Farei tudo o que estiver no meu poder para resolver os problemas sem derramar uma gota de sangue.
Frase de Fidel Castro, proferida na época da revolução cubana e relembrada ontem por Catherine Deneuve na sessão de denúncia da repressão castrista promovida em Paris pelos Repórteres sem Fronteiras.
Ia hoje a entrar na biblioteca da minha escola e deparei com um cartaz que anunciava: "Em 2020, 77% da população do planeta viverá em cidades do Terceiro Mundo". Isto é, em condições muito piores do que a esmagadora maioria dos habitantes da Europa comunitária. Isto é, gente capaz de fazer tudo e mais alguma coisa para fugir daquelas cidades e vir para outras onde as perspectivas de vida sejam mais decentes. Li estes números e espantei-me: não é nada que não soubesse já. Mas ir a subir uma escada e apanhar com eles na cara é sempre brutal. Depois pensei na irresponsabilidade que é pensar que alguma vez se conseguirá fechar as portas a estas pessoas.
Pedro Lomba – bom regresso – diz que se Said tivesse um blogue seria como este. Obrigado Pedro. E remata: “parece-me certo que a paz entre israelitas e palestinianos jamais se faria com intelectuais como ele.” Não discuto essa matéria, já muito debatida. Mas se excluis Said, o mais moderado e tolerante para com os israelitas dos nacionalistas palestinianos, de forma tão liminar, então é melhor assumires que a paz entre israelitas e palestinianos jamais se fará com qualquer palestiniano. Sharon não anda longe disso.
O PP deixou claro que não está disponível para um novo referendo à legalização do aborto. Eles lá saberão porquê. Não estão disponíveis, apesar de saberem que menos de metade (um terço) dos eleitores portugueses votou no último referendo, o que o torna, do ponto de vista formal, inexistente. É por razões políticas que o PP não está disponível para a consulta, apesar de, entretanto, um novo facto ter alterado as coisas: na Maia, descobrimos que, afinal, as mulheres que abortam podem ser julgadas. O PP não quer novo referendo porque sabe da fortíssima probabilidade de, desta vez, o conservadorismo mais serôdio ser derrotado.
Jorge Sampaio tem dúvidas sobre o referendo à Constituição Europeia. Mas há alguma coisa em relação à qual Sampaio não tenha dúvidas?
Hoje, no DN, Luís Delgado faz um dos exercícios mais entusiasmantes da sua carreira de comentarista. Diz que Schwarzenegger vai ganhar. Diz qual a percentagem que vai votar pela queda do governador democrata e qual o resultado de cada um dos candidatos ao lugar. Tudo com percentagens exactas. E depois, tira as conclusões. Aconselha mesmo o PS a retirar ilações do resultado de Bustamante, esquecendo-se que os números que aparecem no seu ecrã foram escritos e pensados por ele mesmo, Luís Delgado, o próprio. Há homens que levam a argumentação circular até às últimas consequências.
Outro dia, alguém me dizia que, na blogosfera, funciona a economia de mercado: sobrevivem os melhores. Claro que reagi. Não segui a linha fácil: dizer-lhe que o desmentido estava no número exorbitante de visitantes do Barnabé. Preferi fazer um exercício: se a economia de mercado funcionasse realmente, em que estado ficaria a blogosfera?
Primeiro, a Microsoft compraria o blogspot e a PT o Weblog.com.pt. A PT cobraria uma taxa de acesso, a Microsoft venderia o software necessário para construir as páginas.
Depois, a mesma PT compraria os blogues do Mexia e do Lomba, encheria de publicidade aos seus produtos e transformaria os dois blogues – já fundidos, para aproveitamento das sinergias, e com o nome de “Flor do Diabo” – em portal multimédia. A Coluna Infame seria reactivada pelo grupo como canal de venda de brindes.
O Belmiro compraria a Glória Fácil, despediria os cinco jornalistas – por necessidades de redimensionamento provocadas pela empresarialização crescente deste mercado – e punha dois estagiários do Público a trabalhar para o blogue. Ao fim de dois anos fechava a página.
Um grupo espanhol compraria o blogue do Pacheco Pereira.
A maioria parlamentar, pressionada pelo CDS/PP, aprovaria uma lei que obrigaria à codificação do Meu Pipi. Um juiz encerraria o Muito Mentiroso. O Blog de Esquerda seria contactado para fazer o blogue de “A Dois” e mudaria de nome para “O Blogue”. O Barnabé, a braços com problemas financeiros insanáveis, acabaria por aceitar a entrada no grupo Media Capital que, passados seis meses de prejuízo, substituiria a equipa, agora dirigida por um aluno de Marcelo Rebelo de Sousa.
Os pequenos blogues acabariam por fechar. No “Diário Económico”, um especialista explicaria que Portugal é um dos países com mais blogues por habitante e que esta irracionalidade económica é pouco saudável. Remataria com uma frase indiscutível: o que é importante é que sobrevivam os melhores.
Conclusão: nos blogues, não funciona a economia de mercado. Isto está mais próximo do socialismo, mas sem senhas de racionamento, planos quinquenais e prisões políticas.
E agora espaço para uma mensagem pessoal: Nuno Miguel Camarinhas, vulgo NMC, vulgo Camarnhaf, quando é que crias um blogue? Estive a ler pedaços da literária Caderneta da Bola e pensei em ti, na tua erudição futebolístico-discográfico-cibernético-historiográfica e de como ela se adequaria ao formato blogue. Mas tu de certeza que já pensaste nisso e, se ainda não tens blogue, é por boas razões, e se hoje essas razões são boas é porque um dia vão deixar de ser.
Em debate com Saldanha Sanches na Sic Notícias, Telmo Correia assumiu que a mudança de posição do PP em relação à Europa serviu a sua estratégia de participação no governo. Em matéria de convicções estamos conversados. Em matéria de descaramento também.
Bruce Willis disse que pagava um milhão de dólares para estar quatro segundos com Saddam. Ele há homens rápidos e pouco exigentes.
Um ano e meio de trabalho parlamentar de Maria Elisa:
1 intervenção num debate
1 voto de protesto
1 relatório sobre um projecto de Lei do PS
2 pedidos de esclarecimento no plenário
2 interpelações à mesa
2 declarações de voto
0 projectos de Lei
0 resoluções
0 requerimentos
0 declarações políticas
3 votos de pesar

Morreu Elia Kazan. Pouco a pouco, todos, incluindo eu, se esquecerão que foi um delator. Fica o melhor de Kazan: os filmes daquele que é, provavelmente, o melhor realizador da história do cinema.
No congresso do CDS/PP, Paulo Portas dirigiu-se ao seu eleitorado, chamando-lhe o “Povo da Aliança”. Quem é Durão? Jedi? Quem é Paulo Portas? A princesa Leila? Por mim, estou com Darth Vader.
O CDS/PP falou da sua história. Por falta de tempo, não pôde referir alguns pormenores: Freitas do Amaral, Lucas Pires, Manuel Monteiro e Adriano Moreira. Ficou Adelino Amaro da Costa, que está morto, e o querido líder Paulo Portas.
Sobre a concentração da posse de meios de comunicação social e a possibilidade da fusão entre a PT Multimédia e a Impresa, José Luís Arnaut afirmou que estas empresas “respondem perante a bolsa e não perante o Estado”. No que toca a liberalismo económico e leis do mercado esta gente é, definitivamente, aprendiz de feiticeiro.
Disse apenas que os intrusos tinham chegado e não acrescentei mais nada. Agora digo que ainda mal começou e já tem muito que ler. Conta com a participação de José Tolentino Mendonça, que já respondeu, ontem e hoje, a partir da sua posição de crente, às reacções muito críticas que as reformas de que se fala na Igreja suscitaram fora dela. Tem outros ricos contributos de outros blogueadores-escritores que são, pelo menos para mim, menos conhecidos. Como o Barnabé é contra a dicotomia dentro-fora, consideramos que não pode haver intrusos numa casa que não tem paredes. Bem vindos.
Afinal é tudo falso. Do meu post de anteontem Nova bronca para Berlusconi não sobra uma vírgula sequer que seja verdadeira. Carlo Taormina veio ontem desmentir à imprensa tudo aquilo que tinha admitido em declarações à mesma imprensa na véspera. Não se demite, e tudo o que o que o La Repubblica afirmou sobre a sua participação na falsificação de testemunhos no inquérito parlamentar ao caso Telekom Serbia afinal é falso. Razão tinham os jornalistas quando, desconfiados do tom desabrido da supostamente verdadeira confissão, lhe tinham perguntado: "mas está mesmo a falar a sério ou as suas declarações são irónicas"?. A estes, a quem anteontem Taormina tinha respondido falar a pura verdade, disse ele ontem: "a minha ‘confissão’ foi propositadamente falsa e, se a tomaram por verdadeira, isso serve para demonstrar os métodos pelos quais se a informação de esquerda se rege, tratando o falso por verdadeiro".
Vamos ver a repetição? O deputado-advogado diz à imprensa que o que a imprensa escreveu sobre ele é verdade. No dia seguinte desmente essa verdade que disse e diz que essa verdade é uma mentira dita para demonstrar que a imprensa acredita nas mentiras que ele apresentou como verdadeiras. Não falemos de questões éticas. Taormina é o verdadeiro fingidor de que fala o poeta. Ele eleva a novos cumes a estética na política.
O povo gritava pelo seu D. Sebastião: “Rui Teixeira, Rui Teixeira, Rui Teixeira”. As novas vedetas, ansiosas pelo minuto de fama que todos merecemos na vida, faziam o seu número. Granja e Namora abraçavam-se para gáudio do branco povo que via assim as suas vítimas de estimação de novo em paz. Catalina Pestana prestava-se, para tristeza minha, ao número. Eu que esperava que ela afastasse a Casa Pia dos holofotes, passo a vida a vê-la em jantares de solidariedade, jogos de futebol de solidariedade, bingos de solidariedade. Todos querem estar solidários. João Pedroso lá foi, porque quem não salta é pedófilo. Num cartaz podia ler-se: “pedofilia – castração – prisão perpétua”. Para que Manuela Eanes, Dulce Rocha, Odete Santos e todas as senadoras dos bons sentimentos fiquem a saber: quem semeia ventos colhe tempestades.
O Palácio de Cristal não foi cercado este fim-de-semana. Quando vimos Avelino Ferreira Torres passear pelo congresso do CDS/PP, percebemos que a democracia chegou para ficar.
« Bivalent influenza vaccine, incorporating a type A and a type B strain in a single vaccine, is now available from many manufacturers. The strains included are those considered most likely to infect patients this winter. As in the past, there is no certainty that the vaccine will be effective since new strains may continue to emerge. To assure protection of high-risk patients before the usual influenza season, the vaccine should be given by early November »
The Medical Letter on Drugs and Therapeutics, 56 Harrison Street, New Rochelle, N.Y., vol. 16, n° 20 (Issue 410), September 27, 1974
"...Já me vieram uma vez perguntar se o Barnabé, porque foi feito durante a "primavera marcelista", era o Marcelo Caetano. Por amor de Deus! Depois chegaram a perguntar-me se era o Otelo!..." Sérgio Godinho, entrevistado por Daniel Oliveira e Luís Leiria.
Entrevista: Daniel Oliveira e Luís Leiria
Edição original Vida Mundial Abril de 99.
Dos primeiros anos da década de 70 até hoje, Sérgio Godinho cantou Portugal, por dentro e por fora, cá dentro e lá fora. Cantou a esperança nas vésperas do fim da ditadura; o «excesso e a contenção» do Verão quente, em que «se desenhavam porcas e paredes de um edifício que não existia»; o desalento do fim da revolução; os primeiros anos de conversão dos que foram pedindo: «arranja-me um emprego». Perguntou: «que é do futuro que nos mostraram naquele dia de sol?» Falou de Etelvina e de Alice, da guerra e da droga. E cantou desencontros, «como à espera do comboio na paragem do autocarro». No amor e na política. Escolhemos as músicas. E ele falou delas.
Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos
Estou quase a ir embora, mas deixo aqui /duas palavras p'ra um filho que perdi /Não quero dar-te conselhos /Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos /Doa a quem doer, faz o que tens a fazer
A letra nasceu para uma música do Zeca Afonso, que eu conheci em Paris. Ele era uma personagem realmente fascinante, estava sempre a disparar em todas as direcções, era extremamente curioso, tinha um discurso múltiplo e um humor sempre presente. Nós estávamos a começar a compor. O Zé Mário Branco, um pouco mais adiantado que eu, compunha há mais tempo. Eu preparava o material para o meu primeiro disco, Os Sobreviventes. E o Zeca ficou muito entusiasmado, achava que aquilo era muito diferente do que ele fazia. Dizia: «Eh, pá, eu estou ultrapassado, vocês é que estão a fazer coisas novas...» O Zeca para mim era uma paixão, acho que nunca ficou ultrapassado. Mesmo hoje ainda se nota nos discos dele uma modernidade muito grande.
Ele tinha uma música, que é hoje o Maio, Maduro Maio, para a qual não tinha letra. E numa conversa apareceu a hipótese de eu fazer a letra para ela. Comecei a pensar num caso de memória antiga, que o Zeca tem às vezes nas suas canções. E fiz essa letra sobre a música do Maio, Maduro Maio. Mais tarde, o Zeca foi a Paris para gravar as Cantigas do Maio, e já se tinha esquecido completamente do pedido. Entretanto tinha feito uma letra para aquilo, que é muito bonita; e eu fiquei com o filho nos braços, com aquela letra pendurada.
Engoli aquilo bastante bem, porque o Zeca era tão genuíno, que eu sabia que não havia nenhuma espécie de sacanice. Então, o Zé Mário ofereceu-se para fazer uma música para a letra. Nunca fiquei muito satisfeito com a gravação da minha versão, não gostei, vocalmente acho que é pouco interessante, eu estava muito preso naquela canção. Felizmente, depois, o Zé Mário gravou-a de outra maneira. Há pouco tempo, uma professora universitária que estava a fazer um trabalho sobre Brecht veio perguntar-me se aquilo tinha que ver com o Brecht, porque o Zé Mário pôs-lhe como subtítulo Mãe Coragem. Não tem. Só tem na medida em que aquele tipo de personagens existe muito no teatro brechtiano - é mais uma questão de imagens do que ser realmente a tradução de uma peça como A Mãe Coragem.
Que Força É Essa
Que força é essa /que força é essa /que trazes nos braços /que só te serve para obedecer /que só te manda obedecer /Que força é essa, amigo /que força é essa, amigo /que te põe de bem com outros /e de mal contigo
É inspirada num certo tipo de batida sul-americana, que partiu de um olhar, de uma ideia: nós usamos muitas vezes a força real que temos de uma maneira errada. Que força é essa que tu tens realmente em ti mas não usas da maneira mais adequada? Passa uma imagem de revolta, mas também de consciencialização.
Romance de Um Dia na Estrada
Andava há já vinte dias /Ao frio, ao vento e à fome /Às escondidas da sorte /Um dia fraco, outro forte /Que o dia em que se não come /É um dia a menos para a morte /Um dia fraco, outro forte
Nesses anos, andava de facto na estrada. Esse nome tinha de aparecer, porque o On the Road foi o livro que me fez partir, tive uma necessidade absoluta e quase física de partir e conhecer outras coisas, de vagabundear. E dessa vagabundagem faz parte uma aprendizagem vivencial, sexual, etc. O Romance de Um Dia na Estrada segue muito um certo padrão de romance, no sentido antigo do termo, da tradição oral. É uma canção folk, mas reflecte muito a maneira como eu vivia... Sobretudo eu era muito experimentador e vivencial, na criação, na vida, na comida... Tem muito que ver com uma geração em que as pessoas tiveram de partir, seja por razões económicas, seja para fugir à guerra. E os portugueses sempre foram um bocadinho aventureiros nesse aspecto: se bem que mais On the ocean...
A Noite Passada
A noite passada um paredão ruiu l pela fresta aberta o meu peito fugiu /estavas do outro lado a tricotar janelas /vias-me em segredo ao debruçar-te nelas /cheguei-me a ti disse baixinho "Olá" /toquei-te no ombro e a marca ficou lá /o sol inteiro caiu entre os montes /e então olhaste /depois sorriste /disseste "ainda bem que voltaste"
É uma espécie de trip, é uma alucinação que começa com «Acordei com o teu beijo» mas é por aí que começa o sonho. É uma canção que tem qualquer coisa de especial para mim e é das poucas desse tempo que eu continuo a cantar e que atravessou gerações, o que me dá muito prazer - se as canto é porque sinto que há uma frescura nelas.
Há outras com menos frescura. É natural. Não é que o datado seja um defeito em si; o datado pode ter o seu charme, desde que seja bem usado. Mas também há canções, não sei por que razão, que nunca me deu jeito cantar em palco. Num espectáculo que fiz primeiro na Expo e depois no Rivoli com os Clã, eles queriam tocar canções que não fossem as mais recorrentes. E puseram O Homem-Fantasma, que é uma canção do Pano Cru que eu nunca tinha cantado ao vivo. Fizeram um arranjo que me deu muito gozo, não sei por que nunca tinha cantado aquilo. Mas há canções que por alguma razão não continuaram a existir, porque só se as continuasse a cantar continuariam.
De Coração e Raça
Sou português de coração e raça /meio século comido pela traça /fechados numa caixa /e agora ou vai ou racha /e agora ou vai ou racha
É um bocadinho forçada. Há coisas que nascem mais tortas que outras - não quer dizer que a facilidade ou dificuldade com que as coisas saem seja um critério, há as canções que me dão imenso trabalho mas são boas. As vezes é muito perigoso quando nos damos conta de que nos estamos a imitar a nós próprios, nos estamos a repetir - todos nós temos fórmulas para compor, para escrever. Não acho que seja das peças mais genuínas que tenho.
Um Tractor
Um tractor /dá que fazer ao suar /dos que põem na sementeira /as sementes da maneira /como as coisas se farão /e o nome revolução /pode bem ser atribuído /a um tractor assim usado /a um braço assim estendido /entre o futuro e o passado.
Uma homenagem às cooperativas que apareceram na altura, mas muito ligada também à minha amizade com o Camilo Mortágua, na altura da cooperativa da Torre Bela, que parecia ser uma tentativa de fazer algo diferente, mais desenquadrado do aparelho do PCP. Aquilo que a LUAR a seguir ao 25 de Abril procurou fazer, e que passava muito pela cabeça do Camilo, eram coisas como ocupações para fazer creches, coisas de outro teor que realmente tinham algo de anarquismo, no sentido nobre do termo.
O Tractor é uma homenagem à máquina, quando ela pode conviver com as pessoas e pode ajudar à construção colectiva de alguma coisa. É uma canção que saiu bem, que tem um tipo de cadência em que quase estamos a ver o tractor a funcionar. É talvez uma canção datada mas com charme.
Organização Popular
E da conjunção destes factores /pouco a pouco nasceu a ideia /de formar comissões de moradores /elegíveis em assembleia /e exigimos muito /fizemos projectos /ocupámos casas /e erguemos tectos /com a população /e até alguns arquitectos.
Liberdade
Vivemos tantos anos a falar pela calada /Só se pode querer tudo quando não se teve nada /Só quer a vida cheia quem teve a vida parada /Só quer a vida cheia quem teve a vida parada /Só há liberdade a sério quando houver /A paz, o pão /habitação /saúde, educação.
A Organização Popular fala de comissões de moradores e de trabalhadores da maneira como estavam organizadas na altura. Há coisas que são um espelho de um determinado momento, da época. Essa é como um jornal de parede, assim como Liberdade, que é um grafito em rock. Ela tem muito pouca letra, tem só a urgência: «só se pode querer tudo quando não se teve nada». É pegar em palavras de ordem, em conceitos que são simples, mas que vivem muito da música e da contundência do refrão. Aliás, cantei-a agora no Rivolitz num arranjo muito parecido, porque ela já tinha aquele ritmo rock.
Os Hinos
Adoradores do sangue, sempre /os hinos bebem quem os cumpre /quantos sentidos tem a palavra /que o hino tomou por escrava
Nunca fui muito virado para a canção de tipo heróico, para o hino. Penso que é uma coisa feliz que a senha do 25 de Abril tenha sido uma canção de raiz, tradicional alentejana como o Grândola e não um hino.
Barnabé
Vieram profetas /Vieram doutores /santos milagreiros, poetas, cantores /cada qual com um discurso diferente /pra curar a vida da gente /e a gente parada /fez orelhas moucas /que com falas dessas /as esperanças são poucas /mas quando o Barnabé cá chegou /Toda a gente arribou /Toda a gente arribou /Que é que tem o Barnabé, que é diferente dos outros?
Já me vieram uma vez perguntar se o Barnabé, porque foi feito durante a "primavera marcelista", era o Marcelo Caetano. Por amor de Deus! Depois chegaram a perguntar-me se era o Otelo!
Os Demónios de Alcácer Quibir
E o D. Sebastião levou tantas na pinha /que ao voltar cá encontrou a vizinha /espanhola sentada na cama, deitada no trono /e o país mudado de dono.
Foi feita para o filme do Fonseca e Costa, para o qual fiz várias canções, e a proposta está dentro da personagem, uma espécie de saltimbanco que toca viola; por isso a linguagem era um bocado básica, muito irónica, uma maneira popular de contar uma história. Tem um tom muito chocarreiro em relação à nossa história, é uma canção que dentro da nossa ironia é muito violenta. É uma crítica da intenção expansionista dos portugueses da época que influenciaram um miúdo, contra uma grande parte da corte, a participar daquela aventura completamente insensata. Inspirei-me no Oliveira Martins, que é tão violento como eu. Ele conta que os portugueses estiveram seis meses em festa em Lisboa e levaram dez mil guitarras para a batalha de Alcácer Quibir! Também quando digo que o mouro é que conhecia o deserto, faço, claro, uma referência à guerra colonial.
O Primeiro Dia
A princípio é simples anda-se sozinho /passa-se nas ruas bem devagarinho /está-se no silêncio e no burburinho /Embebe-se as certezas num copo de vinho /vem-nos à memória uma frase batida /hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
É uma reflexão sobre uma ruptura e o recomeço, uma canção vivencial sobre o que é uma ruptura e como a pessoa se sente de certo modo bem quando está sozinha, mas depois sente outra vez o peso da ruptura e o renascer. É uma canção iniciática.
A frase «hoje é o primeiro dia do resto da tua vida» - como eu digo no corpo da canção - já existia. Faço questão de dizer isso porque a originalidade é uma coisa relativa. Nesta canção criou-se uma nova vida para esta frase, é uma forma de originalidade que muitas vezes é uma reconversão.
É um bocado inevitável que a própria música tenha ficado um bocado batida. Houve uma altura em que deixei de a cantar, para a deixar repousar um bocadinho. Por outro lado, nos meus espectáculos não quero frustrar as expectativas de todas as pessoas, mas necessariamente vou frustrar algumas. Acho que não se deve dar só aquele repertório-tipo. No Rivolitz há até canções que não são minhas, há do Bob Dylan, do Serge Gainsbourg, do Zeca, até cantava uma música dos Doors que não está no disco. Até porque dá cabo de mim estar a fazer sempre a mesma rotina...
Lá em baixo
Lá em baixo ainda há quem passe /e um sonho que anda à solta /vem bater à minha porta /diz a senha da revolta /vou plantá-lo e pô-lo ao sol /até que se recomponha /é um sonho que acordado /vale bem quem ele sonha /lá em baixo, até já disse /que é que tem a ver comigo /e no entanto sobressalto /se me batem ao postigo
Ficou sem ser um hit, mas entrou na minha lista de preferências. Fala de coisas muito pessoais e ao mesmo tempo tem um bocado da ressaca do PREC. Claro que também fala de desencontros. O tema do amor em todas as suas vertentes para mim passa sempre pelos desencontros, pelos desamores, por precariedade, por recomeço...
Arranja-me Um Emprego
Se meto os pés para dentro /a partir de agora /eu meto-os para fora /se dizia o que penso /eu posso estar atento /e pensar para dentro /se queres que seja duro /muito bem eu serei duro /se queres que seja doce /serei doce, ai isso juro /eu quero é ser o tal /e como tal reconhecido /e assim digo-te ao ouvido /arranja-me um emprego.
São pessoas que, para se integrar na sociedade dos anos 80, na guerra pelo emprego e na ascensão social a todo o custo, vão deixando os escrúpulos para trás. Tem muito que ver com aquilo a que se chamaram os yuppies e, nos anos 90, no sentido também político, os boys. Em troca de um emprego, de um lugar, um tipo esquece que já foi esquerdista: «se mandasse neles/os teus trabalhadores seriam uns amores/Greves só das seis e meia às sete/e em frente ao casse-tête». Gente disposta a tudo.
Os Conquistadores
Mas parai, trago notícias horríveis /parai com tudo /já avisto os nossos conquistadores /Vêm num bote de madeira talhado em caravela /com um soldado de madeira a fingir de sentinela /com uma espada de madeira proferindo sentenças /enterrada que ela foi no coração doutras crenças /enterrada que ela foi, sua sombra era uma cruz /exigindo aos que morriam que gritassem: Jesus!
Foi feito para um filme, para o Soleil en face, do Pierre Cast. Quando era miúdo, lembro-me de pensar: «Em Espanha a história deve ser contada de uma forma diferente, um bocado ao contrário. Não acredito que isto seja sempre assim.» O branqueamento da história sempre me fez impressão. Foi-me pedido, pelo realizador do filme, essa visão um bocado negra da qual eu partilhava.
Os descobrimentos devem ser estudados e festejados. Mas não podemos branquear o seu lado mais negro. Temos de começar a sedimentar a nossa identidade, que é coisa que falta aos portugueses. Os anos do salazarismo foram, a esse nível, desastrosos. A identidade foi construída na base de coisas que tivemos depois de desfazer.
Com Um Brilhozinho nos Olhos
Com um brilhozinho nos olhos /dissemos, sei lá /o que nos passou pela tola /do estilo: és o number one /dou-te vinte valores /és um treze no totobola /e às duas por três /bebemos um copo /fizemos o quatro e pintámos o sete /com um brilhozinho nos olhos /ficamos imóveis /a dar uma de "tête à tête"
Uma pessoa encontra uma amiga que está contente porque fez um amigo. É tudo bastante ambíguo. O refrão é o que a outra pessoa terá dito. É um jogo de espelhos. E uma canção muito lúdica, que fala daqueles disparates que se dizem quando se está feliz: fizemos o quatro, pintámos o sete, fizemos o treze no totobola. Depois mudei para o totoloto. Não gosto que as canções sejam corpos completamente imutáveis. A letra é também um espelho das relações que aquela geração tinha.
As Horas Extraordinárias
Foi a saudade do teu braço /e o olhar que já da luz me dói /trabalhei sem dar p'lo cansaço /horas extraordinárias, foi /um dia que passou num furacão /um furacão que se amainou, só /quando, aparte o amor /eu me vi só /atirando a moeda ao ar /diz-me que cara ou coroa /eu vou ganhar /diz-me quanto eu fiz bem /em me apostar /e que bem fiz em ter por necessárias /as horas extraordinárias
Há uma ambiguidade que se sente logo no título. O conceito de horas extraordinárias está ligado ao mundo do trabalho. Não é uma relação inocente. Tem que ver com o mergulhar no trabalho. Mesmo na música isso se sente: eu sustento-me muito em criações harmónicas, mas não vou estar para aqui a fazer paleio musical. Até porque não sou especialista, sei pouco de música. Sei a prática, só sei fazê-la. Horas Extraordinárias é feita em dois acordes, propositadamente para dar esse tipo de insistência que há no trabalho: «trabalhei sem dar pelo cansaço...»
Que É do Futuro?
Isto está duro, isto está duro, isto está duro /que é do futuro, do futuro, do futuro /que nos mostraram naquele dia de sol? /Vá lá, depressa, diz a lesma ao caracol
É um apontamento. Fala um bocado do desencanto que ficou. Não sou passadista, não fico agarrado a esse desencanto, a pensar que naquele tempo é que era bom, e depois ficou mau. Mas também é importante falar disso. Esse período deixou algumas marcas negativas, mas sobretudo marcas positivas. Valeu pelo excesso e pela contenção que houve, sem se saber para onde se ia, mas experimentando formas, muitas vezes, erradas; muitas vezes, contestáveis. Houve uma força de construção que correspondia a desenhar porcas e paredes num edifício que ainda não existia.
Etelvina
Etelvina com dezasseis anos já conhecia /Todos os reformatórios da terra onde vivia /Entregaram-na a uma velha que ralhava assim /Ai, menina sem juízo /nem mereces um sorriso /Vais acabar num bueiro /sem futuro nem dinheiro.
A Alice no País dos Matraquilhos
Na classe dos repetentes /hoje vai haver mais uma falta /Alice cerra os dentes /vendo a bola que no ar ressalta /quer lá saber do exame /quer lá saber da escola /aguenta no arame /matraquilho nunca cai ao ir à bola /Alice no país dos matraquilhos é mais /do que no bairro onde vive, tem-te-não-cais
A Alice é uma sobrinha da Etelvina. Eu gosto muito da Etelvina porque é uma espécie de padrão narrativo que me agrada muito. Há uma força nestas personagens femininas, às vezes adolescentes, que não sabem muito bem a força que têm mas sabem que a têm. Não sabem como a usar, mas, apesar de tudo, conseguem dar a volta por cima.
Há uma grande lucidez na Etelvina. A Alice está mais perdida. A Etelvina cresceu no Porto, na minha cidade, num bairro popular. A Alice é mais da Brandoa, suburbana. Daqueles pequenos cafés em bairros onde não há perspectiva de futuro. Penso que uma das coisas que se intensificaram em Portugal é o desajustamento da vida suburbana em relação à integração na cidade, às perspectivas de futuro. São os problemas familiares, a questão das drogas duras. A Alice tem mais essa vertente.
Não Respire
Este bairro ao vento /é meu desamigo /quero mais eu quero mais /eu bato ao postigo /Tremo e treme o vento /quero de novo /o falcão que pousa /no meu braço o seu ovo /Não respire! /Pode respirar /Não Respire!
Tem um bocado que ver com a Alice. É a falta de resposta em relação à questão das drogas. Resume o drama dos heroinómanos: ter, depois já não ter e precisar de mais. É sobre esta angústia e sobre a falta de uma resposta adequada por parte do Estado. Sobre a impotência de um tipo que está metido naquilo, que quer sair, mas que sozinho não consegue e diz: «sou carne e osso, belo dueto, vou doar à pátria o coração e o esqueleto.» «Pode respirar, não respire» é a resposta que lhe dão e a resposta que encontra quando tem e quando não tem o que precisa.
É dos campos onde há mais preconceitos, em que gente inteligente diz as coisas mais burras. Nos últimos três, quatro anos, sente-se uma viragem em relação a este problema.
Não é nada contra os radiologistas, mas foi um radiologista, quando me dizia «não respire, pode respirar», que me transportou para outra ficção.
Fotos do Fogo
Chega-te a mim /mais perto da lareira /vou-te contar /a história verdadeira /quando a recordo /sei que quase logo acordo /a morte dorme parada /nesta morada
Fala de uma certa dificuldade em ter uma memória activa do nosso passado comum. Acho que esse esquecimento do que foi o horror da guerra é, provavelmente, necessário para as pessoas que individualmente a viveram, para continuar a sentir que o presente vale a pena.
Mas a canção faz o contrário, escarafuncha no passado. Ela apareceu quando surgiram duas coisas, em simultâneo, nos jornais: a efeméride do massacre de Wiriamu e as descrições dos miúdos soldados da Bósnia que participaram em massacres e que não sabiam por que faziam aquelas coisas. Achei que era preciso fazer uma canção forte sobre isso. Nesta história um ex-soldado começa a ver o seu álbum de retratos. Começa por olhar, a dizer «olha, estou bem aqui», mas aquilo começa a perturbá-lo tanto, que fecha o álbum, fingindo que aquilo não existe. Mas já existe, porque já passou para a cabeça dele.
Zeca Afonso
O Zeca era muito hipocondríaco... A triste ironia é que ele depois ficou realmente doente. Ele vinha sempre com doenças imaginárias, de que ele sofria um bocado, e dizia que tinha arruinado a voz quando estava no ensino. Ora, depois disso, fez discos com voz limpidíssima, magnífica, no seu melhor. Era um grande cantor. Ele tem a escola de cantar sem ampliação, a «voz do ovo estrelado a falar para o quarto andar», como dizia...
25 de Abril
A maior imagem do 25 de Abril que tenho é a do Paredes a tocar os Verdes Anos. Eu estava sentado no palco, no chão. De repente, percebi que tinham passado alguns anos dos meus verdes anos e que estávamos ali juntos a viver um acontecimento extraordinário. Mas a primeira sensação, quando cheguei, em Maio de 74, foi o cheiro das casas, quando entrei num hall e senti o cheiro das comidas e dos azulejos. Foi quando senti que tinha chegado.
Cantos Livres
Os cantos livres foram espectáculos que valeram pela urgência, pela presença, pela necessidade de as pessoas se encontrarem para ouvir canções que eram apresentadas muitas vezes em esboço. Mais tarde entraram na moda os unpluggeds. Mas aquilo de cantarmos sempre juntos, com más condições, passou a ser muito limitativo. No entanto era uma resposta muito necessária na altura, e acho que houve coisas magníficas.
Gerações
A geração mais nova tem ídolos e referências da sua idade. Mas penso que é importante que as minhas canções falem de coisas que lhes toquem. Acho interessante que eles tenham necessidade (e isso é uma coisa mais dos anos 90 que dos anos 80) de encontrar caminhos que ficaram para trás, na música e noutras coisas, e que vão descobrindo. Porque nós somos um país com pouca memória fixada. Não há o hábito de ter essa memória no activo.
Hoje daremos início a uma nova prática no Barnabé: publicar textos mais longos cuja meta não seja talvez tanto a de serem lidos no computador, mas antes impressos e lidos no papel. Chamamos a este formato Barnabé XL. Em princípio será semanal, e publicado perto do fim-de-semana. Começamos com um texto encontrado no baú e que é uma coincidência feliz: uma entrevista a Sérgio Godinho em 1999, por Daniel Oliveira e Luís Leiria, e onde se fala (entre muitas outras coisas) do Barnabé, ele-mesmo-o-outro!
P.S.: Como o modo de leitura destes textos será provavelmente diferente do comum, eles abrirão numa janela à parte, e ficarão também guardados nos links aqui à esquerda durante mais tempo do que o habitual. Por outro lado, não receberão comentários na sua janela, para não obrigar a pessoa que imprime o texto a imprimir também os comentários. Estes serão bem-vindos, contudo, bem como qualquer sugestão, no nosso ismael. Bom proveito.
[1] O Luciano Amaral pegou na minha posta de ontem sobre o tratamento que o Valete Fratres prestou à memória de Edward Said. É importante esta contextualização: o meu post era uma resposta à atitude de alguém que não sabe jogar limpo. O Valete Fratres, aliás, reincide hoje, discutindo com o Barnabé sem se dignar a linkar, citando o já amplamente desmentido e desacreditado artigo de Justus Weiner que pretendia denunciar que Edward Said não era sequer palestiniano [!] (ataque qualificado como scurrilous, baixo e vil, neste artigo, pelo mesmo Christopher Hitchens que eu e tu, Luciano, citamos como um crítico feroz de Edward Said). Ora já que decidiste comentar o meu post, que era sobre isto e não sobre outra coisa, gostaria de saber a tua opinião sobre esta forma do Valete Fratres entender o debate político e intelectual. Não te merece nenhum comentário?
[2] A minha ideia não era, pois, apreciar toda a obra e posicionamentos do Edward Said, quanto mais edulcorá-lo como tu dizes (no entanto, eu não tenho culpa que ele tenha feito coisas, como a Orquestra da Paz com o Barenboïm, que são admiráveis – deveria escondê-lo para não correr o risco da edulcoração?). Era antes colocar-me do seu lado contra lançamentos de lama cobardes. Eu sei que concordas comigo que, se queremos atacar alguém, é bom que seja por alguma coisa que esse alguém fez ou era.
[3] Mas tu, ao contrário do Valete, queres discutir o que o Said efectivamente era. Pode ser epistemologicamente impossível, mas pelo menos pode tentar-se. Vamos a isso. Não gosto de tudo o que ele escreveu: o Culture and Imperialism parece-me, tirando a magistral análise do Heart of Darkness / Coração das Trevas de Conrad, um livro um tanto chato. O Beginnings, por outro lado, demasiado tributário das modas literárias da altura, a semiologia e o estruturalismo. Se tivesse lido tudo o que ele escreveu sobre questões políticas, coisa que não fiz, também seria capaz de lá ter encontrado matéria para discordar. Por outro lado, a recuperação que faz de Giambattista Vico é de excelente nível, e o Representations of the Intellectual uma pequena obra genial. No fim de contas, nada mau – tomara nós, meu caro.
[4] Por outro lado citas o artigo do Hitchens na Atlantic Monthly, "Where the twain should have met" (um idiomatismo que dará qualquer coisa como, "onde os caminhos se deveriam ter cruzado"), concordando com a sua descrição de Said como "não suficientemente moderado" e criador de caricaturas e distorções sobre o Ocidente no Oriente. Olha Luciano, sabes francamente o que é que me parece? Que o Hitchens é pobre e mal agradecido. O Said não era suficientemente moderado? Então podeis procurar debaixo das pedras e em cima das árvores e não encontrareis outro palestiniano mais moderado do que ele. E porquê? Porque mais moderado do que aquilo já não seria moderação mas traição à pátria. E não deixa de ser curioso que gente que nos chama a atenção para o direito dos americanos a serem patrióticos não perceba que o homem era palestiniano, tinha amor à sua terra, e mais moderado do que aquilo não conseguiria nunca ser. Isso, ao menos, foi entendido de viés por gente do calibre de Weiner, que não podendo negar-lhe o direito ao patriotismo, tentou acusar Said de não ser palestiniano.
[5] Quanto a essa ideia de que a grande culpa do Said é a de ter criado incompreensões entre o Ocidente e o Oriente. Não passa despercebido a qualquer leitor, ainda que iniciante, de Said, que o homem não era dado a simplificações. Se o Said não te dá mesmo nada, como dizes, para entender nem o Oriente nem o Ocidente, parabéns Luciano!, é sinal de que não precisaste de o ler para saber o que ele dizia. Só é curioso que ele fosse tanto ou tão pouco anti-ocidental que foi permanentemente acusado pelos árabes de ser um ocidentalizado, etc. De tal forma se eximia a criticar o Oriente, como tu dizes, que era persona non grata entre os islamistas. (E já agora: levas a sério o Hitchens, um autor que tanto na sua fase trotskista como na actual, pró-guerra, nunca primou nos seus escritos por mais do que uma negligente superficialidade, quando não ignorância pura e simples? Quanto a mim, não gosto dele nem de esquerda nem de direita).
[6] Ainda que o Said fosse esse intelectual ressentido e pós-moderno que desejavam que ele fosse, o que é que isso tem a ver com o actual péssimo estado das relações entre o Ocidente e o Islamismo? Se estou de acordo em que a causa do terrorismo da AlQaeda (por exemplo) não está na pobreza, não te parece patético que ande gente numa cruzada de nível Torquemada contra um teórico da literatura, nova-iorquino, especialista em Joseph Conrad e Jane Austen (e ainda por cima infiel protestante!) como sendo o grande municiador dos ataques anti-ocidentais por esse mundo fora? Ora é mais do que evidente que Said era mais parecido contigo do que com aqueles contra quem os americanos se batem na Ásia Central e no Médio Oriente.
[7] Dizer que as ideias do Said "vão infelizmente continuar vivas", como fez o Valete, parece-me de péssimo gosto (a ti não sei o que te parece porque decidiste não comentar o cerne do meu post). Deixar o luto intelectual para outros, como tu fazes, não tem mal nenhum. Só gostava de saber para que serve esta amalgamação, em segunda mão, entre a obra do Said e as perversas caricaturas do Ocidente, etc (ou, paralelamente, entre a esquerda ocidental e o terrorismo islâmico). Ou, colocada a questão de outra forma: Said foi de facto "where the twain have met", melhor ou pior (para mim, melhor do que pior). O que é que o Ocidente ganha em ficar a falar sozinho?
Um abraço do Rui (e não te esqueças de que ainda temos aí um projecto para fazer juntos).
Vem-me à cabeça a imagem de uma daquelas mantas velhas esburacadas pelas traças que rasgam em qualquer lado por onde se puxe, para definir a situação a que o país chegou. Para além das pontes que caem e dos fogos que queimam o que resta, apercebemo-nos que os institutos e os homens que, supostamente, nos protegem das quedas e das chamas ou não existem ou, estão, a gozar connosco. Depois de quase tudo se desmoronar só nos restava acreditar nos bombeiros. Pelo menos eles existiam, os homens que quase se deixavam engolir pelo fogo para salvar vidas e património. Ontem até o mito do bombeiro deixou de ser intocável, ao assistirmos à reportagem sobre os passeios de helicóptero promovidos pelo comandante dos bombeiros de Lamego. 700 contos paga o Estado, por cada hora de utilização, à empresa proprietária do veículo, que são desperdiçados em voltinhas turísticas para os amigos verem ao vivo as extensões de área ardida que os bombeiros não puderam apagar (por falta de meios). Enfim, resta-nos acreditar que estes bombeiros são a excepção.
[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
Não conhecia ainda o Homem a Dias. mas a coerência colocada num dos seus últimos posts, que responde ao meu «MFA israelita voa mais alto» fez de mim um cliente para a vida. De facto, Eyeless em Gaza pauta muito bem o olho por olho que o autor propõe ao longo do texto. Ao mesmo tempo que declina uma equivalência moral, exige uma equivalência aritmética das vítimas. Confesso, nunca fui bom em matemática e a partir da casa dos milhares de mortos tendo a perder-me. Mas, se ao meu interlocutor interessa, devo dizer-lhe que via com muito bons olhos (eu ainda conservo os meus) que alguns jovens fanáticos do Hamas pudessem sair do transe (não sei se 25 se 50, quantos mais melhor). Há alturas em que a quantidade cede realmente à força das convicções. Se pensar bem na fraca figura de Salgueiro Maia com meia dúzia de chaimites e alguns adolescentes fardados a marchar para Lisboa perceberá o que quero dizer. Eu vejo neste acto de recusa um gesto que rompe irremediavelmente um círculo de toma-lá-dá-cá e é por vir do interior de uma sociedade militarizada que é extremamente importante que tenha sido feito por militares. Eu não sei se você acha bem que se bombardeiem prédios inteiros para apanhar um homem só. Por mim afligir-me-ia ter medo de cada vez que esperasse um autocarro. Estará você em condições de ter tanto medo como eu?
Há livros que deviam ser de leitura, não propriamente obrigatória, mas de distribuição gratuita anexa a certas obrigações perante o Estado. Do tipo, na repartição de finanças: vem pagar o IRS? Ok, mas enquanto espera damos-lhe aqui este livro para ir lendo. Cai nesta categoria, no meu entender de leitor modesto, o velhinho Sobre "formas de tratamento" na língua portuguesa de Luís F. Lindley Cintra (Livros Horizonte, 1972). Só hoje peguei nele pela primeira vez para lê-lo. São pequenos ensaios que dizem tantas, mas tantas coisas de interesse sobre Portugal que uma pessoa fica quase cega. Isto com o desconto que se deve dar a quem anda cá fora, nostalgicamente, a lutar pela vida.
Um dos artigos, que não acabei, é sobre formas de tratamento de deus em orações e na poesia. E Lindley Cintra diz esta coisa espantosa, que eu nunca tinha percebido, mas que já tinha sentido quando de vez em quando assisto a missas: a língua portuguesa é a única que manteve, nalgumas orações religiosas fundamentais (Pai Nosso e Ave Maria, por exemplo), não meramente uma forma de tratamento que cria distância em relação a deus, mas uma forma de tratamento que começou a entrar em desuso e a ser considerada vulgar no século XVIII: o vós no singular. Como em 1721 escreveu o P.e Rafael Bluteau, que vinha de família francesa e tinha nascido em Inglaterra, "he cousa notável que a Jesu Christo falem os Christãos por vós: vós sois meu Deos, vós sois meu Redemptor e que hum vós de hum homem a outro homem pareça injúria...". Todas as outras línguas latinas, mais cedo ou mais tarde, introduziram o tu naquelas orações, denotando assim uma intimidade com o destinatário, no caso, deus. Na nossa língua a forma de tratar deus criou uma distância enorme com a língua viva. Segundo Cintra, houve alguma hesitação, nas traduções do Novo Testamento dos anos 50 do século XX, sobre a norma a usar. Mas o "vós" singular prevaleceu em detrimento do muito mais bonito "tu": "Ave Maria cheia de graça, o Senhor é contigo..." ou "Pai Nosso que estás nos Céus, santificado seja o teu nome...".
As más notícias para Berlusconi continuam: o jornal La Repubblica publicou hoje uma reportagem que envolve Carlo Taormina, deputado da maioria no poder e advogado próximo de Berlusconi, num processo de falsificação de provas e difamação contra Romano Prodi, Fassino (líder do partido DS) e outros dirigentes da esquerda. A história relaciona-se com irregularidades na compra da Telecom da Sérvia na altura em que a esquerda estava no governo. Uma comissão de inquérito parlamentar existe há vários anos. O processo é difícil de compreender para quem não costuma acompanhar por dentro a política italiana, como é o meu caso, e continuam responsabilidades por apurar. Mas o dito Taormina confirmou há pouco a história do jornal e demitiu-se. Ou seja, admite ter ajudado a forjar acusações falsas. Depois de Previti, é o segundo advogado próximo de Berlusconi em muito maus lençóis. Este, é claro, vai negar qualquer envolvimento na história e dizer que é tudo obra dos comunistas. Mas politicamente a coisa complica-se.
Maria Elisa vai ganhar 2.600 contos para ser adida de imprensa. Não sei como é que ela aguenta. A fadiga crónica, o “Guardian” a querer saber coisas sobre Portugal, o licença sem vencimento na RTP, a baixa no Parlamento. Onde é que esta mulher arranja tempo?
Berlusconi deu duas razões aos investidores estrangeiros para apostarem em Itália: «secretárias deslumbrantes, mulheres incríveis» e «muito menos comunistas».
Os polícias que andam a investigar o caso da Pedofilia dizem que, estando obrigados a dizer, aos que estão presos, aquilo de que são acusados, a investigação será impossível. Kafka não se lembraria de melhor.
O suplemento humorístico do Público é excelente e conta com a participação qualificada de várias pessoas da blogosfera. “Inimigo Público”, mais tarde ou mais cedo, o seu “Público”.
Como estive ligado à elaboração projecto-lei sobre a concentração dos media, coibi-me de escrever aqui sobre ele. Escreveu Miguel Sousa Tavares. O que eu tinha para dizer, disse-o ele.
A propósito de propinas, sempre tive ideia que o problema mais grave era outro: calcular quanto deve pagar um aluno a partir dos rendimentos dos pais pressupõe que não estamos a falar do maior que, forçosamente, o estudante universitário é. Isto, que pode parecer um preciosismo, não significa apenas um desrespeito pelo direito ao reconhecimento da individualidade e da maioridade de gente com mais de dezoito anos. Pior do que isso, é um ataque à sua autonomia. E aqui já estamos a falar de um problema social e político gravíssimo. Quando uma sociedade não permite (e acha natural e instititucionaliza essa impossibilidade) que as pessoas se tornem independentes, em muitos casos, antes dos trinta anos, está nem mais nem menos do que a roubar-lhes liberdade.
[Luís Trindade, dos Amigos do Barnabé]
"Ninguém compreende melhor do que eu as limitações deste tipo de publicação, mas infelizmente isso não pode ser remediado, em parte pela necessidade de aparecermos a intervalos regulares, e de nos limitarmos a uma quantidade fixa de espaço, [e] em parte por causa das solicitações do público para ter sempre qualquer coisa nova, por mais incerta e pouco confirmada que ela seja, não permitindo que se use esta colecção para inserir artigos e documentos dignos de conservação que não se pôde publicar na altura própria".
Carta de J. Luzac, editor da Gazeta de Leiden, a um correspondente não identificado, provavelmente A. Caillard, datável entre 1785 e 1787 (Bibl. Univ. Leiden, Luzac, cartão 28, nº 69)
[1] Sigo o Valete Fratres há já algum tempo e parece-me um blogue interessante, com ideias completamente opostas às minhas, que faz uma recolha de textos que muitas vezes vou ler. É por isso que linko para ele, coisa que ele não se digna a fazer ao responder-nos, aparentemente porque para ele somos "um certo blog da extrema-esquerda".
[2] Two times is too much. Mas além da posta que comentei abaixo, o Valete Fratres comentou a morte de Edward Said assim: "Edward Said, RIP. Infelizmente, as suas ideias continuarão vivas..."
[3] Que ideias de Edward Said é que "infelizmente" "continuarão vivas"? Era Said um apologista do totalitarismo? Não; Said era no máximo, um social-democrata, ou um reformista. Um fundamentalista islâmico? Tão pouco. Said era um cristão, educado no protestantismo anglicano (ao ler os nossos filo-americanos, daria a sensação de que estas coisas vacinavam para a vida) e defensor do secularismo. Apoiante do terrorismo? Pelo contrário. Apesar de ter perdido o seu país, a Palestina, Said defendeu sempre a resistência civil pacífica. Militante da OLP durante anos, afastou-se de Arafat em protesto contra a natureza corrupta da sua presidência. Talvez pudesse, enfim, ter sido um desses perigosos relativistas pós-modernos a quem está na moda, hoje, culpar de tudo e da morte do Manolete; mas nem isso, como verá quem ler a sua obra em história e crítica da literatura. Finalmente, um dos últimos exemplos da sua actividade política foi ter fundado com Daniel Barenboïm, pianista israelo-argentino (o próprio Said era um pianista que poderia ter seguido carreira, veja-se a opinião, aliás muito crítica em termos políticos, de Christopher Hitchens) uma orquestra da paz com jovens israelitas e palestinianos.
[4] Em suma, mesmo não subscrevendo a 100% a obra de Edward Said (porque raio teria de o fazer?), parece-me claro que foi alguém que manteve uma enorme honradez e dignidade em tempos difíceis. E um ataque destes é ou cobarde, ou ignorante, ou desonesto – ou tudo ao mesmo tempo – e por cima ridículo.
[5] Portanto, entendamo-nos de uma vez por todas: o debate de ideias não é nem um campo de futebol, nem um campo de concentração.
Como Paulo Portas se queixou hoje na TV de que lhe dávamos demasiada importância, só não resisto a comentar dois lapsus linguæ. Sobre o caso Moderna: "Nunca houve em Portugal uma tentativa assim de abater uma pessoa enquanto partido [sic!]". Sobre Manuel Monteiro: "Sabe eu acho que os partidos são muito mais instituições do que pessoas".
Alguma coisa ficou irremediavelmente diferente no que respeita à legitimidade do governo israelita. o levantamento dos oficiais que se recusaram a cumprir ordens é mais importante do que qualquer das quase invisíveis resoluções da ONU. É um dardo ao coração da sociedade israelita e uma grande oportunidade para ultrapassar a lógica do terror que dita todas as suas últimas opções. Esta acção fez mais pela resolução do conflito do que todos os acordos de paz. Oxalá, depois do petardo e da pedra, o processo conheça outros frutos.
“Vinte e cinco pilotos da força aérea israelita recusam executar missões nos territórios palestinianos, tendo entregue uma petição nesse sentido ao seu comandante, Dan Haloutz, revelou quarta-feira a rádio pública israelita. (…) As acções das forças israelitas com helicópteros e aviões de combate visando alvos mortais - activistas e responsáveis palestinianos - causam frequentemente vítimas entre os civis. A 25 de Janeiro de 2002, 52 oficiais e soldados do quadro da reserva do exército anunciaram também que não iriam operar mais em territórios palestinianos. Não continuaremos a combater além da linha verde (nos territórios palestinianos) com o objectivo de oprimir, expulsar, esfaimar e humilhar um povo, escreveram, numa petição que reuniu várias centenas de assinaturas e suscitou viva polémica em Israel.” Esta é uma notícia da LUSA
há alturas em que o barnabé é apenas uma pessoa e uma só voz. As melhoras do Manel!
Entretanto, nas franjas mais acríticas (ainda mais?) do bushismo, temos a macabra posta "body count journalism" do Valete Fratres, em que diz que uma noite em que morreram nove fundamentalistas e nenhum americano foi "má para a extrema esquerda". Mas o que é que a esquerda, mesmo que extrema, tem a ver com esta briga? Numa linguagem que o Valete Fratres possa entender, tudo o que queremos é a plague on both their houses.
O inominável continua cada vez mais parecido com um cruzamento entre o Deus irado do Antigo Testamento e os bolchevistas. Distorce hoje no Público o discurso de Jorge Sampaio pelo combate à epidemia da SIDA ("não é admissível que a agenda política internacional, compreensivelmente preocupada com o combate ao terrorismo armado, esqueça esta outra fonte de terror que diariamente mata ou coloca na miséria e na dor sectores tão significativos da população mundial"), depois caracteriza essa descrição falsa como "perversa" e termina dizendo que "O combate contra a epidemia da sida nunca será o beneficiário directo ou indirecto da secundarização da luta contra o terrorismo [que Sampaio, aliás, não defendeu]. Um mundo instável e perigoso é o melhor terreno para a proliferação da sida". O Deus do Antigo Testamento: adorarás a apenas um Deus. O bolchevista: esqueçamo-nos de tudo, nada é mais importante do que os nossos objectivos políticos, o mundo perfeito virá depois.
Ontem, estive até às tantas a ver o debate, na CNN, entre os candidatos a governador da Califórnia. O facto do debate não se ter reduzido a dois candidatos (um republicano e um democrata) mas a cinco (dois republicanos, um democrata, um verde e uma independente de esquerda), fez toda a diferença. O confronto foi bom, com conteúdo e com diferenças visíveis entre os candidatos. Assim se vê como o bipartidarismo é empobrecedor.
Uma das coisas que me chamou à atenção foi o peso que, no debate, tiveram questões como as da imigração e do aborto, assuntos que, por aqui, são consideradas de fracturantes. O aborto ocupou pouco tempo mas esteve sempre presente, por ser um assunto que divide os... republicanos. . A imigração ocupou uma parte razoável do debate e seria uma lição para a direita e o centro-esquerda europeus: as posições mais à direita, as de McClintock e de Schwarzenegger, seriam comparáveis às que, em Portugal, são defendidas pelos socialistas António Vitorino e Vitalino Canas. As dos restantes candidatos, Cruz Bustamante, Arianna Huffington e Peter Camejo, ultrapassavam pela esquerda o BE.
Schwarzenegger foi igual a si mesmo. Decorou umas estatísticas, recuou em tudo o que fosse polémico e, de resto, não passou de um completo vazio de ideias e de propostas.
McClintock, também republicano, assumiu o papel da velha direita convicta – liberal na economia, conservadora nos costumes –, mas bem mais sério e preparado do que o seu rival no Partido Republicano.
O democrata Bustamante não resistiu à ladainha demagógica, tipo “tive uma vida difícil, trabalhei tanto, sei o valor do esforço, vim de baixo, blá, blá, blá”. Todos conhecemos o estilo.
Arianna Huffington, uma liberal de esquerda, vinda directamente dos republicanos, foi a mais eficaz e agressiva.
Peter Camejo, dos “Verdes”, foi o mais claro na sua oposição a Bush, não se esquivando sequer a ser contundente em relação à ocupação do Iraque e à não adesão a Quioto. Não se esqueceu de referir os benefícios dados às corporações e a injustiça fiscal.
Arianna e Camejo têm, juntos, segundo as sondagens, mais de cinco por cento dos votos. Com estes votos, podem fazer o candidato democrata perder. Mesmo assim, mesmo correndo o risco de dar o lugar de governador a Schwarzenegger, estou aqui a torcer por Peter Camejo, tal como torci por Ralph Nader.
Espero que venha a porrada para eu explicar porque me oponho sempre ao voto útil.
Desde o final de Agosto uma série de assistentes que se encontram no final do seus contratos de provimento, enquanto docentes de uma Escola Superior de Educação, receberam uma carta de rescisão assinada pelo Presidente de um Instituto Politécnico a que pertencem. É uma situação digna da pior das fábricas de calçado do Vale do Ave. A diferença é que neste caso o “patrão” é o Estado e os “operários” são mestres e doutorandos. O governo e os dirigentes, que põem em prática a sua política, consideram estes docentes excedentários porque se tornaram excessivamente qualificados e, como tal, insuportavelmente caros para o Orçamento de Estado.
E, como no ensino politécnico os contratos de provimento são trianuais há que aproveitar o seu termo para expulsar mais uns “improdutivos” ou, pelo menos, pô-los fora da carreira de modo a precarizar ainda mais a sua situação de emprego. Ou seja, volta-se a aceitar alguns destes docentes (“os sortudos”) mas equiparado-os à categoria de assistente, com contratos vigentes apenas por um ano. E se durante o próximo ano lectivo se portarem mal, continuando a investir na qualificação ou tentando reivindicar uma melhor situação laboral, corta-se de vez o mal pela raiz e cessa-se definitivamente o contrato.
A empresialização da educação não é uma ameaça é já um facto. Ao abrigo da suposta autonomia das instituições de ensino os nossos dirigentes (que não são mais do que docentes eleitos para os órgãos de gestão) comportam-se como autênticos patrões interiorizando os piores vícios desta classe. É um fenómeno dominante na nossa administração pública e que se tem espalhado como um vírus: o síndroma da “patronite” aguda. Este síndroma define o desejo da maior parte dos indivíduos que chegam aos cargos de gestão: mandar e decidir a vida dos colegas que estão abaixo de si, com intuito de continuar sempre na posição cimeira. Finalmente, realiza-se nestas criaturas o poder da vingança em relação àqueles que supostamente os impediram de chegar mais cedo a essa posição ou que representam uma ameaça ao poder que conquistaram e ao qual dedicaram toda uma vida. Uma vida cinzenta cheia de contorcionismos, de ambiguidades e de covardia.
É a estes homens de várias sombras, apartidários ou de todos os partidos, a que os sucessivos governos recorrem como condutores no terreno da política educativa (mas também social, económica, cultural...). Para estes homens a política não interessa, ou melhor, qualquer política serve para realizar os seus interesses particulares. Deste modo estarão sempre bem com qualquer governo. O que os move é o poder pelo poder. O problema é que estes senhores permanecem nos cargos ou ascendem a posições de maior relevo, raramente saem por iniciativa própria ou regressam à situação de meros trabalhadores. E isso é mau, porque são eles que realmente mandam no concreto das nossas vidas. Estamos nas mãos deles, o país todo está nas suas mãos.
[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
Agora que já passa da meia-noite, uma pausa para lembrar o momento mais baixo do dia de ontem: o artigo de Lobo Xavier, hilariamente chamado "A propósito de coerência", em que este tentava explicar que não há contradição nem oportunismo algum na política europeia do PP, e que portanto este partido deve ir coligado ao PSD nas próximas eleições, presume-se que para evitar o seu eclipse na noite da contagem dos votos. Vasta tarefa.
Alguém sabe se o nosso Ministro da Defesa fez a tropa? É uma curiosidade que eu cá tenho.
Alguém viu hoje o Ponto de Encontro? Parece que agora se chama Jornal da Noite. Ainda dá na SIC.
Caro amigo Celso: como a Constituição, os estatutos dizem muita coisa que ninguém cumpre. Para não falar do inominável, era suposto não termos mais de 100 leitores. Portanto, para a frente Portugal.
Se o Luciano tivesse feito humor com os narizes ou a cor dos olhos deles, talvez a piada tivesse estado mesmo aí, embora, admito, fosse mais difícil ter graça. Também admito que as minhas referências ao humor pimba foram azedas. Sobre o resto, que era o essencial, não vou insistir: pensei não dizer nada inicialmente, mas como, umas horas depois do post dele, continuei incomodado com aquilo que ele lá disse, resolvi dizer o que pensava. Como o Daniel bem sintetizou, a minha reacção teve a ver com as circunstâncias - os blogues são um espaço público - em que o Luciano mandou a sua boca. Há coisas que têm um sentido descriminatório - sejam os alvos dessa discriminação quem eles sejam - e devemos ter cuidado com isso. Não generalizei daí para uma hipoteca sobre o humor em geral ou um com todo o respeito para todas as piadas.
"Não quero ser filmado, porra", disse um juiz, que não conheço, à SIC, empurrando a câmara, numa cerimónia oficial.
Esclareço desde já que mantenho a serenidade. Que confio na justiça. Que não quero perturbar o andamento do senhor. Que deixo que as instituições funcionem. Que não ponho o Estado de Direito em causa. Que não telefonei a ninguém para falar deste assunto ou de outro qualquer envolvendo este juiz, outro ou qualquer pessoa.
Mas também não era preciso tanto. Quer dizer. Provavelmente até era. Não sei. O juiz é que é conhecedor do processo. Mas o meritíssimo juiz não devia, quer dizer, não era aconselhável que o fizesse, ou pelo menos é uma atitude discutível. Na verdade, que sei eu? Não quero pressionar ninguém e muito menos a justiça.
Sua excelência senhor meritíssimo juiz Rui Teixeira, se está a ler este post, informo desde já que escreve-lo deveu-se a um acto irreflectido. É que eu nem estou em mim, ando um pouco pressionado, tal como senhor. Mas saiba que no sábado, lá estarei, na Marcha Branca. Como dizia um pivot da televisão: “Estamos todos convocados”. E a mim, quando me convocam, não falho, porra.
"Mãe, porque é que te pintas?" - "Para ficar bonita, filho" - "Então porque é que não ficas?"
O movimento anti-propinas foi despromovido há uns anos (por António Barreto, Miguel Sousa Tavares, José Pacheco Pereira e outros) para a lixeira dos movimentos estudantis. Na ditadura, os estudantes lutavam pela liberdade. E no início dos anos 90 lutavam para gastar em bebida no Bairro Alto o que não queriam gastar na Universidade. O argumento teve vida própria e floresceu. Agora, vemos professores como Eduardo Prado Coelho decretarem que as propinas são "de esquerda", posição em que o precursor foi Vital Moreira. Compreendo-os a todos: eu também sonho com boas bibliotecas e grandes laboratórios, como aqueles que as propinas de milhares de contos nos EUA podem pagar. Compreendo então como um amigo inteligentíssimo como o António Granado se passa da cabeça de cada vez que os reitores decidem não aumentar as propinas.
O que não lhes passa pela cabeça, contudo, é que a década que já levamos de propinas lhes tira toda a razão. Não houve nada que melhorasse na universidade com as propinas que já temos. Agora temos propinas, e eu conheço gente a dar aulas de graça no Ensino Público. E certos graus académicos, como o mestrado, tornaram-se um luxo de facto, cada vez mais socio-economicamente restricto. Eu hoje não poderia fazer o meu mestrado, porque não o poderia pagar. Mas felizmente, sou um filho do 25 de Abril, aquele tempo em que ainda se achava que o que era de esquerda era a igualdade de oportunidades.
Eu sei que em teoria tudo poderia ficar melhor com propinas. Mas então porque é que não fica?
Não sei se é estatutário, mas desta vez estou do lado do Luciano. Não me agrada nada esta roupa apertadinha de politicamente correcto sobre o humor (tenha ele a qualidade que tenha) que ainda nos vai pôr todos a dizer com todo o respeito antes de qualquer piada. O Luciano tentou fazer humor com um grupo que tem características idiossincráticas e é delas que o humor vive. Que querias, André, que ele fizesse graçolas com os narizes deles?. Com a cor dos olhos? Por este andar, como podemos gozar com os velhos militantes comunistas, com as tias da Lapa ou com os arrumadores? Por outro lado, há marcas de homofóbicofobia (existirá?) no teu neo-puritanismo: infiltrações, manipulações, e outros huummms não são exclusivo dos homossexuais (eu sei que há a tese, mas espero que a coisa não vá assim tão confinada lá por casa). Estas são as questões de forma (ainda que, como diz o inominável, as questões de forma num discurso são questões de substância), mas o que é mais importante é a atitude de desconfiança latente que se esconde debaixo do tapete do humor do Luciano em relação a este tipo de organizações (eu sei que este argumento é fácil de rebater). Num país onde os homossexuais não ganharam ainda o direito a uma cidadania plena (serviço militar, adopção, conjugalidade legal, só para lembrar alguns aspectos) o direito à associação e reivindicação política é muito mais do que uma moda urbana, por muitas divisões que haja. O post não leva links porque me esqueci do papelinho, mas remete para o Comprometido Espectador.
Poderá alguém ser uma personalidade culturalmente relevante e, simultaneamente, um vândalo? Pelos vistos, é o que pensa a redacção do «Actual», suplemento cultural do Expresso, ao incluir Alfredo Saramago na lista das «50 personalidades mais importantes da cultura portuguesa». Alfredo Saramago é um bem sucedido historiador da alimentação e, presentemente, dirige a revista «Epicur», que se entretém a divulgar marcas de charuto, bons vinhos e outros produtos gourmand. O ano passado a Presidência da República atribuiu-lhe uma medalha qualquer de mérito cultural. Sucede, porém, que Saramago foi levado a tribunal há 2 ou 3 anos atrás por ter sido apanhado a roubar páginas de um panfleto do século XIX na Biblioteca Nacional. O juiz mandou-o em liberdade por razões meramente processuais (creio que houve um atraso na notificação para o julgamento), mas deu os factos da acusação como provados. Será que deixámos de ser um país pequeno e estas notícias passam completamente despercebidas? Uma última nota: o Celso que me perdoe, mas a lista do «Actual» demonstra bem o grau de indigência a que o Expresso chegou. Colocam os leitores ao nível dos adolescentes que coleccionam cromos da bola.
O súbito e angustiante desaparecimento de Gastão deixou o país em estado de choque, dando origem a especulações diversas. Mesmo com o regresso da nova mascote lusitana, os portugueses não querem acreditar em coincidências e ocupam as suas mentes ociosas e improdutivas a engendrar teorias complexas acerca deste caso misterioso.
Numa barbearia da capital, um indivíduo encapuçado sugeria que o melhor
amigo da família Ferro Rodrigues teria desertado neste momento difícil, preparando uma eventual adesão ao CDS/PP, certamente seduzido pelo recém-criado Prémio Adelino Amaro da Costa. Assim, e continuando a citar as torpes insinuações do difamador, Gastão acredita que conseguirá angariar um elevado número de caniches para aquele partido, capitalizando a sua influência e a evidente fotogenia. "Desde aquela coisa do Acontece, o sacana do bicho só pensava na volta ao mundo. Isto é tudo por causa do guito!", acrescentou esta
fonte.
Já no talho, Manuel ( nome falso ) assegurava ter provas de que o pobre
animal teria sido substituído por um agente da PJ devidamente treinado para este tipo de missões, o que resulta de uma nova estratégia de investigação,
adoptada para fazer face aos elevados custos das escutas telefónicas, embora mantendo os mesmos níveis de eficácia.
Outra teoria tem Bernardo ( nome muito falso ), funcionário do canil municipal, local onde terá recebido informações de dois bull-terriers. Segundo estas fontes, Gastão seria vítima de chantagem por ter mantido um relacionamento amoroso com Lady, uma cocker spaniel menor de idade. "Foi um acto de coragem", disse Pitucho, "o Gastão não quis meter ninguém ao barulho e saíu".
Benedita ( pois, é tanga ) conhece Gastão desde o dia em que este roeu o primeiro osso. Na sua opinião, o animal tornou-se emocionalmente instável após ter lido a reportagem sobre ministros pedófilos no Le Point. " É que o Gastão é um patriota, não sei se sabem, e estas coisas envergonham-no muito, coitadinho. Eu ainda lhe disse: deixa lá, Gastão, também quem é que sabe francês? Mas o pobrezinho não animava por nada. Eu acho que ele quis fugir do país, mas deve-se ter esquecido do boletim de vacinas e voltou."
[Rui Lopes, dos Amigos do Barnabé]
Rua da Graça. Novas pinturas no asfalto, 50 metros delas apenas, mas a cheirar a novo. Zebras, tracejado, lugares de estacionamento. Começo à procura do cartaz. Eu sei que tem que haver um cartaz. Mas ele não aparece. Terão mudado de estratégia de marquetingue? Quando estava quase a desistir, ei-lo! "Espero que tenha reparado que desta vez não pusemos nenhum cartaz a gabarmo-nos das obras realizadas".
Não aplaudirás
Não dançarás
Não terás mulheres no altar
Não beberás vinho à comunhão
Não lerás outros textos que não sejam da Bíblia ou dos missais
Não conviverás com protestantes
Denunciarás os pecadores
Definitivamente, um dia voltarão a ser uma seita.
Uma manifestação, encabeçada, se não me engano, por Dulce Rocha, encherá as ruas de Lisboa e do Porto, no sábado. Chama-se Marcha Branca e tem como objectivo o apoio às crianças vítimas de violência, de abandono e de todo o tipo de abusos.
Cruzei-me com Dulce Rocha várias vezes, quando era jornalista, sempre que fiz trabalhos sobre a protecção a menores. Encontrei sempre nela uma mulher empenhada, esforçada e rigorosa. Ultimamente, incomoda-me vê-la tantas vezes entregue a um discurso justicialista que não bate certo com o seu percurso.
E esta Marcha Branca, à primeira vista inocente, é talvez das coisas mais perigosas que se fizeram em Portugal. Está a decorrer uma investigação de uma sensibilidade nunca conhecida em Portugal. Seja qual for o objectivo da Marcha, o seu objecto será o caso da Casa Pia. Não está nas mãos dos organizadores. Será e pronto. E serve então para quê, neste momento, uma manifestação que se envolva neste processo, que está a meio? Para dizer que os arguidos devem ser considerados culpados? Para reagir à reacção da defesa? Para mostrar apoio à acusação? Seja para o que for, o resultado será sempre péssimo e facilmente aproveitável por todo o tipo de demagogia fácil. Por mim, não estarei lá. Poucas coisas me mobilizam mais do que os direitos das crianças. Mas recuso-me a ser o idiota útil.
- Porque Portugal tem falta de licenciados e os estudantes precisam de incentivos e não o contrário.
- Porque as propinas são uma forma de dupla tributação.
- Porque as propinas têm – como seria inevitável – resultado num desinvestimento do Estado.
- Porque a quase inexistência de apoio social faz com que as despesas de muitos dos estudantes – sobretudo os deslocados – sejam altíssimas: quartos, fotocópias, livros, deslocações, etc.
- Porque é impossível, com a fuga fiscal, criar escalões justos e, para muitos, mais esta despesa é impossível.
- Porque Portugal gasta, por aluno, 4766 dólares, menos de metade da média dos 30 países da OCDE (11.109 dólares).
- Porque dos 15 países da EU, 7 não têm propinas (Alemanha, Finlânda, Áustria, Irlanda, etc) e têm mais licenciados e melhor apoio social.
Há um tique na blogosfera que me encanita: todos são hipersensíveis. O post do Luciano era homofóbico, o André disse e o Luciano ficou ofendido. Era homofóbico porque usava a orientação sexual como gozo sem que nesse gozo houvesse qualquer conteúdo político, ético ou outro. Ao contrário, a bandeira dos movimentos gays não é a sua orientação sexual, é a sua liberdade e os seus direitos em função dessa orientação sexual, o que é muito diferente. Nenhum gay grita que sexo com gente do mesmo sexo é bom, melhor, fantástico. Grita que tem direito à escolha e que por essa escolha não está disposto a esconder-se. É bem diferente. Para além do mais, Luciano, uma piada em privado – eu mando – é uma coisa, uma em público – também mando – é outra.
Mas tudo isto descarrila quando, a cada minuto, nestas páginas, todos se mostram melindrados e ofendidos. Eu, que não reajo com especial violência às opiniões do Luciano – não confundo o meu apreço por alguém com o facto desse alguém ser um retinto reaccionário, como ele é, repito o que disse o André: o post do Comprometido Espectador era homofóbico. O próprio, muito provavelmente, não será. Mas quando se debatem argumentos não se mostra o currículo: ficamo-nos pelos argumentos expressos.
Em resposta à tua resposta chamada "Na Guiné há um bar chamado Bar Nabé (II)", queria dizer-te: 1) que não acho que te tenha insultado e procuro sempre não insultar as pessoas, sobretudo os amigos; 2) que também não te sabia homofóbico e continuo a crer que no essencial o não sejas. 3) que mantenho que os comentários que fizeste são homofóbicos: é a primeira vez que me ponho a botar discurso sobre homofobia, mas parece-me que ela consiste precisamente em colocar em ridículo uma orientação sexual homossexual a despropósito, apenas pelo facto de ela se manifestar. É exactamente o que tu dizes: usaste o sexo para gozar com as divisões políticas. Mas o que resulta da leitura do teu post não é o ridículo daquelas divisões, mas outra coisa implícita que todos entendemos. Não quero armar aqui em moralista. Acho que o peso das "bocas" depende da audiência, do lugar onde se fala, de quem nos ouve e nos lê. Precisamente por isso é que me chocou o que disseste.
Dito isto, acho que tens razão quando dizes que reajo particularmente ao que tu escreves. Já não é a primeira vez. Peço desculpa por isso e, porque somos amigos, prometo que não volta a acontecer. Mas mantenho tudo o que disse.
Costumo dizer que com a culpa nunca se fez nada de bom. Mas não é verdade. A culpa faz montes de coisas. A culpa move montanhas, a culpa é o motor da história. A culpa cristã é muito cansativa - mas ela está no meio de nós. É a culpa que nos faz dizer: não te conheço, mas ando a dizer mal de ti. É a culpa que nos faz pensar: doem-te menos estes estalos que te dou do que a mim me dói o facto de tu não reagires a eles.
Esta é lá de casa, mas não resisto a contar. Hoje, a pretexto de ir passear a criança, estava eu no metro com a minha filha de dois anos e meio ao colo para ir à FNAC comprar o último disco do Elvis Costello, quando, já dentro da carruagem, ela se vira e aponta: olha as gémeas!. Tenho que explicar que ela tinha ficado muito impressionada com as gémeas iranianas a andarem de cabeça colada enquanto faziam mil e uma coisas, tanto que encostava a cabeça à da mãe e dizia para mim: pai, olha as gémeas!! Mas a que pretexto se lembrava ela das gémeas agora? Quando virei a cara para reconhecer o par, dou de caras com duas freiras idosas que me sorriam encantadas e muito rosadinhas. Olhei para ela e disse: não são gémeas, filha, são freiras. É parecido, mas não é a mesma coisa. Tenho moral para a história? Nenhuma. Mas uma coisa é certa, a última geração tem queda para a poética do quotidiano.
O Trindade era um tipo pequeno, dos seus 60 anos, bigode bem aparado. Forte como uma rocha.
O Trindade dirigia o coro dos pioneiros da Estrela. Foi ele que me disse que o fado estupidificava o povo. Foi ele que me explicou porque corríamos o país, em comícios do Partido, para dar força aos camaradas, para mostrar que as gerações futuras iriam construir o socialismo. Não era muito politizado, o Trindade. Mas tinha jeito para crianças.
Mudou quando foi à União Soviética. Pôs-nos a marchar, e os que carregavam a bandeira do Partido até usavam luvas brancas. Tinha ido a um acampamento de pioneiros soviéticos e trouxera aquele aparato todo.
O Trindade era militante do PCP há muitos anos, ainda do tempo da ditadura. Quando eu, finalmente, entrei para a Juventude Comunista, o Trindade não coube em si de contente. Sentiu que tinha cumprido a sua missão, mais uma vez. A missão que o Partido lhe dera.
Há dois anos, encontrei o Trindade numa manifestação. Claro que ele não me reconheceu. E eu não lhe disse nada. Sei, se dissesse, que ele me perguntaria onde estava, o que fazia no Partido. Eu teria de lhe dizer que há muito saíra. Eu primeiro, quase toda a minha família depois. Que na minha casa já não havia um busto pequeno, negro e sempre limpo, de Lenine. Nem a bandeira do PCP, cosida à mão, em 1974, pela minha mãe e pela minha tia. Teria de lhe dizer que conheci a Checoslováquia em 1984 e que a voltei a conhecer, melhor, em 1994. Que a primeira era triste e soturna e a segunda pelo menos mais compreensível para mim. Teria de lhe dizer que no Partido nos últimos anos de militância, fora um fraccionista assumido. E, nos primeiros fora dele, olhado como um traidor.
Teria de lhe dizer que já não sou comunista.
Teria de lhe dizer que festejei Gorbatchov e acreditei até ao fim que era possível um fim diferente. Que festejei a queda do muro e acreditei mais uma vez. Que festejei o fracasso da tentativa de golpe estalinista na URSS e ainda, por uns dias, acreditei, apesar de já nem ser militante. Mas que deixei de acreditar. Que acredito hoje noutras coisas e que mesmo assim, apesar de saber que para ele, esse é um mundo que nunca se deveria ter desmoronado, o considero um camarada. Ele não o acharia. Teria a certeza de que eu claudicara. Não lhe disse nada. O Trindade estava igual, feliz, garantindo, com os seus pequenos e já frágeis 80 e tal anos, o serviço de ordem à manifestação. Seguro, como sempre, do papel que o partido lhe dera.
Não disse nada e senti por ele uma profunda ternura.
Há uns dias, dois amigos, um ex-comunista como eu, e uma que nunca o foi, estavam a conversar sobre Goodbye Lenin. Ela disse que se riu o tempo todo. Ele disse que chorou. Ontem, ao sair do filme, mandei uma mensagem ao meu amigo: "eu também, claro. Mas isso é uma coisa nossa". Como o Trindade.
Por falares em sexo público, tenho que te dizer isto com toda a frontalidade: no teu post "PREC revisited and sexed up" as piadas sobre o movimento LGBT e as suas dissensões baseiam-se em trocadilhos pimba. Depois, os teus comentários são homofóbicos. Fazes alusões sexuais envolvendo pessoas que só são feitas por causa das características daquelas associações, em que a opção sexual assume um carácter político. E essas alusões são feitas num tom de conversa de café, como umas bocas que se mandam, em que tudo parece permitido pelo tom ligeiro, quase contido, que usas, mas em que tudo acaba por ser dito de forma claramente descriminatória. Para a próxima gostava por favor que me falasses de um meeting (ui) mundial de economistas, em que tenha havido excelentes intervenções orais (hmnn) e por vídeo-conferência (hmmm), para não falar da variedade das posições (hmm hmmnn hmmn) apresentadas. Sempre prefiro o Pipi, que pelo menos faz literatura.
Espero que não me leves a mal: sou muito teu amigo e até te acho um tipo charmoso e bonito.
Acho no mínimo curioso que os nossos mais proeminentes comentadores centrem toda a sua análise sobre a sustentabilidade do ensino superior na questão das propinas, quando há dez anos atrás criticaram fortemente o movimento estudantil por reduzir a sua reivindicação ao discurso anti-propina. Apesar do diversificado folclore desses “rascas” movimentos estudantis, que tanto escandalizaram conceituados colunistas da época, muitos estudantes afirmaram, na altura, que a discussão sobre as propinas ultrapassava a mera dualidade do “pagar ou não pagar”, e que esta deveria ser encarada, acima de tudo, como uma questão político-ideológica.
Actualmente os mesmos comentadores, nomeadamente, aqueles que se dizem de esquerda, e que na altura nunca tiveram coragem de se assumir a favor das propinas, vêem agora afirmar que as propinas não só representam a salvação do sistema, como são o único meio de promover a igualdade e justiça social. Um desses brilhantes analistas é Eduardo Prado Coelho (EPC) que, na edição do Público do dia 22 de Setembro, estabelece a seguinte alternativa em relação a quem deverá pagar o ensino superior: «pagam os beneficiários (que pertencem na sua grande maioria aos estratos mais favorecidos) ou pagam todos», e a seguir acrescenta - «no actual estado de coisas parece-me que a justiça social vai no sentido da primeira hipótese – e que portanto é a ela que devemos dar o nome de esquerda». EPC realça que a justiça social só se concretizará se o sistema de acção social funcionar eficazmente de modo a compensar os estudantes e respectivas famílias que tenham dificuldade em garantir os custos de frequência de um curso superior.
E assim vai o estado da esquerda em Portugal. A esquerda que não teve pejo em criticar um dos mais consistentes movimentos estudantis no pós-25 de Abril, sem, no entanto, nunca se ter assumido a favor do “pagamos”, vem agora à ribalta dizer que só alguns devem pagar em nome da justiça social. Torna-se até inquietante verificar como para tão alta intelectualidade a diferença primordial entre a esquerda e direita se resume ao acto de pagar. Assim segundo bem entendi, para EPC a direita defende que quem frequenta o ensino superior tem de pagar e pronto; em contrapartida, a esquerda considera que quem frequenta deve pagar, salvaguardando-se as devidas compensações sociais.
Mas, felizmente, há uma outra esquerda a que considera que qualquer taxação de serviços (sejam eles de educação, de saúde, de justiça...), tendo por base a lógica do utilizador-pagador, acrescenta novas desigualdades sociais às que já são geradas pelo deficiente sistema fiscal que consente inúmeras fugas e encobre a riqueza. As taxas (como é o caso das propinas) representam uma dupla tributação para aqueles que todos os anos cumprem o dever de contribuir: refiro-me aos trabalhadores por conta de outrém e, dentro destes, os funcionários públicos.
Enquanto o sistema fiscal não for transparente e democrático qualquer taxação suplementar reproduzirá exponencialmente as deficiências do próprio sistema. Aqueles que de entre os que frequentam o ensino superior pagarem as propinas, serão os mesmos “alguns” que já pagam impostos. Por seu turno, os que conseguem fugir à tributação fugirão sempre a qualquer taxa. Promova-se e fiscalize-se a obrigatoriedade do contribuinte-pagador, só assim se terá a coragem de definir uma política clara para o país e para o ensino superior. [Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
Bush diz que o Iraque é uma jovem democracia. Por isso pede-nos dinheiro para os ajudar. Comovi-me. Eu sou um tipo que se comove com alguma facilidade. Aquela gente a querer construir uma democracia e nós aqui, mãozinhas de vaca, sem largar um eurico. Felizmente, Durão vai falar hoje na ONU. Ele vai dar a volta aquilo, acreditem. Por mim, quando é pela democracia, não me faço rogado. Mal haja eleições livres e um governo soberano, contem comigo.
De acordo com o relatório da Neves e Sobrinhos, foi detectada uma "interrupção grave e anormal da actividade do Estado", estando assim justificado o primeiro lay-off na Administração Pública. O organismo a extinguir é caracterizado pelo grupo de consultores responsável por este relatório como "pesado, propenso a clientelismos, pouco produtivo, informal, ideologicamente instável e basicamente foleiro ( sic )". Confrontado com a extinção do organismo a que preside, Durão Barroso mostrou-se surpreendido, procurando desvalorizar as conclusões do relatório: "Digo-lhe a mesma coisa que disse relativamente ao Dr.Portas: credibilidade zero!".
Dada a gravidade da situação, este dispositivo de despedimento colectivo será accionado antes da sua aprovação na Assembleia da República. Alguns constitucionalistas, no entanto, alertam para o facto de não ser possível comprovar a função exacta do organismo a extinguir, o que poderá implicar um atraso no processo.
[Rui Lopes, dos Amigos do Barnabé]
[1] Ia eu gozar um bocadinho com o mata-mouros por causa da impagável desorientação deles a propósito do dia-ainda-com-mais-carros-do-que-é-costume no Porto quando reparo que estes rapazes deram três prémios ao Barnabé, dois pelo melhor humor (este e este) e outro pela melhor conclusão (este). Ora então venham a meus braços, seus tripeiros direitistas de um raio!
[2] O Luciano Amaral insinua que eu e o André andássemos por maus caminhos com o Luís Fazenda, o Francisco Louçã e a Maria de Lourdes Pintassilgo – coisa que eu não lhe admito – nenhum deles tem pedalada que chegue – a não ser talvez a engenheira Pintassilgo. Ó caríssimo, se queres conversa porque é que não vens comigo quando eu for aí à basílica da Estrela entregar isto?
[3] O Bazonga da Kilumba dá início a uma linha de investigação sistemática muito promissora sobre os anúncios classificados a bruxos africanos.
[*]Devo um agradecimento ao Miguel Vale de Almeida d'os Tempos que Correm pela sugestão do link do ponto 2, que tenciono realmente utilizar em breve. O site correspondente é muito mau, a ideia é brilhante de tão simples.

Delie & Bechard, D. Pedro II, D. Thereza Christina e comitiva junto às pirâmides, Egipto, 1871.
Curiosa a lástima que desperta (aqui e aqui) o facto de haver quem se permita cascar (aqui e aqui) em Helena Matos, só por que esta, coitadinha (retorcendo tanto quanto lhe foi possível uma deixa de Manuel Alegre) minimiza alegremente a repressão da ditadura: "E estes últimos [os polícias] sabiam bem que nos calabouços não se tratava da mesma forma um trabalhador rural ou um frequentador da Brasileira." Claro, bastava frequentar-se A Brasileira para tudo ser uma brincadeira na hora da PIDE. Hoje, de facto, é diferente: quem vai à guerra dá e leva.
A entrevista que Larry Clark concedeu ao Público - quase exclusivamente centrada nos fluidos e nas mucosas dos actores – já deixava desconfianças. A verdade é que pouco mais há que convocar. Ken Park é um daqueles objectos cinematográficos salvos, em termos de atenção do público, pelas campainhas que o sexo sempre faz tocar, ainda que não possua qualquer pioneirismo na sua abordagem. Se «Kids» era já um produto insuportavelmente moralista, onde a ausência dos adultos só reforçava a sua culpa na desorientação dos teenagers (por deus, não terá ele tido adolescência?), agora Clark alia o moralismo ao voyeurismo mostrando sémen ao pendurão, e felação quanto baste para que percebamos que fazer sexo é algo tão trivial como comer, dormir ou coçar a orelha direita. O problema é que esse estratagema se transforma num exercício de estilo assente numa estrutura narrativa básica (que falta faz Harmony Korine) e numa sucessão de quadros que ele não consegue pôr a conviver. Ora, daí não vem nem escândalo (só o governo português é que se horroriza com o canal 18), nem olhar sociológico, nem densidade psicológica (as personagens são estereótipos grosseiros), nem murro no estômago pelo horroroso mundo novo, nem nada que se pareça. Por isso é que à pergunta «Ken Park quem és tu?» (lembro-me sempre da banda sonora do Zé gato), só apetece responder com um: quem quer saber?
Aliás, já é a terceira vez que tento iniciar um texto sobre a minha 11ª ou 12ª ida ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras num prazo de 10 meses e meio, e não consigo. Não consigo porque só quem fosse uma mistura de Dante, Orwell e Courteline (e Kafka, evidentemente) durante meia hora poderia dar a exacta medida do absurdo hipócrita a que o SEF tem sido levado. Quem escreve estas linhas não é nenhum caguinchas, uma vez que já passou pela Prefecture de Police francesa, que não era nenhuma pêra doce, e conheceu também o antigo SEF de 1997, quando as pessoas não tinham lugar para se sentar e os funcionários tinham de gritar para se fazerem ouvidos através dos vidros que os separavam dos imigrantes.
Mas o SEF tem esta particularidade: de cada vez que um responsável governamental anuncia que funciona melhor, podeis ter a certeza de que piorou. Não sei que espécie de milagre garante esta regularidade estatística, mas assim é. Da última vez que o director do SEF foi entrevistado pelo Público, disse que o prazo de decisão de vistos tinha diminuído para oito meses, o que, apesar de tudo, ele tinha consciência de que era ilegal. Corri ao SEF para perguntar a um funcionário do "meu" processo. Resposta: "eu gostava era de ver o Sr. Director aqui sentado durante cinco minutos que era para confirmar se ele depois ainda continuava a dizer disparates". No SEF, todos sabemos que processo decidido em ano e meio – nada mau –, um ano – uma sorte –, dez meses – um verdadeiro milagre. Agora que o governo mentiu – é o termo – dizendo que o prazo está em quatro ou cinco meses, espera-se o pior. Há gente que esperou dois anos pelo seu visto. Há gente que o recebeu a quinze dias de caducar.
Cada visita ao SEF demora por volta de três horas, quando se consegue senha. Em alguns dias, quem chega às 10h30 não consegue senha. Fecha às três. Para aquelas pessoas reconhecidamente livres na composição dos seus horários – e na relação com os patrões – que são os imigrantes ilegais, isto é do melhor que há.
Os funcionários, aparentemente, metem baixas atrás de baixas (e quem os pode culpar?) e em contrapartida, tratam toda a gente por igualmente mal. Nunca, mas absolutamente nunca, se consegue que duas indicações dadas por dois funcionários do SEF coincidam; excepto talvez em que não há prazos certos para nada. Quanto tempo para decidir um pedido de urgência? Há três semanas: quinze dias. Hoje: mais outro mês. Pode viajar-se com a risível guia entregue pelo SEF, que não tem sequer uma foto, ou um selo branco, e cujo prazo de duração é de apenas um mês? Há dois meses: não se sabe. Há três semanas: podem viajar descansados. Hoje: nem pensem nisso, podem ficar retidos na fronteira. Poderia continuar durante dias e dias com histórias do SEF.
Sei que isto é tão mau que se torna difícil de acreditar. Sei que isto não se coaduna com a imagem que temos de Portugal, país que julgamos acolhedor, etc. Eu próprio há uns dez meses não conseguia acreditar no que me contavam. Hoje o que me parece extraordinário é que nunca tenha havido um motim naquelas instalações.
O Padre António Vieira disse uma vez que a Inquisição era uma fábrica de judeus. Hoje, se lhe quisermos seguir o exemplo e fazer algo de decente por nós e pelo próximo, a primeira coisa que temos de compreender é que o SEF, tal como está, é uma fábrica de ilegais.
Hoje, certamente aborrecido por os africanos não lhe darem bons pretextos para se passar, um dos seguranças do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras humilhou publicamente um americano, aparentemente pelo facto de o homem não ter tido palavras para se exprimir em português. Levou o dedo à boca, cresceu para o pobre homem e berrava: "Tu aqui falas português, ouvistes? Ou então calas-te! Ouvistes?" Quando o americano lhe disse a meia-voz "não sou mal-educado, também não sou estúpido", o segurança achou que este último adjectivo lhe era dirigido, e só por pouco não houve violência. O americano perguntou onde é que podia reclamar por aquele comportamento, e enquanto se afastava por precaução, ouvia a resposta: "reclamas é aqui comigo, ouvistes?". Ninguém teve coragem de se meter.
Cabia aqui talvez uma boa piada sobre o portuguesito e o imperialismo, a cimeira dos Açores, "ah, grande pequeno país", etc. Mas não. A única coisa que cabe aqui é vergonha. Quando vou ao SEF, saio invariavelmente com vergonha do meu país que adoro.
Você está sentido o corpo pesado... você está relaxando... você ouve o barulho de um riacho ao longe... As orelhas... Você sente o corpo relaxando cada vez mais... A perna esquerda... O vento sopra suavemente, e você se sente tranquïlo, repousado... O nariz. ... Seus problemas parecem distantes, longe... A boca. ... O braço direito. ... Você sente o corpo mais quente, mais e mais relaxado. ... Os pés ... as mãos... O calor sobe pelo corpo, fica difícil se mexer, você se sente muito bem. ... Os olhos... a cabeça ... Relaxe, relaxe cada vez mais. Ouça o barulho do riacho, sinta o vento. ... As costas... o peito... Você se sente vivo, novas energias circulam em seu corpo. Você está muito bem, tranquïlo, relaxado. A vida é boa, boa. Tudo é fácil. Você está bem... Costas.
Avenida Brasil, Manual do professor, por Cristián González Bergweiler, São Paulo, E.P.U., 1992
-Alô.
-De onde fala?
-Hotel Bristol, bom dia.
-O senhor Miller está?
-Não. Quer deixar recado?
-Quero sim.
-Como é seu nome, por favor?
-Maria Pedrosa.
-Como?
-Pedrosa!
-Como se escreve?
-P-E-D-R-O-S-A
-Qual é o recado?
-Só que a Maria ligou
Avenida Brasil, Manual do professor, por Cristián González Bergweiler, São Paulo, E.P.U., 1992
-Tácápá i alê.
-Mé gé pá anvi.
-Tápá anvi de pá i alê?
-Séssá. Sé tu tá féssá.
-À lorre lá... Che purré pá tê dê lá.
-Ué. Bom. Fou que gi ai lá.
-Té an vê lou lá?
-Ué... Tan qui éte. Tchou.
-Iá pá de sussi. Tchou.
Compro um maço de tabaco e descubro que paguei por um insulto. Querem que eu ande com um dístico, bem visível, qual estrela de David colada ao peito, que diga que eu sou um suicida em potência, que “fumar mata” – o que é, cientificamente, falso. Tal como o Miguel Vale de Almeida, pretendo andar de cigarreira. Recuso-me a aceitar campanhas moralistas que nada têm a ver com a protecção da saúde pública. Que fumar faz mal, eu sei. Mas eu, mesmo assim, cidadão livre e detentor de todas as suas capacidades intelectuais, fumo. Deixem-me, portanto, em paz.
“Durante a ditadura, a censura e a própria repressão policial permitiram a muitos iludirem a sua mediocridade imaginando sucessos e reconhecimento público que efectivamente não mereciam”. Escreveu Helena Matos, no Público, no sábado. Fica por explicar a razão da pobreza franciscana dos textos de Helena Matos. Porque sobreviveu ela à democracia?
A blogosfera por vezes é responsável por perturbantes mal entendidos. Outro dia, uma amiga de uma amiga, quando falávamos dos blogues, queixou-se, com tristeza: Não consigo encontrar o meu pipi.
Sei que estou num blogue de benfiquistas. Nisso, fiquei a perder com a saída do Blog de Esquerda. Mas tenho de dizer, é uma questão de justiça: fomos roubados em Moreira de Cónegos. Pronto, já disse.
Maria Elisa está lesionada. Cambaleia. Dirige-se para o banco. Desde o princípio do jogo que dá mostras de fadiga. Está, definitivamente, em baixo de forma. Não se integrou no grupo trabalho. Tem um convite para um clube londrino e a sua fraca prestação tem criado grande desilusão nos adeptos laranjas. O quarto árbitro levanta o placard: Quem vai entrar? Ribeeeeeeeirooooo Cristóóóóvããããão.
Um dia, um dos concorrentes do “Ídolos”, com uma pinga de amor próprio, pegará numa G3 e metralhará os membros do júri. Nesse dia, todos condenaremos tal barbárie. Nesse dia, todos saberemos, no fundo das nossas almas, que o Mundo ficou um pouco melhor.
Foi meu companheiro itálico no Blogue de Esquerda. Tem agora o seu blogue – Estrangeiros no Momento. Bem-vindo, Filipe.
A Câmara Municipal de Lisboa deu o exemplo: o dia sem carros resumiu-se a menos de um quilómetro – onde já era proibido e na Rua do Arsenal, Rua do Ouro e Praça do Município. O ministro do Ambiente explica que um dia sem carros não quer dizer que não haja carros. A língua portuguesa é, de facto, complicada.
Há razões para tudo isto e, por uma vez, José Manuel Fernandes tem razão: o simbolismo, se não tem consequências, passa a ser patético. E pode-se fazer mais do que isto: parar de fazer parques de estacionamento no centro, fazer mais parques de estacionamento, gratuitos para quem tenha título de transporte colectivo, nos interfaces dos transportes colectivos, abrir mais corredores BUS e apostar no eléctrico rápido, criar um sistema tarifário único para todos os transportes públicos, municipalizar a Carris e o Metropolitano de Lisboa, criar, finalmente, a Autoridade Metropolitana de Transportes. Tudo ao contrário do que está a ser feito. Lisboa continua a ser um gigantesco parque de estacionamento onde os piões atrapalham. Aqui, um Dia Sem Carros é como o dia da Liberdade na Coreia do Norte.
Agora eles ainda dormem. Mas haverá um dia – e esse dia será terrível - em que os contraltos se vão erguer e liderar a revolta que calaram durante séculos. Agora eles ainda obedecem. Mas já se lê nos seus olhos a raiva que vai derrubar as hierarquias corais. A voz aguda dos sopranos exprimirá pavor e incompreensão e sumir-se-á. Os maestros interromperão os seus gestos de comando. E só os contraltos reinarão como novos soberanos, novas prima-donas da voz feminina.
Um dia destes disseram-me que um imigrante médico vindo do Leste trabalhava nas minas de um concelho alentejano. O médico mineiro, que também poderia ser um servente ou um trabalhador agrícola, reside provavelmente num qualquer quarto de uma aldeia envelhecida, longe da família. Provavelmente, o idoso que lhe aluga o quarto sofre de alguma doença, obrigando-o a deslocar-se regularmente à sede de concelho ou à capital de distrito, onde espera e espera por ser atendido por um médico que, por sua vez, tem uma lista de doentes que nunca mais acaba de atender... E no entanto, existe um médico na aldeia, mas que é mineiro.
A família do médico mineiro não reside na aldeia nem no Alentejo, mas a maior parte das casas onde vive o nosso médico mineiro estão abandonadas e a ruir. Porque não vem a família viver para a aldeia alentejana que tem tanta falta de gente? Gente para trabalhar, mas também gente para fazer reviver a comunidade. E nesta aldeia o médico mineiro podia ser só médico e o velho senhorio já não precisava de sair da aldeia...
Quantos médicos, enfermeiros, engenheiros, e outros profissionais são explorados e se desperdiçam nas inúmeras obras que constróem os estádios, as barragens, as IPs ou as auto-estradas que penetram por esse interior a dentro, cujos estaleiros cheios de trabalhadores instalam-se ao lado de aldeias desertas. Mas os estaleiros vão e aldeias ficam. Como era importante que alguns imigrantes também ficassem com as suas famílias e pudessem trabalhar nas áreas em que se formaram. E como era importante para Portugal e para o desenvolvimento regional do interior que isso pudesse acontecer. Quantas pessoas viveriam melhor se o imigrante mineiro exercesse a sua verdadeira profissão?
[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
A leitura é um acto essencialmente livre. Por mais que um texto proponha ao leitor uma ordem, um sentido, um lugar, o leitor abre caminhos imprevisíveis, alheios às intenções de quem escreve. O leitor é uma espécie de caçador furtivo: meio às cegas, em propriedade alheia, visa o inesperado. Não é só o autor que produz o texto. A produção que o leitor faz de um texto consiste no seguinte: fazer das palavras já escritas novas saídas para histórias mudas, para sentidos adormecidos do escrito que a ocasião de ler veio despertar na memória do leitor. O autor que desenvolveu esta metáfora do caçador furtivo e estas ideias sobre a leitura como uma prática expressiva foi Michel de Certeau, num livro maravilhoso editado pela primeira vez em 1980, L'invention du quotidien. Nunca foi traduzido em Portugal, mas é possível lê-lo em edição brasileira (Petrópolis, Vozes, 1996). Tenho pensado neste livro nos últimos dias, ao escrever mais e, sobretudo, ao ler mais reacções de leitores ao que escrevo. No fundo, passo muito tempo esquecido do que li em Certeau. Durante esse muito tempo, tendo a representar a leitura como uma actividade transparente, aproblemática, como se os textos no fundo fossem iguais para todos. Bastaria a cada leitor ler a palavra escrita e, com mais ou menos informação, assimilá-la. Depois apercebo-me de que não é nada disso, relembro-me do efeito de transformação que senti um dia ao ler as páginas sobre a leitura de Michel de Certeau e tudo readquire novamente um sentido. Caótico e opaco, mas um sentido.
Caros Barnabés: há crescentes queixas de que estamos sempre a falar de um certo senhor. Bem podemos justificar que a polémica com o dito está nos nossos estatutos. O facto é que o respeitável leitor começa a cansar-se. Qual a solução? Por um lado, a revisão estatucional não está prevista e o link para o atrás referido está-nos na massa do sangue. Por outro, o leitor queixoso tem uma certa razão: de tanto falarmos dele vamos acabar por ficar iguais a ele. Proponho uma solução: de cada vez que tivermos que fazer um link para o seu blogue, usaremos uma linguagem cifrada que só nós compreenderemos. Falaremos no autor dos blogues pela fresquinha ou no senhor 5000 visitas diárias ou no blogue que rima com ininterrupto ou que é sinónimo de inopinado, inesperado ou naquele que está à esquerda da direita da esquerda que é de direita que é de esquerda ou, enfim, naquele que tem o mesmo apelido que o autor do Esmeraldo de Situ Orbis mas não se chama Duarte, até porque "Duarte" é o outro que ele aliás também estuda. Mas nunca por nunca mais o nome do inominável voltará a ser proferido aqui no Barnabé.
O tempo passou e eu nem respondi ao Rui Tavares. O maizumpomonte disse quase tudo o que eu tinha para dizer: “"não linkar" deliberadamente é um acto pessoal de repúdio, uma manifestação pública de desacordo, uma questão de consciência e não um acto censório nem uma tentativa de esconder seja o que for.” Nem mais. Por isso não linko e digo: não linko. Mas não linkar é bem diferente de não ligar.
Faz agora seis meses que opositores a Fidel Castro – intelectuais, artistas, jornalistas e activistas políticos – foram condenados a penas de prisão astronómicas apenas por se oporem à ditadura cubana e não desistirem da mais humana das necessidades: a de pensar. Daqui vai a minha solidariedade e, acho que o posso dizer, a de todo o Barnabé.
”Eu não sou de direita”. A frase é de Pacheco Pereira. Já disse aqui que isto da esquerda e da direita depende sempre da perspectiva de quem o diz. Mas se Pacheco Pereira não é de direita, tenho de lhe dar razão: Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, Pacheco Pereira na SIC, Pedro Santana Lopes na SIC, Carrilho na SIC. Para quando Soares Martinez, Silva Resende e Manuel Monteiro? É verdade, isto está tudo tomado.
E a agenda dos noticiários é disso mesmo exemplo: ontem, a TVI, a SIC e a RTP ocuparam os telejornais com crimes, tiroteios e assaltos. A imagem da desordem e da anarquia só pode interessar à esquerda. Essa esquerda securitária dirigida por esse comunista empedernido, o senhor Paulo Portas. E os noticiários monotemáticos sobre a Casa Pia? A quem interessam? Mais uma vez, a essa esquerda que nos governa.
O meu discurso pode parecer paranóico, mas sei que tenho comigo um homem insuspeito: o camarada Pacheco Pereira, esquerdista convicto, marxista insuspeito.
O que disse Paulo Portas (PP) no discurso de rentrée sobre imigração é, infelizmente, largamente consensual na sociedade portuguesa. As palavras de PP só se tornaram polémicas na comunicação social depois do comentário de Pacheco Pereira, não tanto pelo que este disse, mas pelo facto de ser um importante político do PSD (o outro partido da coligação governamental). Se algum membro do Bloco de Esquerda ou do PCP dissesse rigorosamente o mesmo, jamais despontaria algum alarido. Ou seja, em si o discurso de PP passou como mais um discurso de recomeço de ano político.
Para a esquerda não deve preocupar tanto o populismo e a demagogia de PP. Esta vai perdurar e falar dela é dar-lhe excessiva importância. O que deve preocupar a esquerda é o facto das palavras proferidas não causarem estranheza, serem naturais e de certa forma até reconfortantes para parte importante da população. Reconfortam porque PP diz aquilo que muita gente sente no íntimo, mas tem algum pudor em dizer porque não se considera racista, apesar de concordar que os portugueses deverão estar sempre em primeiro lugar para o emprego.
As palavras de PP são para estas pessoas um “alento” - apesar de tudo, “nós os portugueses” estaremos primeiro - e uma “explicação” fácil para os males da vida: até agora não estávamos em primeiro, até agora eles (os imigrantes) foram ocupando os nossos lugares. O recurso a esta suposta explicação será cada vez mais frequente. Pode sempre argumentar-se que o emprego ocupado pelos imigrantes já não é o mesmo da maior parte dos portugueses. No entanto, este argumento não invalida a explicação de que eles são a causa: pois se não fossem os imigrantes haveria sempre mais emprego.
É uma explicação eficaz porque é visual e é palpável: remete para pessoas, gestos e línguas que estão presentes e são vistas e ouvidas no quotidiano. E num mundo globalizado em que as verdadeiras causas dos problemas são geradas em redes invisíveis e em sítios virtuais, inacessíveis para a maior parte dos cidadãos, uma explicação que apresente “matéria” terá sucesso garantido. As palavras de PP tornam-se mais eficazes porque a imigração está cada vez mais presente e visível por esse país fora (antes do surto vindo do Leste, os imigrantes residiam tradicionalmente em bairros circunscritos nas grandes cidades do litoral).
É preciso que a esquerda dê outra visão do mundo ao mundo das pessoas. E isso passa pela capacidade de tornar concreto, isto é, tornar experiência de vida, aquilo que parece distante e invisível. Não é debitar uma pedagogia que já se vai tornando balofa sobre os malefícios da globalização, da exploração das multinacionais e da liberalização dos mercados. Para a maior parte das pessoas ser contra a globalização da economia representa ser contra uma abstracção e isso vale muito pouco em termos de posição e de acção política.
Na minha opinião é importante, acima de tudo, fazer entender às pessoas a necessidade da imigração e da sua real integração no país. Não pelo mero facto de serem eles que constróem e limpam as nossas casas, mas porque eles são e serão um contributo fundamental para o equilíbrio do Estado e da nossa economia: porque contribuem para a Segurança Social e, por isso, pagam em parte as nossas reformas (presentes e futuras); porque são jovens e trazem filhos que poderão voltar a encher algumas salas de aula e dar emprego a mais professores; porque consomem e podem comprar nas nossas lojas; porque trabalham e têm competências e isso aumenta os níveis de produtividade das empresas e do país...
Fazer entender que o país presente e, sobretudo, o do futuro, tem muito a ganhar com os imigrantes, é uma responsabilidade que cabe à esquerda.[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]

Joshua Benoliel, Descarrilamento de um eléctrico que embateu no nº 81 da Rua de São Roque, Lisboa.
«É o Pacheco Pereira que diz que não é de direita!»
"Tínhamos pensado fazer uma coisa abrangente, com comentadores políticos de várias áreas ideológicas, como na televisão. Já tínhamos convidado António Lobo Xavier, Nuno Rogeiro, António Pinto Leite, Marcelo Rebelo de Sousa e Pacheco Pereira. Foi aí que certas coisas bizarras começaram a acontecer. Estamos em crer que todos estes comentadores tenham sido raptados por extra-terrestres e substituídos por alienígenas da esquerda. Ficam as perguntas:
– Onde estão os neurónios de Pacheco Pereira?
– Que qreuem deizr aqleuas msitriesoas fsraes em cdógio?
– Afinal, quem escreveu o texto "Não fui eu"?
– Que macabra cena representa a primeira imagem publicada no Blogue?"
Na mesma edição da New York Review of Books, um excelente artigo de Mark Donner sobre o problema do Iraque como ele está agora.
E agora dois links limpinhos, como diria o meu mestre António Hespanha. O primeiro é precisamente para um artigo deste historiador na revista História, dirigida por Fernando Rosas, e agora também publicado em História e Ciência, um blogue de Sandra Cristina Almeida. A autora fornece-nos ali uma lista de transcrições de obras e autores com reflexões históricas. O texto de Hespanha, chamado "A privatização da história", é uma crítica mordaz à história apenas comandada pelos interesses do mercado. E na mesma revista, no número mais recente, o de Setembro, saíram dois artigos de dois grandecíssimos Barnabés, o Rui Tavares e o Pedro Aires Oliveira, este segundo ainda pouco conhecido do nosso auditório. Ainda não li os textos do Rui e do Pedro. Mas convido desde já os dois a falarem aqui de George Orwell, sobretudo agora que Timothy Garton Ash, especialista em história muito contemporânea, descobriu e publicou a "lista de Orwell", um memorando por ele feito para o governo inglês contendo nomes de pessoas importantes, escritores e jornalistas, que ele suspeitava de "cripto-comunismo". O artigo está disponível em linha no sítio da New York Review of Books.
Atenção: fique claro que este convite não é um convite ao gossip sobre Orwell. Somos intelectuais de esquerda.
Pacheco Pereira na SIC. Santana Lopes na SIC. Marcelo na TVI. E, vá lá, Carrilho na SIC. Tem razão JPP, a comunicação social está tomada pela esquerda.
Quando recebo o e-mail com “FW:” antes, é raro abrir. Mas este é brilhante, li e divulgo:
Sguedno um etsduo da Uinvesriadde de Cmabgirde, a oderm das lertas nas pavralas não tem ipmortnacia qsuae nnhuema. O que ipmrtoa é que a prmiiera e a utlima lreta etsajem no lcoal cetro. De rseto, pdoe ler tduo sem gardnes dfiilcuddaes... Itso é prouqe o crebéro lê as pavralas cmoo um tdoo e nao lreta por lerta.
Smerpe a arpedenr.
Segundo o Público, o relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, Jean Ziegler, vai apresentar um relatório onde descreve uma tentativa de pressão de Israel sobre os palestinianos, promovendo um cerco de fome sobre zonas como a Cisjordânia e Gaza. A pobreza não é uma causa essencial para o terrorismo mas, pelos vistos, o terrorismo de estado não hesita em usar a fome como arma estratégica.
Daniel e André. Nem eu disse que o Daniel estava a censurar informação, nem a comparação com a Inquisição ia neste sentido. Como se via pela frase seguinte o que era dito é que, às vezes, quando se pensa que se está a esconder, está a revelar-se. E que isso é, no mínimo, engraçado. Como é engraçado que o Daniel diga que só foi ler o Muito Mentiroso uma vez porque a escrita é digna de um analfabeto. Ora para o Daniel, que defendeu (e bem) o canal 18, isto não é diferente de quem diga que só viu o canal 18 uma vez, mas que logo desistiu porque a direcção de actores e a realização, enfim… Ou o Paulo Querido dizer que conhece o Muito Mentiroso por obrigação profissional e depois ter escrito acerca dele no seu blog, onde não tem obrigações jornalísticas. Quando eu vi tanta gente tão responsável a falar de uma coisa tão feia e tão má, não resisti e perdi um bocado de tempo a procurar aquele anticlimáctico blogue. No entanto, alguém as obrigava a falar do Muito Mentiroso? E, uma vez que falaram, não seria curial dar aos leitores armas para poderem confirmar o que diziam, como fazemos na academia?
Não proponho nenhum princípio em relação a linkar ou não linkar, mas num caso como o Muito Mentiroso que toda a gente conhece, só vejo dois caminhos. Ou não lhe dar conversa, ou já que se decidiu meter a mão na massa, tapar o nariz e ir até ao fim. Num meio tão igualitário como a blogosfera, tudo à inteligência do leitor (pouca ou muita que seja). E os nossos leitores podem muito bem aguentar com o Muito Mentiroso.
PS: A versão anterior deste texto não tinha link, não por intenção minha, mas por ter sido escrito à pressa. Desculpas ao Paulo Querido. De resto, evidentemente, não há alterações.
Dick Cheney insinuou que havia uma relação entre o Iraque e o atentado de 11 de Setembro. Rumsfeld desmentiu-o. Bush também. É frequente, quando se entra na espiral da mentira, haver sempre quem se entusiasme.
Rui: censurar é impedir que outros saibam. Eu não linko blogues de extrema-direita, não linko blogues difamatórios. Essa é uma escolha. Não é a escolha de esconder, é a escolha de não lhes facilitar a vida. Quem quiser pode sempre lá ir. Até porque acho que coisas como aquela podem dar cabo deste meio. De resto, o André disse tudo.
Rui: a comparação com a Inquisição não tem o menor sentido. A informação sobre a morada do Muito Mentiroso, antes de chegar aos blogues, chega por outras vias, por email por exemplo. Não deste novidade a ninguém ao linkar para lá. Além disso, desde que o Google existe, encontrar essas coisas tornou-se uma brincadeira de criança. Assim, não linkar não tem nada a ver com esconder a informação ou proteger paternalisticamente alguém. Tem a ver, para usar uma imagem que tu conheces bem, com não incluir o Muito Mentiroso na nossa comunidade de interpretação. Ao não linkarmos estamos a dizer: com aquele senhor não falo, não me interessa o que ele diz. É um blogue-libelo difamatório. Tem as mãos cheias de lama e suja de lama a causa justa que alegadamente serve. E que, infelizmente, contribui para desacreditar.

Aurélio da Paz dos Reis, Lançamento do balão "República", Porto, 1912.
E agora, espaço para uma pequena guerra fratricida.
O Index Expurgatorum era uma colecção de passagens perigosas de obras que não eram na sua totalidade suficientemente perigosas para entrar no Index Librorum Prohibitorum. O fiel católico deveria cotejar o Index com a sua biblioteca, e rasurar as passagens em questão. Claro que o fiel herege podia simplesmente regalar-se com a antologia de passagens perigosas que o Santo Ofício extremosamente lhe tinha preparado.
Ora, Daniel: isso é abaixo de inquisição. Obrigar as pessoas a fazerem como este meu primo, e irem blogosfera abaixo em busca de coisa tão apocalíptica como o Muito Mentiroso é uma maldade, só desculpável pelo facto de toda a gente já ter o endereço guardado.
O muito mentiroso é cobarde? Com toda a probabilidade. Monótono? Certamente: ainda as cem perguntas não chegaram ao fim e já eu dou por mim a pensar que chato de país somos. Pretensioso? Sem dúvida. Nauseabundo? Claro, como aliás qualquer coisa saída de qualquer grupo que se auto-intitule de vigilância do que quer que seja. Calunia pessoas? Definitivamente, e se as vítimas conseguirem descobrir o autor, este vai passar um mau bocado no tribunal.
Só que é muito irritante ser tratado como uma jovem mente influenciável, de quem certas coisas devem ser resguardadas. Ora isto é o que eu sinto quando leio esta coligação de gente sensata (que te inclui a ti, ao Pedro Mexia, ao Pacheco Pereira, e tantos outros, quase todos) perdendo o seu tempo com a coisa ruim, e os piores deles fazendo virtuosa questão de publicitar que não se rebaixam a colocar-lhe o link. Ora caros leitores do barnabé: levantem o braço os que já foram espreitar o Muito Mentiroso. Quanto a esses três aí ao fundo que não sabem do que se está a falar, sirvam-se.

Aurélio da Paz dos Reis, [Tropas monárquicas depõem armas], Lisboa, 5 de Outubro de 1910.
– Dedicado a "Pedro Mexia" –
Estou há algum tempo para falar disto, e o Paulo Querido e o Abrupto deram o mote. Disseram tudo sobre o Muito Mentiroso, onde também só fui uma vez (a escrita é digna de um analfabeto). O anonimato é apanágio de cobardes. Quem não assina não merece credibilidade. Por mim, que já por várias vezes, aqui e no Blog de Esquerda, escrevi sobre o caso da Casa Pia, prefiro ou quem dá a cara para se defender a si ou a outros, ou quem, não o podendo fazer, permita a alguém - um jornalista, por exemplo - conferir as suas informações.
O meu amigo Luciano, do Comprometido Espectador, que não faz de facto parte do “meu clube”, escreveu dois longos posts atrasados sobre o 11 de Setembro – esteve de férias.
O teu texto (Onde estavas no 11 de Setembro? – II), Luciano, é, vais-me perdoar, um dos maiores processos de intenção que já li. Primeiro dás a entender que acreditas que houve todo o tipo de reacções. Depois, concentras-te nas reacções que não gostaste. Depois não te esqueces de quem duvidou. E acabas por arrebanhar para o mesmo grupo os que, crime dos crimes, compararam, mesmo que de uma forma gráfica ou distante, o 11 de Setembro de 2001 ao de 1973. A comparação foi aqui discutida e já não tem grande interesse. As comparações fazem-se, e todas as comparações que se façam são entre coisas distintas. Os dois episódios sucederam no mesmo dia e isso não é pouco. Marcaram a política internacional, os Estados Unidos e a esquerda mundial, o que é imenso.
Mas a coisa mais irritante – e que tem sido comum em toda a direita – é a de não permitir qualquer debate sobre o sucedido. Nem político, nem histórico, nem que contextualize. Esta táctica procura apenas impedir o debate sobre as consequências do próprio 11 de Setembro. Que tudo seja inevitável e que a esquerda esteja obrigada a um silêncio culpado, defensivo e paralisante. Não, Luciano, recuso-me a essa regra que tu – e estás longe de estar sozinho – queres impor. O 11 de Setembro condena-se e discute-se e quem o discute não sente nem menos um milímetro do que tu o choque e a dor de ver gente debaixo de escombros e gente a cair de um arranha-céus. Nem menos um milímetro. Mas não estou disposto a ter sempre de fazer uma pausa de silêncio, para que tu digas, como disseste sobre o Mário de Carvalho, que este é dos bons, faz parte do meu clube, está autorizado a ser interlocutor, humano até. Não aceito essa suposta superioridade moral.
Conheço apenas uma pessoa que festejou tal acontecimento. É alguém com quem, mesmo antes de o ter feito, serias incapaz de discutir política. Eu, pelo menos, não tenho estômago. Não é com certeza com este tipo de gente que estás a discutir. O que fazes, o que fez o Pedro Mexia e o Pacheco Pereira, é tentar encostar ao terrorismo todos os que se oponham às tuas posições sobre a reacção belicista e anti-democrática (Patriot Act) americana ao 11 de Setembro.
A mim, não me passa pela cabeça dizer que, se por acaso não condenaste, não choraste ou tentaste discutir o contexto em que se deu o golpe do Pinochet, tens, no fundo, uma costela fascista. A isto chama-se boa-fé. E facilitava todo este debate se a direita inteligente – em que te incluo – o soubesse fazer.
O vento lá fora escreveu, a partir do meu post anterior e do texto que motivou esse uma reflexão mais aprofundada sobre a relação entre bloggers e jornalistas. O facto de o autor, Paulo Querido, acumular as duas actividades dá um acréscimo de informação ao seu texto. Só gostava de esclarecer que eu não quis diluir as diferenças entre as duas actividades: como ele diz, enquanto o jornalismo é um "généro" em que o leitor espera notícias (e depois outras coisas, mas em primeiro lugar notícias), nos blogues há de tudo.
Aquilo em que talvez já tenha mais dúvidas é sobre o carácter revolucionário dos blogues, ideia bem presente no texto de Paulo Querido. Não há dúvida de que os blogues são uma coisa nova, nessa coisa também ainda nova que é a Internet, e também não há dúvida de que em Portugal o crescimento dos blogues foi tal e em tão curto espaço de tempo que se pode considerar o fenómeno "revolucionário". Para mim, o que é mais interessante nos blogues é que, de repente, eles permitiram que toda a gente - incluindo os próprios jornalistas - percebesse empiricamente uma intuição dos (bons) sociólogos: a enorme diferença que existe entre a opinião publicada nos jornais e uma opinião dispersa, caótica, incomensurável, que é a que as pessoas exprimem quando têm meios para o fazer como acontece nos blogues.
No entanto, gostava de acrescentar que aquilo que eu escrevi foi directamente inspirado na investigação histórica que estou a fazer, sobre notícias impressas e manuscritas no século XVIII. Transposto para a actualidade, e socorrendo-me da minha própria experiência como leitor de blogues, aquilo que eu disse é parecido com o que acontecia no século XVIII. Foi uma intuição histórica, mas antes do mais sociológica (e eu nem sociólogo sou, quanto mais bom). Nesta equivalência, os jornais impressos da época (gazetas) seriam os jornais de hoje e as notícias manuscritas trocadas por carta corresponderiam aos blogues. Como nos blogues, no manuscrito havia muito maior liberdade de expressão e comentário. E quem fazia jornais impressos também fazia "jornais" manuscritos. Claro que isto é de uma terrível simplificação e de um anacronismo ainda maior: na época os jornais impressos tinham poucas "notícias" no sentido que lhes damos hoje: o relato inédito de algo que aconteceu. E em certo sentido, hoje é TUDO diferente. Os meios de comunicação entre as duas épocas, então, são literalmente incomparáveis. Mas é um exemplo de como, usando uma comparação histórica, podemos relativizar o carácter revolucionário de um fenómeno. Eu acho que os "blogues" (agora como metáfora de outra coisa, nomeadamente da palavra e da oralidade que nenhum jornal capta, mas também da carta, do email, do "fanzine", do manifesto, etc) sempre existiram. Agora vêem-se é mais, até porque agora é que nós estamos vivos.
E estou mesmo a ficar anarquista como o meu amigo Rui Barnabé.
A reportagem principal da National Geographic de Setembro é sobre os
escravos do século XXI que se estimam em cerca de 27 Milhões. É um
número tão estrondoso que se torna inimaginável, uma abstração (não
fora as estranhamente belas e arrepiantes fotografias que suportam a
reportagem). É preciso que este número se torne concreto, que ganhe
forma e corpo. É preciso falar disto para nos podermos espantar ainda
mais. No dias que correm acelerados só o espanto nos faz parar um pouco
para podermos lembrar. Lembrado torna-se real. Nestes tais dias que
correm depressa por entre os inúmeros fluxos das redes (financeiras, de
informação, de imigração...) temos que encontrar um sítio para ficar um
pouco. Talvez um sítio na rede. Na rede boa. Na rede que fala, que
troca ideias e cores. Esta é a nossa rede e é importante lutar por ela.
No entanto, existem muitas outras redes que servem de meio para a
generalização da miséria humana através da constituição de um
verdadeiro mercado global. São redes virtuais que se alimentam de
carne. Estas redes de corpos ocultos utilizam os mesmos meios e fluxos
que a rede das ideias. É perverso este paradoxo que me atormenta, cada
vez mais, desde a generalização da internet: como é que um meio de
liberdade de expressão é simultaneamente um meio que aprofunda a
exploração. A escravidão globalizou-se porque, entre outras coisas,
existe internet. Pior ainda, a internet ajuda a escondê-la, a torna-la
ainda mais clandestina, mesmo que se encontre próximo de nós. Para
serem vendidos os corpos têm de ser ocultados. Essa é a tarefa da rede.
Este cruel paradoxo leva-me sempre a questionar o que pode fazer a rede
boa para desfiar e, quem sabe, derrubar a rede má. Não tenho resposta
mas acho que há um princípio: é preciso encontrar um sítio que dê corpo
ao mundo. E isso faz-se através da troca de ideias que espantem e façam
lembrar, sem se perderem.
[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
Guarda Republicana substitui Guarda Republicana [excerto de conferência de imprensa]:
«É verdade, primeiro tivemos dúvidas acerca de mandar os portugueses para lá [n.r.: o Iraque]. Mas depois que a população começou a demonstrar uma certa hostilidade em relação às nossas tropas, decidimos que uma tropa semelhante àquela a que os locais estavam habituados, ou seja, pequenos, morenos, barrigudos, com bigode e dispostos a aceitarem gratificações para esquecerem multas... I mean, têm o mesmo nome e tudo, não é? Não se preocupem, está tudo a correr bem, mas agora vai correr mais melhor.»
Os norte-americanos ainda não chamaram os GNR’s portugueses para o Iraque porque estes não estão preparados para o “grau de conflitualidade” existente no território. Segundo notícia do Público, falta armamento, capacetes e coletes anti-bala. Bolas, que até como sabujos somos incompetentes.
Um companheiro, que também tem um blogue, propõe que todos abram os seus blogues e que todos possam participar – tendo o acesso ao username e password. A ideia é simpática e até um pouco anarca. Mas confesso que não a vejo com grande entusiasmo. Os fóruns de discussão (TSF e coisas do género) são a demonstração de que o anonimato e a inexistência de regras claras não favorecem o debate. Os blogues, como são, permitem a total liberdade e regras claras.
A vereadora da cultura da Câmara Municipal de Lisboa pediu aos organizadores do Festival de Cinema Gay e Lésbico para mudarem o nome para Festival da Diversidade. Tão português! Voem, voem, mas baixinho.
Na recente discussão sobre o jornalismo e os blogues, há qualquer coisa que ainda não vi escrito: os blogues, sobretudo os que comentam a actualidade, não existem sem os jornais. Jornalistas e bloguistas banham nas mesmas águas. Lêem as mesmas coisas, lêem-se uns aos outros, influenciam-se mutuamente, passam sem transição de um meio para outro. O Público, o DN e o Expresso, pelo menos estes, constituem, talvez mais do que as televisões, leitura partilhada de todos, leitura que está implícita no que escrevem. Mesmo quando não são jornalistas com carteira, os bloguistas, pelo menos alguns deles, passearam-se, passeiam-se ou vão passear-se pelas redacções dos jornais. E os jornalistas são os primeiros leitores dos blogues. O facto de jornalistas criarem blogues é o resultado natural desta proximidade: de meros leitores passaram a escritores. Isso é bom: trata-se de uma atitude anti-corporativa da parte dos jornalistas. Dos blogues espera-se que, pelo seu lado, não reajam a ela corporativamente.
O cão de Ferro Rodrigues apareceu finalmente. O procurador João Guerra já mandou recolher depoimentos para memória futura de todos os cachorros do bairro.
A metade restante dos neurónios de Pacheco Pereira foi encontrada hoje à tarde nos arquivos da Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa, no bairro da Cedofeita, Porto. A descoberta foi relatada a O Barnabé por António Baião, único militante daquela organização maoista. «Estava a ver a TV, e disse à minha companheira [i.e. a esposa]: fuoda-se o carago do homem ainda não foi lá buscar aquilo!». Segundo António Baião, era prática corrente que os recém-militantes maoistas contribuíssem para o partido com metade dos seus neurónios. «Aqui os camaradas só davam metade. No MRPP era logo 70%», acrescentou. Consultados os arquivos do MRPP em Marvila, o militante Manuel Cartaxo confirmou esta informação: «tentámos doar isto ao Museu República e Resistência, mas não demonstraram qualquer interesse. O Zé Manel ainda cá tem os dele».
No outro dia virei-me para Aristóteles e perguntei-lhe: "ó Aristóteles, meu, porque é que não explicas ao pessoal lá do Desejo Casar a diferença entre a literatura e a história"? Ele respondeu-me: "ó André, pá, então tu achas que eles não sabem? A literatura é o dia do casamento e a história é o que vem antes e o que vem depois. Escreve posts de amor e não me chateies a carola".
O moldavo Ian Constantinescu, 56 anos, residente em Portugal há apenas seis meses, vai ser o novo presidente do Instituto de Estradas de Portugal. O anúncio surpresa foi feito hoje à tarde depois de várias notícias que davam como certa a nomeação de Pires de Lima. Interrogado sobre este assunto o líder parlamentar do PP, Telmo Correia, comentou a O Barnabé: «penso que, agora, todos os portugueses entenderão o sentido das palavras do Dr. Paulo Portas, quando disse este fim-de-semana que não podem entrar mais imigrantes enquanto houver desemprego em Portugal». Fontes governamentais dizem que o Primeiro-Ministro chegou a considerar a hipótese de Pires de Lima, «mas desta vez era preciso alguém que percebesse alguma coisa do assunto».
Ian Constantinescu é doutorado em Engenharia Civil pela Universidade da Crimeia e exercia até ao momento as funções de servente de canteiro nos acessos ao Estádio Intermunicipal de Faro-Loulé. A O Barnabé, Constantinescu foi lacónico: «Estar contenta com nova trabalho. Aqui pontes todas kaput. Agora esperar visto.»
O Dicionário do Diabo já fez o favor de esclarecer mas os telefonemas não param. Não sou o Daniel Oliveira da TV.
Há algumas diferenças fundamentais entre mim e o outro:
Parafraseando o Pedro Mexia, eu nunca escolheria, para um livro, o título “Todos lá dentro”, no plural.
Os meus pais não são toxicodependentes. A minha mãe é comunista e o meu pai intelectual. Mas estão os dois “limpos” há algum tempo.
Não venci o concurso “Geração Fantástica”. Ganhei uma vez no snooker – foi com uma miúda, não sei se conta.
Nunca escrevi um livro sobre os Anjos. Entrevistei uma vez o pequeno Saúl (o do Bacalhau).
Não apresento um programa de televisão. Já apareci numa reportagem sobre acupunctura.
Não passei este Agosto na Volta a Portugal em Bicicleta. Participei num campeonato de caricas. Fiquei em último.
Sou infinitamente mais pobre do que o outro.
Assim, para que fique registado, não me responsabilizo pelos livros do senhor Daniel Oliveira, “O Outro”, caso ele não me pague uma indemnização – estou disposto a negociar – por danos morais e manifesta dor de corno.
O vice-primeiro-ministro israelita quer matar Arafat. Assim vai o "combate ao terrorismo".
O presidente do Instituto de Estradas de Portugal foi borda fora mas logo se desenrascou. Tinham já passado os 10 meses limite para poder retomar o lugar de deputado – sim, é verdade, ele era deputado – e ele já escrevera uma carta de renúncia. Só que o parlamento estava de férias. E a borboleta da IC19 não se acanhou: escreveu uma carta em que renuncia à renúncia. Reconheçamos que homem é coerente: se só depois de cair se pode saber se uma ponte cai, só depois de se ser demitido se pode saber que se está desempregado.
O procurador João Guerra afirma, na resposta à contra-alegação ao pedido de alteração à medida de coacção aplicada a Paulo Pedroso, que uma das principais provas de que Pedroso anda a tentar pressionar a justiça é o facto de, suspeitando que estavam a ser escutados, António Costa e Ferro Rodrigues terem decidido continuar uma conversa noutro telefone. Arguto, o procurador conclui que, se assim o fizeram, é porque têm algo a esconder. E se assim é, só se podem tratar de manigâncias para travar a justiça. Tirando o pormenor do telefonema não ter sido com o Pedroso, João Guerra está carregado de razão.
Eu, aliás, desconfio do meu vizinho. O tipo, lá para a meia-noite, todos os dias, sem falhar, fecha os estores do quarto. O que é aquele gajo anda esconder? Coisa boa não é. Já me queixei à Judite. Estes criminosos não podem andar assim à solta.
A filha da Rosa tem uma constipação que não é nada pós-moderna e nós esperamos que ela se restabeleça rapidamente. Nessa altura - e só nessa altura - também queremos que a Rosa saia de casa para nos visitar, traga a E. para ela também ver o Barnabé, e se vá instalando como quiser.
O intermitente também se pronuncia sobre este tema, citando o interessantíssimo estudo do Alto Comissariado Para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME) sobre o Impacto da Imigração em Portugal nas Contas do Estado, que demonstra que os imigrantes são contribuintes líquidos no nosso país. Além de pagarem os nossos impostos, os imigrantes contribuem também para as pensões de reforma de todos.
Por outro lado, este estudo conclui erradamente que os imigrantes ilegais não pagam impostos. Não é verdade: os imigrantes ilegais podem ser levados por várias razões a serem contribuintes ou a entrarem na Segurança Social. Por experiência própria, sei que tanto nas finanças como na Segurança Social não é exigida absolutamente prova nenhuma de legalização para realizar as respectivas inscrições (e mal fariam, pois o SEF demora, ilegalmente, mais de um ano a entregar os vistos de residência). Ou seja, os imigrantes em Portugal vivem em taxation without representation, a mesma razão que levou os founding fathers a declarar a independência dos EUA. Convinha que os nossos liberais pensassem mais nisso.
Isto sem falar, é claro, nos outros impactos positivos dos imigrantes na economia e sociedade portuguesas. Nomeadamente na estranha aposta que, voluntariamente ou tacitamente, este governo parece fazer na imigração ilegal como motor da retoma económica. É que, se como dizia Pacheco Pereira, Paulo Portas falou contra o Ministro da Administração Interna (existe?), também o Ministro da Economia (a existir) deu um pulo na cadeira.
Mas voltaremos a falar disto.
Os nossos estatutos dizem-nos para entrar em polémica com Pacheco Pereira. Mas não nos dizem nada sobre concordar com ele. Ora o que ele disse sobre o discurso xenófobo e demagógico de Paulo Portas está muitíssimo bem dito. Cito uma parte:
" ... Vi-o ontem num comício, a fazer de conta que tem a voz solta, quando todos sabemos que a tem há muito tempo presa. Falou de imigração, porque de facto quase não podia falar de nada. E o que disse é puramente ideológico, uma receita política sem sentido, ou melhor, com um outro e mais perigoso sentido do que aquele que ele lhe deu... convinha que alguém no PP, que saiba alguma coisa sobre imigração e emprego, dissesse ao dr. Portas que em Portugal, em 2003, essa correlação [entre imigração e desemprego] não tem qualquer sentido. Os trabalhadores da Marinha Grande ou as operárias da Clark's não vão trabalhar para a construção civil ou como empregadas domésticas. Os ucranianos e as cabo-verdianas, os moldavos e as são-tomenses não competem com os portugueses e as portuguesas nos empregos que têm, a não ser residualmente. Mas a catilinária contra a imigração do dr. Portas nada tem a ver com o emprego. Tem a ver com um Portugal limpo de imigrantes, e por isso acaba por resultar num discurso contra os imigrantes, tão pouco português que carece de sentido. É copiado da vulgata de Le Pen, do pior que há , e escolhido, não porque constitua qualquer preocupação dos portugueses, mesmo dos da direita, mas apenas porque o dr. Portas não pode falar de quase coisa nenhuma e ele não quer ficar calado."
Concordo na generalidade, e na especialidade também com quase tudo (parece-me no entanto que se Portas convoca este tema não é porque "não... constitua qualquer preocupação dos portugueses, mesmo dos da direita" – Portas sabe que campaínhas é que quer tocar).
Dito isto, há duas questões suplementares:
– A primeira é que há quem não acredite que o discurso de Portas seja de facto igual ao do Le Pen – mas é. Quem assim pensa é porque está toldado por uma imagem caricatural do Le Pen como uma espécie de macaco que passa o tempo a grunhir contra os árabes e os negros. Le Pen só faz isso quando se distrai; o resto do tempo diz coisas iguaizinhas ao que Portas disse ontem (por exemplo, que um pai de família se preocupa primeiro com os filhos e só depois com as visitas, etc.) Se ouvirmos o arrepiante número dois do Front National, Bruno Gollnisch, concluímos que ele não destoaria no actual PP.
– A segunda questão é: se isto não é a extrema-direita, então o que é que é a extrema-direita?
Por causa das suas críticas ao discurso anti-imigração de Paulo Portas, os blogues chegaram aos telejornais. Pacheco disse o que por toda a Europa diria qualquer pessoa pessoa normal de uma qualquer direita minimamente civilizada. O impagável Pires de Lima – saído de uma caverna da Quinta da Marinha – afirmou que os neurónios de JPP não funcionam todos quando fala de Paulo Portas. Os meus também não: o populismo é pouco exigente nessa matéria.
Se ainda não provámos que não temos receitas para tudo, temos pelo menos uma receita que se pode provar. O Barnabé mostra-se assim mais (maria de lurdes) modesto do que parece.
Receita de pasta all’amatriciana da região do Lácio (3-4 pessoas). Boa alternativa ao clássico, mas às vezes enfadonho, spaghetti alla carbonara

Cortar meia cebola média aos bocadinhos e levar a refogar em lume médio. Juntar-lhe o toucinho (200-250g) cortado também aos bocados e temperar com piripiri a gosto. Quando estiver tudo bem alourado, retirar o refogado e, na mesma frigideira, fazer um molho com polpa de tomate (400g), temperando-o com sal. Ao fim de dez minutos, misturar bem o molho de tomate com o toucinho e apagar o lume. Cozer o esparguete (a marca Barilla, por exemplo, é boa) bem al dente (7-8 min.) em água com sal, escorrê-lo e misturá-lo rapidamente na frigideira com o molho, cujo lume se voltou entretanto a acender. Temperar com queijo ralado, pecorino romano de preferência. Se não houver deste, que fica bem por ser salgado e picante, o parmesão também fica bem.
A última edição do Expresso dava relevo a dois títulos que espelham bem a evolução que a sociedade portuguesa terá nos próximos anos se nada for feito em sentido contrário. Os títulos são: “Qualificados em fuga. 40 mil desempregados optam pela emigração”, “Grande Lisboa concentra quase metade da população em 2015”.
A fuga de recursos humanos e a densificação das malhas urbanas de Lisboa e do Porto são consequências estruturais de uma política continuada de falta de investimento nas pessoas e nas regiões (sobretudo do interior). Nas últimas duas décadas o investimento público e privado canalizou-se fundamentalmente para o betão, para as paredes.
Como aumentaram as paredes durante estes 30 anos de democracia! E é cada vez mais difícil circular pelas grandes cidades sem esbarrar numa. As paredes fecham as pessoas, isolam-nas à comunicação e à relação. Talvez por isso tenhamos uma obsessão por telemóveis. Talvez seja uma forma de ultrapassar as paredes. Mas o problema é que as paredes multiplicaram-se e as pessoas pararam, vivem sufocadas e chegaram a um ponto onde não há mais saída.
O betão assaltou as cidades, o alcatrão cortou as serras e os campos esvaziaram-se ainda mais. Esvaziaram-se tanto que deixaram de ter memória, resta-lhes a memória das cinzas, pois as pessoas já não se lembram do desenho daquela que era a sua paisagem (a da infância). Perderam-se os alicerces do tempo, já não há nada a fazer neste país. Saiamos todos! É tempo de fugir das paredes e das cinzas.
[texto de Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
Não foi propriamente uma surpresa, mas esta é uma morte difícil de engolir. Há muito que Johnny Cash estava gravemente doente, facto que não o impediu de gravar nos últimos anos quatro discos fantásticos em parceria com o produtor Rick Rubin (Beastie Boys) onde, a par de originais seus, recriou canções de autores como Nick Cave, Neil, Diamond, Will oldham, Tom Petty, ou os improváveis U2 e Depeche Mode. Para traz ficou uma vida de tragédias e momentos luminosos e uma grande, grande, mão cheia de canções que nos iniciam numa outra história da América: a das «murder ballads», dos amores infelizes, das histórias de presidiários (ele próprio esteve preso várias vezes) e outros personagens arredios e, à primeira vista, pouco recomendáveis. Country? Sim, mas não só, ou com uma forma de emaranhar as taxionomias musicais que ajudou a minha geração a libertar-se de preconceitos em relação a um género musical. Um minuto de silêncio Cibernético para o homem de negro.
A trituração mediática gera, entre outros efeitos não comprovados, uma estranha nostalgia, nem que seja pelo passado de há uns meses, muito poucos. Quando tudo desanda com enorme ligeireza, até as andorinhas menos fiéis parecem frutas cristalizadas. Está, claramente em marcha um processo de redenção de António Guterres (a semana passada, até Lula ajudou). Desde logo, é estranho constatar que a exumação começa antes que seja visível qualquer atitude que demonstre um interesse real do engenheiro em regressar à política activa. Tudo se passa como naquelas brincadeiras em que, meio a sério meio a rir, se coloca uma chávena no centro da mesa e se começa a incomodar Ramsés, Napoleão, o seu cavalo branco, Che Guevara (este apenas em alguns círculos inconfessáveis) e, às tantas, o fantasma, já cheio de horror ao vazio ou picado pela imodéstia, não tem outro remédio senão dar um ar de sua graça.
O problema parece ser, não tanto, a quem aproveita Guterres, mas o que se aproveita de Guterres. Depois do seu desastroso e muito pouco digno naufrágio governamental, Guterres está para a esquerda (não estou a falar do centro descaído) como Freitas do Amaral está para a direita. Pelo menos no termómetro dos ódios. É um mutante. É claro que o era desde o início, se pensarmos como ele próprio hierarquizava as suas fidelidades (primeiro católico, depois europeista, depois, quando calhava, socialista), mas dez anos de cavaquismo fizeram-no parecer muito moderno e progressista. A verdade, é que à esquerda começa a tomar corpo uma evidência: é ele «O homem», sem que isso resulte de qualquer reflexão sobre o perfil desejado para um presidente, mas simplesmente porque não se vislumbra outro pretendente (excepção feita a soluções patéticas e quase monárquicas como a de João Soares). Se para a direita, que tem dois candidatos pelo menos (Cavaco Silva e Santana Lopes), ainda é cedo para discutir presidenciais e a preocupação com o perfil parece secundária (alguém imagina Cavaco como uma figura moderadora?, ou alguém consegue antecipar como será uma presidência aberta de folhado a bloquear os maxilares para evitar o convívio), para a esquerda é importante começar a «imaginar» um candidato, sob pena de nos sair a fava ou um guterrismo a partir de Belém.
O governo quer fechar a Escola da Ponte, um projecto educativo inovador que mobiliza a população, os professores e os alunos. Quer matar a escola porque o projecto não corresponde ao seu discurso ideológico. Adoram encher a boca com a autonomia, com rigor e com o empenhamento dos funcionários públicos. Mas quando há alguém põe mãos à obra, logo vem a tentação totalitária. Depois não venham falar do imobilismo da função pública.
Portas e Telmo, na rentrée, puseram tudo em pratos limpos: a agenda do PP é igual à de Le Pen. Mais portuguesa, correcta, “humanista” – há palavras que estão condenadas ao vazio –, mas com a mesma bandeira: primeiro os portugueses.
A Suécia disse que não ao Euro. Não foi nacionalismo, foi bom-senso. A moeda de troca era a segurança social e, felizmente, ainda há na Europa quem queira defender o que conquistou. No dia em que a União Europeia resolver seguir outro caminho, o oposto ao que está escrito no projecto de Constituição Europeia, talvez o Norte da Europa – que conquistou para os trabalhadores o que o socialismo real nunca se atreveu a sonhar – se sinta bem nesta UE. Talvez então este clube de eurocratas diga alguma coisa aos europeus.
Uma pessoa vai de fim-de-semana e quando chega vê aquilo que menos espera: elogios. E nisso sou como o Mexia: deixa-me num certo embaraço, lido melhor com as forquilhas. Mas não me furto a desenvolver duas questões levantadas pelo Mexia e pelo Ivan: o prazer da discussão e a ligação desse prazer com a acção política.
Começo pela segunda: não sei porque me interesso pela política. Ou melhor, sei mas é muito difícil de explicar. Porque tinha 4, 5 e 6 anos durante o PREC e a minha família era ultra-politizada e militante comunista (o que quer dizer que levava a política para o seu quotidiano). Porque sinto necessidade de intervir e mudar e indignar-me e ser consequente com tudo isto. Porque a miséria me revolta e a revolta se transforma em qualquer coisa. Porque é o que sei fazer melhor. Porque sou um “homem de partido” e reconheço-me nos que também o são e que são por isso tratados como débeis mentais, gente com problemas de socialização, carneiros ou meros oportunistas. Porque, gastos todos estes argumentos, a política tem um lado lúdico – de jogo – que me estimula.
E gosto de discutir. Sempre gostei. Desde que falo. E vejo agora, com a minha filha, como isso pode nascer tão cedo. O gosto pela discussão é das características que tenho a que, confesso, mais aprecio. “Serenidade”, “consenso”, "acordo", “pacto de regime”, “interesse nacional” ou “desígnio” são como a pasta medicinal Couto: andam na boca de toda a gente. Não me revejo nestas palavras.
A discussão, sobretudo na política, é não só um jogo – que exige elasticidade e inteligência – mas também um exercício de honestidade. Deixei de ser comunista, no fim da adolescência, porque discuti muito. Sobretudo com os meus amigos, que, na sua esmagadora maioria, não o eram. Parte deles está aqui, neste blog. Confrontei as minhas convicções com as deles mas, nesse exercício de argumentar até à última gota de suor, confrontei as minhas convicções comigo mesmo. Percebi quando já estava a fazer exercícios de retórica e quando eu próprio já não acreditava no que estava a dizer. Acho, mandando a modéstia às malvas, que este é o maior dos exercícios de honestidade intelectual. Quem desiste logo do confronto ou quem nunca chega sequer a ele raramente se põe em causa. Não muda porque essa necessidade nunca lhe é imposta. São os piores dos sectários. Mas está na moda o elogio do homem discreto: que fala pouco, que só fala quando é indispensável e que mede sempre o que diz. Sem querer fazer promover o disparate incontinente – tão irritante como o silêncio calculado –, prefiro quem se arrisca no confronto.
Por fim, e socorrendo-me de Manuel Monereo, um dirigente da Esquerda Unida espanhola que ouvi ontem, o que a esquerda tem de fazer é falar, falar, falar muito. Com os pais, com os filhos, com os amigos, com os colegas, com os vizinhos. Ele estava a animar as pessoas que se queixavam do estado de manipulação e estupidificação a que chegou da comunicação social – farei mais tarde um post sobre este assunto. Dizia que a solução está aí: em usar a mais velha das armas da política – a palavra. Aqui, na blogosfera, uso-a, não disfarço, como instrumento de combate político. Mas, Mexia, não tenhas dúvidas: a minha intervenção política ultrapassa em muito a mera discussão. Dedico-lhe horas infindáveis da minha vida. Será uma droga? Não. É assim como respirar. Não se explica. Respira-se.
Não devia blogar a estas horas mas não resisto. No meio do nevoeiro que é a minha percepção à distância dos jogos do Benfica, o Nietzsche e Schopenhauer representa um farol por onde me oriento. O que eles escrevem é muito divertido, culto e sintético. Juro que não pensei que houvesse benfiquistas assim. Os adeptos do meu clube, em geral, perderam há muito o princípio da realidade. No setezero, ao contrário, têm-no em excesso. Para lá das aparências, eles são como os patriotas que estão sempre a dizer mal de Portugal: amam furiosamente aquilo em que desancam. O Frederico e o Artur são os maiores benfiquistas.
Estar momentaneamente privado de Internet impediu a minha participação no arranque glorioso do Barnabé, mas permitiu-me ver o duelo «previsível» entre Mário Soares e Pacheco Pereira (P.P.) na Sic Notícias e constatar como alguns dos principais (e porventura, os mais honestos) adeptos da solução bélica no Iraque começam a colocar-se numa posição defensiva. Entre outras coisas, P.P. foi dizendo que o facto de os serviços secretos britânicos terem, eventualmente, mentido sobre a amplitude da ameaça iraquiana não quer dizer que o governo tenha mentido, pois este estaria simplesmente a vender o peixe como o comprou. O comentário é de uma ingenuidade tão cândida quanto suspeita, mas, ainda assim, a pôr-se essa hipótese, o argumento evacua completamente uma coisa, que está visto é de somenos, a que chamamos habitualmente responsabilidade política. Mais caricato foi ver P.P. responsabilizar os intelectuais pelo fomento do terrorismo. Sabendo eu que P.P. é um historiador credível e que conhece a circunscrição histórica da palavra intelectual, é difícil acreditar que esteja mesmo convencido de que indivíduos como o Bin Laden se possam considerar intelectuais. Mas que importa, matam-se dois coelhos com uma só cajadada. Por fim, a argumentação tomou quase a forma de um repto: atenção! Se não formos atrás dos americanos eles vão fazer uma Nato com quem os apoia e, então, farão mais asneiras (suponho que o «mais» tenha sido um acto falhado). Solução: temos que ir atrás deles e fazer as asneiras com eles… senão, eles, coitados, fazem-nas sozinhos. Porque é que com PP o realismo se transforma sempre no mais irrecuperável conformismo?
Quanto a Soares, devo confessar que tenho sentimentos contraditórios. De certa forma, é quase um anti-gémeo de PP. Como é estranho vê-lo falar da pobreza universal (temi que discorresse sobre a miséria cósmica) para justificar o terrorismo, culpar o capitalismo selvagem, a barbárie and so on, and so on. Em 2003, Soares parece aquele avô anarco-sindicalista que todo o filho da burguesia gostaria de ter tido. No seu caso, isso não pode deixar de soar a ligeireza de pré-reforma política, como se se estivesse a reencontrar com a sua adolescência sem ter já o incómodo da realidade pelo meio a desfigurar-lhe o idealismo. O pior é que lhe tolda a análise. Não é a pobreza que gera este terrorismo (P.P. esteve bem quando ripostou que, a ser assim, a África Austral devia ser o principal foco de terrorismo do planeta), é um combinado terrível que inclui o sentimento de injustiça e a cultura de martírio tomada às colheradas desde o berço, misturados com a evidência do sectarismo americano todos os dias confirmada, ali ao lado, na Palestina.
O Rui, felizmente, antecipou-se à dissertação de barnabesianismo que eu tinha preparado. O que ele escreveu é importante, até porque ele é que é o pai da criança: foi quem deu a ideia do nome e do mote "o que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?".
É claro que este mote é um mote para nós mesmos. É um estímulo para sermos originais. É claro que este mote não nos defende de sermos exactamente iguais aos outros ou mais um para o monte. O mote está sempre prestes a virar-se contra nós enquanto pretensão de originalidade. Mas não vale a pena falar disso agora: ainda a procissão de São Barnabé vai no adro.
Voltando à letra de Sérgio Godinho. Quando a ouvia há dez anos atrás, não sabia que a canção tinha sido escrita antes do 25 de Abril. Via-a como mais uma canção do Sérgio Godinho da época revolucionária. Quando redescobri agora a letra sabendo que ela é de 1972, ela ganhou mais interesse para mim: não sei o que os sergiogodinhistas pensam, mas parece-me que ela faz referência às falsas promessas de um certo novo-riquismo da época marcelista ("a fortuna cresce nas cidades"). Uma época em que o país se estava a urbanizar rapidamente e coisas modernas chegavam às aldeias, mudando os hábitos. Revolucionário nesta altura era o capitalismo, não tanto o Sérgio Godinho. Neste contexto, o Barnabé é uma personagem exemplar que é capaz de trazer coisas boas para a "vida da gente" sem as aliciar com falsas promessas. Na sua ingenuidade, se lida trinta anos depois, parece-me que a letra tem a inteligência de não dizer qual é a solução alternativa para "curar a vida da gente". A solução é apenas um Barnabé (se calhar este nome tem algum segundo sentido histórico que eu ignoro, mas que na época se percebia), que chega e que faz qualquer coisa de diferente que não se sabe bem o que é. É um populismo suave. Anos depois, em 1979 (álbum "Campolide"), Sérgio Godinho criou um novo personagem deste género, que acho que pode ser lido como um sucessor do Barnabé, e de que eu até gosto mais, o Casimiro (mais exactamente, Casimiro Baltasar da Conceição). Trata-se de outro personagem popular que consegue, apenas com o seu bom senso ("via as coisas por dentro", tinha as "orelhas equipadas com radar", um "nariz que parecia um elefante", etc), desmontar a banha da cobra e as falsas promessas do poder local democrático.
A dissertação vai longa: para revisitar a minha tradição afectiva de criança de esquerda, gosto de um Barnabé que não traz soluções milagrosas mas que também não abdica da vontade de mudar.
E amo a língua de Caetano Veloso.
Muito bem. Agora que o terrível segredo que impendia sobre o nosso nome foi desvendado, há que dizer com frontalidade que esta coisa da tradição é muito complicada, e antes que os exegetas de serviço comecem a decifrar-nos, sinto-me na obrigação de acrescentar novas fontes para o debate.
Ora se é verdade que o Barnabé, para o Ivan e para o André, evoca xaroposas recordações da adolescência no liceu Pedro Nunes, e que para o José Pacheco Pereira não evoca nada porque na altura andava demasiado ocupado a escrever comunicados para ter tempo para ouvir música, a mim lembra-me o meu tio-bisavô Manel Marcelino, trabalhador rural ribatejano de Arrifana, Azambuja, a quem chamavam Bernambé ou Barnabé.
Com esse nome havia também um miúdo lá da rua. O Barnabé descia as escadas do prédio numa corrida insana, era vesgo, desajeitado e não conseguia chutar uma bola a direito, o que uma vez levou a Dona Estrela [com os diabos, isto para quem interessa nunca há linques, e tanto que a Dona Estrela merecia um], do rés-do-chão esquerdo do 47 a atirar-lhe com uma cafeteira de água quente pela cabeça abaixo. Quando ele passou naquele estado em frente à padaria, a mãe do Barnabé desabafou: "Ai, vizinhas, eu não sei o que é que tem o meu Barnabé. Porque é que ele é tão diferente dos outros?" Não sei se o Sérgio Godinho terá ouvido este sound-byte lá do Alto de São João. O que sei é que hoje o Barnabé já não é diferente dos outros, porque está desempregado como toda a gente.
Claro que eu ouvia também o Pré-Histórias do Sérgio Godinho, à época em cassette. Aliás, ouvi-o tanto que enrolei a fita no gravador da minha irmã, um daqueles brancos e azuis que pareciam uma mala de senhora e que hoje em dia estão nos museus de design. A minha música preferida cantava "Dizem que os pintos não voam / este voou sobre as casas / os que não voam não querem / ou lhes cortaram as asas". A partir do momento em que a fita se tornou inaudível, virei-me para o single do Marco, que me tinha sido oferecido com os meus primeiros óculos, e que, uma vez que não tínhamos gira-discos, eu pendurava numa maçaneta da porta, enquanto fazia o disco rodar e imaginava a música.
Mas no dia em que este blog se espraiar pela lusofonia, é natural que outros leitores lembrem antes Arrigo Barnabé, o músico experimental paranaense radicado em São Paulo e autor de pérolas como Clara Crocodilo, Pô Amar é Importante e Cidade Oculta.

Arrigo Barnabé foi o primeiro compositor a musicar o Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos. Caetano Veloso casou-o com a fadista portuguesa Maria da Fé em "Língua", uma das suas obras-primas:
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisa como rã e ímã...
Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé,
Maria da Fé e Arrigo Barnabé
Outra tradição que também reclamamos para nós é a do Apóstolo São Barnabé, que morreu apedrejado em Chipre.

É ele o nosso patrono, bem como da ordem monástica dos barnabitas, fundada em Milão por Santo António Zacarias, e de que fez parte São Carlos Borromeu.
Por último, não esqueçamos a formosa freguesia de São Barnabé, no Concelho de Almodôvar, do lado alentejano da Serra do Caldeirão.

Será aqui que, no dia da invocação do santo, 11 de Junho, abriremos no próximo ano os trabalhos da nossa Universidade de Verão, onde participarão Fernando Seara, Nuno Morais Sarmento e José Luís Arnaut. É engraçado, não é? Isto anda tudo ligado.
Na polémica sobre a capa do Público de 11 de Setembro o Abrupto elaborou um bocadinho mais sobre a sua indignação. Continuo a discordar totalmente, mas acho que vale a pena ir lá ler para a discussão ficar menos dogmática.
O mesmo Abrupto precedeu a sua análise de uma outra, mais estimulante, sobre a memória e as suas fracturas ideológicas. Como a memória é, de facto, uma coisa muito opaca, fiquei a saber que Pacheco Pereira não descodificou imediatamente a referência da canção de Sérgio Godinho que dá o nome a este blogue. E ele é que era de esquerda nessa altura. Nós, quando muito, usávamos o babete à esquerda. Para mim a identificação com o barnabé veio com a adolescência e foi aí que se tornou automática. Como já sugeriu o Ivan, para nós o Sérgio Godinho é mais uma tradição que vem da adolescência. Mas Pacheco Pereira tem razão: a escolha do nome significa a escolha de uma tradição e essa cultura de adolescência é de esquerda. A esse propósito talvez tenha interesse transcrever para aqui a letra da música. Mais tarde gostava de dizer qualquer coisa sobre ela.
Vieram profetas
Vieram Doutores
santos milagreiros, poetas, cantores
cada qual com um discurso diferente
p'ra curar a vida da gente
e a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
Toda a gente arribou [bis]
Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?
Vieram peritos
em habilidades
dizer que a fortuna cresce nas cidades
e que só ganha quem concorrer
e quem vai ser, quem vai ser
que vai ganhar, vai vencer?
E a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
Toda a gente ganhou [bis]
Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?
Vieram comerciantes
vender sabonetes
danças regionais, televisões, rabanetes
em suaves prestações mensais
e quem dá mais, quem dá mais? [bis]
E a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
quem tinha ouvidos ouviu
quem tinha pernas dançou
Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?

JA Cunha Moraes [1857-1932], Caçada ao Hypopotamo, Margens do Rio Zayre, Angola, c. 1878.
Um dia igual a tantos outros, no Portugal de Durão. Soubemos que, na Universidade de Verão do PSD, Fernando Seara «alertou para um novo tipo democracia, "a democracia do sujeito que se chama blogs". "Cuidado com os boatos. Repito, cuidado com os boatos", afirmou, acrescentando que rumores sobre sexo, saúde e "sur" (debaixo, ou seja, "bolso cheio, corrupção" são explosivos)» [cit. Público – fica por saber-se em que língua "sur" quererá dizer "debaixo", mas evidentemente que na Universidade de Verão do PSD a erudição se espraia bem para lá dos idiomas indo-europeus]. Soubemos também que Nuno Morais Sarmento tem por livro preferido A Arte da Guerra e filme O Clube dos Poetas Mortos, certamente por julgar que o estado destes últimos resulta da perfeição na condução da primeira. E, no finalzinho do dia, tivemos a oportunidade de ver José Luís Arnaut exprimir a preocupação do governo com o desempenho da selecção nacional de futebol.
Ai, ai, ai, estes gajos são melhores que os "malucos do riso" – não há nada que pague isto.
Post-scriptum: Ocorreu-me, dado um certo clima de hipersensibilidade reinante, que esta posta pudesse ser treslida, ainda que por um momentozinho, como um exemplo da famosa arrogância cultural da esquerda, e queria evitar que assim fosse. Saibam, pois, que não é. Mas ao menos dêem alguma luta.
Gosto do Pedro Mexia e gosto da Ana Sá Lopes. Concordo quase sempre com a Ana e discordo quase sempre do Mexia. Não acho mal nenhum que os jornalistas tenham blogues e acho muito mal que o Mexia se remeta a diários pessoais. Não duvido da animação da sua intimidade – apesar do número solitário que ele gosta de fazer – mas desagrada-me, depois da suspensão de Lomba, ver-me obrigado a discutir política apenas com os Marretas – o Pacheco é um pouco passivo. Por isso, Pedro, aguenta os embates da Ana, que não te fazem mal nenhum, e fica na luta. A política portuguesa é desinteressante? Ninguém duvida. Mas discuti-la é um trabalho sujo que alguém tem de fazer.
Berlusconi disse que Mussolini não matou ninguém. Disse-o e não havia nenhum socialista por perto, não havia nenhum alemão nas redondezas. Não estava irritado. Saiu-lhe, coitado. Se escorregasse para o lago artificial que construiu lá em casa é que ficávamos todos a ganhar.
Mário Soares defendeu, na SIC Notícias, em debate com Pacheco Pereira, que a Europa deveria ser uma potência. Não debato aqui a intervenção de JPP. Já o fiz e seguramente terei outras oportunidades para o fazer. Quero aqui discordar de Mário Soares. A alternativa às pretensões hegemónicas americanas não é, não pode ser, um contraponto europeu.
As minhas críticas à política imperial de Bush não são críticas “anti-americanas”, são anti-imperiais. Por isso, não tenho mais fé na bondade das pretensões europeias do que nas pretensões norte-americanas. Os imperialismos europeus já deixaram a sua quota-parte de sangue no Mundo. Dispensa-se mais.
Mesmo acreditando na bondade de tal objectivo, ele teria, antes de mais, um preço que os europeus não devem querer pagar. Não há potências sem investimento militar. Acompanhar o investimento americano, numa corrida bélica, não só é financeiramente impraticável para a Europa como acarretaria uma escolha de tipo de desenvolvimento económico que poria em causa a própria ideia de modelo social europeu, se é que isso existe.
Se a Europa perdesse a oportunidade de forçar uma alteração de paradigma nas relações internacionais, tentando repetir uma bipolaridade irrepetível e indesejável, estaria a adiar aquela que deve ser a sua vocação: o combate político e económico por relações internacionais baseadas em novos valores, o fim de relações de subalternidade entre estados e o combate por direitos sociais à escala planetária.
A esquerda que deponha as suas esperanças numa lógica bélica europeia está condenada às mesmas desilusões da esquerda que, noutros tempos, depositou na URSS todas as suas esperanças de resistência. Medidas as distância, o equívoco é o mesmo e o caminho levará ao mesmo beco.
O Bibi expulsou uma amiga da prisão, um professor do secundário teve de recorrer a tratamento psiquiátrico por ter visto uma dupla penetração e um director da RTP ofereceu cassetes porno a uns amigos. E eu concluo, sem grande satisfação: o canal 18 não está codificado. Limitou-se a migrar para os noticiários e para os jornais. Só que não tem bolinha, dá antes da meia-noite e é protagonizado por gente sem preparação profissional. Os actores porno que se cuidem: isto está entregue a amadores.
Desde que leio blogues como um drogado, isto é, de há 4 meses para cá, que me pergunto se devo usar "blog" ou "blogue". Respeitar a ortografia do original inglês ou aportuguesar, procedendo a uma transcrição fonética? Decidi-me pela segunda opção e tento explicar porquê. Fui convencido por um post já antigo do Pedro Mexia que defende a posição contrária. Para Mexia, "blog" é melhor, pelo menos para já, porque ainda remete para a origem da palavra, "web log", e logo para a noção de "diário da net". Ao ler isto, que me pareceu inicialmente lógico, lembrei-me de como, quando ouvi e li pela primeira vez a palavra "blog", ela me pareceu estranha, vinda de parte nenhuma que eu conhecesse. E, de facto, "blog" é uma palavra nova também em inglês. É uma palavra formada da união de "web" (rede) + "log"(diário, registo). Ora, parece-me que, como em "blog" o b separou-se de "web", a nova palavra esconde, mais do que revela, a sua origem. Só quem já sabia o que era "web log" é que percebe que "blog" vem daí.
E aqui vem portanto a minha tese (citar como "doutrina Belo 2003", sff) Como "blog" esconde a origem da palavra, então não há razão boa para não se aportuguesar. E há uma razão boa para o fazer: o som "gue" em português escreve-se sempre "gue". Ao usarmos "blogue", estamos a lembrar-nos desta coisa elementar e bem fixe.
Que Pedro Mexia (2003) não tome isto como um início de polémica. Não vem nos nossos estatutos. Foi mesmo a partir do que ele disse (isto é, com a ajuda do seu raciocínio) que cheguei à minha doutrina. Ela também é conservadora, como a dele, mas virada para a língua portuguesa.
Dito isto, e como nenhum de nós manda na língua, cada um faz da palavra o que quer e os usos e os dicionários é que vão decidir. Gostava de escrever também qualquer coisa sobre a dificuldade em aportuguesar post, mas não tem tanta importância.
Quando, dois posts atrás, se dizia que o Gato Fedorento tinha entrado com o pé direito, leia-se "reentrou com o pé esquerdo". Com o pé esquerdo é que se entra bem.
Até eu, hein? E ainda há quem fale da dominação cultural da esquerda...
O Gato Fedorento reentrou com o pé direito. Três posts de grande nível: The Return, Parabéns FJV e o melhor deles todos, apelo à serenidade.
Agora tipo TVI. No primeiro dia da nossa existência (dia 10) ficámos em segundo lugar entre todos os blogues da weblog, com 320 visitas. No segundo, batemos um record magnífico (813 visitas) saltando para o 1º lugar destacado. Como é que se diz? Obrigado pela sua preferência. Faremos tudo para o agradar.
Tinha dito que o 11 de Setembro era um dia trágico para a esquerda. Olha, afinal, este nem nos correu mal.
Como as coisas mudam. Aqui há uns anos Setembro era um mês onde as pessoas eram tomadas por um sentimento vagamente melancólico ao voltarem às suas rotinas. Para as crianças era o mês em que as primeiras chuvas obrigavam a ficarem dentro de casa, primeiro desiludidas e depois crescentemente entusiasmadas, entregues aos jogos de cartas e às batalhas de almofadas. Para mim em tempos também era isto, mas também o mês em que se tinha de vindimar – e vindimar, diga-se o que se disser, só tem piada nos primeiros quinze minutos.
Mas não era em Setembro que as coisas verdadeiramente aconteciam. Aconteciam em Julho ou Agosto, esses lobos com pele de cordeiro – o incêndio do Chiado, o golpe de estado em Moscovo, o naufrágio do Kursk. Ou então depois, em Novembro – a Revolução de Veludo, a Queda do Muro. Seja como for, não era neste mês em tom menor, próprio para citações de Ruy Belo.
Agora Setembro é o mês do 11 de Setembro. É também o mês em que algumas pessoas, possuídas de uma estranha agressividade, acusam outras de não estarem tristes, ou suficientemente tristes, ou de se terem alegrado às escondidas, um pouco como aquelas tias exigentes que querem que os adolescentes chorem no funeral dos pais.
Pacheco Pereira fica ofendido por se pensar em duas tragédias ao mesmo tempo: “estás no funeral do teu pai! não é altura para pensares na tua avó!”. Como bem diz outro destes sofredores invejosos: “é uma vergonha!”. O Intermitente, por interposta pessoa, diz que o melhor é “esquecer os idiotas”, ou seja, todos os que não sofrem da mesma maneira que ele. E o jaquinzinhos reclama por um mundo sem “…mas” – já agora, acabemos também com os “emboras”, os “contudos” e os “todavias”, palavras ruins.
Mas enfim, o pior está para vir. Pedro Mexia conhece três pessoas que viram professores universitários não apenas ficarem satisfeitos com o ataque às torres gémeas, como festejarem-no, ali em pleno 11 de Setembro de 2001, numa faculdade perto de si.
Curiosamente, passei esse dia no meio de professores universitários. Primeiro numa reunião com um casal de linguistas que me tinha prometido dar uma mão em certos aspectos da minha tese. Não os conhecia até então e foi com eles que não conseguimos desgrudar da televisão. Ficou a perder a linguística, mas não me esqueço como este casal – que também nunca mais voltei a ver – tinha nos olhos e na mente o horror de tudo aquilo. Não sei se eram de esquerda ou de direita, nem estou interessado em saber. Depois fui para a Biblioteca Nacional porque precisava de falar acerca daquilo. Ali, numa sala de leitura cheia de colegas – investigadores e professor – todos de esquerda sem excepção, abanávamos a cabeça e repetíamos as mesmas frases. Foi um dia horrível e a partir dali o mundo ficou pior. Não vi ninguém comemorar, nem então, nem depois, nem agora, passados dois anos. Nem conheço ninguém que me tenha dito que viu alguém comemorar, mas se calhar conheço menos gente do que Pedro Mexia.
Tudo o que esta exigência consegue é inibir-me de declarar a solidariedade que sinto, dar o espectáculo público da tristeza, ser obrigado a dizer todos os chavões sobre os Estados Unidos e Nova Iorque (e como gosto desse país e dessa cidade) e sobre o horror do atentado. Por um lado, é vergonhoso. Por outro lado, não chegaria. Haveria sempre uma tia exigente, das tais dos velórios, para dizer que não estive suficientemente triste, ou que se eu este ano até me comportei bem, houve alguém de “alguma esquerda”, que, se não disse, pensou, e se não pensou, é porque não sabia mas afinal até estava contente.
Que é que isso quer dizer? Poderia dizer que já vi (com estes olhos que a terra há-de comer; ninguém me veio contar) 7 professores universitários, 5 donas de casa, talvez meia centena de taxistas, no mínimo dez empresários, e certamente não menos de vinte pessoas de profissão indeterminada dizer que precisávamos era de outro Salazar; que devíamos reintroduzir a pena de morte; que é pena os drogados não morrerem mais depressa; e muitas outras coisas equivalentes. Isso quer dizer o quê? Não interessa se são pessoas de esquerda ou de direita; é gente que tem opiniões abomináveis e ponto final.
Da mesma forma, não adianta dizer que “alguma esquerda” se regojizou com o atentado às Torres Gémeas, como se assim fizéssemos o grande favor de ser justos e imparciais. É um artifício de uma vileza extraordinária. Alguma esquerda? Para começar, toda a esquerda condenou o 11 de Setembro. E mesmo que assim não fosse, aquele que se regojiza com o 11 de Setembro não é de esquerda nem de direita; é um cretino e um mais que cretino. Se ele é português eu quero ser espanhol; se ele é de esquerda eu quero ser de direita. Haveria milhares de argumentos a apresentar a tal pessoa, se não fosse o caso de que o simples facto de que discutir com alguém assim – como com os negacionistas – nos faz perder a nossa humanidade.
É por isso que tudo o que nos trouxe Setembro 2001 foi mau, e acho até que ninguém tem uma consciência mais dolorosa disso do que a esquerda. Setembro atirou-nos de volta para o mundo das realidades mutuamente excludentes. A sociedade foi distorcida de novo até ao triste estado de antes do muro, do se-não-gosta-disto-porque-não-vai-prò-Afeganistão, isto dito àqueles que antes eram considerados tontinhos por andarem a fazer circular emails contra o uso das burkas sob o regime taliban. Só espero que o resultado não venha a ser o mesmo dos anos 60 e do Vietname. Que saudades dos anos 90, da geração rasca, dos egoístas da propinas, etc. Bons tempos em que estas eram as coisas mais graves que nos chamavam.
Olha. Estava com tão pouca vontade de escrever este email, que deixei passar o 11 de Setembro por cinco minutos. É melhor assim – porcaria de mês.
Tem passado despercebida a edição de um livrinho muito interessante para quem se interessa por questões internacionais: "Vida e Morte dos Outros. A comunidade internacional e o fim da Jugoslávia" (Lisboa, ICS, 2003, 159 pp), de José Cutileiro, ex-diplomata, professor em Princeton, e colunista habitual do Expresso. Injustamente, a meu ver, pois o autor é, provavelmente, um dos mais argutos analistas de questões internacionais cá da nossa praça. Mesmo quando não se está de acordo com ele, o que no meu caso acontece frequentemente. Para os mais distraídos: Cutileiro doutorou-se em antropologia em Inglaterra e nos anos 70 produziu um livro que ainda hoje é uma referência nas ciências sociais em Portugal: "Ricos e Pobres no Alentejo". Após o 25 de Abril, trocou Londres por Lisboa e dedicou-se à diplomacia, creio que pela mão de Mário Soares. Foi embaixador de Portugal em várias capitais africanas (Maputo, Pretória) mas ganhou notoriedade sobretudo como secretário-geral da UEO. Apesar da ligação a Soares e ao PS, esteve com outros socialistas de direita na génese da AD. E os bloggers mais veteranos lembrar-se-ão, seguramente, dos seus "bilhetes de Colares" na saudosa "Olá Semanário" (assinados com o pseudónimo de AB Kotter). Um diplomata com ideias (coisa rara em Portugal), Cutileiro esteve envolvido numa das tentativas de mediação da crise jugoslava. Foi inclusivamente autor de um "plano" - o "plano Cutileiro" - que propunha uma cantonização da Bósnia-Herzegovina como base para um acordo entre as três principais comunidades etno-religiosas (que alguns criticam por, alegadamente, ter acelerado os preparativos para a guerra civil).
Eu ainda não li este pequeno ensaio mas estou tentado a fazê-lo. Cutileiro escreve de forma clara e elegante, evita o jargão pretencioso da ciência política, e tem coisas interessantes para dizer sobre as transformações da política internacional no pós-Guerra Fria e pós-11/9. Lembrei-me de fazer esta chamada de atenção por causa de uma inversão de posições que se tem verificado após o 11/9. Antes dos atentados, os "realistas" como Cutileiro eram extremamente relutantes em aprovar as "ingerências humanitárias" em locais onde os "interesses vitais" do Ocidente não estivessem em jogo (infelizmente, como o caso do Ruanda ilustra de forma exemplar, as vidas dos outros raramente se contam entre esses interesses). Agora são eles os paladinos da "Guerra contra o Terrorismo", mesmo quando esta é conduzida de forma altamente comprometedora para os valores que nos habituámos a associar às democracias liberais e aos Estados de direito do Ocidente. Eu, que me revejo no rótulo com que o Daniel me brindou ("conservador de esquerda"), fui dos que aprovei a campanha da Nato contra a Sérvia de Milosevic em 99, e hoje acho que voltaria a fazê-lo. Porque nessa altura as hipóteses de um banho de sangue no Kosovo eram bem reais, ao contrário dos "45 minutos" do Sr. Blair. E, tudo somado, isso valia bem a "marginalização" do Conselho de Segurança.
Peço desculpa pela insistência, mas a polémica com Pacheco Pereira está inscrita nos nossos estatutos, pelo que não posso fazer nada. Eis aqui mais dois jornais europeus tão negacionistas como o Público: o Guardian, que fala do 11 de Setembro chileno como "the other 9/11"; e o Le Monde que tem hoje como manchete "l'autre 11 septembre" e faz, com o El Pais, um suplemento inteiro dedicado à "outra" América, a latina.
Pacheco Pereira ficou muito ofendido porque o Público pôs na capa, lado a lado, o 11 de Setembro de 1973 e de 2001. Não é que os malandros põem o Pinochet ao lado do Ben Laden. Incrível! É todo um programa, diz Pacheco. José Manuel Fernandes, ouve bem: já não enganas ninguém. Foste descoberto. Espera-te um lugarzinho em Guantanamo.
O André esqueceu-se de agradecer a Cruzes Canhoto, Glória Fácil e Bomba Inteligente. Obrigadinho a todos.
Têm toda a razão os 3 amigos comentadores anónimos que exploraram com bastante graça a minha ingenuidade neste domínio. É sempre possível criar emails falsos na Internet e nada poderá impedir aqui a existência de comentários anónimos. A questão ética, no entanto, mantém-se e ficou colocada. Se calhar levantei-a cedo demais aqui. O barnabé nasceu ontem. Mas apesar de tudo acho que estas questões não têm cedo demais.
Salta então uma proposta política completamente utópica: os utilizadores da internet deviam poder ter direito, mediante a demonstração de infracções a certas regras de civilidade, a aceder à informação que os servidores têm sobre a origem das mensagens, ao verdadeiro email.
No post anterior esqueci-me imperdoavelmente de referir o José Mário, que nos saudou, e penso que falo em nome de todos os barnabenses, com palavras completamente excessivas. Muito obrigados!
Várias das mensagens de boas-vindas que referi chegaram ao meu conhecimento através de comentários deixados no nosso blogue. Sobre isto gostaria de dizer o seguinte: nas conversas que tivemos para preparar este blogue, chegámos a um consenso sobre um princípio editorial que é o de não aceitar comentários anónimos. O software que usamos permite, felizmente, essa opção. Pessoalmente, considero os comentários anónimos (basicamente, não deixar email) uma falta de lealdade na discussão. Quem não deixa email não se põe ao nível de quem faz um blogue. Isto independentemente do conteúdo dos comentários (e do nível do blogue), o qual tem sido sempre correcto e vai certamente continuar a ser. É esta exigência ética que obriga os comentadores a assinarem cada comentário que fazem. Digo isto porque houve já quem se queixasse. Pedimos aos comentadores desculpa pelo incómodo, mas achamos (eu pelo menos acho) esta questão essencial.
Agora que o Daniel decidiu trazer para a sua nova casa todos os arrufos que tinha arranjado na outra, talvez seja boa ideia começar a agradecer as boas-vindas que, muito simpaticamente, outros bloggers já nos dirigiram. Cria-se uma espécie de contraponto ao ringue de boxe em que este blogue se vai inevitavelmente tornar. Assim, e ao mesmo tempo que o treinador nos aconselha a melhorar o jogo de pernas e que o enfermeiro vai pondo gelo nos primeiros inchaços por cima do sobrolho esquerdo, mandamos um sincero obrigado aos seguintes blogues:
a praia, tasca da cultura, fadista Valeria Mendez, rain song,
farol das artes, beco das imagens e blogue dos marretas.
Disse ontem o Pedro Mexia que a esquerda ia assobiar para o ar hoje, 11 de Setembro e, talvez, evocar o golpe de Estado de Pinochet contra a democracia chilena, que se evoca no mesmo dia. Disse-lhe ontem que o ia desiludir.
Tal como em 1973, o dia 11 de Setembro de 2001 foi um dos dias mais dramáticos para a esquerda, em todo o Mundo. Já não falando da tragédia humana - que acredito que choca qualquer pessoa minimamente civilizada -, e não me perdendo em patéticas comparações com outras tantas tragédias de que se fez o século XX e, ao que parece, se fará o século XXI, o 11 de Setembro abriu, simbolicamente, um novo período histórico que, na realidade, começara uns anos antes.
O atentado planeado por uma rede fundamentalista religiosa - que só por desonestidade pode ser conotada com alguma corrente da esquerda - conseguiu todos os seus objectivos.
Clarificou os campos civilizacionais e resumiu o combate político ao confronto entre o fanatismo ocidental e oriental. De um lado, a superioridade moral que recupera todos os pressupostos imperiais - papel civilizador do Ocidente, confusão entre democracia e capitalismo, guerra enquanto regulador internacional. Do outro, a pureza cultural , o combate ao infiel, a religião enquanto elemento unificador da resistência.
Ben Laden deixou entre trincheiras todos os herdeiros históricos do internacionalismo e conseguiu impor as suas regras. Sim, como diz Pedro Mexia no DN de hoje, os terroristas só entendem a linguagem da violência. Impõem a violência e assim vencem a democracia. Alguma esquerda menos sofisticada - e seguramente de uma insensibilidade aterradora - apressou-se a acreditar que estava perante um sinal de resistência. Não estava. Estava perante uma tragédia humana mas, acima de tudo, uma encruzilhada política.
Os neo-conservadores, uma seita ultra-minoritária ligada a interesses económicos e com tantas ramificações como a Al-Qaeda, rapidamente aproveitaram a deixa. Tinham finalmente a oportunidade de, às cavalitas da consternação internacional, acelerar a história. Desde do dia 11 de Setembro, os ataques aos direitos civis, o saque às fontes energéticas dos países pobres, o redesenhar dos posicionamentos geo-estratégicos e o esmagamento de qualquer veleidade autonómica da Europa atingiram níveis inimagináveis ainda há poucos anos. Da fase bi-polar e depois uni-polar, passamos à construção de um verdadeiro Império.
O desprezo pelas opiniões públicas internacionais e o desmembrar de conquistas democráticas seculares atingiram no âmago já não apenas as franjas mais radicais da esquerda - onde me incluo - mas também o pouco que restava da social-democracia centrista e até de uma direita ainda civilizada.
Sem partilhar de teorias da conspiração - mais ao gosto da entrincheirada esquerda americana -, será difícil negar que o 11 de Setembro teve apenas dois vencedores: Ben Laden, que esmagou a moribunda e corrupta oligarquia árabe laica, e George Bush, o tolo certo no lugar certo, que pôde finalmente não só conter a crescente contestação global, como mandar às malvas a Ordem Mundial nascida do pós-guerra. O campo está livre para os dois e a última coisa que a esquerda deverá ter vontade de fazer será assobiar para o ar. É mesmo a única que não tem culpas neste cartório.
Há 30 anos o Presidente Allende, eleito pelos chilenos, foi derrubado por Pinochet, que bombardeou o palácio presidencial. Contou com ajuda dos EUA. Hoje, Allende está morto, Pinochet está vivo e em liberdade e os EUA dão-nos lições de democracia e liberdade. O crime compensa.
Hoje é o dia em que, pelos vistos, a esquerda se reúne em caves a beber champanhe, a lançar serpentinas e a soprar naquelas coisas que fazem barulho e se desenrolam ao mesmo tempo e de que não me lembro o nome. O que é estranho é que, sendo eu de esquerda e quase toda a gente que eu conheço de esquerda também, ninguém me tenha ainda convidado para nada. Espero até à meia-noite?
Com o Ivan Nunes vou fazer publicidade ao contrário. Saúdo-o eu a ele pelo último hino ao génio do futebol. Já se sabia que a melhor praia é a de setembro.
A minha migração na blogosfera tem estes inconvenientes: trago polémicas de outros lados. Por causa de um post meu, no Blog de Esquerda , a Glória Fácil atirou-se a mim. Respondo aqui, na minha nova casa.
O João Pedro Henriques usa no seu post uma técnica bem habitual nos jornalistas. Ele que não me leve a mal. Fui jornalista e conheço os reflexos condicionados.
1º Discute comigo e rapidamente dá um saltinho para uma uma discussão com o BE. Eu, dirigente político, sou o mesmo que eu, blogodependente. Mas eu, Daniel, não sou o Bloco de Esquerda. Felizmente para mim e, sobretudo, para o Bloco de Esquerda.
2º Diz que concorda com o que eu digo e que eu devia dizer mais alto e que se não digo mais alto é porque que no fundo não quero. Conclusão: diz o mesmo que eu para discutir comigo.
3º E aqui chega o tal reflexo condicionado do jornalista. Chama-se sindroma do Se-fosse-diferente-do-que-é-sempre-queria-ver-como-é-que-vocês-faziam. Não faço ideia como faríamos. Talvez te devas perguntar do porquê de nunca ter passado pela cabeça de ninguém haver um canal gay em sinal aberto. Se o governo proibisse um canal desses e deixasse um canal hetero em sinal aberto, é óbvio que se tratava de discriminação e que estaríamos a falar de um assunto bem mais grave. Se fechasse todos, estaríamos na mesma. Mas sempre te posso dizer que o BE votou – e essa é uma área que eu acompanho e por isso tive algum papel nesse voto – contra a proibição de determinados filmes antes da meia-noite e não antes das dez horas. Fomos os únicos.
4º A sério, mesmo a sério: ficas a saber que sou favorável à pornografia, à legalização da prostituição e à perversão e libertinagem em geral. Sou favorável à exploração do corpo, em geral, da mulher e do homem, desde que com consentimento e mesmo que sem sentimento. Sou alérgico a todo o tipo de puritanismo.
Quanto aos Marretas, que me perdoem, mas nem sempre a esquerda é o que a direita quer. Infelizmente, o oposto é tão poucas vezes verdade.
Pedro Mexia apostou que a esquerda ia assobiar para o ar no dia 11 de Setembro, preferindo evocar o Chile. Cá estarei amanhã, pronto para o desmentir. E recordarei há quanto tempo Pedro Mexia assobia para o ar, no dia 11 de Setembro, sem nunca se lembrar de evocar o Chile.
José Pacheco Pereira tem um blogue com uma grande quantidade de leitores e uma também considerável produção de posts. Mesmo em Agosto o Abrupto teve uma média diária de visitas acima das 2000. E Pacheco Pereira, em média, escreve cerca de quatro posts por dia. É obra, isto é que é ler e escrever! E no entanto... passeando os olhos por alguns dos posts das duas últimas semanas, nada me suscita um entusiasmo particular. Pode ser que esteja a ser injusto porque há aspectos do blogue de Pacheco Pereira muito interessantes – por exemplo, o nome, o grafismo, a evocação poética dos astros, certos aspectos da sua reflexão sobre a blogosfera– mas ao fazer deslizar verticalmente o elevador ao longo da janela do computador, percorrendo as entradas mais recentes pejadas de posts sobre a actualidade política e cultural tão confrangedoramente superficiais, nada me anima à leitura. O anti-esquerdismo - que na cultura literária se transforma em anti-francesismo -, é tão obsessivo que todos os posts parecem iguais. E eu não preciso de um pretexto muito forte para ler um blogue...
Uma das razões deste meu desinteresse pelos próprios textos não políticos de Pacheco Pereira que, insisto, pode ser injusto num ou noutro caso, tem a ver com o carácter claustrofóbico da sua vida intelectual, a sua falta de abertura ao exterior, apesar de todas as viagens, o seu pequeno dinamismo, apesar de tanta leitura, que não me dá garantias de qualidade. A valorização da inteligência no debate, incluindo a disponibilidade intelectual para perceber diferenças culturais, é o que me aponta, no meio das centenas de blogues, o que vale a pena ler. Em relação à França, Pacheco Pereira, a não ser em ocasionais referências ao governo de Raffarin, está um pouco como parte da extrema-esquerda francesa em relação aos Estados Unidos, é tudo mau. É uma diferença abissal com os meios literários anglo-saxónicos cosmopolitas, como se vê, nestes dias, com a publicação de um artigo na revista New Yorker sobre o anti-anti-americanismo em França.
SÓ PARA SE PERCEBER
a diferença, e para não parecer que digo mal de tudo o que Pacheco Pereira escreve, deixo aqui uma lista de posts recentes do Abrupto que considero de leitura obrigatória: Galileo, Early Morning Blogs 37 I e II, Cosa Mentale, Rentrée Littéraire, Notas Chekovianas 6, Os Europeus e os Media e Tradução inédita de Petrarca por Vasco Graça Moura.
O que é que tem o Barnabé?
O Barnabé é um blogue sobre política e cultura. O Barnabé não é um blogue intimista. O Barnabé é tão Narciso como os outros, mas tem vergonha na cara. O Barnabé é um blogue pós-narcisista.
O Barnabé é um blogue de esquerda e heterodoxo. O Barnabé não é um albergue espanhol. É um hotel de seis estrelas.
O Barnabé não é paroquial e acompanha os debates internacionais.
O Barnabé é laico, republicano e há mesmo quem seja socialista. Há até um anarquista.
O Barnabé não está com meias medidas. Defende nem mais nem menos do que a redistribuição das riquezas à escala mundial. O Barnabé considera a Internet uma dessas riquezas e age, no cantinho que é o seu, pela partilha dos extraordinários recursos e conhecimentos que ela pode oferecer.
O Barnabé procura a polémica entre blogues, entre colunistas de jornais e entre os seus próprios criadores. O Barnabé ameaça com a mão e dá com o pé. O Barnabé não é simpático. Não é nem do Belenenses nem da Académica.
O Barnabé é plural. O Barnabé não tem entre os seus participantes neo-conservadores, testemunhas de Jeová e munícipes de Felgueiras.
O Barnabé é diferente dos outros. Não será lido por mais de cem pessoas, e fará tudo para dar nas vistas, entrará em polémica com Pacheco Pereira.
Os pais do Barnabé têm mais ou menos