setembro 21, 2004

A demolição da memória

Casa onde morreu Almeida Garrett, na Rua Saraiva de Carvalho 68, Lisboa

Durante o breve consulado de Santana Lopes, a CML comprou o imóvel errado para construir uma "casa museu Eça de Queiroz". Hoje o Público Local noticia (link não disponível) que a mesma CML acaba de aprovar a demolição da casa onde morreu Almeida Garrett (1854), no bairro de Campo de Ourique. Em seu lugar será construída uma habitação nova, da autoria do arquitecto Manuel Tainha. Entrevistada pelo Público, a vereadora Eduarda Napoleão justificou a decisão com base na degradação que o imóvel apresentava e referiu que, em seu entender, não faz sentido manter no novo edifício uma placa evocando Garrett.

Publicado por pedrooliveira em | TrackBack
Comentários

Foi PSL secretário da cultura! Um homem de 'convicções', ou um 'palhaço de circo'. Depende da necessidade.

Afixado por: Inês em setembro 21, 2004 03:19 PM

se fosse so esse caso....em portugal todos os dias se mata um pouco da nossa historia e da nossa cultura.

fica bem

Afixado por: speak_easy em setembro 21, 2004 03:30 PM

Provavelmente a Eduarda Napoleão tem razão em dizer que não vale a pena manter o edifício. Os edifícios velhos, degradados e nos quais ninguém quer morar devem ser demolidos, e não mantidos a todo o custo. (Isto é uma indireta à política que o governo pretende impôr para as casas com rendas antigas: recuperação a todo o custo, demolição jamais.)

No que ela não tem certamente razão é em dizer que não vale a pena pôr uma placa no edifício novo. Deve pôr-se sim senhora, uma placa a dizer que naquele local se situava a casa onde Almeida Garrett morreu.

Afixado por: Luís Lavoura em setembro 21, 2004 03:47 PM

Para que serve a história quando se intrometem interesses imobiliários ao barulho? Afinal, não andam há legislatura e meia a provar que o interesse público é privatizável? É triste...

Afixado por: Abulafia em setembro 21, 2004 03:56 PM

Não tanto por A.Garrett, mas por mais um atentado urbanístico, que desfigura Lisboa, tornando-a inóspita. Mais um mamarracho de betão com capacidade de garagem para muitos automóveis, sobrecarga das infra-estruturas na zona etc.
Etc. menos Lisboa para os alfacinhas. Mais Torres desmesuradas em Alcantara, Mannathans em Cacilhas, Casinos na Expo. Viva Nova York...

Afixado por: takitali em setembro 21, 2004 04:12 PM

"mais um atentado urbanístico, que desfigura Lisboa, tornando-a inóspita" (Abulafia)

Aquilo que torna Lisboa inóspita é o facto de estar cheia de prédios desabitados. Para que Lisboa melhore é preciso que as pessoas voltem à cidade, que deixem de viver em subúrbios. Para isso é necessário (embora não suficiente) que as casas de Lisboa satisfaçam aquilo que as pessoas delas querem - casas modernas, muitas delas com garagem, naturalmente, casas amplas e com muita luz natural, etc. Não prédios velhos, isso o pessoal não quer. Não prédios podres, com escadas esconsas, quartos sem janelas, cubículos minúsculos, janelas para saguões, etc. Isso o pessoal não quer.

Não nos vale de nada termos uma cidade muito linda mas na qual ninguém quer viver.

Afixado por: Luís Lavoura em setembro 21, 2004 04:23 PM

Caro Luís Lavoura lamento discordar consigo, embora todos queiramos casas com as melhores condições, a maioria de nós quer casas baratas... coisa rara em Lisboa.

Afixado por: ruisilva em setembro 21, 2004 04:34 PM

Caro Luís Lavoura:

Não sei se é nesses prédios que as pessoas querem viver, mas sei que não é nessa cidade que eu quero morar. Com prédios antigos a alternar com prédios modernos, uns de 5 andares, outros de 10, tudo igualmente feio e incaracterístico. Já chega de especulação imobiliária no centro de Lisboa. vão construir mamarrachos pra outro lado!

Afixado por: JPT em setembro 21, 2004 04:37 PM

O exemplo que conheço melhor é o de Barcelona onde vivi alguns anos.
Lá, ao contrário do que cá se faz, até no sítio onde Picasso, Gaudi ou Dali deram um peido tem uma placa.
No que respeita às casas estarem a cair, não se esqueçam esses defensores da construção nova e mamarracha, que a especulação imobiliária é que torna as casas em ruínas. Quantas casas desabitadas, não estão com as janelas abertas, sem telhas retiradas de propósito, para ver se vêm abaixo mais rapidamente por causa da chuva que as degrada por dentro?
Já que a lei não permite demolir, deixa-se que o tempo o faça por nós.
De facto não aprendemos nada, e depois vem dizer que querem que portugal seja uma Florida da Europa, mas quem é que quer vir visitar algo tão incaracterístico como Lisboa se está a tornar?
Tenho pena que esta noticia seja verdade, mas sinceramente, este governo e esta câmara já me deixaram de surpreender, pela negativa.

Afixado por: Dizeresmeus em setembro 21, 2004 05:02 PM

em 1º lugar depois de ler as viagens da minha terra podem destruir todos os locais por onde o homem andou...

mais a sério

deve-se 1º questionar se o edificio tem valor patrimonial e cultural ou não e se está previsto algum uso relacionado com o garrett..
se não esta´nada previsto então pq não fazer outro pédio
a qualidade e volumetria do edificio é outra questão, mas voces venham a almada para ver o que são bairros construidos sobre antigas quintas sem o minimo de qualidade

Afixado por: sergio em setembro 21, 2004 05:09 PM

"E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? "

Almeida Garrett

Não admira o asco que de forma tão desasombrada essa senhora e o seu mentor, agora a fazer figura de primeiro ministro, têm pelo assunto... mas não é de admirar... não será que também recebeu uma carta de incentivo para continuar a escrever...

Afixado por: zecm em setembro 21, 2004 05:49 PM

...que se queime a bandeira.

Afixado por: ruisilva em setembro 21, 2004 06:11 PM

Aqui no Porto a situação é idêntica.
A casa onde nasceu Garrett está praticamente devoluta, a estátua do escritor, em frente à Câmara Municipal, tem os dias contados, pois será removida... e já agora, no próximo dia 9 de Dezembro assinalam-se os 150 anos da morte de Garrett. Não é que seja um entusiasta das comemorações, mas este número tão redondo deveria servir para relembrar a obra e a vida desta grande personalidade literária e cívica do século XIX... infelizmente ninguém parece estar interessado na memória.

Afixado por: MBP em setembro 21, 2004 06:26 PM

Já houve quem respondesse condignamente ao Luís Lavoura, pelo que não há muito mais a acrescentar. De qualquer modo, a mim parece-me que o LL está-se nas tintas para Lisboa. Provavelmente quer apenas estar mais próximo do emprego. É compreensível. O que não é aceitável é que queira dar a Lisboa o mesmo ar incaracterístico dos seus subúrbios (para não ir mais longe, porque o que não falta no país é exemplos). Por acaso o LL sabe quanto se investe em Portugal em construção nova e quanto se investe em recuperação de imóveis, e como se relacionam esses valores com os da restante Europa comunitária? É que há uma diferença abismal!! E o que essa diferença traduz é, precisamente, a força do lobby da construção civil em Portugal. Não tem nada a ver com as necessidades das pessoas. Se quiser vou ali aos papéis buscar os números...

Afixado por: Mário Cunha em setembro 21, 2004 09:37 PM

Não é por lá ter morrido Almeida Garrett que a casa é património...sejamos razoáveis.

Afixado por: Pedro Sá em setembro 22, 2004 09:23 AM

Essa gentalha é que não faz sentido...

Afixado por: ezer em setembro 22, 2004 10:24 AM

Por que é que a Câmara de Lisboa tem de ser culta?

Afixado por: mascara em setembro 22, 2004 05:41 PM

Já me começei a habituar aos fundamentos apresentados pelo nossos novos governantes para implementação de medidas mais radicais ... é centrar a discussão nos detalhes, esquecendo as consequências de fundo. Adorei o modo como a argumentação da ilustre veradora Eduarda Napoleão termina "não faz sentido manter no novo edifício uma placa evocando Garrett". Mais um final Felix.

Afixado por: Ricardo Marx em setembro 22, 2004 07:26 PM

Não é para admirar, pois se em Lisboa nem sabem pronunciar Garrett!

Afixado por: Norberto Bobbio em setembro 22, 2004 08:51 PM

Apesar do título bombástico e definitivo , a demolição ainda não tem luz verde. O artigo do Publico do dia 21 cita Eduarda Napoleão que diz " Perguntámos se na Cultura tinham interesse na casa e por isso o processo de demolição está suspenso até haver uma resposta" , E na mesma página no artigo "historiadora defende "valor histórico" do edifício
http://jornal.publico.pt/publico/2004/09/21/LocalLisboa/LL01CX01.html
Raquel Henriques diz "Se ainda fosse possível deter a demolição, era óptimo valorar a casa"
Será que um abaixo-assinado dirigido à Vereadora da Cultura Maria Manuel Pinto Barbosa teria algum efeito ?

Afixado por: Cristina FP em setembro 25, 2004 03:08 PM
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