setembro 09, 2004

Os mil e um mortos [1]



Peter Turnley, No túmulo de Abedal Hassn, Bagdad e Uma familiar no velório do Sargento Patterson. Série The Bereaved. Mourning the dead, in America and Iraq. Publicado na Harper's Magazine de Agosto. Clique para aumentar numa nova janela.
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Acho impossível que cheguemos verdadeiramente a entender como é que o Oriente das mil e uma noites se transformou no Oriente dos mil e um mortos – em ambos os casos com o centro de gravidade em Bagdad – embora seja essencial continuar a tentar responder a essa pergunta, como também faz este blogue. Tentar responder a essa pergunta talvez nos permitisse entender como é que ouvimos falar nos mil mortos da Guerra do Iraque (a que parece que se chegou ontem) escamoteando em permanência os mortos iraquianos que são muitos mais, mas que não contam nem são contabilizados como os soldados americanos.

Os leitores do Barnabé acharão provavelmente patética esta confissão, mas acontece que ontem deu-me para sonhar que era um soldado na Guerra do Iraque. Soldado americano, como é evidente, estamos inegavelmente do lado de e não adianta negá-lo. Lembro-me só que subi a um terraço e que esperava que saísse de lá de dentro da casa um inimigo. Sabia que quando chegasse o momento um de nós teria de disparar primeiro, e só me passava pela cabeça que teria forçosamente de ser eu a fazê-lo. Naquele momento já não havia saída: eu continuar vivo dependia absolutamente de não hesitar em matar o outro.

Para eu não estar ali muitas coisas teriam de ter sido diferentes na cadeia de decisões.

É por às vezes nos pormos a pensar na guerra nos termos mais crus que podemos imaginar estando longe dela que eu me rio quando vejo gente acusar os "pacifistas" de demagogia. É então demagogia lembrar que morrem filhos e choram pais numa guerra? É demagogia falar nas idades daqueles que tombam – 19, 20 anos – e já não se levantam?

Pois, compreendo, seria muito melhor uma guerra sem esse desconforto. Para os defensores da guerra seria óptimo não ter de nos ouvir a nós atrapalhar a limpidez do seu raciocínio, muda regime ali, democratiza acolá, tudo se materializando em menos tempo do que leva a dizer. Mas deixem estar que para nós também seria muito melhor olhar para Bush e os seus ideólogos pensando que os seus caprichos fossem inconsequentes e não matassem ninguém.

Mas como as coisas não são assim, como as guerras são mais do que tinta nos jornais, discussões em blogues e o brilho hipnótico dos televisores, acho que vale a pena roubar algumas imagens de um portfólio da Harper's Magazine de Agosto para assinalar os mil e um mortos desta guerra. Mil e um não contabilísticos, mas no sentido literário de "incontáveis", americanos e iraquianos, cada um que morrendo tão absolutamente como os outros.

(Já agora: no sonho disparei primeiro, antes de acordar.)

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

Isso é tudo romanticamente verdade mas...
Se os "bons" não fizessem as gerras, seríamos todos engolidos pelos "maus".

Afixado por: jeso em setembro 9, 2004 06:38 AM

O cerne da questão está em que aqueles que falam em "fazermos" a guerra, em "ganharmos" a guerra, em "impormos" a democracia, etc, NUNCA são aqueles que de facto fazem a guerra e nela morrem e matam. Limitam-se a OBRIGAR jovens imberbes a ir fazer isso por eles. Só dão ordens.

O José Manuel Fernandes, o Luís Delgado e os outros crápulas da mesma laia, não fazem guerra nenhuma, embora escrevam como se a fizessem. Eles não matam, eles não correm o risco de morrer. Eles limitam-se a usar o poder que têm para ordenar aos outros que façam a guerra.

Deixemos de ser hipócritas, deixemos de usar a primeira pessoa do plural. Nós não fazemos nada, a não ser bater teclas num computador. Quem faz a guerra é quem com ela sofre.

Afixado por: Luís Lavoura em setembro 9, 2004 09:34 AM

É que do lado do Ocidente contam-se os mortos (1001 soldados americanos que também morreram por ti)
Mas do lado dos funamentalistas, nem contam os mártires quanto mais os mortos.
Não dão valor à vida. (Pelo menos é o que dizem e fazem crer os seus seus chefes e guias).
Ainda assim os americanos têm enormes cuidados (deixemos os abusos da guerra) em provocar o menor número de vítimas. Em contrapartida eles alegram-se e cantam com as matanças que fazem
Há realmente grande diferença, só os cegos e facciosos não querem ver e insistem neste tipo de criticas.

Afixado por: mierdaseka em setembro 9, 2004 09:49 AM

Gostei do texto Rui, concordo em absoluto.
Não sei se isto vem a propósito... há dias vi a última série do Black Adder, a que se passa na 1ª guerra mundial, numa trincheira. Durante 6 episódios absolutamente delirantes "goza-se" com a guerra. Black Adder está sempre a arranjar esquemas para fugir à linha da frente, e acreditem, são esquemas mirabolantes.
No episódio, ao fim de anos na trincheira, chega a ordem de avançar. Ora na 1ª guerra mundial, "avançar" significava morrer tal era a carnificina. Numa só batalha morreu mais de um milhão de soldados... Portanto o nosso amigo Black Adder tenta por todos os meios evitar a morte. Finge-se doido, finge que o telefone tem interferências, mata um pombo correio etc.
Mas no final ele acaba por acatar a ordem. Há outra personagem principal que tem a hipotese de se ir embora mas prefere lutar como lutaram todos os amigos de infância. Há outra personagem que era uma espécie de secretário do general (figura antipática) que é enviado para a linha da frente também. Black Adder está certo de que vai morrer. Estão na trincheira e começa a amanhecer. É a hora de atacar. Até ao fim pensamos que o Black Adder vai inventar um esquema para evitar aquilo. Não evita. Parece-nos a nós que estamos de fora da guerra estranho que numa situação daquelas alguém que parece na posse de todas as faculdades mentais se lance para a morte. Penso que a resposta a isso está no espírito de grupo e companheirismo.

O apito soa, os 4 amigos começam a correr, vêm-se explosões e a imagem faz um freeze, a preto e branco. Depois mostra-se o mesmo 'campo' na actualidade. Árvores, trigo... A série acaba de forma triste e francamente pacifista. Até o Black Adder morreria na 1ª guerra mundial. Esse episódio foi dos manifestos anti-guerra mais brutais que vi, porque usava o humor. Gozaram com a guerra 6 episódios, mas no último quarto de hora deixam claramente a ideia de que a guerra é uma coisa horrível. Recomendo ver.

Eu juro que gostava de ver o Luís Delgado num cenário real de guerra. Nem digo como soldado, apenas como jornalista. Estar lá. Talvez falasse dela com menos 'ligeireza' e entusiasmo, mais até que o próprio George Bush. Chega a ser doentio.

Afixado por: O Bom Selvagem em setembro 9, 2004 10:00 AM

mierdaseka, a questão não está em saber-se se os fundamentalistas dão ou não valor à vida, mas antes em saber-se se nós, os não fundamentalistas, dão ou não. À vida dos americanos e à dos não americanos.

Afixado por: antonio em setembro 9, 2004 11:07 AM

RE:mierdaseka
Esses fanáticos estão a defender o que eles acham ser a sua terra, contra um invasor. E você faria o quê?

Afixado por: o net pulha em setembro 9, 2004 11:17 AM

E não estão a defender a sua terra contra um invasor? Mas os americanos nasceram no Iraque ou no norte da america?

Afixado por: cachucho em setembro 9, 2004 12:58 PM

eh tanto ruído...
Que se saiba os americanos, até hoje, não ocuparam 1m2 das terras que libertaram.
Podemos começar pela Europa, (os senhores já estão esquecidos?), Coreia, Japão, Libéria... etc. etc.
Por outro lado todos estes países que "sofreram" a libertação americana progrediram e de que maneira.
Basta comparar com os países que foram "libertados" pelos comunas.
O maior cego é aquele que não quer ver.

Afixado por: maneldomoinho em setembro 9, 2004 02:20 PM

Falar de guerra sem nunca ter ouvido o zumbido das balas e o sangue que jorra quando elas encontram um alvo... é coisa fácil!
Esquecer... Nem numa vida!
Lembro-me de alguém dizer, aos que vão resta-nos a saudade da despedida aos que ficam o inferno da existência.

Afixado por: Guilherme em setembro 9, 2004 02:34 PM

segundo o cryptome (http://cryptome.org/) o total de baixas no dia 8 de setembro era 1031. calendário actualizado em http://cryptome.org/mil-dead-iqw.htm (a fonte é o departamento de defesa norte-americano).

Afixado por: pfig em setembro 9, 2004 04:04 PM
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