A minha escola, uma instituição universitária francesa de investigação em ciências sociais, é um lugar extraordinário. Tem historiadores, sociólogos, antropólogos, filósofos, economistas, geógrafos, psicólogos e outra gente útil. Para nós é a escola, a École. O nome torna-se irónico: um lugar de alta especialização académica é descrito com o mesmo nome dum lugar do ensino primário. Há certamente muitas escolas que são tão boas ou melhores que a minha. Mas esta escola é especial, toda a gente que a conhece bem o reconhece. Nos últimos anos, tive a oportunidade de ouvir falar ali pesquisadores de uma qualidade excepcional, de diferentes tradições intelectuais, vindos dos vários continentes do mundo. É uma escola livre, onde se aprende sem que ninguém nos pergunte por que estamos ali, onde há tempo para pensar, onde a inscrição não é excessivamente cara, onde se fazem amigos de muitos países. Depois, tem os seus defeitos (se não, como é que podíamos gostar dela?). Falta de espaço, falta de computadores, falta de pessoal, café mau, alguns professores sem escrúpulos também. É uma escola cujo principal património é a cabeça das pessoas que lá andam. É um património imenso.
Nos últimos tempos, por afazeres profissionais, vou pouco aos seminários da minha escola. E, como a memória é fraca, esqueço-me do quanto ali aprendi nos últimos anos: um saber metodológico que, bem ou mal, tento aplicar nos meus trabalhos, um precioso saber gratuito que, bem ou mal, tento aplicar à vidinha. Lembrei-me disto de novo anteontem, depois de ir à escola ouvir falar um antropólogo, Fredrik Barth, norueguês, senhor com 50 anos de reflexão e trabalho de campo sobre as comunidades e as culturas humanas em vários pontos do mundo. E, no espaço de duas horas, uma cabeça que se põe a pensar à nossa frente e a dialogar connosco com inteligência, sabedoria e humor sobre a sua visão dessas culturas, dos grupos humanos que observou no Curdistão, no Irão, na fronteira entre o Paquistão e Afeganistão, em Oman. E que, nestes tempos de guerras de palavras, e de guerras reais nalgumas dessas mesmas regiões que estudou, critica sistematicamente a ideia de que existam pertenças e identidades étnicas e culturais fechadas e previamente definidas (um árabe não é apenas um árabe). Alguém que estuda e valoriza os contactos, os cruzamentos, as identidades em construção permanente. E que volta para a Noruega sorridente, enquanto, em cabeças apocalípticas, o mundo fica a rebentar graças à esquizofrenia constatada entre a sala de seminário da escola e o exterior, entre o tempo da reflexão académica e o tempo mediático. Mas desta esquizofrenia a minha escola não tem culpa: é apenas um sintoma; é só por ir lá pouco agora que a sinto.
Se um dia, por causa do aristocratismo intelectual ou da cegueira dos governos, a minha escola perdesse a sua vocação de escola que recebe estudantes e os integra em ambientes cosmopolitas de investigação, esse dia constituiria uma perda irreparável. Mas a sabedoria humana vai conseguir adiar sempre esse dia, e a minha escola continuará a ser a escola.
Publicado por andrebelo em | TrackBackMas será que quem quer aprender saiu alguma vez da "École", exepto, talvez, na "pose" e na capacidade de manipular o que entretanto se aprendeu!?
Afixado por: chato em junho 10, 2004 10:22 PMQue falta faz cá uma "École" como a sua.
Há bons e menos bons estes debitam,debitam e nada nos dizem é uma seca...dá vontade de assinar o ponto e saír 2 minutos depois. Mas,temos que passar de ano pq as propinas são altas (na particular)...
Quem gosta de aprender fica com vontade de pedir a transferência para a sua "École", ficou o bichinho... :)
Gostei muito de ler.
Afixado por: SP em junho 11, 2004 04:14 PM