julho 02, 2005

Arrumar os móveis, depressa! depressa!

O Pedro Vieira do magnífico Vida Agridoce e o João Pedro da Costa d'As Ruinas Circulares (que gosta de bandas de que eu também gosto – e gostaria de assinalar isto publicamente) reenviaram-me aqui há tempos aquele inquérito agora passado de moda sobre livros (foi aqui e aqui). Não me esqueci deles; mas não tive ocasião de responder. Agora, antes que as portas giratórias (da vida!) fechem e eu fique com o casaco preso, cá vai disto:

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Já alguém notou que esta pergunta é confusa. Pelo que entendo, a ideia é escolher um livro que apareça no Fahrenheit 451, mas não fica claro se se trata do livro (original) do Ray Bradbury ou da versão em filme do François Truffaut, duas coisas soberbas. O livro fala de livros mas tem poucos ou nenhuns títulos de onde escolher. O filme cita vários títulos, principalmente naqueles minutos finais miraculosos. Escolho o Guerra e Paz, que tenho quase a certeza que aparece. E dentro do Guerra e Paz, a cena em que a família Rostov demora dias a arrumar os móveis em carroças para se pirar de Moscovo e, num dos seus momentos de piroseira, Tolstoi põe o Andrei Bolkonski, ferido, numa das carruagens de trás, sem a Natasha saber, e o Pierre Bezukhov a vaguear louco pela cidade, congeminando planos para assassinar Napoleão. Foi uma telenovela do caraças.

Já alguma vez ficaste apanhadinh@ por um@ personagem de ficção?

Quando era miúdo, pelo Olrik, vilão de Blake & Mortimer. Quando era mais crescido, pelo Cosimo Rondó, o barão trepador de O Barão Trepador de Italo Calvino. Pelos vistos, era mais estiloso quando miúdo.

Qual foi o último livro que compraste?

Perdi a cabeça na Feira do Livro da Gulbenkian. É preciso dizer que os gajos não sabem o que fazer aos livros e praticamente pagavam para se verem livres deles. Entre as compras, Consolação às Tribulações de Israel, de Samuel Usque. Dois volumes, capa dura, 400-500 páginas cada; dois euros pelos dois. Pimba!

Qual o último livro que leste?

Um amigo disse-me que o Camilo dava 3-2 ao Eça, no prolongamento. Achei uma posição fanática disfarçada com uma pele de equilíbrio, mas estou ganho para a modalidade. O último livro que li, salvo erro, foi o Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco. Ali o Eça não chegava nem que se esticasse todo. Mas o jogo ainda não acabou.

Que livros estás a ler?

O Que Fazem Mulheres – Camilo outra vez, essa colecção que anda aí nas bancas.

Daniel Dennett, Freedom Evolves. Mais fraquinho do que o Darwin's Dangerous Idea.

Mary Shelley, Frankestein.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Numa ilha deserta assim à la Crusoe, estaria demasiado deprimido para ler. Numa ilha deserta à la Onassis, teria uma biblioteca inteira. Mas vou entrar no jogo: Fernão Mendes Pinto, Pascal, Karel Capek, Mark Twain... não, espera lá – acho que banda desenhada, livros técnicos (botânica, sobrevivência) e fotografias de mulheres nuas.

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?

Tenhnho o casaco preso na porta.

Publicado por ruitavares em
Comentários

Rui Tavares termina em beleza, os semáforos de Lisboa estão com AVARIAS DESDE QUINTA-FEIRA, POIS O SISTEMA GERTRUDE, que passa no Marquês DE Pombal foi atingido por uma máquina que fazia escavações para o malfadado Tunel.

Uma da maiores criticas a esta obra, era exactamente a possibilidade de toda a sinalização de Lisboa poder ser desregulada, se o sistema fosse tocado, ora aí está, e agora quem paga, o Santana e o Rodrigues ou o erário público.

Afixado por: condor em julho 2, 2005 04:46 PM

Ó Rui, a 1ª pergunta é: se vivesses no mundo retratado no Fahrenheit - e fosses da 'resistência', claro - que livro gostarias de 'ser', ou seja, que livro achas importante que a Humanidade não perca? Penso q ñ é necessário ser 1 dos referidos no Fahrenheit. Eu, tendo de fazer uma escolha dessas, abriria calmamente as veias...Ou então ñ pensava muito e empinava a obra toda do Lorca, não sei...

Mas indo ao q aqui me trouxe: a desaparição dos '5 magníficos'. Apesar de o Barnabé já ñ ser o q era (esqueceram-se da cultura futebolística: em equipa que ganha não se mexe), tenho pena q acabe assim, de uma forma aparentemente um pouco infantil. Por outro lado, talvez tenha sido esse bocadinho de "infantilidade" que permitiu tanto empenhamento, generosidade, ousadia, paciência e respeito connosco, comentadores, tanta paixão na polémica, tanto de tudo o que fez deste blogue um êxito.
Dizer que QUERO MAIS é talvez pedir ao tempo que volte atrás; e já tive uma prendinha quase-póstuma, o reaparecimento do André Belo. Por isso, "que seja à antiga, com piadas sobre o morto e banda de jazz por trás".

Afixado por: lucrecia em julho 3, 2005 02:11 AM

Ver aí o meu nome antes do fim d'O Barnabé enche-me de uma felicidade desmedida, Rui. Um grande abraço e obrigado por tantas horas de leitura.

Afixado por: João Pedro da Costa em julho 4, 2005 03:04 AM