António da Conceição Tomás é um crítico literário angolano que viveu quase uma década em Portugal, onde colaborou no Público. Actualmente faz o seu doutoramento na Columbia University em Nova Iorque. Hoje deixou estupefactos os seus amigos, entre os quais tenho a honra de me contar (tal como os restantes barnabés), com este relato escrito de raiva. Leiam-no e divulguem-no o mais que puderem. Para que nos convençamos de uma vez por todas a deixar de fantasiar Portugal como um bom país de acolhimento: isto não acontece só aos "outros", aos terroristas. Acontece a alguém que estudou aqui na Católica e no ISCTE, foi apoiado pelo Centro Nacional de Cultura, e é o exemplo de cidadão lusófono que é suposto nós – "nós", estado português – tratarmos preferencialmente. [Este relato irá também para o Barnabé XL]
Amigos:
Tenho de escrever-vos esta mensagem enquanto estou com raiva e vontade de sair pelas ruas de Nova Iorque, a cortar cabeças, montado num cavalo branco.
Como era do conhecimento de algum de vós, esta manhã eu deveria passar por Lisboa, em escala, rumo a Luanda onde participaria num encontro de quadros na diáspora. O meu plano era manter-me apenas algumas horas em Lisboa, mas, posteriormente, sair de Luanda a 11, de modo a que pudesse ficar três dias em Lisboa (e um na Vidigueira para visitar uma professora de italiano), uma vez que a minha passagem para Nova Iorque estava marcada para 14 de Novembro.
(E estava com muita vontade de sair de Nova Iorque, pois as eleições deixaram muita gente consternada, o que tem marcado negativamente o ambiente, sobretudo da minha universidade).
Na tarde de ontem procurei por todos os meios – junto à minha embaixada em Washington, junto ao consulado português em Nova Iorque e junto a Agência da TAP em Lisboa – saber se poderia viajar para Lisboa sem visto, uma vez que deveria apanhar o voo ainda nesse mesmo dia. Foi-me dito que sim, que não precisava de qualquer visto para escalar Lisboa. Mas ainda assim, se quisesse entrar em território português poderia fazê-lo, uma vez que a minha residência caducara em Julho, o que supostamente me daria o direito a uma espécie de ano de graça, desde que os Serviços de Estrangeiros Fronteiras tivessem registado o pedido de renovação que eu tinha feito.
E de facto, esta manhã, às seis da manhã, cheguei ao Aeroporto de Lisboa. Primeiro fui ter com as funcionárias da TAP e foi-me dito que não tinham conhecimento de nenhuma ligação para Luanda; em seguida, tentei passar a fronteira, mostrando a fotocópia da minha autorização de residência. Foi-me dito que não servia; tinha de mostrar o talão. Disse que o tal papel não estava comigo, mas sim com uma amiga e advogada, a Awa Baldé. Disseram-me que não havia problema, desde que conseguisse diligenciar que a minha amiga trouxesse o papel... perguntei se podia usar o telefone ao que me foi dado um rotundo ‘não’.
O que interessava ao funcionário era saber se eu tinha renovado a autorização. E uma rápida pesquisa no computador mostrou que sim. Portanto, parece-me que o talão neste caso se tinha tornado desnecessário, uma vez que ele já tinha tomado conhecimento com a verdade que o papel deveria expressar: o facto de ter renovado o documento.
Então, voltei ao Balcão da TAP, onde comecei uma longa conferência com uma funcionária de nome Vera. Ela disse-me que de facto conhecia o procedimento pois no dia anterior tinha chegado uma senhora dos Estados Unidos, chamada Amélia Cruz, e tinha sido encaminhada para Luanda. Tentei saber mais dados sobre que companhia que tinha a senhora utilizado: a Vera não sabia. Mas acrescentou que o meu nome estava na lista para seguir para Luanda ontem, 4, que se tivesse vindo ontem certamente teria partido. Tentei fazer-lhe ver, pela lógica, que não era possível chegar a Lisboa a 5 e partir para Luanda a 4 – porque o tempo é assim mesmo, não volta atrás. Mas acho que não me compreendeu (e falávamos em português: eu que pensei que fosse ficar aliviado quando pela primeira vez depois de três meses tivesse um burocrata a falar a mesma língua que eu).
Depois da conversa falhada, perguntei-lhe se podia telefonar; ela deu-me um cartão, tirado de um molho onde havia vários, o que me levou a presumir que fossem precisamente para este efeito, em casos como o meu. Telefonei para a Awa, que atendeu prontamente embora não fossem ainda 8 da manhã. A Awa disse que me trazia o documento, era só o tempo para sair de casa e passar pelo escritório.
Às 8:30, os guichets da TAP ficaram vazios. E fiquei horas à espera. Perto do meio dia chegaram as duas senhoras e eu muito calmamente lhes disse que ficaria muito agradecido se me pudessem arranjar um lugar no mesmo avião para regressar às 13:00 (hora de Lisboa) a Nova Iorque. Neste momento, D. Vera teve a luminosa ideia de me dar um papel com os números de telefone do meu consulado e dos serviços da TAAG (Transportadora Angolana) em Lisboa. Eu disse-lhe que era muito tarde, e que estava muito decepcionado pela forma como tinha sido tratado. Disse-lhe que achava estranho que me fosse permitido embarcar para Lisboa sem visto (os funcionários das Companhias Aéreas são muito sensíveis a estas questões) e por isso tinha julgado que houvesse algum plano para resolver o meu caso. E de facto havia: era apenas dizer por que companhia tinha a D. Amélia Cruz viajado no dia anterior.
[Tinha pensado e decidira voltar para os Estados Unidos; porque, primeiro, a se confirmar que não houvesse voo para Luanda na sexta teria de dormir no aeroporto; segundo, ainda que me fosse permitida a entrada em Lisboa, não sei se estaria disposto a passar por tudo o que passei por ter a residência caducada no momento em que vim para Nova Iorque.]
A D. Vera, como prova da sua boa vontade, disse-me que me tinha dado um cartão, procedimento que não se costuma fazer.
Foi-me dado o OK. E assim voltei a Nova Iorque num voo de sete horas em que por sinal de protesto não comi, não bebi, não li e não fui uma única vez à casa de banho. Ah, e para acabar a história: quando cá cheguei encontrei uma mensagem da Awa, em que dizia que esteve no Aeroporto com o meu talão e foi-lhe dito que não tinha sido retido ninguém com o meu nome. O pior é que os do SEF tinham razão: eu não estava retido; só não podia passar ou telefonar.
Este é o resumo do meu dia (terá alguma coisa a ver com o facto de ter vindo a ler ‘The Inferno’, edição bilingue italiano-inglês, de Dante?). Tomem cuidado quanto lerem o tal livro num voo da TAP.
Fica uma pessoa fechada na Universidade a estudar o poder, e a começar a perceber que o poder não emana de um centro, e que o poder não coage, mas que o poder está disseminado, e que as pessoas a ele obedecem voluntariamente. E numa viagem de estudo a Lisboa, numa verdadeira aula prática de Antropologia, vê de facto essa disseminação do poder, que autoriza um funcionário, em nome de uma ficção que se chama fronteira, ter o poder a mantê-la sentada, ou deitada, num banco de ferro, a olhar para o relógio, sem poder ir à casa de banho, por causa da mala, sem poder telefonar. O mesmo para uma funcionária, a quem já é difícil explicar a ordem da sucessão dos dias, poder olhá-la e não ver mais do que medo e desespero e fome talvez e cansaço certamente. E ser humilhada por um polícia da fronteira que deixa toda a gente passar, menos a si, a quem pede que abra a mala, e lhe mostre as suas coisas, e lhe pede para ligar o computador, e exponha o conteúdo do seu estojo de toilette aos olhos de todo o mundo, e folheie os seus livros, em busca de quê? E só hoje, num lampejo de clarividência, que me deu vontade de desatar a correr de alegria pelo aeroporto, percebi porque razão Walter Benjamim se tinha suicidado da forma que nós conhecemos, ao não lhe ser permitido que passasse uma fronteira (penso que em Espanha). O suicídio acabou por ser o único meio pelo qual nenhum guarda fronteiriço poderia exercer poder sobre o seu corpo.
António Tomás
[Depois de lhe pedir para publicar este relato, o António Tomás acrescentou o seguinte:]
Tu não imaginas como eu me sinto. Não me apetece falar com ninguém. Passo todo o tempo a remoer esta história e a pensar nas coisas que não escrevi, como o espanto da mulher por verificar que o meu passaporte era verdadeiro e que o visto não tinha sido falsificado. Acho que por isso não me ajudaram. Só assim percebo tanta indiferença.
Tens carta branca para publicar. A mim também interessa que esta história seja conhecida. Isto é o drama dos milhares de Benjamins que todos os dias tentam cruzar esta coisa estúpida que são as fronteiras, produtoras de tantas arbitrariedades e bizarrias.
Ao não entrar em Lisboa perdi sim muita coisa. Esta semana foi dura (as coisas na Universidade, a política americana) e queria muito estar com os meus amigos - sabes, esta coisa idiota que não reconhece fronteiras. E me foi negado esse direito, em nome de uma merda que é a inviolabilidade do espaço português.
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Afixado por: teste em novembro 6, 2004 06:05 AMCaro Rui,
Peço desculpa por discordar mas isto não passa de um caso onde se confunde xenofobia com incompetência dos funcionários (que nem sempre é culpa do proprio funcionário, é certo).
Já fui impedido de viajar para Angola, por falta de visto (sim, também é preciso visto para entrar em Angola!) e toda a gente que lá foi sabe a miséria que é para qualquer estrangeiro entrar em Luanda e os "gostos" que tem de fazer.
É lógico que o facto do seu amigo necessitar de visto dificulta um pouco as coisas e o facto de ser preto o faz ter que lidar com alguns idiotas.
Generalizar este caso para Portugal e a sua politica de acolhimento e pior dizer que os portugueses estão a mudar é claramente errado. Não são os portugueses que estão a mudar, é Portugal. Aqui, como em todos os países, há uma franja de população racista e xenefoba que, no nosso caso não penso ter aumentado. O numero de estrangeiros é que aumentou e daí o aumento de ocorrencias destes problemas. Esta situação não tem que ser normal e está mais do que protegida na lei. Mas, infelizmente, a lei, ao contrário da biblia, dificilmente converte idiotas.
é lamentável essa histórica, mas também acho que é mais um caso de incompetência e desdém, não necessareiamente ligado a uma disposição xenofoba. já me aconteceram tropelias em aeroportos, como frankfurt, e senti que nenhum dos funcionarios era capaz de me ajudar. é uma solidão fodida.
Afixado por: Lamentável em novembro 6, 2004 06:46 AMLamento contradizer estes dois comentários anteriores. Para sentir o que António Tomás sentiu é necessário ser preto. Portugal é um país racista, sim. Este caso não é único. Têm sido impedidos de entrar em Portugal muitas outras pessoas em condições bem mais delirantes, como universitários e investigadores convidados dos Palop para virem a Portugal. Obrigam a que um português se responsabilize individualmente por eles. É humilhante é xenófobo.
Afixado por: GIN em novembro 6, 2004 09:15 AMRegisto que para entrar nos USA não teve problemas. Muitos não se podem gabar do mesmo. Até muitos que lá vivem há muitos anos, viram-se detidos, sem mais nem menos após o 11/Set, passaram meses sem poder contactar com família e advogados. Até uma portuguesa, poucos meses atrás, nem conseguiu sair do aeroporto, nos USA, foi obrigada a regressar a Portugal, e esta tinha todos os documentos em ordem.
Para a próxima, venha com todos os documentos em ordem. Por enquanto há fronteiras.
"... e a começar a perceber que o poder não emana de um centro, e que o poder não coage, mas que o poder está disseminado, e que as pessoas a ele obedecem voluntariamente."
Esta é a parte fulcral do relato que mostra que o António Tomás compreendeu o que lhe aconteceu. Não é preciso estudar na universidade para perceber isto. Vê-mo-lo e senti-mo-lo acontecer todo o dia.
O poder não é unicamente um poder centralizado hierárquico mas também uma multiplicidade de micropoderes igualmente autoritários e igualmente opressivos.
Já na parte em que diz "e que o poder não coage" parece-me que não se exprimiu de forma rigorosa. Se não é absolutamnete necessário que haja coacção dos superiores hierárquicos para que os indivíduos sejam autoritários, também temos que ver que o poder que os de baixo da hierarquia exercem, coage com a mesma intensidade e repressão.
É engraçado isto ter sido dito no Barnabé que é um ferrenho defensor da esquerda autoritária, partidária, hierarquizada, que luta pelo poder e para estar no topo da hierarquia que reprime e oprime.
Afixado por: Hermínio em novembro 6, 2004 12:26 PMA funcionários mal pagos, mal amados e mal formados, num emprego precário não se pode pedir muito empenho e muito profissionalismo, nem que se preocupem a executar bem as suas tarefas. Não é uma prioridade para os mesmos que o cliente fique satisfeito após o serviço. Quando o investimento na formação e educação, ao longo destes anos, é uma das ultimas prioridades do Governo é natural que se encontrem funcionários incompetentes.
Afixado por: Manuel Gouveia em novembro 6, 2004 12:49 PM"Vê-mo-lo e senti-mo-lo"...
Isso que língua é?
Da-se!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
PS (salvo seja!) - Terás querido escrever "Vemo-lo e sentimo-lo"?
Afixado por: Oratoma em novembro 6, 2004 12:53 PMBoa Manuel Gouveia
É claro que o principal problema deste país é precisamente esse. A falta de formação, de educação e de respeito.
É todo um processo de socialização que começa em casa, pasando pela escola e que deverá acabar no emprego.
Ora se se começa mal - hoje em dia pessoas da minha geração ainda pensam que todo este processo é na escola que se aprende - é claro que nunca mais saímos da cepa torta.
Estou completamente de acordo Manuel Gouveia.
É assim, Rui, interessa a este desgoverno que manda nesta merda de país que continue assim. O povo burro, a divertir-se com as novelas, o futebol, a casa pia e outras quantas palermices que andam a entreter o povo. É triste mas é assim.
Afixado por: paulo em novembro 6, 2004 01:50 PM_
Bohemian Rhapsody...
...in America! Imperdível!!!
No CARICAS!
http://ocaricas.blogspot.com/
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Visto o post e já comentado penso que Rui Tavares estaria a escrever um post em sentido contrário se por desleixo ou falta de zelo algum funcionário das alfândegas tivesse deixado passar um cidadão que passase a fronteira ainda por cima com falta de documentação e posteriormente se viesse a saber que praticou algum acto criminoso.
Dito isto importa referir que é lamentável que um cidadão exemplar, não importa se angolano ou europeu, fique impedido de entrar num país e seja obrigado a tão grandes transtornos.
Daí que mereça (no mínimo) um pedido de desculpas e até de indemnização porque funcionários houve que não cuidaram de se certificar da identidade do senhor.
Também me parece abusivo relacionar o caso com xenofobismo ou racismo.
Realmente é uma historia unica. Foi so isto? Quando vi o post na página principal pensei que era uma grande coisa. COITADINHO!!!
Afixado por: Gandin em novembro 6, 2004 03:15 PMRui Tavares,
o racismo - extensível para além da cor da pele - está, infelizmente, tão enraizado, que chega a manifestar-se subtilmente em certos "lapsos linguae", mesmo quando o pretendemos combater.
Posso perguntar-lhe o que entende por
"exemplo de cidadão lusófono que é suposto tratarmos PREFERENCIALMENTE?"
Isto supõe que existem cidadãos de 1ª categoria (que devemos tratar com distinção) e cidadãos de 2ª categoria (com tratamento de 2ª)???
Isto é supor legitima a distinção de tratamento dos cidadãos, no seu caso não pela cor, mas talvez pela notoriedade do indivíduo, não?
ele há discursos traiçoeiros...
Afixado por: o uno e o múltiplo em novembro 6, 2004 03:45 PMMeus caros,
infelizmente, esta lamentável história não me surpreende.
Penso que devia ser comunicada ao Bastonário da Ordem dos Advogados - sim, acreditem que noutras situações, o Bastonário tem sido incansável a denunciar as arbitrariedades desse serviço bafiento denominado SEF- e à Direcção do SEF. A impunidade com que esses senhores tratam os cidadãos no aeroporto é absolutamente repugnante.
Um abraço de solidariedade.
Afixado por: José Costa em novembro 6, 2004 03:56 PMo uno e o múltiplo: talvez me tenha exprimido mal. o "nós" não se referia a nós que estamos a ler e escrever isto, mas a "nós estado português". escrevi isso porque a cplp tem precisamente uma linha programática que é a de privilegiar os cidadãos lusófonos das áreas da cultura, da ciência e da empresa. isto não é uma questão de opinião minha, é uma linha assumida da política externa portuguesa, que inclusivamente já fez avançar a ideia de uma passaporte lusófono para estas categorias – aliás como forma de contrariar as pressões dos países africanos, que gostariam de ver algum relaxamento de fronteiras para todos os lusófonos antes de se empenharem mais na cplp. esta seria uma forma, como se vê, de distinguir o viajante do imigrante económico, privilegiando aqueles que trabalham na área da cultura portuguesa e lusófona em todo o mundo.
podemos discutir noutro momento o que quisermos acerca desse privilégio, como podemos discutir também se os lusófonos devem ser privilegiados sobre os não-lusófonos. agora não se pode negar que o estado português tem demonstrado a intenção de privilegiar aqueles que podem trabalhar pela divulgação da cultura portuguesa e da lusofonia no mundo, como é o caso. se os tratamos ("tratamos", enquanto estado) como terroristas, a coisa não vai bem.
Afixado por: rui tavares em novembro 6, 2004 03:57 PMtás a perceber ò uno?
Afixado por: p em novembro 6, 2004 04:05 PMHá uns anos, antes de regressar definitivamente a Moçambique, Nelson Saúte, escritor e igualmente colaborador do Público, escreveu (no mesmo jornal) um «manifesto de despedida» intitulado «Tornei-me Racista em Portugal». Nesse texto, Nelson Saúte contou uma série de más experiências vividas em Portugal pelo facto de ser negro( por exemplo, num banco terem-lhe recusado o depósito de um cheque, por alguém ter entendido que a quantia em causa era suspeita nas mãos de um indivíduo como «aquele»). A verdade é que os 5-6 anos que Nelson Saúte permaneceu em Lisboa foram suficientes para que o homem mudasse quase radicalmente de discurso. Ou seja, quando chegou a Portugal Nelson Saúte era um dos mais carinhosos promotores da crença numa «irmandade» lusófona. Ao cabo de 6 anos dizia(com ironia ácida) que se tinha tornado «racista» em Portugal. Quem conheça meia-dúzia de estudantes africanos em Lisboa, sabe bem que muitos dos que voltam aos países de origem(futuros dirigentes), levam na bagagem uma antipatia especial(para não dizer outra coisa) pelos portugueses e pelas autoridades portugueses, devido aos modos e humores a que são sujeitos enquanto aqui se encontram. Por ser quem é, o António Tomás fez bem em dar a conhecer a sua história.Mas também é preciso frisar que do «Aero-Cine-Portela» têm saído relatos de filmes bem mais arrepiantes.
Afixado por: thirdbacus em novembro 6, 2004 04:10 PMEntendido, Rui Tavares.
Mas na minha opinião essa linha programática é já indicadora de um racismo latente, cada vez mais manifesto à medida que a Europa assiste a uma regressão do nível de vida dos seus cidadãos, ao aumento do desemprego, etc.
No fundo, semelhantes orientações (ideológicas) nas políticas de emigração acabam por legitimar formas de exclusão - no caso rácicas e sociais.
Quando esse é o discurso do estado como esperar outro comportamento dos cidadãos?
Afixado por: o uno e o múltiplo em novembro 6, 2004 04:27 PMConfesso que não percebi bem de que se queixa o senhor.
Viajou para Lisboa para transitar para Luanda e, chegado a Lisboa, verificou que não havia vôo para Luanda. Que coisa tão estranha. O vôo foi cancelado? O seu bilhete estava incorreto? Que culpa temos nós deste engano na agência de viagens?
Viajou para Lisboa sem visto e queria entrar em território português. Não o deixaram, claro. Que tem isso de especial? Se tinha a intenção de entrar em território português, bom seria que tivesse visto. Faltou-lhe tempo para pedir um? Ou, no mínimo, deveria ter tido o cuidado de trazer o tal talão consigo. Que culpa tem Portugal do seu desleixo?
Afixado por: Luís Lavoura em novembro 6, 2004 05:33 PMLamentável,parece o Chile de Pinochet!Em memória de Walter Benjamim que me é muito caro e em honra do António Tomás,vai já para o meu blog.Abraço!
Afixado por: Joao em novembro 6, 2004 06:09 PMAlgumas pessoas são racistas. Serão porcentualmente mais em Portugal do que em Angola? Talvez... Fará isso do povo português racista?
A amargura do senhor parece-me um tanto despropositada, nomeadamente, quando atribui aos outros as causas do que lhe aconteceu... negligência pura e simples, repartida por vários intervenientes, incluindo ele próprio, e em que o funcionário do SEF em que parece querer descarregar a sua bílis será talvez o menos culpado.
É que por enquanto há fronteiras, há regras, não é tudo à vontade do freguês... fronteiras para pretos, mas também para brancos.
Este lírico, que estuda, viverá e irá viver do quê?
Apresentar um caso destes e extrapolá-lo para um caso de racismo só porque o protagonista é preto, só mesmo no barnabé... um blogue de líricos bem pensantes (que pensam mal, ainda por cima) como o sujeito...
Pelos comentários percebe-se bem como a xenofobia e racismo florescem em Portugal.. Um abraço para o António.
Afixado por: Boss em novembro 6, 2004 06:47 PMNa Costa do Marfim, esta tarde, morreram 8 soldados Franceses do contingente que lá se encontra estacionado (e que não é mais do que uma força de ocupação). 23 ficaram feridos. Dois caças Sukoi Costa-Marfinenses foram abatidos.
Ao largo da Costa do Marfim existem importantes reservas de petróleo, que se estendem até Cabinda.
O grupo Francês Total-Fina-Elf explora a grande maioria das plataformas petrolíferas da região.
A Associated France Press, um dos mais importantes grupos de informação internacionais, não inclui a notícia dos confrontos nas suas listas. Apenas a Reuters o faz.
A notícia dos confrontos não foi apresentada em nenhum dos telejornais Portugueses, nem na TSF. Apenas a Antena 1...
Afixado por: Merda em novembro 6, 2004 08:27 PMAntónio
Um abraço de solidariedade. A verdade é que nós, portugueses, somos racistas. Racistas não assumidos, mas racistas. Lamento sinceramente a forma como o tratámos.
«...Esta [passaporte lusófono para agentes culturais] seria uma forma, como se vê, de distinguir o viajante do imigrante económico, privilegiando aqueles que trabalham na área da cultura portuguesa e lusófona em todo o mundo.» Rui Tavares
Rui Tavares, antes de ser lançado aqui qualquer debate sobre o assunto, digo-lhe que você parece desde já diponível para embarcar numa fantasia, uma vez que o que está de facto em causa não são tipologias/classes de documentos. Pergunto-lhe em que medida um «passaporte cultural lusófono» bastaria para sanar o cancro da «presunção de fraude até prova em contrário» que pesa sobre tudo o que seja preto, árabe ou sul-americano que pretenda transpor a fronteira portuguesa? Os agentes e funcionários do SEF estão treinados para desconfiar que todos os documentos na posse de um cidadão afro-lusófono apresentam uma larga margem de risco de terem sido falsificados, comprados, ou contrabandeados. Afinal, diz-se que em África tudo se compra e tudo se vende. Quem asseguraria a autenticidade desses «passaportes culturais»? Quem estaria autorizado a outorgar esse documento? Que países? Com que margem de segurança, autenticidade e credibilidade? Quem estaria mais interessado na adopção dessa credencial? - os africanos ou os portugueses?Portanto, não acredito que um angolano portador de um «passaporte cultural lusófono» suscitasse menos desconfiança na fronteira da Portela que um angolano munido de um passaporte regular do seu país.
2.Parece-me estar fora de questão - pela complexidade da engenharia burocrática da coisa -que o «passaporte cultural lusófono» pudesse vir a ser literalmente equiparado a um «passaporte diplomático». Aliás, já foram muitos os passaportes diplomáticos que ficaram «engatados» na Portela, sendo que alguns acabaram mesmo recambiados.
Ou seja, na base de tudo(a meu ver) deve estar a humanização dos serviços, a formação permanente dos funcionários, e uma lógica de qualidade, respeito e hospitalidade transversal a todos os níveis hierárquicos do SEF.
Enfim, são apenas algumas questões que entendi por bem levantar.
Afixado por: thirdbacus em novembro 6, 2004 11:10 PMthirdbacus: óptimas perguntas para a cplp, não para mim. ao contrário do que você leu, eu não defendi esse passaporte. ele teria enormes problemas de implementação – e a prova é que a conversa nunca foi muito longe.
de qualquer forma este ponto é lateral e surgiu apenas numa resposta ao "uno e ao múltiplo". tem pouc a ver com a história.
Afixado por: rui tavares em novembro 7, 2004 12:34 AMNão tenho comentários. Sinto uma enorme vergonha e uma revolta que não serve de consolo à vítima.
Afixado por: Carlos Esperança em novembro 7, 2004 01:26 AMParete dos comentários que li arrepiou-me mais que os factos relatados.E dizem que não somos racistas e xenófobos.Alguns não são.
Afixado por: amelia em novembro 7, 2004 09:29 AMOla:)
Esta situação é frustrante, não sei se é pela a ??cor??? ou pela a religião mas que é desgastante é.
O dmarques escreveu e bem num ponto que é o seguinte:
"O numero de estrangeiros é que aumentou e daí o aumento de ocorrencias destes problemas"
Ponho-me no lugar dele o sr.tomás também eu ficava f-d-d-o
De onde nos vem esta xenofobia? Não consigo conceber que os portugueses sejam tão virulentamente racistas como têm demonstrado nos comentários a este episódio, porque somos precisamente nós e os galegos os povos geneticamente mais africanos. Mas também me custa que estas pessoas não consigam ver a esperança que as culturas e os povos diferentes representam na era da massificação da cultura dos falantes de inglês. Não aprendemos ainda que a diversidade de culturas e de povos é algo de que não podemos abdicar? Quem ainda não percebeu isso está-se a preparar para um mundo de sofrimento e de terror.
Afixado por: Tempus em novembro 7, 2004 03:22 PMOra, permita-me entender que «esse ponto» acaba por ter muito «a ver com a história»(razão da minha interpelação). Importa tanto protestarmos vigorosamente contra o «inferno» de 6 horas vivido por A.Tomás, como também tentarmos, dentro do possível, encontrar soluções que facilitem o trânsito de agentes culturais, académicos, económicos e desportistas lusófonos pela fronteira portuguesa. Se não o «passaporte cultural», porque não outras alternativas?Pelo menos para os casos em que os esses agentes culturais vêm a convite de instituições portuguesas, vendo-se depois forçados a passar por labirintos securitário-burocráticos perfeitamente patéticos.
Afixado por: thirdbacus em novembro 7, 2004 07:07 PMComo alguém que viaja regularmente para um país fora do espaço Schengen, a Suiça, sem bem o desagradável que é ser controlado em fronteiras.
Digo-vos que é muito chato ser acordado às quatro da manhã por um guarda armado que entra no compartimento do comboio nocturno para ver os teus documentos e o dinheiro que trazes. E mais inquietante é quando verificas que o guarda fica claramente desanimado por não encontrar nada de ilegal... Agora, este guarda pode ser um chato, mas só cumpriu a lei, não foi?
O que ainda não percebi foi como raio é que se viaja de NY para Luanda em trânsito por LX, e não se tem já na mão o bilhete com dia e hora de partida para Luanda... Este senhor viria comprar o bilhete para Luanda em Lisboa??? E não sabia os horários... SE ME CONTASSEM UMA HISTÓRIA ASSIM, EU NÃO ACREDITAVA. E depois chateia-se por não o deixarem entrar sem visto e volta para NY antes da tal advogada vir ao aeroporto??? Gostava eu de poder torrar dinheiro assim! Não vi nenhum comportamento ilegal por parte dos guardas fornteiriços. Foram chatos e picuinhas, é essa a sua função. Mas parece-me que este senhor tem de estar chateado é com ele mesmo.
Quando se viaja, deve-se ter a certeza que temos os documentos e vistos de acordo com o nosso intenerario.
O Antonio quando chegou a Lx, nao tinha o numero do voo, data e hora de partida para Luanda???!!!
Concordo com os últimos comentários de Nuno Anjos e de opinioes.
E não falemos em racismo, porque não há aqui em nada nenhuma menção a raça ou a qualquer discriminação baseada na raça. Aliás, não sei qual a raça do protagonista desta história (há muitos angolanos e moçambicanos brancos, ou de outras raças que não a negra).
É mesmo racismo. Racismo e imbecilidade de quem devia ser o primeiro rosto de quem entra em Portugal. Sei porque qd viajo para os Palops de emergência tenho um visto de entrada tirado no próprio serviço de emigração do aeroporto. Sei porque vejo e ouço os comentários dos estupidos (nem todos) srs poderosos do SEF acerca dos cidadãos oriundos dos palops. Sei porque vejo a dif de tratamento entre palops brancos e palops negros. O tempo de "averiguação" é substancialmente, infinitamente menor.
Sei que qd chego a Maputo o guarda que me olha para o passaporte mo entrega e me diz : seja bem vindo, tenha uma boa estadia.
Deve ser um problema de produtividade!!! Os SEF´s fazem de propósito em retaliação à falta de pagamento das horas extraordinárias e À NEGAÇÃO DE OUTRAS BENESSES. Qu me perdoem os que são verdadeiros servidores do Estado e dos cidadãos, mas a maior parte desses polícias são uma MERDA. O mesmo se aplica aos seguranças encarregados de verificar as bagagens. Imbecis é um termo muito lisonjeiro.