Prometi que quando passasse a crise política falaria da questão do Bloco de Esquerda e da governabilidade. Este é um tema difícil e em que estou limitado. Não estou limitado na minha liberdade, entenda-se. A limitação, sou eu mesmo que me imponho, porque sei que, sendo dirigente do Bloco de Esquerda, devo lealdade àqueles com quem estou a construir um partido. Devo, por isso, e antes de mais, reforçar que escrevo este texto a título pessoal e, na medida do possível, independentemente das minhas responsabilidades políticas.
Escusado será dizer que da mesma maneira que este texto não é feito em nome do Bloco, também não o é em nome do Barnabé. Do Barnabé, apenas eu sou do Bloco, coisa que quase todos os leitores sabem, mas alguns gostam de esquecer.
Uma nota prévia: porque estou eu no Bloco? Sem esta nota a minha posição sobre o tema é incompreensível. Não sou marxista, nunca estive de alguma forma ligado a nenhuma corrente da extrema-esquerda. Saí do PCP em 1989 e poderia dizer, para simplificar, que saí pela linha reformista. Sempre me considerei libertário e radical ao nível dos costumes e um defensor intransigente de todas as liberdades individuais, o que foi sempre motivo de fortes divergências com a “moral proletária” do PCP. Desde a minha dissidência do PCP que me coloco nesse espaço amplo e pouco claro que é o da social-democracia. Resumo: defendo reformas radicais para o reforço do papel regulador do Estado na defesa dos mais desprotegidos, do Estado Providência, do pleno emprego e de uma segurança que permita a autonomia de todos para planear o seu futuro. Vejo o Capitalismo como intrinsecamente injusto, mas sou hoje desconhecedor de qualquer alternativa credível, bastando-me contrariar a sua lógica e reduzir o impacto dos seus efeitos.
Ou seja: defendo um Estado fraco perante as opções e liberdades individuais de cada cidadão e um Estado forte na defesa dos direitos sociais perante o poder económico. Nenhum Estado na cama, muito Estado na rua. Feita esta explicação sumária e um pouco simplista, passemos então à questão do Bloco de Esquerda.
Teoricamente, se a ideologia tivesse alguma importância para o Partido Socialista, poderia ser militante ou simpatizante do PS. Não o sou nem nunca pus a possibilidade de o ser por duas razões:
O Partido Socialista tem, em Portugal, uma tradição essencialmente anti-comunista. Tem a ver com o momento específico da sua implantação nacional. Esta tradição bloqueia o PS na relação com tudo o que está à sua esquerda. Com a excepção de pequenos episódios, o PS tem uma vocação de atracção do centro político. E o centro político (o Bloco Central), do ponto de vista ideológico, interessa-me ainda menos do que a direita. Não clarifica, é imobilista e, por isso mesmo, vive bem com o tráfico de influências, a maior doença da política portuguesa.
O PS, também por causa da sua história, está fortemente comprometido com o caciquismo que domina a vida política portuguesa e com as elites empresariais portuguesas, que apostam numa mão-de-obra desqualificada e numa economia de enriquecimento rápido e sem futuro.
Resumindo: o PS é pouco reformista, conservador nos costumes e comprometido com os piores vícios das elites portuguesas. Entre outras, estas serão as maiores razões para nunca me ter sentido atraído pelo Partido Socialista. A forma como Ferro Rodrigues, o primeiro secretário-geral do PS claramente colocado à esquerda, foi sabotado pelos representantes do PS profundo, é o sinal mais claro dos bloqueios deste Partido Socialista. A fragilidade de Ferro é um sinal das fragilidades da ala esquerda do PS.
Encontrei, assim, no Bloco de Esquerda, o meu espaço natural. Antes de mais, porque o BE é suficientemente plural para que ali me possa bater por reformas claramente situadas à esquerda, descomprometidas dos interesses corporativos. No BE juntam-se correntes revolucionárias, claramente marxistas-leninistas, a correntes reformistas de esquerda. Como é possível? Através de propostas programáticas concretas, em torno das quais se consegue juntar o que debates intermináveis em torno de questões que, sendo importantes, não são, hoje, as mais relevantes, sempre dividiram. O descomprometimento, o pluralismo, a liberdade interna e o radicalismo em matéria de costumes são para mim suficientes para me sentir bem onde estou.
Nunca me passou pela cabeça envolver-me na política por outra razão que não seja a de mudar as coisas. E para as mudar, o poder é essencial. A política é para mim a luta pelo poder para transformar o poder e com ele transformar as condições de vida das pessoas. Não dedicaria a minha vida ao contra-poder sem mácula, só para morrer puro. O poder corrompe, mas a pureza é inútil. E entre a inutilidade e o risco, escolho o risco.
No entanto, o poder não acaba e começa no governo. O poder de influência é, muitas vezes, bem mais eficaz. Pessoalmente, não acredito, já o escrevi aqui, na capacidade de um partido com 3, 4 ou 5 por cento ter peso suficiente para condicionar de forma eficaz e profunda a governação. Nem me parece que isso fosse honesto do ponto de vista democrático. O partido em que estou é minoritário e penso que o seu poder deve ser minoritário enquanto assim acontecer. Ter dois ou três ministérios não mudaria esta situação. Apenas teria como resultado uma erosão política do Bloco sem que nada de substancial mudasse. Um partido pequeno não tem nem capacidade para realmente condicionar a governação, nem reservas de resistência suficientes para aguentar o preço da governação. Não tem e é justo que não tenha.
Apesar de ser contra qualquer participação do BE, nos tempos que correm, num governo socialista, não consigo esconder o meu gozo com a aflição da direita (e até algum centro-esquerda) perante tal possibilidade. Vivem bem com um partido anti-imigração e de traços autoritários explícitos no governo, viveram bem com orçamentos vindos da esquerda aprovados pelo PP e por um cacique local, mas perdem o sono com o Bloco. Que ninguém lhes dê soporíferos.
Outra questão é a da governabilidade. O facto de eu ser contra, neste e nos próximos momentos, a participação do Bloco de Esquerda num governo socialista, não me impede de estar ciente da encruzilhada em que o BE se poderia vir a encontrar no cenário hipotético de uma maioria relativa do PS – esperemos que nunca tenha a maioria absoluta (ela seria negativa para a transparência política e a autonomia do aparelho de Estado face a um poder partidário). É possível que o BE tenha, então, nas suas mão, a sobrevivência de um governo de esquerda. Mais claro e mais difícil: poderia ter nas suas mãos o regresso da direita ao poder. Na minha opinião, o posicionamento do Bloco deverá partir deste princípio: fazer depender a sua posição de questões estruturantes e agir em conformidade. Sem comércio de lugares ou de votos, penso que o BE deverá aprovar aquilo com o qual concorda e chumbar aquilo com o qual discorda. Mas estar disponível para permitir avanços, mesmo que eles não correspondam à totalidade do seu programa.
E deixar ao PS a decisão de ter à sua esquerda ou à sua direita os seus interlocutores. Penso que só isto é honesto, só isto é eficaz, só isto é responsável.
Mas sejamos claros: nada disto está hoje em cima da mesa. Tudo indica que o PS vai trilhar o mesmo caminho que trilhou no passado. O debate pode e deve fazer-se, mas ele afigura-se quase académico. O que não é tolerável, e isso justifica este texto, é a chantagem permanente do "voto ou a vida", tentando transformar a esquerda à esquerda do PS num salva-vidas para as ocasiões. Debata-se então a política e faça-se depender dela, e apenas dela, o futuro da esquerda. Começar o debate ao contrário é o pior que a esquerda poderia fazer. Nisso, a esquerda tem uma vantagem em relação à direita: a direita quer hoje que tudo fique como está e por isso une-se com facilidade, a esquerda quer mudar, e por isso está obrigada a um debate interno com conteúdo político e de proposta.
Repito que esta é a minha posição pessoal. Num partido, a posição pessoal junta-se a outras e procura a síntese. Enquanto as condições iniciais do pluralismo político e do debate livre se mantiverem no Bloco (e todos os sinais me dizem que elas se têm reforçado), acompanharei a posição da maioria.
Publicado por danieloliveira em | TrackBackcaro daniel
so umas breves notas
1 dizes que não és marxistas mas existem correlegionsrios teus que cantavam à pouco tempo louvores à albania e outras cretinices do genro
nunca vi um mea culpa
2 como te posicionas com a posição do BE face À ETA e a espanha (não recebeu o rei no parlamento) perguinto isto pq foi o que me fez (votei BE nas legislativas de 95) jurar não votar no BE
3 BE já teve oportunidade na ultima legislatura
de apoiar o PS mas preferiu entregar o ps ao queijo
ou seja para apoiar um governo, ainda que só n parlamento é necessário saber dialogar e ter capacidade e flexibilidade para negociare, ganhar e perder e isso o BE não tem
é necessário axcreditar que os outros tb são pessoas com ideias válidas e que "nós" é que sabemos o que é bom
Eu penso, na minha humilde opinião que o BE será sempre um partido radical (acreditam na demmocracia parlamentar ou na revolução)anti-sistema e fortemente apioado no meidatismo das suas causas
acredito no que dizes mas não nos que te rodeiam
saudações socialistas
sérgio
Afixado por: sergio em julho 12, 2004 06:41 PMSe o PS é anti-comunista, então o que é o PCP? Anti-socialista, talvez. Quando o PCP se alia ao PSD em Sines, Santiago do Cacém, Almodôvar, Sesimbra ou Porto, a culpa tb é do PS?
Quando o BE der a conhecer o que pensa e tenha maior implantação no terreno, pode vir a contribuir com soluções específicas e concretas para o país. Até lá, são um partido da moda, com gente que fala bem, mas de poucas consequências. Necessários para debater, mas (infelizmente para a esquerda) inconsequentes (ainda e talvez por não quererem) para uma alternativa de Governo.
Afixado por: Zé B. em julho 12, 2004 06:50 PMEstou pronto para o debate, mas ainda não vi aqui nenhum comentário que seja para debater.
Afixado por: Daniel Oliveira em julho 12, 2004 06:52 PMSem Ferro la vou eu votar no Bloco, outra vez.
Tragam os sais de fruto, o sapo e o elefante.
Que remedio.
Bom texto. Subscrevo quase tudo. Tenho no entanto alguns pruridos em conviver com trotskystas/estalistas que nao pediram desculpa pelo caminho que tiveram no passado. As referencias ideologicas (e, atrevo-me a dizer, a pratica de alguns) e tao democratica como a da extrema direita.
O problema do PS e aquele que dizes: o caciquismo. Eu vi esse caciquismo claramente em muitas ocasioes (tive, por razoes mais de natureza familiar, accesso a cultura do PS profundo e da UGT profunda).
Sobre as perguntas do Sergio atras, comentarios uma a uma:
1. Faco minha a 1a pergunta dele
2. Tanto que eu sei o BE nao apoia a ETA (alguem me corrija se estou errado).
3. Ainda bem que o BE nao apoiou o Guterres, fico feliz com isso. Convem lembrar, que foi esta "social-democracia" a nivel planetario que entregou isto aos bichos na decada de 90. E que o Guterres representa perfeitamente essa via que mais nao e do que a aniquilacao de quase tudo de bom que a social-democracia tem. Ha uma linha dificl de tracar onde acaba deve acabar o apoio a outras organizacoes de esquerda, mas acredito que a historia ira lembrar Blair/Guterres/Clinton/... como os desmanteladores do estado de bem estar (ou pelo menos da ideia, que era o que no maximo nos tinhamos ca). A diferenca entre Guterres e Durao e mais uma de velocidade de degradacao.
Antes de mais e para procurar compreender as suas "coordenadas" alguns pedidos de esclarecimento. 1° Não é marxista. Então em que família ideológica se inclui, ou filosofia política se preferir? 2° Afirma colocar-se nesse "espaço amplo e pouco claro que é a democracia". Pouco claro porquê? Esclarecida a basezinha pode ser que resulte um debate interessante. E veja lá não responda que isso não interessa porque as ideologias já morreram...
Afixado por: ml em julho 12, 2004 07:06 PMUma textualizacao de saudavel pureza pessoal. Duvido que a mesma se fosse reflectir numa pureza institucional em caso de uma coligacao a esquerda, mas o Daniel tem fe no BE. Talvez um dia descubramos.
Quanto ao caldeirao ideologico radical, gostava de saber que opiniao nutriria por uma eventual (nao real) situacao identica num partido de direita (que nao o actual PP). Faria fe num partido que, pese embora uns estatutos politicamente aceitaveis, debatesse questoes extremistas? Acha-lo-ia aceitavel no debate de ideias?
Seja como for, saudo o primeiro sinal de retorno a normalidade das postas.
Caro Daniel:
Nao partilhando de uma colocacao identica a sua no espectro politico , nao posso deixar de achar que algumas das suas consideracoes e objectivos fazem sentido , achando no entanto que o meio para as por em pratica , entenda-se o BE, nao sera o mais feliz.
O BE e claramente um partido do contra , um partido da negacao.Da negacao do sistema actual , da negacao das opcoes actuais nas mais variadas areas, da negacao de tudo....NEgacao esta promovida atraves de um crescente populismo , verdadeiramente lamentavel.
Atraves desta postura revolucionaria tem de facto ganho alguns apoiantes que , como o Daniel , nao se identificam nas alternativas a esquerda. O PCP por viver num mundo a parte , o PS pela reinante incompetencia.
A questao aqui e extremamente simples. Sendo claro para todos , o modo como o o BE ganhou este apoio recente dos portugueses , nao percebo como as pessoas nao percebem como e claro o modo este o pseudo-poder se arrisca a desaparecer.
Uma entrada num Governo Socialista implica perder e acabar com a politica da negacao , e entrar mum mundo totalmente diferente , no qual me parece evidente que o BE nao sabe viver.
Portanto parece me evidente q a partir do momento que o dr louca tome a atitude de entrar numa equipa governamental ,o BE desaparece.
Talvez apareca outra movimento qq congregador desta forma estranha de estar , de sempre tudo criticar.
ps: pedir desculpa pela ausencia de pontuacao.OS teclados britanicos nao tem grande parte dela
Afixado por: Zezinho em julho 12, 2004 07:30 PMExcelente, Daniel. Espero que a tua posição quanto à relação com o PS ganhe forças e se imponha no BE.
Infelizmente, comigo não tens debate, concordo com tudo o que disseste... :)
P.S. Nos comentários já começa a notar-se a confusão naqueles que são incapazes de compreender o que se passa politicamente no mundo hoje, e que ainda se agarram os estereotipos dos anos 50 do milénio passado em que se dizia que a Esquerda significava a Albânia e a URSS e a Direita o Mundo Livre... Para eles é impossível que haja sociais-democratas no BE. Então não existe um Partido Social Democrata (PSD) ?? Por definição todos os sociais-democratas deviam estar lá.... Ora bolas, assim confundem-nos! :)
Afixado por: viana em julho 12, 2004 07:30 PMMais uma nota (provocatoria) sobre estas coisas de extrema-esquerda e direita.
Eu entendo (de um ponto de vista pragmatico) que a social-democracia e a extrema-esquerda da politica. No sentido em que gerou as sociedades mais socialmente justas.
As maioria das muitas variantes de revolucionarismo sao, de uma ponto de vista pragmatico, extrema-direira. Alias a democracia-crista do norte da Europa e muito mais de esquerda que a "extrema-esquerda".
Ou sera que a questao, mais que do que depender de esquerda/direita depende mais de questoes religiosas (ie protestante vs catolico)? E que essa variavel parece estar mais correlacionada com o bem estar social que o tipo de partido que esta no poder.
Mas estou a divergir...
Caro Daniel Oliveira, li o teu post com toda a atenção, e gostava de tecer as seguintes considerações, e colocar-te algumas questões:
1)Dizes que não és marxista. Ainda bem. Mas se já militaste no PCP, de certeza que já foste marxista-leninista e leste toda a literatura vermelha existente à face da Terra. E olha que fazes parte de uma ínfima minoria no teu partido. Os dois "líderes" do Bloco, o Miguel Portas e o Louçã, são ambos assumidamente marxistas. É por estas e por outras que entendo que seria trágico para o país o Bloco no Governo. Teorias escritas há quase dois séculos, ainda por cima de validade científica duvidosa (basta ver o que Karl Popper dizia sobre o marxismo), e que só causaram miséria e morte onde foram instituídas, não são certamente adaptáveis nem desejáveis para os dias que correm (embora qualquer comunista que se preze, principalmente se for do PCP, dizer sempre que o marxismo-leninismo é sempre adaptável a qualquer época histórica).
Dos quatro partidos que "apoiam" o Bloco (e gostava que me esclarecesses sobre qual é o estatuto do Bloco e desses quatro partidos: se se trata ou não de uma coligação), quanto muito, só a PXXI não é declaradamente marxista. E dos quatro, só a FER tem menor implantação que a PXXI.
2)Dizes que nunca militaste na extrema-esquerda. Discordo. Considero quer o BE como o PCP de extrema-esquerda, embora tenham clientelas eleitorais diferentes. Isto devido ao facto de ambos apoiarem regimes que não foram eleitos pela via democrática (isto é mais visível no caso do PCP, e no seu apoio a Cuba). No BE, tal apoio está mais encoberto, mas uma consulta ao site da FER(http://home.kqnet.pt/asfer/index1.htm) demonstra inequivocamente que há no Bloco sectores que não aceitam a legitimidade democrática.
3)Alguma vez expressaste perante "camaradas" teus essa condescendência perante o capitalismo? É que quer-me parecer que o primeiro objectivo de 90% dos militantes do Bloco é apenas e só destruir o capitalismo e tudo o que lhe está associado, sem olhar a meios para o fazer (veja-se a aliança evidentíssima dos trotskistas na Europa com o Islão radical, com o objectivo comum de abalar os Estados Unidos).
4)Sem qualquer tipo de ofensa ou de provocação, os bloquistas mais proeminentes já não andavam a distribuir os tachos de um futuro governo PS-BE entre eles? Não será o apelo "afrodisíaco" do poder que vos está a causar esta azia toda perante o Sampaio, que diga-se em abono da verdade, tem sido tratado de forma absolutamente indigna neste blog?
5)Se estivesse o PS no governo; o Ferro Rodrigues fosse primeiro-ministro, e estivesse de saída para a presidência da Comissão Europeia, e a direita viesse de uma vitória estrondosa nas Europeias, querias eleições antecipadas? Seria na mesma preciso "dar a voz ao povo"?
Fico então à espera das tuas respostas.
Afixado por: Pedro Pelichos em julho 12, 2004 07:51 PMPermita-me uma sugestão: Definir-se como "não marxista", antigo comunista, pró-"reformista" e actual viajante da "social-democracia", com espírito libertário não ajuda muito a compreender o seu posicionamento actual.
No debate que há que fazer, os conceitos ainda interessam!!
Mas isso é acessório, para já.
O importante é as ideias que expressou.
Discordo de DO quanto ao papel de pequenos partidos.
Na recomposição política e partidária que se prenuncia, que poderá demorar duas ou três legislaturas, mas virá, o actual BE terá decerto um papel importante, se conseguir dar corpo e expressão à ausência de alternativas que superem o "mero" questionar da sujeição política e social a uma economia de mercado(capitalismo), que uns se conformam a gerir com "rosto humano" e outros opondo a sociedade da abundância à sociedade da penúria.
A vida é todavia mais complexa e nem sempre a prática política permite que sejam claras as propostas que se apresentam ao eleitorado.
Vários comentadores sugerem que há cada vez menos espaço no centro político, porque este é vampirizado a favor do pragmatismo dos intereses, à direita e à esquerda, remetendo a principal luta de ideias, para o dia-de-são-nunca, de preferência, ou para os considerados extremos radicais, ou para os "intelectuais" e investigadores.
É papel dos inconformistas colocar lá, no tal centro político, as verdadeiras questões e esforçar-se para que encontrem eco, na sociedade política e na sociedade(dita civil).
E verdade seja dita, isso tem sido feito.
Há que continuar com causas sectoriais e causas nacionais, em simultâneo.
O contrato social vive do compromisso, mas este não é proposto, e tal como a história mostra, é sempre imposto.
É só fait-divers!Aonde é que está o debate?Todos caem no mesmo ismo.Anti-marxistas de base,sem esclarecerem todas as contradições do capitalismo,hoje cada vez mais primário e selvagem.Porque são anti-marxistas? Falem primeiro em Lenine e Estaline,aqueles que fizeram verdadeiremente a práxis desssa superestrutura do marxismo,ipso facto,a luta de classes.Deixem Marx em paz.Na querela interna o dogmatismo do caciquismo é idêntico no PSD e no PS.No PSD não existe uma verdadeira social-democracia e no PS o socialismo ficou sempre na gaveta.Como vêem é só contradições.O silogismo Aristotélico é muito fácil de se fazer:O homem é um animal social e politico,logo precisa de se organizar colectivamente,tem que viver em conjunto. A velha noção de escravo,servo e proletário não é o fim da história.Mas o que se vÊ no capitalismo ultra-neo-liberal é precisamente o contrário,é o singular,é a autonomia em detrimento da heteronomia,a multidão é mentira como diria S.Kierkgaard.É a indiferença pelo diferente e aqui começa e acaba a ética,só possível como impossível. Ou como diria Hannah Arendt;«A Liberdade,enquanto relacionada à política,não é um fenomeno da vontade» "Fiat iustitia,et pereat mundus" (Faça-se justiça,embora pereça o mundo).Um abraço!!!!!!
Afixado por: Joao em julho 12, 2004 07:56 PMO Sr. Jean Luc leu a "riqueza e pobreza das nacoes", e eu tambem concordo com a divagacao religiosa explicativa da situacao social.
Em ultima analise, tem tudo a ver com Educacao e filosofia de trabalho. Sobretudo Educacao (que comeca muitas vezes por ser religiosa nos fundamentos). E a educacao leva a meritocracia (que acarreta a tal filosofia de trabalho), que leva a social-democracia (expressao maxima da cultura de um povo).
So uma achega a divagacao: nao se saltam etapas, e sem Educacao, logo sem Meritocracia, nao podera haver nunca uma social-democracia funcionante, que nao seja injusta para uns (digamos, os que precisam) e para outros (os que a sustentam).
Como fazer para passar a haver uma Educacao real? E dificil, e nao sei a resposta.
Calará alguém este texto?
Daniel Oliveira assume um determinado posicionamento político.
Corre riscos - e não são poucos - de ser mal interpretado no Bloco de Esquerda, a que pertence, explica posições, equaciona cenários e dá conta de uma densidade conceptual que poucos lhe reconhece.
Será suficiente?
Pela amostra não!
Afixado por: Irreflexões em julho 12, 2004 08:22 PMÉ deficil que eles te compreemdente,muito defecil,e foi isso que me fêz sair de la.Nâo existe alguma alternativa,é como robôs que espéram que os os comamdam.Deficil lutar comtra uma rocha quando nos somos uma pédra..terrivel,mesmo aqueles que nos protegêmos se batem comtra nos,tudo o que querem é serem ricos,a forma nâo é inportante.O realizador Américano QUE MORREU A POUCO TEMPO,éra um imigrante.Famoso..pertencia ao partido comunista Americano.. no tempo do Mc Fuck son nome.Denumciava os seus colégas.........Ralph Klein ,primeiro ministro d'Rica PROVINCIA D'ALBERTA, acabou com o deficit da sua rica provincia.CORTANDO NOS SÉCTORES HOSPITALAREIROS,ELES GOSTAM MUITO D'ELE...E AMANHA???????
Afixado por: calhordus em julho 12, 2004 08:22 PMQuem é o Sr. Daniel Oliveira?
O que é marxismo?
Em que planeta é que vivem, em que época?
Meu caro Daniel,
Tenho que reconhecer alguma saudável discordância contigo.
Quando afirmas - “A política é para mim a luta pelo poder para transformar o poder e com ele transformar as condições de vida das pessoas.” Ficamos com a ideia que resumes toda a transformação das condições de vida a uma questão de quem está no poder ou de quem o pode influenciar - ” No entanto, o poder não acaba e começa no governo. O poder de influência é, muitas vezes, bem mais eficaz.” Depois falas em percentagens e números de ministérios como forma de condicionar a governação.
Por mim considero que as condições de vida das pessoas depende em primeiro lugar do que essas mesmas pessoas forem capazes de reivindicar, ao lado dos partidos e organizações capazes de intervirem ao nível do poder devemos construir "escolas", para “Educação Subversiva” e “Terroristas Culturais”, termos que eu “roubei” ao Alberto de Melo e ao Miguel Vale de Almeida respectivamente.
Gabriel,
O que eu digo sobre os ministérios é exactamente o contrário. É que eles não mudariam nada. Quanto aos restantes, espero responder no fim.
Afixado por: Daniel Oliveira em julho 12, 2004 08:50 PMApesar de não concordar com parte do texto, considero-o corajoso. Sou membro do BE após as europeias. Sei da sua diversidade de ideias e posicionamentos, aí está a sua riquesa, mas também pode estar o seu "problema". Penso que o BE deve ser mais explicito no que quer fazer com o poder, e mais ,lutar por ele. O BE para transformar a sociedade tem de se assumir como alternativa ao centrão que nos governa à 30 anos. Nas próximas legislativas o BE deve apresentar um programa de Governo.
Afixado por: José Manuel Faria em julho 12, 2004 09:06 PMConfesso que este post me surpreendeu. Forço a nota em algumas das questões:
1) relação Bloco-Esquerda (posicionamento num eixo convencional, que quanto a mim já não faz sentido)
2) é possível estar num partido de esquerda tão acomodado ao capitalismo? faz sentido falar numa esquerda-caviar?
3) o que faria o BE em governo? O papel do be não passa só pela discussão, e pela alternativa racional? às vezes parece que a nível prático, não apresentam grandes propostas, viáveis e coerentes com a sociedade portuguesa. Preconceito meu?
Muitos parabéns pelo post.
Afixado por: Bis em julho 12, 2004 09:26 PMO Pacheco na Quadratura mostrou o medo que tem do Bloco, chamou-lhe de tudo. Se o Pacheco tem receio o que terão os PPDs. Do PCP fala e escreve ele sempre bem, porque será?
Afixado por: André em julho 12, 2004 09:40 PMNão sei porquê mas um ex-comunista tem sempre um discurso lamorioso. Tipo arrependido e deslocado. Com as mãos vazias, impotente. O que tem para oferecer é balôfo. A única excepção é o "extraordinário" Pina Moura. Esse governa-se e bem. E até lhe fica bem no curricula "ex-comunista", delfim de Cunhal. Acabam todos em troca tintas.
Afixado por: jose antónio em julho 12, 2004 11:06 PMVou pegar no comentário do Irreflexões para exprimir aqui alguns comentários ao que por aqui fui lendo. Não penso que o Daniel Oliveira corra algum risco por exprimir desta forma as suas ideias, isto porque o BE é um movimento amplo onde o debate mais que uma pratica comum é uma regra e uma necessidade. Tal como ele tb sou dirigente do BE e nunca deixei de referir as minhas divergencias nos locais próprios. Alias prova disso é o facto de divergirmos (eu e o DO) em muitas coisas e neste capitulo estamos completamente de acordo.
Nos vários comentários que por aí vi referiram mais que uma vez a questão do marxismo. Não sei qual a dúvida. Convivem no BE as mais diversas correntes e ideologias que souberam por de parte as suas diferenças e trabalhar no que os une num a constante busca de novas ideias. Sou marxista e ao contrario do DO fiz o meu percurso da esquerda para a direita, ou seja do PS para o BE (porque o PS deixou de ter espaço para pessoas de esquerda) e não é por isso que as minhas ideias são menores ou maiores.
Quanto a alguns dirigentes do BE nunca terem feito uma auto critica publica nem sei o que dizer. Se o fizessem era uma forma de demonstrar que ainda estavam presas as praticas do comunismo, se não o fazem é porque o deveriam ter feito. Ainda á pouco tempo respondendo a uma pergunta o Jose Manuel Barroso dizia que não tinha vergonha do seu passado e que eu saiba nunca fez uma auto critica a esse respeito.
Quanto ao post apenas posso dizer que está brilhante. Não me lembro de muitas pessoas que escreveram com tanta clareza e de forma tão entendivel os problemas com que a esquerda se debate. Se o BE tiver nas proximas eleiçoes legislativas, como espero alias, uma votação que lhe permita ser a 3ª força politica em Portugal, penso que se abrirá um belissimo ciclo de debate e de clarificação de posições á esquerda.
Nota: Noto com agrado que os habituais populistas de direita que em tantas ocasioes inundaram este blog hoje estão rendidos ao argumetário.
Daniel Arruda
Afixado por: Daniel Arruda em julho 12, 2004 11:11 PMjá lá vai o tempo em que ouvia os meus amigos bloquistas discutirem e defenderem entusiasmados o conceito de democracia directa, economia participativa, etc.
Agora só os oiço a querem moralizar o regime, como se os defeitos do sistema se reduzissem ao problema de uns "homens maus" que é preciso varrer...como se o problema essencial não estivesse efectivamente na natureza do poder que tu (escandalosamente)defendes, um poder hierarquizado, que não ultrapassa o âmbito dos dominados vs dominadores, ou se quiseres, dos que mandam (vocês bons, outros maus) e dos que são mandados.
O teu discurso é reaccionário na medida em perpétua essa relação de dominação; na medida em que não denuncia a relação de dominação que a democracia representativa implica.
Sou de esquerda e votei vezes sem conta no bloco. Circunstancialmente.
Constato hoje que não é só o PS a virar à direita. O bloco corre o risco de perder a breve trecho o eleitorado mais radical que o tem apoiado.
O teu comentário foi uma decepção.Ou melhor, uma irritação.
A social democracia morreu, não vejo como continuar a perseguir a sua sombra.
le frik c'est chique
Afixado por: Mário em julho 12, 2004 11:23 PMParabéns pelo post. Eu e o sr. Daniel Oliveira estamos, convecionalmente, nos pólos. Mas será que diferimos muito? Somos ambos contra este Sistema Capitalista. Mas eu quero mais do que o bem estar dos desfavorecidos, quero a conservação da nossa identidade nacional (e disso, ainda não vi falar aqui).
Relativamente ao BE, considero-o, basicamente, um partido comunista urbano. Enquanto os apoiantes do PCP são essencialmente de zonas rurais, o Bloco é inovador. O BE reúne toda a esquerda que não se integra no velho e decrépito PCP (e o PS não conta como esquerda), somando os revolucionários e os mais radicais. É como uma manta de retalhos. Mas o Bloco tem futuro, um grande futuro à sua frente. Todos os jovens comunistas que não se adaptam no PCP mais os desiludidos no Sistema vão integrar as fileiras de Louçã.
Até agora não tenho apreciado muito o discurso do BE, porque é totalmente destrutivo, basicamente "do contra". Mas talvez seja isso que atrai as pessoas.
A minha questão é: Será que a (dita) unidade do BE se irá manter quando o partido crescer? É que o BE acumula, actualmente toda a esquerda radical, os comunistas arrependidos e os desiludidos do Sistema...
Já agora, passem pelo meu blogue, http://portabandeira.blogspot.com (não é de esquerda, mas, algumas vezes parece que lutamos todos pelas e contra as mesmas coisas...)
Afixado por: Viriato em julho 12, 2004 11:42 PMOui c'est la folie.Os reacionários populistas estão a perder a pedalada?
Afixado por: wirel_2112 em julho 12, 2004 11:44 PMParabens ao Sergio por conseguir votar no BE nas legislativas de 95. Acrescentou um quadrado, colocou uma cruz e o voto contou como nulo ou colocou uma cruz no PSR, outra na UDP e outra na PXIII, contando na mesma como nulo?
Afixado por: Ivan em julho 12, 2004 11:49 PMEu só gostaria que me esclarecesses qual é dentro do espectro da esquerda, a que verdadeiramente quer mudar a situação vigente. Se me responderes que é o BE, devo discordar. No dia em que o BE chegar ao poder, que não poderá ser de outra forma que não em coligação, até porque me recuso a considerar outras opções não democráticas, toda a sua base de apoio se erode, porque infelizmente o BE não consegue conviver com uma palavra muito simples. RESPONSABILIDADE. Sim porque exercer o poder é assumir uma tremenda responsabilidade e a vocação do BE é oposta a isso.
Afixado por: dragão azul em julho 13, 2004 12:10 AMÓ Daniel!!
Já te disse que fico chateado quando começas a ler as minhas reflexões políticas. Mas isto é demais!! Exijo um pedido de desculpas público! Já! Seu... seu... usurpador!
já que o repto é para o debate, alguém me explica como é possivel hoje, em plena mundialização, com a total liberalização dos mercados, com a relocalização da industria, com o capital financeiro a não deixar qualquer rasto ou réstea, com o inevitável enfraquecimento dos estados-nação (consequencia directa dessa mesma mundialização), alguém me explica como é possível ter a pretensão de mudar alguma coisa a partir "de cima", a partir da conquista do "poder" como defende o Daniel? O centro das grandes decisões políticas há muito deixaram de estar nos estados-nação.
Como é possivel, no actual panorama mundial, querer mudar o que quer que seja sem pôr em causa os dois pressupostos fundamentais do capitalismo, a saber: a acumulação e a propriedade?
Como é possivel pretender mudar o que quer que seja sem pressupor uma luta GLOBAL, mundial, sem pressupor a política como um bem de todos os cidadãos, como um interesse comum, partilhado, pondo em causa, precisamente,o actual sistema partidário?
Como é possivel perseguir uma social democracia que não ressuscita porque a história não anda para trás e porque ela se fundava nos pressupostos de um estado forte (inexistente hoje)
e de uma industria com fronteiras bem definidas, geográficamente condicionada aos paises de origem?
Se o debate é sério, por favor, oh Daniel, olha para o mundo em volta, para os movimentos associativos que estão a emergir, olha para Porto Alegre e depois fala connosco.
Afixado por: Cristina em julho 13, 2004 12:21 AME já agora olha também para o PT e para o que lhe aconteceu quando conquistou o poder...
Afixado por: cristina em julho 13, 2004 12:25 AM"Vejo o Capitalismo como intrinsecamente injusto, mas sou hoje desconhecedor de qualquer alternativa credível".
Tu e todos.
Afixado por: Miguel Tomar Nogueira em julho 13, 2004 12:27 AMAt last...
“Há três espécies de tiranos. Uns reinam por eleição do povo, outros por força das armas, outros sucedendo aos da sua raça.”
La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária
OK, só faltava a versão do não há alternativa ao capitalismo que é uma variante do argumento ridicularizado por voltaire (leiam o "Cândido", pff) da máxima "vivemos no melhor dos mundos possíveis"...
A história não pára e nenhum regime, sistema politica ou modelo económico sobrevive ao seu ciclo próprio de duração.
As alternativas constroem-nas os homens (todos os homens) à medida que a inadaptação de determinados modelos às suas necessidades reais se vão sentindo com mais premencia.
Nunca as mudanças históricas, as rupturas estrurais ocorreram a partir de "cima" a partir "do poder", precisamente porque o poder existe só e apenas para gerir o ESTADO DAS COISAS, isto é, o que existe.
Alternativas existem em modelos comos os da democracia directa ou participativa que implicam o conceito de ECONOMIA PARTICIPATIVA...curiosamente a ideia de uma economia participativa está a ser desenvolvida nos E:U:A:!!! Sintomático, não?
Consultem a ZNet.org e lá obtêm informação sobre a parecom, i.é., sobre o modelo de economia participativa
Afixado por: cristina em julho 13, 2004 12:42 AMUm fulano de esquerda, descomprometimento, pluralista, apreciador da liberdade interna e favorável ao radicalismo em matéria de costumes pode escolher o PS e não o BE ? Então vejamos!
1 - O PS tem uma tradição anti-comunista, leia-se anti-totalitária, contra a proclamação da impossibilidade da democracia parlamentar, contra o latifundio colectivista, contra a impossibilidade de abertura ao Mercado Comum e à Europa, neste âmbito o PS defendeu com unhas e dentes a liberdade, a democracia, o estado de direito e a cidadania.
O BE não tem nenhum destes certificados de conforto. Hoje nalgumas destas matérias são de uma ambiguidade total e o histórico é de arrepiar (p. exp: alguma vez o dr Louçã, o dr Rosas ou o Fazenda fizerem uma apreciação crítica ou deram uma explicação ou um escrito sobre o seu passado de pensamento totalitário ?);
2 - O PS tem uma prática governativa patriótica, quero dizer, governou ao encontro dos interesses do país, criou o SNS numa terra onde quase ninguém tinha protecção social e na doença, generalizou o ensino pré-escolar, criou o RMN e quando foi preciso tirou regalias e sacrificou os trabalhadores em nome dos interesses do país - o PS é uma instituição confiável, apesar de ter muita gente que não é de confiança (como refere o daniel)
O BE, não obstante não ter responsabilidades governativas, não afronta lobies nem poderes instalados, sobretudo se eles forem susceptíveis de lhes retirar votos, nunca ninguém viu uma proposta política contra as corporações reinantes que impedem o estado de se reformar e consequentemente de fortalecer os que dele mais necessitem;
3 - Para mim, penso que para o PS também, é muito importante acabar com as "barracas", se estivesse no BE nunca me deixavam preocupar com as barracas antes de se encontrarem resolvidos todos os problemas decorrentes das uniões de facto em detrimento do casamento civil;
4 - O PS contribuiu para a criação de uma constituição e para a realização de eleições livres, fez uma coligação com o PSD e outra com o CDS, teve as suas razões políticas, mas foi um erro, serviu para acudir a uma grave crise, mas não serviu para transformar, para mudar, para intervir;
O BE teve a sua primeira experiencia parlamentar votando, no essencial, ao lado de Portas, Monteiro e Marcelo Rebelo de Sousa contra o PS.
5 - A organização dos partidos em portugal permite (e fomenta) o caciquismo, o feudalismo político, as juventudes partidárias e o carreirismo, no PS também, infelizmente;
sinceramente desejo que isso nunca venha a acontecer no BE, acho que é a democracia que perde;
6 - Há muita gente no PS, até com responsabilidades, que gostava de votar no BE. Se algum deles ler este comentário é bom que leia primeiro este post do Daniel. Sem meias palavras ele diz que não quer ir para o governo com o PS porque acredita poder substitui-lo nele. E olhem que eu acredito que ele está a falar a sério.
Caro Daniel,
Acho o teu post corajoso, claro e acima de tudo lúcido. Não tenho muito que polemizar contigo, pois no geral concordo com o que escreveste.
O BE, sei que é um movimento plural, mas dentro e algum tempo (caso continue a crescer) vai ter que haver esclarecimentos, tomadas de posições. Mesmo tolerante e adpto do pluralismo, não achas que estás bem mais perto da esquerda do PS do que das ideias defendidas pela Ruptura? Quando e se o BE crescer, será possível manter esta manta de retalhos pós-moderna? (repara que não uso pós-moderna no sentido pejorativo)Não prefererias fazer parte de um Movimento da Esquerda Socialista de cariz socialdemocrata radicalmente reformista? Mas não extiste e este BE é o que é e o que há...
Caro Daniel,
Acho o teu post corajoso, claro e acima de tudo lúcido. Não tenho muito que polemizar contigo, pois no geral concordo com o que escreveste.
O BE, sei que é um movimento plural, mas dentro e algum tempo (caso continue a crescer) vai ter que haver esclarecimentos, tomadas de posições. Mesmo tolerante e adpto do pluralismo, não achas que estás bem mais perto da esquerda do PS do que das ideias defendidas pela Ruptura? Quando e se o BE crescer, será possível manter esta manta de retalhos pós-moderna? (repara que não uso pós-moderna no sentido pejorativo)Não prefererias fazer parte de um Movimento da Esquerda Socialista de cariz socialdemocrata radicalmente reformista? Mas não extiste e este BE é o que é e o que há...
Caro Daniel,
Acho o teu post corajoso, claro e acima de tudo lúcido. Não tenho muito que polemizar contigo, pois no geral concordo com o que escreveste.
O BE, sei que é um movimento plural, mas dentro e algum tempo (caso continue a crescer) vai ter que haver esclarecimentos, tomadas de posições. Mesmo tolerante e adpto do pluralismo, não achas que estás bem mais perto da esquerda do PS do que das ideias defendidas pela Ruptura? Quando e se o BE crescer, será possível manter esta manta de retalhos pós-moderna? (repara que não uso pós-moderna no sentido pejorativo)Não prefererias fazer parte de um Movimento da Esquerda Socialista de cariz socialdemocrata radicalmente reformista? Mas não extiste e este BE é o que é e o que há...
Mais do que discutir pessoas, ou os militantes do BE, o que eu discutiria é a própria razão de existir do BE.
O BE é um partido de causas monoritárias, pretende dar voz a quem não tem, e com algum sucesso, diga-se de passagem, mas se espremermos bem o seu conteúdo verifica-se que não existe nada para além da casca. Portanto, o BE não passa de um partido contra-poder, marginal e de extremos. Não reúne consensos, fractura a sociedade e não se preocupa com as consequências.
Dito isto, não consigo compreender o Daniel Oliveira e os seus pares, por mais elaborada que seja a argumentação. Uma pessoa sensata e que queira ajudar a mudar o mundo para melhor, não será certamente militante do BE...
Afixado por: Rui Firmino em julho 13, 2004 10:22 AMCurioso...deve ser moda os trotskistas que militam em vários partidos virem agora dizer que são social-democratas...
Afixado por: Pedro Sá em julho 13, 2004 10:25 AMAntes de mais, quero agradecer ao Daniel Oliveira por ter coragem de atirar a pedrada ao charco, fazendo com que todos aqueles que não conseguimos passar muito tempo sem vir ao Barnabé nos víssemos na "obrigação" de nos voltar a pensar politicamente.
Sou social-democrata, e no amplo rio da social-democracia fico na margem direita. Por isso, é-me difícil encontrar algo com que não concorde no discurso do Daniel: o Estado deve ser forte na protecção dos direitos sociais e fraco no controle das liberdades individuais; o Estado deve ser fraco ao permitir a livre inciativa empresarial e económica e forte na vigilância da defesa da concorrência (por exemplo: as empresas que só conseguem sobreviver porque pagam baixos salários devem ser "punidas" pelo "dumping-social" que praticam).
Quanto ao alinhamento ideológico dos partidos portugueses (alinhamento???) julgo difícil o BE estar sequer perto da margem esquerda da social-democracia, o seu rio é outro, e resta saber se teria coragem de -numa situação de poder- pugnar pela execução das suas ideias.
Talvez tenhas um problema agora Daniel, que assola todos quanto em Portugal se pensam -de forma honesta- politicamente: estarei no partido certo?
cristina, acho que estás a ser injusta com o Daniel. Obviamente, ele poderá confirmar o que vou dizer ou não, só o conheço dos posts que aqui coloca.
Precisamente algo que o Daniel defende é que em grande parte o Poder corrompe, ao "viciar" as pessoas que o alcançam e ao exigir, no seio de um governo de coligação em que se é parte minoritária, a contínua e permanente cedência em muitos aspectos que se consideram essenciais. O Poder entendido como governação, defendo eu (e suspeito que intimamente o Daniel concordará, mas será difícil concordar publicamente) não interessa ao BE. Um dia em que o BE passasse a ser o maior partido português, o BE tal como o entendemos desapareceria, seria submergido por uma imensa massa de gente apenas interessada em alcançar o Poder e mantê-lo. E os compromissos que invitavelmente seriam necessários alcançar entre esse imenso apoio levaria ao mínimo denominador comum, ao desaparecimento da radicalidade que os actuais votantes no BE esperam dele.
O BE é (espero) um partido, prefiro o termo movimento ou associação, transformador da sociedade não seu gestor, portanto o Poder que precisa alcançar é apenas e somente o de ser capaz de inserir alavancas na sociedade de modo a levá-la a mudar por si. O Daniel compreende perfeitamente que quem está no Poder não muda a sociedade, não tem interesse em tal, pois a incerteza da mudança gera a incerteza na manutenção do Poder. Gostava sinceramente que o BE começasse a pensar seriamente em modos radicais de mudar o sistema político, tornando-o mais participativo, directo, mais próximo dos cidadãos. Acho que essa é a alavanca essencial para mudar a sociedade, e espero que o BE compreenda isso antes cedo que tarde. A sua participação, e dos seus simpatizantes a título pessoal, nos Foruns Sociais é um excelente indicativo de por onde poderá ir. Cada vez mais hoje em dia a transformação da sociedade faz-se fora do Poder, fora da governação, o que não deixa de tornar essencial a transformação das estruturas formais de Poder.
Quanto à social-democracia e ao capitalismo... bom, eu próprio me considero liberal-democrata radical, social e pacifista. Porque para mim essencial acima de tudo é a liberdade de opinião, depois a democracia, que deve ser radical no sentido em que todos os cidadãos devem ter efectivamente igual poder político e de influência nas decisões que são tomadas em seu nome. Intitulo-me liberal, e não libertário ou anarquista, porque apesar de descrente no actual Estado eu acho que ele pode ser eventualmente reformado de modo radical, tornando-o mais transparente, descentralizado e participativo. Só um Estado é capaz de assegurar a divisão equatitativa do Poder, pois infelizmente a extrema descentralização e dispersão de Poder própria das propostas anarquistas é demasiado instável e dada ao aparecimento de focos de re-conquista do Poder por minorias sedentas dele (a natureza humana é demasiado volúvel ao Poder...). Resumindo, suponho que social-democracia é um rótulo que enfatiza a prioridade que o Daniel dá à construção de uma sociedade socialmente justa e equatitativa, baseada numa Democracia genuína. Quanto a não haver alternativa ao capitalismo... bom eu diria que não parece haver alternativa a uma economia baseada no mercado, idealmente regulado no sentido da protecção dos compradores (consumidores) e do bem geral (e.g. ambiente), descentralizado, em que as cooperativas seriam especialmente acarinhadas, e as empresas lugares de cooperação e respeito mútuo. Nestes termos, uma economia de mercado parece-me o tipo de economia mais participativa, descentralizada e democrática que consigo idealizar. E não é isso que queremos?.. :)
Afixado por: viana em julho 13, 2004 10:46 AM"Sem esta nota a minha posição sobre o tema é incompreensível"
"Não sou marxista, nunca estive de alguma forma ligado a nenhuma corrente da extrema-esquerda. Saí do PCP em 1989"
Conclusão, até 1989 o PCP não era, repito, não era um partido de extrema-esquerda, muito menos marxista.
De facto incompreensível.
Afixado por: Lagoia em julho 13, 2004 10:47 AME, no entanto, também eu votei e tenho intenção de votar no BE.
"Está escrito nas Estrelas que hei-de ser Primeiro Ministro do meu País e Presidente"
Dizia Santana que havia de chegar a 1º ministro e a presidente, porque assim estava escrito nas estrelas.
Eu não sei se foi o falecido Zandinga quem lhe predestinou o futuro, mas a verdade é que resultou... à maneira das estrelas, isto é, Santana chega a presidente mas é do partido dele.
Santana chega a 1º ministro, mas é sem se submeter a eleições democráticas.
Também nunca ninguém lhe disse que iria ser votado pelo povo para 1º ministro.
Só lhe disseram, e isso cumpriu-se, que iria ser 1º ministro de Portugal dos pequeninos. Porque para se ser 1ª Ministro de Portugal a sério tem de se ir a votos.
Que legitimidade pode sentir este homem que foi traído pelas estrelas?
Mas foi uma traição ou uma má interpretação?
Acredito em Santana Lopes e que ele ir-se-há superar para lograr as espectativas que ele em si próprio deposita.
Santana Lopes é sem dúvida um homem que vem das lutas de Abril e que conhece como ninguém o seu próprio partido e eleitorado, sabe bem o que o espera ao avançar coligado com o PP, mas não tem outra hipótese senão avançar e a ter em conta as orientações vindas de Belém.
Embora os portugueses não se revejam neste 1º ministro, não é por ser quem é mas sim porque está no lugar da maneira errada.
Quantos barões aprovariam, este homem que toda a vida lutou desalmadamente nos seus próprios congressos e saíu sempre derrotado, para 1º ministro? Poucos, muito poucos!
No entanto, agora vão ter de o aguentar durante dois anos. A esquerda que secretamente sempre gostou do estilo santanista, agora tem de dizer dele o que Maomé não disse do toucinho.
Aposto singelo contra dobrado em como este homem vai virar o país do avesso em pouco tempo e não vai ter oposição à altura porque se o PS quizer ser coerente com a tomada de posição de Ferro não irá fazer oposição a um governo que considera legalmente nomeado mas ilegitimo porque não sufragado nas urnas, e é uma pena porque Santana Lopes merece uma credibilidade que lhe vem fugindo há muitos anos.
Assim sendo, quero ter a certeza de que Pedro Santana Lopes irá ser o melhor Primeiro Ministro que Portugal já teve desde o 25 de Abril.
Quero rever-me neste 1º Ministro, apesar de ter chegado ao cargo da maneira como chegou.
Coisas das Estrelas.
Que a Estrela de Pedro Santana Lopes Brilhe mais que nunca, para bem de todos os Portugueses.
Na Esquerda, embora ressabiados, saberemos dar valor a este Homem.
O post está genericamente bom, embora totalmente desatualizado, dado o PS não ir para o governo tão cedo e, de qualquer forma, ir virar à direita.
Ao contrário do Daniel, acho positivo que o PS seja geneticamente anti-comunista. Como o comunismo é uma teoria de direita, conservadora e pequeno-burguesa, não é bom fazer nada com os comunistas. Além disso, eles são perigosos como as cobras, à primeira oportunidade espetam-nos uma faca nas costas, como mostra a experiência.
O importante, no entanto, não é discutir estas merdas que, como disse, são agora totalmente irrelevantes. O importante é saber fazer uma oposição INTELIGENTE ao novo governo Santana Lopes. Não pode ser uma oposição a-prioristica e cega. Tem que ser uma oposição com discernimento, que saiba debater as ideias do novo governo, quando as houver.
Afixado por: Luís Lavoura em julho 13, 2004 11:20 AMCaro , li atentamente o seu post, e, como já disse aqui algures, venho da estrema esquerda (FEC-ML / OCMLP) e não me arrependo nem me retrato disso.
Saí quando a FEC-ML foi engolida pela UDP.
Isto para dizer que após ler os comments a seguir ao post me veio uma idéia à cabeça: Se este homem, Daniel Oliveira se assume como um social democrata vindo do PCP, das duas uma ou temos de decididamente educar estas massas e explicar-lhes que o PCUS era social democrata na sua origem, ou então fazer uma outra leitura de uma social democracia de Willi Brandt com a qual os comunistas de Cunhal nunca tiveram nada a ver. As políticas sociais da igreja andam mais próximas do BE ou vice versa, e isso dá uma enorme vantagem ideológica ao BE porque o que o BE defende é apoiado, na sua grande maioria, pelo católico baixo médio que representa o nosso povo, e, é deste nosso povo, Português, que estamos a falar e não do alemão, sueco, russo ou dinamarquês.
Alvaro Cunhal dizia, com toda a propriedade que não se deixava intimidar com perguntas provocatórias acerca dos regimes totalitários "socialistas" porque ele era secretário geral do Partido Comunista Português. Vivia em Portugal e eram os interesses do povo português que lhe interessavam e não os de outro povo qualquer. Nisto, Álvaro Cunhal, divergia frontalmente dos fiéis da 4ª Internacional como se deve calcular.
Penso e acredito que o BE está a fazer um bom trabalho de expansão pelo resto do país e que está a deixar o seu confinamento a Lisboa e ao Porto. Sem dúvida que está a fazer um bom trabalho e está a ser reconhecido pelo povo e é cada vez mais conhecido como um BE responsável e activante no tecido político português.
Real:
Qual é o passado de pensamento totalitário do Dr. Louçã?
Você faz a minima ideia do que o trotskismo defende, por acaso?
Afixado por: Miguel Madeira em julho 13, 2004 11:43 AMMiguel Madeira: Militarizacao dos sindicatos, Kronstadt mais toda a bagagem leninista entre outras perolas.
O problema nao e o passado, e mesmo o presente. Eu nao acredito que a mentalidade e a cultura totalitaria desapareca de um dia para o outro. Alias basta ver o discurso self-rigtheous do F.Louca~ para ver que e qualquer coisa bastante perigosa.
De um ponto de vista diferente, pragmatico, desde a semana passada nao vejo outro partido onde votar senao no Bloco (grandes candidatos sao tambem o voto em branco e a abstencao). Isto porque o Louca~ nao vai ser primeiro ministro e por as garras de fora, mas pelo contrario vai ajudar muito a equilibrar as coisas que estao puxadas a (extrema-)direita.
Afixado por: Jean-Luc em julho 13, 2004 11:51 AMDEntro das minhas, poucas, possibilidades tudo farei para apoiar o BE.
O Daniel Oliveira é que tem de repensar um pouco antes de escrever o que pensa numa parede de mictório. Mas se mesmo assim o quizer fazer use um pseudónimo, vulgo preservativo.
Há um tabu na política portuguesa (e que subjaz a este debate): um governo de esquerda. Desde o arranjo limiano que se sabe: o BE e o PCP nunca chegarão ao poder. Também por culpa própria. Se já houvesse consensos alargados, 3 ministérios seria um bom teste (só contestar não chega). Neste bloqueio, o BE perde fôlego, e Daniel Oliveira contradiz-se. Min.º da Cultura, do Ambiente e do Ordenamento das Cidades, da Ciência, porque não? Mas se nem aí o BE tem um projecto de governo alternativo ao do centro-direita, consistente, visível, maximalista, onde (e quando) é que terá?
Afixado por: Daniel Melo em julho 13, 2004 12:10 PMTrotsky defendeu a militarização dos sindicatos em 1919/20, mas veio mais tarde a abandonar essa posição. Por essa ordem de ideias, também poderia-mos dizer que o trotskismo é contra o centralismo leninista: Trotsky, até pouco antes de 1917, era contra o centralismo. Ou, indo ainda mais longe, poderiamos dizer que os reaganistas são a favor do New Deal de Roosevelt (Reagan foi na altura). E, já agora, os barrosistas são maoistas?
A questão é que a palavra "trotskismo" não se refere a tudo o que Trotsky fez/defendeu, mas às ideias defendidas por Trotsky a partir de 1923, que são, decididamente, anti-totalitárias - note que todos os textos programáticos da(s) IV Internacional(is) defendem a necessidade de um regime multipartidário.
Afixado por: Miguel Madeira em julho 13, 2004 12:17 PMAliás, durante as lutas politicas no PCR(b) entre Trotsky e Estaline, grande parte dos apoiantes de Trotsky foram os antigos apoiantes da "Oposição Operária", o grupo que liderou a oposição à militarização dos sindicatos, o que demonstra que não faz sentido colar o trotskismo às posições do Trotsky de 1920.
Afixado por: Miguel Madeira em julho 13, 2004 12:33 PMQuanto a Kromstadt: eu cada vez me convenço mais que a razão estava do lado dos rebeldes e não do governo (nem que seja porque cada vez simpatizo mais com o anarquismo e menos com marxismo), mas não há nada de intriscamente totalitário na repressão de Kromstandt - afinal, em qualquer pais democrático, se um grupo de marinheiros e operários se revoltassem, de armas na mão, contra o governo instituido, seriam também esmagados a tiro, ou não? (ver a Comuna de Paris)
Afixado por: Miguel Madeira em julho 13, 2004 12:41 PMClaro que há uma grande questão: não seria Trotsky um hipocrita? Afinal, ele foi autoritário quando no governo e democrata quando na oposição. Talvez, mas,mesmo que Trotsky fosse hipocrita, os actuais trotskistas aderiram ao movimento quando o trotskismo já defendia o multipartidarismo e ocultava envergolhadamente as posições autoritárias de Trotsky do periodo 1918-21, logo,mesmo que Trotsky fosse autoritário, é legitimo supor que os modernos trotskistas não o sejam (afinal, eles aderiram a um movimento que se afirma anti-autoritário)
Afixado por: Miguel Madeira em julho 13, 2004 12:47 PMapesar de algumas divergencias sobre tempos e modos, estou genéricamente de acordo com o que o Daniel escreve.
depois de ler o texto e os comentários que aqui se fazem, chego à conclusão há um grande preconceito com a esquerda (mesmo da parte de alguns qeu se posicionam à dita) e com o Bloco. Concluo também que maior parte das críticas surgem por absoluto desconhecimento do é o marxismo, o comunismo ou mesmo o trotskismo (chamar ao Bloco trotskista deve fazder o dito dar voltas na tumba).
antes de se atirarem aos partidos que compõeem o Bloco, às suas figuras públicas e aos seus passados, sugiro que estudem um bocadinho sobre tudo isso, especialmente sobre a evolução do pensamento e das ideias.
saudações.
M
Caro Daniel,
Gostei do teu «post» que achei claro, corajoso e incómodo, pois põe em causa as arrumações convencionais acerca dos posicionamentos ideológicos. E também gostei dos comentários da Cristina. Acho que os textos de ambos são sintomáticos dos problemas que se põem actualmente à esquerda, vivendo uma tensão entre as exigências utópicas de sempre e o colapso dos sistemas políticos inspirados por ideologias utópicas.
Ao ler o teu texto veio-me à memória uma frase do Camus de que a tarefa da sua geração era conservar o mundo (após a catástrofe da II Guerra Mundial). E outra do Agostinho da Silva de que havia os conservadores da sardinha e os conservadores da lata e ele era um conservador da sardinha.
A «sardinha» do século XX europeu são as instituições liberais e os direitos sociais. E eu não creio que, em nome das suas insuficiências, se deva deitar fora «o bebé juntamente com a água do berço». Acho perigoso o nivelamento de todas as tiranias. Há trinta anos tínhamos uma tirania que não se legitimava pelo voto e eu não acho que fosse a mesma coisa que viver na «tirania» actual (embora os responsáveis políticos pareçam apostar em diluir as diferenças).
O problema da esquerda é que continua a ver na política um meio para atingir a felicidade; e a oscilar entre a obsessão pela tomada do poder do Estado e o repúdio total do Estado e do que ele representa.
Eu penso que o mal é uma questão pública e a felicidade uma questão privada. Ou seja, acho que os projectos de sociedade aplicados a partir do Estado devem ser projectos modestos mas rigorosos, concentrados no combate a males sociais (o desemprego, a exclusão social, a qualidade do ambiente, do Ensino, da Saúde, etc). O Estado enfraqueceu no contexto da globalização mas desempenhou historicamente um papel que pode e deve continuar a desempenhar. Devemos pedir-lhe pouco mas ser exigentes no que pedimos. E, nesta perspectiva, concordo com a tua posição em defesa do património social-democrata.
Este projecto de sociedade construído a partir de uma ideia do «mal» não excluí projectos de sociabilidade em torno de ideias do que é «viver bem», ideias que passam pela busca de alternativas aos modelos dominantes de lazer e de trabalho, de outras formas de consumir, de estabelecer relações de produção.
Em relação ao Bloco de esquerda, no qual já votei, geralmente concordo com as suas propostas concretas, mas acontece irritar-me com a sua retórica radical. Passo a dar alguns exemplos.
A questão do aborto. Eu concordo com a legalização, mas acho que considerar «hipócritas» todas as pessoas que defendem a posição contrária só empurra as pessoas que têm dúvidas para o campo oposto. Um dos primeiros argumentos que ouvi a favor da legalização do aborto (eu e o meu interlocutor tínhamos 15 anos) foi que se engravidasse uma rapariga e ela abortasse o problema estava resolvido e se ela resolvesse ter o filho tinha a vida lixada. Há pessoas que defendem a legalização do aborto e se estão nas tintas para os direitos das mulheres, como há pessoas que são contra a legalização e gastam o seu tempo em acções de voluntariado a favor de mães solteiras. Não querer perceber as «razões do outro» é uma posição de fraqueza.
A questão das gravatas. Achar que a forma como uma pessoa se veste afere o que quer que seja acerca das suas posições políticas é simplesmente ridículo. Mais: actualmente a maior parte das pessoas trabalha no sector terciário e usa gravata, tal como no século XIX/início do século XX , nos países industriais, a maior parte das pessoas trabalhava no sector secundário e usava calças de ganga. As calças de ganga também começaram por ser uma convenção social imposta por necessidades de trabalho. Às vezes penso na vida de um homem de cinquenta anos que fez carreira como advogado, economista ou engenheiro, é casado, tem dois filhos, usa gravata, e vê-se numa situação de desemprego. É claro que esta personagem nem se revê no discurso do PCP e do Bloco de Esquerda nem é defendido pelas políticas liberais do PS, PSD e PP. Mas esta personagem são muitos homens e mulheres concretos que vivem problemas concretos. Posso achar que a personagem tem uns gostos pirosos, posso nunca pôr os pés nos sítios em que a personagem passa férias. Mas, como escrevi, «o mal é uma questão pública». Um projecto utópico, os «amanhãs que cantam» não lhe resolvem os problemas e se calhar nem está interessada nisso porque é uma personagem com necessidades mais básicas, mas uma política a favor do emprego implementada pelo Estado central ou por um município já lhe serve de alguma coisa.
O momento fulcral na decisão de Jorge Sampaio poderá ter sido a entrevista com Francisco Louçã, em que este último afirmou que o BE não apoiaria um Governo do PS, embora pudesse «votar favoravelmente algumas decisões de um Governo PS». Talvez seja por isso que Jorge Sampaio afirmou no seu discurso que «outras soluções» só acrescentariam mais instabilidade (citações de memória). A questão crucial é essa: o BE não participaria nem estabeleceria um acordo permanente de Governo com o PS porque, embora pudessem convergir em questões de «costumes», jamais o fariam em questões económicas e estruturais. E como o PCP não é europeu, resulta que a esquerda não será governo no futuro próximo. Quando muito, o PS sozinho.
Para o BE, a questão agora é: qual é o modelo económico que defende? Até onde estará disposto a ceder ao PS? (E o BE não tem uma cultura de compromisso...) A questão é só essa. Mas o BE é bastante nebuloso em tudo o que não sejam questões de «costumes».
outro dia ouvi dizer que predominantemente os mais pobres votam no ps.
então eu pensei , burro e pobre como sou, para o ps e o pc quantos mais pobres mais votos !
se houver mesmo muitos pobres o ps ganha a maioria.
viva a pobreza bamos comelos
Deus Vitorino expilica pra mim ?
Afixado por: Afonso Henriques em julho 13, 2004 02:04 PMPedro Viana e Daniel,
1ºA descentralização do poder é contraditória com o principio do capitalismo que implica propriedade e acumulação o que conduz, necessariamente à EXCLUSÃO
2º Outra confusão grave é estabelecida com a assimalição de "liberdade" e "propriedade". A propriedade é contraditória com a liberdade; a apropriação implica, necessáriamente,uma espoliação e portanto, uma relação de dominação.
Ainda em relação ao conceito da propriedade:
uma relação de apropriação gera sempre uma dupla dependência e aí não há nenhuma liberdade: a acção é sempre determinada a partir de uma fonte exterior. As medidas do dominador são tomadas em função do "medo" que possui do "dominado" e vice-versa...
não podemos partir do postulado que existem homens bons e homens maus. Existem opções diferentes mas existem limites à capacidade de optar.
Apesar do Dumbo os elefantes jamais voarão enquanto forem elefantes.
O capitalismo jamais trará a descentralização do poder enquanto for capitalismo. Afinal exigimos uma transferência de responsabilidades para os cidadãos ou exigimos uma transferência de poder?
Afixado por: cristina/O uno e o múltiplo em julho 13, 2004 03:09 PMCaro Ricardo Alves,
Como é que vem dizer que o BE só aprovaria políticas de "costumes"? Foi o Bloco, e o PCP, quem aprovou a reforma da Segurança Social apresentada pelo governo Guterres. Em matéria fiscal, foi o BE, aqui sozinho, quem aprovou várias propostas socialistas. Quer matérias com maiores implicações orçamentais?
ps: nestes dois exemplos não foi o BE que derrotou o PS, como se costuma ler nestas caixas de comentários. Foi o próprio PS que se derrotou a si próprio, nunca regulamentando as leis que foram aprovadas na Assembleia da República.
«Como é que vem dizer que o BE só aprovaria políticas de "costumes"? Foi o Bloco, e o PCP, quem aprovou a reforma da Segurança Social apresentada pelo governo Guterres. Em matéria fiscal, foi o BE, aqui sozinho, quem aprovou várias propostas socialistas. Quer matérias com maiores implicações orçamentais?»
Quero: o Orçamento Geral de Estado. LOL-LOL-LOL
Agora a sério: esses dois exemplos são bons, mas parecem-se ser os únicos. Sem maior convergência nesse género de matérias, não há espaço comum para uma convergência. Exemplos: privatização do sector da energia, TAP.
Vá lá, Ricardo Alves, eu levei-o a sério e o exemplo da TAP é uma brincadeira. Só pode ser a brincar. Então explique lá melhor. É que eu, dessa história, só retive a trapalhada que foi um pré-acordo de fusão com a Swissair, que esteve a ser preparado durante dois anos e que deu a essa empresa os mapas e estatísticas das rotas portuguesas, levando a TAP a abdicar de algumas das rotas mais lucrativas, nomeadamente com a África do Sul. O mais giro é que nunca houve contrato e a empresa Suiça estava falida.
Sobre o orçamento, o que há a dizer de um partido que se revela indeciso entre o BE e Daniel Campelo?
Afixado por: Pedro Sales em julho 13, 2004 04:16 PMcristina, partilho das tuas dúvidas quanto ao actual sistema económico, o capitalismo, e sem dúvida que a possibilidade de acumulação irrestrita de capital é uma enorme fonte de Poder e de instabilidade mesmo num sistema em que o poder político estivesse mais distribuído. É por isso que prefiro falar em economia de mercado, regulada de modo a impedir a concentração demasiada de capital/poder económico. Não acho que a propriedade seja incompatível com a liberdade, desde que essa propriedade resulte do esforço próprio (e.g. a casa que construi) ou da troca equatitativa (fair trade). Obviamente para mim nem tudo é passível de propriedade privada, como por exemplo a água, que tanto vai dar que falar nos próximos anos, ou mesmo a terra. Como é possível dizer esta terra é minha? Com que direito? O uso e usufruto da Terra deve ser decidido por todos. A melhor escolha até pode estar no arrendamento vitalício, com transmissão geracional, sob certas condições de aproveitamento económico ou protecção ambiental do pedaço de Terra que foi confiado a alguém para proteger e acarinhar. Em conclusão, acho que o mercado e a propriedade (regulada) não são necessariamente geradores de exclusão. E não será fácil de atingir esse "mercado justo", mas acho que é ao mesmo tempo a solução mais equatitativa, realista, e que mais beneficia o bem comum.
Afixado por: viana em julho 13, 2004 05:51 PMDaniel, o teu post tem uma boa redacção, foi bom de ler. Tem, quanto a mim, um problema (pelos comentários um problema geral) que é os rótulos que colocas nas tuas opções passadas e actuais. Marxismo, Leninismo, Trotskysmo, Social-Democracia, etc.... é tão importante como descobrir se o que Descartes nos deixou foi fruto da sua vontade ou da imposição da inquisição. E isto porque quando falamos de social-democracia (por exemplo) falamos de quê? Da social-democracia dos livros, da portuguesa, da inglesa, da americana? Ou falamos de algo abstracto que é péssimo para uns e excelente para outros?
Há várias formas de integração política (ou de escolha partidária); O senso comum divide-se em dois eixos: os que oscilam constantemente e os que defendem o partido como defendem o clube (pelo menos enquanto tiverem dinheiro para a cerveja). Os mui letrados defendem aquilo que estudaram profundamente, formaram-se a si próprios, estão às vezes a referir-se ao seu partido e quem ouve acha que aqueles predicados assentam melhor noutros partidos. Depois há os que exercem a democracia.
Da mesma forma que quem faz o vocabulário são os falantes, também quem faz a democracia são os que participam. Eu, sem nunca pertencer a partido algum, também procurei integrar-me, optar e podes crer que procurei muito. Em grande parte dos partidos deixavam-me ouvir mas não me deixavam falar e aí não consegui dissipar as minhas dúvidas e onde encontrei respostas para elas foi no Palmeira’s Bar, aí discuti com o Bolche e com o Louça e com dezenas de outros e por lá encontrei as respostas que necessitava e a importância delas. Confesso que nem me apercebi quando aquilo era LCI ou PSR ou outra coisa qualquer.
Agora, alguns quase fundamentalistas que aqui comentaram, podem-me mandar prender, mesmo que deixem em liberdade um primeiro ministro que foi do MIRN.
Pedro Sales,
muito a sério, acho que é estimável que tenha havido convergência entre o PS de Guterres e a esquerda radical na reforma fiscal e na segurança social. Que essa coincidência de vontades não tenha ido mais longe (até ao OGE seria o máximo, já que o BE parece não querer ir para o Governo, por razões compreensíveis) é com certeza lamentável.
Mas o problema fundamental da esquerda portuguesa é a divisão profunda que existe entre o PS e a esquerda radical, e que não se verifica noutros países semelhantes. Na França, o PSF já esteve no Governo com o PCF e outros partidos de esquerda (várias vezes), aqui ao lado na Espanha já houve coligações ao nível autárquico e regional, na Itália o primeiro governo da Oliveira incluía comunistas «reformados» e neocomunistas. Em Portugal, esquecendo o caso muito particular de algumas eleições presidenciais, só houve «Frentes de Esquerda» em Lisboa. Este é um sintoma grave da falta de «pontes» entre os dois sectores da Esquerda. A origem histórica desta divisão está no 25 de Novembro, mas hoje já não deveria existir.
Pedro Viana,
Mas o que tu propões é precisamente a morte do capitalismo!!
Se impedes a privatização dos bens essenciais, se impões limites à livre circulação de mercadorias, à liberalização do mercado, se evocas uma regulação da acumulação, impondo-lhe limites precisos, etc, matas precisamente o fundamento do capitalismo baseado na livre concorrência.
No fundo, acabas por ir parar aonde eu queria chegar; à ideia de que a democracia directa impõe como necessidade essencial para a sua possibilidade de existência uma teia de relações económicas (chamemos-lhe assim) de todo alternativas; aliás, não é por acaso que se fala hoje na ideia de uma economia participativa (parecom).
John Rawls, o último herói a perseguir a saga da salvação do capitalismo, ou a tentar demonstrar que os elefantes voam, está morto.:)
Penso que já foram levantadas (com as devidas distâncias por Cristina, Maria da Fonte II, Viana, João Miguel Almeida) muitas das questões que considero importantes em relação à posição assumida por Daniel Oliveira.
A declaração inicial de Daniel Oliveira definindo-se como “não marxista” tem a justa resposta nas palavras de Cristina quando questiona “como é possível ... querer mudar seja o que for sem pôr em causa os dois pressupostos fundamentais do capitalismo, a saber: a acumulação e a propriedade?”. Nesta questão, pode dizer-se, está um dos muitos contributos de Marx.. Na verdade, parece-me que numa altura pautada pela mais completa ausência de referências ideológicas de esquerda, em que se desmoronam as formas tradicionais de organização local e em que o “capitalismo entra na era globalizada”, “voltar a Marx”, com capacidade crítica, pode ser uma forma de encontrar fundamentos que permitam construir alternativas onde ancorar a luta política. Mas, como diz Maria da Fonte II, os conceitos ainda interessam, mas são para já acessórios.
A ideia da tomada do poder para resolver os problemas dos cidadãos que defende Daniel Oliveira, tomada do poder encarada na perspectiva em que se enquadra este post, é de uma ingenuidade que me surpreendeu. Já nem me atrevo a considerar esta afirmação de outro ponto de vista, porque respeito bastante o autor. O poder económico não é democrata vista ele as roupagens que vestir, nem se compadece voluntariamente com as questões sociais. Ele tem de ser pressionado.
A ausência de espaços públicos que congreguem cidadãos das mais diversas tendências que façam pressão e oposição ao poder e às políticas neoliberais, produz governos cada vez mais arrogantes e mais surdos. Os “cidadãos” são agora uma massa acrítica e desmobilizada que vê esta investida política de direita como uma necessidade de subserviência às instituições internacionais e à globalização nos moldes em que decorre.
No fundo a esquerda submete-se, não vê alternativas, nem parece ter forças nem visão para as construir. É este facto que produz as ideias de Daniel Oliveira.
Mas neste post aparece ainda o eco de outra “desorientação” actual, a saber: qual o papel do Estado.
É que a discussão do papel do Estado tem vindo a ser feita por economistas da direita à esquerda, resultando na (conveniente) visão de Estado enquanto instrumento de realização e não enquanto instrumento de poder que é. Assim, a orientação da política económica é positiva (de esquerda) ou negativa (de direita). Esquece-se (ou faz-se por isso) que o Estado é um instrumento de poder a que aspiram grupos socais determinados e que há um jogo de forças permanente entre eles.
Convém aqui manter o discurso da realização, da competência técnica, da optimização dos recursos e por aí fora, e fugir do debate político de fundo. Convém manter a discussão ao nível da política dos técnicos que se caracteriza por desviar o discurso “da política” para um discurso que se faz crer racional e objectivo sobre a gestão administrativa (como se isso não implicasse opções políticas) que se reflectem na nossa vida e nos princípios democráticos. Esta ocultação das “armas de destruição maciça” dos direitos sociais e da democracia é conseguida centrando o debate no rigor técnico, na flexibilização, no ajustamento, etc. e não contribui para o bem comum nem se compromete com o futuro.
Daniel Oliveira parece ainda embarcar na ideia que o Estado é um papão que deve ser desmantelado ao mínimo, deve passar à condição de gestor dos interesses privados, tentando aí salvaguardar os direitos sociais de todos os cidadãos – “defendo um Estado fraco perante as opções e liberdades individuais de cada cidadão e um Estado forte na defesa dos direitos sociais perante o poder económico” (Daniel Oliveira). Mas esta afirmação configura em grande medida o que tem vindo a ser feito: defende-se a privatização e tenta-se construir políticas de compensação. São estas políticas de compensação que recebem pomposamente o nome de “defesa dos direitos sociais”? Para Daniel Oliveira, espero sinceramente que não. Para a direita, é sem sombra de dúvida e é esse o caminho para onde nos levam as actuais reformas na saúde, na educação, na venda do património (como as águas), na legislação do trabalho (ou do desemprego?), na segurança social, etc.
Na verdade, penso ser mesmo neste aspecto particular da discussão sobre o papel do Estado que se poderá diferenciar (uma vez mais) a direita da esquerda. Daniel Oliveira numa coisa tem razão, “debata-se então a política e faça-se depender dela, e apenas dela, o futuro da esquerda” mas ...
Mas ... ao contrário do que diz Daniel Oliveira, a questão não está apenas no domínio do poder, a questão está em saber se a sociedade civil se consegue organizar politicamente e construir um caminho que reforma o Estado mas mantendo-o como o garante dos direitos sociais e humanos de todos os cidadãos, ou se a sociedade civil, com a sua actual inércia, vai permitir que o poder económico o reduza a gestor e regulador autoritário e discricionário.
Os neoliberais ainda não se conseguiram libertar por completo da máscara de democratas e têm criado as armas que podem (ainda) ser usadas contra eles mas que a sociedade civil não tem sabido utilizar. Criaram formas de representação, organização e participação, como por exemplo, os comités de utentes dos hospitais, conselhos directivos de escolas com representantes das famílias, etc, e cabe-nos a nós, enquanto cidadãos, encontrar outras tantas possíveis. Está instalado o descrédito colectivo sobre as possibilidades de acção política, mas temos a responsabilidade de exercer a nossa cidadania, responsabilidades perante as gerações mais jovens, perante a democracia e perante o futuro. Temos a obrigação de lutar pela construção de uma alternativa democrática, pelo retoma de um discurso intencionalmente político sobre o papel do Estado, temos acima de tudo a obrigação de fugir ao discurso jurídico, técnico e organizacional em que estamos presos e mostrar que a esquerda tem um projecto verdadeiramente democrático, um projecto inclusivo de todos os cidadãos.
Por isso a minha posição em relação às eleições e, mais recentemente, à decisão de Sampaio que deu origem ao post do Daniel Oliveira, foi de desvalorizar uma e outra no actual estado das coisas.
Ricardo Alves,
Compreendo o seu ponto de vista, mas esquece uma coisa. O PS português também é bem diferente do Francês. Não explicando tudo, sempre é alguma coisa.
Afixado por: Pedro Sales em julho 14, 2004 02:02 AM
Antes que o Daniel nos responda que agora só fala na presença de um advogado acabei por fazer um post no "O Uno e o Múltiplo" sobre este assunto, aliás, recorrente por aquelas bandas. Bom comentário Gin.:)
"o problema fundamental da esquerda portuguesa é a divisão profunda que existe entre o PS e a esquerda radical" (Ricardo Alves)
O problema fundamental radica na atividade do PCP e de variados grupelhos de extrema-esquerda a seguir ao 25 de Abril. A sociedade portuguesa, profundamente conservadora, quando não retrógrada, viu-se confrontada com umas pseudo-vanguardas, de essência totalitária e ditatorial, que tentaram violentá-la, forçá-la. A sociedade ficou, justamente, profundamente traumatizada com essa experiência. (E não era para menos; de boa nos safámos nós.)
Verifica-se assim que, hoje, a direita portuguesa tem facilidade em unir-se -- porque identifica, ao fim e ao cabo, um inimigo comum, o comunismo e a extrema-esquerda, sempre presente no seu (sub)consciente. A esquerda, pelo contrário, não se consegue unir -- pela mesma razão, porque no (sub)consciente de grande parte dela está sempre presente o perigo desse inimigo.
Dificilmente será ultrapassado este trauma enquanto as pessoas da minha geração - a geração que estava viva e minimamente consciente politicamente aquando do 25 de Abril - não morrerem todas. (E enquanto os comunistas não morrerem todos também.) Porque o trauma foi muito forte, e a desconfiança é muito profunda.
(Para o Daniel, claro, isto não vale. Ele tinha um ou dois anos de idade no Verão Quente de 1975. Já pertence a outra geração.)
É preciso também compreender que o comunismo não é de esquerda, é e sempre foi uma teoria profundamente conservadora e pequeno-burguesa, como o Daniel sem dúvida já terá compreendido. Mais uma vez, a esquerda não se conseguirá identificar consigo mesma enquanto não se conseguir libertar desse fantasma, da pseudo-esquerda conservadora e fundada na sociedade das mercearias (pequeno-burguesa). Só a morte dessa pseudo-esquerda a conseguirá libertar de vez.
Afixado por: Luís Lavoura em julho 14, 2004 10:15 AMSr. Luis Lavoura só não entendo como é que um país com 48 anos de fascismo criou os tais "grupelhos" de esquerda (já Cunhal assim os chamava)num país católico apostólico e romano?
Como é que o comunismo não é de esquerda? ou a esqueda caviar de que acusam o BE é no fundo a esquerda a que os "bem pensantes" defendem mas na qual o varredor não cabe nem o operário tem assento.
Essa vossa noção de estabilidade(48 anos não chegaram?) vos dá essa noção de segurança pequeno burguesa de mercearia quando o que mais incomoda a sociedade pequeno burguesa é exactamente a sociedade consumista produzida pelas grandes multinacionais que nos impingem os desejos de comprar o que não necessitamos.
Lamento só agora estar a colocar um comentário ao post do Daniel Oliveira, que me merece toda a consideração, estima e simpatia. Os afazeres são tantos, , a leitura de muitos dos comentários já colocados a este post e o entretido que andei a comentar um outro post do Daniel sobre a legalização dos casamentos homossexuais na vizinha Espanha (O Daniel coloca tanto post que nos incentiva a comentar que eu já nem sei ao que hei-de acudir), pelo que só agora um tempo para ajudar ao debate.
Note-se, não é para desmentir o comentário do simpático (sem ironia) Daniel Arruda sobre a ausência dos “habituais populistas de direita” ou reagir á observação do wirel_2112 de “os reaccionários populistas” estarem a perder a pedalada, que me leva a responder. Não me considero populista e, muito menos, reaccionário. Não deviam estar, certamente, a pensar em mim, quando fizeram tais observações e ainda bem.
Mas vamos ao que realmente interessa , o muito interessante post do Daniel Oliveira.
Começo por estar em desacordo (tinha de ser, não é?) quando diz que não esteve de alguma forma ligado a nenhuma corrente de extrema-esquerda. Esteve, esteve. Só saiu do PC em 89, certo? Então e o PC não é de extrema-esquerda? E O BE não é de extrema-esquerda? Tenham lá paciência, mas se do vosso ponto de vista, o CDS-PP é a extrema-direita, não podem vir agora renegar a extremidade em que estão situados. Diz-se situar nesse espaço amplo e realmente abrangente porque pouco claro e difuso que é a social-democracia. É um espaço tão abrangente que, hoje, em Portugal, quem se diga social-democrata pode ser do PSD, do PS e até do BE (pelos vistos9. E o que é hoje a social-democracia? Se perguntar a uns quantos teóricos, cada cabeça ditará sua sentença.
Outra questão que me chamou a atenção, aquilo que costumo denunciar como demasiado vago e generalista, a uma parte da esquerda, o Daniel coloca no post. Reformas radicais para 1 reforço do Estado na protecção social. Que reformas? Estado Providência em que moldes? Qual o modelo em que vão basear a viabilidade futura do sistema de Segurança Social e do Estado Providência? Pleno emprego. Que medidas para concretizar tão justo objectivo? E como garantir a sua perenidade quando alcançado? Uma segurança e estabilidade que permita autonomia e sustentabilidade no planeamento do futuro. Muito bem. Mas o que fazer para o conseguir, sem que o país se veja confrontado com uma fuga em massa de capitais e investimentos e uma grave crise económica, por consequência? O Daniel Oliveira não acha, certamente, que quem está à direita não queira o pleno emprego, uma justa, eficiente e funcional protecção social, um presente com bem estar e um futuro promissor para todos? Ou acha que tem que situa à direita é desprovido de sentimentos e não quer o melhor possível para todos? A diferença, na direita, é que sempre se distinguiu, digamos, pelo realismo. A direita procura partir do mundo como ele é, para o mundo como ele deve ser, sem esquecer o problema de como pode ser, como escreveu Jaime Nogueira Pinto. Repare que todos os grandes sonhos das ideologias da generosidade e do mundo melhor, ao serem levados à prática ou à sua tentativa, tiveram efeitos perversos.
Para um conservador, como eu, os fascismos e os comunismos, com a violência das suas utopias, dos seus métodos, da sua febril sede de mudança e da sua crença absoluta de serem detentores da razão, são aberrações revolucionárias a evitar. A direita com a qual me identifico, é democrática, respeita o sufrágio universal, o pluralismo político e as liberdades, direitos e garantias consagradas na Constituição. Aflige-nos a violência de quem, lunaticamente, sonha alterar à força a natureza da sociedade humana. Sociedades perfeitas e cidadãos perfeitos? Hmmm...não vamos por esses caminhos que já vimos para onde costumam resvalar.
Temos de lutar por um mundo melhor, seguramente; agarrarmo-nos fora de tempo a um mundo ideal que não existe, de modo algum.
Nota: como tenho muito a comentar, divido o meu comentário em 3 partes. Este é o fim do 1. Desculpe, Daniel, escrevo muito.
Comentário - Parte II
É por isso que, sustentado com o que terminei o meu 1º comentário, quanto ao fenómeno da globalização nos devemos aplicar para a aperfeiçoar , regulamentar, humanizar e procurar apetrecharmo-nos para sermos competitivos neste campeonato e adaptarmo-nos o melhor possível, sob pena de hipotecarmos o nosso futuro e a prosperidade dos vindouros. E não, realmente, não há, actualmente, uma alternativa credivel ao capitalismo.
Também eu sou um defensor de menos Estado e melhor Estado. O Estado apenas e só deve estar presente onde é realmente necessário. E aí deverá dar garantias de capacidade de resposta, eficiência, rigor, honestidade, dedicação. E não, na cama, não é de todo necessário.
Quanto ao PS e as fragilidades da direcção de Ferro darei conta do meu ponto de vista numa próxima oportunidade.
Congratulo-me por se sentir bem no interior do projecto político a que aderiu. É salutar. Fico satisfeito por saber que no BE há liberdade interna e pluralismo no debate de ideias. Se nos sentimos capazes de contribuir com ideias para o progresso do país e da nossa sociedade e há um projecto político com o qual nos identifiquemos, devemos abraçá-lo, nele militar e colaborar para o aperfeiçoar, encontrar respostas e soluções. Pretendo, também eu, militar no partido com o qual me identifico mas, só depois de achar que estou intelectualmente preparado para dar esse contributo. Até lá, ainda tenho muito a ler, muito a escutar, a reflectir, a ponderar, a debater. Só então, poderei, quiçá, enriquecer de alguma forma essa actividade tão nobre que é a política.
“A política é para mim a luta pelo poder e para transformar o poder”. Não percebi é como o Daniel pretende ter acesso a esse poder e exercê-lo para transformá-lo. O Bloco é, neste momento, e na melhor das hipóteses, um partido que terá entre 5 a 7% em legislativas. Não ignoremos o efeito do voto útil que sempre diminui a votação nos partidos mais pequenos.. Ora, se o Bloco não se vier a aliar a um PS que, eventualmente, venha a ganhar umas legislativas , não virá nunca a fazer parte duma equipa governativa. Vai então exercer a sua influência através de acordos de índole parlamentar? Condicionando questões estruturantes? Quais? E as questões estruturantes em que o PS terá, provavelmente, maior facilidade em encontrar entendimentos com o PSD e/ou até, quiçá, com o CDS? Como fica a a posição do BE perante este cenário possível? Conseguirá o BE, apenas com este tipo de infuência, exercer um poder efectivo e que permita transformar, em algo de substancial, esse poder?
Comentário – Parte III
“Um partido pequeno não tem capacidade para realmente condicionar a governação”. Ora bem, só me vem dar razão quando disse que, uma certa campanha feita, nomeadamente, durante as Europeias, suportada na responsabilidade de o desvio do governo de Barroso ser por obra, graça e influência nefasta e perversa do CDS/PP, não tem bases sólidas. A presença do CDS no governo não é o único factor decisivo para as políticas levadas a efeito. Nem o PSD toleraria que o CDS condicionasse a 100% as medidas governamentais. Que há uma concertação permanente e “procura de síntese” (palavras suas) de objectivos e de medidas a tomar para os alcançar, é óbvio.
“...e por isso, une-se com facilidade”. A direita, se é que o PSD é de direita, une-se com facilidade porque o que a separa é mais fácil de ser ultrapassado do que as clivagens que se verificam à sua esquerda. Disso a direita não tem culpa.
“...a direita quer hoje que tudo fique como está”. Que fique tudo como está? Não me parece. A direita tem é de, sem receios, sem tibiezas, levar por diante reformas, de modo a criar as condições para um país competitivo, atractativo, desenvolvido, nem que para isso tenha de ser penalizado nas urnas. O importante é chegar-se a 2006 e, caso o povo assim o dite, entregar um país melhor, com melhores perspectivas de crescimento e com as finanças públicas devidamente equilibradas, em suma, um país melhor que aquele que foi encontrar em 2002.
Termino, Daniel, com uma citação de Alain de Benoist:
“Em lugar de o compreender, Marx propõe mudar o mundo. Porque o recusa. Compreendê-lo, é ainda uma forma de o aceitar. Se a esquerda aparece como o ‘partido do movimento’, é que ela tem sempre a esperança com Rousseau, de abolir a realidade”
Um abraço.
Ao Pedro Sales:
é claro que o PS português é o mais à direita da Europa, com a excepção dos Trabalhistas de Blair (que no entanto têm uma ala sindicalista, mas totalmente manietada). Tanto o PSF como o PSOE como, muito particularmente, o PDS italiano, estão muito à esquerda do PS. Mas continuo a pensar que isso não seria impeditivo de maior colaboração à esquerda se houvesse uma verdadeira cultura de «frentismo de esquerda» em Portugal. Que não existe (ontem li no Público que o BE admite apoiar um governo de Carlos César nos Açores...pode ser um passo positivo).
Quanto ao fundo do problema, o Luís Lavoura tem razão. A fractura (mental) entre o PS e a esquerda radical é maior do que entre o PS e a direita. Isso explica episódios como os Orçamentos aprovados entre Guterres e Paulo Portas (e a ausência de uma tradição de «frentismo de esquerda» também explica a ausência de mobilização do PS profundo aquando do referendo à IVG).
Só se poderá sair disto quando a 1ª geração da democracia chegar ao poder. O que deve acontecer a partir de 2010.
Cristina
Espero que o Daniel não tenha essa posição. Sinceramente o que aqui postei nos comentários visava apenas colocar um ponto de vista diferente. Nem sequer sou uma "política" que coloca a ideias de forma muito clara, mas acho importante o debate político e não os comentários disparatados que aqui vejo, muitas vezes, serem colocados. Há muito que não posto comentários no Barnabé, mas este desafio de Daniel foi um desafio. Quanto ao Barnabé, continuo a vê-lo como um dos blog mais significativos da blogosfera e venho aqui quase diariamente. O Daniel Oliveira, e muito embora discorde de algumas das coisas que aqui posta, considero-o uma pessoa de referência. Gosto do sentido crítico dos seus post, vejo-o como uma pessoa "de esquerda e não social-democrata" (risos+risos)... sem dúvida um crítico perspicaz ... daí, pelo que me toca, não ter necessidade de um advogado :), apenas precisa de bons argumentos que certamente terá.
A definição tradicional de "extrema-esquerda" custuma ser "as correntes à esquerda do partido comunista", logo, por definição, o PC não é de extrema-esquerda. Por outro lado, aplicando a mesma definição, o BE será de extrema-esquerda (pelo menos, senta-se à esquerda do PC na AR)
Afixado por: Miguel Madeira em julho 14, 2004 03:53 PMGin,
A brincadeira do advogado não passava disso, uma simples brincadeira. A ideia era precisamente evitar que se pensasse que estaríamos aqui a fazer-lhe um "auto-de-fé" de todo ridículo. Ele foi suficientemente corajoso para expôr os seus pontos de vista, com sinceridade, e isso é muito mais do que a maioria dos nossos políticos institucionais fazem.
Contudo, não deixo de pensar que independentemente da legitimidade do nosso posicionamento político, que não questiono, é preciso alguma atenção a confusãoes que o senso-comum recorrentemente estabelece;a inteligência do Daniel vai seguramente mais longe e será capaz, não tenho quaisquer duvidas, de desvelar essas confusões.
Creio que a atenção que nós, eu inclusivé, lhe damos, bem como ao Barnabé, merece um voto de confiança recíproco.
O meu posicionamento é mais radical mas sempre esperei do Bloco, onde possuo bastantes amigos e antigos companheiros de outras (?) lutas, uma abertura política suficiente para aceitarem discutir o que, na minha opinião, como aqui expliquei, é hoje a questão essencial; genericamente, a questão da própria natureza do poder.
Abraços
O Uno e o Múltiplo