junho 02, 2004

Medicina de barba rija

«Defendidas quotas para travar entrada de mulheres nos cursos de medicina.», in Público.
Lembro-me do alarme nas universidades americanas quando os asiáticos começaram a ocupar quase todas as licenciaturas relacionadas com matemática - o conhecimento nas mãos dos amarelos provocou um pânico mal disfarçado. Esta ainda é mais grotesca: medicina sem homens? so what? a testosterona tem poderes medicinais? As maravilhas da engenharia social também dão nisto. Criar um mundo melhor e mais justo não é torná-lo mais simétrico.

Publicado por celsomartins em | TrackBack
Comentários

Olhemos mais longe...Parece-me mais que o simples preconceito machista.
O lobby da ordem consegue controlar o número de vagas. É um facto.
Agora pretende conseguir controlar quem entra. As provas de aptidão que apregoam não serão apenas uma forma de conseguirem controlar quem serão os futuros colegas?
Estou a pensar na rapaziada amiga: os sobrinhos, os afilhados, os filhos da mãe do pai...
Hoje acenam com o perigo do poder das mulheres amanhã lançarão que tipo de isco? Porque não estarão as outras profissões preocupadas com o facto das mulheres começarem a estar em maioria? Ah, deve ser porque ser médico é diferente! Claro!

Afixado por: ana em junho 2, 2004 05:05 PM

Ridículo, no mínimo.

Por mim, podia ser tudo mulheres na medicina.

Afixado por: Pedro em junho 2, 2004 05:29 PM

Alguns dos argumentos utilizados por estes machistas encapotados fazem lembrar o fundamentalismo islâmico: homens poderiam sentir-se incomodados por terem de consultar umA urologista, pelo que será necessária a existência de urologistas do sexo masculino!!!

A maior parte dos argumentos utilizados contra o "excesso" de mulheres poderia ser diretamente utilizado em qualquer outra profissão. Por exemplo, as mulheres engravidam, o que causa inconvenientes de serviço!!! Não será também necesário impôr quotas de homens nos educadores de infância? Ou quotas de homens nos operários têxteis?

Afixado por: Luís Lavoura em junho 2, 2004 05:29 PM

Quotas de homens na política, já!

Afixado por: Pedro em junho 2, 2004 05:31 PM

Aviso à navegação...o momento que se segue é feito de pura ironia e sem qualquer pretensão de antecipar o futuro:
...será que um dia ainda vamos ter que convidar as mulheres para as marchas dos homens que reinvindicarão a igualdade?

Afixado por: João em junho 2, 2004 05:58 PM

Esta proposta faz lembrar aquela das quotas de mulheres no parlamento. Reparem nas semelhanças:

- À ideia de que "as mulheres, que são mais de 50% da população portuguesa, têm de se sentir representadas", corresponde agora a ideia de que "os homens se sentiriam incomodados em ir à Urologista"

- Para a ideia de que "Se há menos homens a entrar, pior para eles" correspondia o "Se há proporcionalmente menos mulheres a votar e interessadas na política, pior para elas"

A única coisa que difere é a indignação que esta proposta suscitou... Porquê? Tanto quanto me lembro, ninguém chamou "feministas" aos sectores da sociedade que tiveram essa ideia.

Ah... e não me venham dizer que a natureza da política implica que as mulheres tenham de ser representadas por outras mulheres. Tal como algumas mulheres não gostarão de ser representadas por homens que não conhecem, também alguns homens (não é o meu caso, sinceramente, mas conheço muitos casos destes) se sentirão incomodados em estar nús ao pé de uma mulher que não conhecem, mesmo nesse contexto. Nada é mais natural do que isto... ou não?

Afixado por: Theoriaz em junho 2, 2004 10:21 PM

Claro que impôr quotas é muito discutível mas este post é um exemplo de quem fala do que não sabe, o que aliás é habitual neste blogue. Qualquer pessoa que esteja por dentro da medicina sabe que as mulheres raramente escolhem especialidades cirúrgicas, isto faz com que campos vitais da medicina (cirurgia geral, cirurgia cardio-torácica, etc.) comecem a apresentar um decréscimo acentuado de qualidade (e com tendência a piorar). Esta discussão já surgiu há muito tempo mas claro que é politicamente incorrecta e óptima para títulos dos jornais.

Afixado por: H.L.Azevedo em junho 2, 2004 11:07 PM

Atenção, olhem bem para as razões apresentadas e verão que não se trata de simples machismo. é um facto que há ocasiões em que as mulheres grávidas não podem exercer as mesmíssimas funções que os homens. Por alguma razão é que os sexos são diferentes.

Afixado por: João Pedro em junho 3, 2004 12:24 AM

Claro que isto não é simples machismo: é, tal como a Ana disse (e bem)uma forma da ordem aumentar o controlo que tem sobre quem entra em Medicina. Claro que só se atrevem a dizer tal enormidade devido ao machismo difundido.

A ordem dos médicos esteve ANOS E ANOS a comprometer o desenvolvimento do nosso país na área da Saúde (e não só) ao impedir da forma mais doentia a criação de mais vagas em medicina no nosso país. Milhares de jovens queriam entrar em medicina, as médias dispararam, mas continuava a haver falta de médicos em Portugal. A situação era mais grava tanto que aqueles que não entravam em medicina iam para veterinária, tirando lugar a outros que iam para biologia, tirnado lugar a outros que iam para farmácia, tirando lugar a outros que iam para enfermagem, tirando lugar a outros que não iam fazer nada... Uma palhaçada!

Depois de, por pura ganância e falta de escrúpulos, terem atrasado tanto a criação de um ensino superior capaz de satisfazer as necessidades nacionais, querem agora aumentar o seu controlo sobre este sistema de ensino para que o favoritismo e cunha reinem. E nem têm pudor em usar estes argumentos machistas e retrógrados.

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Quanto à questão das mulheres terem menos "gosto" pela cirurgia: claro que as leis do mercado de emprego regularizam essas situações muito rapidamente. Se isso porventura não se suceder, deve agir-se para incentivar os alunos de medicina a escolherem essa profissão, e não para aumentar o número de homens, COMO É ÓBVIO!

Afixado por: João Vasco em junho 3, 2004 01:41 AM

Não é nada óbvio. Não se trata de um problema de falta de pessoas. Em Portugal, neste momento, as especialidades mais exigentes (pior qualidade de vida) são ocupadas na maior parte pelos candidatos pior qualificados. Claro que isto não se resume à questão das mulheres mas na parte cirúrgica contribui decisivamente. Claro que deve pensar que o "gosto" das mulheres pela cirurgia é um preconceito machista...

Afixado por: H.L.Azevedo em junho 3, 2004 02:03 AM

H.L. Azevedo:

Sobre a pretensa pior qualidade de vida dos cirurgiões, posso-lhe asseverar que são dos médicos que mais dinheiro ganham.

Posso também dizer que já vi asseverado que, se há poucas mulheres em cirurgia, isso se deve a uma deliberada tentativa da classe médica, nomeadamente dos cirurgiões existentes, para as afastar dessa especialidade. Não se deve a uma qualquer incapacidade ou falta de vocação congénita das mulheres, mas à atuação, como sempre melíflua, dos médicos existentes para dissuadir ativamente as suas colegas de enveredar pela especialidade.

Finalmente: de todos os argumentos apresentados no artigo contra a prevalência de mulheres em medicina, há UM ÚNICO que me parece válido: o de mulheres grávidas não poderem estar em contacto com doenças infeto-contagiosas. TODOS os outros argumentos se aplicariam, da mesma maneira, contra a prevalência de mulheres entre as operárias fabris ou entre as educadoras de infância. Pelo que não são argumentos válidos.

(De qualquer forma, o argumento sobre as mulheres grávidas também tem pouca validade, uma vez que se sabe que, com a natalidade de rastos como ela anda, há hoje um enorme número de mulheres que não têm filhos ou, quando muito, têm apenas um. E isto passa-se sobretudo entre as mulheres com educação superior.)

Afixado por: Luís Lavoura em junho 3, 2004 09:48 AM

Sem prejuízo de concordar com o conteúdo, queria ver se a indignação era a mesma se se tratasse de estabelecer quotas para mulheres...

Afixado por: Pedro Sá em junho 3, 2004 09:53 AM

Não percebo esta discussão. Tanto quanto sei homens e mulheres tem as mesmas capacidades para exercer as mesmas funções, logo porque é que uns devem ser preteridos em relação aos outros? Porque são de géneros diferentes?

AH, já estou a ver ... claro é aquela coisa que do tempo dos meus pais aprenderam a mocidade portuguesa:
os rapazes faziam parte dos "esquadrões" físicos da mocidade portuguesa e passeavam em estilo parada militar pelas vilas e aldeias e as raparigas escolhiam lavores e educação doméstica.

O Dt. Salazar deve estar muito contente por ainda se lembrarem dele!

Afixado por: patricia em junho 3, 2004 01:42 PM

Pedro Sá:

Por piada alguns amigos meus falaram à pouco tempo na ideia de impôr cotas no IST (onde estudo) para os cursos de engenharia, que têm poucas raparigas.
Por piada, claro(!), porque se uma ideia tão sexista como essa fosse levada a cabo, eu seria o primeiro a indignar-me. Seria ridículo impedir um rapaz de ir para o curso que pretende para dar lugar a uma rapariga que tivesse menos habilitações, para forçar a existência de mais mulheres na engenharia não obstante a falta de interesse. Por sinal o mercado de emprego está a corrigir naturalmente essa assimetria, havendo, sem recurso a sexismos, felizmente, cada vez mais mulheres na engenharia.

Da mesma forma que rejeitaria esta ideia anedótica (de cotas femininas em engenharia), tenho toda a legitimidade para rejeitar a existência de cotas masculinas para medicina. Prefiro que o estado gaste o seu dinheiro a educar aqueles (aquelas) que mais se esforçaram e empenharam para chegar a um determinado lugar. Entre uma mulher competente que lutou para conseguir uma média alta, e um rapaz que não se esforçou o suficiente, pobres de nós, que irracionais e patéticos, se preferimos investir na educação de quem menos a mereceu.

Os argumentos a favor da existência de cotas masculinas em medicina são fracos, primários e não justificam essa decisão sexista para que a ordem dos médicos continue a promover o nosso atraso.

Afixado por: João Vasco em junho 3, 2004 03:43 PM
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