Um dia perguntaram a Einstein o que pensava ele do senador McCarthy. Obrigado a demonstrar alguma delicadeza em relação aos seus anfitriões, respondeu qualquer coisa como: "penso que a América tem um grande sentido de humor. Ainda um dia nos havemos de rir deste homem".
Talvez conte como ponto a favor de um certo progresso da América e da humanidade o facto de não precisarmos de esperar para poder rir de George W. Bush. Fizémo-lo durante todo o seu mandato.
Agora o que nós precisamos é de respirar de alívio.
Então, para começar devo dizer que uma das razões porque eu (e aparentemente a maioria do planeta) torço porque Kerry ganhe é porque quero que o episódio bushista seja encerrado na história dos EUA e do mundo tal como foi o McCarthismo. Um pesadelo perigoso que felizmente acabou.
Há quem afirme que esta é uma posição fanática, ou mesmo anti-democrática, porque se limita a ser do contra. Não vejo qual é a relação entre uma coisa e outra. Ser do contra faz tanto parte da democracia como ser a favor. Pode ser que há muito muito tempo as pessoas tenham votado pensando: "todos os candidatos em presença são excelentes pessoas, dignas e dedicadas, mas existe um que considero ser ainda mais merecedor do meu voto, apesar de não ser contra os restantes". Mas isso foi há tanto tempo que já ninguém se lembra.
Além disso, quem assim fala também gosta de contribuir para a confusão. Ora costumam assustar os indecisos dizendo que Kerry é um esquerdista impenitente, quase comunista. Ora se armam em desmancha-prazeres da esuqerda e dizem: "mas que pensam vocês? que a política externa dos EUA vai mudar? que John Kerry vai retirar do Iraque? oh, santa ingenuidade!"
Voltemos então à minha analogia com o McCarthismo. Até pode ser que John Kerry venha a herdar a Guerra Fria (agora Guerra ao Terrorismo), mas George W. Bush seria o tipo capaz de defender que se lançasse a bomba atómica sobre a União Soviética. Loucos desses dispensam-se, e é mesmo uma necessidade de sobreviência democrática (e sem ser democrática) garantir que ele se vá embora.
Mas eu suspeito que Kerry possa ser melhor do que apenas um herdeiro de políticas. O pior defeito do anti-americanismo que o pró-americanismo é (esta não se percebe à primeira, mas o que eu quero dizer é mesmo o que escrevi) é supôr que os EUA sejam uma realidade imutável, homogénea e inteiramente distinta do resto do mundo.Não é assim. Kerry é mais parecido comigo do que com Bush. E isso é óptimo, porque hoje em dia o que precisamos no mundo é que os EUA se aproximem da Europa (e não o contrário). Será bom para eles, bom para nós e bom para o mundo.
Neste momento as sondagens dizem que Bush vai ganhar. Eu acho que há algum exagero nisto, que este é apenas o exagero do pânico. Quanto mais o pânico aumentar mais hipóteses terá Bush de ganhar.
Se isso acontecer, tanto pior. Como explica David Marquand num excelente artigo na Prospect, que a Europa e os EUA sigam caminhos diferentes. Que haja políticos corajosos na Europa que defendam que os rios de dinheiro que os EUA gastam na guerra nós gastaremos em coisas melhores. E que ---
O ciber-café está a fechar. Continuamos depois, se calhar.
Já agora, não se esqueçam de ler este excelente «Goodbye the West» de David Marquand, em resposta a Philip Gordon e Timothy Garton Ash.
Publicado por ruitavares em | TrackBack
Infelizmente, eu não acho que haja exagero nas actuais sondagens? É preciso não esquecer que existe hoje uma clivagem enorme entre os Estados Unidos e o Resto do Mundo. A Fera foi gravemente ferida e, até se encontrar o verdadeiro culpado, os americanos desconfiam do mundo inteiro. Sobretudo, daqueles que não quiseram acompanhar os seus soldados na caça ao Terror.
Portanto, é preciso ter-se muito cuidado quando se diz que a maioria do planeta (sobretudo a França, a Alemanha ou a Rússia) apoia Kerry, porque isso só fará aumentar a desconfiança dos eleitores americanos – que são os únicos que realmente contam para o Totobola – e voltá-los para George Bush.
Afixado por: JAM em setembro 17, 2004 06:24 PMRepito o segundo comentário que inseri no seu post "Interlúdio", de anteontem:
"Ó Rui, então isso é reacção que se tenha?
Em vez de agradecer-me a correcção, vem tentar justificar o erro?
Não gostaria de dizer, a seu respeito, que a ignorância é atrevida... Mas garanto-lhe que, ao contrário do que pretende, não há circunstância que gramaticalmente permita aquele "de".
Pode ficar descansado que não voltarei a tentar emendá-lo, já que, pelos vistos, a sua sapiência é enciclopedicamente absoluta".
Infelizmente e em todo o sentido,o massacre de Beslan deu a vitória a Bush.Aguardemos ...
Afixado por: Peter em setembro 17, 2004 07:58 PMSinceramente, entre Bush e Kerry, eu poria a cruzinha no terceiro quadrado...
Não acho que sejam iguais, mas o Kerry não me convence que seja diferente de Bush de uma boa maneira, e nem nos aspectos essenciais. E o essencial a meu ver, é os EUA, como país deixarem de ter a mania de que mandam em tudo e que não têm que respeitar nada.
Era preciso que revogassem os Patriot Acts (acho que foram pelo menos dois), que respeitassem a ONU em vez de tentar mandar nela, que aderissem ao TPI, ao Protocolo de Kyoto, dessem um destino final à vergonha de Guantanamo...
Era preciso que os torturadores de Abu-Ghraib passassem a ser condenados a sério : um descanso de 8 meses não é uma condenação séria!
Era preciso pararem de se desculpar por milhares de mortos ao longo dos anos com "efeitos colaterais duma guerra justa", que por acaso até já veio depois de embargos por causas também mal explicadas.
Enfim, era preciso que deixassem de actuar como chefes ou polícias ou seja lá o que fôr do Mundo, e passassem a agir como o que são, apenas mais um país entre todos os países do Mundo.
O Kerry não me convence de modo algum que faça isso.
Afixado por: Helena Romão em setembro 17, 2004 08:04 PM"Heavy as they are, the costs of action must be weighed against the price of inaction. If Saddam defies the world and we fail to respond, we will face a far greater threat in the future. Saddam will strike again at his neighbours; he will make war on his own people. And mark my words, he will develop weapons of mass destruction. He will deploy them, and he will use them. Because we are acting today, it is less likely that we will face these dangers in the future."
Não foi o Bush que disse isto, nem nenhum Republicano, nem o Blair, nem o Aznar, nem o Barroso.
Foi o tão admirado pela esquerda mundial, Bill Clinton.
Aqui deixo o link para quem quiser ler tudo e para quem quiser tirar dúvidas.
http://www.cnn.com/ALLPOLITICS/stories/1998/12/16/transcripts/clinton.html
Eu daqui posso tirar uma conclusão:
Se o 11/9 tivesse acontecido com o Clinton no poder, as atitudes tomadas por ele seriam as mesmas das do Bush.
Se o Kerry fosse presidente dos EUA no 11/9, idem.
Acho mesmo que, fosse qual fosse o presidente dos EUA nessa altura, tomaria as mesmas atitudes que o Bush.
Até mesmo se fosse a nódoa do Jimmy Carter!(Ok, aqui talvez tenha exagerado.)
Mas isto sou só eu a tirar conclusões...
Afixado por: Herói do Silêncio em setembro 17, 2004 08:50 PMAgora já se percebe o cartaz da moca!
Quando foi do 11 de Setembro, Miguel Portas (DN, 13/09/01) apressou-se a classificar o que aconteceu de “genocídio” e acusou os seus autores de serem “a face terrível do imenso mal-estar que invade o mundo contemporâneo”, fala de uma “imensa irracionalidade” e conclui confessando “não sei quem deu mais este passo no caminho da barbárie”.
Uma semana depois (DN, 20/09/01), perorava: “No modo como o mundo souber lidar com o rescaldo, saberemos do seu estado mental. A opção imediata é simples: encontrar, julgar e punir os responsáveis ou retaliar (...). Num caso estamos ante a vontade da justiça. No outro quem comanda é a sede de Vingança (...). Num caso, o tempo é determinado pela investigação. Emitem-se mandatos de captura e pronuncia-se a acusação. Os pedidos legais de extradição é aqui que entram e quaisquer consequências posteriores decorrem da recusa de extradição. Este é, na minha opinião o modo certo de lidar com o rescaldo. E o modo que afirma o primado da lei, que alarga a base política e cultural de condenação ao terrorismo e que isola, no mundo islâmico e no mundo ocidental, os furiosos deste planeta”.
Agora sobre o ataque terrorista à Escola nº 1 de Beslan Miguel Portas já não fala de genocídio nem de irracionalidade e não tem dúvidas (DN, 16/09/04): “o que aconteceu em Beslan não deixa margem para dúvidas: as forças especiais de Putin acabaram o que os terroristas iniciaram”. E acrescenta: “Estes dramáticos acontecimentos estavam inscritos nos astros desde que, em 1999, o Presidente da Rússia anunciou que a sua prioridade interna era o combate ao terrorismo”. E insiste: “As vidas para aquelas crianças valeram tanto para ele (Putin) como para os sequestradores. (...) É altura de dizer mais: Putin aproveitou a crise (...) para se transformar no novo czar das rússias”.
Agora, no rescaldo de Beslan, o Miguel Portas não advoga encontrar, julgar ou punir os responsáveis, nem menciona consequências decorrentes da recusa de extradição.
No rescaldo de Beslan, Miguel Portas invectiva os que acham que “Esta não é a altura de dar uma lição à Rússia”. E queixa-se: “Nem hoje, nem ontem, nem por este andar, amanhã...”.
Agora já se percebe o cartaz da moca “Vota em quem bate mais forte”! Afinal é nos russos que o Portas quer bater! Mas a bem da transparência, na altura da campanha eleitoral podia ter explicado melhor...é que muita boa gentinha pensava que ele queria bater no Durão, no Bush e no Blair! Afinal era no Putin. Óra bolas!
Afixado por: João Lopes em setembro 17, 2004 09:39 PMEste filme vai acabar mal!
E eu que já comecei a voltar a apreciar filmes com "happy end"...
Kerry é mais parecido comigo do que com Bush.
Frase muito engraçada. Faltou só dizer que tem o Kerry a 1 ano-luz à direita, e o Bush a 1 ano-luz e alguns metros mais à direita.
Quanto à ideia principal, é natural que quem seja contra Bush é a favor da sua derrota por Kerry. Mas não sendo um votante americano e não tendo veleidades de influenciar o eleitorado americano, era coerente também "eleger" o candidato mais aproximado das ideias que defende.
Afixado por: Carlos em setembro 18, 2004 01:21 AMInteressava a muitos que o Kerry fosse o vencedor das eleições. Principalmente aos anti-americanos.
Na realidade o Kerry é uma personagem que prima pela inconsistencia de posições.
Um dia é a favor da guerra, no outro e contra...
Num dia apoia um subsidio de apoio aos soldados americanos, no dia seguinte veta esse apoio...
E tão, mas tão consistente nas suas atitudes, que só ao fim de 3 campanhas na guerra do vietnam é que reparou que era contra.
Quanto a se o 11 de Set tivesse sido na altura de outro presidente....
Na Epoca de Clinton houve... o primeiro atentado contra o wtc... o ataque ao navio USS Cole e os ataques as embaixadas na Tanzania e Quenia, em nenhuma destas alturas Clinton reagiu.
Interesante que a maioria de um povo pede que um candidato cumpra as promessas que faz...no caso do Bush, ja não estão a gostar do facto de ele cumprir com a palavra.
Sou Luso-Americano e embora Kerry seja casado com uma senhora de origem portuguesa (malcriada que se farta, mas pronto...)isso em nada influencia a minha votação.
Votarei um Bush, pq é o unico candidato com perfil e determinação para o cargo.
Kerry só traria insegurança, pq nem ele mesmo é seguro nas suas afirmações.
Vocês estão a esquecer-se duma coisa : os interesses económicos por detrás da família (e amigos) Bush, que importa, a todo o custo, defender. Quando Saddam invadiu o Kuwait, os USA fizeram a primeira Guerra do Golfo, não para defender o Kuwait, mas para defender os interesses das empresas do petróleo que a família Bush tinha acabado de comprar no Kuwait. Esta segunda Guerra no Iraque, não tem NADA a ver com a caça ao terrorismo mas, uma vez mais, com a procura vital de matérias primas para as empresas petrolíferas da família Bush. Para já não falar do negócio de armas que floresce no seio dos Bush & Cheney.
Quanto a Kerry, na pior das hipóteses, só invadirá o Iraque (ou o Irão, ou o Brasil) para plantar tomates, para alimentar os negócios de Ketchup da família Heinz/Kerry! É diferente, não?
Agora a sério. É preciso ver, entre Bush e Kerry, quem é que está mais interessado em colocar ponto final às actividades desenvolvidas por grupos que contestam a ordem mundial. E que, para isso, tem de usar métodos como o da nova Doutrina de Segurança Nacional norte-americana, em que os Estados Unidos simplesmente afirmam não aceitar contestações. Nem contestações dos "inimigos" dos americanos, nem, pior do que isso, contestações dos próprios americanos.
Será isso que quer a primeira e a mais importante democracia do mundo ?
Afixado por: JAM em setembro 18, 2004 09:00 AM
John Kerry veut réduire la dépendance pétrolière des USA, premier consommateur mondial, en diversifiant les sources d'énergie et en en développant de nouvelles. Il promet que d'ici 2020, 20% de la consommation des véhicules américains viendra de ressources alternatives produites aux États-Unis.
Bonne nouvelle !
Afixado por: Zakarias em setembro 18, 2004 01:22 PMSe eu fosse americano e o sistema eleitoral americano fosse mais democrático, eu votava em Ralph Nader, porque é mais arrojado, mais reformista, mais ambientalista, mais de esquerda que John Kerry. Mas como o sistema eleitoral americano é o que é, os 3 ou 4% dos votos que Nader poderá receber, serão inúteis. Assim sendo espero que ganhe Kerry. Não por ser o melhor candidato, mas por ser o único que está em condições de apear Bush e a sua sinistra administração
Afixado por: Sacha em setembro 18, 2004 03:19 PM
George W. Bush não é estúpido nem idiota. Sofre apenas de um principio de demência pré-senil, uma patologia que prefigura a doença de Alzheimer. Quem o afirma é o médico do Michigan, Joseph Price que estudou os célebres lapsos do presidente americano. A notícia foi dada, esta semana, pelo jornal do Massachusetts "The Boston Globe".
Ler o resto em :
http://briteiros.blogspot.com/2004/09/os-bushismos-enfim-explicados.html
Afixado por: JAM em setembro 18, 2004 04:50 PMo que vos fode e que Bush não vos dá tréguas ( aos terroristas da esquerda)
Afixado por: rrr em setembro 19, 2004 05:45 AMPorquê o John Kerry? ´Porque não é tão mau como o Bush. Mas há dúvidas?
"o que vos fode e que Bush não vos dá tréguas ( aos terroristas da esquerda)"
De quem é que este gajo está a falar? Do Otelo Saraiva de Carvalho?
Devia haver limites para a estupidez...