junho 18, 2005

Bagão Félix no Barnabé

De repente, aqui em baixo, li um post do "Acidental" ou do “Blasfémia”, em defesa das medidas corajosas de Bagão Félix. Tem mais ou menos um ano e veio parar aqui, não sei como. O mesmo elogio à coragem de quem só tem coragem para exigir tudo sempre aos mesmos, a mesma demagogia fácil contra os privilégios dos que apenas são remediados. Num país absolutamente injusto, com o maior fosso social de rendimentos e qualidade de vida em toda a Europa Ocidental, este é o tipo de argumentação que pega. Dividir para reinar.

O discurso da esquerda sobre a Administração Pública é, infelizmente, quase exclusivamente sindical e pouco afirmativo. Defender um novo papel para os funcionários públicos, a sua avaliação (mas antes de mais a dos seus dirigentes), a racionalidade e o rigor na organização do Estado, a centralidade do utente e não do funcionário, o comprometimento do trabalhador do Estado com a ideia de serviço público deveria ser uma causa de esquerda. Mas a esquerda têm-a deixado à direita. É essa a reflexão que tem de se fazer. Sem medo de chocar e de contrariar ideias feitas.

Mas não é sobre isso que o Bruno aqui escreve. O estilo está nesta frase: «Ninguém gosta de perder direitos adquiridos; mas e os direitos adquiridos dos desempregados aonde é que estão?» É o discurso mesquinho do costume: todos temos de estar dispostos a perder direitos porque há sempre quem tenha menos direitos do que nós. Mais à direita, é usado contra o Rendimento Mínimo Garantido, para explicar ao miserável que o indigente lhe rouba os trocos. É diferente, é mais indigno, mas a lógica é a mesma.

A culpa do desemprego não é de quem tem emprego seguro. A culpa dos baixos salários não é de quem tem um salário quase decente. A culpa da desgraça dos nossos serviços públicos não é, antes de mais, de quem neles trabalha. Quase nenhum trabalhador português vive acima das possibilidades do país. O trabalhador português (que não pode ser comparado com o trabalhador alemão) vive abaixo das possibilidades deste país. Mais: este país não tem futuro com salários baixos porque salários baixos são trabalho sem qualidade. E o trabalhador português, funcionário público incluído, ganha mal e paga, quase sozinho, a totalidade das despesas de um Estado que lhe dá pouco, cada vez menos.

Ontem aplaudi uma manifestação de trabalhadores (os verdadeiros privilegiados, geralmente, não precisam de se manifestar quando lhes tocam nos direitos adquiridos) contra um primeiro-ministro que mentiu numa campanha eleitoral. O primeiro-ministro já não é Durão Barroso. Mas, infelizmente, podia ser, porque estamos a assistir à repetição quase exacta do que aconteceu há três anos.

Publicado por danieloliveira em
Comentários

Este post do Daniel Oliveira é extraordinário e mostra a simplicidade e contradição do nível da argumentação desta esquerda que pelos interesses que defende e protege (aqueles que continuam a viver do Estado) continua a passar.

Vamos por partes. O Daniel chama às reformas do PS aos direitos adquiridos dos funcionários públicos “demagogia fácil contra os privilégios dos que são apenas remediados” e mais ainda diz que é intencional por ser um argumento sensível no País mais injusto socialmente da Europa.

Primeiro os funcionários públicos não são remediados, são privilegiados e se há um ponto onde Portugal é profundamente injusto é no nível muito superior de salários e protecção social que um funcionário público tem em média comparativamente a uma pessoa com a mesma formação no sector privado.

Depois, assumindo que a qualidade dos serviços públicos em Portugal é má, usa o extraordinário argumento de que “a desgraça dos nossos serviços públicos não é de quem neles trabalha” (?!). Se não são as pessoas que prestam os serviços os responsáveis pela sua qualidade, então de quem será?

E acaba a dizer que não se pode culpar o desemprego e baixos salários por aqueles que têm condições de trabalho, o que por si é verdade mas profundamente contraditório com a situação Portuguesa. Se olharmos comparativamente para a despesa pública do estado em relação ao PIB vemos que até está abaixo da média europeia. No entanto, se analisarmos a sua estrutura vemos que é completamente desequilibrada e socialmente injusta, principalmente no alto valor das despesas com pessoal e com a saúde, que são a principal causa para o nosso défice e baixo valor com as prestações sociais.

Ou seja, todo o nosso modelo social (que se formaliza nos impostos que pagamos) está montado para suportar os direitos adquiridos dos funcionários públicos, já que como assume que a qualidade dos serviços públicos é má, a principal razão para os continuarmos a pagar é condições que lhes providenciam, independentemente da qualidade do seu trabalho, que como argumenta não lhe pode ser imputável.

Continuarmos a divergir da média europeia, ter um economia completamente estagnada, estarmos a ser ultrapassados pelos novos membros da UE com condições de atracção de investimento e competitividade muito superiores não é para si relevante, porque os funcionários públicos têm condições de trabalho? Ou se não acha que existe uma relação entre a disfuncionalidade da despesa do Estado e o nosso fraco crescimento, quais são as suas razões para tal?

Afixado por: BGL em junho 18, 2005 04:41 PM

Fui durante cerca de cinco anos animadora cultural numa autarquia: funcionária pública, portanto. Não me lembro de ter um bom salário nem de ter trabalhado pouco. Era mal paga e, tanto eu como os meus colegas próximos, cumpríamos não só as nossas funções como todas as que fossem precisas: carregávamos com estrados e material de som e luz, limpávamos, faziamos de seguranças em espectáculos e de assistentes sociais em casos complicados com que frequentemente éramos obrigados a lidar. Apesar de conhecer bem grande parte da estrutura da autarquia - funcionários e dirigentes incluídos - o que nela vejo de realmente podre não são os primeiros, mas os segundos. Chefes de Divisão e de Departamento medíocres e desonestos que ascendem por critérios exclusivamente políticos, ignorantes não só da realidade dos sectores que chefiam, mas ignorantes 'tout-court'. Um dos reflexos imediatos dos departamentos dirigidos por essa gente era o péssimo desempenho dos seus funcionários. Nâo tive, felizmente, essa experiência, mas conheci-a bem por dentro e sei ao que conduz: trabalhadores que fazem o mínimo possível porque fazer mais só lhes traz problemas; sectores onde ter uma ideia e tentar pô-la em prática equivale a ser-se perseguido porque não convém ter ideias mais interessantes que o/a chefe; pessoas que são acusadas de falhar com o único propósito de encobrir as falhas de quem dirige; orientações dadas por superiores e depois desmentidas publicamente quando se verifica serem incorrectas...Acho que chega para terem uma ideia. Ao contrário do que possam pensar, esta é uma autarquia que considero uma das melhores a vários níveis e na qual continuo a votar. Sofre apenas dos males deste país. Tudo isto para dizer que, na verdade, "a desgraça dos nossos serviços públicos não é de quem neles trabalha". Nem a dos privados, acrescento eu. O nosso mal deve-se a uma cultura que, 30 anos depois de Abril, continua a não ser capaz de questionar abertamente a qualidade de quem dirige. Perante um mau dirigente, seja gestor ou sindicalista, público ou privado, ou nos demitimos ou conspiramos pela surra. Continuamos com medo. Vejo o medo em todos os sitios por onde passei, públicos e privados. Medo de cair em desgraça, de perder o emprego, de ser maltratado. E há medo porque não há Justiça e não há Justiça porque a corrupção impera. Continuamos, em grande medida, a ser uma república das bananas a fingir que é desenvolvida. E depois lá vêm os arautos da 'competitividade' e do 'desenvolvimento' falar nos privilégios dos assalariados, essa cambada de calaceiros. É fácil, rápido e dá milhões. O que me espanta é verificar os altos níveis de produtividade dos trabalhadores portugueses emigrantes; e os trabalhadores da Auto-Europa que, pasme-se, foram capazes de aceitar, sem protestos, reduções de salário e de direitos, em nome da manutenção dos postos de trabalho de todos? Devem ser iluminados, uns e outros la crème de la crème do portuga, provavelmente escolhidos através dos mais rigorosos psicotécnicos. Estes senhores BGLs e afins deviam era usar mais um bocadinho de cérebro. Ou então usam, e são gestores.

Afixado por: lucrecia em junho 20, 2005 01:58 AM


Parabéns, lucrecia (ou talvez Lucrécia, sem as peias deste linguajar cibernético que somos obrigados a suportar)!


Eu sei muito bem do que está a falar: do famoso caiaque português em que, por ter ficado em último na regata, foi despedido o remador, por incompetência, pelos sete timoneiros (hierarquizados em Timoneiro-Geral, Timoneiro-Director, Timoneiro-Chefe e assim por diante).


No caiaque japonês, vencedor, os sete remadores e o timoneiro tiveram todos prémios e louvores pela vitória...


Também há algo de verdade na opinião de BGL, mas há mais simplismo e superficialidade que rigor.


Recomendo uma visita a www.evolucoesdeabril.blogspot.com (passe a publicidade"...).

Afixado por: A. Castanho em junho 21, 2005 05:03 PM


Parabéns, lucrecia (ou talvez Lucrécia, sem as peias deste linguajar cibernético que somos obrigados a suportar)!


Eu sei muito bem do que está a falar: do famoso caiaque português em que, por ter ficado em último na regata, foi despedido o remador, por incompetência, pelos sete timoneiros (hierarquizados em Timoneiro-Geral, Timoneiro-Director, Timoneiro-Chefe e assim por diante).


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Afixado por: A. Castanho em junho 21, 2005 05:04 PM


Parabéns, lucrecia (ou talvez Lucrécia, sem as peias deste linguajar cibernético que somos obrigados a suportar)!


Eu sei muito bem do que está a falar: do famoso caiaque português em que, por ter ficado em último na regata, foi despedido o remador, por incompetência, pelos sete timoneiros (hierarquizados em Timoneiro-Geral, Timoneiro-Director, Timoneiro-Chefe e assim por diante).


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Afixado por: A. Castanho em junho 21, 2005 05:04 PM