setembro 30, 2003

Cuba sí, Castro no

Farei tudo o que estiver no meu poder para resolver os problemas sem derramar uma gota de sangue.

Frase de Fidel Castro, proferida na época da revolução cubana e relembrada ontem por Catherine Deneuve na sessão de denúncia da repressão castrista promovida em Paris pelos Repórteres sem Fronteiras.

A irresponsabilidade

Ia hoje a entrar na biblioteca da minha escola e deparei com um cartaz que anunciava: "Em 2020, 77% da população do planeta viverá em cidades do Terceiro Mundo". Isto é, em condições muito piores do que a esmagadora maioria dos habitantes da Europa comunitária. Isto é, gente capaz de fazer tudo e mais alguma coisa para fugir daquelas cidades e vir para outras onde as perspectivas de vida sejam mais decentes. Li estes números e espantei-me: não é nada que não soubesse já. Mas ir a subir uma escada e apanhar com eles na cara é sempre brutal. Depois pensei na irresponsabilidade que é pensar que alguma vez se conseguirá fechar as portas a estas pessoas.

Paz sem palestinianos

Pedro Lomba – bom regresso – diz que se Said tivesse um blogue seria como este. Obrigado Pedro. E remata: “parece-me certo que a paz entre israelitas e palestinianos jamais se faria com intelectuais como ele.” Não discuto essa matéria, já muito debatida. Mas se excluis Said, o mais moderado e tolerante para com os israelitas dos nacionalistas palestinianos, de forma tão liminar, então é melhor assumires que a paz entre israelitas e palestinianos jamais se fará com qualquer palestiniano. Sharon não anda longe disso.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 30 setembro 20:15 | Comentários (3) | TrackBack

PP quer abortar referendo

O PP deixou claro que não está disponível para um novo referendo à legalização do aborto. Eles lá saberão porquê. Não estão disponíveis, apesar de saberem que menos de metade (um terço) dos eleitores portugueses votou no último referendo, o que o torna, do ponto de vista formal, inexistente. É por razões políticas que o PP não está disponível para a consulta, apesar de, entretanto, um novo facto ter alterado as coisas: na Maia, descobrimos que, afinal, as mulheres que abortam podem ser julgadas. O PP não quer novo referendo porque sabe da fortíssima probabilidade de, desta vez, o conservadorismo mais serôdio ser derrotado.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 30 setembro 18:57 | Comentários (15) | TrackBack

As dúvidas do Presidente

Jorge Sampaio tem dúvidas sobre o referendo à Constituição Europeia. Mas há alguma coisa em relação à qual Sampaio não tenha dúvidas?

Publicado por danieloliveira em terça-feira 30 setembro 15:42 | Comentários (6) | TrackBack

Delgado, um Nosferatu californiano

Hoje, no DN, Luís Delgado faz um dos exercícios mais entusiasmantes da sua carreira de comentarista. Diz que Schwarzenegger vai ganhar. Diz qual a percentagem que vai votar pela queda do governador democrata e qual o resultado de cada um dos candidatos ao lugar. Tudo com percentagens exactas. E depois, tira as conclusões. Aconselha mesmo o PS a retirar ilações do resultado de Bustamante, esquecendo-se que os números que aparecem no seu ecrã foram escritos e pensados por ele mesmo, Luís Delgado, o próprio. Há homens que levam a argumentação circular até às últimas consequências.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 30 setembro 15:40 | Comentários (1) | TrackBack

Isto deve ser o socialismo

Outro dia, alguém me dizia que, na blogosfera, funciona a economia de mercado: sobrevivem os melhores. Claro que reagi. Não segui a linha fácil: dizer-lhe que o desmentido estava no número exorbitante de visitantes do Barnabé. Preferi fazer um exercício: se a economia de mercado funcionasse realmente, em que estado ficaria a blogosfera?
Primeiro, a Microsoft compraria o blogspot e a PT o Weblog.com.pt. A PT cobraria uma taxa de acesso, a Microsoft venderia o software necessário para construir as páginas.
Depois, a mesma PT compraria os blogues do Mexia e do Lomba, encheria de publicidade aos seus produtos e transformaria os dois blogues – já fundidos, para aproveitamento das sinergias, e com o nome de “Flor do Diabo” – em portal multimédia. A Coluna Infame seria reactivada pelo grupo como canal de venda de brindes.
O Belmiro compraria a Glória Fácil, despediria os cinco jornalistas – por necessidades de redimensionamento provocadas pela empresarialização crescente deste mercado – e punha dois estagiários do Público a trabalhar para o blogue. Ao fim de dois anos fechava a página.
Um grupo espanhol compraria o blogue do Pacheco Pereira.
A maioria parlamentar, pressionada pelo CDS/PP, aprovaria uma lei que obrigaria à codificação do Meu Pipi. Um juiz encerraria o Muito Mentiroso. O Blog de Esquerda seria contactado para fazer o blogue de “A Dois” e mudaria de nome para “O Blogue”. O Barnabé, a braços com problemas financeiros insanáveis, acabaria por aceitar a entrada no grupo Media Capital que, passados seis meses de prejuízo, substituiria a equipa, agora dirigida por um aluno de Marcelo Rebelo de Sousa.
Os pequenos blogues acabariam por fechar. No “Diário Económico”, um especialista explicaria que Portugal é um dos países com mais blogues por habitante e que esta irracionalidade económica é pouco saudável. Remataria com uma frase indiscutível: o que é importante é que sobrevivam os melhores.
Conclusão: nos blogues, não funciona a economia de mercado. Isto está mais próximo do socialismo, mas sem senhas de racionamento, planos quinquenais e prisões políticas.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 30 setembro 15:30 | Comentários (25) | TrackBack

imagem do dia


Aurélio da Paz dos Reis, Eclipse, s.l., s.d.

setembro 29, 2003

Um apelo pessoal

E agora espaço para uma mensagem pessoal: Nuno Miguel Camarinhas, vulgo NMC, vulgo Camarnhaf, quando é que crias um blogue? Estive a ler pedaços da literária Caderneta da Bola e pensei em ti, na tua erudição futebolístico-discográfico-cibernético-historiográfica e de como ela se adequaria ao formato blogue. Mas tu de certeza que já pensaste nisso e, se ainda não tens blogue, é por boas razões, e se hoje essas razões são boas é porque um dia vão deixar de ser.

Tell me Correia

Em debate com Saldanha Sanches na Sic Notícias, Telmo Correia assumiu que a mudança de posição do PP em relação à Europa serviu a sua estratégia de participação no governo. Em matéria de convicções estamos conversados. Em matéria de descaramento também.

Publicado por celsomartins em segunda-feira 29 setembro 22:51 | Comentários (10) | TrackBack

Proposta indecente

Bruce Willis disse que pagava um milhão de dólares para estar quatro segundos com Saddam. Ele há homens rápidos e pouco exigentes.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 29 setembro 18:14 | Comentários (3) | TrackBack

Compreende-se a fadiga

Um ano e meio de trabalho parlamentar de Maria Elisa:

1 intervenção num debate
1 voto de protesto
1 relatório sobre um projecto de Lei do PS
2 pedidos de esclarecimento no plenário
2 interpelações à mesa
2 declarações de voto
0 projectos de Lei
0 resoluções
0 requerimentos
0 declarações políticas
3 votos de pesar

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 29 setembro 16:34 | Comentários (10) | TrackBack

Elia Kazan

Morreu Elia Kazan. Pouco a pouco, todos, incluindo eu, se esquecerão que foi um delator. Fica o melhor de Kazan: os filmes daquele que é, provavelmente, o melhor realizador da história do cinema.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 29 setembro 15:35 | Comentários (6) | TrackBack

Que a força esteja contigo

No congresso do CDS/PP, Paulo Portas dirigiu-se ao seu eleitorado, chamando-lhe o “Povo da Aliança”. Quem é Durão? Jedi? Quem é Paulo Portas? A princesa Leila? Por mim, estou com Darth Vader.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 29 setembro 15:33 | Comentários (3) | TrackBack

CDS (ml)

O CDS/PP falou da sua história. Por falta de tempo, não pôde referir alguns pormenores: Freitas do Amaral, Lucas Pires, Manuel Monteiro e Adriano Moreira. Ficou Adelino Amaro da Costa, que está morto, e o querido líder Paulo Portas.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 29 setembro 15:33 | Comentários (6) | TrackBack

Aprendizes de feiticeiro

Sobre a concentração da posse de meios de comunicação social e a possibilidade da fusão entre a PT Multimédia e a Impresa, José Luís Arnaut afirmou que estas empresas “respondem perante a bolsa e não perante o Estado”. No que toca a liberalismo económico e leis do mercado esta gente é, definitivamente, aprendiz de feiticeiro.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 29 setembro 15:32 | Comentários (2) | TrackBack

setembro 28, 2003

Outra vez os intrusos

Disse apenas que os intrusos tinham chegado e não acrescentei mais nada. Agora digo que ainda mal começou e já tem muito que ler. Conta com a participação de José Tolentino Mendonça, que já respondeu, ontem e hoje, a partir da sua posição de crente, às reacções muito críticas que as reformas de que se fala na Igreja suscitaram fora dela. Tem outros ricos contributos de outros blogueadores-escritores que são, pelo menos para mim, menos conhecidos. Como o Barnabé é contra a dicotomia dentro-fora, consideramos que não pode haver intrusos numa casa que não tem paredes. Bem vindos.

Publicado por andrebelo em domingo 28 setembro 23:20 | Comentários (0) | TrackBack

A Itália às escuras

Afinal é tudo falso. Do meu post de anteontem Nova bronca para Berlusconi não sobra uma vírgula sequer que seja verdadeira. Carlo Taormina veio ontem desmentir à imprensa tudo aquilo que tinha admitido em declarações à mesma imprensa na véspera. Não se demite, e tudo o que o que o La Repubblica afirmou sobre a sua participação na falsificação de testemunhos no inquérito parlamentar ao caso Telekom Serbia afinal é falso. Razão tinham os jornalistas quando, desconfiados do tom desabrido da supostamente verdadeira confissão, lhe tinham perguntado: "mas está mesmo a falar a sério ou as suas declarações são irónicas"?. A estes, a quem anteontem Taormina tinha respondido falar a pura verdade, disse ele ontem: "a minha ‘confissão’ foi propositadamente falsa e, se a tomaram por verdadeira, isso serve para demonstrar os métodos pelos quais se a informação de esquerda se rege, tratando o falso por verdadeiro".

Vamos ver a repetição? O deputado-advogado diz à imprensa que o que a imprensa escreveu sobre ele é verdade. No dia seguinte desmente essa verdade que disse e diz que essa verdade é uma mentira dita para demonstrar que a imprensa acredita nas mentiras que ele apresentou como verdadeiras. Não falemos de questões éticas. Taormina é o verdadeiro fingidor de que fala o poeta. Ele eleva a novos cumes a estética na política.


Publicado por andrebelo em domingo 28 setembro 22:58 | Comentários (3) | TrackBack

E quem não salta é pedófilo

O povo gritava pelo seu D. Sebastião: “Rui Teixeira, Rui Teixeira, Rui Teixeira”. As novas vedetas, ansiosas pelo minuto de fama que todos merecemos na vida, faziam o seu número. Granja e Namora abraçavam-se para gáudio do branco povo que via assim as suas vítimas de estimação de novo em paz. Catalina Pestana prestava-se, para tristeza minha, ao número. Eu que esperava que ela afastasse a Casa Pia dos holofotes, passo a vida a vê-la em jantares de solidariedade, jogos de futebol de solidariedade, bingos de solidariedade. Todos querem estar solidários. João Pedroso lá foi, porque quem não salta é pedófilo. Num cartaz podia ler-se: “pedofilia – castração – prisão perpétua”. Para que Manuela Eanes, Dulce Rocha, Odete Santos e todas as senadoras dos bons sentimentos fiquem a saber: quem semeia ventos colhe tempestades.

Publicado por danieloliveira em domingo 28 setembro 02:08 | Comentários (12) | TrackBack

Sem perigo

O Palácio de Cristal não foi cercado este fim-de-semana. Quando vimos Avelino Ferreira Torres passear pelo congresso do CDS/PP, percebemos que a democracia chegou para ficar.

Publicado por danieloliveira em domingo 28 setembro 02:05 | Comentários (1) | TrackBack

setembro 27, 2003

imagem do dia


Joshua Benoliel, [Na rua, com banheira e bacalhau], Lisboa, s.d.

Publicado por ruitavares em sábado 27 setembro 16:56 | Comentários (0) | TrackBack

New influenza vaccine for 1974-1975

« Bivalent influenza vaccine, incorporating a type A and a type B strain in a single vaccine, is now available from many manufacturers. The strains included are those considered most likely to infect patients this winter. As in the past, there is no certainty that the vaccine will be effective since new strains may continue to emerge. To assure protection of high-risk patients before the usual influenza season, the vaccine should be given by early November »

The Medical Letter on Drugs and Therapeutics, 56 Harrison Street, New Rochelle, N.Y., vol. 16, n° 20 (Issue 410), September 27, 1974

Publicado por andrebelo em sábado 27 setembro 12:53 | Comentários (0) | TrackBack

Inadaptado, inaudito, incerto, inane, insone, intruso

Chegaram os intrusos.

Publicado por andrebelo em sábado 27 setembro 11:04 | Comentários (0) | TrackBack

[XL1] Romance de Estrada

"...Já me vieram uma vez perguntar se o Barnabé, porque foi feito durante a "primavera marcelista", era o Marcelo Caetano. Por amor de Deus! Depois chegaram a perguntar-me se era o Otelo!..." Sérgio Godinho, entrevistado por Daniel Oliveira e Luís Leiria.

Entrevista: Daniel Oliveira e Luís Leiria
Edição original Vida Mundial Abril de 99.

Dos primeiros anos da década de 70 até hoje, Sérgio Godinho cantou Portugal, por dentro e por fora, cá dentro e lá fora. Cantou a esperança nas vésperas do fim da ditadura; o «excesso e a contenção» do Verão quente, em que «se desenhavam porcas e paredes de um edifício que não existia»; o desalento do fim da revolução; os primeiros anos de conversão dos que foram pedindo: «arranja-me um emprego». Perguntou: «que é do futuro que nos mostraram naquele dia de sol?» Falou de Etelvina e de Alice, da guerra e da droga. E cantou desencontros, «como à espera do comboio na paragem do autocarro». No amor e na política. Escolhemos as músicas. E ele falou delas.


Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos
Estou quase a ir embora, mas deixo aqui /duas palavras p'ra um filho que perdi /Não quero dar-te conselhos /Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos /Doa a quem doer, faz o que tens a fazer

A letra nasceu para uma música do Zeca Afonso, que eu conheci em Paris. Ele era uma personagem realmente fascinante, estava sempre a disparar em todas as direcções, era extremamente curioso, tinha um discurso múltiplo e um humor sempre presente. Nós estávamos a começar a compor. O Zé Mário Branco, um pouco mais adiantado que eu, compunha há mais tempo. Eu preparava o material para o meu primeiro disco, Os Sobreviventes. E o Zeca ficou muito entusiasmado, achava que aquilo era muito diferente do que ele fazia. Dizia: «Eh, pá, eu estou ultrapassado, vocês é que estão a fazer coisas novas...» O Zeca para mim era uma paixão, acho que nunca ficou ultrapassado. Mesmo hoje ainda se nota nos discos dele uma modernidade muito grande.

Ele tinha uma música, que é hoje o Maio, Maduro Maio, para a qual não tinha letra. E numa conversa apareceu a hipótese de eu fazer a letra para ela. Comecei a pensar num caso de memória antiga, que o Zeca tem às vezes nas suas canções. E fiz essa letra sobre a música do Maio, Maduro Maio. Mais tarde, o Zeca foi a Paris para gravar as Cantigas do Maio, e já se tinha esquecido completamente do pedido. Entretanto tinha feito uma letra para aquilo, que é muito bonita; e eu fiquei com o filho nos braços, com aquela letra pendurada.

Engoli aquilo bastante bem, porque o Zeca era tão genuíno, que eu sabia que não havia nenhuma espécie de sacanice. Então, o Zé Mário ofereceu-se para fazer uma música para a letra. Nunca fiquei muito satisfeito com a gravação da minha versão, não gostei, vocalmente acho que é pouco interessante, eu estava muito preso naquela canção. Felizmente, depois, o Zé Mário gravou-a de outra maneira. Há pouco tempo, uma professora universitária que estava a fazer um trabalho sobre Brecht veio perguntar-me se aquilo tinha que ver com o Brecht, porque o Zé Mário pôs-lhe como subtítulo Mãe Coragem. Não tem. Só tem na medida em que aquele tipo de personagens existe muito no teatro brechtiano - é mais uma questão de imagens do que ser realmente a tradução de uma peça como A Mãe Coragem.

Que Força É Essa
Que força é essa /que força é essa /que trazes nos braços /que só te serve para obedecer /que só te manda obedecer /Que força é essa, amigo /que força é essa, amigo /que te põe de bem com outros /e de mal contigo

É inspirada num certo tipo de batida sul-americana, que partiu de um olhar, de uma ideia: nós usamos muitas vezes a força real que temos de uma maneira errada. Que força é essa que tu tens realmente em ti mas não usas da maneira mais adequada? Passa uma imagem de revolta, mas também de consciencialização.

Romance de Um Dia na Estrada
Andava há já vinte dias /Ao frio, ao vento e à fome /Às escondidas da sorte /Um dia fraco, outro forte /Que o dia em que se não come /É um dia a menos para a morte /Um dia fraco, outro forte

Nesses anos, andava de facto na estrada. Esse nome tinha de aparecer, porque o On the Road foi o livro que me fez partir, tive uma necessidade absoluta e quase física de partir e conhecer outras coisas, de vagabundear. E dessa vagabundagem faz parte uma aprendizagem vivencial, sexual, etc. O Romance de Um Dia na Estrada segue muito um certo padrão de romance, no sentido antigo do termo, da tradição oral. É uma canção folk, mas reflecte muito a maneira como eu vivia... Sobretudo eu era muito experimentador e vivencial, na criação, na vida, na comida... Tem muito que ver com uma geração em que as pessoas tiveram de partir, seja por razões económicas, seja para fugir à guerra. E os portugueses sempre foram um bocadinho aventureiros nesse aspecto: se bem que mais On the ocean...

A Noite Passada
A noite passada um paredão ruiu l pela fresta aberta o meu peito fugiu /estavas do outro lado a tricotar janelas /vias-me em segredo ao debruçar-te nelas /cheguei-me a ti disse baixinho "Olá" /toquei-te no ombro e a marca ficou lá /o sol inteiro caiu entre os montes /e então olhaste /depois sorriste /disseste "ainda bem que voltaste"

É uma espécie de trip, é uma alucinação que começa com «Acordei com o teu beijo» mas é por aí que começa o sonho. É uma canção que tem qualquer coisa de especial para mim e é das poucas desse tempo que eu continuo a cantar e que atravessou gerações, o que me dá muito prazer - se as canto é porque sinto que há uma frescura nelas.

Há outras com menos frescura. É natural. Não é que o datado seja um defeito em si; o datado pode ter o seu charme, desde que seja bem usado. Mas também há canções, não sei por que razão, que nunca me deu jeito cantar em palco. Num espectáculo que fiz primeiro na Expo e depois no Rivoli com os Clã, eles queriam tocar canções que não fossem as mais recorrentes. E puseram O Homem-Fantasma, que é uma canção do Pano Cru que eu nunca tinha cantado ao vivo. Fizeram um arranjo que me deu muito gozo, não sei por que nunca tinha cantado aquilo. Mas há canções que por alguma razão não continuaram a existir, porque só se as continuasse a cantar continuariam.

De Coração e Raça
Sou português de coração e raça /meio século comido pela traça /fechados numa caixa /e agora ou vai ou racha /e agora ou vai ou racha

É um bocadinho forçada. Há coisas que nascem mais tortas que outras - não quer dizer que a facilidade ou dificuldade com que as coisas saem seja um critério, há as canções que me dão imenso trabalho mas são boas. As vezes é muito perigoso quando nos damos conta de que nos estamos a imitar a nós próprios, nos estamos a repetir - todos nós temos fórmulas para compor, para escrever. Não acho que seja das peças mais genuínas que tenho.

Um Tractor
Um tractor /dá que fazer ao suar /dos que põem na sementeira /as sementes da maneira /como as coisas se farão /e o nome revolução /pode bem ser atribuído /a um tractor assim usado /a um braço assim estendido /entre o futuro e o passado.

Uma homenagem às cooperativas que apareceram na altura, mas muito ligada também à minha amizade com o Camilo Mortágua, na altura da cooperativa da Torre Bela, que parecia ser uma tentativa de fazer algo diferente, mais desenquadrado do aparelho do PCP. Aquilo que a LUAR a seguir ao 25 de Abril procurou fazer, e que passava muito pela cabeça do Camilo, eram coisas como ocupações para fazer creches, coisas de outro teor que realmente tinham algo de anarquismo, no sentido nobre do termo.

O Tractor é uma homenagem à máquina, quando ela pode conviver com as pessoas e pode ajudar à construção colectiva de alguma coisa. É uma canção que saiu bem, que tem um tipo de cadência em que quase estamos a ver o tractor a funcionar. É talvez uma canção datada mas com charme.

Organização Popular
E da conjunção destes factores /pouco a pouco nasceu a ideia /de formar comissões de moradores /elegíveis em assembleia /e exigimos muito /fizemos projectos /ocupámos casas /e erguemos tectos /com a população /e até alguns arquitectos.

Liberdade
Vivemos tantos anos a falar pela calada /Só se pode querer tudo quando não se teve nada /Só quer a vida cheia quem teve a vida parada /Só quer a vida cheia quem teve a vida parada /Só há liberdade a sério quando houver /A paz, o pão /habitação /saúde, educação.

A Organização Popular fala de comissões de moradores e de trabalhadores da maneira como estavam organizadas na altura. Há coisas que são um espelho de um determinado momento, da época. Essa é como um jornal de parede, assim como Liberdade, que é um grafito em rock. Ela tem muito pouca letra, tem só a urgência: «só se pode querer tudo quando não se teve nada». É pegar em palavras de ordem, em conceitos que são simples, mas que vivem muito da música e da contundência do refrão. Aliás, cantei-a agora no Rivolitz num arranjo muito parecido, porque ela já tinha aquele ritmo rock.

Os Hinos
Adoradores do sangue, sempre /os hinos bebem quem os cumpre /quantos sentidos tem a palavra /que o hino tomou por escrava

Nunca fui muito virado para a canção de tipo heróico, para o hino. Penso que é uma coisa feliz que a senha do 25 de Abril tenha sido uma canção de raiz, tradicional alentejana como o Grândola e não um hino.

Barnabé
Vieram profetas /Vieram doutores /santos milagreiros, poetas, cantores /cada qual com um discurso diferente /pra curar a vida da gente /e a gente parada /fez orelhas moucas /que com falas dessas /as esperanças são poucas /mas quando o Barnabé cá chegou /Toda a gente arribou /Toda a gente arribou /Que é que tem o Barnabé, que é diferente dos outros?

Já me vieram uma vez perguntar se o Barnabé, porque foi feito durante a "primavera marcelista", era o Marcelo Caetano. Por amor de Deus! Depois chegaram a perguntar-me se era o Otelo!

Os Demónios de Alcácer Quibir
E o D. Sebastião levou tantas na pinha /que ao voltar cá encontrou a vizinha /espanhola sentada na cama, deitada no trono /e o país mudado de dono.

Foi feita para o filme do Fonseca e Costa, para o qual fiz várias canções, e a proposta está dentro da personagem, uma espécie de saltimbanco que toca viola; por isso a linguagem era um bocado básica, muito irónica, uma maneira popular de contar uma história. Tem um tom muito chocarreiro em relação à nossa história, é uma canção que dentro da nossa ironia é muito violenta. É uma crítica da intenção expansionista dos portugueses da época que influenciaram um miúdo, contra uma grande parte da corte, a participar daquela aventura completamente insensata. Inspirei-me no Oliveira Martins, que é tão violento como eu. Ele conta que os portugueses estiveram seis meses em festa em Lisboa e levaram dez mil guitarras para a batalha de Alcácer Quibir! Também quando digo que o mouro é que conhecia o deserto, faço, claro, uma referência à guerra colonial.

O Primeiro Dia
A princípio é simples anda-se sozinho /passa-se nas ruas bem devagarinho /está-se no silêncio e no burburinho /Embebe-se as certezas num copo de vinho /vem-nos à memória uma frase batida /hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

É uma reflexão sobre uma ruptura e o recomeço, uma canção vivencial sobre o que é uma ruptura e como a pessoa se sente de certo modo bem quando está sozinha, mas depois sente outra vez o peso da ruptura e o renascer. É uma canção iniciática.

A frase «hoje é o primeiro dia do resto da tua vida» - como eu digo no corpo da canção - já existia. Faço questão de dizer isso porque a originalidade é uma coisa relativa. Nesta canção criou-se uma nova vida para esta frase, é uma forma de originalidade que muitas vezes é uma reconversão.

É um bocado inevitável que a própria música tenha ficado um bocado batida. Houve uma altura em que deixei de a cantar, para a deixar repousar um bocadinho. Por outro lado, nos meus espectáculos não quero frustrar as expectativas de todas as pessoas, mas necessariamente vou frustrar algumas. Acho que não se deve dar só aquele repertório-tipo. No Rivolitz há até canções que não são minhas, há do Bob Dylan, do Serge Gainsbourg, do Zeca, até cantava uma música dos Doors que não está no disco. Até porque dá cabo de mim estar a fazer sempre a mesma rotina...

Lá em baixo
Lá em baixo ainda há quem passe /e um sonho que anda à solta /vem bater à minha porta /diz a senha da revolta /vou plantá-lo e pô-lo ao sol /até que se recomponha /é um sonho que acordado /vale bem quem ele sonha /lá em baixo, até já disse /que é que tem a ver comigo /e no entanto sobressalto /se me batem ao postigo

Ficou sem ser um hit, mas entrou na minha lista de preferências. Fala de coisas muito pessoais e ao mesmo tempo tem um bocado da ressaca do PREC. Claro que também fala de desencontros. O tema do amor em todas as suas vertentes para mim passa sempre pelos desencontros, pelos desamores, por precariedade, por recomeço...

Arranja-me Um Emprego
Se meto os pés para dentro /a partir de agora /eu meto-os para fora /se dizia o que penso /eu posso estar atento /e pensar para dentro /se queres que seja duro /muito bem eu serei duro /se queres que seja doce /serei doce, ai isso juro /eu quero é ser o tal /e como tal reconhecido /e assim digo-te ao ouvido /arranja-me um emprego.

São pessoas que, para se integrar na sociedade dos anos 80, na guerra pelo emprego e na ascensão social a todo o custo, vão deixando os escrúpulos para trás. Tem muito que ver com aquilo a que se chamaram os yuppies e, nos anos 90, no sentido também político, os boys. Em troca de um emprego, de um lugar, um tipo esquece que já foi esquerdista: «se mandasse neles/os teus trabalhadores seriam uns amores/Greves só das seis e meia às sete/e em frente ao casse-tête». Gente disposta a tudo.

Os Conquistadores
Mas parai, trago notícias horríveis /parai com tudo /já avisto os nossos conquistadores /Vêm num bote de madeira talhado em caravela /com um soldado de madeira a fingir de sentinela /com uma espada de madeira proferindo sentenças /enterrada que ela foi no coração doutras crenças /enterrada que ela foi, sua sombra era uma cruz /exigindo aos que morriam que gritassem: Jesus!

Foi feito para um filme, para o Soleil en face, do Pierre Cast. Quando era miúdo, lembro-me de pensar: «Em Espanha a história deve ser contada de uma forma diferente, um bocado ao contrário. Não acredito que isto seja sempre assim.» O branqueamento da história sempre me fez impressão. Foi-me pedido, pelo realizador do filme, essa visão um bocado negra da qual eu partilhava.

Os descobrimentos devem ser estudados e festejados. Mas não podemos branquear o seu lado mais negro. Temos de começar a sedimentar a nossa identidade, que é coisa que falta aos portugueses. Os anos do salazarismo foram, a esse nível, desastrosos. A identidade foi construída na base de coisas que tivemos depois de desfazer.

Com Um Brilhozinho nos Olhos
Com um brilhozinho nos olhos /dissemos, sei lá /o que nos passou pela tola /do estilo: és o number one /dou-te vinte valores /és um treze no totobola /e às duas por três /bebemos um copo /fizemos o quatro e pintámos o sete /com um brilhozinho nos olhos /ficamos imóveis /a dar uma de "tête à tête"

Uma pessoa encontra uma amiga que está contente porque fez um amigo. É tudo bastante ambíguo. O refrão é o que a outra pessoa terá dito. É um jogo de espelhos. E uma canção muito lúdica, que fala daqueles disparates que se dizem quando se está feliz: fizemos o quatro, pintámos o sete, fizemos o treze no totobola. Depois mudei para o totoloto. Não gosto que as canções sejam corpos completamente imutáveis. A letra é também um espelho das relações que aquela geração tinha.

As Horas Extraordinárias
Foi a saudade do teu braço /e o olhar que já da luz me dói /trabalhei sem dar p'lo cansaço /horas extraordinárias, foi /um dia que passou num furacão /um furacão que se amainou, só /quando, aparte o amor /eu me vi só /atirando a moeda ao ar /diz-me que cara ou coroa /eu vou ganhar /diz-me quanto eu fiz bem /em me apostar /e que bem fiz em ter por necessárias /as horas extraordinárias

Há uma ambiguidade que se sente logo no título. O conceito de horas extraordinárias está ligado ao mundo do trabalho. Não é uma relação inocente. Tem que ver com o mergulhar no trabalho. Mesmo na música isso se sente: eu sustento-me muito em criações harmónicas, mas não vou estar para aqui a fazer paleio musical. Até porque não sou especialista, sei pouco de música. Sei a prática, só sei fazê-la. Horas Extraordinárias é feita em dois acordes, propositadamente para dar esse tipo de insistência que há no trabalho: «trabalhei sem dar pelo cansaço...»

Que É do Futuro?
Isto está duro, isto está duro, isto está duro /que é do futuro, do futuro, do futuro /que nos mostraram naquele dia de sol? /Vá lá, depressa, diz a lesma ao caracol

É um apontamento. Fala um bocado do desencanto que ficou. Não sou passadista, não fico agarrado a esse desencanto, a pensar que naquele tempo é que era bom, e depois ficou mau. Mas também é importante falar disso. Esse período deixou algumas marcas negativas, mas sobretudo marcas positivas. Valeu pelo excesso e pela contenção que houve, sem se saber para onde se ia, mas experimentando formas, muitas vezes, erradas; muitas vezes, contestáveis. Houve uma força de construção que correspondia a desenhar porcas e paredes num edifício que ainda não existia.

Etelvina
Etelvina com dezasseis anos já conhecia /Todos os reformatórios da terra onde vivia /Entregaram-na a uma velha que ralhava assim /Ai, menina sem juízo /nem mereces um sorriso /Vais acabar num bueiro /sem futuro nem dinheiro.
A Alice no País dos Matraquilhos
Na classe dos repetentes /hoje vai haver mais uma falta /Alice cerra os dentes /vendo a bola que no ar ressalta /quer lá saber do exame /quer lá saber da escola /aguenta no arame /matraquilho nunca cai ao ir à bola /Alice no país dos matraquilhos é mais /do que no bairro onde vive, tem-te-não-cais

A Alice é uma sobrinha da Etelvina. Eu gosto muito da Etelvina porque é uma espécie de padrão narrativo que me agrada muito. Há uma força nestas personagens femininas, às vezes adolescentes, que não sabem muito bem a força que têm mas sabem que a têm. Não sabem como a usar, mas, apesar de tudo, conseguem dar a volta por cima.

Há uma grande lucidez na Etelvina. A Alice está mais perdida. A Etelvina cresceu no Porto, na minha cidade, num bairro popular. A Alice é mais da Brandoa, suburbana. Daqueles pequenos cafés em bairros onde não há perspectiva de futuro. Penso que uma das coisas que se intensificaram em Portugal é o desajustamento da vida suburbana em relação à integração na cidade, às perspectivas de futuro. São os problemas familiares, a questão das drogas duras. A Alice tem mais essa vertente.

Não Respire
Este bairro ao vento /é meu desamigo /quero mais eu quero mais /eu bato ao postigo /Tremo e treme o vento /quero de novo /o falcão que pousa /no meu braço o seu ovo /Não respire! /Pode respirar /Não Respire!

Tem um bocado que ver com a Alice. É a falta de resposta em relação à questão das drogas. Resume o drama dos heroinómanos: ter, depois já não ter e precisar de mais. É sobre esta angústia e sobre a falta de uma resposta adequada por parte do Estado. Sobre a impotência de um tipo que está metido naquilo, que quer sair, mas que sozinho não consegue e diz: «sou carne e osso, belo dueto, vou doar à pátria o coração e o esqueleto.» «Pode respirar, não respire» é a resposta que lhe dão e a resposta que encontra quando tem e quando não tem o que precisa.

É dos campos onde há mais preconceitos, em que gente inteligente diz as coisas mais burras. Nos últimos três, quatro anos, sente-se uma viragem em relação a este problema.

Não é nada contra os radiologistas, mas foi um radiologista, quando me dizia «não respire, pode respirar», que me transportou para outra ficção.

Fotos do Fogo
Chega-te a mim /mais perto da lareira /vou-te contar /a história verdadeira /quando a recordo /sei que quase logo acordo /a morte dorme parada /nesta morada

Fala de uma certa dificuldade em ter uma memória activa do nosso passado comum. Acho que esse esquecimento do que foi o horror da guerra é, provavelmente, necessário para as pessoas que individualmente a viveram, para continuar a sentir que o presente vale a pena.

Mas a canção faz o contrário, escarafuncha no passado. Ela apareceu quando surgiram duas coisas, em simultâneo, nos jornais: a efeméride do massacre de Wiriamu e as descrições dos miúdos soldados da Bósnia que participaram em massacres e que não sabiam por que faziam aquelas coisas. Achei que era preciso fazer uma canção forte sobre isso. Nesta história um ex-soldado começa a ver o seu álbum de retratos. Começa por olhar, a dizer «olha, estou bem aqui», mas aquilo começa a perturbá-lo tanto, que fecha o álbum, fingindo que aquilo não existe. Mas já existe, porque já passou para a cabeça dele.

Zeca Afonso
O Zeca era muito hipocondríaco... A triste ironia é que ele depois ficou realmente doente. Ele vinha sempre com doenças imaginárias, de que ele sofria um bocado, e dizia que tinha arruinado a voz quando estava no ensino. Ora, depois disso, fez discos com voz limpidíssima, magnífica, no seu melhor. Era um grande cantor. Ele tem a escola de cantar sem ampliação, a «voz do ovo estrelado a falar para o quarto andar», como dizia...

25 de Abril
A maior imagem do 25 de Abril que tenho é a do Paredes a tocar os Verdes Anos. Eu estava sentado no palco, no chão. De repente, percebi que tinham passado alguns anos dos meus verdes anos e que estávamos ali juntos a viver um acontecimento extraordinário. Mas a primeira sensação, quando cheguei, em Maio de 74, foi o cheiro das casas, quando entrei num hall e senti o cheiro das comidas e dos azulejos. Foi quando senti que tinha chegado.

Cantos Livres
Os cantos livres foram espectáculos que valeram pela urgência, pela presença, pela necessidade de as pessoas se encontrarem para ouvir canções que eram apresentadas muitas vezes em esboço. Mais tarde entraram na moda os unpluggeds. Mas aquilo de cantarmos sempre juntos, com más condições, passou a ser muito limitativo. No entanto era uma resposta muito necessária na altura, e acho que houve coisas magníficas.

Gerações
A geração mais nova tem ídolos e referências da sua idade. Mas penso que é importante que as minhas canções falem de coisas que lhes toquem. Acho interessante que eles tenham necessidade (e isso é uma coisa mais dos anos 90 que dos anos 80) de encontrar caminhos que ficaram para trás, na música e noutras coisas, e que vão descobrindo. Porque nós somos um país com pouca memória fixada. Não há o hábito de ter essa memória no activo.

Publicado por ruitavares em sábado 27 setembro 06:42 | TrackBack

Barnabé XL

Hoje daremos início a uma nova prática no Barnabé: publicar textos mais longos cuja meta não seja talvez tanto a de serem lidos no computador, mas antes impressos e lidos no papel. Chamamos a este formato Barnabé XL. Em princípio será semanal, e publicado perto do fim-de-semana. Começamos com um texto encontrado no baú e que é uma coincidência feliz: uma entrevista a Sérgio Godinho em 1999, por Daniel Oliveira e Luís Leiria, e onde se fala (entre muitas outras coisas) do Barnabé, ele-mesmo-o-outro!
P.S.: Como o modo de leitura destes textos será provavelmente diferente do comum, eles abrirão numa janela à parte, e ficarão também guardados nos links aqui à esquerda durante mais tempo do que o habitual. Por outro lado, não receberão comentários na sua janela, para não obrigar a pessoa que imprime o texto a imprimir também os comentários. Estes serão bem-vindos, contudo, bem como qualquer sugestão, no nosso ismael. Bom proveito.

Publicado por ruitavares em sábado 27 setembro 06:05 | Comentários (0) | TrackBack

Said essa

[1] O Luciano Amaral pegou na minha posta de ontem sobre o tratamento que o Valete Fratres prestou à memória de Edward Said. É importante esta contextualização: o meu post era uma resposta à atitude de alguém que não sabe jogar limpo. O Valete Fratres, aliás, reincide hoje, discutindo com o Barnabé sem se dignar a linkar, citando o já amplamente desmentido e desacreditado artigo de Justus Weiner que pretendia denunciar que Edward Said não era sequer palestiniano [!] (ataque qualificado como scurrilous, baixo e vil, neste artigo, pelo mesmo Christopher Hitchens que eu e tu, Luciano, citamos como um crítico feroz de Edward Said). Ora já que decidiste comentar o meu post, que era sobre isto e não sobre outra coisa, gostaria de saber a tua opinião sobre esta forma do Valete Fratres entender o debate político e intelectual. Não te merece nenhum comentário?

[2] A minha ideia não era, pois, apreciar toda a obra e posicionamentos do Edward Said, quanto mais edulcorá-lo como tu dizes (no entanto, eu não tenho culpa que ele tenha feito coisas, como a Orquestra da Paz com o Barenboïm, que são admiráveis – deveria escondê-lo para não correr o risco da edulcoração?). Era antes colocar-me do seu lado contra lançamentos de lama cobardes. Eu sei que concordas comigo que, se queremos atacar alguém, é bom que seja por alguma coisa que esse alguém fez ou era.

[3] Mas tu, ao contrário do Valete, queres discutir o que o Said efectivamente era. Pode ser epistemologicamente impossível, mas pelo menos pode tentar-se. Vamos a isso. Não gosto de tudo o que ele escreveu: o Culture and Imperialism parece-me, tirando a magistral análise do Heart of Darkness / Coração das Trevas de Conrad, um livro um tanto chato. O Beginnings, por outro lado, demasiado tributário das modas literárias da altura, a semiologia e o estruturalismo. Se tivesse lido tudo o que ele escreveu sobre questões políticas, coisa que não fiz, também seria capaz de lá ter encontrado matéria para discordar. Por outro lado, a recuperação que faz de Giambattista Vico é de excelente nível, e o Representations of the Intellectual uma pequena obra genial. No fim de contas, nada mau – tomara nós, meu caro.

[4] Por outro lado citas o artigo do Hitchens na Atlantic Monthly, "Where the twain should have met" (um idiomatismo que dará qualquer coisa como, "onde os caminhos se deveriam ter cruzado"), concordando com a sua descrição de Said como "não suficientemente moderado" e criador de caricaturas e distorções sobre o Ocidente no Oriente. Olha Luciano, sabes francamente o que é que me parece? Que o Hitchens é pobre e mal agradecido. O Said não era suficientemente moderado? Então podeis procurar debaixo das pedras e em cima das árvores e não encontrareis outro palestiniano mais moderado do que ele. E porquê? Porque mais moderado do que aquilo já não seria moderação mas traição à pátria. E não deixa de ser curioso que gente que nos chama a atenção para o direito dos americanos a serem patrióticos não perceba que o homem era palestiniano, tinha amor à sua terra, e mais moderado do que aquilo não conseguiria nunca ser. Isso, ao menos, foi entendido de viés por gente do calibre de Weiner, que não podendo negar-lhe o direito ao patriotismo, tentou acusar Said de não ser palestiniano.

[5] Quanto a essa ideia de que a grande culpa do Said é a de ter criado incompreensões entre o Ocidente e o Oriente. Não passa despercebido a qualquer leitor, ainda que iniciante, de Said, que o homem não era dado a simplificações. Se o Said não te dá mesmo nada, como dizes, para entender nem o Oriente nem o Ocidente, parabéns Luciano!, é sinal de que não precisaste de o ler para saber o que ele dizia. Só é curioso que ele fosse tanto ou tão pouco anti-ocidental que foi permanentemente acusado pelos árabes de ser um ocidentalizado, etc. De tal forma se eximia a criticar o Oriente, como tu dizes, que era persona non grata entre os islamistas. (E já agora: levas a sério o Hitchens, um autor que tanto na sua fase trotskista como na actual, pró-guerra, nunca primou nos seus escritos por mais do que uma negligente superficialidade, quando não ignorância pura e simples? Quanto a mim, não gosto dele nem de esquerda nem de direita).

[6] Ainda que o Said fosse esse intelectual ressentido e pós-moderno que desejavam que ele fosse, o que é que isso tem a ver com o actual péssimo estado das relações entre o Ocidente e o Islamismo? Se estou de acordo em que a causa do terrorismo da AlQaeda (por exemplo) não está na pobreza, não te parece patético que ande gente numa cruzada de nível Torquemada contra um teórico da literatura, nova-iorquino, especialista em Joseph Conrad e Jane Austen (e ainda por cima infiel protestante!) como sendo o grande municiador dos ataques anti-ocidentais por esse mundo fora? Ora é mais do que evidente que Said era mais parecido contigo do que com aqueles contra quem os americanos se batem na Ásia Central e no Médio Oriente.

[7] Dizer que as ideias do Said "vão infelizmente continuar vivas", como fez o Valete, parece-me de péssimo gosto (a ti não sei o que te parece porque decidiste não comentar o cerne do meu post). Deixar o luto intelectual para outros, como tu fazes, não tem mal nenhum. Só gostava de saber para que serve esta amalgamação, em segunda mão, entre a obra do Said e as perversas caricaturas do Ocidente, etc (ou, paralelamente, entre a esquerda ocidental e o terrorismo islâmico). Ou, colocada a questão de outra forma: Said foi de facto "where the twain have met", melhor ou pior (para mim, melhor do que pior). O que é que o Ocidente ganha em ficar a falar sozinho?

Um abraço do Rui (e não te esqueças de que ainda temos aí um projecto para fazer juntos).

Publicado por ruitavares em sábado 27 setembro 05:43 | Comentários (0) | TrackBack

A manta de retalhos

Vem-me à cabeça a imagem de uma daquelas mantas velhas esburacadas pelas traças que rasgam em qualquer lado por onde se puxe, para definir a situação a que o país chegou. Para além das pontes que caem e dos fogos que queimam o que resta, apercebemo-nos que os institutos e os homens que, supostamente, nos protegem das quedas e das chamas ou não existem ou, estão, a gozar connosco. Depois de quase tudo se desmoronar só nos restava acreditar nos bombeiros. Pelo menos eles existiam, os homens que quase se deixavam engolir pelo fogo para salvar vidas e património. Ontem até o mito do bombeiro deixou de ser intocável, ao assistirmos à reportagem sobre os passeios de helicóptero promovidos pelo comandante dos bombeiros de Lamego. 700 contos paga o Estado, por cada hora de utilização, à empresa proprietária do veículo, que são desperdiçados em voltinhas turísticas para os amigos verem ao vivo as extensões de área ardida que os bombeiros não puderam apagar (por falta de meios). Enfim, resta-nos acreditar que estes bombeiros são a excepção.
[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]

Publicado por ruitavares em sábado 27 setembro 04:00 | Comentários (0) | TrackBack

Olho por olho para acabar com a cegada

Não conhecia ainda o Homem a Dias. mas a coerência colocada num dos seus últimos posts, que responde ao meu «MFA israelita voa mais alto» fez de mim um cliente para a vida. De facto, Eyeless em Gaza pauta muito bem o olho por olho que o autor propõe ao longo do texto. Ao mesmo tempo que declina uma equivalência moral, exige uma equivalência aritmética das vítimas. Confesso, nunca fui bom em matemática e a partir da casa dos milhares de mortos tendo a perder-me. Mas, se ao meu interlocutor interessa, devo dizer-lhe que via com muito bons olhos (eu ainda conservo os meus) que alguns jovens fanáticos do Hamas pudessem sair do transe (não sei se 25 se 50, quantos mais melhor). Há alturas em que a quantidade cede realmente à força das convicções. Se pensar bem na fraca figura de Salgueiro Maia com meia dúzia de chaimites e alguns adolescentes fardados a marchar para Lisboa perceberá o que quero dizer. Eu vejo neste acto de recusa um gesto que rompe irremediavelmente um círculo de toma-lá-dá-cá e é por vir do interior de uma sociedade militarizada que é extremamente importante que tenha sido feito por militares. Eu não sei se você acha bem que se bombardeiem prédios inteiros para apanhar um homem só. Por mim afligir-me-ia ter medo de cada vez que esperasse um autocarro. Estará você em condições de ter tanto medo como eu?

Publicado por celsomartins em sábado 27 setembro 02:32 | Comentários (3) | TrackBack

Tratar deus por tu

Há livros que deviam ser de leitura, não propriamente obrigatória, mas de distribuição gratuita anexa a certas obrigações perante o Estado. Do tipo, na repartição de finanças: vem pagar o IRS? Ok, mas enquanto espera damos-lhe aqui este livro para ir lendo. Cai nesta categoria, no meu entender de leitor modesto, o velhinho Sobre "formas de tratamento" na língua portuguesa de Luís F. Lindley Cintra (Livros Horizonte, 1972). Só hoje peguei nele pela primeira vez para lê-lo. São pequenos ensaios que dizem tantas, mas tantas coisas de interesse sobre Portugal que uma pessoa fica quase cega. Isto com o desconto que se deve dar a quem anda cá fora, nostalgicamente, a lutar pela vida.

Um dos artigos, que não acabei, é sobre formas de tratamento de deus em orações e na poesia. E Lindley Cintra diz esta coisa espantosa, que eu nunca tinha percebido, mas que já tinha sentido quando de vez em quando assisto a missas: a língua portuguesa é a única que manteve, nalgumas orações religiosas fundamentais (Pai Nosso e Ave Maria, por exemplo), não meramente uma forma de tratamento que cria distância em relação a deus, mas uma forma de tratamento que começou a entrar em desuso e a ser considerada vulgar no século XVIII: o vós no singular. Como em 1721 escreveu o P.e Rafael Bluteau, que vinha de família francesa e tinha nascido em Inglaterra, "he cousa notável que a Jesu Christo falem os Christãos por vós: vós sois meu Deos, vós sois meu Redemptor e que hum vós de hum homem a outro homem pareça injúria...". Todas as outras línguas latinas, mais cedo ou mais tarde, introduziram o tu naquelas orações, denotando assim uma intimidade com o destinatário, no caso, deus. Na nossa língua a forma de tratar deus criou uma distância enorme com a língua viva. Segundo Cintra, houve alguma hesitação, nas traduções do Novo Testamento dos anos 50 do século XX, sobre a norma a usar. Mas o "vós" singular prevaleceu em detrimento do muito mais bonito "tu": "Ave Maria cheia de graça, o Senhor é contigo..." ou "Pai Nosso que estás nos Céus, santificado seja o teu nome...".

Publicado por andrebelo em sábado 27 setembro 00:31 | Comentários (1) | TrackBack

setembro 26, 2003

Nova bronca para Berlusconi

As más notícias para Berlusconi continuam: o jornal La Repubblica publicou hoje uma reportagem que envolve Carlo Taormina, deputado da maioria no poder e advogado próximo de Berlusconi, num processo de falsificação de provas e difamação contra Romano Prodi, Fassino (líder do partido DS) e outros dirigentes da esquerda. A história relaciona-se com irregularidades na compra da Telecom da Sérvia na altura em que a esquerda estava no governo. Uma comissão de inquérito parlamentar existe há vários anos. O processo é difícil de compreender para quem não costuma acompanhar por dentro a política italiana, como é o meu caso, e continuam responsabilidades por apurar. Mas o dito Taormina confirmou há pouco a história do jornal e demitiu-se. Ou seja, admite ter ajudado a forjar acusações falsas. Depois de Previti, é o segundo advogado próximo de Berlusconi em muito maus lençóis. Este, é claro, vai negar qualquer envolvimento na história e dizer que é tudo obra dos comunistas. Mas politicamente a coisa complica-se.

Workaholic

Maria Elisa vai ganhar 2.600 contos para ser adida de imprensa. Não sei como é que ela aguenta. A fadiga crónica, o “Guardian” a querer saber coisas sobre Portugal, o licença sem vencimento na RTP, a baixa no Parlamento. Onde é que esta mulher arranja tempo?

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 26 setembro 15:25 | Comentários (3) | TrackBack

Salvem a Itália

Berlusconi deu duas razões aos investidores estrangeiros para apostarem em Itália: «secretárias deslumbrantes, mulheres incríveis» e «muito menos comunistas».

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 26 setembro 15:00 | Comentários (3) | TrackBack

Deixem-nos trabalhar

Os polícias que andam a investigar o caso da Pedofilia dizem que, estando obrigados a dizer, aos que estão presos, aquilo de que são acusados, a investigação será impossível. Kafka não se lembraria de melhor.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 26 setembro 14:59 | Comentários (2) | TrackBack

Inimigo Público

O suplemento humorístico do Público é excelente e conta com a participação qualificada de várias pessoas da blogosfera. “Inimigo Público”, mais tarde ou mais cedo, o seu “Público”.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 26 setembro 14:58 | Comentários (0) | TrackBack

Concentração

Como estive ligado à elaboração projecto-lei sobre a concentração dos media, coibi-me de escrever aqui sobre ele. Escreveu Miguel Sousa Tavares. O que eu tinha para dizer, disse-o ele.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 26 setembro 14:54 | Comentários (6) | TrackBack

O problema mais grave

A propósito de propinas, sempre tive ideia que o problema mais grave era outro: calcular quanto deve pagar um aluno a partir dos rendimentos dos pais pressupõe que não estamos a falar do maior que, forçosamente, o estudante universitário é. Isto, que pode parecer um preciosismo, não significa apenas um desrespeito pelo direito ao reconhecimento da individualidade e da maioridade de gente com mais de dezoito anos. Pior do que isso, é um ataque à sua autonomia. E aqui já estamos a falar de um problema social e político gravíssimo. Quando uma sociedade não permite (e acha natural e instititucionaliza essa impossibilidade) que as pessoas se tornem independentes, em muitos casos, antes dos trinta anos, está nem mais nem menos do que a roubar-lhes liberdade.
[Luís Trindade, dos Amigos do Barnabé]

Publicado por ruitavares em sexta-feira 26 setembro 13:16 | Comentários (7) | TrackBack

Profecia setecentista sobre os blogues

"Ninguém compreende melhor do que eu as limitações deste tipo de publicação, mas infelizmente isso não pode ser remediado, em parte pela necessidade de aparecermos a intervalos regulares, e de nos limitarmos a uma quantidade fixa de espaço, [e] em parte por causa das solicitações do público para ter sempre qualquer coisa nova, por mais incerta e pouco confirmada que ela seja, não permitindo que se use esta colecção para inserir artigos e documentos dignos de conservação que não se pôde publicar na altura própria".

Carta de J. Luzac, editor da Gazeta de Leiden, a um correspondente não identificado, provavelmente A. Caillard, datável entre 1785 e 1787 (Bibl. Univ. Leiden, Luzac, cartão 28, nº 69)

imagem do dia


Joshua Benoliel, Eclipse, Rossio, Lisboa, 1912.

Publicado por ruitavares em sexta-feira 26 setembro 04:39 | Comentários (2) | TrackBack

Said aqui

[1] Sigo o Valete Fratres há já algum tempo e parece-me um blogue interessante, com ideias completamente opostas às minhas, que faz uma recolha de textos que muitas vezes vou ler. É por isso que linko para ele, coisa que ele não se digna a fazer ao responder-nos, aparentemente porque para ele somos "um certo blog da extrema-esquerda".

[2] Two times is too much. Mas além da posta que comentei abaixo, o Valete Fratres comentou a morte de Edward Said assim: "Edward Said, RIP. Infelizmente, as suas ideias continuarão vivas..."

[3] Que ideias de Edward Said é que "infelizmente" "continuarão vivas"? Era Said um apologista do totalitarismo? Não; Said era no máximo, um social-democrata, ou um reformista. Um fundamentalista islâmico? Tão pouco. Said era um cristão, educado no protestantismo anglicano (ao ler os nossos filo-americanos, daria a sensação de que estas coisas vacinavam para a vida) e defensor do secularismo. Apoiante do terrorismo? Pelo contrário. Apesar de ter perdido o seu país, a Palestina, Said defendeu sempre a resistência civil pacífica. Militante da OLP durante anos, afastou-se de Arafat em protesto contra a natureza corrupta da sua presidência. Talvez pudesse, enfim, ter sido um desses perigosos relativistas pós-modernos a quem está na moda, hoje, culpar de tudo e da morte do Manolete; mas nem isso, como verá quem ler a sua obra em história e crítica da literatura. Finalmente, um dos últimos exemplos da sua actividade política foi ter fundado com Daniel Barenboïm, pianista israelo-argentino (o próprio Said era um pianista que poderia ter seguido carreira, veja-se a opinião, aliás muito crítica em termos políticos, de Christopher Hitchens) uma orquestra da paz com jovens israelitas e palestinianos.

[4] Em suma, mesmo não subscrevendo a 100% a obra de Edward Said (porque raio teria de o fazer?), parece-me claro que foi alguém que manteve uma enorme honradez e dignidade em tempos difíceis. E um ataque destes é ou cobarde, ou ignorante, ou desonesto – ou tudo ao mesmo tempo – e por cima ridículo.

[5] Portanto, entendamo-nos de uma vez por todas: o debate de ideias não é nem um campo de futebol, nem um campo de concentração.

Publicado por ruitavares em sexta-feira 26 setembro 02:53 | Comentários (2) | TrackBack

O homem-partido

Como Paulo Portas se queixou hoje na TV de que lhe dávamos demasiada importância, só não resisto a comentar dois lapsus linguæ. Sobre o caso Moderna: "Nunca houve em Portugal uma tentativa assim de abater uma pessoa enquanto partido [sic!]". Sobre Manuel Monteiro: "Sabe eu acho que os partidos são muito mais instituições do que pessoas".

Publicado por ruitavares em sexta-feira 26 setembro 01:54 | Comentários (1) | TrackBack

setembro 25, 2003

MFA israelita voa mais alto

Alguma coisa ficou irremediavelmente diferente no que respeita à legitimidade do governo israelita. o levantamento dos oficiais que se recusaram a cumprir ordens é mais importante do que qualquer das quase invisíveis resoluções da ONU. É um dardo ao coração da sociedade israelita e uma grande oportunidade para ultrapassar a lógica do terror que dita todas as suas últimas opções. Esta acção fez mais pela resolução do conflito do que todos os acordos de paz. Oxalá, depois do petardo e da pedra, o processo conheça outros frutos.

Publicado por celsomartins em quinta-feira 25 setembro 20:19 | Comentários (0) | TrackBack

Ainda há heróis

“Vinte e cinco pilotos da força aérea israelita recusam executar missões nos territórios palestinianos, tendo entregue uma petição nesse sentido ao seu comandante, Dan Haloutz, revelou quarta-feira a rádio pública israelita. (…) As acções das forças israelitas com helicópteros e aviões de combate visando alvos mortais - activistas e responsáveis palestinianos - causam frequentemente vítimas entre os civis. A 25 de Janeiro de 2002, 52 oficiais e soldados do quadro da reserva do exército anunciaram também que não iriam operar mais em territórios palestinianos. Não continuaremos a combater além da linha verde (nos territórios palestinianos) com o objectivo de oprimir, expulsar, esfaimar e humilhar um povo, escreveram, numa petição que reuniu várias centenas de assinaturas e suscitou viva polémica em Israel.” Esta é uma notícia da LUSA

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 25 setembro 20:03 | Comentários (2) | TrackBack

Manel is in our heart

há alturas em que o barnabé é apenas uma pessoa e uma só voz. As melhoras do Manel!

Publicado por celsomartins em quinta-feira 25 setembro 19:32 | Comentários (0) | TrackBack

Parem as máquinas!


Morreu Edward Said