
O chefe máximo do exército israelita, Moshe Yaalon, declarou que as medidas demasiado duras que Sharon impõe aos palestinianos são contraproducentes e só geram mais revolta e violência. O edifício está abanar e logo nos alicerces. Começa a ser claro, menos para os mais facciosos que nem parecem ser os israelitas, que Arafat não é o único obstáculo à paz.

Aurélio da Paz dos Reis, [Republicano regressa a casa depois do dever cumprido], Lisboa, 5 de Outubro de 1910
Caro Miguel d'O Intermitente:
Julgo ser meu dever dizer-lhe que a carta que escreveu a algum homónimo meu vem com o link de um texto que escrevi no Barnabé, e pode ser entendida, erradamente, como tendo sido dirigida a mim. Ora isto não pode ser porque, aparentemente, a pessoa a quem você se refere tem uma concepção da sociedade diferente da sua e pior do que a sua:
"Defendemos concepções diferentes de sociedade. Considero a minha claramente superior tanto nos meios como nos resultados ou não a defenderia convictamente. A minha trouxe uma prosperidade sem paralelo histórico a todos os países que decidiram segui-la. A sua levou e, infelizmente, levará ao caminho da servidão."
e eu me tenho esforçado toda a minha vida em não ter nenhuma "concepção da sociedade". Com sucesso, modéstia à parte. Da única vez que falámos, há já muitos anos (dez minutos no Fuori Porte, 97 ou 98, com o Luciano, a Marta e a Ângela) eu não lhe dei parte de nenhuma "concepção" minha de sociedade, nem poderia, porque não a tinha nem tenho. Nenhum dos nossos amigos em comum lhe pode ter dito nada acerca de concepção de sociedade que eu tivesse, porque são gente séria e pouco dada a invenções. Se tivesse de ter – o que acho difícil – alguma concepção de sociedade – para o fazer feliz – escolheria cuidadosamente uma que não levasse à servidão. Sou naturalmente preguiçoso, de forma que aposto que acho a servidão tão horrível como qualquer um. Em suma: como finalmente o Miguel, pelo que escreve no seu texto, é tão respeitoso dos factos que seria incapaz de imputar a pessoas ideias que elas não defendem, só se pode concluir que está a falar com outrem e não comigo.
O Miguel diz ainda que a história lhe dá razão e não absolve o seu interlocutor ["A História dá-me razão e não vos absolve apesar das vossas pretensões."]. Creio que deve ter toda a razão, uma vez que a sua concepção da sociedade trouxe prosperidade e a dessa pessoa ou pessoas (deixou de se entender por momentos) trouxe sofrimento. Se você o diz, fico super-contente por si! Mas pelo exposto acima, isto também não se refere a mim.
Depois há pormenores: V. parece falar com uma pessoa que não gosta do liberalismo nem de Inglaterra. Eu não tenho nada contra o liberalismo, bem pelo contrário, e sou anglófilo desde os cinco anos – idade com que comecei a ler os Blake & Mortimer dos meus irmãos. Já agora e a propósito, há também aquela questão dos livros: o Miguel pergunta ao seu interlocutor, de forma um tanto brusca, se ele leu o Johan Norberg e o Bernard Lewis. Já que estamos nisto, li dois livros do segundo, e nenhum do primeiro. E o Miguel, leu o Ramalhete Seraphico de Frei José do Egypto? Não?!
***
Entretanto, o Contra a Corrente declara, e bem, não valer a pena discutir comigo a minha posta A direita "Vida Soviética". Só que o diz depois de, evidentemente, ter exposto sete argumentos bem numerados sobre o assunto. De forma que a chave desta resposta é a seguinte: 1) pois são; 2) pois não; 3) pois não; 4) você é que sabe; 5) permite-lhe concluir o que lhe aprouver; 6) isso vê-se perfeitamente; 7) você é que sabe.
O Zé Diogo Quintela no Gato Fedorento coloca o dedo na ferida. Que brincadeira é esta de virem agora dizer que "todos" somos culpados no caso Casa Pia? Eu não sei quem é culpado, e é a primeira vez que escrevo sobre o assunto, mas de uma coisa podem estar certos: desconfiem de quem quiser passar a culpa para "todos".
Fazer as reformas. É assim como uma frase mágica. Ninguém sabe o que quer dizer. É como o “desígnio nacional”, “comunidade internacional”, “opinião pública”, “sociedade civil”. São a encarnação do bem, sem conteúdo nem escolhas. Fica muito bem a qualquer ministro dizer "eu cá faço reformas", "eu cá sou um reformista". Para além da confusão ideológica, parece que o movimento é tudo, vá para onde se for, o que interessa é ir.
Tudo isto vem a propósito da Reforma da Administração Pública. A dita Administração está péssima e não se recomenda. Mas não basta que me digam ao meu ouvido, docemente, a palavra mágica, “reforma”, para que eu tenha um distúrbio hormonal.
Não costumo falar do que se passa na Assembleia da República. Tento não vos maçar com a irrelevância da maioria dos debates e da troca de galhardetes. Mas ele há dias que são importantes. Hoje é um deles. O Governo apresenta uma “reforma” da Administração Pública. Resume-se, e trata-se de um resumo, em três premissas: os quadros intermédios deixam de ser escolhidos por concurso público e passam a ser nomeados pelos directores gerais que por sua vez são nomeados pelos ministros e secretários de Estado; o Estado pode transferir para empresas não só parte das suas funções como os seus empregados; e a contratação deixa de ser colectiva, com regras iguais para todos, mas individual.
A primeira medida tem um resultado simples e sem contra-argumentação possível: os boys ocupam os lugares que faltavam. Os directores-gerais, que ocupam lugares técnico-políticos – fazem a ponte entre os dois mundos – passam a escolher o pessoal do partido para agradar o gajo do partido que já o escolheu. Fica tudo entre amigos.
A segunda medida leva à privatização de uma parte razoável das funções do Estado. Para quem queira um Estado minimal que se limite a fazer o “trabalho sujo” (manter as prisões, as polícias, os tribunais e as forças armadas), a proposta está muito correcta. O Estado não tem nenhuma função social, apenas se encarrega, perante o caos social inevitável, de manter os pobres na ordem. Para quem acredita numa função redistributiva do Estado, de protecção dos mais fracos e garantia de direitos sociais mínimos, trata-se de um passo de gigante para a destruição do Estado Providência, essa invenção europeia que Portugal conhece há tão pouco tempo.
A terceira é mais complicada e merece melhor ponderação. Não tenho certezas sobre ela, mas sempre vos digo que, conhecendo Portugal, a ideia da contratação directa e individual, me deixa um pouco arrepiado. A confusão entre os dois partidos do poder e a própria máquina do Estado é o mais provável dos resultados.
Venha então uma a reforma. Mas se desse para ficarmos com algum Estado e com menos funcionários recrutados em sedes partidárias, a gente agradecia.
Mais uma golpada de grande estilo no Partido Conservador britânico. O principal candidato à sucessão de IDS é Michael Howard, "shadow secretary" para a Economia e antigo ministro do Interior de John Major. A sua frase mais famosa resume todo um programa: "prison works". Durante o seu mandato ministerial, as cadeias britânicas tornaram-se superpovoadas e a taxa de suicídios aumentou significativamente. Para atenuar o problema, Howard teve uma ideia peregrina: alugar barcos velhos e transformá-los em prisões flutuantes. Há uns anos atrás, a sua colega (e rival) de partido, Ann Widdecombe, brindou-o com um comentário memorável: "he has something of the night".
No debate sobre os media em Portugal, existe um curioso argumento da direita que consiste em dizer que não interessa se praticamente todos os directores de jornal e comentadores televisivos, em som estéreo e em surround, têm posições governistas em política interna e pró-Bush em política internacional. Não interessa porque "as notícias são de esquerda", uma conversa que me faz sempre lembrar as teorias sobre "ciência judaica" e "ciência germânica", "ciência socialista" e "ciência capitalista".
As notícias são "de esquerda": nelas o desemprego aumenta, Bush é pouco inteligente e diz disparates, a situação no Iraque é complicada, Sharon faz um muro à volta de Israel e implode prédios com pessoas lá dentro. Para escapar a esta terrível manipulação, os nossos amigos viram o mundo do avesso para encontrarem as verdadeiras notícias: nelas o governo governa bem, Bush tem uma inteligência moral fulgurante, as coisas correm bem no Iraque, e Sharon comanda, nas suas próprias palavras, "o exército mais moral do mundo". Schwarzenegger era um excelente actor que dará um político ainda melhor.
É a direita «Vida Soviética». Nessa revista, cheia de sorridentes raparigas loiras e cartoons inócuos de que a política era excluída, o crente encontrava as "boas notícias" sobre o bloco de leste. Blogues como o Contra a Corrente, o Intermitente ou o impagável Valete, de cada vez que Cox & Forkum publicam um dos seus inteligentes e divertidíssimos cartoons (e já agora subtis e sofisticados também, quer dizer tão subtis e sofisticados como propaganda anti-semita da França pétainista), correm a reproduzi-los por cá. Só tenho pena dos artigos: aqui só encontramos amostras de sobrolho franzido e sem imagens: Why capitalism's a staggering success e afins. Até ao mais anti-bolchevista deixam saudades dos artigos sobre os êxitos de produção dos kolkhozes sempre entremeados com as sorridentes raparigas loiras a ceifar trigo e a conduzir tractores. Pensem nisso, OK?
"População de Ancas, concelho de Anadia, garante ter visto estatueta de Nossa Senhora a chorar"
TVI, Jornal Nacional
Os colonatos israelitas vão substituir os cães de guarda por suínos, já que, "segundo a fé muçulmana, um terrorista que tocar num porco perde todo o direito de encontrar 70 virgens no céu".
A proposta de transferir as áreas protegidas para a tutela da Secretaria de Estado das Florestas recebeu adjectivações como «asneira técnica e científica», «rematado disparate» ou «proposta trágica» da parte de especialistas e responsáveis como Carlos Pimenta, António Capucho ou Gonçalo Ribeiro Telles para além de várias associações de defesa do ambiente. Há muito tempo que uma medida governamental não gerava um consenso tão alargado.
O CDS-PP açoriano vai realizar uma campanha de angariação de novos membros que oferece electrodomésticos aos seus miltantes que maior número de correligionários arregimentarem. Nada que outros políticos de áreas ideológicas afins não tenham feito (alô Gondomar). Já o nome da campanha, é aviltante. Chama-se «Traz outro amigo também».
A TVI afirma hoje que foi a assessora de imprensa do ministro Bagão Félix a organizar a conferência de imprensa de Catalina Pestana. A ser verdade esta informação, ela é gravíssima. O ministério não pode organizar conferências de imprensa sobre um processo judicial. Um ministério está obrigado à neutralidade. Esperemos pelos desenvolvimentos.
Já disse aqui que tinha a melhor opinião de Catalina Pestana, sobretudo do tempo em que ela esteve à frente do combate ao Trabalho Infantil. Dulce Rocha e Catalina Pestana têm algumas características em comum. Conheci mal as duas mas tive, em momentos diferentes, o prazer de as entrevistar: são empenhadas, combativas, emotivas e, por vezes, excessivamente voluntaristas. Isso muitas vezes é bom. Algumas vezes é mau. Num caso como o da pedofilia, é péssimo.
Catalina Pestana esperou ontem pela hora do telejornal para “falar ao país”. Não o devia ter feito. Não vou aqui falar da pressão sobre a justiça. Não compro essa. Dar a opinião sobre decisões de juízes é um direito de qualquer cidadão, quando individualmente considerado. Não faltava mais nada que a nossa liberdade de expressão e opinião acabasse onde começa a decisão de um tribunal. No entanto, Catalina fez mal. Fez mal por causa do lugar que ocupa.
Dizer que as crianças lhe pediram para fazer a conferência de imprensa só me ajuda a ficar com mais receio do estado em que esteja a Casa Pia. Catalina Pestana não é porta-voz de crianças. É responsável pelo seu bem-estar e pela sua educação. Nenhuma criança, da mais rica à mais pobre, da mais segura à mais desprotegida, decide fazer conferências de imprensa. Essa incapacidade de compreender os efeitos de uma declaração à imprensa faz parte dos direitos de ser criança. Usar este expediente é mais do que demagogia. É irresponsabilidade.
Catalina Pestana não é provedora das vítimas de pedofilia. É provedora da Casa Pia. Tem centenas de crianças à sua guarda e é nisso que se deve concentrar. E no apoio pessoal e emocional às crianças que, estando envolvidas neste processo, devem encontrar na Casa Pia um lugar de estabilidade. Ao estar permanentemente a apontar os holofotes para aquela instituição, Catalina está a prejudicar aquelas crianças em concreto e todas as restantes que estão na instituição.
E, no entanto, Catalina Pestana tem muito para fazer em relação a tudo o que aconteceu na Casa Pia: mudar a própria Casa Pia. Aquela instituição, como tal, é a principal responsável por tudo o que aconteceu àquelas crianças. Era à Casa Pia que as crianças estavam entregues e a Casa Pia falhou em toda a linha.
Para mudar as coisas não chega fazer a caça às bruxas. Catalina sabe, melhor que muitos, que uma instituição com tantas crianças, com um internato de tipo militar, com tal mistura de idades, é um tipo de solução ultrapassada e que acarreta imensos riscos. O que fez Catalina para mudar este estado de coisas? Que propostas fez ao ministro? Como tenciona criar uma estrutura mais leve e mais próxima de um ambiente familiar? Precisa de mais profissionais? Tenciona substituir o internato por pequenos apartamentos com educadores, como se faz nas mais modernas instituições de protecção de crianças em risco? Era disto que gostava de ouvir falar Catalina Pestana. Faria muito mais para evitar novos abusos de crianças, do que com todo este espectáculo.
O psiquiatra de Bibi afinal não é psiquiatra. De facto, achei estranho o diagnóstico: «o Carlos Silvino parece um vegetal, leva uma vida vegetariana» (sic).
Aparentemente, não se consegue arranjar melhorzinho pela direita do que o argumento do "...então nessa altura andavam todos caladinhos!", que podemos abreviar por argumento dos entaladinhos [de "então+caladinhos", e também porque os seus autores estão entalados neste raciocínio]. Diga-se de passagem que a direita na blogosfera é praticamente toda ela um grande e ininterrupto argumento dos "entaladinhos" – que é aliás, a razão por que não se trata sequer de uma direita, mas só de uma anti-esquerda. A propósito da nomeação de Fernando Lima para o DN, Pacheco Pereira diz que a compra da Lusomundo pela PT "passou sem qualquer protesto dos que agora batem a mão no peito". O Jaquinzinhos escolhe uns exemplos sortidos para ilustrar as atitudes selectivas da esquerda. Quando não se tem nada para dizer, entala-se a esquerda mais a sua "hipocrisia". E como hoje em dia não se tem nada para dizer, faz-se isto o tempo todo.
Cada um fala por si. Mas, que diabo, eles sabem lá se eu estava caladinho ou não? Por acaso não estava. O Jaquinzinhos, uma vez que citou o meu post em particular, podia já agora, sei lá, tê-lo lido. Veria que não tenho uma posição de princípio acerca do trânsito entre jornalismo e política, e que me estou nas tintas para quantas vezes Fernando Lima foi assessor ou não. E veria que o que me irritava é a propensão dos conglomerados de media para bajular o governo, só interrompida quando há uma mudança de maré pré-eleitoral. Não tenho a menor dúvida de que no dia em que o governo for de esquerda há-de haver quem o faça [menos, porque também haverá que ter a lealdade dos proprietários]. E se chegarmos a uma situação como a de hoje, em que a paisagem mediática é mais plana do que a Bélgica, eu cá estarei para protestar, porque gosto demasiado de ler jornais para ter que ler sempre o mesmo. E agora, Jaquinzinhos, confesse lá: está à espera que eu termine dizendo "nesse dia verei se aqueles que agora, etc. etc.", não é? Esses reflexos condicionados...
Aconselho mais uma leitura de praia, leitura lenta, de preferência impressa. Se Garrincha fosse vivo, faria hoje 70 anos. Há uma frase dele, de inteligência fulgurante, de que me lembro sempre: "futebol não tem mistério. É você que cria o mistério".
O psiquiatra que acompanha Bibi diz que este está com amnésia. No entanto, reconhece que só hoje falou com ele. A conversa entre o psiquiatra e Bibi foi assim:
Psiquiatra - Olá, Carlos Silvino.
Bibi - Quem?
P - Tu és o Carlos Silvino, não és?
B - Eu? Não sei.
P - O Bibi?
B - O do Benfica?
P - Não, o Bibi?
B - Sou? Ganda pinta!
P - O outro.
B - Há outro?
P - Tu abusaste sexualmente de crianças, lembras-te?
B - Nãããã. A sério?
P - Sim.
B - Não estou nada a ver. Mas se tu o dizes…
P - Mas agora que olho para ti, vejo que estás sem qualquer expressão, não tens nenhuma plastia, estás apático.
B - E isso é bom?
P - Bom não é. Estarás com amnésia?
B - Pois, é isso. Deve ser isso.
P - Acho que não estás em condições de ser julgado.
B - Eu ia ser julgado? Porquê? Por causa dos impostos?
P - Quais impostos?
B - Já não estou a perceber nada. Mas eu não sou o Bibi?
P - És.
B - O que não paga impostos. O do Benfica.
P - Não, já te disse que não. És o da Casa Pia.
B - Mas o Casa Pia não joga na 3ª divisão?
P - Bem, já vi que se falar contigo daqui a cinco minutos já nem te lembras.
B - Pois não. Não me lembro não. Eu nem me lembro do que aconteceu nos últimos 30 anos enquanto trabalhei na Casa Pi… opsss.
P - O quê?
B - Nada, nada. Como é que eu me chamo? Onde é que eu estou? Quem é o senhor? É o Vilarinho?
P - Bem, vou dizer que não podes ser julgado.
B - Áh não posso não. Isso é evidente.
Homem a Dias: “Não achas que, parafraseando ninguém, o Daniel Oliveira foi a Yoko Ono da Coluna?”
81 anos, um sentido de humor desconcertante, uma energia esmagadora, uma curiosidade de matar de inveja. Foi meu quase-sogro durante uns anos – avô de uma ex-namorada minha e avô do Ivan. Sempre que falava com ele saia da conversa com dores de estômago, de tanto rir. Prefiro um filho da mãe com graça a um herói enfadonho. Só que o Salvador, ou Buba, tem graça e é o contrário de um filho da mãe. Se é que ele me permite o vernáculo e sem desprimor para a sua mãe, que nunca conheci. Sem querer ser piroso, a verdade é que o facto de Salvador chegar aos 81 anos como chegou, fazer um blogue (que tem no endereço a irónica expressão de "ultra-passado") e ter graça, faz de mim uma pessoa melhor, com mais esperança na humanidade. No dia em que o Salvador fez anos, não tive oportunidade de lhe dedicar um post e limitei-me a um PS no fim de um parágrafo do Rui Tavares. Ficar pelo PS, todos sabem, é muito pouco. Ele merece muito mais: a confissão de muitas saudades de uma conversa com prazer.

Rembrandt, Retrato de um Oriental [ou O Rei Osias Atingido pela Lepra?], 1635
Entretanto, saiu este fim-de-semana, na colecção de arte do Público, o volume dedicado a Rembrandt. Aqui no Barnabé gostamos muito deste pintor, até pela razão sentimental de que a primeira imagem que publicámos no blogue teve por base a Lição Anatómica do Dr. Tulp, de 1632.
Ora nesse mesmo ano, e no mesmo bairro de Amesterdão em que Rembrandt Harmenszoon van Rjin, então com 23 anos, pintava a sua primeira obra-prima, nasceu um filho de judeus portugueses exilados. A essa criança deram o nome português de Bento e hebraico de Baruch. Bento Espinosa.
Quando Bento Espinosa nasceu, Christian Huygens tinha apenas 3 anos. Tal como não se sabe se Rembrandt e Espinosa se chegaram a cruzar, também não se sabe se Huygens alguma vez olhou para os anéis de Saturno através das lentes que Espinosa fabricava por profissão enquanto pensava e escrevia filosofia. Amesterdão vivia naquele tempo uma daquelas épocas gloriosas que certas cidades têm a sorte de viver uma vez – como Viena antes de 1914. Além do Dr. Nicolaes Tulp e Rembrandt, quando Espinosa nasceu vivia na cidade o francês René Descartes, que tinha 32 anos. No mesmo ano nasceu John Locke, que também haveria mais tarde de procurar a Holanda, que é, mais ainda do que a Inglaterra ou a Escócia, a verdadeira pátria-mãe da revolução científica e do liberalismo político, ainda antes do Iluminismo.
Fui buscar a maior parte destas informações ao último livro de António Damásio, Ao Encontro de Espinosa. Ainda só tive tempo de o ler pontualmente, mas parece-me o melhor Damásio, ou pelo menos aquele que me suscita uma adesão mais imediata. De certa forma, Damásio está numa posição ideal para escrever um grande livro sobre Espinosa. Por um lado, não está preso às obrigações escolásticas das humanidades; a sua liberdade permite-lhe abandonar a interpretação estrita da obra de Espinosa para explorar as especulações que esta lhe sugere. Ser português também lhe permite aceder a um lado de Espinosa que, a nível internacional, tem sido menosprezado (por exemplo, pela recente biografia de Steven Nadler): a sua inserção na comunidade Judeo-portuguesa. Damásio nota que Amesterdão foi também a cidade de Menasseh ben Israel e Uriel da Costa, que Bento Espinosa conheceu pessoalmente enquanto adolescente, e por quem foi influenciado. E também pela comunidade judeo-portuguesa da cidade andou o Padre Vieira, quando Bento Espinosa tinha 12 anos. Damásio diz que Espinosa nunca seria o mesmo em Portugal, e eu dou-lhe razão, mas teimosamente não consigo deixar de pensar que o anti-semitismo da Inquisição nos roubou o "nosso" grande filósofo.
Felizmente, Damásio é (ao contrário de mim) um português desparoquializado, um pensador cada vez mais generalista [é um elogio, e dos grandes], um cientista com uma relação descomplexada com as humanidades e um escritor cada vez mais seguro.
E já lá encontrei umas três excelentes páginas de análise à Lição Anatómica do Dr. Tulp. Para mim, estas devem ser lidas em contraponto à análise muito diversa que faz W.G. Sebald do mesmo quadro, num livro fabuloso que se chama, não por acaso, Os Anéis de Saturno (Huygens de novo). Damásio reconhece a análise de Sebald e faz-lhe referência em nota: para ele, o facto essencial da pintura é o olhar no vazio do Dr. Tulp. Para Sebald, é antes o corpo iluminado, o cadáver de um azarado ladrão chamado Aris Kindt, enforcado pouco antes.

O Sr. Salvador Prata, que na blogosfera usa o nome-de-código de Buba, e que eu nunca conheci pessoalmente, fez 81 anos no passado dia 24. Soube do seu blogue através d'A Praia, do neto Ivan Nunes. O que não deixa de ser curioso: o neto era a certa altura o "jovem de serviço" nos media, embora fosse mais um falso adolescente. O avô, que escreve dos textos mais enérgicos e bem-dispostos da blogosfera, é certamente um falso octogenário. O link já está aqui ao lado.
PS: Como o MT não permite assinaturas colectivas, o Daniel Oliveira aproveitou para me pedir que incluísse nesta mensagem um abraço de parabéns pelo aniversário e pelo blogue.
Querem uma sugestão musical? Não? Então cá vai: Maria Rita Mariano – e não só para os fãs da mãe Elis Regina, embora a voz seja igual ao ponto da confusão.
Nunca o ouvi falar tão bem. Até que enfim: já começava a pensar que, por uma única vez que fiz campanha eleitoral por alguém, na sua primeira eleição, tinha enfiado um barrete de todo o tamanho.
Existem já há algum tempo em Portugal pelo menos seis jornais semanais russófonos: entre eles o Maiak Portugalii [Farol de Portugal], o Slovo [Palavra], o Immigrant [Imigrante], a Nasha Gazeta [Nosso Jornal]. Existe ainda uma revista luso-russa, creio que mensal. Recentemente, começaram a aparecer jornais em língua romena para a comunidade moldava: já existem o Familiar e o Timpul. E os imigrantes lusófonos têm o Jornal Lusófono. Ou seja, cerca de uma dezena de novos orgãos de imprensa, todos ligados à comunidade imigrante. E estou apenas a contar com jornais com larga distribuição e vendidos em banca, e não com boletins, como o Sabiá ou o Brasileirinho, da comunidade brasileira.
Isto quer dizer que os imigrantes, que serão no máximo 500 mil, criaram em pouco tempo mais títulos de imprensa do que têm muitas regiões com mais do dobro da população. É por isso que dos poucos sinais positivos que o País tem dado nos últimos tempos, muitos vêm das comunidades imigrantes: aumentam a nossa natalidade e a nossa produtividade, pagam os nossos impostos e a segurança social. E agora preparam-se para nos dar uma abébia, aumentando as nossas envergonhadas taxas de títulos de imprensa per capita e de hábitos de leitura de imprensa. Obrigadinho, ó pá!
P.S. Agradeço mais informações sobre este tema para o ismael do Barnabé.
É a segunda vez consecutiva que falo bem de Jorge Sampaio. Ou eu não estou bem ou ele passou-se da cabeça. Os recados ao governo vieram de enxurrada: obsessão pelo deficit, desemprego, falta de investimento público, evasão fiscal, desinvestimento na educação, discriminações no subsídio de doença, concentração na comunicação social, privatizações sem limites… Disparou para todo o lado, sempre sem se queimar. Sim senhor! E percebeu-se tudo o que ele disse. Parecia um clone. Apenas a embrulhada imperceptível sobre a questão do referendo à Constituição Europeia o denunciou. Afinal era mesmo o nosso Jorge Sampaio.
O caso Docapesca é bem elucidativo de uma das características essenciais deste governo: considerar os cidadãos deste país como uma matéria dúctil que pode e deve ser dobrada, moldada, deslocada ou repartida à vontade. Nisso, a nossa direita conseguiu a proeza de piorar: no tempo de Cavaco as decisões também eram mantidas para lá do limite do razoável, mas ao menos dava-se a impressão de que tinham sido um pouco mais pensadas. Hoje, o excesso de indecisão do guterrismo justifica tudo, mesmo a decisão arbitrária e irreflectida. Ou intempestiva.
Ora eu até sou bastante a favor da candidatura à America's Cup. Mas é no mínimo bizarro que se tenha decidido tudo tão rápido (durante o Verão uns ruídos sobre a competição, em Outubro o Conselho de Ministros lança-se na refrega com um entusiasmo adolescente, em 3 de Novembro a Docapesca já não pode estar lá). Ora se é já em Dezembro que vamos saber o resultado da candidatura, será mesmo necessário pôr os pescadores na rua antes disso? Ou isto é só porque se entusiasmaram com a ideia da regata e se esqueceram do pessoal? É que às vezes dá a impressão de que, para o nosso governo, nós só existimos sob duas formas: matéria-prima ou empecilho. Infelizmente para os trabalhadores da Docapesca, caíram na segunda categoria.
Pedro: independentemente das qualidades de Fernando Lima não concordo contigo acerca do "benefício da dúvida". Não é a Fernando Lima em particular que se deve ou não conceder benefício da dúvida; aparentemente, é um profissional que dará o seu melhor. O que me parece relevante é a motivação de quem o nomeia. E aí, esta nomeação é aquilo que parece: um valente bóbó da PT/Lusomundo ao governo. Não me parece que os donos do DN estejam especialmente interessados no perfil do novo director (aliás, os donos dos nossos jornais preferem directores amorfos); nem em conquistar novos leitores (aí um director de centro-esquerda conquistaria esta terra-de-ninguém que está actualmente orfã de imprensa de referência). Resta portanto a sempiterna motivação: bajular o poder, também sempre tão pronto em agradar aos super-grupos de media que secam a imprensa em Portugal.
"Quanto mais sucesso tivermos no Iraque, mais ataques terroristas esta gente vai querer fazer"
George W. Bush
O novo líder do PP espanhol acusou o governo basco de pactuar com o terrorismo e com a violência política, por apresentar um projecto tendencialmente independentista para o País Basco. O governo basco, liderado pelo PNV, um partido de centro-direita, foi democraticamente eleito. A maioria dos bascos vota, em eleições consecutivas, em partidos independentistas. Colar o PNV ao terrorismo é um acto de irresponsabilidade que branqueia o comportamento dos terroristas da ETA. Mas este comportamento não é novo no governo espanhol.
Quando, há alguns anos, a ETA depôs unilateralmente as armas, resultado de uma luta interna ganha pela direcção política do Herri Batassuna, o governo resolveu prender toda a direcção do HB, decapitando as muito ténues possibilidades de um processo semelhante ao irlandês. Fê-lo consciente do que fazia. A verdade é que a ETA é o melhor aliado do centralismo espanhol. Ele alimenta-se do terrorismo e do ambiente anti-democrático que o terrorismo propicia. Da mesma maneira que a ETA se alimenta do centralismo espanhol. Não ponho aqui, nunca pus, os dois ao mesmo nível. O governo espanhol é democraticamente eleito, é controlado por outros órgãos de soberania, está obrigado à Lei geral. Quando não o faz, há instrumentos para o condenar. Eles funcionaram, infelizmente de forma inacabada, no caso dos GAL. Nada disso sucede com a ETA, um bando de criminosos que usa as armas como argumento político e a política como argumento para as armas. Mesmo assim, é preciso dizer que o governo espanhol não tem querido a paz, porque a paz o obrigaria a discutir a política, os direitos autonomistas dos bascos e a descentralização do poder em Espanha. Que a ETA não o queira, não espanta ninguém. Mas a Estados e a governos temos de exigir mais, muito mais. Não por acaso, nem o Estado espanhol nem a ETA desejaram alguma vez um referendo sobre a independência.
Depois de prender a direcção política do HB, o governo espanhol ilegalizou o HB. Fez mal. Matou o representante político da violência e assim matou a possibilidade de acordo político. Dirão que não há negociação possível com terroristas. Será verdade. Mas veja-se o caso da Irlanda: Gerry Adams foi o principal aliado da paz para vencer os mais radicais do IRA. Sem ele, seria impossível. Encontrar aliados no HB será difícil. Mas, a haver, eles estarão, seguramente, no braço político da ETA e condena-los à clandestinidade não é, provavelmente, o passo mas construtivo para uma solução política.
Na verdade, ilegalizar o HB deu força ao braço armado da organização e radicalizou a sua base social de apoio. Não por acaso, 14% dos bascos seguiram a indicação da ETA e votaram nulo nas últimas eleições. É aterrador, mas é verdade. Quando isto sucede, há duas possibilidades: fazemos discursos indignados e completamente inúteis para resolver o problema que a Espanha tem entre mãos, ou procuramos uma solução política para um problema político com profundas raízes históricas na relação dos castelhanos com os restantes povos do estado espanhol. Porque se o problema fosse exclusivamente policial, não havia 14% de bascos a apoiar este grupo de pistoleiros.
Com a afirmação de Rajoy, este fim-de-semana, o PP deu o passo que faltava. O PNV tem endurecido o seu discurso, talvez para cativar o eleitorado do HB ilegalizado. Ao associar os ideais independentistas, que mobilizam pelo menos metade da população do País Basco, ao terrorismo, ele não só justifica o terrorismo como mostra a verdadeira face do governo espanhol: o problema do PP não é o terrorismo em si, mas as aspirações independentistas bascas e o reforço de outras autonomias em Espanha. Por isso precisam tanto da ETA. Por isso precisam que os espanhóis acreditem no impossível: que o PNV e os movimentos independentistas são todos iguais, são todos terroristas.
É por tudo isto que o discurso maniqueísta e histérico sobre o terrorismo é um biombo onde se esconde os verdadeiros objectivos políticos de quem não acredita no direito de todos os povos a se auto-determinarem. E todos os terroristas, e a ETA acima de muitos, são, entre outras coisas, os mais sinistros dos seus aliados.
Ao contrário do que diz Pacheco Pereira e os Marretas, não há nenhum fosso geracional em relação às praxes. Há imensa gente que, na minha geração, se recusou a ser praxada – eu incluído – e ainda mais gente na geração seguinte. Recordo a existência de um Movimento Anti-Tradição Académica (M.A.T.A.), activo em muitas faculdades. Sobretudo naquelas em que a esquerda é mais forte.
Sejamos claros: o poder universitário, que não está nas mãos “desta” geração, é tolerante com a praxe. Acredita que ela promove a sua Universidade. Que a faz mais “cool”. Acredita, por preconceito social – o mesmo que tantas vezes se sente em Pacheco Pereira –, que o “povo” entrou na Universidade e que esta é a sua forma de comunicar.
É o mesmo preconceito que leva pedagogos a meter o Big Brother nos manuais escolares: conhecem o “povo” pela TV e tentam falar a sua língua. Na política, chamam-lhe “País Real”, uma realidade feita de lugares comuns e perfis estereotipados. A perda de exigência ética perante a democratização da Universidade e do ensino não é resultado da democratização, mas da demissão de quem acredita que quando a democracia chega o melhor é estar a léguas. Quem acredita que, quando o “povo” chega à Universidade, a Universidade já não serve para nada.
A entrevista à “Pública” do ex-bastonário Pires de Lima é infantil e exibicionista. O estilo tem muito sucesso na comunicação social portuguesa e uma longa tradição na política nacional: de Alberto João Jardim a Carlos Candal. A comparação com a Gestapo e com a PIDE não faz qualquer sentido e não é para fazer. Não lava a imagem da PIDE ou da Gestapo porque Pires de Lima não tem credibilidade para tanto. A Ordem dos Advogados tem hoje um bastonário sério. Para quê perder tempo com profissionais circenses em tempo de reforma?
Reconheço-me em quase toda a argumentação do Adufe na resposta à minha resposta. Mas a minha crítica ao Carrilho tinha, para já, um objectivo: contrariar o entusiasmo a fazer de ingénuo que um transformava num herói impoluto e corajoso. Terei usado para tão magra melga um canhão? Provavelmente. Só que esta melga, neste momento, consciente ou inadvertidamente, foi providencial a moscardos bem maiores.
Não sou benfiquista, graças a Deus. Mas devo-lhes esta. Durão Barroso levou a mais ensurdecedora vaia da história da vida política portuguesa. Não fez mal nenhum ao Benfica, por isso a razão não é desportiva. Quem veja os noticiários não sabe, já que a comunicação social está paralisada à frente do DIAP e do EPL. Mas em todo o lado se sente que este é o governo mais impopular desde o Bloco Central. Há imagens que valem mil palavras. Há sons que valem um milhão.
O Pedro deu-me aqui um “olá” quando falava dos “jornalistas de mérito” que “fizeram o vai-e-vem entre as redacções de jornais e os gabinetes ministeriais ou as assessorias partidárias”.
Como sabes, melhor do que muitos, porque acompanhaste o meu percurso, a minha militância partidária é mais antiga que a minha dedicação ao jornalismo. Nunca a escondi e não fui trabalhar para o BE como quem vai trabalhar para a IBM ou para a Sonae. O meu “vai” teve um sentido de escolha que se funda no meu percurso de vida.
Saberás que a decisão de me dedicar à política a tempo inteiro, que nem começou com a função de assessor de imprensa, foi uma decisão de vida e muitíssimo ponderada. Ou seja, sei que esta decisão terá difícil retorno (não digo impossível, porque acho que poucas vezes se pode dizer isso de uma decisão). O regresso a jornais, de quem se dedicou a cargos políticos remunerados e não electivos (aqueles que não resultam de simples direitos de cidadania), é uma questão complicada. É o retorno que tem contornos éticos nebulosos, e não o contrário. No “vai-e-vem” o problema está no “vem” e não no “vai”. Por mim, nunca fiz a viagem de retorno, não revalidei a minha carteira ainda antes de ser assessor de imprensa, nunca iria para director de um jornal saído de onde estou e, já agora, sei que estando onde estou os lugares disponíveis para o regresso seriam poucos.
Mas todos sabemos que a questão é outra: é sentir-se, por parte do DN, há muito, uma propensão para a propaganda. Esta escolha tem, assim, uma leitura política. Não conheço Fernando Lima, por isso não faço nenhuma avaliação pessoal. Ela é indiferente. Já a saída de Betencourt Resendes, um holograma que já não mandava nada no DN, e a entrada de um homem de confiança do PSD, tem de ser avaliada à luz da linha editorial do jornal. É isso que está em debate.

Pacheco Pereira e a blogosfera [Cf. Early Morning Blogs 67]
Aurélio da Paz dos Reis, Reunião de comerciantes e homens de negócios na Bolsa, para discutir os efeitos do cordão sanitário de 1899, Porto, 1899
No seu comentário dominical Marcelo Rebelo de Sousa dedicou-se a triturar Ferro Rodrigues, mas sibilinamente, como se acreditasse na sua palavra. Parecia uma mistura de guerreiro tártaro com teólogo jesuita. Para tal missão, Marcelo recrutou um ajudante – o "Zé Povinho". E o Zé Povinho lá apareceu, feito espectro, pelo menos uma meia-dúzia de vezes: "O que é que o Povinho vai pensar?", "E claro, o Zé Povinho pergunta-se...", "Ora o Zé Povinho sabe que...", etc. A ideia é a seguinte: Ferro Rodrigues não fez nada de errado em si, mas para o Zé Povinho todas as suas atitudes são uma desgraça, logo Ferro Rodrigues é uma desgraça. Para além do pedantismo de um recurso retórico que personaliza os cidadãos como se fossem ainda e sempre o "Zé Povinho", Marcelo esqueceu-se de que, contra todas as expectativas, o que o "Zé Povinho" fez, e logo 65 mil dele, foi vaiar humilhantemente o Primeiro-Ministro. Ia já a escapulir-se de comentar o facto, quando o apresentador (vá lá!) lho sugeriu casualmente no finalzinho do seu longo tempo de antena.
A resposta foi, primeiro titubeante, depois esclarecedora: o que há é uma desconfiança em relação a todos os políticos, e a culpa disso é de não haver oposição, porque Ferro Rodrigues é uma desgraça de todo o tamanho. Obrigado, Professor.
Um homem mora no último andar de um edifício. O edifício tem 20 andares. Toda manhã ele toma o elevador e desce até à garagem. À noite, quando volta, ele entra na garagem, estaciona seu carro e toma o elevador. Mas ele nunca vai direto até lá em cima. Ele sobe 15 andares de elevador e depois mais cinco andares pela escada. Mas ontem à noite choveu. Por isso ele tomou o elevador diretamente até seu apartamento, no último andar.
Você sabe por quê?
Avenida Brasil 1. Livro de exercícios, Editora Pedagógica e Universitária, São Paulo, 2002
-Dudu, você foi na festa da Malu?
-Fui.
-E quem estava lá?
-O pessoal de sempre: o Zeca, com a mulher, o Guto, a Fafá, prima da Malu, o sobrinho do Paulo, o Beto, o...
-Ué, só tinha homem?
-Claro que não. A Maitê, que você não conhece, estava lá. Ela é irmã do João Carlos..., a Ju..., a Bia... Quando cheguei muita gente já tinha ido embora...
Avenida Brasil 1. Livro de exercícios, Editora Pedagógica e Universitária, São Paulo, 2002
Na última edição da Foreign Affairs há uma boa recensão do Kenneth Maxwell a um livro recentemente publicado nos Estados Unidos sobre o envolvimento da administração Nixon no derrube do Allende, tema muito glosado na nossa blogosfera aqui há umas semanas atrás. O livro, The Pinochet File: a Declassified Dossier on Atrocity and Accountability, editado por Peter Kornbluth, é uma compilação de documentos desclassificados pela administração Clinton em finais dos anos 90, na sequência da detenção em Londres do general Pinochet, o ditador preferido dos seguidores do Milton Friedman e da Escola de Chicago. Entre outras coisas interessantes, o livro recorda-nos que uma das mais sofisticadas redes terroristas que alguma vez actuou em solo americano - a "Operação Condor", uma organização que juntava operacionais de vários regimes ditatoriais latino-americanos - levou a cabo o assassinato do antigo ministro chileno dos NE, Orlando Letelier, em 1976, a meia dúzia de quarteirões de distância da Casa Branca, com o conhecimento prévio de vários funcionários da CIA (e, aparentemente, da própria administração).
A nomeação do Fernando Lima para a direcção do DN tem deixado muita gente indignada. O próprio Conselho de Redacção do jornal já exprimiu a sua desconfiança em relação às razões dessa escolha. Mas deixem-me que vos diga que há uma boa dose de hipocrisia (ou, pelo menos, precipitação) nesses reparos. Quantos jornalistas de mérito é que já não fizeram o vai-vem entre as redacções de jornais e os gabinetes ministeriais ou as assessorias partidárias (olá Daniel)? O Fernando Lima, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente, não se distinguiu apenas por ter sido assessor de imprensa do Cavaco e do Martins da Cruz. Quem se interessa pela história contemporânea portuguesa sabe que ele é o autor de dois dos raros livros de referência sobre Macau (Macau: as Duas Transições, 1999) e Timor-Leste (Timor: da Guerra do Pacífico à Desanexação, 2002). Eu, por mim, dou-lhe o benefício da dúvida.
Um mês para um blogue é um século. Um mês para mim é um mês. Um mês para uma longa vida não chega a três quartos de hora.
...[do que Deus nosso senhor me livre e guarde], a primeira coisa a fazer seria proibir a pior praga de que padece o nosso país, e que é [como todos estaremos de acordo] o secador de mãos das casas de banho públicas. Vale a pena explicar porquê? Aqueles fios de àgua que o vento artificial empurra para dentro das nossas mangas, molhando o antebraço que antes estava seco, são de facto a gota de água. Aqui está uma medida "fácil de implementar" e de "efeitos visíveis" na "qualidade de vida dos portugueses".
"Entretanto, o Governo está a governar, como tem estado desde sempre [...]"
Durão Barroso
Terão sido os publicitários a combater a fraca amplitude de atenção dos lisboetas? Terá sido o próprio Pedro Santana Lopes, numa inflexão de estratégia? Fosse quem fosse, há-de ter sido nestes termos – Eh pá, agora é que os vamos lixar. Vamos pôr cartazes – visualizem bem esta ideia, ok? – a falar de obra que não foi feita. Num grafismo mais rude, estão a ver?, para parecer à primeira que até é um cartaz da oposição. Genial, hein? Quero ver quem é que nos acusa de propagandismo fácil depois disto.
Pode ter sido esta a génese do novo cartaz da Câmara de Lisboa [vejam um exemplar no Cais do Sodré, por exemplo]: "Já reparou que nada foi feito para melhorar a situação dos cidadãos com deficiência? Vamos todos trabalhar para mudar a situação".
Todos quem? Diz o Lone Ranger para o Tonto: "Raios, Tonto, são sioux. Estamos perdidos!"; "«Estamos»? Nós, quem, cara-pálida?". Ou então, pronto: "Pai, já reparaste que só tive negativas? Vamos ter de trabalhar os dois para mudar isto". "Querida, já viste que há mais de três meses que não lavo a loiça? Vamos fazer um esforço no bom sentido". "Vizinho, viu que atropelei o seu gato? Vamos reflectir sobre o que correu mal".
Ouvi dizer que o teu novo director era o assessor de imprensa do ministro Martins da Cruz. Ouvi dizer que se perdeu definitivamente a vergonha e agora os assessores de imprensa do governo já escrevem logo a notícia. Talvez seja melhor assim. Mal por mal, sempre se poupa nos ordenados. Ouvi dizer isto tudo e lamento por ti. Já tiveste o Saramago, agora tens Fernando Lima. Triste vida a tua, fadada para os comissários. Desculpa se te mando este abraço assim, de forma tão pública. Mas os telefones já não são o que eram, tu bem o sabes. E, cartas fechadas, já ninguém usa. Aceita esta carta aberta, com todo o apreço.
Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça português sobre o recurso da defesa de Michael John Burridge
«[O acto homossexual entre adultos e menores é] objectivamente mais grave do que a prática de actos heterossexuais com menores. (…)São substancialmente mais traumatizantes por representarem um uso anormal do sexo, condutas altamente desviantes, contrárias à ordem natural das coisas, comprometendo ou podendo comprometer a formação da personalidade e o equilíbrio mental, intelectual e social futuro da vítima. (…) É mais livre e prematuro o consentimento de adolescentes para a a prática de actos heterossexuais, sendo mais tardio o processo genético de formação de vontade de adesão dos adolescentes para a prática de actos homossexuais".
-E hoje foi isto que ela me disse. Assim. Que não tinha dinheiro para me pagar a carta por causa da prestação do carro novo.
-E tem?
-Eu não sei se tem, mas se fosse o Luís, que é o filhinho querido, podes apostar que já tinha ou que ia arranjar. Vais ver quando for com ele. É sempre a mesma cena, eu já sei como é que é...
-Não é nada...
-Espero que ela morra depressa.
-Não esperas nada...
-A sério que espero. A que horas temos Estatística?
-Às quatro e meia.
-Vemo-nos à entrada.
-Não fui convocado outra vez.
-A sério...?
-A sério. Chamaram o cepo do Luís. O mister gosta de ver cepos a jogar e que dêem porrada. Além disso emprenha pelo ouvido, ó caraças. Os gajos do costume...
-Mas é ainda aquela história?...
-Sim. E é por o gajo ser tão cepo, ó caraças.
-E agora?
-Agora espero que percam e que os jornais desanquem.
-Acreditas que hoje na aula agarrei o Luís pelo pescoço, assim mesmo, com as duas mãos em volta, e só tive vontade de o apertar, cada vez mais, cada vez mais?...
-Tás doido. Não podes fazer isso.
-Eu sei, eu sei! Mas foi a vontade que me deu, juro. Cabrão do puto. Sempre a chatear toda a gente, sempre a chatear. É a vontade que dá, a certa altura já não podes mais...
-Mas sabes que não podes mesmo fazer isso...
- Eu sei. Larguei-o quando vi que ele começou a olhar para mim com um ar assustado.
Luciano, nada mais triste do que ver um homem casado a esfaquear um amigo em público para merecer o favor da atenção de uma mulher. Não sei do que falei porque, ao contrário de ti, e sabendo que o bar era aberto, tive o bom senso de não ficar em condições de acompanhar as conversas dos outros e, valha-me Deus, as minhas. Deve ser isto a superioridade moral do “Bloco”.
«Recordo esse triste momento de vaias e apupos que o Daniel retoma aqui na blogoesfera em mais uma reacção à flor da pele. Guardo essas vaias como um dos momentos de vergonha e de autismo na história do PS.»
Diz o Adufe e não podia ser mais injusto. Soubesse de mim e do meu percurso e saberia que estou a léguas de tais vaias. Mas não é por aí que posso e devo argumentar. Fica para outra oportunidade, menos pública – evito aqui expor em demasia o que é pessoal – contar ao Adufe de onde venho, como venho de onde venho, onde estou, como estou onde estou e para onde não fui. Digo-lhe apenas que simpatizo com a dissidência e a minha vida está recheada, até excessivamente recheada, dessa dissidência. Se ler os meus posts atentamente – concordo que não é uma leitura prioritária –reparará nisso mesmo.
Mas gosto da dissidência convicta, baseada em princípios, desenhada por inevitabilidades morais. Detesto a dissidência exibicionista e táctica. Há, reconheço, entre a lealdade e o seguidismo uma ténue fronteira. Essa fronteira é marcada pela inteligência e pelas motivações. É das motivações que falo, quando falo de Carrilho.
Acho de Carrilho o que acho de Manuel Alegre. Quem quer fazer da política uma tentativa permanente de mudar o que se quer mudar, é consequente e só quebra quando o que está em causa é o que se quer mudar. Quando se faz da política um palco de vaidades e ambição sem conteúdo, faz-se da dissidência uma pose para o retrato.
Carrilho correu o risco de ser vaiado nesse triste congresso do PS – que foi um retrato fiel do que é o PS e o bloco central –, mas o risco era nenhum. Carrilho sabia – eu nunca disse que ele era burro – que estava a discursar perante um cemitério político. Carrilho saiu do governo apesar de nada ter mudado entre o dia em que entrou e o dia em que saiu. Ou melhor, mudou: já não havia dinheiro para brilhar, já não havia popularidade por onde trepar. Os primeiros sinais de lepra de Guterres apareciam à vista de todos. E Carrilho, que era, até então, se a memória vos permite recordar, o trauliteiro de serviço em favor de Guterres e do PS (procurem entrevistas e declarações suas de uma cegueira inenarrável), queria a distância para voltar mais tarde. Voltou. Voltou sem brilho porque não tem conteúdo político. No parlamento, quando fala, fala de si. Chama toxicodependente a um ministro, quando está na oposição. Chama gelatina política ao líder da oposição, quando está no governo. Discute vestuário com Maria Elisa. Politicamente, nunca ouvi nada mais profundo do que isto, vindo de Carrilho. Mas voltou e o escorpião volta sempre à sua natureza.
Quanto ao que diz Gin Tónico, não discuto. Fui claro no que disse sobre o direito à discordância. Não tenho, por princípio, debates desencontrados. Disse o que disse e não o que Gin Tónico queria que eu dissesse para poder fazer o post que fez. Por isso, nada a acrescentar. Quanto ao que acho desta direcção do PS, isso é toda uma outra conversa. Pouco tem a ver comigo que não voto nem nunca votei nem planeio votar nos socialistas. Mas posso voltar ao assunto mais tarde.

Joshua Benoliel, O Xé-Xé, figura típica do carnaval lisboeta, Lisboa, Avenida da Liberdade, finais do s. XIX
Já começou: um artigo no Wall Street Journal [The Terror Ahead - A nuclear attack? Be very afraid.
– por Gabriel Schoenfeld] defende a opção militar contra o Irão e a Coreia do Norte, e o mais rapidamente possível. "O custo da acção será provavelmente alto, muito alto; o custo da inacção será muito maior."
Ler estes textos para consumo interno americano é elucidativo acerca da chantagem retórica da direita: primeiro assusta-se o leitor americano com a mortandade causada por armas nucleares (logo por azar os únicos exemplos históricos são da responsabilidade dos EUA, mas o autor passa adiante). Depois lembra-se como "fomos" ingénuos e bonzinhos até Pearl Harbour e ao 11 de Setembro, e não podemos voltar a sê-lo. De seguida exagera-se o poderio avassalador do inimigo. E finalmente mostra-se como o seu povo oprimido se revoltará no último momento, como a vitória será fácil e como os nossos rapazes serão recebidos de braços abertos [razão tinha Norman Mailer: Bush vai à guerra porque é um jogo em que ele sabe que vai ganhar]. Pelo meio, equacionam-se cenários de dezenas de milhares de mortos como quem dá uma receita de esparguete à bolonhesa.
A mim, o que me mete medo são os cobardes que gostam de guerra.
PS: Já agora – quando for a altura da nova guerra a Juventude Popular, que defende a consagração do direito à vida desde a concepção até à morte, vai provavelmente achar que os soldados de um lado e do outro, e os civis que estiverem pelo caminho, vão morrer por razões justas.
A New York Review of Books e a London Review of Books resolveram mimar-nos. Senão, vejamos: na primeira temos online um artigo de John Updike sobre El Greco; um outro de um dos meus escritores de ciências preferidos, o físico Freeman Dyson, sobre Einstein e Poincaré; e um outro sobre Orwell (não sei se traz algo de novo). Na segunda temos um comentário sobre o Elizabeth Costello de Coetzee; um regresso de Terry Eagleton ao Mimesis de Eric Auerbach, que se torna numa fulgurante especulação sobre o realismo em arte; e uma memória de Edward Said escrita por um dos seus maiores amigos, Michael Wood. Esta então, faz pensar que o pessoal que insiste em fazer de Said um papão não sabem mesmo o que estão a perder – mas problema deles.
Mas não é só! Na tugosfera temos duas novas e hilariantes postas no Umbigo e o novo grafismo do Cruzes Canhoto!, um veterano a quem nunca se prestarão suficientes homenagens (só não gostei do livro que nos atribuíram, mas enfim).
Agora só preciso que o tempo pare para eu poder ler isto tudo.
É a segunda vez que Manuel Maria Carrilho mostra vocação para meteorologista de crises políticas. Como da primeira, fá-lo em plena borrasca. Quando ela já é evidente, e com o claro propósito de uma demarcação. Desta vez – quando o PS precisa sobretudo de um programa de resistência e unidade, para fazer face à maior canalhice política (e não jurídica, como se possa pensar) de que alguma vez foi vítima – Carrilho pede um congresso. O mínimo que se lhe exige é que tenha a coragem de ser candidato. Senão, todos teremos o direito de pensar que se trata apenas de uma resposta à sua própria natureza.
O Presidente recebeu o Procurador-Geral da República. Conversaram durante 40 minutos. À saida, o Presidente veio trazer o Procurador à porta em clima de cordialidade. Oxalá se tenha passado algo de mais violento intraportas que dissuada o Procurador de se manter em funções.
Onde está a face da alface?
Onde fica o busto do arbusto?
Onde mora a Amélia da camélia?
Onde para a pereira da nespereira?
Que vinho dentro do azevinho?
Há um pequeno feto dentro da planta feto?
Terá o rosmaninho um irmão pequenino?
Que acto deu origem ao cacto?
Para que sol se vira o girassol?
Se há o moço do tremoço por que não existe a moça?
Se a giesta é esta, o que dizer daquela?
E já agora, passando do reino vegetal para o reino mineral:
Onde mora a amante do diamante?
E de que lado está a pala da opala?
E que faz o pato no feldspato?
E a Diana na obsidiana?
E a que bar vai âbar beber resina?
E que lápis se revestiu de lazúli?
E com que z vai o quartzo ao quarto?
António Bagão Félix
in Do lado de cá, ao deus-dará
Ed. Sopa de Letras
Hoje, por obrigações profissionais, fui obrigado a ler o último livro de Bagão Félix. Ó Deus ingrato, porque és tão avaro na distribuição de talento por quem a ti tanto se entrega?
O meu post anterior foi bastante criticado. Aqui vai o esclarecimento.
Que proposta faz Carrilho? Que o PS fale de outro assunto? Mas alguém discorda? Mas como se faz isso? Como se contraria o mediatismo? Sabe, Carrilho? Tentou-o? Falar do que interessa ao país? Tem falado? Tem proposto? Tem apresentado ideias, projectos, medidas?
Que contribuição tem ele dado, enquanto deputado da oposição? Onde esteve em todos os combates políticos? Que relevância teve em cada um deles?
Ser consciência moral é ser o grilo do Pinóquio: dizer o óbvio quando óbvio é fácil e quando o fácil não ajuda nada. E Carrilho fá-lo porque quer ganhar sempre. Não se quer queimar. E isso é tudo menos ter coragem política.
Não se trata de ser um carneiro obediente. Trata-se de usar a inteligência e o espírito livre para os combates que contam, solidariamente. Carrilho tem sempre um pé dentro, sempre um pé fora. Dentro para a vitória, fora para a derrota.
Quando as coisas correrem bem, sempre gostava de o ver a chamar os bois pelos nomes. Como fez Vieira Nery. Não me esqueço da solidariedade que não teve de Carrilho.
Carrilho atacou Ferro Rodrigues. Lacão e Lello vieram em defesa de Ferro Rodrigues.
Sou um homem de partido. Eu sei que, hoje em dia, isto é lido como uma auto-crítica. Seja. Mas escolhe ser de partido quem escolhe. Quem o faz, tem mais capacidade de influenciar as grandes escolhas políticas, porque se junta a outros com ideias semelhantes para o fazer. Quem o faz tem algumas obrigações de solidariedade. Essas obrigações não se traduzem numa postura acrítica e seguidista. É normal que, de vez em quando, um dirigente de um partido critique publicamente o seu partido. Mas quando as críticas públicas surgem quando esse partido está debaixo de fogo e a passar por um momento difícil e quando a escolha dos momentos piores para fazer as criticas é um padrão e não a excepção, pode falar-se ou de cobardia política ou de exibicionismo fácil. Este é o caso de Manuel Maria Carrilho. Quando o governo Guterres começou a entrar em plano inclinado de popularidade e de capacidade económica, Carrilho saiu do governo. Quando o PS vive o seu pior momento, Carrilho distancia-se. Quem não quer estar num partido, não lhe veste a pele. Quem quer ser a consciência moral, não se mete na vida política. Porque assim é demasiado fácil.
"Meu amigo e senhor: eu desejava contribuir para o divertimento de Vossa Mercê, e dos amigos de sua assembleia; mas é tanta a lida que ocorre que me não é possível; e também há coisas tão particulares que se não devem fiar de telemóveis nem de e-mails; nem dizer senão ao ouvido."
A partir de uma carta de Montarroio Mascarenhas, redactor da Gazeta de Lisboa, a Pereira de Faria, seu correspondente em Santarém, 23-9-1741, Biblioteca Pública de Évora, cod. cviii/1-4, f. 40
Hoje (já passa da meia-noite, mas para mim ainda não acabou) será talvez o meu dia de fazer descarada propaganda ideológica, mas afinal não sou menos do que José Manuel Fernandes, que no seu editorial de ontem, expõe o seu credo com recurso a Sócrates, à Magna Carta e a Pacheco Pereira, sempre a afunilar [enfim: talvez não seja possível pedir mais a alguém que, logo na primeira frase, confunde a Grécia com Atenas].
Precisamos, definitivamente, de mais ar e de mais fôlego.
Precisamente: está em cena uma peça a partir do Guerra e Paz do anarquista Tolstoi (cujo título, é menos sabido, foi copiado de outro anarquista, Proudhon, que Tolstoi admirava e atravessou a Europa para conhecer). Só fica até amanhã [ou hoje dia 23], no Centro Cultural de Belém, já devem restar poucos bilhetes e aqui respira-se muito melhor.
Esta encenação, de Piotr Fomenko, tem tudo aquilo que se pode esperar de uma Guerra e Paz: um Pierre Bezukhov trapalhão como um urso tímido; um André Bolkonski impaciente e cortante; uma Natasha Rostov que se prepara para transformar-se em vitalidade pura; e uma elite russa mesquinha e limitada. Mais tem mais. Apesar de levar três horas para mostrar apenas os 10% iniciais daquele romance que é um amazonas, é uma encenação ampla que lhe faz inteira justiça. O cenário é leve, aberto, feito de madeira, algum pouco alumínio, e um enorme mapa da europa em tons outonais, que se adapta bem àquele início moroso e melancólico. O texto respeita o original; mas a direcção de actores, as entradas em cena, as marcações, as coreografias, os figurinos, não – são no geral muito mais brincalhonas e burlescas do que o que Tolstoi escreveu. Isto é a outra coisa que é excepcional nesta encenação e na fantástica trupe de actores muito jovens que a representa: a relação é tu-cá-tu-lá com o autor. Mais do que respeitar o clássico, entendem-no. Mesmo os leitores mais leais do livro podem ir sem medos.
Curiosamente, enquanto via a peça, lembrei-me de uma posta de hoje do Silêncio em que se citava um notável excerto de Robert Musil: "O Medo de parecer estúpido". Tal como aqui ou no Shooting an Elephant de Orwell, o medo de se fazer figura de idiota; a necessidade, por vezes algo machista, de ter de se fazer alguma coisa para não parecer que nos deixamos ficar; e a vergonha de ficar quieto são talvez as motivações principais do homem em sociedade e, por extensão, do autoritarismo. No caso de Orwell, a sua estúpida missão de ter de matar um elefante resume a futilidade do Império Britânico: "I often wondered whether any of the others grasped that I had done it solely to avoid looking a fool". E certamente que estas motivações ridículas tiveram um papel considerável nas recentes invasões do Afeganistão e do Iraque: depois do 11 de Setembro os americanos "não podiam ficar quietos" – e então mexeram-se da pior forma. Em Tolstoi, são motivos pueris, incompreensíveis, ou ambos, da parte de Napoleão e do czar Alexandre, que fazem matar e morrer milhões de vidas. Os imperadores, contudo, não estão sozinhos nisto: a imagem que nós fazemos deles impele-os e impele-nos:
"Naquela época, havia em França um homem de génio, Napoleão. Conseguia muitas vitórias, que dizer, matava muitos homens, porque era muito genial. Foi, sabe-se lá por que razões, matar africanos; e matou-os tão bem e mostrou-se tão astuto e inteligente que, ao voltar a França, deu ordens a todos para que lhe obedecessem. E obedeceram-lhe".
Tolstoi não fica por aqui. Eu é que tenho de ficar.
Os anti-teoria da cabala são tão teóricos e tão conspirativos como os teóricos da cabala.
A solução para os cíclicos problemas da Universidade portuguesa, bem como para os casos humanos como o de Diana Martins da Cruz está à vista, e o exemplo vem do Canadá: a Universidade Anarquista de Toronto. É ali na Avenida Manning, à direita de quem sobe a Dundas vindo de Bellwoods Park, vedes?

Eu já gostei, principalmente porque à pergunta "O que é uma universidade anarquista?" os nobres libertários canadianos respondem certeiramente: "Boa pergunta: o que é uma universidade anarquista?" – Excelente começo.
Hoje o ar estava mais limpo. O “Público” e o DN não perceberam que o fundamental da intervenção do Presidente da República não foi a sua auto-defesa, mas o ar estava mais limpo. O 24 Horas publicou a escutas completas, mas o ar estava mais limpo. Porque se disseram algumas coisas com algum bom senso, durante a noite de ontem, nas várias televisões. “Estou limpo há um dia”, pode dizer o país. “Um dia de cada vez”, terá o país de se avisar a si próprio. A recaída pode acontecer a qualquer momento.

Benjamin Rush [1745-1813], Cadeira tranquilizante para lunáticos, 1811.
[ao domingo, frente à televisão]
Kirk Jones, um Norte-americano de 40 anos do Michigan, sorriso nos lábios, deitou-se do alto das cataratas do Niagara abaixo e de lá saiu pelo seu próprio pé, fresquinho da silva. É o primeiro caso conhecido de uma pessoa que sobrevive à queda, de 52 metros, sem equipamentos de protecção. A polícia norte-americana é que não se deixou enganar: Jones vai ser acusado de ter dado um salto completamente ilegal, punível com multa até 10 mil dólares. Em consequência, depois de ter sido ajudado a sair das águas, Jones foi algemado e gentilmente conduzido a um hospital psiquiátrico. Paul Forcier, inspector da polícia dos parques do Niagara, declarou à AFP: "na nossa opinião tratou-se de um acto intencional e é nesse sentido que estamos a agir. Não tratamos o caso como um suicídio". O sr. Inspector desculpe, pois andamos talvez a ver muitos filmes, mas — depois de devidamente passada a multinha — já pensou em fazer-lhe o teste da kriptonite?
O TGV é um bicho medonho, se visto de lado, com a cabeça muito puxada para a frente, entrando na estação de Lille-Europe, lentamente. E quando atravessa a gare sem paragem, a 200 e tal à hora, então um passageiro, de fora, eriça-se. Têm medo os órgãos do seu corpo. Há um som impossível, como um lago de parafusos que estivesse a acabar de ser sugado por um cano. Milhões de hectolitros de ferro rangendo e desaparecendo num escoamento que se deu num ápice. Ou não. Porque não é um som que fique para ser descrito mais tarde na ideia. O que passa na linha 46 da gare de Lille-Europe já é só a ideia do som do TGV.
As pessoas da estação olharam-se. Viram passar o TGV na sua verdadeira velocidade de fora, o TGV de que dependem e que elogiam por dentro, hora a hora. Viram o aspecto que ele tem visto do lado do tempo animal. Perante isto, manifestaram apenas um sinal exterior, um ligeiro tremor de uma ruga na pele da cara.
Miguel Sousa Tavares finalmente bateu com a mão na mesa e pôs uma adolescente irresponsável e sem qualquer sentido deontológico na ordem.


Ontem como hoje: o farol vermelho da Europa
[Time, 11 Agosto 1975 e Time Europe, 20 Outubro 2003]
Vou tentar falar de tudo isto sem falar do processo. Não é fácil, mas vou tentar. E vou fazê-lo num post maior do que recomenda este meio. Mas o que tenho a dizer, interessante ou desinteressante, não se diz em poucas palavras.
Assistimos, em Portugal, a um dos momentos mais críticos da nossa democracia. Estão em causa várias conquistas civilizacionais, vários equilíbrios de poderes e vários limites que, quando ultrapassados, já não são recuperados.
A separação entre o poder político e o poder judicial é o pano de fundo do que se está a passar. Sempre que estes dois mundos chocaram, saíram os dois, deste confronto, pior do que entraram. Quer isto dizer que os políticos não podem criticar juízes? Que os juízes não podem julgar políticos? Que os políticos devem ter um tratamento de excepção? Não às três. Mas quer dizer que, quando se sente que esse embate é inevitável, todos os cuidados e todo o rigor são poucos, para que os danos nesta relação, que sempre foi difícil, sejam os menores possíveis.
Já critiquei aqui a direcção do PS por alguns erros tácticos. Acho que tinha razão onde, sou sincero, não a queria ter. Mas a gestão que os vários agentes da justiça estão a fazer de todo este processo é uma das maiores catástrofes a que já se assistiu em Portugal. Quando a justiça percebe o evidente – que em casos mediáticos muito do julgamento é inevitavelmente feito fora do tribunal –, tem de agir em conformidade: o segredo de justiça ganha aí uma importância central. Não para proteger os suspeitos – não foi para isso que foi criado o segredo de justiça – mas para proteger toda a investigação e a eficácia da justiça. Eficácia não é apenas prender os culpados. É também, e talvez mais, não destruir inocentes.
Chegados a este ponto, todos sentimos que o Ministério Público joga aqui a sua credibilidade. Ou Paulo Pedroso e os restantes arguidos são considerados culpados ou o Ministério Público sairá perdedor de tudo isto. As coisas chegaram a este ponto porque o Ministério Público assim o quis. Fez tudo pelo tudo ou nada. E fez mal. Porque levou este jogo até a um ponto sem retorno. E isto faz temer o pior. Até que ponto ainda pode haver alguma boa-fé nesta investigação? Quem quis condenar na imprensa, dificilmente pode ser rigoroso no tribunal.
Parece ser evidente que há demasiados actores neste filme a jogar o seu poder dentro do sistema. O poder da oposição, o poder do governo, o poder da comunicação social, o poder de diferentes órgãos de comunicação social, o poder da Polícia Judiciária, o poder do Ministério Público, o poder dos juízes, o poder de diferentes tribunais, o poder de diferentes juízes dentro dos mesmos tribunais, a sobrevivência de indiciados e de culpados não indiciados.
O processo entrou em roda livre e, nunca tendo tido nenhumas convicções sobre qualquer teoria da cabala, estou hoje seguro de uma teoria ainda mais perigosa: a do caos. Todos perceberam que este processo tem os condimentos necessários para efeitos devastadores, porque mexe com os sentimentos mais profundos das pessoas: o da indignação, o da protecção dos menores, o da impunidade. Estes sentimentos não são, por si só, populistas. São mais do que justos e fundados. Mas eles facilitam a irracionalidade, a emotividade descontrolada e, em última análise, o populismo. O processo é complexo e por isso é facílimo manipular estes sentimentos. A partir daqui, a tentação de os usar como braço de ferro entre diversos poderes é fortíssima. Caberia pelo menos a duas pessoas minorar os riscos desta bomba relógio: ao Presidente da República e ao Procurador-Geral da República. Sampaio tentou, mas de forma pouco planeada. O Procurador fez exactamente o contrário. Não defendo aqui a demissão dele, porque não me parece que fosse útil, agora, neste momento, para serenar os ânimos. Mas a sua credibilidade já morreu há muito tempo. Quanto tudo isto acabar, terá de explicar muito o seu comportamento leviano e irresponsável.
A questão das escutas telefónicas é outra, e mais grave. É grave que escutas telefónicas sejam feitas para saber se alguém está a querer obstruir a justiça. As escutas foram permitidas (e, na minha opinião, são demasiado permissivas) para investigar os crimes concretos e delimitados de uma determinada pessoa: ou seja, neste caso, seriam aceitáveis para detectar conversas que provassem ou indiciassem o envolvimento dos arguidos no abuso sexual de menores. Tudo o resto, deve ir para o lixo. O direito à privacidade é uma das bases fundamentais da democracia. A separação entre o que é público e o que é privado é a base de uma vida minimamente equilibrada em sociedade.
Se o Ministério Público, a Judiciária e o Juiz não entendem isto, é motivo para todos nos preocuparmos. O caso da Casa Pia é gravíssimo. Mas é nos casos gravíssimos que se toma o pulso à maturidade de uma democracia.
Outra evidência da divulgação das gravações é que a própria comunicação social não é sensível a estes limites. Não é novidade. Fui jornalista durante 14 anos e custa-me dizê-lo, mas a comunicação social portuguesa – e não só – é completamente insensível aos direitos de cidadania que implicam limitações à sua actividade. Sejamos claros: mesmo que as escutas fossem aceitáveis e fossem uma forma última e legítima de fazer justiça, elas são completamente ilegítimas como meio de investigação jornalística. Se os jornalistas não têm critério no que divulgam e não divulgam, então deixam de ter qualquer tipo de função técnica específica. Depois de alguém, cometendo um crime, ter passado a informação para os jornalistas e dos jornalistas, demitindo-se das suas funções, as terem publicado, todos se sentiram livres de qualquer imperativo moral. Os comentadores acabaram, assim, o serviço. Num país civilizado o escândalo seria as escutas e a sua divulgação. Por aqui, anda tudo entretido a analisar o conteúdo e o sentido de palavras ditas em privado.
O post está longo e fico-me por esta conclusão: o processo, para já, tem dois perdedores - os meninos da Casa Pia, que já pouco têm a ver com tudo isto, e a própria democracia. E por esta evidência: à política, à justiça e à comunicação social em Portugal falta maturidade.
Carlos Candal apareceu a criticar a direcção do PS. Não me pronuncio sobre o que diz. É um problema deles. Mas para a política descer ao ponto mais baixo, só faltava mesmo ter de voltar a ouvir a esta personagem.
Um post de Mark Kirkby, que é, como eu, assessor político de um partido – não do mesmo, claro –, foi divulgado na comunicação social. O seu partido foi instado, por um diário, a comentá-lo. Apesar de me parecer óbvio e aplicável a todos, Mark incluído, isto leva-me a um esclarecimento: o que aqui escrevo são as minhas opiniões e não as de qualquer organização. Que fique claro, sempre claro. Quando assim deixar de ser, a blogosfera perderá todo o sentido.
Em Valongo, a população esperou à porta do Tribunal para fazer “justiça” pelas próprias mãos. Os portugueses, que calam as agressões domésticas que ouvem na casa do vizinho, que calam os abusos de poder, que calam o trabalho infantil, que calam, que calam, que calam, são rápidos a alinhar-se em frente a uma câmara de televisão para fazer o papel de “justiceiros”. A indignação sem riscos é a regra dos países onde a cidadania se resume ao grito histérico e inconsequente. É a cidadania da turba, dos cobardes.
O partido suíço de extrema-direita, a União Democrática do Centro (note-se o eufemismo), ganhou as eleições, defendendo políticas de imigração restritivas. Os emigrantes portugueses estão preocupados. Perguntem ao ministro de Estado do seu país o que irá acontecer. Ele pode lhes explicar melhor do que ninguém o que os espera.
Hoje, num telefonema, usei estas expressões: “esta merda já cheira mal”, “filho da mãe” e “porra”. Aos telespectadores peço as minhas desculpas por julgar que os telefonemas eram privados.
Mais: usei a expressão “Ferro”, nome de código de Ferro Rodrigues, “Professor Martelo”, nome de código de Marcelo Rebelo de Sousa, “sonso”, nome de código do Procurador-Geral da República, e “meu irmão”, nome de código do meu irmão, que nada tem a ver com esta história toda.
Mais esclarecimentos sobre telefonemas privados devem ser solicitados aos serviços competentes.
Jorge Sampaio disse duas coisas que marcaram o fim-de-semana político. Que tem dúvidas que alguma vez venha a falar do referendo à Constituição Europeia. E que ninguém se deve preocupar com a contestação estudantil, que ela é “cíclica” e que “havemos de sobreviver também a esta”. Com tantas dúvidas e tanto vazio político, a nossa sorte é que as eleições para o Presidente da República são cíclicas. Havemos de sobreviver a este.
PS: Este comentário deve-se a um imperativo patriótico. Tenho dúvidas que, no próximo mês, venha a haver razões para falar de Jorge Sampaio.
Paulo Portas obrigou cem desgraçados a ter contacto com as maravilhas da vida militar. Dois tentaram fugir mas foram escoltados até ao quartel para verem filmes sobre a tropa. Isto está bonito!
No próximo dia 29 de Outubro, às 18.30h, voltará ao Jardim de Inverno do Teatro São Luiz mais um ciclo de encontros sobre livros e escritores. O primeiro "É a Cultura, Estúpido!" desta nova série terá como convidado principal António Mega Ferreira, que lançará em breve dois novos livros: "O Que Há-de Voltar a Passar" (Assírio e Alvim) e "Uma Caligrafia de Prazeres" (Texto Editora). A equipa entrará em campo com o sete inicial - a apresentadora Anabela Mota Ribeiro, os críticos literários José Mario Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, o colunista Daniel Oliveira, o stand-up comediant Ricardo de Araújo Pereira - e uma nova aquisição. O também colunista Pedro Lomba juntar-se-á ao grupo para jogar à direita, no confronto de ideias com Daniel Oliveira. A polémica deste mês girará à volta do livro "La Face Cachée du Monde", de Pierre Péan e Philippe Cohen, sobre as "ligações obscuras" do jornal Le Monde - ponto de partida para discutir as relações entre o jornalismo e a política. Serão mantidas as rubricas "Leitura Obrigatória", "O Que Não Ando a Ler" e "Baixa Cultura", bem como o stand-up final sobre a actualidade literária.
Marque já no seu moleskine este evento organizado pelas Produções Fictícias: "É a Cultura, Estúpido!", últimas quarta-feiras do mês, até Junho de 2004.
Hugo Marçal foi solto e o processo da Casa Pia mostrou-se mais frágil do que nunca, evidenciando alguma incompetência de quem dirige as investigações. O Ministério Público (o único que tem acesso a esta informação) resolveu o problema de forma expedita: divulgou escutas telefónicas, criando o facto político ao lado do processo. Estarão todos cientes do perigo do que se está a passar? Do precedente que se abre? Do que será a política e a justiça depois disto?
Parece que não. As “Ratazanas Anónimas” que enchem as sedes do PS aproveitaram a deixa para pedir a cabeça de Ferro. Pacheco Pereira, depois de perder cinco segundos a criticar a divulgação das escutas telefónicas, comentou as ditas cujas e nem se deu pela contradição. E fez mais: foi tirando conclusões políticas de cada frase que ia mostrando no ecrã. Este exercício é de uma indignidade que, apesar de tudo, não esperava de JPP.
A ver se consigo voltar ao básico: divulgar conversas privadas é uma forma ilegítima de combate político. Ninguém tem de responder por palavras que proferiu em privado. Delas não podem ser feitas leituras políticas. A vida política portuguesa não pode depender do que um dirigente partidário diga ao telemóvel a um amigo. Será assim tão difícil compreender o mais básico dos básicos das regras do Estado de Direito, da privacidade e da decência? Safa!
Para o Barnabé XL desta semana, aqui vai um texto de reflexão política de um Amigo do Barnabé da primeira hora, Renato Carmo.
O Meu Manifesto
Este é um mero esboço do manifesto de um indivíduo que continua a ter consciência que é de esquerda. Proponho, por isso, uma reflexão em torno dos eixos que considero fundamentais para uma intervenção alargada de um movimento de esquerda.
A propriedade
O problema central das desigualdades sociais ainda continua a ser a questão da propriedade. Não só a distribuição desigual da propriedade, mas, fundamentalmente, a apropriação desigual da propriedade. Nos nossos dias, a propriedade não distingue apenas os que têm dos que não têm, mas, também os que têm mais daqueles que não têm tanto.
Na sociedade pós-capitalista (ou pós-industrial, ou pós-moderna, ou informacional) a propriedade deixou de ter face, a sua identidade dilui-se na máscara dos títulos e acções. A propriedade já não está directamente associada a autoridade e ao controlo: quem manda é o director. “Onde é que está o patrão?”. O proprietário tornou-se uma abstracção, uma entidade poderosa que ninguém consegue bem identificar. O patrão são os accionistas, os grupos económicos, os bancos, os Estados, os lobies..., enfim, o patrão também somos nós. Pelo menos é isso que nos querem fazer crer com a generalização do dito capitalismo popular. No entanto, sabemos que não são os pequenos subscritores (ou proprietários) que determinam as descidas e subidas dos índices. O valor da propriedade é determinado por outros: os grandes.
Sendo abstracta a propriedade está cada vez mais sujeita a especulação. Os meios de produção tornaram-se virtuais, podem actualmente ser considerados como meios de valor, na medida em que se encontram descontextualizados em relação ao tempo-espaço. A propriedade deixou de ser materialidade, o seu valor é estipulado em função de avaliações e expectativas de ordem puramente especulativa. Actualmente, uma empresa vale pela sua imagem, ou melhor, vale pela capacidade de convencer os outros do nível do seu sucesso. Este não é só representado pelos elevados níveis de produtividade, a mais valia deriva decisivamente da força da imagem.
O problema da propriedade é acima de tudo o problema da sua virtualidade. Os que têm mais, podem perecer que têm pouco. A sua riqueza não é concreta, mas tende a acumular-se. Não é regulada e esquiva-se à tributação. No entanto, o seu valor abstracto faculta-lhe um enorme poder - o poder da exploração. O seu benefício é o infortúnio de outros. O seu juízo decide a falência das empresas consideradas fracas. Da sua acumulação e fusão resulta o desemprego: é preciso deitar fora aquilo que é residual e que pode reduzir a multiplicação do capital.
A propriedade continua a ser o problema central da esquerda. A exploração que resulta da divisão desigual da propriedade ainda não foi resolvida, pelo contrário, esta aprofundou-se e tornou-se mais complexa, mais difícil de descortinar. O contributo fundamental da esquerda é tentar desmistificar e desmascarar os “feitiços” que encobrem essa exploração.
A desmistificação passa por analisar o fenómeno da globalização. É devido à globalização que economia tende a descontextualizar-se em relação ao local e ao nacional. As fusões e as deslocações das empresas ultrapassam o interesse do desenvolvimento económico das regiões e dos países. Pelo contrário, estas são decididas de forma a salvaguardar o interesse da propriedade transnacional, ou melhor, da propriedade virtual: que não é de lado nenhum, mas está em todo o lado.
O consumo
Esta propriedade está nas mãos de alguns, mas da qual muitos têm um pouco. A propriedade tornou-se transnacional e simultaneamente transclassista. Este fenómeno enquadra-se num processo generalizado e irreversível de aburguesamento da vida e da economia das famílias. A projectada proletarização das classes intermédias inverteu-se e deu lugar ao aburguesamento do proletariado. Com o desenvolvimento do capitalismo, o modelo médio, constituído pela pequena burguesia, universalizou-se: quem ainda não é burguês aspira a sê-lo.
A generalização deste modelo resulta fundamentalmente da massificação do consumo. É através das práticas e das relações de consumo que o indivíduo constrói a sua identidade e o seu posicionamento perante o outros. O aburguesamento dá-se principalmente por intermédio da aquisição de bens e serviços e também de acções e de títulos. A pequena burguesia também é proprietária e tem gosto em jogar o jogo da especulação. A massificação do consumo decorre, fundamentalmente, da liberalização e generalização do mercado.
A produção já não é o factor primordial para a determinação da posição de classe. O indivíduo compra e compra. A sua referência deixa de ser, cada vez mais, a sua posição hierárquica no sistema produtivo. O referencial passa a ser, em grande medida, os modos de consumo universalizados pela publicidade (o modelo médio). A esquerda ainda não consegue lidar naturalmente com esta alteração. Não há nada a fazer, é com a pequena burguesia que a esquerda tem de empreender a sua luta.
Nos nossos dias, o trabalhador que produz é simultaneamente o consumidor que adquire. O automóvel que sai das suas mãos já não é conduzido só por burgueses relativamente abastados, ele próprio conduz um parecido. Este indivíduo tem um duplo poder: o poder de não produzir e o poder de não consumir. O primeiro poder, embora esteja a sofrer fortes investidas desreguladoras, encontra-se ainda relativamente assegurado, na medida em que faz parte de um conflito institucionalizado que regula os interesses de classe. O segundo poder não tem força porque se diluí no acto individualizado de consumir. Nos nossos dias, o acto de consumir é visto, pela esquerda, como um acto de alienação: passivo e acrítico.
No entanto, este pode representar o poder extraordinário de intervir no mercado e influir indirectamente na política das empresas: o poder de não consumir os produtos da empresa x porque explora mão de obra infantil, ou de não adquirir a marca y porque está em vias de desempregar centenas de trabalhadores. O poder de decidir não consumir pode ser mais potente que o poder de não produzir. Mas só terá eficácia se compreender uma decisão colectiva: uma resolução conjunta de não consumir os produtos de determinada empresa pode condicionar e modificar a sua política de produção.
Na sociedade moderna o consumo tende a assumir uma dimensão política. Pode constituir um poderoso instrumento de reivindicação e uma verdadeira força de expressão de descontentamento e mal estar. Representa a possibilidade de, através do mercado, reduzir as desigualdades determinadas pelo sistema produtivo. É urgente que a esquerda compreenda esta capacidade e integre no seu movimento uma política de consciencialização perante o consumo, tal como fez em relação aos problemas ecológicos.
A reflexividade
A vida moderna é uma vida de escolhas múltiplas. O destino perdeu a sua fatalidade. As trajectórias sociais deixaram de ser herdadas ou, pelo menos, já não comportam tanto determinismo. O indivíduo do mundo moderno vê-se confrontado, cada vez mais, com a imprevisibilidade: o emprego não é mais permanente, os laços familiares reconfiguram-se, a localidade já não é próxima. Estes fenómenos requerem do indivíduo a inevitabilidade da escolha, é preciso decidir. Ao acto de decidir subjaze o acto de reflectir. O indivíduo tem de estabelecer uma atitude de questionamento perante as diversas possibilidades de acção.
A reflexividade representa uma das componentes fundamentais da vida quotidiana moderna: a capacidade de distinguir qual a melhor modalidade de empréstimo, qual o produto mais equilibrado em termos de qualidade-preço, qual a estratégia mais viável que possibilite a ascensão na empresa... Esta atitude reflexiva emana de uma necessidade perene de salvaguardar o interesse individual. A reflexividade enquadra-se num fenómeno generalizado que caracteriza a vida moderna - a egocentração.
A reflexividade não constitui, na maior parte dos casos, um posicionamento crítico em relação à realidade social, ou seja, a capacidade de relativização perante o outro de maneira a compreender melhor o mundo. Pelo contrário, a reflexividade é uma forma de racionalização que estrutura e programa a vida do indivíduo, fundamental para se defender das intempéries do mundo moderno. A reflexividade enche o indivíduo de si, mas cega-o em relação ao outro.
O indivíduo tende a gerir a sua economia e a sua afectividade de forma a tirar o melhor partido para si e para os seus. A luta pela felicidade quotidiana e a autosatisfação diária são, actualmente, os motivos e os factores fundamentais de resistência.
É imprescindível que a reflexividade individual saia de si e aponte também para o que está do outro lado. Este é o desafio supremo da esquerda: contribuir para que os indivíduos identifiquem o outro lado como fazendo parte do lado de cá; fazer com que reflexividade individual enquadre não só a melhor decisão para o sujeito, mas, simultaneamente, a melhor decisão para o mundo.
A revolta
A globalização aprofunda as desigualdades, no entanto, só com os instrumentos da própria globalização se podem combater as assimetrias sociais, económicas e culturais geradas por esta. De facto, a globalização compreende um paradoxo estrutural. Por um lado, aprofunda os mecanismos de divisão: intensifica o fosso económico entre os países desenvolvidos do Norte e os países pobres do Sul; afasta cada vez mais a população activa, que integra a economia global, da população excluída e oprimida pelo sector produtivo... Por outro lado, a globalização aproxima: com a generalização das redes e dos meios de comunicação e de informação geram-se novas reciprocidades e solidariedades.
Só potenciando e desenvolvendo os mecanismos que aproximam é possível combater os que geram desigualdade. A crescente informação e visão do outro não pode banalizar-se de maneira a que este se torne rotina, isto é, se torne invisível. A visibilidade extrema pode encadear. Torna-se, por isso, fundamental que o outro não se transforme numa montra, é preciso ter a noção que não existe nenhum vidro a separar-nos.
Através da globalização o indivíduo pode ter a capacidade de sair de si e encontrar semelhanças do outro lado do mundo, problemas que estão lá mas que também são os seus. Este é o primeiro passo para o indivíduo ganhar a consciência em relação ao outro, ou melhor, ter a consciência que o mundo é a sua continuidade. Ter a consciência que também é preciso estar alerta ao que se passa lá, para ser possível mudar o que é de cá.
Para a esquerda, agir reflexivamente deverá ser agir com o outro. No entanto, o punho da revolta deve partir da consciência individual. O colectivo resulta da revolta do eu. Eu revolto-me, logo existimos, dizia Camus. No entanto, só é possível o sujeito revoltar-se se estiver aberto para o mundo.
O indivíduo deverá ter consciência que tem dois instrumentos fundamentais de luta que equivalem a dois poderes: pode intervir directamente na produção porque trabalha; pode alterar as leis do mercado, porque consome, podendo assim influir indirectamente na produção das empresas. É preciso ter consciência que se pode exercer poder e isso faz-se através da revolta. A revolta deverá ser informada e global, criando um movimento de solidariedade com o outro. A posição colectiva resulta assim da agregação de uma consciencialização individual.
A manifestação
Num mundo massificado a manifestação da massa perde a sua eficácia. A importância do número deixou de ser decisiva para a manifestação de um colectivo. A própria consistência do colectivo se está a desagregar: as identidades de classe destruturam-se e já não fazem sentido. Actualmente, os conflitos são parciais, não implicam a totalidade do mesmo colectivo social. Por este motivo, as manifestações são sectoriais. Por vezes, existem até reivindicações contraditórias dentro dos mesmos estratos sociais (por exemplo, uma greve dos trabalhadores dos transportes públicos afecta, sobretudo, os utentes que pertencem, na sua maioria, à mesma camada social).
O movimento de esquerda já não pode ser um movimento feito com e para um colectivo. Primeiro, porque a identidade colectiva destruturou-se, segundo, porque os fins já não unificam os meios, estes deixaram de ser justificados. Actualmente, são os meios que justificam os fins e não o contrário. O processo é tão ou mais importante que o resultado, se não existir a consciência do e no processo os fins deixam de valer. A revolta resulta da agregação das consciências e vontades individuais. A esquerda tem de assumir o indivíduo como o centro do seu movimento. E, para isso, deverá assumir os meios como sendo os mais importantes fins. Por este motivo, a luta da esquerda também é uma luta contra a esquerda e contra a velha metodologia que lhe está entranhada.
[Renato do Carmo]
A blogosfera portuguesa que conheço é um bocado provinciana. Isso deve acontecer porque eu próprio sou provinciano e o mesmo se aplica (os meus amigos barnabenses que me desculpem se estiver a ser injusto com eles em particular) ao querido Barnabé. Apesar de navegarmos com agilidade, de termos muitos links estrangeiros e conhecermos muitas fontes de informação internacional, lemos e comentamos e linkamos sobretudo blogues portugueses. Ao contrário, Ponto Média, o blogue do jornalista António Granado é realmente cosmopolita. Posts curtos e informativos remetem para sites e blogues de outros países, essencialmente anglo-saxónicos, com artigos de interesse sobre muitas coisas em geral e sobre blogues em particular. E têm interesse porque Granado nos recomenda o que conhece e seleccionou. O seu horizonte de leitura bloguístico é mesmo internacional e internacionalmente culto (ser culto significa conhecer por dentro). Apercebemo-nos disso quando começamos a clicar e chegamos a blogues como este e deste passamos para este e depois para este. E depois perdemo-nos porque há imenso que ler.
Ferro Rodrigues terá dito numa chamada telefónica: “Estou-me cagando para o segredo de justiça”. Não comento a frase porque não comento frases ditas em privado e que em privado devem permanecer. Interessante é verificar que o Ministério Público, para usar a frase contra Ferro – numa guerra que já não tem nada a ver com a Casa Pia – a tornou pública, demonstrando de forma cristalina que ninguém se está-se “cagando” mais para o segredo de justiça do que o próprio MP.
O MP que é quem tem mais obrigações na defesa do segredo de justiça. No entanto, coordena fugas de informação permanentes para garantir um julgamento na praça pública. Não podem, portanto, abrir a boca para falar de segredo, de justiça ou de decência. Por mim, só não me estou “cagando” para o Ministério Público, porque já percebi que eles se estão “cagando” para o Estado de Direito.
PS: Infringindo escandalosamente as regras das blogosfera, este post foi alterado por amor à verdade dos factos: a expressão "estou-me cagando" era a que de facto foi utilizada, e não a "estou-me a cagar". Eu não me estou cagando para a elegância da coisa.
Os últimos dias têm sido pródigos em balanços sobre os 25 anos do pontificado de João Paulo II, mas, salvo honrosas excepções, os media portugueses pautaram-se mais pela deferência do que pelo espírito crítico. Não sendo católico, habituei-me contudo a admirar alguns aspectos da politica vaticana - a sua denúncia firme do totalitarismo comunista nos anos 80, as suas críticas certeiras aos dogmas do mercado-livre e, mais recentemente, a sua condenação da guerra contra o Iraque. Mas há outros aspectos no pontificado de João Paulo II que mereciam um escrutínio bem mais cerrado - por exemplo, as suas posições em matéria de planeamento familiar. Uma boa alternativa à transmissão em directo do "Terço Vivo" com que a RTP 1 nos brindará hoje à tarde é o excelente programa "Panorama" da BBC World, dedicado, precisamente, às consequências da condenação do uso do preservativo por parte da Igreja Católica - designadamente, a propagação em grande escala da SIDA em África. Se o caso não fosse trágico, uma pessoa até poderia sorrir ao ouvir figuras como o Cardeal Trujillo negarem solenemente a eficácia do latex dos preservativos. Mas, como concluia o jornalista, em países onde os ensinamentos do catolicismo ainda contam para alguma coisa, esta é mesmo uma questão de vida ou morte.
Ontem, falando com a minha mulher, que é italiana, eu dizia-lhe que se calhar agora Portugal já não deve nada à Itália em matéria de baixa política. A avaliação moral e política do que se passa está envolta numa poeira permanente, levantada de forma consciente e inconsciente pelos protagonistas da luta político-mediática, onde se incluem os juízes e os jornalistas. Ela respondeu que o Berlusconi é precisamente um especialista em aproveitar-se da cacofonia de acusações, calúnias, ataques, defesas e desmentidos que se segue a cada nova notícia e a cada novo escândalo, deixando atrás de si uma paisagem confusa em que deixa de ser possível distinguir o que quer que seja. Assim se pode andar para a frente de forma impune.
Como se pode lutar contra os profissionais da cacofonia? Como se pode falar sem contribuir para aumentar a confusão? Não faço ideia. A única imagem que me ocorre é: temos de aprender a ser varredores de rua e homens do lixo. São as profissões mais nobres do momento.
Sobre a crise actual, cito integralmente da Praia de ontem um post que me parece extremamente importante e lúcido:
O essencial e o acessório
Não falar, parte III é um post inteiramente correcto da Mariana Vieira da Silva. Mas convém acrescentar que não é assunto de socialistas, nem de amigos do Paulo Pedroso. É muito inquietante, ou mesmo muito deprimente, que a maior parte das pessoas que falam sobre isso, sobretudo da direita, não distinga o absolutamente essencial, que seriam as preocupações sobre o funcionamento de instituições como a PGR ou os tribunais, do acessório, que são considerações sobre a oportunidade política de certos comportamentos. Do lado do PS, a fronteira do essencial só foi ultrapassada com as declarações de Ana Gomes (que é um erro manter em funções, como ela já provou e, infelizmente, continuará a provar). Dos outros lados, foi ultrapassada várias vezes: com as declarações de Guilherme Silva sobre o «big brother», as de Durão, o obsceno, contra a politização da justiça, as do PGR sobre o acórdão da relação, as dos psiquiatras que chantageiam a opinião pública com tentativas de suicídio.
Pacheco e Marcelo, no domingo, ocuparam em monopólio os comentários das televisões privadas para condenar o comportamento do PS. Isto é pessoalmente censurável aos dois personagens - revela, para quem ainda não soubesse, que as mesquinhezas da competição política são para eles muito mais importantes que o Estado de Direito - e é esclarecedor sobre a gravidade da situação que se vive em Portugal de semi-monópólio da opinião pela direita, proporcionada, naturalmente, por grandes grupos capitalistas sem controlo.
Deste ponto de vista, a liberdade de expressão em Portugal está muito coartada quando comparada com o que se passava há dez anos. Não vê quem não quer ver.
posted by ivan #3:47 PM
Hugo Marçal esteve preso preventivamente. Depois esteve em liberdade. Depois ficou detido. Demonstrando uma escandalosa ignorância jurídica, o advogado nunca deu pela diferença.
Comentando a questão das propinas na TVI, o DR. Rui Moreira junta alguns argumentos que são diamantes em bruto:
- ALGUNS estudantes fizeram grandes sacrifícios em colégios privados para entrar para a universidade e nunca se queixaram.
- Se ALGUNS estudantes beberem menos ALGUNS litros de cerveja o sacrifício é menor.
- ALGUNS estudantes vão de carro para as universidades.
- O protesto contra as propinas é uma FARSA SOCIAL.
Só apetece dizer que ALGUNS comentadores favoráveis às propinas estão de boa fé, outros são, simplesmente, uma FARSA INTELECTUAL.
O cidadão que não compareça ao Dia da Defesa Nacional é punido com a coima de 249,40€ a 1 247,00 €.
Olá Luciano,
Cá volto à carga, mas vais ver que estou mais meiguinho. Desta vez não vou entrar, mas apenas por ignorância história, em novas polémicas. O que me move é outro post: a construtiva proposta que nos fizeste para alterarmos os nossos estatutos, de modo a integrarmos neles a nossa obsessão contigo. Registámos a ideia, que já deu entrada na lenta máquina burocrática do Barnabé. Antes que haja uma decisão, adianto-te já que há duas correntes que se digladiam quanto à resposta a dar. Há os que têm um entendimento liberal (sic) dos estatutos: podemos fazer tudo o que eles não dizem, incluindo bater no Luciano Amaral. E há os que acham que, ao mandar-nos entrar em polémica com Pacheco Pereira, o legislador estava apenas a usar uma metáfora das nossas obsessões com os intelectuais de direita. Em qualquer dos casos, como vês, há fortes probabilidades de ela não ser aprovada e de continuarmos à pancada contigo na mesma
Por fim, se me permites a veleidade, aproveito a volta do correio para mandar também uma proposta a incluir nos estatutos do Comprometido Espectador: o de não apresentar como credíveis e dignos de citação um blogue como esse que se chama Merde in France. Não é por guerras anti-francesas ou anti-americanas ou anti-outra coisa qualquer: é só por uma questão de boa educação mesmo. Discutir, sim, mas sem merdas.
A Juventude Popular quer que qualquer alteração à lei que criminaliza o aborto seja inconstitucional. Temos de explicar a João Almeida, líder da Juventude T-Clube, que a descriminalização do aborto não é retroactiva. Pode estar descansado, que já nada lhe pode acontecer.
“Este partido não tem suspeitos de pedofilia”, recordou Manuel Monteiro, sobre a Nova Democracia. De estupidez crónica, sim. De demagogia barata, sim. De populismo histérico, sim. De oportunismo sem escrúpulos, sim. Mas de pedofilia não. Isso é que não.
O que lerá aqui são as perguntas (basta as perguntas) do “historiador” e “jornalista” José Freire Antunes, à vice-presidente da Frente Nacional, Marine Le Pen. A entrevista saiu no jornal de referência para a direita bloguística. Sejam bem vindos ao maravilhoso mundo do jornalismo do “Independente”. Quando os portugueses ganharem consciência nacional, toda a imprensa será assim.
Considera que o sistema [eleitoral] foi fabricado pelos partidos dominantes com a intenção directa de interditar a existência da Frente Nacional?
Quer dizer com isso que as outras formações políticas francesas criaram em torno de vós, e de forma concertada, um mito politicamente aterrador?
Parece-lhe então que a esquerda francesa, nessa construção de um temor que vocês pensam ser imaginário, mostrou o seu profissionalismo político?
Quem são os seis milhões de votantes da Frente Nacional? Poderá falar-se, no vosso caso, de uma “França profunda”, que seria também a “França silenciosa”, à espera do seu tempo de governo?
Tenho visto Marine Le Pen na televisão, a ser entrevistada, e verifico, da parte dos jornalistas em geral, uma agressividade em relação a si que não é usada com outros políticos. Parece que os jornalistas se sentem compelidos a profissões de fé extrajornalísticas contra a Frente Nacional. Ou será só impressão minha?
Há uma ideia de xenofobia feita sobre vós em toda a Europa. A ideia de que a Frente Nacional hostiliza os imigrantes em França. Não obstante, parece que há imigrantes portugueses que militam actualmente nas fileiras da Frente Nacional. É assim?
Os seis milhões de muçulmanos em França são, para si, uma preocupação especial?
… É uma nova imigração civilizacional?
Fundamentalistas?
Os jornalistas andam à procura de informações nos caixotes de lixo e os jogadores de futebol vão para os hotéis meter para a veia.

Robert Fludd [1574-1637], Utriusque cosmi maioris scilicet et minoris metaphysica, physica atque technica histori. Oppenheim, 1619.
Papa 1
O Papa falou hoje aos peregrinos: anhaãããããã, casarraaaaa, dááááá, hããããã. Os peregrinos, convencidos que o Santo Padre falava hindu, aplaudiram comovidos.
Papa 2
O Papa diz que Deus lhe pediu para não abandonar o cargo. No mesmo dia, Deus terá dito, segundo fontes celestialmente colocadas, o mesmo a Cruz Silva.
Papa 3
O Bloco de Esquerda apresentou um projecto de Lei que permite o uso terapêutico de cannabis para doentes terminais. A campanha para a aprovação deste projecto já está na rua: I like the Pope, the Pope smokes dope.
Pedro Lynce tem ido a treinos e viagens do Sporting.
Fernando Santos já anunciou o 11 inicial do próximo jogo:
Ricardo, Mário Sérgio, Polga, Beto, Rui Jorge, Custódio, Rochemback, Pedro Barbosa, João Pinto, Diana Martins da Cruz e Lourenço.
Jorge Sampaio incitou ontem os estudantes a diversificarem a agenda de reivindicações, considerando que esta se mantém há demasiado tempo centrada na questão dos financiamentos. O comentário é suavemente desastroso, como têm sido desastrosos, mas muito bem recebidos, os seus comentários abstractos mas demasiado concretos sobre a justiça que vão direitinhos ao caso Casa Pia (se isto não é promiscuidade de poderes não sei o que isso seja). Conheço quem se indigne com a costumeira indefinição e neutralidade do Presidente. Eu prefiro quando ele está calado, do que quando treslê a realidade. Desde logo, as reivindicações dos estudantes não se limitam à questão dos financiamentos (que por si só, dada a arbitrariedade e irresponsabilidade do seu desenho mais recente, o justificavam). Estendem-se a uma oposição à tentativa de retirar aos alunos qualquer participação relevante no destino das universidades, factor que favorece claramente a agitação de rua - sobra o Conselho Científico, provavelmente, onde essa participação é mais questionável. Acresce o problema da autonomia das universidades. Quanto ao Presidente, não percebo o comentário, nem do ponto de vista do seu papel institucional, nem do seu perfil ideológico. Lembra-me demasiado aquelas pessoas que se queixam que já estão fartas de ouvir falar do conflito israelo-árabe ou do flagelo da pedofilia, como se a realidade se devesse extinguir diante do cansaço dos telespectadores que, entretanto, substituíram os cidadãos. É demasiado leviano, vindo de quem não o pode ser. Afinal, quando se trata de a propina ultrapassar os 800 Euros, que outra reivindicação quer o Presidente? Por outro lado, este desafio à mudança de agenda exige que se tenha uma agenda alternativa, o que pede necessariamente outra interpretação do papel do Presidente. Estará Sampaio na disposição de assumir esse encargo?
Primeiro foi a desastrada ida ao Parlamento, no dia da libertação. Depois o discurso delirante de Ana Gomes. Agora, Pedroso prepara-se para falar no plenário sobre o processo. Se o fizer, faz mal, muito mal, mesmo.
É provavelmente um erro apresentar, como eu fiz, os diferentes meios de comunicação existentes em pé de igualdade. Os seus poderes e o seu impacto são desiguais. Infelizmente, o telelixo na informação tem o poder de invadir quase tudo e de ocupar quase todo o espaço. É um écrã bem mais forte do que os outros.
Acompanhar o que se passa em Portugal apenas a partir do que se escreve nalguns jornais e nos blogues é acompanhar muito superficialmente o que se passa. Isto acontece comigo, por exemplo, ao viver em Paris. Estou ligado à Internet mas não tenho televisão portuguesa Tenho seguido assim, há meses, o processo da Casa Pia. Mas bastou-me ver uma vez um spot da SIC, no intervalo de um jogo do Benfica, em que a imagem de Paulo Pedroso era explorada num sentido nojento, para perceber como estou longe de compreender o que se passa: tudo aquilo com que as pessoas que estão em Portugal constroem a sua percepção das notícias, feita de uma multiplicidade de meios de comunicação - televisão, jornais, rádio, mas não só, as fundamentais conversas entre as pessoas, a publicidade, os cartazes políticos, o aspecto das coisas na cidade, enfim, tudo aquilo de onde se pode retirar um sentido. Nenhuma notícia é lida sem isto por trás, que varia de pessoa para pessoa, de meio para meio, mas é sempre um conjunto de coisas. À distância, eu acedo a uma pequena parte destes meios - na verdade, acedo a todos, mas de forma muito irregular. Esta limitação, sendo naturalmente frustrante, tem um lado pedagógico. A cada momento tenho de contar com ela e perceber como é limitado o meu conhecimento de uma realidade à distância. De outra maneira, os meios de comunicação de que disponho - o Público online por exemplo -, mesmo quando são bons, transformam-se num écran: criam a ilusão de dar-me a realidade toda e afinal escondem a realidade quase toda.
Se isto for verdade, apetece-me dizer que é com pouquíssimos elementos que, de um modo geral, todos apreendemos as notícias que nos vêm de fora, de Israel e da Palestina, dos Estados Unidos, da França, da Guiné-Bissau ou de qualquer outro país. Isto por mais textos e imagens televisivas que nos cheguem de lá, por mais testemunha ocular que estas sejam ou pareçam ser. Dão-nos uma fina penícula das coisas. Salvo o conhecimento particular de um país, de uma realidade cultural e social, que longas estadias e muitos contactos forneceram a certas pessoas, é claro. Salvas também as leituras e a imensa informação acumulada à distância pelas pessoas mais informadas, é claro também. Mas estas últimas pouco nos mostram, antes tendem a esconder, a imensa informação que se esconde por trás dos textos-écran. A junção dos dois modos de conhecer é que é a verdadeira sociedade da informação.
Pedro Namora está, neste momento, sentado nas galerias da Assembleia da República, com um grupo, vestidos de branco, para receber Paulo Pedroso. Namora, para quem não conheça, é um estalinista daqueles que já não se fazem. Perguntem lá no PCP. Até os ortodoxos coram. Por isso, conhece bem os métodos: julgamento sumário, sem direito a defesa. O tribunal popular revolucionário sentenciou a culpa. Venha a forca.
Pinto da Costa, qual Bispo do Porto, sai em defesa do Papa. Os dirigentes só falam de casos de polícia. O “Expresso” faz primeira página com uma mesa partida. Um psiquiatra diz a 10 milhões de portugueses que os seus pacientes se querem suicidar.
Que sensação estranha. Está tudo às voltas na minha cabeça. Portugal está de pernas para o ar. Já ninguém diz coisa com coisa. Estou com uma sensação de trip colectiva. Nem quero pensar na ressaca.
Qualquer que seja a imagem que cada um tenha sobre Paulo Pedroso depois destes últimos meses, é um acto de elementar justiça ir ler agora directamente o que ele diz, dando-lhe o tempo e a serenidade da sua palavra, curto-circuitando o écran mediático. Está aqui e passa também a integrar aqui ao lado a lista de links e textos recentes que recomendamos aos nossos leitores.
Um dos meus bons amigos, o João Marques de Almeida, foi há pouco tempo convidado para integrar o Conselho Económico e Social do PP. De acordo com declarações à imprensa, ele aceitou o convite por considerar que se trata de um espaço "interessante" para realizar algum esclarecimento doutrinário (o PSD, como se sabe, é um pouco avesso a essas discussões). Eu desejei-lhe boa sorte, mas sempre lhe fui dizendo que achava pouco provável que este PP pudesse algum dia transformar-se num partido de direita civilizado. A recente iniciativa do ministro Paulo Portas de aplicar multas aos mancebos que faltem às comemorações do "Dia da Defesa Nacional" (a somar às suas declarações histéricas sobre os imigrantes) confirma plenamente essa ideia. Graças à carta que seguiu para casa de alguns milhares de jovens, ficámos a saber que, de acordo com o ministro da Defesa, a cidadania não é um conceito a que os indivíduos possam aderir voluntariamente - é algo que lhes tem de ser martelado, à boa maneira da "velha direita", paternalista e autoritária. Será que algum dos elementos da "nova direita" lhe poderá fazer chegar às mãos uma cópia do sempre oportuno «Dois conceitos de liberdade" (Isaiah Berlim)?
Amorzinho... A pensar no almocinho... Para aproveitar o molhinho... As endiviazinhas são com arrozinho, não são?
A minha mãe está muito bem e já sem cãibras. Ela tem cem limões em cada mão. Tem também um cão pastor alemão que põe na ordem muitos ladrões e capitães ruins.
Era uma pessoa tão forreta, tão forreta, tão forreta que para ver se tinha ganho à raspadinha só usava moedas de cinco cêntimos.
Há gente que está muito zangada com isto dos estudantes ocuparem senados e, veja-se bem, porem a possibilidade de cortar estradas. Houve mesmo quem aqui, na blogosfera, se indignasse por eu, supostamente, achar isto normal. Desminto. Calúnias. Acho anormalíssimo. Eu sou temente a Deus e à Lei. Já não há respeito? Já não há ordem? Pildra com eles todos. Cambada de arruaceiros. Manifestações e ocupações e cortes de estrada? Está tudo louco? Isto está entregue aos bichos. Olha, como dizia um senhor que eu costumo acompanhar atentamente, no Fórum TSF, isto já lá não vai com um Salazar. Um Marquês de Pombal é que era preciso. Quem diz o Pombal, diz o Pacheco ou o Veiga Simão. Alguém que ponha estes putos a estudar.
Têm sempre certezas e quase sempre a certeza do momento. No passado, não questionaram os livros que leram, as palavras que gritaram, as frases que citaram. Mas veio o dia em que se quebrou qualquer coisa neles. Questionaram-se uma vez e foi um mundo inteiro que se desabou. Com o horror da dúvida, da incerteza, da busca, procuraram desesperadamente outra certeza. Agarraram-na com a mesma ortodoxia de sempre, a arrogância do costume, apenas com outros inimigos. Aos sectários, pode-se lhes mudar os ídolos, mas não se lhes muda a cabeça.
Ganharam um ódio patológico pelo seu passado, como Dorian Gray, quando olha para o seu retrato. Não imaginam que os que estão do outro lado possam ser diferentes do que eles foram. Eles sabem o que a casa gasta. Eles sabem o que os outros são, comeram na mesma mesa, do mesmo prato. Olham para os estudantes e lembram-se. Olham para a esquerda e lembram-se.
Desprezam o presente de tantos, porque desprezam o seu próprio passado. Querem apagar da sua memória e da memória dos outros as certezas inabaláveis que tinham. E um estranho padrão há em tudo isto. São quase sempre os mais sectários de cada família que com mais ódio a renegam. E os convertidos, já se sabe, precisam sempre de mais fé e fervor que os cristãos de sempre.
Em nenhuma metade das suas vidas conseguiram estar do lado de quem era perseguido, e querem que outros carreguem o fardo dos seus remorsos.
Quando lhes cheira o sangue logo mordem, para mostrar que estão na linha da frente, sempre na vanguarda da vanguarda, seja quem for a sua retaguarda. Ir à frente, ser o primeiro, para que não duvidem do seu novo papel histórico.
Detestam a contestação dos estudantes porque não entendem como podem eles ter mudado e haver ainda quem se engane.
É esta geração de vencidos, de convencidos, que tem conseguido a hegemonia da opinião em Portugal. Não têm a história de Álvaro Cunhal ou Mário Soares, escapou-se-lhes a revolução, não querem perder a normalização. Queriam ser os "vencidos da vida". São só os convencidos da vida. Porque falharam nos seus sonhos, querem que tenhamos vergonha, por eles.
Guilherme Silva disse que o PS transformou o Parlamento no Big Brother. No confessionário terá sido mais claro: “é que nem pensem que vão expulsar o Cruz Silva da casa”.
Os Estados Unidos avisaram que não permitirão golpes anti-democráticos na Bolívia. Os tanques já estão nos bairros pobres de La Paz trazendo a boa nova. Os danos colaterais já se fizeram sentir com mais de 30 mortos. É o preço a pagar por mais um importante combate pela democracia.
O enigma está finalmente desfeito. Qual Portugal de antanho, qual isolacionismo mental do interior. O colectivo auto-intitulado «mães de Bragança» é, na verdade, uma sofisticada equipa de marketing que se entregou à tarefa de revelar Trás-os-montes como um dos mais interessantes destinos turísticos à escala mundial, como o revelou o último número da Time que pinta Bragança como uma florescente metrópole do deboche. Conscientes das dificuldades em impôr o azeite de Vila Flôr e a alheira de Mirandela como cartazes turísticos, estas verdadeiras «Mães da invenção» fizeram constar que a terra era um fartar vilanagem de orgias fazendo acorrer à região todos os maridos com vontade de serem roubados que, como se sabe, são em número não negligenciável. Ao que consta a capacidade hoteleira de Bragança, mas também de Vila Real e Chaves está já esgotada. Caros amigos, o exemplo vem do interior: «Think global, act local». A retoma começou, pelo menos para lá do Pocinho.
Um artigo típico de um colunista português de meia idade e do meio da tabela [Mário Pinto, "Entre o ridículo e o trágico", no Público de ontem]. Mário Pinto acordou com desejos de partir a loiça; o título é a condizer. Começa com uma citação de Uma Campanha Alegre, de Eça de Queirós, com mais de 1000 caracteres. Os 4000 caracteres seguintes são dedicados a ideias murchas em escrita titubeante. E termina com um sobressalto cívico contra a irresponsabilidade dos estudantes anti-propinas.
Mas é a citação de Eça que o trai, denotando a incapacidade cognitiva de partir a loiça com frases suas e ideias suas. É, de facto, extraordinário como há mais de cem anos o arrojo de Eça de Queirós tem servido para mascarar a falta de arrojo de sucessivas gerações políticas.
Eu sou professor do ensino superior, estou em vias de ir para o desemprego e sou contra as propinas. Depois de seis anos em que fui docente só tenho uma certeza sobre o ensino superior: nunca esteve tão mal - para os alunos, porque a qualidade deixou de ser um requisito, e para os professores, porque a precariedade aumentou exponencialmente.
Actualmente o ensino superior presta um péssimo serviço público. Durante este período as propinas não contribuíram em nada para a melhoria do ensino e, muito menos, para o reforço da acção social escolar.
As propinas serviram essencialmente para duas coisas: 1) desresponsabilizar o Estado da gestão dos recursos humanos e materiais; 2) suportar as despesas correntes e de funcionamento das instituições.
Esperar que as propinas resolvam os diversos problemas do ensino superior, representa uma ilusão cuja finalidade é a manutenção do que está mal. E ainda por cima pede-se às famílias um esforço redobrado para pagar um péssimo serviço.
[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
Cheguei lá porque andava à procura de informação, na internet, sobre uma história de banda desenhada que me persegue desde os doze anos de idade. O meu pai era leitor/coleccionador da mítica Revista do Tintin. Lê-la na altura era um exercício de curioso masoquismo, com as histórias a serem publicadas a um ritmo de duas pranchas por semana - era o folhetim aplicado a uma outra forma de expressão. A revista começou a ter problemas financeiros e quando chegou ao 14.º ano de publicação, fechou. Para mim fechou de repente. Tão de repente, que as histórias que publicava ficaram... inacabadas. Se já resolvi o meu problema com aquelas mais mainstream (Astérix, Ric Hochet, etc.), uma permanece ainda por concluir. Ao fim de quase vinte anos, ainda não sei como acaba A Sombra do Corvo, de Didir Comès.
Ontem, em casa dos meus pais, enquanto folheava as revistas do Tintin do meu pai, já encadernadas, fui de novo assaltado pela angústia. Pelo Google, cheguei a um site que enche as medidas de qualquer bêdêófilo fanático: a Bedeteca francesa!
Não conta o fim, mas pelo menos mata a saudade ao mesmo tempo que recupera um sem número de referências a autores, séries ou heróis.
[Nuno Camarinhas, dos Amigos do Barnabé]
Schwarzenegger diz que gosta mais do Adam Smith do que do Keynes. Olha Arnold, é verdade que o Adam Smith tinha aquela peruca:

Mas a vida sexual do Keynes era mais variada. Lê aqui...
Pergunta o Luciano, pergunta o Pacheco [os amigos primeiro, repararam?]: poderá a esquerda garantir que nunca num governo seu haverá uma cunha que seja? Resposta: evidentemente que não. Contentes?
Mas a verdadeira questão não é essa. É que com a trivialização com que a direita tratou o caso Martins da Cunha / Pedro Lynce (Nuno Morais Sarmento: eu também já atirei papéis para o chão...) o que se pode tranquilamente garantir é que é só uma questão de tempo até à próxima cunha neste governo.
A maioria continua a perguntar-se "mas qual foi o problema?" É como a piada brasileira do paraguaio que vendia material de contrabando: "Aqui no hay garantías! La garantía soy yo!"
Tem razão a Laranja Amarga. O título do Público de ontem não deveria ter sido "Grande Lisboa é a Região Ibérica Mais Rica em Poder de Compra [subtítulo: dados da União Europeia referentes ao ano 2000]" mas simplesmente "Grande Lisboa era a Região Ibérica Mais Rica em Poder de Compra". Assim fica uma cena à Luís Delgado: vem aí a retoma!
Pessoal: vem aí a retoma! é já para o século passado!
Sou tão previsível. Sim, sou um professor universitário mal pago. Sim, tenho um carro velho com uma porta amolgada. E, sim, quando guio ouço a Radar! E canto e danço sózinho no carro. Obrigado [97.8 em Lisboa].
Estou a ver o “Prós e Contras” sobre as propinas. No palco, professores e políticos. Na plateia os principais protagonistas: os estudantes que as pagam. Assim é que bonito, cada um no seu lugar. Reitor que é reitor, professor que é professor, não se mistura, nem debate com a escumalha. Pacheco Pereira e a geração dos “vencidos da vida” (lá irei num outro post) hão de ter gostado.
Ana Gomes não pára. Quanto mais se enterra mais grita. Chiu! Ao Paulo Pedroso já chega o João Guerra, o Rui Teixeira e o Souto Moura. Importa-se de se calar.
Segundo a Procuradoria-Geral da República as acusações do “Le Point” em relação a dois ministros que seriam pedófilos são demasiado vagas e sem localização temporal. Ou seja, têm tudo para constar no processo.
Escreve Pedro Lomba: «Ouvi as promessas de desobediência civil daquele líder associativo de Lisboa ou Coimbra, não sei bem. Ouvi os comentários de Pacheco Pereira, com os quais concordo. Mas vou mais longe. Espero que as autoridades não se distraiam. Aquele senhor tem de ser detido para averiguações.» É demais. Até eu, que quase nunca concordo com Pacheco Pereira, acho que ele é livre de dizer o que entende. Detido? Para averiguações? Não achas um exagero?
Caros Daniel e Rui: esta é uma discussão em que eu não me devia ter metido. Estou há vários anos fora de Portugal e sem acompanhar o que se passa na política de educação aí. Não tenho, por isso, uma posição muito elaborada sobre as propinas. Isto requer, além de tempo para leituras, uma certa informação sobre custos do ensino e gestão universitária que manifestamente não tenho. Mas, que querem?, gosto de aparecer. Achei a argumentação do Miguel Vale de Almeida (MVA) convincente e por isso me colei a ela. Erro: agora, sem ser o autor dos argumentos, tenho de me defender numa discussão que lhe pedi emprestada. Felizmente, o próprio MVA, tendo ou não lido o Barnabé, veio em meu auxílio. Ele argumenta bem melhor do que eu posso fazer, em defesa de uma posição que é dele e que eu fiz minha. Portanto vão lá ler (e juro que não há aqui, nem um pingo de falsa modéstia nem uma vontade de fugir a uma discussão que fui eu que lancei aqui).
Apesar de tudo, alguns esclarecimentos, a bem da discussão. 1) Rui: o MVA nunca disse que defendia que as propinas pagassem as despesas básicas do funcionamento das universidades, incluindo os salários dos professores. A posição dele é bastante moderada: sendo contra esta política de propinas, também acha pobres os argumentos em defesa da total ausência de propinas na universidade. 2) Esta posição, que faço minha, não precisa de sofrer uma espécie de chantagem intelectual que consiste, Daniel, em argumentar com o contexto político actual para abdicar de ter uma posição própria e intelectualmente independente. Mesmo que no actual contexto seja irrealista uma qualquer política de financiamento que reúna o melhor dos mundos possíveis (acesso gratuito e subsídio das despesas de educação a quem precisa e propinas pagas só pelos ricos, tudo isto com o necessário maior investimento do Estado no ensino superior), uma pessoa vai defendendo as posições a que chega pela sua cabeça no terreno do debate. 3) Nada disto pode ser confundido com apoiar a política de propinas que tem sido desenvolvida. Num Encontro de Dirigentes Associativos há 10 anos atrás eu e o Rui dissemos, com mais razão do que então sabíamos, que, num país teso como o nosso, as propinas iam servir a desresponsabilização financeira do Estado. Deste ponto de vista acho que estamos todos do mesmo lado
Mas agora devolvo eu o espectro do irrealismo: quando o Estado desinveste e pede aos estudantes que paguem ainda mais a pesada factura da educação, a luta anti-propinas ou se torna um bocado mais ousada e sai das armadilhas em que se deixou encurralar (meninos mal educados das elites que querem manter privilégios quando isto está mau para todos) ou nunca sairá da posição defensiva em que tem estado desde que nasceu. Ou seja: as propinas (e os emolumentos e outras propinas de contrabando) continuarão a aumentar, com mais ou menos bastonada. Passar à ofensiva seria, no meu entender, dizer que se estaria disposto a discutir propinas mediante certas condições contratualizadas e sem o tabú da gratuitidade do ensino por trás. Lindas palavras, dirão vocês, iguais àquelas com que nos acenavam na época áurea do Cavaco. Com o resultado que se vê. Talvez tenham razão. Mas não me parece mais irrealista do que defender que a única alternativa às propinas é o ensino universitário gratuito para todos com reforço significativo da percentagem do PIB na educação. Como diz o MVA, a certa altura a ideia do ensino gratuito transforma-se em crença ou em dogma, impedindo-nos de pensar para além dela. E, para além dela, está que a argumentação em favor da gratuitidade da Universidade pode servir o seu elitismo. Porque neste momento a situação é a seguinte: em certos países onde as propinas, sem serem gratuitas, são mais moderadas do que em Portugal e amparadas por uma política de bolsas, elas não perturbam a democraticidade do ensino universitário; ninguém deixa de entrar por causa delas; em Portugal, as propinas vão aumentando para todos, não servem a expansão do ensino superior, e acentuam o elitismo do sistema, colocando se calhar realmente gente de fora. A situação actual, com os privados a viverem do numerus clausus e a encherem-se com as propinas de quem menos dinheiro tem, é injustíssima. Não são os estudantes os responsáveis por ela. Mas têm (temos) a obrigação de não ter uma posição exclusivamente voltada para quem está na universidade pública neste momento
Pronto, é o que consigo dizer por agora. Para acabar: não mudei de opinião do dia para a noite ou porque me tornei professor; voltei, uns anos depois, a pensar sobre isto numa altura em que o assunto está de novo na baila aí, por más razões e más leis, e verifico que a minha posição se alterou; e não acho que haja incongruência entre ter recebido bolsas para mestrado e doutoramento e ser eventualmente a favor de uma forma de propinas na universidade. Paguei propinas de mestrado (estas caras e portuguesas) e doutoramento (estas baratas, mas em França, lá está). Sou a favor de bolsas para as universidades, públicas e privadas. Escandaloso é o contraste entre o montante das bolsas que eu recebi e o que recebem os estudantes mais desfavorecidos na universidade. O Estado (a Europa, na verdade) alimentou-me a mim e eu agradeço-lhe muito. Mas acharia justo que repartisse mais o bolo, tirando-me uma parte do que comi, porque de facto acho que tenho ganho algum capital cultural com isto tudo. Falo de barriga cheia, mas já dizia isto à mesa.
Vale a pena viver 34 anos para poder ver o Luciano Amaral a elogiar Schwarzenegger. Que os filmes são bons, que a mulher dele é inteligente. Vá lá, Luciano, dá-nos uma trégua. Assim tornas-te demasiado apetecível (hmmmm, ui, ui).
Às vezes os adultos querem que os jovens gostem deles. Dizem “bué” e “curtir” e “fixe”. É constrangedor. Às vezes as elites querem falar para o povo. Imitam o Jorge Coelho. É grotesco. Às vezes os pedagogos querem ficar próximos dos estudantes. Fazem um novo programa para a língua portuguesa. É deprimente.
Mais um texto para ler com tempo. É de Manuel Monereo, dirigente da Esquerda Unida espanhola, sobre o pós-11 de Setembro. Saiu no número 1 da revista Manifesto e é uma tradução inédita em suporte digital. Leiam. Vale a pena.
Estado de excepção
e poder constituinte em escala mundial
Manuel Monereo*
Levamos tempo, talvez excessivo, procurando definir acontecimentos excepcionais, ou pelo menos relevantes desde o ponto de vista histórico. E contudo, nem sempre estamos em condições de compreender a orientação e o sentido global dos mesmos.
Depois do 11 de Setembro, certamente, as coisas mudaram: pode dizer-se que, sob muitos aspectos, estratégias prévias se condensaram e se aceleraram os ritmos da sua execução. No momento em que se vinha teorizando a irrelevância do Estado-nação, o patriotismo norte-americano renasce com força inusitada; quando se sugeria que a globalização obrigaria à constituição de um governo mundial, surge o imperialismo norte-americano violando o direito internacional e impondo a política do facto consumado; quando se falava no retorno da política, o que emerge é a sua pior face, a política como opção político-militar.
O 11 de Setembro e a resposta norte-americana, com aliados cada vez mais subordinados, dão-nos dados precisos da fase histórica em que vivemos, esclarece a natureza da globalização e situa-nos ante disjuntivas civilizacionais de largo espectro.
O regresso da política como “campo de forças”
Trata-se do retorno da política em sentido forte, como relação de forças, ou melhor, de um "campo de forças" que complexamente articulam os poderes políticos, económicos e sociais que estruturam a economia-mundo. Em sentido mais preciso, a estratégia que se estava desenhando, ainda antes do 11 de Setembro, pela administração Bush, é "hobbesiana" ou, melhor, "smittiana". Faz 80 anos que o velho reaccionário alemão, Carl Smitt, definiu o soberano como "aquele que decide sobre o Estado de excepção" . Há que reconhecer que a administração norte-americana decide acelerar e reorientar uma estratégia geopolítica ante um acontecimento que afecta essencialmente a sua segurança.
Pode dizer-se, com verdade, que os acontecimentos das Torres Gémeas e o ataque ao Pentágono foram actos terroristas, mas a administração norte-americana não os considera como tal - para ela trata-se de um acto de guerra - e não pode pensar hoje de outro modo. O decisivo do 11 de Setembro, excepcional desde o ponto de vista histórico, é a vulnerabilidade económica e político-militar de uns Estados Unidos que consideravam o seu território um espaço inexpugnável e seguro.
Trata-se de um fenómeno previsto, entre outros, por Immanuel Wallerstein, e que é consistente com a proliferação de armamento militar (convencional ou não) impeditiva da existência de zonas de invulnerabilidade e que obriga um novo conceito de segurança global. Nas suas próprias palavras: “Sem dúvida, os países fortes são mais fortes que os débeis, mas os débeis e os intermédios são suficientemente fortes para provocar danos reais aos fortes” .
Os EUA não aceitam, não podem aceitar, esta vulnerabilidade ainda que dificilmente lhe possam escapar. É o que poderíamos chamar “o desafio de Bin Laden”, que amanhã pode ser de uns ou de outros e que nos diz que enquanto existirem povos sob dominação e insegurança permanente, os "de cima", os poderosos, se condenam a sentir, de diversas formas, a ausência de segurança.
Por outro lado, o "estado de excepção" implica também um poder não regulado, não submetido ao Direito e que é ele mesmo criador, ou pode sê-lo, de novas relações jurídicas. Nos debates sobre a legitimação legal da resposta militar norte-americana, o que mais sobressai não é tanto que os EUA tenham violado uma vez mais a letra e o espírito da Carta das Nações Unidas - isso nada tem de excepcional; o singular é que, podendo obter uma fácil legitimação no Conselho de Segurança, tenha optado abertamente pelo que opacamente se designa "tentação unilateral", ou seja, por dirigir os processos políticos e militares sem se submeter a acordos ou dependências face a aliados pouco fiáveis.
Definir o soberano é, obviamente, uma operação político-cultural através da qual os EUA definem o "hostil", o inimigo público, o “outro”, o estranho. Em consequência, o terrorista, o autêntico inimigo, é aquele e só aquele que a administração Bush decide e coactivamente obriga a decidir: comigo ou contra mim. Soberano significa, também, capacidade para decidir o processo constituinte de uma nova ordem mundial que garanta as condições de hegemonia norte-americana, quando as tendências para a desordem e a crise são agudas.
A globalização como transição sistémica
O 11 de Setembro também fez luz sobre esse fenómeno tão confuso a que vimos chamando globalização. O nome da “coisa” já não tem arranjo, embora oculte mais do que aclara. Porque ideologicamente marcado ilude a sua essência, ou seja, constitui um obstáculo formidável para definir conceptualmente um conjunto de factos sociais, económicos e culturais de grandes dimensões. Contudo, os debates e as discussões permitiram situar esta globalização em relação a anteriores globalizações do capitalismo, caracterizar os seus distintos tipos e intensidades, a sua aritmética portanto, assim como as transformações ocorridas no Estado nação e no sistema internacional.
Pode dizer-se que a globalização é, em si mesma, poliédrica, contraditória e - o que é fundamental - algo não acabado e sob muitos aspectos reversível. Por outras palavras, nem é uma invenção da burguesia, como há quem sustente, nem uma nova fase do capitalismo, mas uma transição sistémica com toda a conflitualidade que uma nova etapa destas dimensões implica e com a dificuldade adicional de a pensarmos com conceitos em muitos sentidos ambíguos e incapazes de definir os factos com precisão, analisar tendências e formular hipóteses .
Existe uma tendência para olhar principalmente os aspectos económicos dos processos de globalização, esquecendo que estes não são um desenvolvimento natural das forças produtivas do capitalismo, mas um projecto político, ideologicamente fundamentado, onde o poder de Estado, dos Estados, foi determinante, mesmo que apenas para diminuir a sua própria independência e autonomia. Não ter em conta a matriz imperialista que o projecto globalitário trazia implícito, confundiu tudo, simplesmente porque mediu a todos por igual e não se tiveram em conta as diferentes mudanças produzidas no centro, nas periferias e nas semiperiferias do sistema mundial.
O 11 de Setembro situa a política, o poder, no centro desta transição, entendida como um campo de forças onde se está redefinindo o poder mundial entre Estados, classes, raças e grupos sociais e ante o qual se estão organizando conflitualmente as forças hegemónicas e contra-hegemónicas.
O problema central continua a residir nos diversos níveis que interagem nesta transição e, especificamente, na crise não resolvida do que se chamou ordem bipolar. Do ponto de vista estratégico e geopolítico, o vazio de poder deixado pelo antigo "campo socialista" está por preencher propiciando a luta pela ocupação de espaços e a redefinição de equilíbrios. É sobre este aspecto central que tem vindo a intervir a nova Administração norte-americana.
A nova administração
Uma das características tradicionais mais salientes da esquerda europeia é a sua incapacidade para conhecer os processos políticos reais que tenham os Estados Unidos como referente e actor principal. A homogeneidade existente, sobretudo em política internacional, na classe política norte-americana leva-nos a esquecer que, com alguma frequência, se produzem disparidades de critérios e de opções, que influem poderosamente nas políticas que os Estados Unidos realizam no planeta.
O desprezo com que as elites políticas internas e externas acolheram o “inculto” Bush, as suas frequentes gaffes e, em geral, o desconhecimento das suas propostas, deixaram a esquerda, uma vez mais, sem uma percepção clara das continuidades e descontinuidades entre a Administração Clinton e a nova Administração, subestimando, diria que de forma suicida, o real significado do novo governo. E todavia ele já se tinha aclarado, sobretudo com a reorganização do Partido Republicano e com a nova definição estratégica do complexo político, científico, económico e militar norte-americano. Alguma luz sobre as novidades que a Administração Bush trazia, deviam ter sido analisadas à luz do que se poderia chamar "golpe de Estado eleitoral", que converteu Bush em presidente mediante um conjunto de fraudes, manobras judiciais e apoios familiares. Estas operações evidenciaram não apenas uma evidente falta de legitimação democrática, mas também o muito que a direita norte-americana jogava nestas eleições.
A primeira questão que se deve ter em conta é que a crítica da directa norte-americana à era Clinton incidia sobre a sua debilidade e dependência excessiva de aliados demasiado crescidos. Para Bush, a Administração Clinton não aproveitou a vantagem disponível para consolidar o domínio norte-americano, intervindo de modo impreciso e inseguro em vários dossiers delicados e carecendo de uma política real de defesa dos “autênticos interesses norte-americanos”.
Em segundo lugar, havia que redefinir a hegemonia norte-americana: aceitava-se a existência de um bloco capitalista dominante – trilateral –, mas devia ficar clara a hegemonia norte-americana e a subordinação dos aliados às opções estratégicas dos Estados Unidos, impedindo quaisquer tentativas de redefinição do poder no interior do referido bloco.
Em terceiro lugar, e por causa do que já se disse, a nova Administração chega ao poder com uma vontade constituinte. A teia político-jurídica construída nos últimos 30 anos de guerra-fria, com aparente predomínio do que se poderia chamar o sistema das Nações Unidas, tinha que ser reavaliada. Desde o primeiro momento, a Administração Bush deixou as coisas claras: ruptura unilateral do Tratado ABM anti-mísseis; reconhecimento de que Estados Unidos estavam violando os acordos sobre armas biológicas; recusa explícita de um Tribunal Penal Internacional (esse sim, compatível com o tribunal ad hoc que está julgando Milosevic); refutação dos tímidos acordos sobre meio ambiente assinados em Kioto. E tudo isto realizado em contexto de rearmamento generalizado, colocação em marcha de novas formas de guerra e remilitarização das relações internacionais.
Nada disto – e mais se poderia acrescentar – era desconhecido antes dos acontecimentos de 11 de Setembro. Bastava ler a imprensa norte-americana e os intelectuais orgânicos do sistema, como Huntington e Brzezinski, ou os redactores do IV Informe de Santa Fé, para se saber quais eram as opções político-militares e geoestratégicas realmente sustentadas pelas forças do complexo económico e político-militar hoje dominantes nos Estados Unidos.
Entre os conflitos assimétricos e a doutrina Powell.
Especialistas de diferentes perspectivas consideram que nos EUA se disputam duas estratégias na hora de definir o tipo de guerra dominante para o século XXI. Num caso estão as guerras “assimétricas”; no outro, as que poderíamos denominar de “desiguais”, um conceito ligado ao nome do actual secretário de Estado norte-americano Collin Powell (doutrina Powell).
O termo “guerra assimétrica” é confuso e convém explicá-lo bem desde o princípio. Assimetria não significa desigualdade em matéria de força político-militar, mas uso de meios diferentes. Um conflito assimétrico é aquele em que uma das partes não joga no mesmo tabuleiro nem com as mesmas regras do seu adversário. Por exemplo, a guerra do Iraque foi claramente uma “guerra desigual” e, de facto, foi aí que se forjou a doutrina Powell. O elemento assimétrico desse conflito foi a tentativa de Saddam Hussein bombardear Israel. Por outras palavras, os chamados conflitos assimétricos implicam, da parte dos que o usam, a convicção de que a superioridade do adversário é tão descomunal que a única defesa possível é usar outras regras de jogo. Não será casual que tenham sido dois militares chineses, Qiao Liang e Wang Xianghui, quem reflectiu sobre este tipo de guerras num livro que diz muito de si no seu próprio título: a guerra para lá das regras. Avaliação da guerra e dos métodos de guerra na época da globalização . A tese central é muito simples: sendo a superioridade militar norte-americana tão gritante, em caso de conflito a vitória dos EUA está antecipadamente garantida. O único modo de fazer frente a um exército assim é impor outras normas que obriguem o adversário a mudar de estratégia.
Os militares chineses partem de uma ideia-força fundamental: as guerras “desiguais” implicam que para os Estados Unidos, a guerra será, nesta fase, um instrumento normal de resolução de certos conflitos à escala mundial. Ou seja, rompe-se com uma tradição e uma norma fundadora do Direito Internacional e entra-se numa dinâmica nova que altera conceitos e situa o problema da paz e da guerra no centro da agenda política internacional. E, junto com esta, regressa o debate sobre as guerras “justas” e “injustas” .
Os meios não simétricos têm a ver com a concepção de uma guerra que esteja para lá das fronteiras e dos limites geográficos impostos pelo inimigo. Concretamente, o que se está a dizer é que enquanto os EUA estão interessados em manter determinados lugares de conflito, os seus antagonistas deveriam pensar e actuar para lá desses lugares, intervindo em toda uma ampla “retaguarda”, que poderia envolver, nesse caso, os próprios Estados Unidos, com objectivos económicos, tecnológicos e mediáticos.
Outro aspecto tem a ver com a chamada “acção militar não bélica”. Trata-se de uma táctica militar através da qual os EUA empregam um conjunto vastíssimo de meios que vão da vigilância global dos possíveis inimigos, ao controlo da informação significativa, aos assassinatos selectivos, etc., e que se converteram em instrumentos privilegiados das novas formas do conflito bélico. Os militares chineses – aqui se vê muito bem em que consiste a assimetria – falam, pelo contrário, de “acções bélicas não militares”, como formas de guerra não convencionais que vão das guerras informáticas ao emprego de combatentes civis ou certas armas de origem biológica ou química.
Mas o fundamental da “revolução militar dos Estados Unidos”, para objectivos políticos extremamente precisos, é a imposição de um tipo de acção político-militar que A. Maira definiu como “guerra instrumental, sem risco, fácil, sem custos humanos, com êxito assegurado e uma fácil relação com a opinião pública”. Empregar a expressão “guerra desigual” tem a ver com o implícito deste tipo de conflitos bélicos: a enorme desigualdade de meios. Como se observou na Guerra do Golfo ou mais recentemente no Afeganistão, o Pentágono desenha um inimigo – neste último caso, o mais pobre país do mundo – e desde uma enorme superioridade tecnológica e militar impõe um tipo de guerra que não é possível ganhar de nenhum modo: superioridade aérea total, uso de sofisticados meios tecnológicos de observação e controlo, emprego de um arsenal complexo de armamento e uso sistemático dos poderosíssimos meios de comunicação imperiais para organizar uma selectiva e potente máquina de desinformação que combina uma suposta visibilidade do conflito com a ocultação sistemática dos aspectos que a condução político-militar da guerra considere negativos ou prejudiciais. As vítimas desaparecem e o inimigo é silenciado em sentido absoluto.
Este tipo de guerra garante, por um lado, que as vítimas dos possíveis conflitos o sejam do outro lado; assegura que as baixas militares dos EUA sejam mínimas e assim alcança o apoio imprescindível da sua opinião pública. O que sobra são “danos colaterais”. Por outro lado, este tipo de guerra induz um apoio fundamental ao desenvolvimento das novas tecnologias e do novo instrumental bélico, ligando mais estreitamente a indústria militar ao aparelho económico norte-americano, o que possibilita uma planificação a longo prazo, fundamental para rentabilizar os poderosos investimentos que este tipo de conflito requer.
Resumindo, tem razão Michael T. Klare quando assinalava, antes de 11 de Setembro, que a política exterior de Bush tinha três pilares fundamentais: primeiro, o que ele classifica como “norteamericano-centrismo”, ou seja, a colocação dos interesses dos EUA no centro das opções estratégicas e também nas relações com os seus possíveis aliados; segundo, uma “supremacia perpétua”, que visa inviabilizar a emergência de qualquer outra potência que possa a curto ou médio prazo igualar os EUA, o que implica garantir uma superioridade político-militar permanente; e terceiro, consequência dos pilares anteriores, uma concepção geopolítica que engloba o conjunto do planeta e uma estratégia militar capaz de intervir directa e imediatamente em qualquer parte do mundo.
Economia-mundo, regionalização e Estado nação
Nos últimos anos alguns, entre os quais eu, têm defendido a necessidade de uma nova estratégia para a esquerda. O período de transição sistémica que estamos vivendo há já bastantes anos, obriga a definir sobre novas bases a estratégia das forças que se opõem ao neo-liberalismo e que mantêm uma perspectiva anti-capitalista. Para dizê-lo de um modo preciso e claro: se o poder no sistema-mundo, simultaneamente, se concentrou e fragmentou provocando a erosão, e portanto a limitação, da autonomia dos Estados-nação, então, ainda que necessária, a conquista do poder político estatal não é suficiente para garantir as possibilidades de uma alternativa às políticas dominantes. Ou seja, a velha perspectiva internacionalista é hoje, não uma simples opção, mas algo obrigatório se quisermos romper com a lógica do capitalismo; diria mais, se queremos romper com as políticas neo-liberais e com os mecanismos sociais e culturais do que se convencionou chamar “pensamento único”.
Na economia-mundo é possível individualizar, a partir das tendências actuais, três planos possíveis de articulação e organização dos poderes. Em primeiro lugar o Estado nação. Aquí não há por onde enganar: a soberania política sempre foi relativa e marcada pela situação de cada país na estrutura hierárquica do sistema. A soberania nunca foi igual para todos – outra coisa é a aspiração a que a soberania popular fosse capaz de garantir a efectiva autodeterminação política das populações. A novidade, no quadro da redefinição do poder que se processa em escala internacional, é que determinados Estados-nação tenham perdido “poder” e necessitem de o redimensionar a níveis mais elevados.
Em segundo lugar, a regionalização da economia-mundo. Uma das características mais salientes da globalização actual é o seu carácter triádico: a sua articulação em redor dos EUA, Europa e Japão, formando um bloco dominante em escala mundial sob hegemonia norte-americana. A novidade dos últimos trinta anos é que os EUA recompuseram o seu poder no interior do bloco dominante, concentrando os cinco grandes monopólios que Samir Amín considera determinantes nesta fase da economia-mundo: o poder militar, o controlo sobre o sistema financeiro internacional, as matérias-primas fundamentais e as novas tecnologias e, finalmente, um domínio abrasador sobre o poder mediático internacional.
Não sei se este domínio norte-americano será conjuntural, como sustentam diversos autores. Real é que existe e que, apesar das contradições com os aliados, os seus interesses nos momentos decisivos têm acabado por se impor, precisamente porque continuam a representar os interesses gerais do sistema. Neste quadro é evidente que os países do Sul do mundo precisam de redimensionar o seu poder político, organizando formas de integração regional que lhes permitam a defesa dos seus interesses, negociar em melhores condições com a tríade e as transnacionais, procurando assegurar mudanças substanciais na correlação de forças em escala internacional.
Em terceiro lugar, o sistema internacional. Não creio exagerado afirmar, para lá das disputas existentes, que os velhos e novos problemas que atravessam o conjunto da Humanidade requerem marcos de actuação e intervenção também globais. Certo, a ideia de um “governo mundial” em redor das Nações Unidas” é bem intencionada, mas irrealista. Pior, hoje encontramo-nos ante uma verdadeira crise do direito internacional e perante um processo constituinte posto em marcha pelos Estados Unidos. Isto não significa que, de uma perspectiva que poderíamos classificar de “cosmopolitismo realista e de esquerdas”, as forças anti-globalização, os sindicatos e as forças políticas democráticas, não reivindiquem e lutem por formas de controlo e intervenção a nível mundial, sabendo que para mudar as coisas falta sobretudo uma mudança real na correlação de forças e uma política jurídica que garanta e promova essas mudanças.
Estes três níveis de organização e distribuição do poder não são equiparáveis entre si, além de lhes ser inerente um desenvolvimento “desigual e combinado”. A esquerda de vocação socialista deve continuar a implicar-se no Estado-nação, tendo consciência dos seus limites e defendendo, em cada medida e cada conjuntura, os interesses das populações. E dizendo também – paradoxo da realidade – que a defesa da autonomia das políticas públicas exige esforços sérios para uma “regionalização democrática” e mudanças reais na ordem internacional.
A crise ecológico-social do planeta; a luta pela anulação da dívida do Terceiro Mundo; a defesa de novas regras no comércio internacional; a regulação da livre circulação de capitais e a reforma do actual sistema financeiro internacional; a erradicação da pobreza e a generalização dos direitos sociais, assim como a conquista de uma sociedade de pleno emprego, exigem da esquerda intervenção nos três níveis enunciados e a organização de um espaço capaz de unificar um conjunto de forças político-sociais e culturais tendentes à construção de um sujeito político contra-hegemónico com vontade explícita de disputar espaços de poder e com vocação de bloco social e político alternativo às forças que hoje hegemonizam a globalização capitalista.
Uma força política assim configurada requer dos seus diferentes componentes muita capacidade de síntese, respeito pelas diferenças e esforço permanente por uma unidade de valores, de práticas políticas e de programas alternativos ao existente. Tratar-se-ia de uma organização capaz de combinar a pluralidade de formas de organização com mecanismos de coordenação e acção comum a partir de uma perspectiva cultural densa, com radicalismo crítico em face da realidade e um fundamento socialista explícito. Por sua vez, partindo da sua própria independência e de uma prática social crítica, deveria intervir na política concreta, realizando as alianças necessárias, melhorando as condições de vida e trabalho das populações e incrementando o seu nível de organização e intervenção políticas a partir da defesa de uma cultura emancipatória.
O movimento no global depois do 11 de Setembro
A transcendente importância que tem tido – e tem – o movimento anti-globalização reside fundamentalmente na sua constituição em movimento social e na sua vocação de sujeito político explicitamente actuante na confrontação entre as forças globalitárias e as que lutam por um novo mundo democrático e igualitário, ecologicamente sustentável. O decisivo, que lhe dá especificidade, é que intervém nesta contradição decisiva com uma dimensão política e cultural, até hoje um terreno exclusivo das forças hegemónicas e seus aliados subalternos. Era e é um espaço onde a esquerda tradicional não tinha mecanismos de intervenção e, há que dizê-lo, não era capaz de os criar por muitos esforços que fizesse a partir das distintas instâncias e referentes políticos que se puderam materializar nestes últimos anos.
Que um grupo de homens e mulheres, com presença relevante das novas gerações, encontre a sua identidade e assuma o combate por um conjunto de reivindicações que dão centralidade ao problema da exclusão económica, da desigualdade social e da marginalização cultural de três quartas partes da Humanidade; e que tenha sido capaz de criar em muito poucos anos um emergente espaço público cosmopolita que deslegitimou muitas das políticas globalitárias e obrigou a redefinir a agenda política mundial, não é pouco. Hoje por hoje, o movimento anti-globalização é a forma de expressão e organização que melhor expressa a consciência crítica da nossa época.
As forças hegemónicas perceberam, desde o primeiro momento, desde Seattle, a importância do movimento e aplicaram-lhe diferentes modalidades de “pau e cenoura”, as quais, desde Génova, deslizam claramente em direcção à repressão. Depois do 11 de Setembro parece evidente que se procura a criminalização do movimento e a intenção de o submeter a uma chantagem que o obrigue a movimentar-se no campo previamente marcado pela aceitação do que existe e o abismo do terrorismo. Quando o ministro do interior italiano afirma que a mobilização de Génova foi o antecedente da destruição das torres gémeas está traçando uma linha que, mais coisa menos coisa, situa de um lado a sua ordem, a sua democracia, economia e exército e do outro lado tudo o resto, o que seria sobredeterminado pelo terrorismo e pelo medo.
Esta política, que se define desde os poderes dominantes, é o grande desafio do movimento. Desgraçadamente, nem sempre se pode escolher o terreno do combate. Um movimento de juventude, ainda de escassa implantação, como é o da anti-globalização, ante um desafio tão descomunal como este, pode ser varrido do mapa, ao menos conjunturalmente.
O “que fazer” nesta fase deveria ser elemento de reflexão crítica e autocrítica. A capacidade de unir realismo na hora de valorizar a correlação de forças existente, com vontade emancipatória, talento unitário e coragem e dignidade moral, é o autêntico repto do momento.
Em primeiro lugar a luta pela paz. A experiência do velho movimento operário de tradição socialista (incluindo a corrente anarquista nesta definição) ensina-nos a importância da convergência entre luta social, combate pela paz e crítica do militarismo, como elementos aglutinantes do movimento. Quando se volta a legitimar a guerra como instrumento para solucionar os conflitos internacionais, a crítica dos projectos imperialistas, a denuncia sistemática da exploração económica e das conexões existentes entre o capitalismo e o complexo militar quando, por todo o lado, diminuem os gastos sociais e se impõe uma fiscalidade regressiva, devem proporcionar meios para a crítica, para a mobilização social.
Em segundo lugar, ampliar as alianças sociais, políticas e culturais. O sectarismo, ainda que se fundamentado em razões, acaba por isolar o movimento e dividi-lo no futuro. Contudo, não se trata de regressar aos velhos prontuários das políticas de alianças nem a velhos debates sobre o papel das nações e dos povos oprimidos e o papel da classe operária no centro e na periferia, incluídas as suas próprias instituições (partidos e sindicatos). O assunto é mais sensível e preciso: encontrar as vias e os procedimentos para convergir com a chamada “esquerda tradicional”, social e política. A memória dos agravos e as atitudes conservadoras de sindicatos e partidos da esquerda não podem nem devem impedir que se procurem ganhar para o movimento sectores populares significativos e, em qualquer caso, somar para acções concretas parte representativa do que é hoje a realidade do movimento operário. Tudo isto se deve e pode fazer preservando autonomia, não hipotecando programa e, sobretudo, impulsionando a acção social.
Em terceiro lugar, há que centrar bem a agenda e os debates políticos no movimento. A defesa de posições próprias, num movimento tão plural como este, deve combinar-se com a busca permanente de unidade e síntese política. Ganhar batalhas internas à custa de romper o movimento ou paralisá-lo, deve ser seriamente evitado.
Um dos debates que ciclicamente emerge e que interessa a parte mais politizada do movimento (mas que para grande parte do activismo é um tema teórico ou simplesmente secundário) tem a ver com a definição do movimento. O tema pode colocar-se do seguinte modo: o movimento anti-globalização é anti-capitalista ou anti-neoliberal? Precisando, pode dizer-se que no movimento poderia existir uma ala anti-capitalista e outra anti-neoliberal. O que primeiro se deveria considerar é que aquilo a que hoje chamamos “neo-liberalismo” é o nosso capitalismo realmente existente, é o modo do capitalismo funcionar nesta fase de transição sistémica. Goste-se ou não, em certo sentido é correcto afirmar que lutar contra o neo-liberalismo é lutar contra o capitalismo de hoje. O segundo aspecto, é que o capitalismo, como quase tudo na vida, tem várias opções possíveis em momentos de crise. Empiricamente é admissível que no momento em que o capitalismo neo-liberal se encontrar com uma oposição social consistente e entre em crise orgânica, procurará fórmulas para perpetuar o seu sistema de dominação para lá das soluções neo-liberais hoje dominantes. Em terceiro, um conflito social, uma crise de hegemonia dessa magnitude colocará um desafio enorme à maturidade política, capacidade de direcção e consistência ideológica do conjunto do movimento. Especular a partir de fórmulas ideológicas fechadas, num sentido ou noutro, é ir demasiado longe, ainda que fosse magnífico para todos que esta disjuntiva se chegue a colocar: seria sinal de que a reconstrução de uma esquerda social e política solidamente implantada, com um projecto cultural alternativo e com capacidade de realizar alianças, aí estaria, digna das melhores épocas.
Em quarto lugar, é importante situar o problema do socialismo no senso comum do movimento. Pode parecer contraditório com o que atrás se sustentou, esta ideia de colocar o problema do modelo de sociedade, do projecto alternativo na cultura e na identidade do movimento. Obviamente, quando falo de socialismo refiro-me a uma ideia que seja capaz de se medir com as novas e velhas contradições de um capitalismo que se julga a si mesmo sem alternativa e, portanto, sem limites. A questão do socialismo deve relacionar-se com: a) a análise da experiência do que se chamou socialismo “realmente existente”; b) as novas contradições, nomeadamente as questões ecológico-social, de género e choque entre culturas; c) e os desafios que o capitalismo coloca na presente fase.
A necessidade de regressar ao tema do socialismo justifica-se por três razões básicas: a primeira, para argumentar validamente a possibilidade de uma sociedade alternativa ao capitalismo. Nada paralisa mais do que a suposição de que o capitalismo “realmente existente” é um horizonte insuperável; a segunda, para resistir e acumular força neste período de restauração capitalista. Creio ser muito difícil lutar e organizar a contra-ofensiva sem a convicção e a certeza político-moral de que a lógica intrínseca deste sistema de dominação é historicamente superável; e a terceira, porque existe hoje abundante literatura e uma “massa crítica” de ideias capaz de argumentar a consistência lógica, a viabilidade social e a vantagem moral e política de uma sociedade emancipada do mal social da exploração, do domínio político e das discriminações.
* Manuel Monereo é dirigente da Izquierda Unida (Espanha). O ensaio aqui publicado, de 21 de Janeiro de 2002, foi traduzido com cortes autorizados pelo autor.
Querem entalar a esquerda? Mandem-nos à cara com o relativismo cultural, a propósito da história da princesa cigana. Eu, pelo menos, sou obrigado a tratar o tema com pinças. Venham daí. Malhem em nós. Será que tenho de vos explicar tudo?
Veiga Simão disse ontem, na TSF, que as formas de contestação dos estudantes universitários não são nem legítimas, nem democráticas. O homem tem razão. Os estudantes têm de ser postos na ordem. Talvez com uns gorilas a coisa se resolva. Fecham-se as associações de estudantes e mandam-se os dirigentes para a António Maria Cardoso.
Pacheco Pereira comentou, ontem, na SIC, o caso de Pedroso e as propinas. Que os pobres não podem protestar como os estudantes. Que os poderosos não são vítimas da justiça. O discurso esquerdista/populista é conhecido. Mas JPP socorreu-se de Kafka para ilustrar esta conversa primária. Não era preciso tanto. Nós costumamos ouvir o Fórum TSF e, para tão pouco, dispensamos bibliografia.
Segundo um estudo, dez por cento dos adolescentes já experimentaram cannabis. Só? Definitivamente, os meus amigos não são representativos do todo nacional.
Já discuti com o Miguel Vale de Almeida fora daqui (sim, tenho contactos sociais fora da blogosfera) e ainda não tive oportunidade de discutir com o André. Aqui vão argumentos soltos e mal estruturados:
1 – Eu raramente adoeço e no entanto acho que quem adoece deve ter saúde gratuita. Eu não uso estradas e acho que o Estado as deve pagar. Eu optei por não terminar o Ensino Superior e acho que o Estado deve financiá-lo. Porque se é verdade que alguns beneficiam com o curso superior, eu beneficiei por entrar cinco anos entes no mercado de trabalho. Porque fiz essa opção, apesar de ter entrado no ensino público, sabendo que hoje um curso superior não corresponde a nenhum benefício financeiro.
2 – Portugal tem falta de licenciados e precisa que o Estado invista nesse bem que é colectivo.
3 – Defender o pagamento das propinas, sabendo que ele se tem traduzido num desinvestimento do Estado, é pura cegueira política. As medidas têm um contexto político. Fingir que ele não existe é ser politicamente irresponsável.
4 – Para os deslocados, já com encargos muito razoáveis, este aumento é incomportável. A solução seria o escalonamento, que esbarraria com a falsidade das declarações ficais. Qualquer escalonamento de propinas antes de uma reforma fiscal corresponderia a somar injustiça à injustiça.
5 – Quase todos os meus amigos que defendem as propinas beneficiaram de bolsas de estudo para os seus mestrados e doutoramentos. Não percebo a incongruência dos seus argumentos.
Paulo Portas quer obrigar todos os mancebos a ir ao dia da Defesa Nacional, para fazerem de figurantes no seu espectáculo. A lei surrealista que lhe dá esta possibilidade, digna de uma ditadura dos anos 30, foi aprovada pelo PS. A resposta só pode ser a da objecção de consciência.
Paulo Pedroso foi libertado e não foi preciso esperar muito. Em apenas quatro dias sucederam-se os “acontecimentos”:
1 – O Procurador-Geral tenta diminuir o alcance do Acórdão.
2 – O Ministério Público manda cá para fora um documento que sentencia que Paulo Pedroso “deverá ser condenado”. Um furo jornalístico, sem dúvida. Quem está a acusar Paulo Pedroso acha que ele é culpado. Notícia seria o contrário. Mas o que é extraordinário é o facto dos jornais fazerem disto uma bomba, sabendo-se que tal parecer é anterior ao acórdão da Relação.
3 – Os psicólogos que acompanham as crianças, numa atitude pouco ortodoxa do ponto de vista deontológico, vêm dizer que as crianças estão nervosas com a libertação de Pedroso e que o suicídio é um risco real. Mas que raio de médico conta a dez milhões de portugueses que o seu paciente se pode suicidar? Mas a teoria melhora: mesmo as crianças que nunca conheceram Pedroso ficam instáveis porque sentem que outros podem ser libertados. Que quer isto dizer? Que mesmo que não haja nenhuma razão para prender uma pessoa, essa pessoa deve ficar presa para maior estabilidade da criança? Onde acaba o superior interesse da criança e começa a chantagem?
4 – Por milagre, as televisões sabem que o Juiz Teixeira vai fazer um todo o terreno e ele lá aparece, todo bem disposto, com o seu lado “humano” e “aventureiro”, a falar sobre a vida e os seus pequenos prazeres.
5 – Mota Amaral queixa-se da excitação dos socialistas que até causou danos no mobiliário da Assembleia da República. Eu estava lá e vi: a mesa em causa foi danificada por jornalistas. Mas a imagem da irresponsabilidade e do circo fica e dá jeito ao retrato geral.
Quando o Ministério Público, o Procurador-Geral, os psicólogos e o juiz reagem com esta velocidade numa sucessão de factos que parece ser coordenada, é caso para perguntar: estará este processo condenado a ser vítima de tanta coincidência? Quando é que os jornalistas vão deixar de dar recados de um lado e do outro e vão começar a sua investigação?
Dantes tínhamos a certeza de que o mundo era uma bola de futebol.

Agora desconfiamos se o universo não é uma bola de futebol.
André, eu às vezes também faço um jogo comigo mesmo: "Oh Rui, agora que estás mais maduro, e que há tanta gente a menosprezar intelectual e civicamente das posições que assumiste contra as propinas, será que já és a favor?" Então paro um bocadinho para pensar no nosso Ensino Superior, e sai-me isto ou isto.
Ainda assim, duas notas acerca da posição tipo Miguel Vale de Almeida [MVA] (que agora é a tua):
[1] É, no mínimo, divertido que um professor universitário taxe a posição dos estudantes que não querem pagar o aumento das propinas como egoísta. Será que se esquece que ele é um beneficiário do aumento das propinas (que são tipicamente gastas em despesas de pessoal, ou seja, salários de professores e pouco mais), ou é só mania da superioridade?
[2] Menos divertido é que o MVA tenha a ingenuidade de falar dos "beneficiários do Ensino Superior" como se essa categoria fosse clara nos dias que correm ou neles tivesse um mínimo de racionalidade económica. Para mim pessoalmente ela tem um sabor amargo: é que eu tenho um irmão que fez um daqueles fabulosos empréstimos para estudantes [fiador: eu] para poder pagar as propinas, precisamente do curso que o MVA lecciona, e está há dois anos intermitentemente entre o desemprego e o sub-emprego. Claro, há sempre o benefício intelectual de se fazer um curso superior, mas para isso teria bastado ao meu irmão esperar para ler os blogues dos seus ex-professores, que ia dar ao mesmo – e de graça.
Seguindo esta lógica, deveria propôr-se em relação ao ponto [1] que os professores universitários de esquerda tipo Miguel Vale de Almeida, Vital Moreira, Eduardo Prado Coelho [e agora tu] declarem ser parte interessada antes de paternalizar os outros e ao ponto [2] que em vez de o pessoal se endividar para pagar as propinas agora, passe apenas a pagá-las a posteriori, quando e se estiverem efectivamente a beneficiar dos seus cursos e, já agora, que o dinheiro vá directamente para o departamento correspondente, sem beneficiar aqueles que também não beneficiam os seus alunos. Seria justo, não?
Não é a Pacheco Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa que se deve pedir que sejam imparciais nas suas análises. Eles são homens com personas políticas e intelectuais próprias, e não árbitros de futebol. Mas é necessário dizer que a sua escolha por parte dos nossos dois canais privados traduz uma situação de favorecimento claro (e muito pouco inocente) do governo actual. Com mais ou menos simpatia, raciocínios mais ou menos capciosos, e maior ou menor contorcionismo por parte dos comentadores, eles só podem ser simpáticos em relação ao governo. Seria isso ou a violentação dos seus intelectos.
Hoje foi um daqueles dias. Depois de assistirmos à mesma música em duas interpretações diferentes (os erros do governo cobertos por um manto de caridade cristã, toda a gente que se lhe opõe é irresponsável e incapaz), o espectador espera pelo telejornal do 2º canal para tentar ver um bocadinho de informação menos claramente partidária. Mas chegam as dez horas e a televisão do estado transmite em directo as celebrações da procissão das velas em fátima, o culto tribal que nos resta. É nestas alturas que eu tenho pena de o Sol não ter de facto andado para cima e para baixo a 13 de Outubro de 1917. Quer o planeta tivesse escapado ou não, tínhamo-nos livrado de ouvir estes disparates.
Os restantes barnabés (estou a pensar no Rui e no Daniel) vão "matar-me" quando lerem isto. O "isto" é que concordo com o que o Miguel Vale de Almeida escreveu no seu blogue sobre propinas. Estou à vontade para o dizer porque fui dirigente anti-propinas há uma década atrás. Nunca questionei as posições que nessa altura assumi, que acho que eram bem intencionadas e reflectidas. Mas hoje, pela primeira vez, ao ler a argumentação do Miguel, a minha posição vacilou. Deixo a citação dos "Tempos que Correm". Depois discutimos, se eu tiver arcaboiço para isso.
Muitos dos meus estudantes e muitos dos meus "camaradas" vão "matar-me" quando lerem isto. O "isto" é que não simpatizo com o movimento anti-propinas (assim como não simpatizo com a política de propinas deste e outros governos). Que significa esta dupla antipatia? Significa duas coisas: que acho que o movimento anti-propinas tende a ser simplista e egoísta, e que as políticas de propinas do governo são hipócritas. Estas são hipócritas porque estamos mortos de saber que as propinas, só por si, não resolvem os problemas que pretendem resolver. Aquelas são simplistas e egoístas porque o ensino superior português não deve ser financiado apenas pelo Estado. Tudo isto tem a ver com o facto de o ensino superior ser aquilo que os economistas chamam um bem misto. Traduzido para a dimensão social e política, quer isto dizer que a sociedade no seu todo beneficia com o ensino superior, mas as pessoas que se formam nas faculdades beneficiam pessoalmente. É socialmente injusto que sejam os contribuintes todos a pagar por algo que beneficia alguns. Mas tãopouco pode o ensino superior ser totalmente pago pelos que dele usufruem directamente, pois a sociedade no seu todo precisa de gente formada. A questão está em definir qual a medida justa da contribuição dos beneficiários directos e da contribuição do colectivo através do Estado. Tanto governo como os movimentos anti-propinas falam, em plano secundário, daquilo que deveria ser central e ir junto com a discussão sobre propinas: sistema eficaz e justo de bolsas (idealmente, por cada aluno que paga o máximo haveria um, pobre, que não pagaria nada), rigorosa verificação dos rendimentos das famílias (o que implicaria uma reforma fiscal que o governo se recusa a fazer...). O ensino superior totalmente grátis e de livre acesso só pode existir em duas circunstâncias opostas: países miseráveis e injustos onde os ricos canibalizam o Estado ou países ricos e com poucas diferenças sociais.
Intrépidos recém-casados, fomos ver o filme chamado "Le Divorce", de James Ivory. Granda bosta.
Sei que há muitos que não gostam dele, mas está de regresso o meu jogador preferido do Benfica da actualidade, o Nuno Gomes. Pela posição em que joga, pelas oportunidades que cria (e marca e também falha, mas antes cria), pelos golos que dá, é o que mais me permite a identificação infantil. Que esteja totalmente recuperado da lesão e fique no Benfica para todo o sempre.
Li com amizade o post que me dedicaste sobre o futebol como recuperação da infância e sobre o teu anti-benfiquismo. Sou benfiquista por influência de um primo, desde que me lembro. Mas também eu, quando era miúdo, ia quase tanto a Alvalade como à Luz. Vibrei com o genial Oliveira a marcar três golos a um Dínamo azul cujo nome não recordo. Vibrei com o Futre com 17 ou 18 anos a aldrabar toda a defesa do Porto nos minutos finais em que entrou de um jogo de taça. Aliás, a primeira vez que fui ao futebol foi ao Estádio Nacional, ver uma final da taça de Portugal entre o Sporting e o Boavista, em 1979. Empataram um a um, pelo Sporting marcou o Jordão, de penalti (depois o Boavista ganhou a finalíssima 1-0). A minha memória gravou os dois golos desse dia de uma maneira inverosímil: para mim, os adeptos do Boavista e do Sporting, como molas, festejaram os golos das duas equipas por igual. Sempre gostei do Jordão, Rui Manuel Trindade Jordão, que tinha jogado no Benfica. Talvez, nas minhas como nas tuas recordações, haja um tempo inicial da paixão clubística em que não somos inteiramente de um clube. Ou em que sabemos bem de que clube somos, mas estamos disponíveis para apreciar os talentos dos outros clubes. Talvez em seguida recalquemos esse tempo inicial. No início dos anos 80, a minha paixão cristalizou-se: vi o Benfica vencer o Porto em duas finais de taça gloriosas (um golo de César, três golos de Néné). E chegou o Eriksson que nos fez sonhar, como diriam o Artur e o Frederico.
Hoje, acho que o problema do meu clube é mesmo psicanalítico: precisa de matar o pai. O pai, como ensina a religião que perfilho, são todos os grandes jogadores do passado em geral e não é ninguém em particular: é Eusébio e todas as suas encarnações anteriores e posteriores, José Águas ou Torres, Coluna ou Humberto e, mais recentemente, Rui Costa. Não sei o que é que aconteceu à gestão do Benfica pelo caminho. Sei que é vítima da sua grandeza passada, mais do que o Sporting, que aprendeu às suas custas a fazer a travessia do deserto. É por isso que a sua massa associativa, eu incluído, é tão mimada: a cada novo reforço, vê surgir um novo Eusébio; ao fim de dez minutos mal jogados, assobia em vez de apoiar sem se aperceber que assim se afunda à equipa e a si mesmo. Vai jogar com a Lazio e pensa que o nome lhe basta. Não se apercebe que hoje é o Boavista, e não o Benfica, quem tem experiência internacional. Falta-lhe princípio da realidade. Mas, caro amigo Sportinguista, essa fraqueza humana não é razão para odiar um clube. Nós não somos muito diferentes dos outros clubes portugueses, pobres e decadentes, exceptuando o Porto a espaços. Somos só mais neuróticos e mais lentos a aprender, pois o passado pesa-nos. Por isso é que não ganhamos.
Bien sûr, nous eûmes des orages
Vingt ans d'amour, c'est l'amour fol
Mille fois tu pris ton bagage
Mille fois je pris mon envol
Et chaque meuble se souvient
Dans cette chambre sans berceau
Des éclats des vieilles tempêtes
Plus rien ne ressemblait à rien
Tu avais perdu le goût de l'eau
Et moi celui de la conquête
Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime
Moi, je sais tous tes sortilèges
Tu sais tous mes envoûtements
Tu m'as gardé de pièges en pièges
Je t'ai perdue de temps en temps
Bien sûr tu pris quelques amants
Il fallait bien passer le temps
Il faut bien que le corps exulte
Finalement finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes
Oh, mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore, tu sais, je t'aime
Et plus le temps nous fait cortège
Et plus le temps nous fait tourment
Mais n'est-ce pas le pire piège
Que vivre en paix pour des amants
Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
Je me déchire un peu plus tard
Nous protégeons moins nos mystères
On laisse moins faire le hasard
On se méfie du fil de l'eau
Mais c'est toujours la tendre guerre
Oh, mon amour...
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime.
Jacques Brel, La chanson des vieux amants
Implorei aqui que Pacheco Pereira falasse de Martins da Cruz. Generosamente, ofereci-lhe três soluções: enquadrar sociologicamente o facto, bater nos media ou lamentar a tablóidização da política. Fez os três num só post, sem nunca falar do ministro. Serei eu megalómano ao dizer que ele seguiu as minhas indicações? Ou será que Pacheco Pereira é apenas demasiado previsível?
Há mais 19.779 desempregados em relação ao mês anterior. As contas não estão certas. Há mais 19.781. O despedimento de Miguel Graça Moura vale por três.
Durão Barroso esclarece porque acreditou nas informações sobre armas de destruição massiva vindas do governo inglês: «Eu acredito mais em Tony Blair do que em Saddam Hussein».
Ontem vi, ao sair da festa de blogues, uma turba de jovens com capa e batina. Conheci, na tropa, um rapaz analfabeto que usava a divisa de escriturário, correndo riscos evidentes de se transformar em motivo de chacota no quartel. Ele usava aquela divisa para “ser alguém” na vida. Tentei ensiná-lo a escrever e convencê-lo a não usar a divisa. Consegui, mal, a primeira. Nunca consegui a segunda. Estes estudantes fazem o mesmo. Não os detesto. Compreendo-os. Mas tenho pena deles.
Acórdão do tribunal da Relação: “Do que se disse, resulta por demais evidente que todos os indícios recolhidos são claramente insuficientes para imputar ao arguido a prática de qualquer crime concreto”
Afinal, estavam em causa os indícios. O recuo de ontem do Procurador em relação ao que dissera antes foi tímido e pouco claro. A verdade é que, nas suas primeiras declarações, mentiu, mostrou má-fé e ficou claro que é, neste processo, acusação.
Cada vez que fala, o PGR dá mostras de não estar à altura do cargo que ocupa.
Ontem fui à festa do Desejo Casar . Gostei. As reuniões de auto-ajuda são sempre reconfortantes.
Martins da Cruz garante que se demitiu na noite em que a notícia sobre o caso da sua filha foi divulgado.
Sempre na vanguarda da investigação científica, o Barnabé orgulha-se em apresentar o primeiro método infalível para a medição do grau de hipocrisia na política. Tão simples quanto isto: reunir textos diversos de um partido ou político (programas, transcrições de discursos, actas de reuniões, etc.) ou pesquisar nos debates parlamentares as ocorrências da palavra "moralização" em cada dez mil palavras. A regra é simples: quanto mais "moralização", menos moral. A unidade de medida é o Tartufo [abreviatura Tf]. A escala pode ser restrita [ocorrências de "moralização"], extensa [ocorrências de termos derivados de "moraliz*", como "moralizar" ou "moralizemos"], ou contextualizada [dependendo da enfâse semântica dada ao termo no seu contexto]. Não se devem contar as ocorrência de "moralização" entre aspas ou outras referências meta-linguísticas. Aceitam-se sugestões de outros vocábulos a pesquisar e de cobaias para as primeiras medições.
Bem, na verdade a minha intenção não era comentar a sério o caso Martins da Cruz / Pedro Lynce [acho que Pedro Lynce tem todo o direito a ser lembrado por este caso; é uma sacanagem que se esqueçam dele]. Eu, afinal, sou de letras, não consigo prometer cientificidade a sério. A ideia era outra (era isto aqui acima), mas o comentário do Paulo Querido, bem como a sua posta, logo de seguida, espicaçaram-me e cá vai.
Concordo que as implicações deste caso são muito mais vastas do que aquilo que hoje, com as trivializações e branqueamentos no Conselho Nacional do PSD primeiro, e a libertação de Paulo Pedroso depois, parecem. E concordo que este é o tema mais importante no momento e não a libertação de Paulo Pedroso [que se esgota um pouco em si mesma].
O caso da filha de Martins da Cruz revela-nos muito mais acerca da natureza do nosso momento político. Entre outras coisas revela-nos uma maioria completamente alheada das coisas mais básicas de que a realidade é feita. De forma não-sistemática, vale a pena listar algumas das coisas que a maioria não quis ou não pôde compreender.
Políticamente não compreendeu que [1] o que se passou é ilegal; [2] que além disso é imoral; [3] que o que fizeram os gabinetes dos ministros foi tráfico de influências; [4] que isto para um governo que desde o início se apresentou como moralizador é uma catástrofe.
Socialmente não compreendeu que [1] o curso de medicina é a meta sonhada da grande parte dos adolescentes, que para o atingir são submetidos a uma pressão enorme, maior do que a que a maior parte de nós adultos poderíamos suportar; [2] que este caso é um insulto a todos eles; [3] que assim a desconfiança em relação à política, ao estudo e ao conhecimento, galgou mais uma geração, alegremente; [4] que os membros da maioria, a existir diabo e inferno, não voltarão a poder pronunciar a amada palavra "meritocracia" na próxima década.
Ora este era um daqueles casos que um primeiro-ministro, e logo este, eleito com um programa "macho", só poderia resolver [1] demitindo os ministros imediamente, bem como os outros membros dos seus gabinetes que estivessem implicados; [2] pedindo desculpas públicas a todos os estudantes e suas famílias; [3] prometendo medidas imediatas para evitar casos destes no futuro; [4] aparecendo, mostrando coragem e decisão.
Durão não fez nada disso. Ao invés, os capi da maioria têm-se atropelado em declarações que demonstram uma insensiblidade maior ainda: "é natural que um pai faça isto pela filha", "acredito na palavra de honra", "não houve nada de ilegal", "a lei é injusta", etc. Ou os gestores de imagem voltaram para o Brasil e não deixaram nenhum cartão com o número de telefone. Ou não existe nenhum senador para pôr as vozes na ordem. Ou enlouqueceram todos. Portugal vive o estranho caso de ter dois partidos no governo cujo discurso é tão desligado da realidade como o de qualquer grupúsculo ultra-minoritário antes de implodir. Não estive nos últimos congressos do PRD e do PSN, mas devia ser isto pouco mais ou menos.
Com tudo isto, sobreveio a catástrofe, porque depois dos mais pacientes terem dado todos os descontos possíveis a este governo [a herança, a crise] ficou claro que não houve nos dois partidos ninguém para dizer uma palavra que fosse de decente e séria sobre este assunto. Intransigentemente do lado do governo só ficaram os que acham "que a oposição não deixa trabalhar". À memória dos que dizem que o Fórum TSF é de esquerda, no único programa que ouvi sobre o tema vários ouvintes defendiam o governo exactamente com este argumento, o único possível, para lá de uma senhora que gritou "Volta, Salazar!" três vezes. Tudo com o fervor sectário digno de um wahabita.
Para mim, a explicação reside em que, com raras excepções [o próprio Durão, nos dias bons?] este governo não tem um vestígio de uma ideia generosa ou de futuro. A direita em Portugal pode já ter tido projectos [Sá Carneiro, Cavaco]. Hoje em dia governa como governou no salazarismo final e no marcelismo: por achar que se não forem eles o país está entregue aos bichos [os incompetentes do PS, os comunas do PC, os insuportáveis do BE]. E desengane-se quem achar que há aqui, ao menos, patriotismo. O patriotismo da maior parte da direita actual é um patriotismo egoísta e revanchista. Gostam tanto dos portugueses como o dono da bola que acaba com o jogo porque está a perder gosta de futebol. Quando Manuela Ferreira Leite disse a propósito dos funcionários dos CTT "deviam mas era estar presos", disse o que lhe ia na alma: que a raça é fraca, que o país não dá para mais, que queria ter nascido em Inglaterra e ser Margaret Thatcher. Muitos outros membros da maioria, incluíndo o nacionalista Paulo Portas, subscreveriam no íntimo estes pensamentos.
Felizmente para a maioria, a libertação de Paulo Pedroso foi uma benção. Criou uma almofada de ar quente que susteve a sua queda em aceleração, e que lhes permitiu voltar a fazer o que sabem melhor: discursos virtuosos sobre a "falta de sentido de estado" e a "irresponsabilidade" da oposição.
Quanto a este último ponto, não devemos talvez levar-lhes demasiado a mal: o guterrismo fazia exactamente o mesmo. Será que não se arranja um governo que dê para um bocadinho mais? Só se fosse com o método californiano: uma "recall election" e metíamos lá o Manuel Cavaco, dos seus velhos tempos de durão nas séries televisivas da tarde.

Ontem, o Luciano estava espantado por só se falar de Martins da Cruz. Hoje está incrédulo porque não se fala de Martins da Cruz. Ó meu caro, eu logo à noite faço-te a vontade e escrevo uma posta totalmente inspirada pelo caso Martins da Cruz / Pedro Lynce – e com intenções de cientificidade, vê lá só! Isto nem parece meu...
O Procurador-Geral da República disse que o acórdão sobre Paulo Pedroso não falava do conteúdo do processo. Mentiu. Disse que o fim da prisão preventiva de Paulo Pedroso não foi aprovado por unanimidade. Mentiu. Provavelmente é ingenuidade minha, mas, se me é permitida uma dúvida: um magistrado não tem, moralmente, um compromisso com a verdade?
Duas apreciações equilibradas da vida de Edward Said, longe do raciocínio retorcido que quer ver na sua obra as raízes do ressentimento árabe contra o Ocidente: o muito elogioso obituário da Economist (que também se encontra n'A Praia), e o eloquente texto de Daniel Barenboïm no Público: "Os palestinianos perderam um dos mais eloquentes defensores das suas aspirações. Os israelitas perderam um adversário – mas um adversário justo e humano. E eu perdi uma alma gémea."
Segundo o índice de percepção da corrupção da Transparency International, Portugal é o terceiro país mais corrupto da Europa. Esta falta de ambição ainda nos há-de perder.
Talvez agora se possa compreender na sua verdadeira medida aquele patriótico, ainda que inglório, sprint final de Martins da Cruz. Infelizmente, quando saiu o despacho do Ministério da Ciência e Ensino Superior já os inquéritos estavam fechados. Se até as cunhas esbarram na morosidade da administração...
"Será que os nossos estimados adversários não se apercebem que, quanto mais se enfurecem contra o CDS e profeciam a morte política de Paulo Portas, mais elevam à excessiva categoria de mito 'politicamente imortal' o, já de si, carismático líder que temos?" (António Pires de Lima, Diário Económico).
[Rui Lopes, dos Amigos do Barnabé]
Na edição de segunda-feira (dia 29 de Setembro) o jornal Público apresentou os dados de um estudo irlandês no qual se chega à conclusão que Portugal é o país da Europa onde se morre mais de frio (acrescendo em 28% o índice de mortalidade). Esta situação deve-se em parte à qualidade das paredes das nossas casas cuja “eficiência térmica” é praticamente inexistente (6%). Sendo o nosso inverno um dos mais curtos e mais quentes da Europa é, no entanto, aquele que mais mata. Obviamente que a culpa não é do inverno, mas das casas que, supostamente, deveriam abrigar-nos do frio.
Portugal sempre foi um país de construtores. Está-nos no sangue: alargam-se divisões, estreitam-se quintais, sobem-se telhados, expandem-se anexos, fecham-se varandas... Esta obsessão por construir é talvez uma forma de compensar a fraca mobilidade dos portugueses, que passam anos a fio (ou melhor, a frio) no mesmo lugar. Constroi-se para iludir o enraizamento (seja numa aldeia, ou num subúrbio). Constroi-se muito e mal. Não há casa que não tenha uma mancha de humidade, um racha na parede, um cheirinho a bafio em alguns recantos. Estas mazelas arquitectónicas fazem parte do nosso património, sem elas perderíamos de vez a identidade nacional.
Mas o frio não se fica em casa, estende-se também aos edifícios públicos. A começar pelas escolas que são, normalmente, espaços medonhos e dos quais nos lembramos logo quando pensamos em frio. Quem não se lembra das enregeladas manhãs passadas numa sala de aula? Desde a primária até à universidade passámos sempre muito frio e continuamos a passar. Contudo, não deixa de ser curioso verificar que uma das causas referidas no estudo para o aumento das mortes é precisamente o baixo investimento na educação das populações. Ora bem, seria interessante perguntar como é possível educar as populações a precaverem-se do frio, quando os próprios edifícios escolares são exemplos de má construção que propiciam maus hábitos cívicos. Mais uma vez, responsabiliza-se a educação e ficamos todos descansados, esperando que o frio se vá embora.
[Renato Carmo, dos Amigos do Barnabé]
Ou muito me engano, o PCP plagiou o Terras do Nunca. Tenho dificuldade em acreditar que tenha sido ao contrário.
Paulo Pedroso foi mal aconselhado quando decidiu ir ao Parlamento. Devia ter ido ao Largo do Rato ou para casa. Mas nada disso diminui a minha alegria por ele – o Paulo Pedroso e não o militante do PS – ter sido libertado. E, na realidade, é irrelevante comparado com o facto que temos à nossa frente: a decisão, que Rui Teixeira considerava que nem precisava de ser reavaliada por outro tribunal, era ilegal.
Estou contente. Paulo Pedroso vai ser libertado. Pronto. É isto. Estou contente e estou-me nas tintas para discursos de Estado. A vida é estas alegrias.
Espero, espero, espero. Pode ser um daqueles textos que enquadra sociologicamente o facto. Pode ser a bater nos media. Pode ser a lamentar a tablóidização da política. Pode ser qualquer coisa. Mas já não aguento este silêncio de Pacheco Pereira. O seu País desmorona-se, o seu governo desfaz-se, o seu partido está feito em cacos, e ele continua contemplativo. Fale, homem. Saia desse estado de prostração. Não se acanhe. Surpreenda-nos. Desembuche. Olhe que ainda rebenta.
Telmo Correia quer modernizar o país, abandonar a carga ideológica antiquada da Constituição. Por isso, já fez a sua proposta modernizadora: tirar a República da Constituição. Assim sim, estaremos preparados para os desafios do século XXI.
Teresa Patrício Gouveia é a nova ministra dos negócios estrangeiros. Desconheço que competências terá para a tarefa. Uma coisa é certa, perdeu-se a melhor ministra da cultura que a direita podia oferecer.
«Errar é humano». «A lei é injusta». Para quem não tinha percebido, Santana Lopes explicou ontem aos portugueses, com rigor e economia, o que pretende da sua carreira de comentador político.
Schwarzenegger ganhou as eleições, com quase 50%, na Califórnia. A Califórnia tem mais do triplo dos habitantes de Portugal. Olho para Schwarzenegger, olho para Durão Barroso. Ouço Schwarzenegger, ouço Barroso. Inconscientemente, levanto o braço, ponho os dois dedos em "V" e grito: Durão, Durão, Durão. Às vezes, só damos valor ao que temos quando vemos o que os outros têm.
Males da Língua: "É melhor um passo em falso no chão do que com a língua; pois é assim que, de súbito, ocorrerá a queda dos maus". [Eclesiastes 20:18. Versão da Ed. Vozes, Petropólis RJ, com imprimatur do Arcebispo de São Salvador]
“O Le Monde não tem obrigação nenhuma de garantir a expressão de um funcionário que atenta contra os interesses dos seus accionistas”, escreveu o blogue Liberdade de Expressão, sobre o despedimento de Daniel Schneidermann.