novembro 03, 2004

No mapa

Entretanto, olhar para o mapa eleitoral americano é instrutivo. O hinterland é uma enorme mancha vermelha, republicana, e o azul democrata está reduzido às franjas do litoral oeste, nordeste e dos grandes lagos. Esta franja azul é onde a concentração de grandes cidades é maior, mas o hinterland republicano é sólido – e está para durar. Para já, isso quer dizer que se os EUA fossem o Brasil, o líder da única super-potência mundial seria um coronel de Goiás. Mas quer dizer qualquer coisa mais importante para o futuro: a única hipótese que qualquer democrata tem de ganhar em eleições futuras é garantir que não morre no Sul como agora acontece. A estratégia do partido democrático vai certamente bascular para a sua ala conservadora. A hipótese de um liberal europeízado de uma das costas ganhar é diminuta. A partir de agora, os democratas terão de seduzir o eleitorado conservador do Sul – por exemplo, de alguns dos onze estados que baniram ontem por referendo as uniões homossexuais. Péssimas notícias, por exemplo, para Hillary Clinton.

Essa grande divisão via-se nos debates. Bush, que tinha prometido unir o seu país, destratava Kerry de "liberal do Massachusetts", como se alguém do Massachusetts não fosse um americano a sério. Bush sabia o que fazia. Para o hinterland, alguém do Massachusetts não é mesmo um americano a sério. Kerry nunca poderia arriscar a mesma piadinha com o Texas.

Nada disto teria a mesma importância se os EUA fossem um país qualquer. No mundo de hoje, tem a maior das importâncias porque as grandes cidades (e as cidades universitárias) são o eixo de comunicação entre os EUA e o resto do mundo. As nossas embaixadas lá, como Nova Iorque, Los Angeles (ou Boston) batem com o nariz na porta do resto da América. E continuarão a fazê-lo.

Felizmente, a Europa tem autonomia suficiente para fazer as suas escolhas com a mesma naturalidade dos americanos.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

Eu não escolhi o meu PM nem o Presidente da minha Câmara Municipal (LX). O PR que escolhi já não está em Belém há muito tmepo...

Afixado por: Estrela em novembro 3, 2004 02:11 PM

A mesma autonomia para que em Portugal se elejam pessoas com a qualidade de Mesquita Machado, Fátima Felgueiras, Avelino F. Torres, Valentim Loureiro, Alberto J. Jardim, Narciso Miranda, etc, etc..., independentemente de não se tratarem de eleições nacionais.

Afixado por: H.L.Azevedo em novembro 3, 2004 02:27 PM

Não concordo.
Bush teve grandes ganhos eleitorais nos estados democratas (em termos de votos)
Se Kerry tivesse em termos nacionais mais 1 milhão de votos deveria ter ganho an Floriada e Ohio e ser preseidente com menos 2 milhões de votos do que Bush. Os democratas não precisam do Sul rural. Precisam da Florida ou do Ohio que votou em Clinton. A verdade é que se os Democratas tiverem alguém credível podem fácilmente conquistar quer a Florida quer o Ohio ~tal a pequena margem de votos que ambos os partidos t~em nesses estados

Afixado por: Ana em novembro 3, 2004 02:28 PM

ana: teoricamente, tem razão. mas na prática os barões do partido democrático não podem querer jogar tudo em conquistar apenas dois estados, e apenas por poucos votos. depois do arrancar de cabelos que sempre se segue a estas coisas, o consenso será em que se se arranjar um candidato que seja palatável ao sul, então aí pelo menos se há-de ganhar mais uns votos na flórida (do norte) e no ohio (do sul). era este o caso de clinton. o consenso fixar-se-á em que se o perfil de kerry foi arriscado, o de dean teria sido fatal (aqui não concordo com o daniel). o candidato certo, dir-se-á, talvez tivesse sido wesley clark ou alguém como edwards.

Afixado por: rui tavares em novembro 3, 2004 03:19 PM

O mundo só perde...e o ambiente.
Kioto para qundo?

Afixado por: Publicus.Sociale em novembro 3, 2004 03:23 PM

A verdade é que Bush prepara-se para ser o Presidente com o maior número de votos. Esta é uma vitória histórica e que reforça, e muito, as posições de Bush.

Afixado por: Arsénio em novembro 3, 2004 03:34 PM

Rui,

Toda a campanha de Kerry foi uma cedência. Nunca referiu Guantanamo e sempre que pôde fugiu de todas as questões "culturais", como o aborto. Escolheu para seu vice, John Edwards, da Carolina do Norte. Tudo isto para conseguir os votos conservadores do interior e do Sul. O resultado: não ganhou um único voto eleitoral nestes estados e, mesmo assim, ficou a um estado com um forte peso urbano, o Ohio de Cleveland e Cincinati, de ganhar as eleições.

A leitura que tens pode ser correcta e até será a mais provável, mas também se pode concluir que o partido democrata, desde que ganhe na Florida ou no Ohio, não precisa dos estados sulistas para vencer. Assumi-lo, talvez fosse o passo certo para não apresentar novamente um Bush democrata e passar a ter um discurso claro, apresentar propostas e representar uma alternativa.

Afixado por: Pedro Sales em novembro 3, 2004 04:10 PM

Para (re)conquistar o Sul, não é forçoso que os Democratas tenham que se tornar mais "conservadores": o Sul é socialmente conservador, mas economicamente,muitas vezes, até tende para a esquerda (aliás, se olharmos para o registo de voto dos democratas sulistas, como Robert Byrd ou mesmo o "traidor" Zell Miller, é assim que eles votam no Senado). Assim, se os democratas se concentrassem mais na luta contra a crescente desigualdade nos EUA, talvez conseguissem votos no Sul (que até é a região mais pobre dos EUA).

Afixado por: Miguel Madeira em novembro 3, 2004 05:11 PM

Os americanos ignoraram o resto do mundo e sucumbiram ao medo. Nada mais legítimo que o mundo ignorar as eleições americanas! Paremos de as comentar! O Barnabé, seguindo a sua tradição, poderia produzir um belo banner de Ignoremos as Eleições Americanas, para espalhar pela blogosfera portuguesa!

Afixado por: JTF em novembro 3, 2004 05:36 PM

LONG LIVE THE SOUTH!!! é para já o que me apetece dizer. Quanto ao resultado das eleições ele é o barómetro do carácter dos povos. Os espanhóis, face à ameaça terrorista acagaçaram-se e cederam, os americanos face exactamente à mesma ameaça, uniram-se e ripostaram dando a eleição a um homem que pode nâo ser brilhante, e os que o criticam são???, mas que sentem como sendo um deles e um líder que pode ganhar essa guerra tremenda. Uma lição para os europeus que continuam envergonhados por se defenderem, cheios de medos e preconceitos esquerdistas dentro das suas miseráveis cabecinhas, em suma, apesar de não gostar de Bush, é sempre bom ver a esquerdalhada europeia a guinchar de ódio.

Afixado por: Rui Pereira em novembro 3, 2004 06:10 PM

Realmente o interior do sStates é quase "um caso perdido"..o Sul confederado não esquece as suas raízes, o ódio ao Norte vitoriosos é secular e mostra-se nestes momentos..Os rednecks elegeram os seu presidente!!

Afixado por: Renato Miguel em novembro 3, 2004 06:26 PM

...se os EUA fossem o Brasil o lider da super potência seria um Coronel de Goiás...
Uma autêntica pérola de perspicácia. Parabéns

Afixado por: M. Martins em novembro 3, 2004 06:27 PM

Bem dito Renato Miguel. Há uma anedota que corre por todo o Sul que reza o seguinte." há um maldito e nojento Yankee, perdoem-me, deixei-me levar pelo entusiasmo,que vive na Dixieland e que um dia entra na mercearia lá do bairro e palavra puxa palavra a conversa vai ter à guerra entre os Estados de 1861-1865, às tantas diz o Yankee, vocês estão sempre a falar da guerra, nós ganhámos a guerra, é altura de parar de falar nisso, ao que lhe responde um velho sulista, " estás enganado Yankee" e responde o Yankee com um riso triunfate na cara, " então o que chamas a Appomattox???" LOCAL ONDE A CONFEDERAÇÃO SE RENDEU EM 1865, ao que o velho sulista responde, " O MAIS LONGO CESSAR-FOGO DA HISTÓRIA".
The South shall rise again my friends.

Afixado por: Rui Pereira em novembro 3, 2004 06:37 PM

Encontro-me na Califórnia. Por aqui o clima é de grande desalento. Todavia, gostaria de vos alertar para o facto de que por aqui os Republicanos conseguiram cerca de 44% dos votos populares contra cerca de 55% dos Democratas. De acordo com o sistema eleitoral Americano, o partido que ganha em percentagem de voto popular num dado Estado, arrecada todos os votos eleitorais desse Estado (os tais 55 na CA). Olhar o mapa da distribuição de votos por cores (azul e vermelho) sem ter isto em conta é enganador, pois esconde o facto de que a eleição foi altamente renhida em todos os Estados, à excepção de DC (para os Democratas) Idaho, Nebraska, Utah e Wyoming (para os Republicanos). Ontem segui atentamente a página do NY Times em http://www.nytimes.com/ref/elections2004/2004President.html que foi muito esclarecedora em como este é, neste momento, um país dividido - embora Bush tenha agora a legitimidade do voto popular que antes não conseguirá. Resta esperar apenas que o pior não esteja para vir.

Afixado por: na Califórnia em novembro 3, 2004 06:50 PM

Os Americanos escolheram assim, há que respeitar, sabendo que há muitos que pensam diferente de Bush e que continuarão a lutar por outra visão do mundo.
Talvez muitos dos traumas da secessão ainda atormentem muitas mentes sulistas. Modificar o sistema eleitoral não ia agradar a alguns estados que possuem representatividade muito para além do seu peso real. Convém não esquecer que na génese desse fenómeno está a pacificação de estados que no final da guerra sul/norte não aceitariam a União sem contrapartidas.

Afixado por: jm em novembro 3, 2004 06:53 PM

Comentário ao acima colocado “Livro de Estilo”
8º - O Barnabé é um diletante. Dedica-se aos assuntos de um modo pouco sério e sem qualquer obrigação. Mas tem ligação à CNN... (continua amanhã)

Afixado por: Luis Simões em novembro 3, 2004 10:25 PM

Quem tal diria!Mais um invertebrado. O nacionalista-europeista-nazi-anti-americano Rui Pereira converteu-se. Agora é um «filo-americano».Foi você quem pediu uma coluna vertebral para os europeus?!

Afixado por: thirdbacus em novembro 4, 2004 08:12 AM


A Europa olha para o resultado das eleições americanas com um misto de perplexidade e frustração. Esse sentimento tem raiz no desencanto e desinteresse com a nossa própria democracia. Os EUA, apesar de todos os defeitos deste sistema, permitem a convivencia de extremos. Os EUA são o país do Klu Klux Klan e do Woodstrock, de Kenedy e Nixon, do Kid Rock e do Beck, da Britney Spears e do Bruce Springsteen.

A cultura dominante é a democrata e liberal. É a cultura das costas, este e oeste, a cultura do jazz, do rock, do cinema, da alta finança, da literatura etc. etc. Os rendimentos per capita do estado da californa democrata não se comparam com os do Wyoming ou Ohio.

Se os americanos nunca ligaram muito a eleições é porque elas, também para eles, tem efeitos um pouco irrelevantes, tendo em conta as leis totalmente díspares entre estados. Se no Texas se aplica a pena de morte a torto e a direito, no outro legaliza-se a eutanasia. Se num estado há protestos contra o aborto, noutros financia-se de forma milionária a investigação em células embrionárias.

É um país de choque que esteve SEMPRE dividido do ponto de vista cultural. Não é de agora. Do McArtismo ao Martin Luther King.

Por isso nos fascinam. Por isso pomos cenários hipotéticos de "se fosse americanto votava assim ou assado".

As nossas democracias não valem nada. Na velha Europa anti-bush há uma extrema direita crescente. No nosso portugal de bons constumes podemos escolher entre um sócrates e um santana. Tivemos Durão que foi basicamente o mordomo de Bush nos açores.

Na nossa velha europa tolerante e pró-kerry que reage violentamente a um Butiglione. Na nossa velha europa em que olhamos com desconfiança para os turcos. O nosso portugal pró-kerry que não legaliza os brasileiros enquanto eles nos legalizam a nós.

O nosso Portugal que não é acéfalo e no entanto convivemos bem com o facto de João JArdim, Avelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras entre outros, serem eleitos. Democraticamente.

Prefiro um Bush a um Putin ou a um Silvio Berlusconi.

E é assim por toda a europa.

Eu vejo com bons olhos esse mapa. Vejo nele zonas diferentes, culturas diferentes, debaixo da mesma bandeira. É desse choque de culturas que se cataliza aquilo que faz a américa grande.

Vejam o documentário "Amarilo By Morning" de Spike Jonze (being john malkovitch, adaptation) que vem no DVD com os videoclipes deste realizador. Spike,um produto da cultura rock/punk/grunge/skate/hip-hop segue por 2 dias uns míudos de uma terra mesmo atrasada do Texas que sonham em ser cowboys de rodeo, filmando-os e conversando com eles.

Afixado por: O Bom Selvagem em novembro 4, 2004 01:56 PM

Caro Thirdbacus, não seja parvinho, só gostei muito foi de ver os berloquistas e outros que tais a espumar da boca só isso meu amigo, estou-me a borrifar para o jew-lover Bush e outros que tais.

Afixado por: Rui Pereira em novembro 4, 2004 05:46 PM

«Parvinho» é o que festeja algo em que não acredita, sendo ainda pior aquilo em que acredita.

Afixado por: thirdbacus em novembro 5, 2004 08:50 AM

parvalhões

Afixado por: mike em novembro 6, 2004 08:18 PM
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