhal, relembro a luta anti-fascista dele e do seu partido, porque lhe devo (devemos todos) isso. É pena que essa faceta esta a ficar esquecida, essa que é o património de todos, que ele e os seus camaradas conquitaram a muito custo para o nosso bem. Porque o resto ou é património do PCP ou de quem por lá passou.

Lágrimas de corcodilo daqueles que agora se apressam a dizer que foram amigos, conhecidos, ou seja lá o que for é que não. Eu não fui e não gostava das opções políticas. A minha melhor homenagem é respeitar o anti-fascista. A essa figura curvo-me sem qualquer dificuldade.
Do resto só me resta dizer que ele também tinha razão, ó Zita.

Afixado por: Eugénio em junho 14, 2005 01:49 PM

de ir às lágrimas catano !!!

Afixado por: zero em junho 14, 2005 02:04 PM


Um pouco de silêncio não ficaria mal.

Não acho que seja esta a altura para tecer comentários ou opiniões. A cada um apenas a sua sentida homenagem, à medida da admiração sincera que nutra pelo Homem.

Que descanse em paz a sua Alma conturbada, mas nobre.

Afixado por: A. Castanho em junho 14, 2005 07:12 PM

Com tanta exortação e excursão para garantir uma grande afluência ao funeral de Cunhal - sem discursos mas com muitos camaradas, como afirma Jerónimo ter sido a palavra do profeta - o 'partido' deve estar a pensar num barómetro para medir a sua capacidade de mobilização. Noutras eras, dir-se-ia que talvez conseguisse capitalizar o crescente descontentamento à esquerda, potenciado pelo pathos na 4ª e demonstrando-se 6ª na manif da FP, ou mesmos na greve do professoredo para a semana que vem. Veremos se o país aprendeu alguma coisa, ou se vamos ver uma versão ampliada dos alumbrados presentes nas exéquias de Vasco Gonçalves. De repente parecia que o país tinha recuado 30 anos, mas as pessoas não (incluindo eu, élas!). Depois lembrei que o espaço defronte da Bemposta até é pequeno e fiquei mais calmo. As cenas gagas a que aquele edifício já assistiu!!

Afixado por: Lisbondude em junho 15, 2005 03:47 AM

O texto está mesmo bolorento.
Vê-se que o autor não conhecia o verdadeiro Duarte.
Se o JA amado tivesse vivido , cá no burgo, provavelmente seria mais um a engrossar a corrente dos expurgados.

Afixado por: zedopipo em junho 16, 2005 01:02 PM