dezembro 13, 2004

Adeus, senhor Embaixador

Vai com certeza deixar saudades o embaixador José Calvet de Magalhães, falecido hoje aos 89 anos de idade.
Num blogue como o Barnabé este obituário pode parecer algo bizarro, mas não resisto a render-lhe aqui a minha homenagem. Há três anos atrás, tive a sorte de o conseguir entrevistar, com uma colega, na sua casa no Estoril, ainda estava ele de boa saúde. Falou quase ininterruptamente durante quatro horas, deixando-me exausto. No fim, saiu-se com esta: “Então, já não tem mais perguntas?”
Calvet de Magalhães entrou para a carreira diplomática em finais de 1941, com a II Guerra Mundial ao rubro. Se não me engano, teve algumas simpatias “nacional-sindicalistas” durante a sua juventude mas nos corredores do MNE era geralmente conhecido como um homem de inclinações liberais, ou mesmo “de esquerda”. Durante o Estado Novo, isto queria dizer que simpatizava com as democracias anglo-saxónicas e a integração europeia. Enquanto diplomata, distinguiu-se pela sua missão na China (era cônsul em Cantão quando Mao chegou ao poder), pelo envolvimento nas questões europeias (EFTA, Mercado Comum) e nas relações bilaterais com os Estados Unidos da América (foi ele quem negociou o acordo de Defesa de 1971, que regularizou a presença americana nas Lajes). Aluno de Marcelo Caetano na Faculdade de Direito de Lisboa, ainda acalentou esperanças de que o sucessor de Salazar pudesse reformar o regime por dentro e operar uma viragem na "política ultramarina". Na entrevista que me concedeu em 2001, deixou-me uma imagem extraordinariamente vívida do desalento final de Caetano, desiludido com todos os que o rodeavam e profundamente amargurado com as posições assumidas pela Igreja católica – ao ponto de ponderar uma conversão ao Protestantismo!
Após o 25 de Abril, o então ministro dos Estrangeiros, Mário Soares, impediu que se efectuassem saneamentos no MNE – a experiência da I República fora desastrosa a esse respeito e havia que sossegar os nossos aliados ocidentais. Calvet foi mantido como secretário-geral do MNE e depois enviado para o Vaticano, onde negociou uma importante revisão da Concordata (aquela que veio permitir o divórcio dos católicos), com a ajuda do então ministro da Justiça, Salgado Zenha. Disse-me que nunca tinha conhecido diplomatas tão astutos e competentes como os cardeais da Santa Sé.
Após a reforma no início dos anos 80, esteve longe de permanecer inactivo. Deu aulas e palestras, esteve ligado a várias instituições, como o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, e publicou muito: livros de história diplomática (nossas relações com o Brasil e Estados Unidos, participação portuguesa na ONU e na construção europeia), memórias (a sua missão em Cantão), biografias (Antero, Eça, Garrett), manuais de diplomacia.
Jornalistas e historiadores recorriam com frequência à sua memória de elefante: era incrível ouvi-lo descrever o ambiente que se vivia na Sala da Cifra durante os anos da guerra, ou evocar as disputas entre Salazar e alguns dos seus embaixadores menos dóceis. Calvet falava com imenso desassombro da vida diplomática e não tinha medo de emitir opiniões politicamente incorrectas (sobre o caso Aristides Sousa Mendes, por exemplo). Um americanófilo assumido (a sua mulher era norte-americana e o seu filho vivia no outro lado do Atlântico), foi altamente crítico da última intervenção dos EUA no Iraque, posição aliás coincidente com a de outros liberais conservadores, como George Kennan, o decano dos diplomatas americanos.
Se pudesse recomendar um livro de Calvet de Magalhães, a minha escolha recairia em Diplomacia Doce e Amarga (Lisboa, Bizâncio, 2002), um volume que lembra muito os contos de Lawrence Durrell da série Antrobus. A qualidade das histórias é muito variável, mas há pelo menos uma («A Polónia Restituta») que me fez andar com um sorriso nos lábios durante dois dias inteiros.

Publicado por pedrooliveira em | TrackBack
Comentários

ahhh... finalmente um post que é uma lufada de ar fresco neste pasquim de "bocas bloquistas"

Afixado por: Gasel em dezembro 13, 2004 11:27 PM

Bem me parecia. É o autor do livro "José Maria (Eça de Queirós: a vida privada de um grande escritor".

Afixado por: João Pedro em dezembro 13, 2004 11:29 PM

PAZ À SUA ALMA!


http://sexlisbon.blogspot.com/

Afixado por: SEBASTIÃO em dezembro 14, 2004 12:31 AM

Este foi, de longe, o melhor post que li no barnabé. Claro que não caberia num livro neonico...

Afixado por: Luís em dezembro 14, 2004 01:08 AM

Paz à sua alma!
Bom post, muito melhor que o habitual por cá.
Já agora algumas perguntas se alguem souber:

Quais foram as posições da igreja que desagradaram a Marcelo Caetano?

Qual era a opinião dele sobre o caso Aristides Sousa Mendes?

Afixado por: Alberto em dezembro 14, 2004 01:49 AM

Ora cá está uma prova, de que o Barnabé não é assim tão sectarista como alguns insinuam...
Efectivamente, esta é uma prova de que, em todos os regimes, incluindo o nosso Antigo, sempre existiram personagens que marcaram pela positiva. No fundo a Politica , para mim, é feita de homens e mulheres. E apenas contam o seu caracter, a sua ética ,e a sua perspicácia para resolver problemas. Haverá gente de direita muito mais "esquerdista" que os próprios, e haverão imensos esquerdistas, muito mais direitistas e papistas que o Papa. Por isso, sempre votei em PESSOAS.
Infelizmente, em Portugal, esse tem sido ultimamente, um exercício assaz difícil. É que para encontrar ÉTICA no meio político, é necessãrio por vezes andar à Poirot, isto é , de lupa !
Fadista Valeria Mendez ( a verdadeira )

Afixado por: valeria mendez em dezembro 14, 2004 03:37 AM

Mas se é um pasquim,

E se o habitual é mau,

o que fazem por cá tão diariamente?

Será masoquismo?

Ou o pasquim dá-vos uma certa volúpia?

Afixado por: Murta em dezembro 14, 2004 11:16 AM

É com grande consternação que vejo desaparecer um dos maiores diplomatas portugueses do século XX.

Afixado por: Sophie em dezembro 14, 2004 12:06 PM

O livro é muito bom e as histórias verdadeiramente agri-doces. Vale a pena ler e conhecer este senhor, no sentido de cavalheiro, no nosso obscuro mundo dos negócios estrangeiros.

Afixado por: MCG em dezembro 14, 2004 12:40 PM

O COMENTÁRIO QUE SE SEGUE FOI APAGADO PELO CENSOR ANTI-LIBERAL E ANTI-DEMOCRÁTICO PEDRO OLIVEIRA, USEIRO E VEZEIRO NESTAS PRATICAS ABJECTAS. SÓ DEIXA PASSAR OS COMENTÁRIOS COM QUE CONCORDA ! AOS OUTROS NEM SE DIGNA RESPONDER ! APAGA-OS ! FALTA DE CHÁ DE DE BAGAGEM INTELECTUAL E CÍVICA...


"Foi altamente crítico da última intervenção dos EEUU no Iraque, posição aliás coincidente com a de outros liberais conservadores..."

Pois, tal como Moi, Saladino.

É pena que o nosso censor do Barnabé, P.O., não tenha aprendido boas maneiras democráticas e liberais com Calvet de Magalhães... e prefira propagandear as patacoadas bushistas e anti-árabo-semitas de personagens sinistros como Rui Ramos...

Afixado por: saladino em dezembro 14, 2004 10:36 PM

O COMENTÁRIO QUE SE SEGUE FOI APAGADO PELO CENSOR ANTI-LIBERAL E ANTI-DEMOCRÁTICO PEDRO OLIVEIRA, USEIRO E VEZEIRO NESTAS PRATICAS ABJECTAS. SÓ DEIXA PASSAR OS COMENTÁRIOS COM QUE CONCORDA ! AOS OUTROS NEM SE DIGNA RESPONDER ! APAGA-OS ! FALTA DE CHÁ DE DE BAGAGEM INTELECTUAL E CÍVICA...


"Foi altamente crítico da última intervenção dos EEUU no Iraque, posição aliás coincidente com a de outros liberais conservadores..."

Pois, tal como Moi, Saladino.

É pena que o nosso censor do Barnabé, P.O., não tenha aprendido boas maneiras democráticas e liberais com Calvet de Magalhães... e prefira propagandear as patacoadas bushistas e anti-árabo-semitas de personagens sinistros como Rui Ramos...

Afixado por: saladino em dezembro 14, 2004 10:36 PM

O COMENTÁRIO QUE SE SEGUE FOI APAGADO PELO CENSOR ANTI-LIBERAL E ANTI-DEMOCRÁTICO PEDRO OLIVEIRA, USEIRO E VEZEIRO NESTAS PRATICAS ABJECTAS. SÓ DEIXA PASSAR OS COMENTÁRIOS COM QUE CONCORDA ! AOS OUTROS NEM SE DIGNA RESPONDER ! APAGA-OS ! FALTA DE CHÁ DE DE BAGAGEM INTELECTUAL E CÍVICA...


"Foi altamente crítico da última intervenção dos EEUU no Iraque, posição aliás coincidente com a de outros liberais conservadores..."

Pois, tal como Moi, Saladino.

É pena que o nosso censor do Barnabé, P.O., não tenha aprendido boas maneiras democráticas e liberais com Calvet de Magalhães... e prefira propagandear as patacoadas bushistas e anti-árabo-semitas de personagens sinistros como Rui Ramos...

Afixado por: saladino em dezembro 14, 2004 10:36 PM

Falemos de assuntos sérios !
Gravação da morte de uma miúda palestiniana pelos terroristas das SS Tsahal:

Record of a shooting

Watchtower
'It's a little girl. She's running defensively eastward'
Operations room
'Are we talking about a girl under the age of 10?'
Watchtower
'A girl of about 10, she's behind the embankment, scared to death'
Captain R (after killing the girl)
'Anything moving in the zone, even a three-year-old, needs to be killed'

Claro que terroristas são os ocupados, não é, P.O. ?

Afixado por: saladino em dezembro 14, 2004 10:42 PM

Falemos de assuntos sérios !
Gravação da morte de uma miúda palestiniana pelos terroristas das SS Tsahal:

Record of a shooting

Watchtower
'It's a little girl. She's running defensively eastward'
Operations room
'Are we talking about a girl under the age of 10?'
Watchtower
'A girl of about 10, she's behind the embankment, scared to death'
Captain R (after killing the girl)
'Anything moving in the zone, even a three-year-old, needs to be killed'

Claro que terroristas são os ocupados, não é, P.O. ?

Afixado por: saladino em dezembro 14, 2004 10:42 PM

É óbvio que há barnabés (André e Pedro) que estão a mais. Não se dão bem com o estilo do blogue. Um apaga sistematicamente os comentários que o criticam, deixando apenas os que o louvaminham. Outro decide pura e simplesmente eliminar as caixas de comentários dos seus posts...

Mas o Barnabé é uma "casa da Joana" onde cada um faz o que quer ? Não há regras e princípios comuns ? Sobretudo a existência de caixas de comentários, a verdadeira marca característica do Barnabé, parece-me indissociável do sucesso deste blogue ! Não perceber isso é não perceber nada !

É ISSO QUE O BARNABÉ TEM DIFERENTE DOS OUTROS ! FOI E É A CHAVE DO SEU SUCESSO ! Blogues com boas postas há dezenas ! Muitos até melhores que o Barnabé nesse domínio. Mas nenhum, como o Barnabé, soube criar esse ambiente interactivo e fecundo de discussão livre e permanente que atrai comentadores de todas as áreas políticas.

Eliminar caixas de comentários ou censurá-las selectivamente é atentar contra o segredo do sucesso do Barnabé, é matar a galinha dos ovos de ouro ! Parem enquanto é tempo !

E se o André e o Pedro persistirem autisticamente em não compreender isso, que façam o seu próprio blogue (que ninguém visitará, é claro...) !

Afixado por: SALADINO em dezembro 15, 2004 10:12 AM
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