junho 15, 2005

Açúcar e Pobreza

A indústria portuguesa do açúcar pode estar em risco. Bruxelas admite que “a perda de emprego” poderá ter um “impacto significativo na pobreza”.

Mas agora o outro lado da história que não aparece neste artigo:

A União Europeia subsidia as exportações de açúcar dos seus membros com duas consequências importantes: a redução dos preços do produto no mercado mundial e das oportunidades de exportação de outros produtores.

E quem é que sofre com esta política?

Grande parte dos países em desenvolvimento. E porquê? O seu açucar (que muitas vezes representa uma das indústrias mais importantes desses países em termos de emprego e geração de rendimento), simplesmente, não consegue competir no mercado mundial com os preços altamente subsidiados do produto europeu. Leiam o que diz uma das mais prestigiadas organizações não-governamentais internacionais: Oxfam.

E agora? Até que ponto estamos dispostos a aceitar mais “pobreza” na Europa a favor de mais “riqueza” nos países em desenvolvimento? Será que estamos prontos a ser mais “justos” na distribuição da riqueza a nível mundial?

Publicado por luísmah em
Comentários

luismah,

Antes de mais há que esclarecer exactamente para onde vai a "riqueza" que os países em desenvolvimento obteriam com a eliminação dos subsídios agrícolas na Europa. E a que custo. O luismah deve ter bem presente que a distribuição da riqueza na grande maioria dos países em desenvolvimento é extremamente desigual, em particular a riqueza obtida através da exportação. O Brasil é um caso paradigmático. Poder-se-ia argumentar... bom, pelo menos alguma coisa deve chegar aos mais pobres. Este argumento até seria "aceitável" se os mais pobres efectivamente não perdessem também "riqueza" com o aumento dos níveis de exportação de produtos agrícolas. Essa perda de riqueza resulta duma degradação acentuada do meio ambiente ("riqueza" essa que é também roubada às gerações posteriores), e muitas vezes também dos direitos sociais dos mais pobres, escorraçados das suas terras, e ainda num aumento dos preços dos produtos agrícolas no país exportador. No final, é bem provável que com a "liberalização" do comércio mundial de produtos agrícolas o que aconteceria seria uma transferência de riqueza dos agricultores dos países desenvolvidos e da maioria da população dos países em desenvolvimento para uma pequena minoria de grandes proprietários nos países em desenvolvimento e multinacionais (que mais motivos teriam para devastar o meio ambiente nos países em desenvolvimento).


Eu sou favor da diminuição dos subsídios internos aos agricultores europeus apenas num contexto de Comércio Justo, em que há regras estritas de protecção ambiental e social nos países em desenvolvimento. Mas, admitindo que isto não é pragmaticamente possível para já, há alternativas? Há. Eliminar os subsídios directos à exportação. E subsidiar na Europa apenas até ao montante de produtos consumidos na Europa. Promover a transferência de tecnologia para os países em desenvolvimento, e permitir-lhes proteger a sua indústria. Promover o proteccionismo sustentado nos países em desenvolvimento é muito melhor para os pobres de todo o mundo do que a liberalização selvagem do comércio internacional, seja na agricultura seja em qualquer outra actividade.

Afixado por: viana em junho 15, 2005 09:31 PM

Poderiam dar os subsidios, que actualmente dão à industria açucareira, directamente aos trabalhadores da industria açucareira que perderem os empregos.

Assim, reduz-se a pobreza nos paises em desenvolvimento sem a aumentar nos paises ricos

Afixado por: Miguel Madeira em junho 15, 2005 11:27 PM

Viana bateu num ponto importante: hoje, a liberalização do comércio mundial não significará o eldorado para os habitantes dos países mais pobres. Irá “ empobrecer” os agricultores europeus, na medida do enriquecimento de minorias e multinacionais estabelecidos nos países em desenvolvimento.

A ideia de subsidiar na Europa apenas até ao montante do consumo, produzindo-se tendencialmente para as necessidades, parece-me ser uma ideia consistente. No entanto é necessário pensar que se as empresas agrícolas e industriais baixarem as suas quotas de produção, irão criar desemprego local. O desafio será evitar que essa perda de emprego gere novos pobres...
Como? Reconvertendo? Indemnizando?

Relativamente aos países em vias de desenvolvimento é fundamental que eles também produzam para as suas necessidades, deixando para exportação preferencialmente os produtos com mercado. No entanto, uma tal regulação terá que ser promovida pelos governos respectivos, no tal âmbito de um Comércio Justo. E a tal regulação deverá passar também pela obrigação no cumprimento de normas agro-ambientais, pelas multinacionais ( e não só) que aí operam. No que respeita aos direitos dos trabalhadores e à transferência de parte das mais valias para esses povos, também há um grande percurso a fazer...Penso que não se deve perder de vista um aspecto: os governos dos países em desenvolvimento terão também a sua responsabilidade!

Afixado por: Marcuse em junho 16, 2005 03:02 PM

René Bertholo, Vasco Gonçalves, Eugénio de Andrade, Álvaro Cunhal ...
... então, e Carranca Redondo?

Sim, José de Oliveira Carranca Redondo [29Abr1916-15Jun2005].
Não marcou ele, tanto ou mais que qualquer dos outros, o século XX, as paisagens e as estradas de Portugal? *
Não inebriou ele, tanto ou mais que qualquer dos outros, o espírito de milhões de portugueses?
Não resgatou ele, tanto ou mais que qualquer dos outros, gerações de lusitanos da agrura dos dias e da frialdade dos montes?
Não deu ele, tanto ou mais que qualquer dos outros, sentido a milhares e milhares de noites naquela longa noite?

Por isso, portuguesas e portugueses, o mínimo que podeis fazer, em preito de gratidão, é comparecerdes pelas 17 horas de hoje.
Todos à Lousã!!!

* E continua a marcar, mas tenham lá paciência, a produção proíbe-me de dizer marcas aqui.
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D.

Afixado por: D. em junho 16, 2005 03:16 PM

Em mais uma achega, leiam


Indigenous People Say Global Model Has Got It Wrong

Tentem também saber o que pensam organizações como a Via Campesina sobre a liberalização das trocas agrícolas, por exemplo aqui. Porque será que não estão a favor?...

Quem tem razão?... A Oxfam, uma NGO europeia, ou a Via Campesina, uma federação de NGOs dos países em desenvolvimento? Quem sabe melhor o que precisam os países em desenvolvimento?...

Afixado por: viana em junho 16, 2005 04:04 PM