junho 17, 2004

Os seis minutos


Lorenzo Spirito, "Roda da Fortuna", in Libro de la Ventura,
Milão, 1508.

Já somos os maiores outra vez? Não. Tal como não tínhamos sido uma lástima contra os gregos. Eu já vi jogos em que a selecção é uma lástima e não acerta um passe contra equipas da treta, e não foi isso que aconteceu no sábado contra a Grécia, que é uma equipa compacta e séria.

Então o que é que aconteceu? Aconteceu que aos seis minutos estávamos a perder contra a Grécia, e aos seis minutos estávamos a ganhar contra a Rússia. Claro que há gente que se ri desta distinção. Provavelmente, gente que não percebe a diferença entre começar um jogo a perder, e começar um jogo a ganhar. Entre ter de recuperar do choque ou dominar um adversário que precisa desesperadamente de recuperar. Para essas pessoas, a receita é simples: se a equipa perde, arrasa-se com ela; se ela ganha, inchamos todos. Os adversários é como se não existissem, não jogam, não estavam lá nem têm influência nenhuma. A sucessão de eventos não conta.

É a visão dos deuses.

Agora vem aí o jogo decisivo. Ninguém sabe o que acontecerá aos seis minutos nem como isso influenciará o resto do jogo. Por mim, disse aqui a seguir à derrota que acreditava que a selecção passaria a eliminatória, e estou desejoso de reencontrar todos os que disseram que já estávamos eliminados. Mas para esse é sempre fácil, porque basta dizer "olha, estava enganado, ainda bem".

São estas as vantagens retóricas do pessimismo: quando os pessimistas erram, estamos sempre todos demasiado contentes para dar importância a isso.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

E a importancia retórica do optimismo é que todos gostariamos de ser capazes de acreditar em tão lindas ilusões...

Afixado por: lucrecia em junho 17, 2004 03:33 AM

Rui, eu acho que jogámos mal contra a Grécia. Mas isto sou eu que, como te disse no post anterior, não sei nada de bola.

Afixado por: Daniel Oliveira em junho 17, 2004 03:36 AM

lucrécia, você é mesmo a lucrécia? ou não será antes a cassandra?

Afixado por: rui tavares em junho 17, 2004 03:36 AM

borgia :)

Afixado por: lucrecia em junho 17, 2004 03:38 AM

a questão, daniel, é se se poderá jogar bem quando se perde desde o início. batalhámos. mas os gregos, como mostraram hoje em frente à espanha, aguentam-se nas canetas. e na segunda parte lá começámos a perder outra vez. batalhámos outra vez. e eles mais tranquilos ainda.

Afixado por: rui tavares em junho 17, 2004 03:55 AM

Jogámos mal contra os gregos, menos mal contra os russos. A diferença de qualidade dos adversários contou para os resultados.
Porém, as equipas quando jogam bem conseguem dar a volta aos resultados. Até há exemplos neste campeonato, a França, a república Checa. Eram melhores, aplicaram-se, e deram a volta. Podiam ter perdido? Claro, mas, ao contrário de nós, jogaram bem. E nós não jogámos contra a Grécia melhor que eles, pelo que perdemos justamente. E jogámos menos mal que a rússia, pelo que ganhámos merecidamente.
Extrapolação filosófica: não tem nada a ver com optimismo e pessimismo. O optimista também diz que se enganou e pronto, a argumentação é simplista. Trata-se de realismo.

Afixado por: Alfredo Vieira em junho 17, 2004 05:00 AM

Penso que a Grécia fez um jogo muito mais solto e bonito contra a Espanha do que contra Portugal. Talvez tenha sido por estar a perder que deixou a Espanha movimentar-se com mais liberdade, dando aqueles espaços todos que permiriam construir o golo do empate, para mim, isso é que é jogar bom futebol.

No caso nacional, é evidente que há uma enorme vantagem em marcar cedo. Mas para marcar cedo também não são só os deuses a contribuir, foi preciso ir buscar um retalho de equipa muito bem articulado e encaixá-lo no tecido da selecção. Em todo o caso, parabéns à selecção, porque venceu e porque teve alguns momentos de bom futebol.

Afixado por: MBP em junho 17, 2004 11:04 AM

Vou-me ficar pelo 6º minuto. Já houve dois... Se houver um terceiro estaremos perante o número da besta 666 » Creio que o jogo entre Portugal e Espanha vai ter muito de "diabólico".

Afixado por: O parolo em junho 17, 2004 12:14 PM

alfredo vieira: a frança e a república checa recuperaram de um golo. nos teríamos de recuperar de dois. aquele penalti foi decisivo.

Afixado por: rui tavares em junho 17, 2004 01:06 PM

Mais uma vez concordo com o Rui.
Em relacao a Franca Alfredo Vieira, nao so recuperaram de 1 golo como foi atraves de um livre e um penalty. E mais a Inglaterra falhou um penalty, depois de uma bela jogada de contra-ataque e nao uma oferta como foi o penalty frances, portanto como ve as circunstancias de um jogo de futebol, por vezes nao passam de isso mesmo, por isso o Rui tem toda a razao.

Afixado por: nelson em junho 17, 2004 03:53 PM

O que aconteceu? Aconteceu um meio campo que é meia-equipa e vence tudo há dois anos- menos a fruteira que foi para a luz -: Costinha, Deco, Maniche. So simple. Se a Maestria e volutarismo de Deco não chegasse para explicar muitas coisas, perceba-se como este triângulo muda a forma da selacção defender. A pressão alta esteve lá. Como os mais atentos decerto notaram a pressão alta do psicólogo da banha da cobra esteve lá.

Afixado por: Bruno Martins em junho 17, 2004 05:26 PM
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