
Carlos Nô, Andreas #2, 2004.
Na Galeria Municipal dos Escudeiros – Rua dos Escudeiros, nº30, Beja. De terça-feira a domingo, das 14 às 20h.
Devo declarar um "conflito de interesses" em relação este artista e esta exposição: Carlos Nô é meu amigo e escrevi o texto para uma exposição no Porto de alguns destes trabalhos, que lidam com a questão de seres humanos desaparecidos por razões políticas – qualquer tipo de razão política, com origens em qualquer quadrante do espectro político. Deixo este texto aqui, depois da dobra, e aproveito para o colocar também no Barnabé XL, o nosso espaço para textos mais longos.
O que é um alguém
[Rui Tavares]
“Um alguém” (ou “arguem”, por vezes) é a expressão que se utiliza no crioulo de Cabo Verde e da Guiné Bissau quando se quer dizer “uma pessoa”. Além desse uso, “um alguém” serve para substituir o pronome “se” de uma forma análoga à do inglês “one” ou do espanhol “uno”. Num caso em que a frase portuguesa “quando se pensa” pudesse ser traduzida pela espanhola “cuando uno piensa” ou a inglesa “when one thinks”, a frase correspondente em crioulo poderia transcrever-se “kando um arguem ta pensa”. Aqueloutra pessoa é “outr’alguem” e assim sucessivamente.
A primeira vez que ouvi esta expressão fiquei instantaneamente encantado. E de cada vez que medito nela acontece qualquer coisa mais: vão-se descolando várias camadas de significados, como se fossem fibras de plantas ou frutos. Ou vejo as suas possibilidades acumularem-se como se fossem extractos num rochedo. “Um alguém” é ao mesmo tempo neutral e íntimo. Dizer que aquela pessoa é “um alguém” é entender, admitir, que ela é alguém como nós.
Uma palavra nova, ou uma palavra antiga a que damos nova vida, é um pouco como uma substância acabada de descobrir. A pouco e pouco lhe vamos descobrindo cada vez mais aplicações possíveis. Em primeiro lugar, apercebemo-nos de que “um alguém” admite mais espaço para a abundância interna a cada consciência individual. É-nos impossível ser exactamente como outrem; entrar na sua consciência; partilhar da experiência de “ser-se a si-mesmo” de outro alguém. Mas meditar sobre “um alguém” permite-nos considerar a esse alguém melhor na abundância da sua experiência porque nos obriga a compará-lo connosco mesmos. Nós somos um alguém e sabemos que é por isso que condensamos, em cada um, toda a abundância do mundo. Manhãs, insectos, sonhos, dores de dentes – é inesgotável.
Se chamássemos ao outro “um alguém” deveríamos ao menos notar que ele ou ela ou eu é assim – cada consciência com o universo todo dentro dela. Quando se apaga um alguém é como se se apagasse uma lâmpada que alumia sozinha tudo o resto. Parece que estavam erradas aquelas teorias antigas que supunham que era dos nossos olhos – e não do Sol – que partiam os raios que iluminavam os objectos. Mas tinham razão inteira numa coisa: de cada vez que perdemos um alguém perdemos tudo.
Nada é tão importante como manter cada alguém em vida. Logo depois, a segunda coisa mais importante é manter cada um desses alguém em dignidade e conforto. A razão é que, como notou Primo Levi em Se isto é um homem, depois de ultrapassada uma certa linha de indignidade se consegue fazer com que as pessoas deixem de parecer humanas. Aí começamos a correr todos os riscos do mal.
Vós que viveis seguros
Nas vossas mornas casas,
Vós que encontrais voltando à noitinha
A refeição aquecida e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Que trabalha na lama
Que não conhece paz
Que luta por meia broa
Que morre por um sim ou por um não
***
Há umas semanas visitei Carlos No no seu estúdio. Todos os quadros da série que então finalizava eram dedicados à forma mais estúpida e inaceitável do desaparecimento de um alguém. Quando humanos se organizam – e fazem-no todos os dias, em todo o mundo – para fazer desaparecer outros humanos.
Nas paredes iam sendo sucessivamente colocados os rostos depurados de pessoas desaparecidas que nos olhavam de frente a partir da tela. Emergiam de um claro-escuro de apenas dois tons. Os contornos das manchas eram rigorosamente demarcados; alguns rostos inscreviam-se neles com um olhar de pássaros, perscrutador. Talvez fosse incómodo meu: eles pareciam sondar-me. Noutros rostos, para alívio meu, um pequeno gesto quebrava aquela indagação do olhar: pareciam resignados. Seria eu tão egoísta que desejasse esquecê-los? Quis afastar esse pensamento; noutros quadros os rostos começavam a ser cobertos por uma camada branca, quase opaca. Era aflitiva aquela ideia, claustrofobicamente sentida mais do que pensada, de que alguém ali pudesse alguma vez ser esquecido. Mas é bom notar que para esquecer é preciso ter alguma vez lembrado; e isso, ao menos, alguém estava ali fazendo.
Carlos tratava-os pelo nome. Muhammed, Glenda, Andreas. Lembrei-me que ele passa ali horas sozinho com eles. Desenha-lhes os lábios, as sobrancelhas, os olhos. Os olhos.
Perguntei-lhe se em nenhum momento se questionava sobre a relação de intimidade que assim estabelecia com estas pessoas. Disse-me que sim. Que enquanto pintava e, mais ainda, quando se sentava ao fim da tarde, olhava para os rostos e se perguntava que pensariam os seus donos, cada um deles, disto tudo – que estivesse ali um indivíduo que eles nunca conheceram, dia após dia, a pintar os seus rostos.
A certa altura referi-me a algumas destas pessoas usando o passado. O Carlos corrigiu-me: não sabemos se estão mortos, muitos deles estarão certamente vivos. Alguns deles serão algum dia resgatados, tão breve quanto possível. Alegrámo-nos pensando como seria bom poder um dia oferecer-lhes uma imagem que havia tentado, em tempos, evitar-lhes um segundo desaparecimento. Porque se é verdade que quando perdemos um alguém perdemos tudo, é também verdade que se conseguimos salvar outro alguém ganhamos mais um universo inteiro.
[…]
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem forças para recordar
Vazios os olhos e frio o colo
Como uma rã no inverno
Meditai que isto ocorreu:
Ordeno-vos estas palavras.
[Primo Levi, Se isto é um homem]
Publicado por ruitavares em | TrackBackAinda praí muito Levinas...
Afixado por: Chato em novembro 9, 2004 03:00 AMFabuloso este quadro, o Andreas #2. Nele vemos a metáfora das relações quebradas, da solidão, do autismo egoísta das sociedades consumistas do início do sec. XXI, e da queda da democracia, do poder do voto, simbolizado aqui com uma tímida cruz vermelha no canto superior esquerdo e uma enorme tela branca, vazia, onde o espectador pode projectar a sua imaginação e as suas frustrações, a sua revolta. No fundo, esta tela é o "referendo" totalitário. Não há escolha. Apenas um pequeno quadrado onde é colocada a cruz do voto. E o bolhetin de voto em branco alude claramente à obra de Saramago, o ensaio sobre a lucidez. É o desencanto com a democracia, a metáfora do "votar para quê? são todos iguais.", o esvaziamento do espaço de acção democrático.
Pode-se discordar da visão de Carlos Nô mas é consensual que estamos perante uma obra de arte interventiva e magnífica.
Ou isso ou o link está quebrado e o jpg não carrega.
E a imagem?!E a imagem?! Será mais um caso de censura no Barnabé? Olhem que eu chamo o Luis Simões.
Afixado por: thirdbacus em novembro 9, 2004 08:44 PM