Monteiro quer debate com Marcelo.
Eu sei, é mau demais para ser verdade. Houve gente que se recusou a acreditar no meu texto abaixo. Uns porque acharam que era descaramento a mais para Durão Barroso o ter-se apresentado como um chefe de governo popular. Aprendamos pois a não subestimar o nosso Primeiro. Outros puseram o dedo na ferida e perguntaram-se como é que a Economist engoliu uma destas. Resta cruzar os dedos para que seja uma excepção – ou reparar melhor naquela última frase, que é de um primor assassino.
Depois vieram os comentadores de má-fé e as insinuações de que eu teria inventado ou descontextualizado as frases. Para correcção desses e edificação geral passo a transcrever alguns excertos do artigo, no original inglês – cerca de 1/3 do total, que o Barnabé não é a Torre do Tombo e com o copyright não se brinca. Ainda está nas bancas e o artigo completo custa $2.95 no site da revista. Sigam o link "Portugal's Popular Prime Minister".
Que isto vos sirva de lição quando, para a próxima, hesitarem entre confiar no Barnabé e confiar no nosso Primeiro-ministro. O resto do texto não sai muito deste tom, e eu mantenho as minhas conclusões: ninguém, hoje em dia, acredita que aquilo que Durão está a fazer resulte. Portugal é a Albânia do neo-liberalismo: a caminho da miséria mas ortodoxo. E a tudo isto Durão Barroso junta uma capacidade de efabulação só comparável à sua ignorância em História de Portugal. Como prova da sua suposta popularidade não apresenta qualquer sondagem ou dado concreto: apenas intuições e a história da velhinha.
A tempo: admito não ter a certeza de conhecer a velhinha que congratulou Manuela Ferreira Leite. Mas a avaliar pelo resto das declarações, muito provavelmente o que a veneranda cidadã disse foi algo como: "ai, é a Dona Ferreira Leite, não é? Olhe parece menos magrinha do que na televisão. E esse penteado fica-lhe muito melhor!".
Logo à tarde (18h30), no Jardim de Inverno do São Luiz, tem lugar mais um encontro «É a Cultura, Estúpido!», com os intervenientes do costume. Anabela Mota Ribeiro entrevista Jorge Silva Melo. O Pedro Mexia falará com José Mário Silva sobre dois livros: «Os Contos — 1.º Volume» de Kafka (Assírio & Alvim) e «Alguns gostam de poesia», antologia de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska (Cavalo de Ferro). O João Miguel Tavares abordará «A Paixão do Cristo», de Mel Gibson. Nuno Costa Santos falará de música alternativa. Daniel Oliveira (eu mesmo) e Pedro Lomba, no frente-a-frente , discutirão o terrorismo e o livro de Fernando Gil e Paulo Tunhas ("Impasses"). E a fechar, como sempre, o humor de Ricardo Araújo Pereira. Até já.
Deve-se rir ou chorar com o artigo da Economist da semana passada sobre Durão Barroso?
Nós habituamo-nos a Durão Barroso. E de repente lêmo-lo a dizer em bom inglês que "nunca desde que o país foi fundado no século XII se deu tanta atenção à necessidade de controlar a despesa do estado". Que depois destes 800 anos estamos "finalmente a abandonar a ideia de que o estado é mais importante do que a iniciativa individual". E que o "exemplo de rigor fiscal do estado" (sim leram bem) vai frutificar. Cada cavadela uma minhoca.
Perante o incrédulo jornalista, Durão Barroso gaba-se de ter um vasto apoio popular e promete ganhar as próximas eleições com a maior maioria desde o 25 de Abril. Como prova, conta a história de uma velhota que se aproximou de Manuela Ferreira Leite enquanto esta fazia compras e lhe deu os parabéns pelo contrôle do deficit. Eu sei quem é esta velhota. No outro dia até insistiu que eu estava na novela da TVI.

A propósito, coloquei ali nos links de referência a edição semanal, em inglês, de um dos maiores jornais árabes, o Al-Ahram do Cairo. A sua reportagem na Cisjordânia é de leitura obrigatória para toda a gente que teve ilusões sobre os efeitos do assassinato do líder do Hamas. O sentimento geral entre palestinianos e não só resume-se num título: "Agora somos todos do Hamas". Estão contentes agora?
Corre por aí uma analogia entre Ahmed Yassin e Osama bin Laden. Certamente que os dois senhores têm muita coisa em comum, mas o pano de fundo desta analogia é o seguinte: se os EUA tiverem um dia hipótese de matar Osama bin Laden, deverão deixar de o fazer? Caso contrário, porque não seria justificada a opção israelita de matar Yassin?
Esta é uma pergunta que me interessa, porque me permite falar, agora que já passaram alguns dias, do facto que mais me chamou a atenção neste caso. É o seguinte: ao contrário de bin Laden e até de Yasser Arafat que não dorme duas vezes no mesmo lugar, Ahmed Yassin tinha uma vida rotineira. Vivia num lugar conhecido de todos, incluindo israelitas, e todos os dias, à mesma hora, entrava na mesma mesquita para as suas orações.

Infografismo Reuters/Público [pormenor]
Corro o risco de este dado não interessar a mais ninguém, mas ele parece-me relevante. Ao contrário de bin Laden, Yassin não se escondia, nem ninguém andava à sua procura. Quando bin Laden for encontrado, poderá ter o fim de Saddam Hussein (ser capturado) ou dos seus filhos (ser morto). Essas duas hipóteses colocar-se-ão no fim da fuga. Ora, Ahmed Yassin não estava em fuga. Poderia ter sido morto há três anos, há dois meses, daqui a um ano, daqui a cinco anos. As razões que terão sido válidas agora já o teriam sido no ano passado. Porquê agora?
A resposta tem de ser procurada no contexto. Vejo duas possibilidades. A primeira é de que o assassinato foi feito para aproveitar o clima emotivo pós 11-M (ideia do Pedro Oliveira). A segunda tem a ver simplesmente com a necessidade de provocar os palestinianos a uma guerra total, tanto quanto possível. Numa guerra total, Sharon terá as mãos livres, interna e externamente. Nesse sentido, o assassinato de Yassin serve os mesmos propósitos que serviu a caminhada de Sharon pela Esplanada das Mesquitas. O calendário dele não é o do combate ao terrorismo. Trata-se tão somente de fazer aquilo que se imagina que mais ofenderá e escandalizará os adversários, forçando-os à luta.
Por muito que achemos que o homem era tudo menos um entrevadinho, para um habitante de Gaza matar um homem de cadeira de rodas é um acto de cobardia. Por muito que ele nos seja repelente, para um palestiniano ele era o representante local da Irmandade Muçulmana, que é uma organização não só radical mas beneficente. Vivia no meio dos pobres, canalizava dinheiro para as famílias dos suicidas, andava às claras. Por muito que nos custe, a imagem que muitos, cada vez mais palestinianos têm dele é a de um homem santo. Pode ser estúpido, mas é assim. Morto fará mais pelo terrorismo do que vivo. Sharon sabe disso mas não se incomoda.
A outra lição a tirar disto é que, quando se é inimigo público de um estado, a rotina é uma coisa um bocado estúpida. Mas agora olha.

Tanto alarido por causa do Saramago, e tão pouco se tem falado deste livro: O Imperador, de Ryszard Kapuscinski, genial recriação do reinado de Haile Selassié (1892-1975), Rei dos Reis, Eleito de Deus, Soberano Todo Poderoso, Imperador da Etiópia, figura inspiradora do movimento rasta, a partir dos depoimentos dos seus criados e cortesãos. Eis um trecho para vos aguçar o apetite:
Era um cãozinho pequeno, de raça japonesa. Chamava-se Lulu. Tinha direito a dormir na cama de Sua Majestade. Às vezes, no decurso de alguma cerimónia, saltava dos joelhos do Imperador e fazia xixi nos sapatos dos dignitários. A eles não era permitido mexerem-se nem fazerem nenhum gesto de contrariedade ao sentirem a humidade nos sapatos. A minha função consistia em andar entre eles e secar-lhes a urina dos sapatos. Para isso tinha um pano de cetim. Fiz esse trabalho durante dez anos.
(O Imperador, Campo das Letras, 2004, trad. Wlodzimierz Josef Szymaniak e Isabel Vaz Ponce de Leão)

O Daniel teve hoje a triste ideia de adornar o Barnabé logo pela manhã com a feia cara do Saramago. Senti ganas de colocar qualquer imagem a seguir, para não afugentar leitores, mas outras coisas se meteram pelo meio. Para meu espanto, nenhum dos outros barnabés se lembrou de assinalar esta importante efeméride: o centenário de E. P. Jacobs, genial criador da dupla Blake e Mortimer. O lapso, aliás, não foi só deles. Talvez o Público ainda se redima amanhã, mas honra seja feita ao DN que hoje decidiu dedicar duas páginas ao grande mestre. E correndo o risco de iniciar uma discussão homérica aqui no Barnabé, afirmo: não me falem cá de Hugos Pratts, Moebius, Hergés, Uderzos, porque o Jacobs está numa categoria aparte. E mais vos digo: depois do ensaio falhado que foi o álbum do Bob de Moor (a continuação das Três Fórmulas do Professor Sato), a série prossegue em grande estilo com as duplas J. Van Hamme e Ted Benoit (O Caso Francis Blake e O Estranho Encontro) e, sobretudo, Yves Sente e André Juillard (A Conspiração Voronov). Não só conseguiram perpetuar o traço de Jacobs, como vieram conferir às personagens a densidade psicológica que antes lhes faltava. Há coisas que deixamos irreversivelmente para trás ao sair da adolescência. Mas isso não se aplica aos livros de Blake e Mortimer.
Na passada sexta-feira o meu exemplar do Público veio arrumado diversamente do que é costume. O resultado foi que comecei a leitura pelas notícias falsas e humorísticas do Inimigo Público, ao contrário do que é meu hábito. A seguir passei às notícias propriamente ditas e continuei a rir baixinho enquanto bebia o café. Os títulos diziam "O Ministro tal não sei o quê" e eu ih ih ih. Diziam "A Assembleia da República não sei que mais" e eu ah ah ah. "Governo promete assim e assado" e eu ai grandes malucos estes gajos.
Isto não é uma piada. Isto aconteceu mesmo. Acho melhor nem tentar interpretar.
«Com o primeiro-ministro em Moçambique e o Presidente da República em Cabo Verde, Portugal ficou, por assim dizer, "entregue" a Mota Amaral e a Manuela Ferreira Leite. [...] Também não há muito Governo para chefiar [...] sobram em território nacional sete ministros: o da Defesa, Paulo Portas, a das Finanças, Manuela Ferreira Leite, o da Administração Interna, Figueiredo Lopes, a da Justiça, Maria Celeste Cardona, a da Ciência e Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, e o das Cidades, Amílcar Theias.»
Durão Barroso: "Faz falta no nosso país uma injecção de optimismo e confiança".

Arnaut, que faz parte de uma coligação partidária que adoptou como nome o slogan da selecção portuguesa de futebol (“Força Portugal”), não acredita que alguém se queira «aproveitar» do Euro 2004.

Cartaz de Luís Branco para Grão de Areia e Barnabé.

Esclareço desde já que ainda não li o novo livro de José Saramago. Comprei-o hoje e nada tenho a dizer sobre ele. Apenas li várias declarações suas e fui hoje ao lançamento do “Ensaio sobre a Lucidez”. Falaram quatro pessoas: Saramago, Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares e Barata Moura.
Primeiro o público: a média de idades das mais de 1.500 pessoas presentes deveria rondar os 60 anos. Era a velha esquerda que ali estava. Não, não estou a falar de nenhuma área política ou partidária. De esquerda, estava gente de todos os quadrantes. É mesmo de uma geração que falo. A geração que fez o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Ela estava toda ali, em caras conhecidas e anónimas. E os aplausos disseram quase tudo do sentimento que dominava a sala: contra «os políticos», contra «esta democracia», contra «o sistema». Nenhuma esperança. Só amargura e desespero.
Saramago lá deu uma facada indecente no seu partido, ao dizer que fazia parte das suas listas «apenas por uma questão de fidelidade». Uma fidelidade que confessa em público a sua traição era bem dispensável, mas adiante. O apelo já claro e sem rodeios que Saramago fez ao voto em branco, a um protesto legítimo mas que nada constrói, é que marcou toda conversa. E caiu bem, mesmo que ninguém tivesse muito ar de o querer seguir. Era mais uma catarse colectiva. O que Saramago propunha era que os cidadãos «uivassem», que gritassem «estamos fartos», usando as suas próprias palavras. Ou seja, que confessassem a sua derrota a ver se «eles» (os políticos) ouviam. Eles, indistintamente. Os outros, sem nome nem culpa.
Este populismo que tomou Saramago é só a rendição final de uma geração de esquerda. E esta esquerda nega-se a si própria a obrigação de construir a alternativa. Quer ser passiva e desalentada. Estava ali uma geração que já não tem nada a perder. Estava ali uma esquerda rancorosa e cansada, de todos os partidos. E verdade seja dita, Saramago representa-a como poucos.
Já nem discuto o apelo ao voto em branco. Marcelo Rebelo de Sousa, no lançamento, mostrou bem o paradoxo: a esquerda estava ali a pedir à esquerda que desistisse e desse a vitória à direita. Quando tem de ser a direita a dizer isto, estamos mal.
O meu problema é outro: o que Saramago nos propunha ali era um protesto individual, indiferenciado, travestido de cidadania. Pedia-nos a "nós", essa entidade difusa, sem causas nem passados, que protestássemos contra "eles", essa gente sem rosto nem programa.
E o meu problema é ainda mais outro: Saramago zurziu na democracia e assim deu novas vestes à retórica contra a “democracia burguesa”. A conversa é tão velha como inútil. Mas não perdeu um segundo a falar no dia seguinte. «E depois?», perguntou, muito bem, Mário Soares, que estava em forma. Perante o discurso sem destino de Saramago, foi Soares, que ali parecia representar, ele sim, a lucidez, que disse a evidência das evidências: «só há uma alternativa à democracia: mais democracia!»
Mas o público não queria esperança. Queria um lamento. E teve-o. Estava ali uma esquerda em branco.
Já agora aproveito para dizer ao Ivan que o único xeique de que gosto é este:

E que o iconoclasmo vai bem, obrigado.
Todos os dias, milhões de crianças nos EUA recitam um juramento patriótico escrito em 1892 que dá pelo nome de Pledge of Allegiance: "I pledge allegiance to my Flag and the Republic for which it stands- one nation indivisible-with liberty and justice for all." Em 1952, pressões da direita conservadora mudaram o juramento de forma a incluir a expressão: "one Nation under God".
Michael Newdow, um médico com formação jurídica mas que nunca exerceu em tribunal, quer restaurar o Pledge à sua forma original. Uma vez que é ateu, considera que é uma violência a escola obrigar a sua filha a recitar o Pledge na sua presente forma ou a ser discriminada como a bizarria da escola caso opte por não o fazer enquanto os seus professores dirigem o resto da turma no juramento. Nos EUA, Michael Newdow é unanimemente tido como um chato e um desmancha-prazeres. Noventa por cento dos americanos querem o juramento tal como está. O governo da Califórnia também. A administração Bush também. E até a mãe da miúda, uma "cristã renascida", está contra o pai. Para piorar as coisas, Newdow escolheu a pior das loucuras em tribunal: defender o seu próprio caso.
Esta semana chegou ao Supremo Tribunal. Ganhou o primeiro round brilhantemente. E está cheio de razão.
Chamamos os homens. Damos-lhes vozes para que se aproximem. Chama-se para qualquer coisa: invoca-se para obter socorro em um perigo, ou alguma empresa. Chama-se com acenos, com gestos, ou com vozes, e pelo nome do sujeito: invoca-se fazendo votos e súplicas. (Dicionário de Morais, 8. ed., 1891)
Lindley Cintra, José Mattoso, António Cândido, António José Saraiva, Margarida Vieira Mendes.

Grau de confiança dos telespectadores nos noticiários:
RTP 1 – 91%
A Dois –88%
SIC – 73%
TVI – 63%

R. Masats, Madrid, 1957
No Centro Português de Fotografia, Porto, até 9 de Maio.
Paul Bremer, o administrador americano no Iraque, mandou fechar um jornal xíita muito crítico da ocupação americana.
Aguarda-se a todo o momento a reacção do Liberdade de Expressão.
«O Presidente da República deve ser tratado da mesma maneira que qualquer cidadão». Juiz Rui Teixeira
A França votou à esquerda. Será que a direita nos virá lembrar que isto aconteceu depois das ameaças de atentados terroristas, por causa do véu?
Ivan, a satisfação pessoal tem-se pessoalmente. Quando é pública, passa a ser política. Quando é publicada, passa a ser activa. Lembras o passado. Pois hoje, o que digo, para estes peditórios, é isto: “sou pacifista”. Tem um efeito que nem imaginas. Pior que a “luta de classes”, pior que o mais radical do jacobinismo. Porque isto, agora que os gritos de guerra calham muito bem, é que é ser subversivo. O Paulo Varela Gomes já perdeu a "pica" e quer ir na onda? Quer fazer favores à histeria e assim se mostrar um rapaz bem comportado e tolerável? Gosto muito dele, mas que lhe faça bom proveito. Como antes, não dou esmolas à direita quando ela me as pede. Se nem à Cáritas eu as dava.
Actualização: O Ivan não percebeu. Quem eu afasto quando digo que sou pacifista é quem pede para este novo peditório a que o Paulo aderiu, seguindo a onda que responde ao grito vindo das cavernas:´«É a guerra! É a guerra». As testemunhas de Jeová e as senhoras da Cáritas, essas, já não me pedem dinheiro. Nunca mais as vi. E com o que ando a ler, já quase tenho saudades.
Tudo aponta para que na segunda volta das eleições regionais em França não só se confirme como se reforce a vitória das listas de esquerda da primeira volta. Segundo as estimativas do canal de televisão France 2, a esquerda poderá ganhar em todas as regiões excepto a Alsácia. De oito regiões, se as previsões se confirmarem, passará a deter 21, muitas delas com maioria absoluta. A direita perde bastiões históricos como a Bretanha, Auvergne (derrota de Giscard d'Estaing), o Poitou (região muito tempo liderada pelo primeiro-ministro actual Raffarin) ou a Franche-Comté. A leitura nacional dos resultados está a ser feita por todos os partidos e Chirac encontra-se, finalmente, em posição difícil, obrigado a fazer mudanças no governo. Eh oui!
Ferro Rodrigues deve pensar que este senhor é o seu Seguro de vida:



Les Triplettes de Belleville, que em Portugal foi traduzido (?) como Belleville Rendez-Vous, é um verdadeiro regalo. Tem uma linha narrativa impetuosa, cenários descomunais, uma música de ritmo febril. Os contornos dos desenhos são um pouco errantes e delimitam personagens de dimensões extremas e formas geométricas: grandes rectângulos, diminutos triângulos, círculos que enchem o écran. Mas as cores, para mim, são a alma do filme: os cinzentos esverdeados e negros do Inverno na Belleville "real" dos primeiros minutos, os tons puros primaveris nas cenas da volta à França, e os esacarlates laranjas e amarelos outonais na Belleville imaginária que é uma mistura de Nova Iorque, Montréal e Québec. Sylvain Chomet, o realizador, é o autor de uma banda desenhada que me havia impressionado na defunta À Suivre, "Laid, Pauvre et Malade", mas de que esquecera entretanto o nome. Agora já não volta a acontecer.
Entretanto, claro que um português não pode deixar de ver o filme sem notar que a sua protagonista é nossa compatriota: Madame Souza, uma imigrante de profissão indefinida mas que cumpre o estereótipo parisiense da concierge portuguesa. Sei que há gente que se chateia com estas representações, – coisa que nunca consegui perceber. Aqui no caso isto seria duplamente pateta, uma vez que o filme é a mais terna homenagem que já vi à interminável humanidade destas nossas velhinhas que não páram quietas. Mme. Souza poderia também ser uma avó judia, grega ou cabo-verdiana, mas ninguém que veja o filme aqui em Portugal pode deixar de encontrar ali expressões ou atitudes de alguma mulher mais velha da sua família. E quando Mme. Souza atravessa o Oceano à procura do seu neto ao som da Missa em Dó menor de Mozart, Chomet eleva esta pequena e incansável mulher à dimensão épica. Finalmente! Já não era sem tempo da concierge portuguesa ter o seu momento de glória nas telas dos cinemas.
"Saí do governo porque não tinha condições para executar o projecto político em que acreditei". António Guterres
Com a passagem para a hora de Verão, os ponteiros dos relógios avançaram directamente da 1h00 para as 2h00. Segundo fontes governamentais, Bagão Félix estará a ponderar a possibilidade de não contabilizar para o tempo de reforma a hora que os portugueses não viveram hoje. Perante a insistência dos jornalistas, o ministro perguntou: «será justo pagar por uma hora que não existiu?» O ministro avançou ainda com a possibilidade de, como compensação, oferecer a todas as famílias dois segundos por menor dependente. «Este é um gesto de solidariedade e justiça que estou seguro que será apoiado por todos os portugueses», disse.
Quanto aos 60 minutos que iriam ser recebidos daqui a seis meses, quando voltássemos à hora de Inverno, a ministra Manuela Ferreira Leite já terá informado todos os serviços públicos que, seguindo a política de contenção que o país vive, deverão ser retidos. Ferreira Leite não prestou declarações, mas o Primeiro-Ministro já prometeu que, em 2006, os portugueses viverão um dia suplementar. «O esforço que é pedido agora aos portugueses terá os seus frutos», afirmou.
O Barnabé soube ainda, junto de fontes bem colocadas, que o Ministério das Finanças já terá entrado em negociações com uma instituição financeira internacional interessada em adquirir a hora que ficará em dívida.

Ser-lhe-á devolvida daqui a seis meses.

Ministério Público israelita quer levar Sharon a julgamento por corrupção.
Desta vez Coutinho, num dos seus três posts semanais no “Expresso”, pergunta como pode Augusto M. Seabra assinar uma coluna de opinião num jornal? Coutinho, que escreve no “Expresso”, acha que Augusto M. Seabra não está à sua altura. Esperemos que Seabra, um dos fundadores e um dos mentores do “Público”, nem se dê ao trabalho de lhe responder. Por mim, respondo, porque trato aqui, muitas vezes, de assuntos pequeninos:
Uma pulga pode incomodar. Porque incomoda, podemos até falar dela. Mas nem por isso deixa de ser uma pulga.
Saramago é candidato ao Parlamento Europeu. Saramago está a pensar votar em branco.
Outro dia o “Público” falava da vida amorosa de uma secretária de Estado. Hoje, o “Expresso” fala de um divórcio de dois jornalistas.

Álvaro Magalhães, treinador adjunto do Benfica, em declarações após a eliminação pelo Inter: «Se o Benfica tivesse passado, só parava na final». É possível. Mas se tivesse começado por parar de sofrer golos logo na segunda parte dos oitavos de final, pelo menos aos quartos chegava.
Ele há gostos para tudo. Paulo Varela Gomes assumiu que gostaria de ter sido um míssil. Nós cá no Barnabé achamos que as coisas não se podem fazer assim desorganizadamente. Propomos um concurso. Os Mísseis Portugal 2004 darão acesso ao Míssil Universo, que foi ganho este ano por George W. Bush, quando desfilou com um belo camuflado e um perú de plástico. Para a versão portuguesa deste ano já recebemos as inscrições de José Manuel Fernandes, Pacheco Pereira, Helena Matos, Luís Delgado, o Valete Fratres, o Luciano d'O Comprometido Espectador, o Jaquinzinhos, e o Homem a Dias. Além do referido desfile de camuflado, temos outro de mão no queixo e fato de tweed para a fotografia na coluna de opinião e decidimos substituir o teste de cultura geral por um de culturismo geral. Aceitam-se mais inscrições. E que ganhe o melhor!
Durão Barroso opôs-se à mudança de nome da "Estratégia de Lisboa".
A Constituição Europeia não nos interessa, a revisão do Pacto de Estabilidade não nos interessa. Agora perdermos o nome? Isso é que não. Temos os nossos princípios.
«Eu gostava de ter sido não só o piloto que disparou um dos mísseis que fez o cheique em fanicos mas o próprio míssil. Ah quem me dera ver aqueles olhinhos de crápula a esbugalhar-se no último micro-segundo... Digo-te: bebi um copo de prazer à saúde de quem tomou a decisão, politicamente errada, claro, de consequências provavelmente dramáticas, mas sentimentalmente das decisões mais satisfatórias, mais preenchentes da alma, que já tive oportunidade de saudar na minha vida.»
Paulo Varela Gomes citado por Ivan Nunes.
Se isto não é uma cultura de morte...
Bagão Félix acha que as nossas reformas devem reflectir a nossa pobre vida salarial. Eu sei que este é um país escasso em biografias, mas ver aquela figura seráfica a explicar-me porque devo ser penalizado por só ter tido empregos mal remunerados até aos 33 anos era perfeitamente escusado. Gostava de vê-lo abdicar da sua curta vida contributiva como ministro, certamente pouco significativa no seu glorioso trajecto salarial.
João Soares diz que quer ser líder do PS.
Barroso diz que fala muitas vezes com Bush ao telefone

João Soares diz que quer ser líder do PS.
O doméstico tem um cágado. E a protectora, não faz nada?
Os EUA vetaram a condenação da ONU ao assassinato selectivo de Yassin.
Diz o Blasfémia:
«ESTA É…

…A MINHA REVOLUÇÃO»
Ou seja, a revolução deles sofre de Alzheimer. Alguns sintomas: perda de memória, problemas comportamentais e confusão mental. Definitivamente, é a revolução deles. E com isso não se goza.
Não sei da credibilidade desta notícia, que fala da ligação da GALP a uma empresa ligada à Al Qaeda. Espero para ver. Se for verdade, bombas sobre as bombas, já! É a guerra! É a guerra!

Will Oldham tem um novo disco como Bonnie 'Prince' Billy. Refazendo as músicas dos Palace.
Consenso entre governo e PS contra o terrorismo
Um estudo sobre a violência entre jovens do 3º ciclo conclui «os rapazes - sete em cada dez - são os principais agressores» e que «entre os que sofrem a violência, a diferença de géneros está equilibrada». Diz a socióloga que «em vez de usarem os pulsos ou os pés, as raparigas optam por outros meios, como chamar nomes ou espalhar boatos». O estudo conclui ainda que «os agressores chumbam mais do que as vítimas» e que «os que são agredidos gostam de estar na escola, têm bom comportamento e não chumbam tanto». A socióloga podia-me ter perguntado isto tudo a mim. Há 20 anos já era tudo assim. Só que na altura não tínhamos isso da «vítima agressora». Na juventude não se é muito dado a este tipo de indefinições. Ou dás ou levas.
José Pacheco Pereira, ontem no Público: "A atitude de muitos intelectuais e políticos nos dias de hoje revela que não houve e que a sedução do terror permanece, para lá do discurso politicamente correcto."
Para provar o argumento, JPP fala-nos de Netchaev, o jovem russo que terá quase certamente escrito o anónimo Catecismo Revolucionário, onde se fazia a defesa do assassinato, do crime e de todos os meios ao serviço da revolução e se fazia a apologia do revolucionário como ser amoral. Segundo JPP, esta figura repulsiva teve muita influência na esquerda: "uma enorme influência intelectual e criativa na segunda metade do século XIX, a começar por Bakunine e Lenine".
Ora bem; isto simplesmente não é verdade. Netchaev viveu de facto em Geneva e foi recebido por Bakunine em 1869. A influência pessoal – e não intelectual – da personalidade de Netchaev permitiu chatangear Bakunine e usurpar o seu nome em contactos com terceiros. Os últimos anos de Bakunine foram passados a enviar cartas a toda a gente que conhecia e a avisá-los contra Netchaev. Quantos aos marxistas e a Lenine, não me apetece exactamente defendê-los, mas diga-se em abono que a presença de Netchaev se deu principalmente porque as suas atitudes permitiram a Marx expulsar Bakunine da Internacional (ironicamente, Bakunine havia se comprometido perante um editor russo a traduzir O Capital, mas como era impaciente queixava-se da prosa de Marx; Nechaev decidiu então ameaçar de morte Lyubavin, o agente do editor na Suiça, para que este libertasse Bakunine desse compromisso). Lenine não precisou de Nechaev como fonte para todas as teorias erradas que desenvolveu. Daí para a frente, Netchaev foi sempre uma pedra no sapato para os anarquistas: o homem que enganou Bakunine e queimou o seu nome. Daqui até dizer, como diz JPP, que o homem foi uma grande influência na esquerda e que isso explica a sedução de alguns intelectuais e políticos pelo terrorismo, é efectivamente um bocado rasteiro. Seria a mesma coisa do que considerar o Unabomber uma referência dos ecologistas. É duplamente ao contrário: a ecologia é que foi uma referência do Unabomber e este uma vergonha para os ecologistas. Isto se não revogarmos a regras de um debate honesto, coisa que não sei se JPP não terá já feito.
Finalmente a grande glória de Nechaev para a posteridade foi ter servido como modelo para a personagem de Piotr Verkhovenski n'Os Possessos de Dostoievsky. É legítimo concluir daqui que JPP considere que os romancistas ocidentais sofrem de fascinação pelo terrorismo. E fico também ansioso por ver em quem descobrirá JPP a próxima grande influência da esquerda. Pode ser o Conde Drácula. O pessoal de esquerda passa por gente normal mas no fundo o que eles gostam é da ideia de empalar gente e beber sangue. Só pode ser isso.
É sempre triste quando se vê uma pessoa empenhar a credibilidade que tem para lançar mão de qualquer argumento contra os seus adversários. E fazê-lo como quem acha que em Portugal ninguém sabe nada ou ouviu falar de nada até ler a sua coluna no Público.
Luís Filipe Menezes quer Belmiro de Azevedo como cabeça de lista ao Parlamento Europeu.
O Barnabé apoia a candidatura e já tem a campanha toda preparada:



Coligação Compra Portugal
Programa Eleitoral
PORTUGAL EM PROMOÇÃO



Morri quatro vezes em noventa minutos. Vou pedir cafuné à minha mulhé.

No jantar da Radio and Television Correspondents' Association, Bush brincou com o facto de não encontrar as armas de destruição massiva. Mostrou fotos em que procurava as ditas armas debaixo do tapete da sala oval e os comensais riram às gargalhadas. 10.000 mortos no Iraque, hehehehe. Um país destruído, hahahaha. O Médio Oriente de pernas para o ar, hihihihi.
O Cruzes Canhoto ajudou na divulgação: a direita tem acampado nas nossas caixas de comentários. Um site brasileiro resolveu vir em nosso socorro e está a organizar um acampamento do Barnabé, em lugar mais isolado, para a rapaziada. Ide, ide.

Guardar, para mais tarde recordar.
Carta enviada pelo GAIA ao “Público”, por causa de editorial de José Manuel Fernandes sobre fotografia de manifestante vestido de bombista.
Durão Barroso vai pedir apoio à NATO durante o Euro 2004
Quando tentava justificar, hoje, no Parlamento, o encontro de Blair com Kadhafi e as relações com a Arábia Saudita, Durão Barroso defendeu que se deve manter relações políticas com ditaduras. Depois de sabermos que não havia armas de destruição massiva e que não havia relação entre o Iraque e o terrorismo, ficamos agora a saber que também não foi por causa da democracia que se invadiu o Iraque. Mas a Durão foi mais longe e regressou ao passado:
«Ninguém aqui quer que a China seja uma democracia»
Perdão?
O juiz de instrução do caso da queda da ponte de Entre-os-Rios, Nuno Melo, decidiu hoje não levar a julgamento qualquer dos arguidos inicialmente apontados no processo. Nem os areeiros (posição que já fora apoiada pelo advogado das famílias das vítimas), nem nenhum responsável técnico e político. A ponte caiu naturalmente. Pronto, caiu, o que é que querem?

Se Flaubert fosse vivo e reeditasse o seu Dicionário de Ideias Feitas, aposto que não deixaria de incluir uma entrada dedicada à expressão «sentido de Estado». À frente leríamos qualquer coisa como: «apanágio da Direita». Ora, como é próprio das ideias feitas, esta tem também muito que se lhe diga. A sabedoria convencional associa naturalmente a Direita a tudo o que tenha a ver com «lei e ordem», «segurança nacional», «segredos de Estado». Trocado por miúdos, isto significa que a Direita mais facilmente chama o Corpo de Intervenção para dispersar uma manifestação, nunca desperdiça uma oportunidade para enaltecer as forças armadas e, sempre que pode, sabota todas as iniciativas tendentes à fiscalização dos serviços de informação. De uma forma geral, a Direita sai-se muito melhor do que a Esquerda sempre que estão em jogo os símbolos nacionais, o discurso patriótico, os valores da «identidade nacional». Em Portugal, contudo, essa imagem anda muito divorciada da realidade. Se quiséssemos encontrar candidatos sérios para um julgamento por «traição à pátria», era na Direita que os teríamos de procurar (estou-me a lembrar daqueles cavalheiros que nos anos 90 faziam os fretes todos à Indonésia, por exemplo). Vem este arrazoado a propósito da anunciada «guerra das bandeiras», prestes a estalar a qualquer momento na Região Autónoma da Madeira. O protagonista é, uma vez mais, Alberto João Jardim, o arquétipo do político cheio de «sentido de Estado». Aparentemente, Jardim está determinado a hastear a bandeira regional nos serviços do Estado não regionalizados (incluindo quartéis), decisão que terá deixado perplexos os comandos militares da Madeira. Vai daí estes pedem instruções às chefias em Lisboa. Estas, por sua vez, solicitam-nas a Paulo Portas, que, no entanto, tem permanecido calado que nem um rato. O caso entretanto chegou ao primeiro-ministro – que também optou por não se pronunciar. Diz o correspondente do Público na Madeira que «a situação está a fragilizar a hierarquia militar no Funchal». E, no seu excelente artigo da passada terça-feira, recorda as inúmeras provocações de Jardim à «III República» – das cumplicidades com a Flama durante os anos do PREC à recepção a Piether Botha nos anos 80. Todas elas cheias de «sentido de Estado», claro.
Souto Moura não quer prazos rígidos nos inquéritos

Tony Blair: Então é este senhor que tu queres que fique por Bruxelas?
Durão Barroso: Vá lá, Vitorino, não te escondas. Cumprimenta o senhor.
ATENÇÃO: Por nabice minha a foto do JN que aqui estava foi trocada na página a que estava linkada. Ao senhor Vitorino, que ficou agora na humilhante posição de esférico antes de um pontapé, as minhas sinceras desculpas.
«Os associados da Al-Qaeda baseados na Europa tradicionalmente não recebem nenhuma orientação ou fundos dos dirigentes da Al-Qaeda». George Tenet, director da CIA.

Vale a pena ler os excertos da entrevista de Richard Clarke, antigo conselheiro da Casa Branca na luta contra o terrorismo, ao programa “60 Minutes”. Para além de testemunhar que para a Administração Bush o terrorismo não era uma prioridade e que o Iraque era desde muito cedo uma obsessão, ficamos a saber como se tentou, a todo o custo, ligar o Iraque à Al Qaeda, mesmo quando todos os dados o desmentiam. É muito elucidativo de como uma suposta luta contra o terrorismo é utilizada para outros fins. Sabemos hoje que a guerra contra o Iraque nada tinha a ver com as armas, nada tinha a ver com o terrorismo. É cada vez mais fácil juntar as peças do puzzle. Ficam algumas frases:
«I think they wanted to believe that there was a connection, but the CIA was sitting there, the FBI was sitting there, I was sitting there saying we've looked at this issue for years. For years we've looked and there's just no connection.»
«The president dragged me into a room with a couple of other people, shut the door, and said, “I want you to find whether Iraq did this”. Now he never said, “Make it up”. But the entire conversation left me in absolutely no doubt that George Bush wanted me to come back with a report that said Iraq did this. (...) I said, “Mr. President. We've done this before. We have been looking at this. We looked at it with an open mind. There's no connection” (...). He came back at me and said, "Iraq! Saddam! Find out if there's a connection”. And in a very intimidating way. I mean that we should come back with that answer.»
Eu cá acho bem que Tony Blair tenha ido visitar o coronel Ghaddhaffyi. Não se esqueçam que o homem passou a tarde inteira a aturar o nosso primeiro-ministro. Agora deixem-no descomprimir o seu bocadito.
O meu post anterior, sobretudo por causa do título, foi considerado politicamente ambíguo. Não se percebia se, ao referir-me aos socialistas franceses sem o F (de PSF, como ele é conhecido em Portugal), não estaria a falar também dos socialistas portugueses. E, subliminarmente, a sugerir um voto útil nas próximas eleições europeias. Quero desmentir aqui categoricamente tal leitura. Nem percebo onde foram buscar tal ideia.

Depois de visitar Portugal, Tony Blair vai à Líbia cumprimentar Muhammar Kadhafi.
Pedro Mexia, nunca ouvi ninguém com o mínimo de bom-senso a dizer que “compreende” o terrorismo. É daquelas afirmações que se repetem milhares de vezes sem nunca se citar de quem se está a falar. O que vejo é gente a pedir que não se piore ainda mais a situação e que se compreenda (o que é diferente de apoiar) o desespero dos palestinianos comuns - aqueles que andam na rua, que estão desempregados, que são diariamente revistados, maltratados – e que, nesta espiral de humilhação e violência, acabam por aderir emocionalmente à violência, facilitando assim a vida aos terroristas. O grito desta gente, que, incapaz de ver uma saída política, acaba por aderir ao ódio, faz-se também ouvir do lado de cá, mas vinda de soldados de sofá que nada sofrem e tanto se excitam: «É a guerra, é a guerra», gritam eles.
A resposta a tudo isto, acabas por dá-la tu: «sem vontade não se faz a paz». E a vontade implica deixar os terroristas sozinhos. Fazer as negociações e não as interromper de cada vez que um terrorista as quer sabotar. Isso é vontade.
De resto, não se pode pedir autoridade aos moderados palestinianos cercando o seu povo com um muro. Assim nunca lá se chegará. Olhe-se para o documento que se fez em Genebra. Aí está o caminho, desenhado por palestinianos e israelitas, que sofreram o cerco do ódio e que, no entanto, demonstram muito mais bom-senso do que os guerreiros de gabinete que por aqui abundam. O grito deles soa-me melhor: “É a paz. É a paz.”
“Loja de informática assaltada a tiros de caçadeira em Rio Tinto”. Lusa
Já vi que a fotografia enganadora (para não dizer manipuladora) que o próprio "Público" divulgou foi comentada pelo seu director. Acontece que a pessoa que tinha «à cinta imitações das bombas dos terroristas» não estava sozinha. Acontece que (a fotografia não o mostra, mas eu, como muita gente, estava lá) ao lado dela estavam vários manifestantes com fardas militares americanas. Estariam a fazer a apologia do militarismo de Bush? Não. Uns e outros estavam a fazer uma “performance” (confesso não ser grande fã do género) da situação política actual. Ou seja, e isto até José Manuel Fernandes entenderá, nem sempre quando imitamos alguém o estamos a apoiar.
As pessoas em causa eram activistas de uma associação ambientalista que estava a fazer uma representação da espiral de violência que hoje se vive. A pessoa vestida de terrorista representava isso mesmo, o terrorismo.
É pena que tenha de ser aqui, na blogosfera, e não no “Público”, que os factos são expostos perante "aparências". Não devia ser ao contrário? Espera-se que JMF desminta o que escreveu. Caso contrário, dará um triste sinal de que quer, definitivamente, transformar o “Público” nos seu jornal de propaganda. Para isso, faça um suplemento. Bem, é melhor não dar ideias.
Ciclicamente, surpreendemo-nos com os bons resultados da Frente Nacional de Le Pen em França. Mas se o interpretarmos no tempo (comparando, por exemplo, esta primeira volta das regionais francesas de 2004 com as regionais de 1998), vemos que o voto FN é estável. É um voto politizado, anti-sistema dentro do sistema, consolidado há bastante tempo, e só a amnésia entre eleições permite que haja surpresa. O que o faz crescer é a abstenção. A participação eleitoral é, para já, a melhor arma contra ele — não a política securitária de Sarkozy, o popular ministro-polícia do governo. Entretanto, segundo a análise que faz o Monde, talvez haja boas notícias dentro das más: aumentando globalmente a sua implantação, nos seus três bastiões do sul (Languedoc-Roussillon, Rhône-Alpes e Provence-Côte d'Azur) o FN parece recuar.
O verdadeiro voto de protesto não é na FN, é o voto socialista para punir o governo. A vitória global da esquerda na primeira volta das regionais francesas é um bom resultado que precisa de confirmação. Esperemos que isso aconteça no próximo domingo, mas, na minha opinião, sem grandes ilusões: pelo que vejo dos jornais, a esquerda francesa tem muito trabalhinho pela frente ainda. Aproveito para me congratular com o mau resultado da aliança de extrema-esquerda (4,6%) entre a LCR e a LO. Espero que esta aliança não tenha pés para andar e que a tendência minoritária que a ela se opôs na LCR ganhe força. A populista e hiper-sectária Arlette Laguillier (LO) deve ser deixada a falar sózinha.

A página de Ben Katchor, um dos mais discretos e viciantes autores de Banda Desenhada do mundo.
Diz Pacheco Pereira que a questão israelo-palestiniana só a martelo caberia na "dança esquerda-direita". Para explicar o seu argumento JPP relembra o empenhamento da URSS na fundação de Israel e no apoio à nova nação nas primeiras décadas. Como quem diz que a actual posição da esquerda é inconsistente com a sua história, ou que se trata de um alinhamento espúrio com os islamistas, ou que não passa de embirração anti-americana. Não se percebe a qual destas ideias quer chegar. Mas tanto faz, porque nenhuma delas está certa.
Não sou de todo especialista neste assunto, mas acho que um debate bem ordenado sobre este tema não vai lá com os argumentos episódicos que JPP apresenta. Onde ele vê inconsistência entre a posição da esquerda no passado e o seu anti-Sharonismo hoje, eu vejo coerência. E uma coerência com um século.
Desde logo, é bem verdade que a esquerda ocidental tem maioritariamente uma tradição pró-judia e mesmo pró-sionista da qual, do meu ponto de vista, se deve orgulhar. Afinal o sionismo que se constituiu largamente à esquerda desde o século XIX era uma tradição venerável. Além do objectivo político de obter uma terra segura para os judeus ser inegavelmente justo, os valores por que lutava no mundo "cá fora" eram em grande parte coincidentes com os do socialismo "clássico" que vinha do século XIX (embora viesse a manter, como seria de esperar, uma relação tumultuosa com o bolchevismo, que surgiu depois e foi durante algum tempo uma mera excrescência ao socialismo em geral). Esta época – o final do século XIX e o início do XX – é o tempo em que Rudolf Rocker, um encadernador socialista gentio, se integra na comunidade judaica, aprende íidiche e funda o jornal Der Arbeter Fraint. Em que Kropotkine se move entre a comunidade judaica (e sionista) do East End londrino, um dos centros do socialismo na Europa. E em que Emma Goldmann propagandeia o feminismo e o socialismo, entre judeus e gentios, pelas ruas de Nova Iorque. É a época em que se funda o Forward, onde escreverão mais tarde Isaac Bashevis Singer e Elie Wiesel. Quando chegou a altura de apoiar a construção de uma pátria judaica, a esquerda (judaica ou não) não renegou o seu apoio.
Note-se que falo da esquerda não-soviética. [É que na verdade os apoios da URSS que JPP cita, como ele saberá melhor do que eu, foram muito mais erráticos, ao sabor dos humores de Estaline ou das conveniências estratégicas de Moscovo. Se formos por aí, o grande apoio internacional de Israel no seu início esteve até mais na França.] Muitos socialistas anti-soviéticos emigraram para Israel, mesmo sem se converterem ao judaísmo, para poderem participar num projecto que consideravam mais livre e intocado pelo pecado original do vanguardismo e da ditadura do proletariado. No imaginário destes sobreviventes a purgas e guerras dos anos 30-40, Israel era uma hipótese de socialismo sem a interferência da URSS que tudo triturava à sua passagem. Com mais ou menos lirismo, a ideia geral era esta.
A título de exemplo, veja-se o caso de Chomsky, mais citado do que conhecido. Criado num meio sionista de Filadélfia (o seu pai, William Chomsky, foi um dos refundadores do hebraico como língua viva), Noam Chomsky transitou por outra via familiar para o socialismo libertário na comunidade judaica de Nova Iorque. Por outro lado, participava numa das inúmeras organizações da juventude sionista de esquerda que eram das mais activas à altura, como a Avukah que propunha para a Terra Santa um estado bi-nacional que não fosse de confissão judaica (na verdade, a proposta bi-nacional vem desde os anos 20 - ver aqui), e a Hashomer Hatzair, que existe até aos dias de hoje. Até aqui, este é um percurso habitual à época. Emigrou para Israel nos anos 50 com intenções de se fixar. Após encontrar, no kibbutz para onde se mudou, um racismo anti-árabe que era, segundo ele, mais agressivo e chocante do que aquele que ele próprio havia sentido enquanto judeu num bairro católico com simpatias pela Alemanha (até 1942) regressou aos EUA e passou a ser critico em relação às opções militaristas de Israel. O racismo e o militarismo havias manchado a ilusão e o idealismo do sionismo socialista, o que aumenta compreensivelmente o trauma da esquerda em relação a Israel [encontrarão mais nesta biografia irritantemente hagiográfica, – mas está on-line e estes factos estão lá detalhados, de forma que dou aqui o linque].
É por estas e por outras que, embora compreenda que estas raízes estão muito esquecidas, não consigo declarar-me anti-sionista como faz muita gente de esquerda (e de direita, claro) hoje em dia. O anti-semitismo e o anti-sionismo são efectivamente diferentes, e o primeiro muito pior do que o segundo. Mas acho que os sionistas de antanho merecem mais respeito. Verdade seja dita que aquilo que se entende hoje por sionismo é mais confuso do que nunca: passou a ser comum ver a direita e mesmo a extrema-direita racista israelita reclamar-se do sionismo que antes abominavam. Isso baralha todos os canais semantico-políticos; ainda assim, não gosto de colaborar no abastardamento do termo.
Daí que onde JPP não vê razões para uma correspondência entre ser de esquerda e ser anti-Sharon, eu vejo-as todas. Tal como vejo todas as razões para se ser de esquerda e ser anti-fundamentalista islâmico. Ou ser de esquerda e combater os regimes árabes, mesmo as ditaduras esquecidas, como a do Egipto, essa sim obliterada nos media por um permanente afluxo de dólares que a "normaliza". Isto para não falar da Arábia Saudita, do Iraque antes e depois de 92, da Jordânia, do Afeganistão (até antes do 11/9, imagine-se!), etc. E, já agora, ser de esquerda e lamentar que as constituições patrocinadas pelos EUA no Iraque e no Afeganistão reconheçam o Islamismo como religião oficial do Estado (no caso do Iraque, então, trata-se de um retrocesso claro; sempre gostava de saber como é que os nossos liberais anti-relativistas apoiam este ataque ao secularismo).
JPP pode sempre dizer que esta esquerda não é a esquerda que interessa. Bem, é evidente que não é a esquerda que lhe interessa. Mas já agora convém esclarecer só isto: é que, em larga medida, a esquerda que JPP tão incansavelmente necessita de dissecar já não existe. Ele pretende ver a sua permanência nas instituições, nos partidos. Mas a esquerda pós-1989 é felizmente muito mais livre e personalizada. Na sua constelação de causas, assemelha-se muito mais à sua congénere da viragem do século XIX para o XX do que à esquerda dos anos 50 e 60 em que JPP militou militarizadamente e na qual se projecta em permanência. Ao contrário do que julgam, JPP e a direita portuguesa conhecem pessimamente a esquerda actual. Ao passo que a direita se reconforta com um regresso mental à Guerra Fria, a esquerda pós-Queda do Muro aprendeu muito mais do que aquilo que a direita proclama – e os próximos anos confirmarão isto.
De volta ao nosso tema. Apesar de o preconceito e a ignorância campearem de parte a parte, é da honestidade mais elementar admitir que ninguém mais do que a esquerda sente o aviltamento de um projecto justo e de ideais nobres pelo racismo e o militarismo mais mesquinhos e patifes. E ninguém, mais do que a esquerda, respiraria de alívio no momento em que as posições dialogantes em Israel e na Palestina se tornassem dominantes. Posições decentes que eu, não sendo profundo conhecedor, identifico com as do falecido Edward Said, do Peace Now israelita e do partido Meretz. Serão minoritários, irrealistas? São justos e inteligentes.
Ou seja: a esquerda mais articulada não é anti-sharonista "porque sim", ou porque lhe deu para ser pró-árabe, ou para chatear os EUA – é-o antes da mesma forma como nos anos 40 o socialista Orwell não podia deixar de ser violentamente anti-estalinista.
Está aí o blogue surpresa do trimestre. Uma ménage à trois (o Pedro e o Pedro são reincidentes o que configura um padrão) formada por pioneiros do espaço alternativo da blogosfera. A qualidade está garantida se a mistura não se afigurar fatal como no caso desses aí em baixo:

Passei semanas à espera e fiquei caladinho. Agora já posso dar boas notícias:
Primeira boa notícia: nasceu um blogue de Pedro Mexia, Pedro Lomba e Francisco José Viegas. Segunda boa notícia: o blogue do Pedro Mexia continuará activo. Só uma má notícia: o blogue do Pedro Lomba não regressa. O Fora do Mundo já está nos nossos links. Este Mundo dá-vos as boas-vindas.

O agente da PSP que, a 20 de Junho de 2002, matou com uma "shot-gun" um jovem de 24 anos, apanhado no meio de uma rixa, no Bairro da Bela Vista, foi absolvido. Porquê? O juiz deu como provado que o agente desconhecia que aquela arma, quando disparada a curta distância, podia ser letal. Ninguém lhe terá explicado que estas armas são "less lethal", mas, ainda assim, podem matar. O homem terá mesmo ficado "atónito com o desfecho do disparo".
O director da PSP, Mário Morgado, que ficou "satisfeito" com a absolvição, disse que sim senhor, na altura ninguém sabia nada sobre as armas que andavam a usar. Mais extraordinário do que a absolvição, é o facto do juiz ter recusado o pedido de indemnização apresentado pela família da vítima.
Por isso, quando vir um polícia com uma shot-gun nas mãos, já sabe: fuja. É que o director da PSP não lhe garante que o agente da PSP saiba para que serve aquilo e há para aí um juiz que acha que isto são coisas que acontecem.
PS: antes que venha um armeiro dar-me lições que dispenso sobre a arma da fotografia, informo que a foto é apenas ilustrativa.
A opinião desagradada com a vitória do PSOE em Espanha já era uma paisagem sobrepovoada de processos de intenção, injustiças e distorções. Embora fosse difícil fazer mais e melhor, o texto de Ferreira Fernandes no Correio de Manhã de ontem é um grotesco Taj Mahal do disparate e da desonestidade retórica. Para não falar do mau gosto e do insulto, desde o título ("O Touro agachado") às últimas palavras ("Agora também já sabemos que a Al-Qaeda não vai atacar os jogos da equipa de Espanha no Europeu’2004. Foi negociado, naquele domingo, pela maioria dos espanhóis.") Só lido na íntegra. Todavia, vale a pena deixar a pedra angular da argumentação:
O que aconteceu não foi a mentira (ou não) de Aznar. O que aconteceu foi que os terroristas islâmicos venceram as eleições num país democrático e europeu.
O que aconteceu foi que os terroristas islâmicos venceram as eleições num país democrático e europeu? Então só resta que o Rei Juan Carlos faça o seu dever e chame Osama bin Laden a formar governo em Madrid. Ridículo? Nããã...
Está encontrado o sucessor de Ahmed Yassin na liderança do Hamas. Abdel Aziz Rantisi é licenciado em medicina e especializado em pediatria, fala inglês e é tido como... MUITO MAIS RADICAL do que o seu antecessor. Mais um contributo de Sharon para a qualificação na Faixa de Gaza.
José Luís Arnaut vai deixar o secretariado do PSD.
Portugal tem uma Ordem dos Biólogos, que se não me engano é a antiga Associação Portuguesa de Biologia. Tem uma Academia das Ciências. E até parece que tem um Ministério da Ciência, mas isso é que eu já não posso garantir. E tem também, como se sabe, um grave deficit de cultura científica.
Ora bem; porque é que estas instituições não se juntam para seguir o exemplo dos nossos amigos cristãos e propôr ao Ministério da Educação que a atenção que este ano se está a dedicar à Bíblia se dedique no próximo à Origem das Espécies de Charles Darwin?
Não proponho que cada estudante copie uma frase do livro. Até me parece que pelo caminho que se leva este ano vai ficar um bocado difícil dizer-lhes que copiar é errado, – isto quando fizerem os exames. Proponho que se façam antes leituras de excertos mais significativos, que se convidem oradores que expliquem o tema em palavras simples, que se façam debates, que se vejam documentários e se façam exposições baseadas nessa obra fundamental. Com sorte e um pouco de vontade, poderia fazer-se um Ano Darwin nas escolas portuguesas que faria maravilhas pela familiaridade dos estudantes com a história da ciência e, crucialmente, com a ciência que se faz actualmente. Vamos começar a mexer-nos para que aconteça? No ano seguinte escolher-se-ia outro autor ou livro (há propostas?) , e assim sucessivamente.
Isto se se quiser fazer qualquer coisa numa área em que somos dolorosamente ignorantes quando comparados com outros países. Por outro lado, podemos sempre insistir em copiar mecanicamente, como este ano, qualquer coisa na categoria "livro muito importante na história da humanidade cujas opiniões ultrapassadas e seguidores dogmáticos causaram, directamente e indirectamente, catástrofes e sofrimento". É perfeitamente legítimo. Nesse caso, proponho uma transcrição manuscrita d'O Capital. É claro que não tem a mesma pulsão narrativa (ou até sanguínea) da Bíblia, mas creio que ninguém terá objecções à ideia.
Apesar de me ter batido com algum afinco, a última coisa que me apetecia era bater no Filipe Moura. Mas defender que a imprensa norte-americana está dominada pelos judeus e que daí resulta a campanha de intoxicação em relação ao Islão e à política do governo de Israel…
A imprensa americana está dominada pelo poder e o poder está onde todos sabemos que está. Há nos EUA um lóbi pró-"sharonista", e também o há em Portugal. Quantos dos pró-"sharonistas" em Portugal são judeus? Provavelmente nenhum. Procurar a etnia do poder é falhar o alvo e dar o flanco a quem não suporta as justas críticas que se fazem ao governo de Israel. E uma coisa é o governo de Israel, outra, bem diferente, são os judeus. Nunca, mesmo nunca, se deve fazer confusão entre as duas coisas. Isso é o que querem os “sharonistas”.
Quanto ao mais, a resposta de Luís Rainha, no próprio BdE, diz tudo. Revejo-me em tudo o que Rainha escreveu, e dá-se mesmo a coincidência de também eu ter os meus «25% de sangue judeu» e de, apesar do meu ateísmo profundo, gostar de os ter.
Na primeira volta das eleições regionais francesas, a direita foi derrotada.
O Desejo Casar já era. O novo blogue é o Desejo Matar. Desejo esmagar, explodir, extirpar, esganar os que esmagam, explodem, extirpam e esganam. Desejo vingar por interpostas mortes o alucinado sangue que me escorre TV abaixo. Desejo Matar: o tanatoblogue, o blogue que dá mais tusa, o unico blogue português presente em todos os servidores, nacionais ou estrangeiros.
Exército vai ter novas fardas. Portas já apresentou as suas próprias propostas:

E pronto, lá começaram mais de cinquenta mil inocentes a copiar a Bíblia à mão. Sim, nas escolas públicas também. Já aqui defendi a ideia e expliquei porque penso que se trata de uma iniciativa com tantas virtudes. Ontem, contudo, fiquei um pouco transtornado ao ver na TV que uma jovem que tinha acabado de transcrever um versículo já não se lembrava, instantes depois, de nada. Nem uma listazinha de descendentes do rei Saul. Nem dois ou três preceitos alimentares.
Apesar de tudo, faço votos para que os promotores não esmoreçam. E, se me permitem um conselho, que no próximo ano escolham um livro com menos violência, pornografia (ou talvez não), apologia do genocídio, incitamento ao ódio étnico, matanças, vinganças e passagens escabrosas. Só uma ideia, pessoal, só uma ideia.
No outro dia, ao dar uma aula, hesitava já não me lembro porquê entre descrever um autor como "pensador" ou "ensaísta". O cansaço acabou por levar a melhor e ouvi a mim mesmo dizer "pensaísta", com as terríveis consequências para o futuro daqueles jovens à minha frente que o leitor mais vigilante imaginará. Mas, para ser sincero, gostei imediatamente da palavra. Lembrei-me deste gajo, um amigo muito talentoso em neologismos do género. Dias depois apercebi-me de que tinha um blogue. Estava óptimo. Já ali o deixei na lista da esquerda.

Dr Strangelove, Stanley Kubrick
O FMI diz que, este ano, a taxa de desemprego pode chegar aos 7% e o défice público aos 4,1% do PIB. O Governo já reagiu, considerando que o cenário do FMI é demasiado pessimista.
«Nas Forças Armadas pode ter um bom salário, saída profissional para a GNR, pode ter ajudas na transição para o mercado civil, pode subir na carreira dentro da própria instituição militar, tem ajudas em termos fiscais, consegue compatibilizar com os estudos». Paulo Portas.
Alguém ainda se lembra do que ele dizia sobre os privilégios dos funcionários públicos? É que não me apetece ir para a hemeroteca.
Enganas-te, meu caro Daniel: os escorpiões nunca perdem uma oportunidade para destilar algum veneno. Eu já sabia que o João Pedro Henriques do Glória Fácil não era lá grande coisa a escrever. Agora constato que ele nem sequer ler sabe. O meu comentário à morte do líder do Hamas não exprimia qualquer espécie de compaixão para com o homem. Limitava-se a sublinhar o aterrador simbolismo que envolveu a sua morte: o facto de se tratar de um inválido de cadeira de rodas faz dele o mártir por excelência, a execução tem lugar à porta de uma mesquita e os disparos partem de um helicóptero de fabrico norte-americano. Quem não percebe isto é mesmo muito limitado.
Diz o meu caro João Pedro Henriques, do Glória Fácil, que o assassinato do líder do Hamas «não foi um acto de terrorismo de Estado – foi um acto de guerra». E diz mais: foi «um acto de guerra eficaz, porque pela liderança se debilitam exércitos.»
Estou confuso. Se o que ali se vive é uma guerra, se o Hamas é um exército, estará o João Pedro a defender que os atentados bombistas são actos militares? Que os suicidas são soldados? E que tal aplicar a estes novos “soldados” , quando capturados, o estatuto de prisioneiro de guerra? E, sendo assim, seria então Ahmed Yassin um líder político de um dos lados? E, continuando nesta lógica, passaríamos a considerar o assassinato de líderes políticos com “exércitos” a seu cargo como “actos de guerra” admissíveis? Se sim, o assassinato de Sharon, um homem que já ordenou por várias vezes a morte de inocentes e o bombardeamento de alvos civis, também seria um acto de guerra aceitável? E o de Arafat?
Tento apenas seguir o tortuoso raciocínio do João Pedro Henriques. Para mim, Ahmed Yassin não é um líder político com um exército que está em guerra. A última vez que ouvi falar de uma Autoridade Palestiniana, o seu líder era outro. É que eu ainda faço alguma distinção entre guerra e terrorismo, entre militares e terroristas e entre Estados e grupos terroristas. E até acho que uma das coisas que os distingue é que os Estados devem comportar-se como tal, seguindo algumas regras ditadas pelo direito. Mas isto sou eu, que sou um bota-de-elástico.
Quanto ao que dizes sobre o texto do Pedro Oliveira, se o conheço bem, acho que nem vais ter direito a resposta.
Acabo de ver, na televisão, Jack Straw e Durão Barroso condenarem o assassinato do Xeique Yassin. Depois de os nossos bloggers de direita me terem quase convencido com os seus argumentos de regozijo pelo acontecimento, anseio agora por que ponham na ordem estes dois cagarolas. Entretanto, espera-se para breve uma defesa do bombardeamento da monarquia teocrática de onde vieram e onde se treinaram os terroristas do 11-M. Como fica aqui logo a seguir ao Algarve, até se trata de uma boa ocasião para os nossos falcões caseiros demonstrarem os seus predicados.
Lúcia, a "última pastorinha" de Fátima, faz hoje 97 anos. No convento carmelita de Coimbra onde vive, as dezoito monjas que ali vivem em clausura vão poder conversar durante o almoço [enaaa!] e dar um abraço à aniversariante [iuupiiii!]. Estragadas com mimos, hein?

Até hoje, os fundamentalistas do Hamas tinham o apoio de cerca de um quarto da população de Gaza e da Cisjordânia. A organização mais popular era a Al-Fatah, bem mais moderada e laica. Até hoje…
Sempre que há um atentado, há gente suficientemente estranha para o festejar. Hoje, foi a vez dele, dele, dele e dele. Que lhes saiba bem a morte de hoje e as que vêm depois por causa da de hoje e as que vêm depois por causa dessas e as que vêm depois...
Dialogar com a Al-Qaeda, nos termos em que Mário Soares propôs, é um rematado disparate. Mas é preciso colocarmos as perguntas certas se queremos afinar uma estratégia consistente para conter esta ameaça. Ao contrário do que algumas luminárias pretendem, o Terrorismo não recruta apenas os seus adeptos entre príncipes sauditas ou entre engenheiros formados na Alemanha. Recruta-os também junto das massas alienadas da Palestina e entre os muçulmanos inadaptados dos países ocidentais. A propósito do atentado de hoje, leia-se este comentário de Richard A. Clarke, antigo conselheiro presidencial norte-americano, na Time da semana passada:
Unfortunately, the CIA and the FBI have found al-Qaeda a hard target to infiltrate. Worse, as Secretary of Defense Donald Rumsfeld mused in an internal Pentagon memo, radicals who hate America are being turned out faster than we can arrest or kill them. Whatever we do to the original members of al-Qaeda, a new generation of terrorists similar to them is growing. So, in addition to placing more cameras on our subway platforms, maybe we should be asking why the terrorists hate us. If we do not focus on the reasons for terrorism as well as the terrorists, the body searches we accept at airports may be only the beginning of life in the new fortress America.
«O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa, sobretudo, de dieta mental.»
João César das Neves, in DN.
«Ministério da Segurança Social diz que, se tivesse números sobre a fome, localizaria as pessoas e estas seriam alimentadas».
in Público
Eu vejo-as todos os dias nas ruas de Lisboa, estarei a ter surtos psicóticos?
A propósito do lançamento do segundo livro sobre a sua actividade autárquica - que curiosamente nada diz sobre o Parque Mayer e o famigerado casino - onde constam 19 fotografias de Santana Lopes, o autarca admite ter havido algum exagero, de que culpa o seu gabinete. «Para o ano sou capaz de me impôr» perante estes serviços, adianta.
Como já noticiou o Pedro, Israel conseguiu finalmente assassinar o Sheikh Ahmed Yassin, líder do Hamas. Foi um trabalho higiénico, feito a partir de um helicóptero, com a sofisticação que se conhece ao exército israelita. Yassin foi o responsável moral por centenas de atentados, agora Israel atentou contra ele. Está certo, olho por olho, dente por dente. Pode não haver grande superioridade moral, mas o feito é enorme. Toda a gente sabe que sem o seu líder, os radicais palestinianos vão deixar de fazer atentados em Jerusalém ou Tel-Aviv, vão entrar na ordem, aceitar a submissão e a ocupação dos seus territórios. Não haverá mais homens e mulheres-bomba e a população israelita estará a salvo. O acto não foi muito legal, mas os resultados compensam. Pode não haver grande industria na Faixa de Gaza, mas com a benemérita ajuda de Sharon, nasceu hoje mais uma próspera fábrica de mártires.
Fevereiro de 1973: Comandos israelitas entram em Beirute e matam dois dirigentes da OLP.
Janeiro de 1979: Agentes israelitas matam Ali Hassan Salameh à bomba, em Beirute. Salameh tinha planeado o atentado de Munique.
Abril de 1988: Agentes israelitas assassinam Khalid al-Wazir (Abu Jihad), assessor de Yasser Arafat na OLP .
Fevereiro de 1992: Dirigente do Hezbollah, Sheik Abbas Musawi, é assassinado por ataque de helicóptero.
Outubro de 1995: Fathi Shakaki, dirigente da Jihad Islâmica é assassinado em Malta. Israel não assume a responsabilidade de levar a sua política de pacificação para fora do território.
Janeiro de 1996: O especialista do Hamas em fabrico de bombas, Yehiyeh Ayyash, é morto com uma bomba em Gaza. Israel assume a autoria do atentado.
Setembro de 1997: Dois agentes da Mossad são presos na Jordânia quando tentava assassinar o dirigente do Hamas, Khaled Mashaal.
Janeiro de 2002: Raed Karmi, um dos dirigentes das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa é morto por um atentado israelita.
Julho de 2002: Em Gaza, são lançadas bombas sobre a casa do comandante do Hamas Salah Shehadeh, que é morto com mais 14 pessoas.
Setembro de 2002: Comandante do Hamas Mohammed Deif é abatido por um ataque aéreo israelita.
Março de 2003: Ibrahim Makadmeh, do Hamas, é abatido, em Gaza, por um ataque aéreo israelita.
Junho de 2003: O dirigente do Hamas Abdel Aziz Rantisi é abatido, em Gaza, por um ataque aéreo israelita.
21 de Agosto de 2003: Três membros do Hamas, incluindo Ismail Abu Shanab e dois guarda-costas, são mortos por mísseis lançados por um helicóptero israelita. Morreram mais 15 pessoas.
24 de Agosto de 2003: Quatro palestinianos, todos membros do Hamas, são mortos num ataque de helicópetero em Gaza. Vários transeuntes feridos.
28 de Agosto de 2003: Um membro do Hamas é morto por um míssil em Gaza.
30 de Agosto de 2003: Dois palestinianos, ambos do Hamas, são mortos por ataque israelita. Vários feridos sem qualquer relação com o ataque.
1 de Setembro de 2003: Um membro do Hamas é morto por um ataque de míssil, um transeunte também morre. Mais 25 ficam feridos.
20 de Outubro de 2003: 14 palestinianos são mortos por mísseis israelitas no campo de refugiados em Gaza. Alguns teriam ligações a grupos terroristas, outros não.
7 de Fevereiro de 2004: Dois palestinianos são mortos por um ataque destinado à Jihad Islâmica, em Gaza. Entre os mortos está uma criança de 12 anos.
28 de Fevereiro de 2004: Três membros da Jihad Islâmica são mortos, em Gaza, por mísseis israelitas.
3 de Março de 2004: Três membros do Hamas são mortos, no seu carro, por um míssil, em Gaza.
22 de Março de 2004: Sheik Ahmed Yassin, líder do Hamas, é morto por um míssil.
Aqui, estão só os ataques a dirigentes de grupos terroristas e a dirigentes da OLP. De fora ficaram outros, bem mais sinistros, porque dirigidos a populações inocentes. De fora ficam todas as humilhações, cercos, demolições de casas e provocações a um povo. Aqui, os mortos de que se fala são terroristas ou dirigentes políticos (no caso da OLP). Apenas para verificar que esta estranha forma que um Estado tem para lidar com o terrorismo, confundindo-se com ele e usando os seus métodos, já tem uma longa história. Diz muito dos seus líderes (sobretudo do actual) e tem tido os resultados que se conhecem.
O exército israelita matou hoje o Sheikh Ahmed Yassin, «líder espiritual» do Hamas, em Gaza. Yassin, um inválido de cadeira de rodas, foi abatido por tiros disparados de um helicóptero Apache que o aguardava à saída de uma mesquita. É uma notícia gravíssima, de consequências imprevisíveis. Que Yassin não era boa rês, ninguém contesta. Mas os assassinatos políticos são sempre repugnantes e este vem numa altura especialmente delicada. Os atentados de Madrid chocaram muita gente no mundo muçulmano. A condenação universal da Al-Qaeda poderia contribuir para desacreditar o intergrismo islâmico junto dos sectores de opinião mais moderados nos países árabes. Acontecimentos destes anulam por completo esse efeito. E ajudam a concretizar a profecia de Samuel Huntington.

3481ª , 3482ª e 3483ª provas da teoria de Pacheco Pereira sobre a conspiração bolchevique na comunicação social. «A operação está em pleno», avisa-nos. Como diria Octávio: “vocês sabem do que eu estou a falar”. Como completaria Dias da Cunha: “é do sistema”. E não se deixem enganar pela omnipresença multimédia de Pacheco Pereira, todas as semanas, no “Público”, na SIC e na TSF. Não passa de uma manobra de diversão, ao serviço da grande operação vermelha para o controlo da comunicação social. Mas Pacheco Pereira está vigilante.

Luis Soler Pujol [atr.], Modelos anatómicos, c. 1920.

Já agora, a propósito de nada, mas porque a Primavera ainda é a Primavera, apetece-me propagandear o disco que ouvi durante a tarde. Para mim o melhor álbum de sempre da música cabo-verdiana (ex-aequo com Feiticeira de Cor Morena de Travadinha): o pouco célebre Coraçon Leve, de Hermínia, com músicas, letras e direcção artística de Vasco Martins. Uma música com tudo no lugar certo para um dia perfeito.
[Como aperitivo, tendes uma entrevista com o compositor aqui.]
Ler o dossier sobre a fome em Portugal que prepararam para o Público os jornalistas Andreia Sanches, António Marujo e Ana Cristina Pereira, entre outros, é um trabalho de resistência moral. Muitas vezes levantei os olhos do jornal para parar de ler, deixar o Sol bater-me na cara, e permitir-me esquecer que aquilo era tudo verdade.
De forma excepcionalmente bem sustentada, o dossier diz-nos o que todos sabemos: que voltou a haver muito mais miséria no nosso país. Tal como nos últimos anos de Cavaco, é fácil vê-lo, para cada um que ande de olhos abertos pela rua: mais sem-abrigo, mais velhos a pedir ao fim do mês, mais gente com uma vida normal a quem o desemprego não permitiu continuar a pagar as dívidas que quase todos temos para pagar as nossas casas. Com os defeitos que todos reconhecemos aos governos de Guterres, eles foram dos raros que não acharam que era natural existir gente a passar fome em Portugal. E agora voltamos ao mesmo: pelo menos 200 mil pessoas a passar fome, nas mais conservadoras das projecções. O que faz o governo? Diz Agostinho Jardim, o padre presidente da Rede Europeia Antipobreza: "Parece-me que este Governo, ainda mais o PP, ataca os pobres de um modo geral. Chama-lhes preguiçosos e isso é desonesto [...] O Governo aflige-se mais com as fraudes do Rendimento Mínimo do que com o dinheiro que não recebe do fisco."
Mas isto não faz mal nenhum, sr. Padre! A racionalidade económica vem aí. O país será competítivo. A produtividade aumentará. E depois disso, só serão pobres os que não souberem adaptar-se à sociedade globalizada. Nisso, o bolchevismo e o capitalismo prometem o mesmo: sacrifícios agora porque um dia tudo será fantástico.
Já agora, e enquanto tudo é um pouquinho menos do que fantástico, permitam-me citar Orwell pela segunda vez hoje neste blogue
«A fome reduz uma pessoa a um estado sem cérebro, e sem coluna vertebral, que se parece mais com os efeitos da influenza do que com qualquer outra coisa. É como se a pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer, ou como se não tivesse sangue, e o sangue tivesse sido substituído por água morna. A inércia completa é a minha principal recordação da fome; isso e ser forçado a escarrar com frequência, à medida que o escarro ganha uma estranha cor branca de algodão, como se fosse saliva de cuco. Não sei a razão do fenómeno, mas todas as pessoas que conheci e que passam fome durante alguns dias falam da mesma coisa.»
Na Penúria em Paris e em Londres, ed. Antígona, trad. Miguel Serras Pereira.

Foi por causa de textos como este que George Orwell transformou a escrita política numa arte. Nestes tempos tristes e acabrunhados em que vivemos, as suas reflexões sobre o acasalamento dos sapos parecem-me a melhor maneira de assinalar a mudança de estação. Mais atentados podem estar a ser preparados, o imbecil que governa a América será provavelmente reeleito, o nosso país afunda-se na crise económica, mas, como dizia Orwell, a Primavera ainda é a Primavera.
Anda tudo a discutir o diálogo com a Al Qaeda, a propósito das disparatadas declarações de Mário Soares. Mas trata-se do mesmo disparate em que se baseiam aqueles que julgam que a Al Qaeda poderá, um dia, render-se ou, enquanto organização, ser derrotada. Podemos reduzir o seu espaço de manobra ou até decapitar a sua cúpula. Seria desejável que tal acontecesse. Mas com isso continuaríamos longe da destruição do terrorismo islâmico fundamentalista, como se viu depois do desmantelamento das bases da rede no Afeganistão.
A Al Qaeda é uma rede, não é uma organização tradicional. Tem uma cúpula, dirigida por Osama bin Laden e apoiada por um conselho de dez membros. E tem quatro comités executivos para a actividade militar e treino, a educação religiosa, a actividade comercial e a divulgação e promoção.
Abaixo disto há uma estrutura fluida. Nuns casos, são células autónomas directamente ligadas à Al Qaeda, mas que se supõe não corresponderem a uma estrutura piramidal clássica. Em muitos outros casos, são organizações pré-existentes e que beneficiam do seu apoio. A Al Qaeda, formada originalmente por ex-mujahedines combatentes na guerra contra a ocupação soviética no Afeganistão de 1979 até 1989, fará hoje parte de uma outra organização, a Al-Jabhah al-Islamiyyah al-Alamiyyah li-Qital al-Yahud wal-Salibiyyin (World Front for the struggle against the Jews and the Crusaders). Esta frente reúne organizações como a Al-Gama'a al-Islamiyya e Al-Jihad, a Pakistan Scholars Society, o Movimento dos Guerrilheiros da Caxemira ou o Movimento Jihad do Bangladesh.
A Al Qaeda, que quer dizer “A Base”, em árabe, é uma organização multiterritorial com uma estrutura difusa. É muitas coisas ao mesmo tempo. Supõem-se que muitos dos atentados que são feitos em seu nome têm organizações regionais como seus executores e mentores. A Al Qaeda serve aqui como capa, dando, provavelmente, apoio logístico ou financeiro. Para dar um exemplo: os atentados a interesses britânicos em Istambul, no final do ano passado, foram reivindicados pela Frente de Combatentes Islâmicos do Grande Oriente e pela Al Qaeda, já que esta tinha ligações com aquela. A Al Qaeda tem, assim, uma estrutura hierárquica mínima e funciona sobretudo como uma rede de contactos e de apoio logístico e financeiro.
Tudo muito diferente de um país, de um partido ou de uma organização terrorista tradicional. Conectados através da Al Qaeda estão indivíduos, células locais e grupos com interesses diversos. Quem fez o atentado em Bali não queria exactamente o mesmo que os que fizeram o atentado em Nova Iorque ou Madrid. Limitam-se a ter alguns interesses convergentes, algumas fontes de financiamento comuns, alguma coordenação política e orgânica e, em alguns casos, treino “militar” coordenado.
Não têm, portanto, objectivos que possam ser negociados: o seu objectivo é a destabilização do Ocidente e, com ainda maior afinco, dos países árabes. Ninguém pode negociar por ela. Ninguém se pode render por ela. Mesmo que se pudesse negociar com a Al Qaeda, não consigo vislumbrar qual fosse o objecto da negociação.
Por isso, este debate é um não debate. E mostra como a ideia de que se está a travar uma “guerra” leva a completos absurdos argumentativos. No dia em que Al Qaeda negociasse ou se rendesse, a rede reformar-se-ia e nada de essencial se modificaria. A negociação é, neste caso, um logro tão grande como a guerra.
Mais eficaz seria atacar os instrumentos que a Al Qaeda usa para se financiar. A Al Qaeda usa, tal como o narcotráfico, muitos dos circuitos financeiros vulgares e legais. Beneficia, também como os narcotraficantes e os traficantes de armas, dos paraísos fiscais ou do segredo bancário. Mas, quando se fala disto, percebemos que há outros interesses a defender. A facilidade com que se quer restringir os direitos dos cidadãos ou se bombardeia um país é sempre maior do que a facilidade com que se põem em causa estes direitos intocáveis. E percebemos que o combate ao terrorismo pode parecer a principal prioridade dos governos ocidentais. Mas é só aparência.
A MoveOn tem um vídeo delicioso em que se vê o Rumsfeld a ser apanhado em directo numa muito embaraçosa falha de memória. A degustar devagar, saboreando o travo profundo e envolvente dos silêncios e dos engasganços, aqui.
P.S. Obrigado ao Eddie, nosso tio da América, pelo link
Numa perspectiva caridosa, os americanos invadiram o Iraque porque estavam mal-informados em relação ao arsenal de Saddam. A história do século XX oferece-nos, aliás, um rico anedotário no que concerne à "ignorância" dos decisores políticos norte-americanos (e nisso eles não são especialmente originais; simplesmente, o impacto global da sua ignorância é, por motivos óbvios, muito mais devastador). Hoje tropecei neste diálogo irresistível entre John Foster Dulles, Secretário de Estado de Eisenhower, e Walter Lippman, figura lendária do jornalismo americano, travado em 1954, logo a seguir à constituição da SEATO. Dulles tenta explicar a Lippman os motivos que levaram à inclusão do Paquistão na aliança:
"Look Walter, Dulles said, blinking behind his thick glasses. I've got to get some real fighting men into the south of Asia. The only Asians who can really fight are the Pakistanis. That's why we need them in the alliance. We could never get along without the Gurkas.
But Foster, Lippmann reminded him, the Gurkas aren't Pakistanis, they're Indians.
Well, responded Dulles, unperturbed by such nit-picking and irritated at the Indians for refusing to join his alliance, they may not be Pakistanis, but they're Moslems.
No, I'm afraid they're not Moslems, either. They're Hindus.
No matter, Dulles replied, and proceeded to lecture Lippmann for half an hour on how SEATO would plug the dike against communism in Asia"
(citado em Anita Inder Singh, The Limits of British Influence. South Asia and the Anglo-American Relationship, 1947-56)
Na Administração Eisenhower, Nixon era o vice-presidente. No último mandato de Nixon, esse cargo era exercido por Gerald Ford, que lhe sucedeu na presidência devido ao escândalo Watergate. Donald Rumsfeld e Dick Cheney, respectivamente Secretário da Defesa e Vice-Presidente da actual Administração Bush, tiveram ambos cargos na Administração Ford. O Paquistão, um dos principais aliados dos EUA na "guerra contra o terrorismo", apoiou o regime dos Taliban durante anos a fio. A Al-Qaeda tinha os seus campos de treino no Afeganistão governado pelos Taliban e foi aí que os atentados do 11/9 foram congeminados. Como dizia o malogrado Eduardo Guerra Carneiro, isto anda mesmo tudo ligado.
Embora alguns a considerem agonizante (sobretudo os que têm caído a pique nas visitas diárias), a blogosfera continua a atrair novos elementos. Pois hoje é com imensa alegria que vos anuncio a chegada do meu amigo Bruno Cardoso Reis, historiador português sediado em Londres, ao mundo dos blogues. Longa vida às tuas Cartas de Londres.
O meu afilhado Luciano decidiu pregar-me um raspanete por eu ter utilizado uma frase de Oliver Cromwell para desejar a rápida saída de cena dos líderes da coligação de guerra (agora, a rump coalition). Este género de remoques são típicos do Luciano: quando topa aquilo que pensa ser um deslize de alguém com quem não concorda, põe-se a remexer na livralhada e prepara um sermão cheio de referências eruditas. Descansem os leitores que eu não vou discutir aqui um tema tão arcano como a Guerra Civil inglesa do século XVII. Queria só dizer ao Luciano que me lembrei da frase porque ela é muito boa. De resto, e em nome do rigor, até lhe digo mais: eu conheço-a por outra via. Quem a popularizou foi Leo Amery num célebre debate na Câmara dos Comuns em Maio de 1940 e o visado era Neville Chamberlain. Agora, por favor, não me respondas usando o argumento imbecil de que 2003=1939, OK?
«Recebemos a sua carta aberta, entregue por um velhinho um pouco excêntrico. Por princípio, não respondemos a mulheres. Mas abrimos aqui uma excepção, por nos termos identificado com o seu estilo. Apesar das suas posições, apreciámos o seu nível argumentativo. As suas conclusões estão erradas, mas a posição de princípio está correcta. A senhora não está completamente perdida.
É a guerra, é a guerra.
Atenciosamente, Oussama»
Maria João Pires, em entrevista ao El Pais, a 19/03/2004
Excelente texto de Ana Sá Lopes, no Público .
O Cruzes Canhoto mudou de morada e juntou-se à weblog.com.pt. Mais um canhoto nesta grande casa. Bem-vindo.

A Guerra do Iraque começou há exactamente um ano. Justificação principal: o Iraque tinha armas de destruição massiva, sendo um perigo para todo o Mundo. Num ano, morreram 10.618 civis iraquianos por causa desta mentira. Números de ontem.
Hoje, há manifestações em todo o Mundo. Às 15 horas, em Lisboa, será no Largo Camões, e no Porto, na Praça da Batalha. Contra a guerra e contra o terrorismo.
A arruaça comuna de amanhã vai mesmo realizar-se, mas a nossa nobre Praça do Município vai estar defendida desta gentalha. Já ali houve muitas manifestações, até de homo... bem, vocês sabem. Mas isso era noutro tempo. Agora as coisas andam nos carris. Acabou-se o laxismo socialista. Estes agitadores, todos eles suspeitos de pedofilia latente, usando uma desculpa esfarrapada, pretendiam pilhar o Tribunal da Relação de Lisboa. Se julgavam que enganavam o nosso diligente governador com essa treta do Iraque, enganaram-se. A Pátria sempre vigilante está-lhe agradecida, senhor governador.
Governo espanhol tenta empurrar as culpas da sua mentira para relatórios dos serviços secretos.
E volta esta teoria. Por isso, mesmo sendo uma teoria inaceitável do ponto de vista do respeito pela democracia, é bom começar a falar dela.
A intervenção da Al Qaeda em Espanha tinha como objectivo deixar a sua marca no resultado eleitoral, disso ninguém duvida.
Se a Al Qaeda tinha preferência por algum vencedor, não sei. Não sei eu nem sabe Fátima Bonifácio. Sabemos todos uma coisa: que depois do atentado, a questão do terrorismo e do Iraque voltaria a pesar na escolha dos espanhóis. Essa era a única vitória que, com segurança, podemos dizer que a Al Qaeda queria e essa estava já assegurada antes das eleições, fosse com uma vitória estrondosa para o PP, optando pela linha da guerra, fosse com uma vitória do PSOE, apontando para outra saída.
Se o PP ganhasse queria dizer o quê? Que os espanhóis tinham sido atacados por um ataque de amnésia e se tinham esquecido do atentado? Claro que não. Queria apenas dizer que, estando as questões da guerra e do terrorismo de novo na ordem do dia, se tinham, perante o choque e a revolta, convertido ao caminho que Aznar delineou com Bush e Blair. Porque dificilmente outro assunto pesaria no voto, depois de um acontecimento de tal dimensão emotiva. Fosse como fosse, lá estaria a reacção à Al Qaeda.
No dia 12, nenhum comentador se arriscava a prever a reacção eleitoral dos espanhóis. Pois o que não sabiam os comentadores, não poderia seguramente saber a Al Qaeda. Sabia apenas o mesmo que nós todos: que o seu atentado pesaria.
A Al Qaeda preferia a vitória do PSOE? Porquê? Acho altamente improvável que a Al Qaeda queira a saída das tropas da coligação do Iraque. Partindo do discutível princípio de que a Al Qaeda, tratando-se de uma rede de organizações bastante heterogénea, tenha objectivos tão claros, parece-me mais provável que prefira a presença do “Grande Satã” em território árabe. A Al Qaeda não quer a paz no Iraque, quer guerra global, em todos os cantos do Mundo. Como o Hamas não quer a paz na Palestina. Como a ETA não quer referendo nenhum no País Basco. O terrorismo alimenta-se do ódio e o ódio alimenta-se do conflito.
Por isso, o que devemos debater em relação às eleições espanholas, não é quem cedeu a quem, nem que intenção teria a Al Qaeda. Estou-me borrifando para o que queria a Al Qaeda nas eleições espanholas. Recuso-me a ser refém da sua lógica. Quero é saber o que é melhor para o Mundo e para a Europa: a guerra sem quartel ou o combate à espiral da violência.
Todos pediram aos espanhóis que não deixassem de votar. Assim fizeram, diminuindo drasticamente a abstenção. Que Fátima Bonifácio se irrite com a escolha que os espanhóis fizeram em relação à política externa do seu país, é uma coisa, agora que nos diga que uma vitória do PSOE é uma vitória da Al Qaeda é apenas uma vergonha. E esta vergonha começa a enjoar. Esta colagem do PSOE à Al Qaeda é um insulto à democracia. Que aprendam a perder. Contestem a escolha que os espanhóis fizeram em matéria de política externa, mas não nos digam que não é uma escolha.
"Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe, e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá recama: e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar".
P.e António Vieira, Sermão do Espírito Santo, São Luís do Maranhão
Cartaz de Luís Branco para o Barnabé e o Grão de Areia.
O Governo Civil de Lisboa (um feudo do CDS/PP) não gostou do trajecto da manifestação de amanhã, que começa às 15h00 nos Largo do Camões, e deu sinais de a querer proibir. Arranjou uma desculpa extraordinária: ao passar pela Rua do Arsenal, a manifestação pode constituir um perigo para o Tribunal da Relação de Lisboa. Isto, apesar desta ter sido uma das ruas por onde passou a primeira manifestação contra esta Guerra, a 15 de Fevereiro do ano passado, sem que isso tivesse constituído qualquer problema para o mesmíssimo Governo Civil. A manifestação continua marcada, claro, com o mesmo trajecto, já que, sendo num fim-de-semana, não irá perturbar a vida de ninguém. A não ser a de quem não gosta muito de um direito que, há 30 anos, os portugueses conquistaram: o de se manifestarem. Aguentem, que não têm outro remédio.
Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa
[Era um Redondo Vocábulo,
Venham Mais Cinco, José Afonso]
Vindo da música nasceu um nome, com uma vida ainda imaginada. Depois nasceu o sentido de tudo, de estar vivo e de nunca querer morrer. Hoje somos só nós os dois e o Mundo lá fora não interessa para nada.
PS: Prometi nunca ser intimista e muito menos piroso. Mas tenho esta fraqueza. Bom Dia do Pai para todos. E para os pais emprestados também.
- O mundo está mesmo terrível. Já viste uma criança que nasça hoje o que vai encontrar?
- Desculpa lá, mas isso é mesmo conversa de velhote. E as crianças que nasceram em 1900, e aos 18 anos tiveram de ir para a Flandres combater? E as que nasceram durante a guerra dos 30 anos? E as que nasceram em Milão há 30 anos?
NO MATARÁN! MANIF. DIA 20, 15H30, LRG. CAMÕES, LISBOA, PR. BATALHA, PORTO
Manda para os telemóveis dos teus amigos
Durão Barroso, RTP: o terrorismo é o «nazismo dos tempos modernos».
Vai ouvir das boas de Pacheco Pereira e do Blasfémia: qualificações como "fascizante" e "nazismo" «destinam-se exclusivamente a fazer passar a mensagem: vejam lá que os culpados não estão só deste lado, mas de todos os lados. Se calhar em lado nenhum.» Não passa de «uma triste forma de tentar branquear responsabilidades óbvias».
E a limpeza étnica virtual promete continuar.

Aaron Siskind, Savoy Dancers, Harlem, c. 1937.
Se hoje, na estação do Oriente, estivesse, de um lado, uma criança a ser abordada por um homem estranho, e do outro, uma mochila abandonada, o que chamaria a atenção de toda a gente? A mochila, claro. É que foi isso que apareceu nos telejornais da última semana. Não é culpa de ninguém, é mesmo assim.
João de Deus Pinheiro continua a ser indicado como o nome mais provável para encabeçar a lista de candidatos dos dois partidos (PSD/CDS) às eleições de 13 de Junho. Uma grande conquista para o golfe português.
Faz hoje um ano que foram presos. São escritores, jornalistas, oposicionistas. São 75 e as suas penas, todas juntas, somam 1475 anos de prisão. Crime: ter opinião. Alguns estão encarcerados em solitárias com 3 por 4 metros e com direito a uma visita de três em três meses. A sua prisão aconteceu dois dias depois da Cimeira dos Açores, aproveitando a distracção do Mundo. Mas o Mundo não está distraído, e continua a exigir a libertação de todos os presos políticos em Cuba, a exigir liberdade e democracia. Cuba há de vencer. Sem o bloqueio económico, que ajuda a eternizar Fidel no poder. Sem Fidel, que se eterniza no poder como se do seu quintal se tratasse.
Mais acrescentos na lista de blogues, aqui na coluna à esquerda: Estaleiro, Food-i-do, A Formiga de Langton, Jaquinzinhos, Lâmpada Mágica, Memória Virtual, Ondas, Sous les Pavés la Plage e Tomara que Caia.
E assim como nascem, morrem. Faz parte da vida. Saem da coluna da esquerda: O Complot, Desejo Casar, Flor de Obsessão e Outro, eu. Todos eles com grande pena nossa.
Entretanto, o Rui acrescentou mais um servicinho aqui em baixo dos posts. Se quiser enviar o link de um post do Barnabé a alguém, só tem de clicar em enviar. Façam bom proveito.
As palavras dirigidas por Oliver Cromwell ao “Longo Parlamento” em 1653 assentam que nem uma luva aos líderes da coligação de guerra: “You have sat too long here for any good you have been doing. Depart, I say, and let us have done with you. In the name of God, go!”
Venho por este meio agradecer aos blogues mais fervorosos na defesa da guerra pela excelente campanha que estão a fazer à campanha que outros tantos blogues lançaram para promover a manifestação de dia 20 por SMS. Têm sido inesperados aliados para o sucesso desta acção. No entanto, e seguramente por lapso ou falta de atenção, não têm escrito nos seus posts bem-humorados a hora e os lugares das manifestações: 15h00, Largo Camões (Lisboa) e Praça da Batalha (Porto). A todos os blogues mais bem-dispostos da direita agradecia só mais esta ajudinha.
Estou muito de acordo com o sentido do ultimo post do Pedro sobre a questão da segurança, nomeadamente quando ele diz que «é urgente abrirmos avenidas de discussão que rompam um esquema de debate polarizado entre os securitários, de um lado, e os libertários intransigentes, do outro.». Vamos ver o que acontece no concreto e o que a Europa vai fazer, e depois voltamos a discutir com mais elementos.
Entretanto, tenho a sensação de que se subiu mais um degrau na escalada do tom polémico nos blogues politicos. O que é (mais) um mau sinal dos péssimos tempos que correm. Cada parte reclama uma verdade tão evidente que entra pelos olhos dentro e acusa o adversário (o inimigo) de cegueira. Mas a reivindicação da verdade aumenta em proporção do afastamento irreconciliável das verdades de cada parte. Neste combate, não há analistas objectivos dos factos que se possam pôr de fora (alias nunca há) e todos reivindicam a objectividade dos factos. Não é um post relativista. Pergunto : como é que vocês, que defendem a guerra, são capazes de não ver que os laços existentes entre a al-Qaeda e o Iraque são uma consequência do ataque ao Iraque, que os transformou em aliados objectivos, e não uma justificação para a guerra? E, no entanto, acho que já não convenço ninguém de fora do meu campo desta verdade cristalina. As palavras vão atrás das bombas, é assim. O que é que podemos fazer?
«O que me interessa não é a análise espanhola ou europeia, ou americana, é a análise da Al-Qaeda». José Pacheco Pereira, in Público.
CONTRA O TERRORISMO E A GUERRA, MARCHAR, MARCHAR! MANIF. DIA 20, ÀS 15H00, NO LRG. CAMÕES (LISBOA) E NA PR. BATALHA (PORTO)
Manda para os telemóveis dos teus amigos
Berlusconi continua a defender a tese da ETA. Disse ontem perante um jornalista do La Stampa que a matança de Madrid não poderia ser obra apenas da Al'Qaeda, porque os autores do múltiplo atentado teriam decerto que ser "gente sofisticada", e não "meia-dúzia de beduínos da Al'Qaeda".
Se Berlusconi não existisse teria seguramente de ser inventado. Quem mais conseguiria desta forma e em tão poucas palavras reunir compreensão lenta, chauvinismo e ignorância? É um virtuoso.
Desemprego? Guerra? Terrorismo? Bush? Mais dois anos de Durão? Não desesperes e assobia.
Primeira parte aqui.
Agora que Dina se passou para a Nova Democracia, o Barnabé tem o prazer de oferecer ao CDS/PP um novo hino, por ocasião dos seus 30 anos.
Pacheco Pereira, ainda mal convertido do estalinismo mental, detesta o debate. Gosta mais da insinuação e nunca tem a coragem suficiente para o confronto frontal, com oponentes claros e identificados. Gosta de falar dos “jornalistas”, mas não gosta especialmente de os nomear, não vá perder alguns contactos que lhe permitam a exposição de que goza. Gosta de falar de blogues, mas não gosta de concretizar quais, não vão os blogues em causa responder-lhe.
Neste caso foi fácil identificar, porque foi por aqui que a frase nasceu, a propósito da manifestação do próximo sábado: «Terrorismo e Guerra, Basta Ya». JPP, sem fazer link e sem dizer de quem falava, acha que «gente que não é capaz de dizer a simples frase "a ETA é terrorista", usa de forma indigna o nome de "Basta Ya"».
Estivesse JPP mais atento e saberia que neste blogue nunca tal foi nem problema, nem sequer debate. Enquanto JPP se dedicava à sua humilhante condição de oposição a um partido com 3% (o que diz muito do estatuto que o ex-lider da bancada do PSD hoje tem), aqui falava-se dos acontecimentos de Madrid, da ETA e da Al Qaeda. Que JPP tenha ido buscar esses fantasmas ao seu passado de paixão pela violência revolucionária, isso é coisa que deve resolver com as suas próprias memórias. Se JPP teve dúvidas, eu nunca tive: é claro que a ETA é uma organização terrorista. Dizer que a ETA é terrorista é quase uma redundância. E confesso que não me recordo de ninguém que sustente o contrário. Talvez JPP, com o seu passado pleno de aventuras, me possa apresentar alguém.
Só continuo à espera que, mal acabe a sua perseguição semântica e o seu exercício quotidiano de insinuação metódica, JPP arranje algum tempo para falar das vítimas do 11 de Março, coisa que ainda nem se deu ao trabalho de fazer. Já nem peço que escreva qualquer coisa de relevante em relação ao que se passou esta semana em Espanha e sobre os seus efeitos no resto da Europa. Sei que participa pouco nos debates europeus, mesmo nos que se passam no seu local de trabalho. Seria exigir demais. Bastava que desse algum sinal de sensibilidade. Não será pedir muito, pois não?
PS: Ao contrário do que mandam as regras do Barnabé, não linkei JPP. Vocês conhecem o endereço, está na coluna à esquerda. É que as regras de boa educação exigem reciprocidade.
Os Ingratos dos Espanhóis, na Laranja Amarga.
Caro André,
É com imenso agrado que te vejo trocar as tuas velhas referências relativistas pelos nomes mais ilustres do liberalismo clássico. Qualquer dia ainda acabas como o Fernando Gil. Julgava ter dissipado algumas dúvidas acerca do meu apego às liberdades burguesas no post anterior, mas após ter lido a tua réplica já não estou tão seguro. Há aqui duas questões acerca das quais eu gostaria de me explicar melhor. A primeira tem a ver com a oportunidade desta discussão logo a seguir a um atentado horrendo que provocou uma comoção geral na opinião pública europeia. É um momento delicado porque se presta a todos os oportunismos e derivas populistas – é a hora dos João Jardim, dos Sarkozy e dos Haiders, dos que defendem um reforço draconiano das medidas de segurança, muitas das vezes contra os imigrantes e outros grupos mais vulneráveis. Porque isso lhes dá os votos das pessoas mais assustadas e porque da democracia todos eles têm uma visão bastante instrumental. É também a hora das reivindicações corporativas mais extravagantes – por exemplo, os militares que descobrem que o combate ao terrorismo lhes oferece um excelente pretexto para mostrar serviço e pedinchar mais um submarino (nestes últimos dias ouviram-se sugestões verdadeiramente espantosas, como a de pôr F-16 a sobrevoar os estádios do Euro). Estou por isso ciente de que esta pode ser uma discussão armadilhada, por muita ponderação e racionalidade que pretendamos injectar no debate. No entanto, é, a meu ver, uma discussão inadiável. Não adianta assobiarmos para o ar e esperar que volte tudo à normalidade porque isso não vai acontecer. E se a esquerda não marcar posições neste debate, as consequências a longo prazo poderão ser trágicas. Mais dois atentados em grande escala, e é a enxurrada. Aí, garanto-te, se a direita estiver no poder aprova tudo o que muito bem entender: suspensão de habeas corpus, escutas telefónicas não controladas, interrogatórios sem a presença de advogados, you name it. É por isso urgente abrirmos avenidas de discussão que rompam um esquema de debate polarizado entre os securitários, de um lado, e os libertários intransigentes, do outro. Isto, repara bem, não equivale a qualquer “rendição” em matéria de princípios e valores. Eu não troquei o Benjamim Constant e o Stuart Mill pelo Maquiavel e o Carl Schmitt. Trata-se apenas de, entre outras coisas, definirmos algumas áreas prioritárias de intervenção. O que me traz à segunda questão: quando eu falo em reforçar medidas de segurança, de que é que estou a falar? De duas coisas fundamentais. Uma consiste em patrocinar uma cultura de segurança associada a uma cidadania responsável e aos valores do Estado de direito. Repara que isto tanto se pode aplicar à segurança rodoviária como à prevenção de incêndios ou ao combate ao terrorismo. Neste último caso, pode significar a afixação nas estações de metropolitano de avisos contra objectos abandonados, ou a remoção de caixotes do lixo de todos os locais públicos fechados (duas medidas elementares que não estão em vigor em Portugal). Significa ainda que todas as medidas tendentes a reforçar os poderes de polícias e magistrados deverão ser rigorosamente escrutinadas por órgãos de fiscalização e que a sua aprovação legislativa deverá ser sempre precedida de um amplo debate. A segunda consiste em dotar as autoridades competentes dos instrumentos de combate ao financiamento das redes terroristas, o que implica um assalto a alguns paraísos fiscais ou a quebra do sigilo bancário, ou o reforço da cooperação internacional entre forças policiais e serviços de informação. Como vês, nada disto corresponde propriamente à agenda de uma direita securitária. Corresponde sim à agenda de uma esquerda reformista que noutros momentos históricos mostrou ser capaz de se adaptar a um mundo em mudança.
Bin Laden não ganhou quando lhe aceitaram a sua declaração de guerra. Bin Laden não ganhou quando Bush usou o termo "cruzada" ao referir-se à "guerra contra o terrorismo". Bin Laden não ganhou quando a direita comprou a ideia do "choque de civilizações". Bin Laden não ganhou quando lhe abriram as portas do Iraque e aí lhe proporcionaram o caos. Bin Laden, em geral, não ganhou enquanto fizeram tudo o que ele mais desejava.
Bin Laden só ganhou quando a maior parte dos espanhóis optou por um voto contra a guerra.
"O insulto ao árbitro é apenas um escape, uma evasão química"
Bagão Félix, ao Discurso Directo da Sic Notícias.
Mentiroso! Hipócrita!
Desculpem. Já me sinto muito melhor depois desta evasão química.
Hoje à noite sonhei que estava a trabalhar demais e a ganhar de menos, que me deviam pagamentos em atraso e que estava com contas para pagar já em cima da data limite. Estranho, não é? Os meus sonhos estão cada vez mais realistas.

A VERDADE CONTRA A GUERRA. MANIF. DIA 20, 15H30, LRG. CAMÕES, LISBOA, PR. BATALHA, PORTO
Manda para os telemóveis dos teus amigos
A Bombardier vai fechar as portas. São 400 a 500 trabalhadores da zona de Lisboa que ficarão desempregados. É um centro de engenharia de ponta que é encerrado. É a única empresa portuguesa de construção de material ferroviário que deixa de existir. Venha o TGV, para podermos emigrar mais depressa.
Euro 2004: Portas admite que Forças Armadas poderão ajudar no policiamento.

TERRORISMO E GUERRA, BASTA YA. MANIF. DIA 20, 15H30, LRG. CAMÕES, LISBOA, PR. BATALHA, PORTO
Manda para os telemóveis dos teus amigos
“Carvalhas responsabiliza Durão por eventual atentado”. O inevitável Manuel Monteiro já dissera que Portugal era um alvo e exigia o encerramento das fronteiras. Se se instalar um ambiente de histeria e de medo colectivos, Carlos Carvalhas com Manuel Monteiro já têm o seu quinhão de responsabilidade.
Estão a ver, não estão? Primeiro, Nova Iorque, depois, Casablanca, a seguir, Madrid, por fim, Esposende. Alguém tem de explicar aos jornalistas que o ridículo mata e que é uma irresponsabilidade o clima de histeria que estão a criar.

Cartoon de António
«Temos um regime político inepto que impede hoje os portugueses de poderem gozar das condições necessárias de segurança », disse ontem Alberto João Jardim.
Para todos os que se mostram disponíveis a ceder em direitos e liberdades em favor da segurança, nada como ouvir este tipo de gente a aproveitar a deixa para falar do nosso “regime político inepto” e a pedir regras mais "seguras". E recordar que este homem está à frente de uma instituição do Estado democrático. Ele pode parecer uma anedota – e é –, mas na Madeira é um pouco mais do que isso. E em tantos lugares, em tantas instituições do Estado, há tantos outros, como ele, só à espera da primeira cedência. Serão a excepção? Provavelmente. Mas os direitos são para nos defender da excepção.
«Aumenta a pressão da Casa Branca para que John Kerry identifique os dirigentes mundiais que lhe terão dito que o querem ver a substituir George W. Bush na Presidência.».
Pode ser tentador, John, mas aguenta-te. Não te armes em bufo. É que o homem tem problemas com a auto-estima. Sabe-se lá como pode reagir.

Passou estranhamente desapercebida a notícia do milénio – e estamos apenas em 2004. Confiram aqui.

Nós já sabíamos que quando chega a altura de encontrar nomes infelizes, ninguém bate os eurocratas de Bruxelas. Mas, a fazer fé nalgumas notícias, a última criação do Eurospeak supera tudo o que se podia imaginar. "Senhor Terrorismo": é assim que deverá ser conhecida a figura que terá a cargo a coordenação dos esforços europeus na luta contra Bin Laden & Cª.
Vou tentar ser breve. Desculpa a pretensão mas, por uma vez, vou falar em nome da esquerda. Uma das coisas que a esquerda em que me tento situar aprendeu com o liberalismo político é que com os direitos fundamentais não se transige. Pegando na cultura política esquerdista que bebi no biberão, as "liberdades burguesas". Essas mesmo. Contra parte da sua tradição (jacobina, marxista), a esquerda aprendeu, ou devia ter aprendido, que elas têm um valor em si. Ou seja: não se relativizam. Quando se relativizam, perdem valor. Muita gente acusa a esquerda de relativismo moral e degradação de valores. São se calhar os mesmos que relativizam os direitos individuais na primeira esquina. É a frase de Franklin que o Daniel ontem citou: ser de esquerda hoje é citar Franklin, Stuart Mill, etc, lá onde o seu pensamento dói de tão actual. Guantánamo, com pessoas tratadas de forma infamante sem o menor direito jurídico, apenas é o extremo (espero) de uma forma de degradação que começa em tratar como suspeitos certos fenotipos. Medida absolutamente racional, de antes prevenir que remediar, essa de levá-los para Guantánamo: e se eles realmente tivessem participado no 11 de Setembro? Alguns voltaram para casa, dois anos depois, livres de suspeitas, com danos psíquicos e físicos irreparáveis.
Depois, as medidas securitárias são um ansiolítico: têm tanto de prevenção de atentados como de paliativo para a insegurança crescente das pessoas. Ora, como defende outro grande sociólogo (e vão dois), Zygmunt Bauman, a insegurança crescente das pessoas não é apenas física, derivada de fenómenos como o terror. Tem outras origens, relacionadas com a incerteza e a falta de estabilidade da vida social. Ao reforçares a segurança física, consolas um tipo de insegurança, mas não os outros. Lamentavelmente, como somos humanos, tendemos a misturar todos. Resultado: vamos continuar a precisar do ansiolítico para atacar os sintomas, mas sem nos curarmos. Nota que não estou a dizer que tenho a cura, apenas que esta terapia não é a melhor.
Enfim, a al-Qaeda já demonstrou, e infelizmente vai continuar a demonstrar, que a sua poderosa tecnologia (redes completamente "moles", descentradas, "adormecidas") contorna os mais infalíveis sistemas de segurança. A administração e os exércitos são elefantes territoriais, a al-Qaeda quase não tem corpo. Põe segurança em Atocha, no metro de Londres: haverá outra discoteca noutra Bali para explodir no ano que vem. É longe? É onde estão os turistas alemães. A guerra da segurança, parece-me, é outra que não pode ser verdadeiramente ganha. A não ser transformando o mundo num gigantesco "apartheid". Mas isso, em tempos de globalização, nem o mais poderoso exército da terra consegue.
Obrigado ao Blasfémia.
«Não há ameaças credíveis dirigidas ao nosso país» . Bem, haver até há, e há dois anos que estão no governo. Quanto a serem credíveis…
Há uma campanha no “Diário de Notícias” contra João Pereira Coutinho. Duvidam? Vejam estes dois títulos, um na edição impressa, outro na edição on-line:
“Coutinho nas mãos do Governo”. Injusto.
“Demolição de Coutinho de utilidade pública”. Um pouco exagerado.
«Belmiro Azevedo admite deixar Portugal se Governo dificultar expansão», diz a LUSA. É impressão minha ou foi este senhor que ameaçou há uns anos que se iria embora se houvesse reforma fiscal? Como não houve, ficou. Desta também ficará. Imaginam qual é o ordenado de um caixa de supermercado na Holanda?
P - Como é que se pode combater este tipo de terrorismo?
R - Desde o momento em que tem pouco a ver com Médio Oriente, qualquer aventura militar - que vise controlar um território ou destruir um exército - é um absurdo. Vemos todos os dias que a ocupação do Iraque não muda nada. Só o Afeganistão tinha um sentido, na medida em que a Al-Qaeda tinha aí uma base territorial. Mas já não há aí nem um exército nem uma base territorial... Não podemos portanto combater a Al-Qaeda senão através da polícia, dos serviços de informação e da justiça. No plano político, é preciso fazer tudo para que esta rede - que não tem nem ramo político, nem reservas na sociedade, nem simpatizantes, nem intelectuais, nem jornais, nem sindicatos - não venha a ter bases sociais. É um grupo activista que é preciso isolar. E há uma única resposta para isso: a integração do islão e dos muçulmanos.
Da entrevista de Olivier Roy, director do CNRS e autor de vários livros sobre o mundo islâmico, ao Público de ontem.
No dia do atentado em Madrid, Aznar ligou, pessoalmente, aos directores de todos os principais jornais de Espanha para lhes garantir que o atentado fora obra da ETA. «Ha sido ETA, no tengas la menor duda», garante o jornal catalão “El Periódico”.
PS: José Manuel Fernandes já terá telefonado para Madrid a exigir explicações por ter sido esquecido?
O editorial de hoje do Público, assinado por Manuel Carvalho, exemplifica bem as leituras distorcidas e equívocas que se têm feito das eleições espanholas. Carvalho acha lamentável que Zapatero tenha anunciado a retirada das tropas espanholas do Iraque após 30 de Junho, caso a ONU não assuma um papel-chave na transição iraquiana, escassas horas após a sua eleição. Ora, numas eleições onde os cidadãos terão punido o governo sobretudo pela forma como este manipulou a informação relativa aos atentados de quinta-feira, é de louvar que Zapatero tenha assumido de forma inequívoca a intenção de honrar a sua principal promessa eleitoral. Se os eleitores castigaram a mentira, é bom que o novo primeiro-ministro privilegie a linguagem da verdade. Não perceber isto é não entender o profundo desencanto que milhões de europeus e norte-americanos experimentam hoje em relação às meias-verdades que os seus governos lhes impingiram no último ano. E, em democracia, os cidadãos vivem sempre mal com a mentira. Mesmo quando esta lhes é apresentada em termos piedosos.
Meu caro Pedro,
Estou seguro que o André te responderá, mas quero aqui meter a colher em discussão alheia.
Dizer que se tem confiança nas instituições é daquelas frases de efeito que não querem dizer rigorosamente nada. Eu confio ou não confio em pessoas e as instituições são dirigidas por pessoas. Não olho para as instituições como se elas não estivessem enquadradas num determinado momento histórico e submetidas às prioridades políticas de quem as dirige. E não faltam, nos últimos tempos, exemplos de abusos e de manipulações. Acho mesmo que uma regra da democracia é ir aperfeiçoando o funcionamento das instituições, sem nunca deixar de desconfiar delas. A desconfiança metódica é uma regra da separação de poderes e das garantias democráticas. Sobretudo depois de tudo o que se passou em relação às armas de destruição massiva, depois do Patrotic Act, depois de Guantanamo, depois do que se passou, durante dois dias, em Espanha, no que toca à tentativa de manipulação eleitoral por via de uma mentira.
Acreditar que a direita mais conservadora e agressiva, que hoje dirige parte dos países da Europa e os Estados Unidos, não aproveitará este momento para realizar alguns dos seus sonhos mais antigos, destruindo garantias pelas quais nunca esconderam o seu desprezo, que não aproveitarão para fazer um combate sem quartel contra a imigração, que não tentarão limitar a liberdade de imprensa, de organização e de manifestação, isso sim, é ingenuidade. E a ingenuidade, em política, paga-se sempre muito cara. Repito: disponíveis para ser incomodados, indisponíveis para ceder a nossa liberdade. E nisso os cidadãos devem ser intransigentes.
Meu caro André,
A abrir, um novo ponto de ordem. Quando falo da necessidade de reforçar as medidas de segurança para combater o terrorismo, queria que ficasse bem claro que nem por um segundo estou a fazer a apologia de Guantánamo, dos tribunais militares americanos ou do uso de técnicas de interrogatório que se aproximam perigosamente da tortura. O combate ao terrorismo não pode ter como preço a abdicação das normas do Estado de direito ou dos mais elementares valores humanistas. Isso seria a vitória final dos terroristas, como tantas vezes já foi sublinhado. Mas, e aqui convém que não sejamos excessivamente ingénuos, haverá sempre momentos em que será difícil calibrar a actuação das forças policiais em função das normas legais que protegem os direitos dos indivíduos. O nosso direito à privacidade será posto em causa mais frequentemente e, como a investigação do processo Casa Pia pôs em evidência, vai haver momentos de fricção entre as exigências da investigação de polícias e magistrados e a esfera de autonomia dos cidadãos. Mais uma vez, temos de confiar que as instituições do Estado democrático e a imprensa livre actuem no sentido de denunciar e corrigir os excessos que possam surgir.
Agora, quanto aos exemplos que tu me deste, confesso que não me convencem. Já que estamos numa onda de partilha de experiências pessoais, posso-te dizer que estive recentemente a trabalhar num arquivo inglês onde era revistado duas vezes antes de chegar à sala de leitura, e uma outra vez à saída. O edifício estava equipado com um circuito de video-vigilância e guardas fardados patrulhavam a sala de leitura. Isto, aliás, já se passava antes do 11/9 (havia as bombas do IRA). Um dia perguntei porque eram tão estritos em relação ao material permitido na sala de leitura (um lápis e folhas brancas apenas), e a resposta que obtive foi eloquente: um dia, uma senhora australiana foi apanhada a sublinhar documentos a tinta fluorescente porque não lhe passava pela cabeça que estes pudessem ser verdadeiros! Na nossa Biblioteca Nacional, por exemplo, as pessoas levam quase tudo o que lhes apetece para dentro e alguns até saem de lá com páginas rasgadas de livros antigos para poupar nas fotocópias. Outro exemplo: num voo que fiz recentemente, Londres-Copenhaga, estava numa fila repleta de executivos com as suas malinhas, fato às riscas e Financial Times debaixo do braço. Todos entraram normalmente sem serem revistados e eu, mal barbeado, jeans e t-shirt, e moreno, fui o único a ser minuciosamente revistado. Fiquei muito incomodado? Não especialmente - se queres que te diga, quem não deve não teme e eu sinto-me mais confortável se vir a segurança a funcionar. E se os polícias tendem a revistar mais vezes indivíduos do sexo masculino e de tom de pele mais escura, isso é por uma questão de regularidade estatística, não por preconceitos raciais (bem, não sempre). Depois do 11/9, ainda está para ser apanhado o primeiro louro ariano arregimentado pela Al-Qaeda. Compete aos responsáveis políticos fazerem um discurso pedagógico nestas circunstâncias. Explicarem que as medidas de segurança não incidem sobre determinadas comunidades por razões de raça ou credo religioso. Se a Mesquita de Finsbury Park é vigiada pelo MI 5, tal não se deve ao facto do Estado britânico considerar todos os muçulmanos potenciais terroristas, mas sim porque há indícios de que o Iman local prega o ódio e a intolerância religiosa (o mesmo exemplo poderia ser aplicado a grupos de skinheads de extrema-direita, sem que isso pressuponha um preconceito estabelecido contra quem usa botas Doc Martens e ouve Mata-Ratos). Aliás, se o Ocidente quiser travar uma luta eficaz contra o islamismo radical tem mesmo de contar com a cooperação das comunidades muçulmanas que vivem entre nós e com a boa-vontade dos Estados maioritariamente muçulmanos - e neste capítulo, a Guerra do Iraque e Guantánamo foram um autêntico tiro no pé.
Seguindo a lógica que tomou quase toda a direita em relação aos resultados eleitorais em Espanha, preparei alguns slogans para a próxima campanha eleitoral da coligação PSD/CDS:
“Não cedas à explosão
Com o voto na oposição”
“O voto socialista
Ajuda o terrorista”
“Não sejas medroso
Vota no Barroso”
Aceitam-se, na caixa de comentários, mais contribuições.
A direita blogosférica não navega toda no mesmo sentido. É justo sublinhá-lo, sobretudo numa altura em que, como diz o Ivan, é provável que o debate vá amargar. Um bom exemplo são as discussões entre os lobos do mar em torno da leitura política das eleições espanholas.

Primeira página do Público de 17 de Março de 2003.

Estamos em época de balanços e de posts mais longos. Esperemos que passe. Vou então contribuir para o debate que aqui se instalou sobre a segurança e o combate ao terrorismo.
Faz hoje, dia 16 de Março, um ano que, na Base das Lajes, a coligação entre Bush, Blair e Aznar (com mais um penduricalho a querer aparecer, sem sucesso, na fotografia) decidiram o começo da guerra. Usaram a mentira das armas de destruição massiva, mas enquadraram esta espiral bélica num cenário de combate ao terrorismo. A agenda prioritária de combate ao terrorismo foi definida por eles e é justo começar a pedir contas.
Das armas de destruição massiva, nem vale a pena continuar a falar. Foi uma mentira. Mais nada a dizer. Sobre o terrorismo, aí sim, vale a pena fazer a mais pragmática das perguntas: desde o Afeganistão até hoje, com especial atenção para a ocupação do Iraque, a estratégia resultou? A resposta só pode ser uma: não, muito pelo contrário. Foi um falhanço colossal. A situação é hoje pior e não melhor.
Dirão que arrepiar caminho e mudar de estratégia será uma cedência. Não, é a consequência de uma simples constatação: esta estratégia, a da guerra sem quartel e da invasão de países, não resulta. E quem a delineou deve ser julgado por todas as mentiras que usou no caminho, claro, mas também pelo seu falhanço. E mais: deve ser julgado por ter, por várias vezes, usado o argumento do terrorismo com objectivos que não o do combate ao terrorismo. Para invadir um país, quando na realidade os seus objectivos eram bem menos nobres, e para ganhar eleições por via do medo. E das suas mentiras são os únicos culpados.
São as mesmas pessoas que defenderam esta estratégia falhada que hoje nos pedem uma outra, que querem somar à da guerra: que limitemos as nossas liberdades em favor da segurança. Que passemos a viver em Estado de Sítio e em economia de guerra. Que prescindamos da nossa liberdade e das nossas conquistas sociais em favor de uma estratégia falhada. A resposta terá de ser negativa. Por isso, este fim-de-semana, os espanhóis não foram cobardes. Apenas disseram que qualquer povo está disposto a morrer pelo seu bem-estar ou pela segurança dos seus, mas ninguém está disposto a morrer por um embuste.
Eu quero viver em segurança. Gosto de viver, gosto que as pessoas de quem eu gosto vivam e gosto que as pessoas de quem eu não gosto também vivam. Sou, nessa matéria como em quase todas, igual a um cidadão qualquer. Só tenho uma vida e tenho família e amigos. Por isso, faço-me a mim próprio algumas perguntas e tento responder-lhes:
Estou disposto a sacrificar algum do meu bem-estar para melhorar os mecanismos de segurança? Estou.
Estou disposto a esperar numa bicha do aeroporto e a ser revistado? Desde que não se limitem a revistar homens de turbante e bigode só porque têm turbante e bigode, estou.
Estou disposto a cedências no meu quotidiano? Estou.
Estou disposto a limitar a minha liberdade? Não, não estou. Ela demorou séculos a conquistar e o recuo, nessas matérias, demorará outros tantos recuperar.
De qualquer das formas, antes de qualquer cedência, exijo, enquanto cidadão, duas coisas: que não sejam os que nos levaram até este desastre a conduzir um combate para o qual se mostraram incapazes e que os portugueses que ocupam o Iraque saiam de lá rapidamente. Correrei riscos, sim, mas nunca por uma guerra absurda. E que, entretanto, a ONU e um governo democrático iraquiano tomem conta daquele país. Que a comunidade internacional, se é que ela ainda existe, se empenhe definitivamente na resolução, o mais pacífica possível, da intolerável situação israelo-palestiniana. A coisa resume-se assim: se me pedem a mim, como cidadão, sacrifícios, eu peço a eles que reconheçam o seu falhanço.
Disse aqui, mais do que uma vez, que afirmar que Aznar ou Bush são culpados pelo que aconteceu em Madrid era um disparate. A culpa exige premeditação ou consciência dos resultados de determinados actos. Eu não acho que Bush ou Aznar queiram o aumento do terrorismo. Mas sei que fizeram uma promessa, que exigiram sacrifícios para a atingir e que falharam. Acho mesmo que as decisões que tomaram favoreceram objectivamente o crescimento da base de apoio que alimenta o terrorismo. Dizer isto não é desculpabilizar o terrorismo. Quem põe as bombas não está desesperado: quer matar e mata. Mas tem hoje a vida facilitada no lugar onde faz o seu recrutamento. E disso, Bush, Aznar e Blair têm culpa. Por isso, não estou disposto a seguir a sua agenda de prioridades. Porque no fim, cada vez mais gente o sente, tanto na Europa como nos Estados Unidos, ficaremos sem a liberdade e sem a segurança.
Estarei disposto a fazer sacrifícios pela nossa segurança, não pela agenda política que nos querem impor estes incapazes. Outros, que não estes homens, terão de conduzir a paz. Estes não o sabem fazer. E não têm autoridade para nos pedir mais nada. Por isso, está na hora de seguirem Aznar e partirem.

Foi há 30 anos que 200 militares do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, marcharam para Lisboa para derrubar Caetano. Era a resposta à demissão de Costa Gomes e António de Spínola dos cargos de chefe e vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. Ficou conhecida como a “Revolta das Caldas” e acabou por ser o ensaio geral para o 25 de Abril. O golpe falhou, mas o Movimento dos Capitães conseguiu então perceber que o governo estava mal preparado e a cair da tripeça. No dia seguinte, uma nota do governo dizia: “Reina a ordem em todo o país”. 40 dias depois, deixaria de reinar. Mesmo que isso, ainda hoje, cause uma grande revolta no Caldas.
"Aqueles dispostos a abdicar da essencial liberdade em troca de uma segurança temporária, não merecem nem liberdade nem segurança.”
Benjamin Franklin, “Historical Review”, 1759
Recordado pela Rua da Judiaria.
«Não se pode bombardear um povo de ânimo leve. Não se pode avançar para uma guerra com mentiras». Zapatero
(Vou meter-me com o meu amigo Pedro Oliveira, a propósito do seu post sobre Viver com a incerteza". Shiu... Não lhe digam nada...)
Caro Pedro,
Eu estou de acordo com medidas de segurança excepcionais anti-terrorismo. Por exemplo, não me chateia ser revistado se isso servir para alguma coisa. Há pouco tempo fui aos Estados Unidos e o senhor que me ia fazer uma série de perguntas sobre a minha bagagem antes do embarque disse-me: "responda com sinceridade a tudo. Você é que vai no avião, eu não". Achei convicente. Os Estados devem tomar medidas para proteger os cidadãos do terrorismo e algumas delas são desagradáveis.
Mas a ideia de que existe uma equação liberdade/segurança é que não me convence muito. É assim como se houvesse um cobertor: puxa da cabeça, ficam os pés destapados. Ou como se fosse matemática. E não é. Aqui, um bocadinho de sociologia — a tal disciplina que chateia muita gente, um dia destes faço aqui um elogio da sociologia — pode ajudar: por exemplo, Max Weber — cito de empréstimo, espero estar a ser rigoroso — diz-nos que as administrações o que querem é administrar e, nesse seu afã, criam racionalidades e rotinas próprias, hábitos que criam hábitos. Esses hábitos não pensam muito na equação liberdade/segurança. Pelo seu lado, os cidadãos começam a abdicar de certas liberdades excepcionalmente e isso normaliza-se (nunca estive em Israel: mas imagino que os israelitas tolerem coisas inacreditáveis, coitados, em troca de uma sociedade que tem de se defender até aos dentes; e achem isso normal. E eu acho humano que eles achem isso normal). Por outro lado, como sabes, o controlo das pessoas criado pelas medidas de segurança é frequentemente usado para fins que nada têm a ver com essas medidas. Em suma: acho que não abdicamos duradouramente da liberdade sem pagar um preço, em pequenas violências quotidianas que se normalizam.
Outro aspecto importante é que a "equação" liberdade/segurança é sempre socialmente e etnicamente mal distribuída: se eu tiver ar de marroquino (coisa que como sabes é possível), corro maiores riscos de ser revistado sistematicamente, numa medida de segurança que até pode ser considerada "racional" (há marroquinos com ligações à al-Qaeda), mas é sempre descriminatória para a esmagadora maioria de pessoas marroquinas ou com ar de marroquino que nada tem a ver com terrorismo (o exemplo não é abstracto, estou convencido de que me aconteceu isso na tal viagem aos Estados Unidos.). Por outro lado ainda, passado um igualitarismo vigilante inicial, que se segue aos atentados, há umas pessoas cujas liberdades sofrem mais do que outras. Quem tem mais dinheiro, quem tem passaportes com mais poder, etc, está mais ao abrigo das restrições de liberdades.
Como estas coisas se vêem melhor com exemplos concretos, nos próximos dias vou estar atento ao que significa a passagem ao "Vermelho" — penúltimo nível — do plano de segurança francês Vigipirate.
o atentado vai ao “Correio da Manhã”
Um ano depois do início da guerra do Iraque, Michael Ignatieff faz um balanço amargurado da ocupação americana. Continua a defender a oportunidade e legitimidade do derrube de Saddam Hussein, mas confessa que agora percebe porque é que as intenções (a indiferença da actual administração republicana em relação aos direitos humanos) têm consequências. Do seu texto semi-introspectivo, retenho sobretudo esta frase: "All interventions entail some element of illusion, but if intervening requires this quantity of illusion for an administration to be willing to risk it, we should be doing less intervening in the future".
Agradeço ao Fernando Martins o link para este texto
Parafraseando a dedicatória de José Manuel Fernandes a Ana Sá Lopes e Augusto M. Seabra, há mais de um ano, suspeito que, hoje, José Manuel Fernandes «está com cara de comunista em dia de queda do Muro».
Suponho que para um político, esta seja uma vitória com um travo amargo. Zapatero sabe que só ganhou porque o seu adversário se embrulhou à última hora numa demasiado evidente teia de omissões e mentiras que lhe retirou uma vitória por todos esperada. Isto parece-me evidente. Agora, dizer que quem ganhou as eleições foi o terrorismo é uma distorção completa da questão. O que os trágicos acontecimentos de 11 de Março mostram não é apenas a incapacidade da Europa lidar com uma ameaça terrível, mas o falhanço de uma estratégia que é suportada por alguns países europeus (Inglaterra, Espanha, Itália e Portugal) e liderada pelos EUA. Desde o 11 de Setembro que ouvimos falar de uma mudança radical na natureza da conflitualidade internacional. O pior é que os mesmos que tal proclamam responderam à ameaça com métodos absolutamente tradicionais. Porque é que a uma ameaça que se sabe disseminada e sem quartel se responde com invasões de países? Se a intervenção no Afeganistão se podia entender dado o facto de aquele país ser um ninho da Al-Qaeda, como compreender a invasão do Iraque neste contexto? E, no mesmo contexto, porque se mantém sem solução (nem vontade de solução) um problema como o conflito israelo-árabe, esse sim que excede em impacto a região que lhe dá origem e sustenta moralmente atentados por todo o mundo? Não há soluções simples para este problema. Mas começa a tornar-se evidente que a resposta que tem sido seguida é uma trapalhada ineficaz, quando não uma mentira que parece esconder outros interesses. Os espanhóis perceberam isso da pior maneira, imersos em sangue. Quem os pode acusar de querer travar enquanto é tempo?
"Por supuesto, los soldados españoles en Irak regresarán antes del 30 de junio", José Luis Zapatero.
À análise política das eleições espanholas que está a ser feita aqui e em vários blogues, junto uma sensação: a de que Aznar e o PP, para além de um eleitoralismo sujo, não perceberam nada dos tempos de reacção da política mediática emotiva. Tão depressa como se abstém, participa. Tão depressa como a tempestade, varre. Tão depressa como varreu, deixa uma calmaria. A política espanhola (logo, do mundo), desde quinta-feira, pareceu-se com o clima imprevisível. Não quer dizer que não tenha explicações, e altamente racionais, tão evidentes que até cegam. A resposta emotiva dos eleitores espanhóis foi inteiramente lúcida e justa. Mas só a posteriori o compreendemos, depois da tempestade passar. Esta vitória que me deixa feliz tem um lado que me assusta
P.S. a mim mesmo, escrito no dia seguinte: André, se tens medo compra um cão. O João Pedro Henriques é que tem razão
“Es necessario que el pueblo iraqui recupere cuanto antes el controlo sobre su proprio pais. Esta tarea solo la podera conseguir Naciones Unidas con el apoyo de toda la comunidad internacional dotándola de la autoridad politica necesaria para organizar el tránsito hacia un nuevo gobierno surgido de unas elecciones libres. La presencia de las tropas españolas desplegadas en Irak sólo se mantederá sobre la base del cumprimento de estos requisitos”. Programa eleitoral do PSOE.
"Ao contrário daquilo que muitos julgam, o voto dos espanhois não foi de revolta: foi de cedência".
"A Espanha pagou o resgate com o seu voto".
"Também se tornou claro, no mesmo pressuposto, a quem é que aproveitou o massacre de Madrid. E a influência mediática de meia-dúzia de grotescos manifestantes ontem à noite".
Sara Muller, Basfémia
"Bombas de Madrid derrubam o Governo".
Blogue do Caldas (blogue oficial do CDS/PP)
Como se vê, há uma direita (eu sei que não é toda) que desconfia do discernimento popular. Defende a democracia às vezes e acha que o povo, quando a contraria, é porque é cobarde. Os espanhóis, que na sexta eram um exemplo de cidadania, no domingo são uns frouxos.
O PP espanhol perdeu porque mentiu e porque se tentou aproveitar de uma tragédia para somar votos. Porque somou à mentira da guerra, que já incomodara, e muito, os espanhóis, a mentira da autoria do atentado. Dizer que esta não é uma excelente razão para correr com um governo, é a demonstração última de que muitos dão à verdade o mesmo valor que dão ao voto democrático.
A direita perdeu porque tem, sobre o terrorismo, um discurso oportunista: condena-o, e bem, mas está sempre pronta a aproveitar-se dele. Seja para tomar conta do Iraque, seja para limitar os direitos cívicos, seja para ganhar eleições.
E a outra verdade é esta: a política dos conservadores contra o terrorismo revela-se, a cada dia que passa, cada vez mais, um fracasso monumental. Dela não se consegue extrair nenhum resultado palpável, a não ser um novelo de mentiras e contradições. Concluir daqui, como fazem algumas pessoas de esquerda, que a culpa do atentado de Madrid é de Aznar ou de Bush, é um disparate completo. Mas podemos concluir que o caminho para combater o terrorismo não é o da guerra sem quartel e da mentira sem limites. E a derrota do PP é mais do que justa. Porque a mentira é provavelmente a melhor razão para não votar num político.
Tenho pena de não poder ficar completamente feliz com esta vitória da esquerda em Espanha. Principalmente porque os mortos desta semana não o permitem. Mas também por outras razões que vou tentar estabelecer aqui sem grande sistematização.
Em primeiro lugar, é uma grande injustiça que esta vitória possa ser menorizada pelo atentado. Nunca saberemos até que ponto o voto espanhol foi influenciado pelos acontecimentos dos últimos dias, e isso permitirá o menosprezo dos resultados pelos comentadores. No entanto, já há algum tempo que acho que, a despeito dos diagnósticos correntes sobre o presumido estado comatoso da esquerda, é a direita no poder no Ocidente que se está metendo num enorme buraco. Não consegue vê-lo através da sua barreira cognitiva, mas um rude despertar lhe estará reservado para uma sequência de noites eleitorais nos próximos meses e anos. As circunstâncias especiais deste escrutínio em Espanha são apenas especiais o bastante para que a direita continue a fingir que não entende.
Em segundo lugar, não me basta que a esquerda ganhe eleições. É preciso que ela faça algo com isso. O eleitor ideológico da direita não vota com grandes expectativas: para ele as coisas já são "naturalmente assim", de forma que o facto de um governo não conseguir mudar nada só ajuda a reforçar os seus estereótipos políticos, que por sinal lhe dizem bem mais do que a política em si. De resto, desde que a esquerda não usurpe aquilo que vêem como o direito quase-natural da direita a governar, para eles está tudo bem. Já o eleitor correspondente à esquerda vota com altas expectativas de mudanças e correcções das injustiças. Quando estas expectativas são defraudadas, o resultado é traumático. A Europa já teve, há pouco tempo, 14 governos de esquerda, e como sabemos isto parece ter sido mais uma maldição para a esquerda do que outra coisa qualquer. Espero que a lição tenha sido aprendida, mas não estou seguro.
Em terceiro lugar, eu só ficaria feliz se tivéssemos umas eleições legislativas marcadas já para a semana que vem, aqui em Portugal. A injecção de esperança que a Espanha pode levar com o novo governo vai fazer-lhes um bem danado. Abriu-se uma porta. Por aqui continuaremos com as nossas almas penadas do costume. E temo que os dois anos que aí vêm sejam dedicados a uma composição de imagem que vá no sentido de alterar o que eles tenham aprendido com a derrota do PP espanhol.
No entanto, esperar que a direita portuguesa aprenda qualquer coisa, mesmo que no seu interesse, é sobrestimá-la. Esta possibilidade não é preocupante: a julgar pelas reacções dos comentadores da área, a culpa dos resultados em Espanha foi a) da ingratidão dos espanhóis; b) das manifestações de ontem; c) de alguns erros tácticos do PP nos últimos dias. Não perceberam que se esses erros foram a gota de água foi só porque o copo já estava a transbordar antes disso. E isso quer dizer que não têm ideia do que aí vem.

Tudo começou, estava Andrew Jarecki a rodar um documentário sobre entertainers para festas de crianças. Um palhaço era uma das suas personagens principais, David Friedman. Um dia, Jarecki quis saber como David decidiu ser palhaço. Ele falou-lhe da sua infância e disse que havia coisas sobre as quais preferia não falar. Mas falou. E assim nasceu um filme sobre um processo por pedofilia, que abalou uma pequena comunidade de Long Island.
Com o caso Casa Pia a viver momentos mais calmos, vale agora a pena ver este documentário, em exibição no circuito comercial: “Capturing the Friedmans”. É a história de um pai, Arnold, e de um filho, Jesse, habitantes da pequena comunidade de Great Neck, em Long Island, acusados, em meados dos anos 80, de pedofilia. O pai acabará por se confessar pedófilo, mas em privado nega os crimes de que é acusado. O filho também confessa no tribunal, esperando uma pena mais leve por isso. Mas mantém sempre, junto de todos, a sua inocência.
O documentário, baseado em filmagens caseiras de um dos filhos de Arnold Friedman, durante todo o processo, tem uma grande vantagem em relação ao que é habitual neste tipo de trabalhos: não tem uma tese sobre a culpa dos envolvidos. Nem é sobre isso. É sobre as subtilezas da culpa e da inocência, da verdade e da mentira. É sobre os efeitos de um caso destes numa família. É sobre a família, as suas cumplicidades e conflitos. E, das coisas mais perturbantes, é sobre o casamento explosivos da overdose mediática, histeria colectiva e modos ligeiros e justicialistas de conduzir uma investigação. Com poucas certezas, “Capturing the Friedmans” instala sempre a dúvida e questiona os raciocínios fáceis sobre a justiça e a verdade, o que, nos tempos que correm, é bastante pedagógico.
Num bar de Sta. Cruz, bairro popular, entre barman e cliente: "Gañó al PSOE?! Por lo de la guerra, y del atentado". "Solo por eso no. Los del PP hicierón mucha cosa mal."
Um porteiro de pensão: "Hijo de puta, el cabrón de los bigotes – como los míos – que nos metio en la guerra, perdió. Joder! Olé!"
[Dora Capinha e Daniel Calado, amigos do Barnabé, via SMS.]
«Pode-se enganar todas as pessoas durante algum tempo; pode-se até enganar algumas pessoas durante o tempo todo; mas não é possível enganar todas as pessoas durante o tempo todo». Hoje, os cidadãos espanhóis mostraram como a velha máxima de Abraham Lincoln ainda se mantém plenamente válida.
O meu post de Sexta-Feira passada (“As Bombas de Madrid e os meus amigos de esquerda”) deixou algumas pessoas irritadas. Abstive-me de responder às dezenas de comentários que me enviaram não por sobranceria, mas por absoluta falta de disponibilidade. Por razões pessoais, não posso agora dedicar o tempo que gostaria ao Barnabé. Todavia, uma das minhas afirmações, aquela que remete para a necessidade das democracias europeias darem uma resposta firme aos actos terroristas, merece talvez uma explicação mais detalhada. Essa é a questão que num futuro próximo figurará no centro do debate político das sociedades europeias, com consequências profundas para a qualidade das democracias em que vivemos. Como penso já ter deixado suficientemente claro em posts anteriores, eu não sou propriamente um adepto da forma como os EUA e alguns dos seus aliados têm conduzido a “guerra contra o terrorismo”, nomeadamente no caso do Iraque e no tratamento dado aos detidos em Guantánamo. Não excluo a possibilidade da resposta ao terrorismo ter também uma componente militar - mas seguramente não nos contornos que ela começou a assumir após a intervenção no Afeganistão.
No seu artigo de hoje no Público, Jorge Almeida Fernandes identifica muitíssimo bem o problema que me interessa focar aqui: «Diz o bom senso que é melhor antecipar as dificuldades e prevenir, a fechar os olhos para depois tomar, em estado de catástrofe, medidas extremas anti-democráticas, pedidas por uma opinião pública em pânico. Uma política de medidas drásticas que ponha em causa direitos e liberdades elementares é sempre meia vitória dos terroristas sobre o Estado de direito. Mas medidas com valor efectivo implicam sacrifícios ‘incómodos’. O debate será inevitavelmente doloroso e provocará fracturas políticas”. Ora, perante o 11/9 americano e o 11/3 espanhol, parece-me evidente que os termos da equação liberdade-segurança não poderão deixar de ser revistos, em benefício do segundo. Isto, como sublinha JAF, traz incómodos e contrariedades. A nossa liberdade individual e a nossa privacidade sofrerão uma erosão inevitável. O meu receio é que a esquerda mais libertária (com a qual me identifico em alguns aspectos) não tenha ainda interiorizado todas as implicações desta opção. A grande maioria dos meus amigos de esquerda, uns por uma questão geracional (a memória do fascismo), outros por uma questão de educação e personalidade, reagem instintivamente mal a tudo o que possa sugerir uma intrusão acrescida do Estado na sua esfera individual: circuitos de video-vigilância, controlos de segurança mais apertados, verificações de identidade, etc. Em tempos de crise económica e escassez de recursos, muitos não estão dispostos a aceitar que o Estado conceda maior prioridade ao apetrechamento das forças de segurança em detrimento de áreas mais ligadas à justiça social. Outros exibem uma desconfiança atávica em relação aos serviços de segurança (recordo-me de um deles - antes do 11/9, é certo - me ter dito que o Estado português devia ter apenas um serviço de contra-espionagem). Ora, é nestas matérias que a esquerda terá, a meu ver, de rever algumas das duas posições tradicionais. Sob a pena de deixar que a direita populista explore a seu bel-prazer a ansiedade do público e monopolize por inteiro o discurso securitário. É claro que, em muitas circunstâncias, os princípios do Estado de direito poderão ser severamente postos à prova pelos métodos de actuação das forças policiais e dos serviços secretos. Mas isso é algo com que temos de ir vivendo. Apesar de tudo, a ameaça terrorista não é um fenómeno inteiramente novo (o que é verdadeiramente novo é a escala dessa ameaça) e nós temos exemplos de democracias (como a britânica) que desde há várias décadas têm sido capazes de gerir esse equilíbrio incerto sem um prejuízo demasiado gravoso para a liberdade individual.

Resultados eleitorais em Espanha
PSOE – 164 (43%)
PP – 148 (37,5%)
IU – 5% (5)
CiU – 3,3% (10)
ERC – 2,6% (8)
PNV – 1,7% (7)
BNG – 0,8% (2)
CHA – 0,4% (1)
EA – 0,3% (1)
CC – 0,2% (3)
NA-Bai – 0,2% (1)
A direita perdeu 35 deputados. O PSOE ganhou 39 deputados. Os nacionalistas de centro e centro-direita perderam 6 deputados, graças à queda da CiU, da Catalunha. E a esquerda à esquerda do PSOE (IU, ERC e BNG) ganha dois deputados, passando de 13 para 15 deputados, sendo a queda da coligação liderada pelo PCE, a IU, que perdeu 4 deputados, compensada pela subida da Esquerda Republicana da Catalunha, que passou de 1 para 8 deputados, à custa da CiU.
PS: Como mero exercício de imaginação, e para responder a algumas bocas, se fosse galego, votaria no BNG, se fosse de qualquer outro lado de Espanha, na IU. Em qualquer um dos casos, perderam deputados. Mesmo assim, o resultado das várias esquerdas e da esquerda no seu conjunto faz de mim, hoje, um homem feliz.