
No nosso primeiro post prometemos que discutiríamos violentamente entre nós aqui no Barnabé. Era o que fazíamos quando nos encontrávamos, e o que achávamos inevitável que acontecesse aqui. Depois de arrancarmos com o Barnabé é que, ao contrário do que pensávamos, praticamente nunca nos atacámos.
Ora já que o Celso e o Daniel vão, previsivelmente, atacar-se por causa do PS (ver dois posts abaixo) eu quero aproveitar a deixa para dar uma sarrafada no André por causa do último post dele, mesmo arriscando a que ele retalie.
Não posso dormir com receio que as pessoas achem que aqui no Barnabé todos gostamos de Paris como o André gosta. Eu, pelo menos, não gosto – em termos exclusivamente arquitectónicos e urbanos, humanamente é outra coisa. Passo a explicar porquê, embora saiba que agora é que eu vou ser morto. Pelo André e pelos comentadores.
Paris é uma cidade mortalmente aborrecida. Isto não é uma opinião. Rua após rua, os mesmos prédios beige e amarelo deslavado. As famosas esplanadas todas com exactamente as mesmíssimas mesas e cadeiras. A grelha urbana pomposa e sem imaginação com que Haussmann matou a Paris antiga. Praticamente nada quebra aqueles quilómetros e quilómetros dos equivalentes arquitectónicos às rendinhas e folhinhos.
E quando quebra, vejamos o que se passa. Temos a Tour Montparnasse, um monolito tacanho. Temos o Arco do Triunfo, um bolo de casamento. Temos o Sacré Cœur, uma piroseira oitocentista (desculpa André) que dá para uma vista de terra-de-ninguém urbana coberta de smog (mil perdões).
Depois temos a Torre Eiffel, que merece um parágrafo à parte. Durante algum tempo, julguei (como a maioria das pessoas) que o tempo tinha demonstrado que os detractores da Torre Eiffel estavam enganados. A torre é um daqueles casos típicos que costumam ser citados quando a população não gosta de uma obra nova. Tipo Santana Lopes: também falaram mal da Torre Eiffel, mas... Então um dia fiquei a olhar para a torre tentando vê-la de novo como se ela não fosse um ícone repetido milhões de vezes. E a conclusão a que cheguei foi: os detractores tinham razão. Aquilo é feio. Os detractores de Brunelleschi em Florença estavam errados, mas os de Eiffel doentiamente certos. Tudo bem, o tamanho da torre espanta e existe bastante graça no seu primeiro terço (a curva). Mas não chega para salvar aquilo. Ainda por cima desde o ano 2000 que decidiram fazê-la brilhar todas as horas com umas luzinhas que piscam como se o monumento estivesse a sofrer um ataque de acne, – é patético.
No fundo, a Torre Eiffel é igual aos bibelots de plástico que se vendem da Torre Eiffel. A tragédia está aí.
A monotonia de Paris quase toda e o mau gosto das suas excepções sofrem do mesmo mal. Quem pensou Paris pensou que ela tinha de ser arrumadinha e perfeitinha – coisa de que eu não gosto numa cidade –, mas que quando não fosse arrumadinha tinha de ser épatant. E então toca de fazer monumentos que só envergonham quem quer que tenha dito àquela gente que estavam na capital do bom gosto. Um exemplo: o Arco de La Défense, o exemplo acabado da megalomania mitterrandiana. Parece que os estou a ver: "eh pá, vamos fazer um Arco do Triunfo hiper-moderno e alinhá-lo com o outro a não sei quantos quilómetros de distância". Uma criança teria mais subtileza. A pirâmide do Louvre: "eh pá, temos um obelisco e que tal fazer uma pirâmide?". A biblioteca de Tolbiac: "até parece que estou a ver, uma grande biblioteca que vista de longe parece quatro livros abertos uns para os outros". Será que nunca pensaram em fazer nada que não fosse gritantemente óbvio? Não, porque o negócio de Paris é o fast-food monumental.
Há excepções: o Instituto do Mundo Árabe, a Fondation Cartier e o Centro Japonês. O Centro Pompidou, assim-assim. Mas a única quebra realmente impressionante é a Île de la Citê, com a conciergerie e a Nôtre-Dâme. Felizmente, Haussmann não conseguiu colocar ali uma rotunda, endireitar o Sena e fazer cruzar uns boulevards. Mas atenção: o resto de Paris tira força à Île. Ali temos uma fantástica pérola barroca (no sentido próprio) que foi encastoada num anel pretensioso.
Vivi quatro anos em Paris. Adorei lá viver, e tenho saudades. Saudades de caminhar com frio, de ter de falar noutra língua, de comer sanduíches gregas, beber cerveja com os amigos portugueses e de todo o lado, trabalhar na biblioteca de Tolbiac (lá dentro é bonita e tem quase todos os livros que se queira imaginar), de ir à Galignani uma vez por semana. Tenho saudades de viver em cima de um bar de rock e ir comprar salsa e coentros ao épicier marroquino. Dos bailes de forró que fazíamos em casa até às tantas (sem ninguém chatear!). De fazer as compras da semana nos vietnamitas e chineses de Belleville. E de andar por ali a perguntar-me: mas o que é que as pessoas vêem nisto?
Publicado por ruitavares em | TrackBackO seu ataque a Paris é contraditório. Aponta muito bem os mamarrachos de Paris (turismo e comércio obligent) mas diz que tem saudades de Paris e dos passeios pela monótona Paris (e são estas últimas que contam, que provam que Paris o marcou). Eu também vivi em Paris e, em Lisboa, ainda «vivo» em Paris (a minha memória afectiva das pedras, das ruas, dos cafés). Paris é tudo menos uma cidade monótona (há cinquenta Parises, consoante o metro mais próximo ou mais longínquo em que sair). Para beber cerveja com portugueses Paris não presta (a cerveja é cara), acho que o sítio ideal para beber cerveja com portugueses é Portugal. Paris é uma cidade tão poética que chegamos a odiá-la por ter tantos mamarrachos pomposos e pretensiosos (mas que se diluem na respiração de Paris), e lá voltamos a amá-la...
Afixado por: jm em setembro 26, 2004 08:42 AMAdorei aquela do Arco do Triunfo ser um bolo de casamento! É bem verdade.
Ainda por cima indica a Batalha do Buçaco como uma grande vitoria do Napoleao...
Dizer mal, mas sem exagerar tanto, como quem sofre de pesadelos. Como eu que num belo dia de Sol, era Janeiro, embarquei no aeroporto da Portela rumo a Paris e, subindo as nuvens aí pelos Pirenéus, nunca mais vi o astro-rei em vinte e cinco dias da Cidade das luzes, todo esse tempo escorrida de ventos gelados, esmagada de um negro opressivo. Mas não concordo consigo. E vá lá que ainda salva Notre Dame e o Sena, que é único e assim desenhado, a provar que à sua volta, malgrado os ruis detractores, só podia haver uma grande cidade.
Afixado por: Chls em setembro 26, 2004 10:18 AMEstou contigo Rui, Paris vive do que foi.
Afixado por: sun tzu em setembro 26, 2004 10:58 AMIsso e´efeitos do sócrates :))), ficaste foi maluco :))
Afixado por: cachucho em setembro 26, 2004 03:32 PMah paris paris
Afixado por: sdhf em setembro 26, 2004 03:49 PMViveu mesmo quatro anos em Paris, para si deve ter sido um tempo bem cinzento...
Vivi lá 3 anos, quando Portugal ainda era uma ditadura, e foram 3 anos de LIBERDADE.
Veja as ruas do Marais e de St.Paul, Belleville e a mistura das raças, os bistrot algumas igrejas e palacios lindissimos, casas dos seculos xv e xvi, è claro que e preciso procurar, e ter disponibilidade mental para isso.
Quem é que lhe fez mal em Paris....nao haverá aí nada de pessoal.
Eu detseto Haia por tive la um monte de problemas , e nao por essa cidade ser bonita ou feia.
Afixado por: a.pacheco em setembro 26, 2004 04:48 PMObrigada, Rui!!
As pessoas com quem falo, e que vieram a Paris fazer turismo dizem que eu estou é a ver mal, que Paris é a cidade mais linda do Mundo...
Eu acho que aqui os prédios variam entre o branco acinzentado e o cinzento esbranquiçado.
E tenho saudades de ver ao longe, de uma colina. O único sítio onde se pode fazer isso é Montmartre, que se tornou num sítio desagradável, onde nenhum parisiense põe os pés, uma enchente permanente de gente com máquinas fotográficas, uma espécie de parque temático ou feira popular demasiado cheia.
Pelo que me disseram, a ideia do Haussman nem era má : fazer saneamento básico na cidade, mas de facto destruiu-a.
Salvam-se as tais praçazinhas de que falei noutro comentário ao post do André.
Afixado por: Helena Romão em setembro 26, 2004 07:45 PMParece que é preciso mostrar currículo para entrar nesta discussão. Pois bem, do alto dos meus 5 anos e picos de Paris não fico nada ofendido com a provocação do Rui. Mas fico frustrado e surpreendido. Estranho que o Rui não se refira ao Marais quando lista as excepções. Dá jeito esquecer o Marais e outros bairros que resistiram à tirania haussmanniana, sobretudo quando se tenta vender a tese peregrina de que as excepções são mamarrachos megalómanos e pouco originais.
É verdade que 3/4 da Paris que fica dentro da circular lá do sítio é bastante monótona. Mas o que é desconcertante em Paris é a beleza e riqueza dessa monotonia. O edifício médio é de um requinte... absurdo. Desconfio que isso explica parte da irritação do Rui Tavares.
Proponho um exercício: olhar por momentos para Nova Iorque. Será que a opinião do Rui Tavares é a mesma? Quanto a grelha urbana sem imaginação creio que não é preciso gastar mais uma linha. A monotonia dos edifícios é também uma constante, apesar dos arranha-céus. Só que em Nova Iorque predomina o prédio de 4 andares, com tijolo exposto. É uma construção de baixíssima qualidade e uma feia monotonia. Quanto às ideias para monumentos... Bem, aplicando os critérios do Rui, não escapa nada. Não há ideias decentes: "bute lá fazer o prédio mais alto do mundo?", "asiáticos dum "#$%&/! Paciência, bute lá fazer um dos prédios mais altos do mundo?", "eureka, não vamos fazer um mas os dois prédios mais altos do mundo, iguaizinhos e lado a lado!" A argumentação do Rui, no melhor estilo ovo-de-Colombo, não é para ser levada a sério, parece-me (mas teve graça). É assim tão óbvio construir uma pirâmide de vidro no meio do Louvre? Há duas conclusões óbvias a tirar: que o Rui Tavares tem uma imaginação prodigiosa e que 3 anos de Paris não chegaram para que se desembaraçasse da visão do turista, sempre tão sensível aos monumentos.Quem absorve uma cidade, acaba por ligar muito pouco a monumentos e fazer a sua selecção de esquinas e becos.
Voltemos a Nova Iorque. O melhor de Manhattan é o Central Park, mas como o Rui entendeu passar ao lado dos muitos e variados jardins parisienses, podemos fazer o mesmo. O Rui deve ter pensado qualquer coisa como isto: "E os jardins de Paris? Enfim, todos têm relva, árvores e flores. É uma monotonia..."
Paris tem essencialmente dois problemas graves, que não são problemas arquitectónicos: a falta de mar (de um rio decente ou de um estuário) e de relevo acidentado (a única excepção é a elevação do Sacré-Coeur).
Desculpa lá a cacetada, Rui. Eu DETESTEI viver em Paris. Nem que a Béart se oferecesse para ser a minha mulher-a-dias eu voltaria a viver em Paris. Mas dói, ó se dói, ver um gajo a cascar na cidade de uma forma tão desastrada.
Vivo alternadamente entre paris e lisboa desde ha um ano. Nao me identifiquei com o que li e mais depressa estava à espera que uma alma qualquer "acidental" chamasse bolo n sei do k ao arco do triunfo do que ouvi-lo a si escrever tal mamarracho (nem parece 1 homem de eskerda ou entao é discipulo de pacheco pereira e vive infiltrado entre nos; o anacleto vai adorar este post seu). Até a minha avo me diz: "os ares de paris fazem-te bem, leva-me contigo mon amour" lololol
Obviamente que nao lhe vou dizer o que os parisienses acham de lisboa (ja nao digo portugal porque para eles portugal é lisboa.)
Espero ao menos que tenha a decencia de dizer que o no da buraca ja nao se encontra em obras (ou sera que ainda se encontra?)
"Paris é uma cidade mortalmente aborrecida. Isto não é uma opinião. Rua após rua, os mesmos prédios ..."
Isto é uma boa definição para a maioria das cidades do Norte da Europa. E Paris até nem é o melhor (melhor do meu ponto de vista) caso.
Eu especulo que há uma correlação forte entre "aborrecimento" e equidade social (o que até se compreende).
Há também a ética protestante (mais a norte) de não querer PARECER diferente (que eu acho positivo).
Desculpe, mas se não gosta de Paris o defeito é seu e não da cidade...
Afixado por: João Gundersen em setembro 27, 2004 10:55 AMRui (desculpa a falta de acentos), ha muito que ando para te mandar um abraco. Fica aqui a proposito deste texto. Quanto a esta discussao eu teria muito a dizer, mas nao pode ser para ja. Espero que seja num futuro proximo. No entanto nao deixo de adiantar: numa comparacao com Nova Iorque, Paris fica claramente a perder.
Afixado por: Filipe Moura em setembro 27, 2004 11:06 AMsocia lismo ? esta palavra ( toda pegada )também dá erro se a tentar publicar !! será só no meu computador ?? ele já aprendeu comigo ??
De social ismos nem falar ?
Se tentarem escrever a palavra " social ismos " tudo pegado , o banabé não deixa publicar .
E agora no singular também não deixa escrever !!
Dá erro!! Será uma forma dissimulada de censura ??? ehehehehehe que ridiculo !!
Pensei que tinham bloqueado o meu IP , mas não, se tentarem escrever essa palavra dá erro !! A sério ... porra , não acreditam ? Tentem !!
Para o Banabé só há um social ismo !!! Não o plural . Aqui se prova que os Manueis Alegres não tem razão. Não há pluralismo no social ismo , ehehehe !! Ele há cada coincidência !! É estranho ??? Para mim não !!É mesmo estranho ???!!
Este vai um bocado inflamado...
Mudando um bocado o rumo à coisa: Parece-me que em Portugal ainda há uma forte influência francesa nos nossos intelectuais (pode notar-se no Barnabé e ainda mais no BdE). Que eu sempre achei teórica, pedante, arrogante, a roçar o xenófobo (note-se que o teórico não é forçosamente negativo)(*).
Devo dizer que conheço mal França e Paris (tendo trabalhado com alguns franceses fora de França), mas a intuição/pouca experiência que tenho aponta para esses traços que falei acima: arrogância quase xenófoba.
(*) Não é esta a minha opinião sobre as pessoas que escrevem aqui e no BdE, acho apenas que se nota, nalgumas delas, a influência intelectual francófona.
Afixado por: Jean-Luc em setembro 27, 2004 11:21 AMfilipe: um abraço para ti também.
jean-luc: não se perceebe muito bem onde queres chegar.
outro comentaador, mais lá para cima: eu não sabia que para se ser de esquerda se era obrigado a gostar de umas cidades e não gostar de outras.
Já o Hemmingway dizia que o melhor sítio para comer em Paris era o restaurante da Torre Eiffel, já que era o único local em Paris do qual não se via a Torre Eiffel!
Afixado por: Kaiser em setembro 27, 2004 12:10 PMOnde quero chegar: Que ser monótono não e forçosamente mau.
Prefiro a monotonia de uma cidade holandesa, ou das zonas habitacionais britanicas do que o caos Lisboeta ou as variações Nova-iorquinas. Eu especulo que há correlação entre monotonia e igualdade social.
E uma coisa te digo, se achas Paris arquitecturalmente monótono então evita os Países-Baixos que (excepção para Roterdão (bom) e uma parte do centro de Haia (mau)) são 1000 vezes mais monótonos que Paris. Campo e cidade.
ah... Gosto muito de Lisboa e Nova Iorque (embora possa não parecer). Como turista acho-as óptimas. E, sobretudo na segunda, é possível ter uma boa qualidade de vida desde que se tenha dinheiro.
Afixado por: Jean-Luc em setembro 27, 2004 02:06 PMSe Paris é assim tão mau será que existe qualificação pra Lisboa????
Paris, PAris, e mais Paris!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
P. S. Um Parisdependente.
Afixado por: luisinho em setembro 27, 2004 04:12 PMAlguns comentários não me provocaram senão inveja.Paris era a cidade - das que eu conheço, pelo menos - onde eu gostaria de viver.Porque,e em simultãneo, é diferente de qualquer cidade portuguesa mas não me sinto um estranho lá.
Afixado por: João Pedro em setembro 28, 2004 01:01 AMpenso ku outro comentador la de cima sou eu. O que me "choca" (n me choca nada) nao é a sua opiniao sobre paris (e ainda bem k tem uma) mas antes a sua insensiblidade "de homem na cidade"... pensando bem acho k fikei mesmo chocado... :) Qdo eu disse k nem parece 1 homem de eskerda referia-me à leveza/frieza do seu comentario, k como lhe disse, nao sei pk, mas soa-me a discurso de direita... a todo o momento estava à espera de ler: "era so o k nos faltava!" ehehe
Mas nao me leve a mal se calhar sou eu k vejo esta cidade d'outra maneira, k é a minha naturalmente
pow caralho!!! tu é maluco moleque? pior q o nó da buraca??? tu é doido rápá? parisé louko pra caramba rapa!!!
Afixado por: ze pequeno em setembro 28, 2004 09:15 PMDe acordo. Eu pensava que era o unico que tinha achado Paris uma cidade horrivel. Tinha até um bocado de medo de dizer isto diante dos meus amigos que enchem a boca com París (todos da esquerda fina), que de imediato me deitavam abaixo de estupido e de inculto. Cheira tudo mal. Os cafés são uma porcaria com 100 anos. O rio cheira a esgotos. E a luz... onde está a luz? Lisboa sim, cidade branca. Abaixo París e a sua pretensa "cosmopolidade"...
Afixado por: J.Cruz em setembro 30, 2004 06:24 PM