junho 30, 2004

O barbeiro de Sampaio

Dias Loureiro gosta de cultivar um ar cavalheiresco na TV, mas na verdade trata-se um boxeur retórico. Sabe que em debate há momentos em que não se consegue ganhar e que, nesses casos, o que há a fazer é baixar a cabeça e fuçar fuçar fuçar.

Hoje na RTP1 fez de conta que não percebia a diferença entre legalidade e legitimidade e fuçou fuçou fuçou para levar essa confusão até ao fim do programa.

O "argumento" anda por aí e é o seguinte: é legal aceitar a nomeação de Santana Lopes logo é legítimo que Santana Lopes seja PM. Qual eleições antecipadas, qual derrota eleitoral faz hoje quinze dias, qual congresso no PSD, qual quê: é legal, é legítimo. É legal, é legítimo. Ainda não perceberam?

Este "argumento" é reconvertível noutro: não é verdade que a constituição permite nomear Santana Lopes? Então, se a constituição permite, a constituição obriga. A Constituição Permite, logo É o Único Caminho.

Pouco interessa que a Constituição também permita convocar eleições antecipadas. Se ela permite nomear Santana Lopes, então é isso que certamente devemos fazer. Existem milhares de caracteres em blogues de direita que não querem dizer mais do que a frase atrás.

Para nos evitar a penosa exposição a este mantra, e para ajudar os neurónios de direita a conseguirem sair do loop jurídico em que encontram desde há dias, imaginemos um exemplo simples.

A constituição permite, entre outras coisas, nomear um governo de iniciativa presidencial. Sim. A constituição permite a Jorge Sampaio sair um dia de casa e nomear Primeiro-Ministro o barbeiro daqui da minha rua. O Sr. Rodrigues – é assim que se chama – tentará então formar Governo, apresentar o seu programa e procurar conseguir apoios no parlamento. E, sabem que mais? Tenho a certeza absoluta que o PPD-PSD e CDS-PP, Dias Loureiro e António Pires de Lima, O Acidental e o Contra-a-Corrente o apoiarão. Porque é legal, logo é legítimo. Porque a Constituição Permite, Logo É Certamente Isso Que Devemos Fazer.

Mas, ai horror! De repente descobrimos que temos de respeitar um resultado eleitoral – só um e um apenas, o das legislativas de 2002. Grande buraco; Governo do Barbeiro ao fundo? Não meus amigos, podeis dormir descansados: o Sr. Rodrigues calha a ser militante do PSD. As Duas Únicas Condições estão satisfeitas: é do PSD, e a constituição permite. O mundo entrou nos eixos.

Pois é. Há alturas lixadas da vida em que só temos um argumento, umzinho só. E ainda por cima nem é bem um argumento. É um argumento de plástico. Chama-se um silogismo.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

Também gostei muito de ouvir o burguês Fernando Rosas a dizer que a coligação eleitoral de 2002 é ilegal... Ou seja, se o Béééééé partilhar da opinião do burguês, então nunca vai participar num governo! Fixe!

Ah, e aproveito também para deixar uma pergunta: para quando uma série de posts sobre Salvaterra de Magos, a única câmara do Béééééé e onde ultimamente têm acontecido coisas interesantes? Uns familiares que lá moram relatam-me cenas espantosas de promiscuidade entre a coisa pública e a coisa da presidenta!

Será que temos para aqueles lados uma Avelina Ferreira Torres do Béééééé? Quando é que o carro de reportagens da TVI lá vai dar uma volta?

Dúvidas e mais dúvidas... Ser Pai Natal num país destes é muito difícil!

Pai Natal

Afixado por: Pai Natal em junho 30, 2004 03:00 AM

Gostava de ver essa gente tão empenhada a aplicar a constituição a dar uma vista de olhos ao artigo 13º...

Afixado por: Boss em junho 30, 2004 05:44 AM

Os gajos, como este "pai natal" querem passar um atestado de imbecilidade ao povo tentando confundir entre legítimidade legal e política. Se por um lado, caso o presidente assim o decida, há legitimidade legal, já a política é outra coisa pois até dentro do pêpêdê o santana é contestado, já para não falar fora. Mesmo que o santana seja colocado (não é eleito) no lugar (viva a democracia sem votos) seria sempre um governo a prazo e acabaria por haver eleições em menos de um ano (grande estabilidade política e lá se vai o único argumento do pêpêdê) e por isso o presidente, apesar dos "pais natais" deste país lutarem para não perderem o "tacho", só tem uma coisa a fazer, convocar eleições e deixar o povo decidir. Os laranjas já me fazem lembrar os tempos da ditadura em que diziam que o povo não tinha esclarecimento suficiente para decidir quem governava...lembram-se. E assim, com eleições, iremos descobrir que o "pai natal" não existe.

Afixado por: Luis em junho 30, 2004 07:49 AM

Ontem no PÚBLICO a constitucionalista Assunção Esteves escrevia um texto que se resumia a este silogismo: o presidente da república é OBRIGADO pela constituição (!!!) a nomear o primeiro-ministro que o PSD lhe propuser, e prontos. Nem mais.

Esta confusão entre legalidade e legitimidade faz-me lembrar a luta entre a "unidade" e a "unicidade" sindical nos tempos do PREC. Quando a UGT se formou e os comunas da CGTP queriam evitar que ela existisse. Foi uma discussão entre duas palavras que deu brado durante muitos meses.

Afixado por: Luís Lavoura em junho 30, 2004 09:49 AM

E de fuçar, também percebes tu!!!

Mas, por mais que fuces, não consegues iludir a questão central: nomear o Santana 1.º ministro é uma solução legal e legítima. Obviamente que não é a única!

O que vocês dizem é que a solução Santana não tem legitimidade, não pode ser, etc... Pode-se não gostar do homem e parecer uma anedota que ele chegue a 1.º ministro - no entanto a solução Santana é perfeitamente legítima.

Há outras soluções. Caberá a um homem eleito pela esquerda decidir!

Afixado por: mondrian em junho 30, 2004 11:47 AM

Desde a primeira hora que sou leitor do Barnabé, e foram posts como este, que me tornaram leitor fidelizado.
Parabéns!

Afixado por: LP em junho 30, 2004 11:48 AM

E aquele comentário, com o qual ainda estou perplexo (palavra que Louçã muito gosta de usar), de Fernando Rosas, onde diz k a os portugueses votaram no PSD e não para que formasse coligação com o CDS, em 2002! Então mas agora não podem haver coligações pós-acto eleitoral? Não são legítimas essas coligações, ou não são legais? Então, quer dizer que não podem haver entendimentos para que hajam condições para a formação de uma maioria parlamentar? Não é legitimo ou não é legal? Ou uma coisa e outra? Oh, Dr.Fernando Rosas...give me a break. A direita não tem culpa por a esquerda nunca se entender na formação dessas maiorias e gostaremos muito de ouvir os seus argumentos caso um dia o PS venha a formar uma maioria com o BE, pós eleitoral. Cá o estaremos para ouvir atentamente.
Em relação a Dias Loureiro, considero que o que pretendeu transmitir no debate, e foi o que eu apreendi, é que se é legal, obviamente que será legítimo também. E isso, desculpem, mas é mesmo assim.
O que Dias Loureiro pretendeu desmontar foi o argumento de que a solução que não passe pela marcação de eleições antecipadas não é legítima, porque é. Por muito que vos custe, também é legal e também é legítima.

Afixado por: Direitinho em junho 30, 2004 11:56 AM

Como é possível que alguém ainda se dê ao trabalho de comentar as bacoradas do rosas??? O tipo não presta mesmo. É incompetente e fala barato, tipo soares, só diz baboseiras.

Afixado por: justino em junho 30, 2004 01:05 PM

Tanto medo que eles têm do Santana!

Estão cagadinhos.


Afixado por: Chico em junho 30, 2004 01:59 PM

O gajo do Contra a Corrente já respondeu.

MacGuffin, o próprio.

Afixado por: MacGuffin em junho 30, 2004 02:47 PM

McGuffin: fico contente por ver que o Sr. Rodrigues conta com o seu apoio.

Afixado por: rui tavares em junho 30, 2004 03:40 PM

Rui,

Quem é o Sr. Rodrigues? E apoia-me no quê? Ele há coisas...

Desculpe a minha ignorância. Ou a minha incorrigível distracção.

Afixado por: MacGuffin em julho 1, 2004 01:13 AM

Oh pai Natal. Contaram-te mal a história de Salvaterra. Quem deu com os burrinhos na água foram os eleitos pelo PSD e pelo PS. Esses é que meteram a mão onde não deviam, não venhas para aqui fazer confusões. Se não dormisses tanto com as renas, se calhar não estavas assim...

Afixado por: Curioso em julho 1, 2004 09:38 PM
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