agosto 16, 2004

O "caso Benny Morris"

Nos anos 80, ele foi um dos principais responsáveis pela destruição de um dos mitos mais acarinhados pelo Estado de Israel: a ideia de que o êxodo dos 700 mil palestinianos no rescaldo da Guerra de 1947-49 havia sido uma consequência infeliz do conflito, mas, de qualquer forma, uma decisão voluntária. Estou-me a referir a Benny Morris, possivelmente o mais importante dos “novos historiadores israelitas” que há cerca de 15 anos atrás empreenderam uma extensa reavaliação histórica daquele conflito. Em The Birth of the Palestinian Refugee Problem (1987), Morris, um antigo jornalista do Jerusalem Post, demonstrou com ampla evidência documental que o êxodo palestiniano resultara afinal de uma gigantesca operação de “limpeza étnica”, planeada e executada de forma sistemática pelas forças armadas israelitas. O impacto desta e outras revelações na sociedade israelita foi tremendo (as pesquisas dos "novos historiadores" destruíram também a lenda da inferioridade militar de Israel em relação aos estados árabes que o atacaram em 1948). Elas confrontaram muitos israelitas com a falácia do célebre slogan sionista – “uma terra sem povo para um povo sem terra” – e obrigaram-nos a encarar as reivindicações palestinianas (o direito de retorno dos refugiados) a uma nova luz.
Morris passou um mau bocado depois de publicar o livro. O establishment académico e os sectores mais conservadores da política israelita digeriram mal a sua investida crítica e fizeram-lhe a vida negra. Morris foi despedido do Jerusalem Post (entretanto comprado pelo magnata Conrad Black, um pró-sionista amigo do Likud) e teve de esperar vários anos até conseguir um emprego numa universidade israelita.
Recentemente, Morris regressou à primeira linha do debate político mas por razões ligeiramente diferentes. Ao realizar novas pesquisas para uma edição revista do seu livro, descobriu novos indícios de atrocidades cometidas contra os palestinianos em 1947-49, mas, para espanto de muitos, alterou por completo o sentido das suas conclusões ao declarar que as autoridades israelitas fizeram mal em não terem levado até ao fim a expulsão em massa dos árabes - afinal de contas a única maneira realista de resolver um conflito intratável. Em suma, Morris transformou-se num apologeta da “limpeza étnica”, alegadamente por não vislumbrar entre os responsáveis palestinianos uma aceitação inequívoca do direito de Israel à existência. A desilusão entre os colegas de Morris e aquilo que passa por ser o “campo da paz” em Israel foi enorme. Um artigo no último número da Prospect dá conta de toda esta polémica e oferece-nos várias pistas para perceber a implosão da esquerda israelita, os impasses do Partido Trabalhista e o aparente sucesso da estratégia prosseguida por Ariel Sharon nos últimos anos. Leitura deprimente, mas inegavelmente interessante.

Publicado por pedrooliveira em | TrackBack
Comentários

França, a Colaboracionista

Anti – Semitismo desenfreado em França
"Um dia o bombo da festa é o Estado de Israel, no dia seguinte são os judeus"
A pouco e pouco nas cidades do mundo de hoje, as manifestações anti-judeus vão destapando as hordas de nazis. Estigmatizados pelas Igrejas cristãs há quase dois mil anos, os judeus foram excluídos e maltratados, com o horror final atingido no Holocausto.

30 mil judeus a caminho de Israel (a média anual era de 2 mil saídas)

- Profanação de cemitérios por neonazis
- Agressões e injúrias contra judeus banalizaram-se
- Ataques a sinagogas e escolas judaicas

A cegueira ideológica, que em tempos legitimou Auschwitz e o gulag, continua entre nós.

Milhas Alá


in www.blocoesquerda.blogspot.com

Afixado por: Zé Manel em agosto 16, 2004 01:03 PM

O "campo da paz" em Israel é capaz de, largamente, concordar com Benny Morris. Quererem paz, agora, não quer dizer que queiram viver com árabes ao lado. Muito desse "campo da paz" não deseja, sequer, abdicar dos colonatos judeus.

Cabe também perguntar se, infelizmente, Benny Morris não terá razão. Pouco antes da limpeza étnica perpetrada pelos judeus, a Checoslováquia e a Polónia tinham sido limpadas etnicamente da sua população alemã, pelos vencedores da 2ª Guerra Mundial. Foi uma prática muito feia (oito milhões de alemães expulsos das terras em que as suas famílias viviam há muitos séculos, e deportadas para a atual Alemanha) mas foi talvez a única forma de garantir a estabilidade das atuais Chéquia e Polónia.

Afixado por: Luís Lavoura em agosto 16, 2004 04:09 PM

Penso que Benni Morris nos anos 80 partia de um principio (de que muita "esquerda" ainda partilha) segundo o qual Arafat e os lideres palestinianos tinham boas intenções e desejavam uma convivência pacifica.

Hoje, depois do falhanço acordos de paz dos anos 90 (promovidos por dirigentes israelitas a partir duma posição de força) acho ninguem (com a excepção do barnabe!) tem ilusões a esse respeito. Os palestinianos desejam tanto uma convivencia pacifica como os israelitas. A única solução é, sem duvida a separação das águas.

Os israelitas têm mais força logo a separação das aguas é feita segundo os seus termos. Se os palestinianos tivessem uma posição de vantagem decerto que seriam tão tolerantes quanto sharon. É a vida.

Afixado por: Rui Silva em agosto 16, 2004 07:35 PM

Os sionistas, sob a protecção política e militar dos americanos (cujos políticos são controlados pelo lobby sionista APAC) cometem todo o tipo de crimes. Limpeza étnica, genocidio, roubo de terras, ocupação ilegal, resoluções da ONU por cumprir, terrorismo de estado e não só, ataques aos países vizinhos, apartheid, racismo, bombardeamentos indiscriminados de civis, exportação de terrorismo (como se viu na Nava Zelândia recentemente), posse de armas de destruição em massa, construção de muros racistas ilegais com o objectivo de roubar mais terras e água. A minha pergunta é: Como é possível a comunidade internacional assistir a isto tudo e assobiar para o lado e tentar fazer de conta que não está a acontecer?

Afixado por: Luis em agosto 16, 2004 08:09 PM
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