junho 20, 2004

A melhor coisa da rede

Ando há dois dias a ouvir Chico Buarque, movido pela blogosfera. É a coisa melhor desta rede: amigos, conhecidos, desconhecidos, põem-se a trocar impressões, ideias, emoções, as letras e as músicas de alguém que amam em comum, e daí resulta uma partilha intensa, qualquer coisa de absoluto. O relativo desconhecimento, a relativa distância, a relativa ausência de contexto, a associação livre, potenciam a memória emocionante que cada um tem, sem a impôr aos outros. Para mim, Chico Buarque evoca xaroposas recordações da adolescência no Liceu Pedro Nunes. Ficará para sempre ligado à descoberta, à volta da guitarra do João Madureira, do continente da música popular brasileira que ele conhecia tão bem desde criança, assim como a emotivas interpretações do Daniel, a solo, de "Geni e o Zepelim". Desde esses anos, a música brasileira basta-me, é um universo inteiro do qual posso sustentar-me, sem me poder considerar sequer um conhecedor. Considero Caetano o maior. Mas opô-lo a Chico Buarque é impôr-se uma dor desnecessária. Há uns anos vi uma exposição em que artistas plásticos brasileiros eram convidados a criar uma "imagem do som" de Chico Buarque: uma foto, um quadro, uma escultura, a partir das suas canções. A ideia era excelente, algumas das obras eram óptimas: mas as canções de Chico eram inacreditáveis. Eram várias dezenas de canções perfeitas, podíamos ouvi-las em headphones junto às obras expostas, e saíamos para a rua em êxtase. O Chico é um poeta maravilhoso, tem uma voz que chora e dá-nos uma felicidade que vai durar a vida inteira.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

Para quem ainda não defende o exterminio.
A julgar pelos comentarios, já faltou mais.
http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=115893&idselect=10&idCanal=10&p=94

Afixado por: newmajhor em junho 20, 2004 02:20 PM

Eu nasci e cresci a ouvir o Chico, na altura em que ele ainda era chamado Francisco Buarque de Hollanda.
Há uma canção dele que dá o nome ao LP que eu mais ouvia quando era miúdo e que para mim era como um hino - Construção.

É sem sombra de dúvida, além de tudo o mais, um poeta das palavras, mesmo quando escreve em prosa.

Sim, a rede tem coisas maravilhosas!

Afixado por: Pedro Farinha em junho 20, 2004 03:18 PM

"Considero Caetano o maior. Mas opô-lo a Chico Buarque é impôr-se uma dor desnecessária"

Nem mais!
Já quando se juntam os dois ("Você não entende nada" + Cotidiano" em 1972 temos pura magia.

Afixado por: Rui MCB em junho 20, 2004 03:20 PM

Parabéns, André! O texto é fantástico!

Afixado por: Marujo em junho 20, 2004 04:12 PM

É isso mesmo, André. Não posso estar mais de acordo com o que diz.

Afixado por: Ardelua em junho 20, 2004 05:25 PM

Desculpem lá, mas depois da adolescência já não há pachorra para o Chico Buarque e quejandos! Os brasileiros que o digam. O Chico Buarque é pior que o Mateus Rosé!

Afixado por: Fernando Martins em junho 20, 2004 06:04 PM

"O malandro na dureza..."

Afixado por: Patrício em junho 20, 2004 11:44 PM

O mais interessante é ver como os senhores, com tiques de meninos mimados, se apropriam do Buarque com se nada de mais natural houvesse. Tiveram a VERDADEIRA adolescência, frequentaram o Liceu dos Liceus e animam as vidinhas com memórias que, aqui publicadas, não são pretexto, mas o próprio objectivo textual. Sabiam que o Buarque circula para além das vossas casas? Sabiam que, em princípio, toda a gente teve uma adolescência "muito própria"?
Abraço

Afixado por: tr em junho 21, 2004 11:21 AM
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