Diana: "Ó pai, eu quero a Galp".
Pacheco Pereira recorre ao argumento entaladinho ("então-falou-disto-mas-sobre-aquilo-ficou-caladinho") para acusar o Barnabé de ter uma "memória elástica". A razão: ter reproduzido uma fotografia de Durão Barroso nos tempos do MRPP (que por acaso até veio da Visão) e "e esquecer-se do passado colectivo das organizações que lhe são próximas, em particular o Bloco de Esquerda".
Respondo com uma história. Uma vez eu e os meus irmãos pedimos ao meu pai para irmos todos ao funeral de um autor importante que nós admirávamos lá em casa. A resposta do meu pai foi a seguinte: "Para que hei-de eu ir ao funeral de fulano? Ele também não vai ao meu!".
Da mesma forma, também eu só comentarei "em particular" o passado colectivo da UDP e do PSR quando Louçã e Fazenda se pronunciarem "em particular" sobre as postas do Barnabé. Aquele passado não é o meu, comentá-lo-ei eventualmente, mas não o farei a pedido.
Acho que toda a gente entende uma coisa tão simples quanto esta: nós não somos nem deixamos de ser "próximos do BE". Um de nós – o Daniel – é militante do BE. Os outros quatro são de esquerda. Isto certamente faz de nós mais próximos dos partidos da oposição do que do PSD/PP, pelo menos tanto como faz a oposição estar mais próxima do Barnabé do que do Abrupto. Apoiamos mais vezes a oposição do que o governo. Sei que há gente que acha isto estranho – mas deve ser porque leram demasiado António Barreto.
Ou seja: as perguntas sobre o passado colectivo "em particular" do BE devem ser endereçadas a quem de direito. Mas além disso, devo acrescentar ainda o seguinte: não tem o mínimo cabimento acusar o Barnabé de "memória elástica".
Publicámos aqui cartazes revolucionários de quase todos os quadrantes políticos (incluindo os desses partidos) sem preocupações de branqueamento ou embelezamento algumas. Está aqui o Álbum, é só comprovar. Exceptuando os cartazes anarquistas (cof cof cof) que envelheceram melhor do que o vinho do Porto, todos eram igualmente ingénuos / datados / comoventes / caricatos.
Naquilo que diz respeito aos nossos curtos passados também falámos todos. Aquele que tem mais vida partidária – o Daniel, mais uma vez – já escreveu várias vezes sobre a sua vida no PCP. Só faltou um – o Celso – que ainda nos deve um texto sobre o ponto de vista do miúdo retornado de Moçambique nos anos 70.
Pacheco Pereira foi aqui uma espécie de carteiro. Só que bateu duas vezes na porta errada.
Há pouco, como me acontece regularmente, cruzei-me com Fernando Gil na biblioteca da minha escola. Apeteceu-me lançar-lhe um sonoro: -"Então?!", como quem lhe pede contas pelos seus guerreiros impasses. Mas, assim como eu me cruzei com ele, ele não se cruzou comigo. Não me conhece, ou então apenas de me ver na biblioteca. Voltei-lhe silenciosamente as costas e regressei aos meus próprios impasses - que são grandes mas não são guerreiros.
Na prisão de Abu Gharb, onde os torcionários de Saddam operavam a seu bel-prazer, soldados americanos sujeitaram prisioneiros iraquianos a humilhações e torturas com requintes de sadismo. O caso, tornado público pelo programa 60 Minutos da CBS, está a ser investigado pelas autoridades militares norte-americanas e os abusadores irão ser levados a tribunal militar. "Fomos ao Iraque para impedir estas coisas, e aqui estão elas a acontecer debaixo da nossa tutela", comentou um antigo oficial dos Marines que fez parte da equipa que conduziu o inquérito. Isto ainda não é a versão iraquiana do massacre de My Lay - mas algo me diz que ainda lá chegaremos.
Negócio do Ministério da saúde com a Vodafone: imagem de Luís Branco para Grão de Areia e Barnabé.
Não há crise nem recessão nenhuma: segundo o Público "o resultado líquido global dos quatro maiores bancos privados portugueses cresceu 14,82 por cento no primeiro trimestre deste ano".
Telmo Correia acabou de acusar Francisco Louçã de ter mentido aos portugueses sobre as armas de destruição massiva no Iraque.
Défice de 2003 chegou aos 5,3 por cento sem receitas extraordinárias, diz o Banco de Portugal. Ou seja, o défice, sem as receitas extraordinárias, que não se repetem, subiu com o PSD. E isto é aquilo em que eles supostamente são bons.

Cartaz de Comício em Almada do Movimento da Esquerda Socialista (MES).
A última imagem de Abril.
A investigação às relações perigosas entre as autarquias e os clubes de futebol continua. Esperemos que chegue a acabar.
PS: 41,9%.
PSD: 36,5%
CDU: 7,3%
BE: 6,9%
CDS: 2,6%
Esquerda: 56,1%
Direita: 39,1%
Para não me repetir, mais uma vez publico aqui o meu texto n’A Capital sobre o Túnel do Marquês.
Ao fim de dois anos e meio, quais foram as duas grandes batalhas de Santana Lopes? Um túnel para fazer entrar carros em Lisboa e a construção de um casino. Como currículo autárquico que é, no mínimo, caricato.
Vamos então ao burburinho do momento. Justiça seja feita, desde a campanha eleitoral, há dois anos, que Santana tinha avançado com a proposta do túnel. A legitimidade democrática da decisão não está, assim, em causa. A proposta de Santana Lopes é a da construção de um túnel que vem das Amoreiras e desemboca no Marquês de Pombal e na Fontes Pereira de Melo.
A ideia quase só tem defeitos. O “timing” é o pior de todos. Fazer as obras antes do Euro implicou apertar prazos sem que tal fosse indispensável. Depois há os custos. A proposta de Santana Lopes tem valores exorbitantes. E há os problemas técnicos. O túnel proposto tem uma inclinação de 9%, quando a União Europeia não permite túneis viários com inclinações superiores a 5% e recomenda mesmo que sejam inferiores a 3%. O túnel cruzará duas das principais condutas da EPAL e a linha de metro, ficando a 45 centímetros deste. Por fim, atravessa as zonas húmidas das nascentes da Ribeira da Liberdade, com os resultados que se puderam observar no Martím Moniz ou na Avenida de Ceuta.
Mas a questão central é outra. O maior crime do Túnel de Santana, como ele próprio o gosta de chamar, é o de, em vez de tirar carros de Lisboa, os querer meter cá dentro.
(artigo continua no link em baixo)
Lisboa tem cerca de 700 mil carros, nos dias de semana. Não cabe nem mais um e muitos têm deixar de deixar de entrar. Isto sim, e não números circenses ou teimosias destituídas de conteúdo político, exigem coragem. Qualquer túnel que se faça em Lisboa deve ter uma função central: facilitar a saída e, arrisco-me a dize-lo, mesmo sabendo da impopularidade do que digo, dificultar as entradas. O resto deve ser investimento no transporte público.
Há alternativas ao túnel que propõe e até já foram apresentadas. Um túnel que comece no lado direito da Avenida da Liberdade, junto à Alexandre Herculano, que siga próximo à superfície, paralelo ao metro, não o cruzando, e que vá desembocar na Fontes Pereira de Melo, servindo para escoar o que vem da Baixa para Lumiar, Pontinha, Campo Grande e 2ª Circular. Este túnel bifurcaria, para que outro seguisse para o parque de estacionamento do Parque Eduardo VII, levando os carros para a Artilharia I, para seguirem daí para a Avenida Duarte Pacheco. Ou seja, um túnel que tirasse depressa, nas horas de ponta, os carros de Lisboa. Para além desta vantagem, teria outras, não negligenciáveis: uma das linhas não cruzaria a linha de metro e a outra só o faria quando ele está praticamente à superfície. Não perturbaria os lençóis freáticos da Avenida da Liberdade. Custaria, no mínimo, menos de um décimo do que está proposto.
Outra questão é o problema que está agora criado. Santana estava legalmente obrigado a realizar um Estudo de Impacto Ambiental e não o fez. Bem pode Santana mandar as culpas para o secretário de Estado do Ambiente. Esta era uma responsabilidade sua. E fica-lhe mal, quando as coisas apertam, sacudir a água do capote.
Santana quis abreviar caminho, e o resultado está à vista: o Tribunal de Administrativo de Lisboa suspendeu as obras no subsolo. Os custos e o atraso serão ainda maiores. Tentar, como fez Santana Lopes, responsabilizar um cidadão que usou do seu direito ao controlo democrático das decisões públicas, José Sá Fernandes, por este imbróglio, é uma inversão moral inaceitável. Quando um titular de um cargo político não cumpre a lei e é sancionado por isso, não é o cidadão que o denuncia que deve ser responsabilizado. É quem não cumpre a Lei. Se quem paga o preço da ilegalidade somos nós todos, deve ser o político a pagar o preço político. Esperemos que Santana Lopes tenha aprendido a lição, cumpra agora a decisão de suspensão e não improvise mais.
Mas Santana dá os piores sinais. O anúncio publicado na terça-feira, em dois diários (quem pagou?) a marcar uma manifestação contra a decisão do tribunal é uma demonstração de infantilidade política indescritível. Santana diz que não foi obra sua. Ou tem um admirador secreto, ou há aqui qualquer coisa para explicar. Esperemos que Santana explique, porque esta história já começa a enjoar.
Querem saber quem foi o admirador secreto de Pedro Santana Lopes que fez o anúncio à concentração em seu apoio? Hoje, às 12 horas, estavam 4 pessoas na Praça do Município. Deve ser uma delas.
"Cientistas tentam ler o cérebro de eleitores norte-americanos".
«Conselho de Arbitragem não pode funcionar amputado».
O primeiro-ministro escusou-se hoje a comentar eventuais benefícios que o vice-presidente da câmara de Gondomar, José Luís Oliveira, terá concedido a empresas de construção civil, em troca de dinheiro para o PSD: «Não falo sobre questões partidárias. Não quero confundir questões de Estado com questões partidárias».

Já tinha saído no "Expresso", mas numa nota explicativa (não pública) do Ministério das Finanças as coisas ficam mais claras: nos termos do acordo Netsaúde com a Vodafone, os médicos recebem 0,12 euros por cada minuto de conversação com os doentes, que são mais caras (0,60/minuto) que as chamadas normais. Esta retribuição aos médicos «não constitui retribuição de um serviço médico mas sim a retribuição pela angariação de chamadas para a rede Vodafone». Mais claro é impossível: os médicos passam a ser angariadores de clientes da Vodafone e os doentes pagam as chamadas para o seu médico de família mais caras do que as chamadas normais de telemóvel.
Aqui estão os excertos do documento do Ministério das Finanças:
«Por cada chamada feita para o número profissional do médico (que só serve para receber chamadas), é pago pelos doentes a um custo de 0,60 euros/minuto, recebendo o médico um crédito de 0,12 euros, por igual período de tempo, atribuído pela Vodafone.
(…)
O pagamento (atribuição de crédito) ao médico é feito pela Vodafone.
(…)
O pagamento de 0,12 euros/minuto aos médicos não constitui retribuição de um serviço médico mas sim a retribuição pela angariação de chamadas para a rede Vodafone para números cujo o custo de chamada é superior ao nomal (cerca de 0,60 euros/minuto).
(…)
Nesta medida, aquela retribuição aos médicos assume a natureza de uma comissão, sujeira a IRS pela categoria B (rendimenttos empresariais e profissionais) e a retenção na fonte de acordo com as regras estabelecidas para este tipo de rendimentos.
(…)
O custo da chamada efectuada pelo doente para o número profissional da rede Vodafone não constitui despesa de saúde.(…)»
Assinado pela Directora de Serviços do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares.
Os ditadores também têm sentimentos
Sob os auspícios da OSCE, iniciaram-se ontem os trabalhos de uma grande conferência sobre o anti-semitismo na Europa. É o segundo evento deste género que decorre este ano, depois do seminário organizado pela Comissão Europeia em Fevereiro. Nada tenho contra a realização destas conferências: o verniz da civilização é uma película muito fina e há indícios credíveis de um recrudescimento do anti-semitismo em vários países europeus (profanações de cemitérios, apedrejamento de sinangogas, incitamentos ao ódio na internet, etc.). Mas há duas coisas que me incomodam: em primeiro lugar, o facto de ser sempre a Europa o bombo da festa quando se fala de anti-semitismo, como se os europeus tivessem de pagar até à eternidade pelos crimes de Hitler, Pétain e Cª. Se há país que nos últimos anos tem feito um esforço notável para expiar os crimes do seu passado recente (desde a discussão histórica à reparação simbólica e material às vítimas dos campos de extermínio nazis), esse país é a Alemanha. Desde o gesto de Willy Brandt em Varsóvia que todos os líderes alemães têm renovado o pedido de perdão da Alemanhã ao povo judaico. A má consciência alemã é de tal ordem que é muito raro ouvir um político alemão responsável formular a mais pequena crítica à conduta de Israel nos territórios ocupados. Além do mais, não deixa de ser curioso que a mais espectacular manifestão anti-semita dos últimos tempos, o filme A Paixão do Cristo, de Mel Gibson, tenha sido produzida nos EUA e tenha facturado milhões nas bilheteiras desse país (a propósito, ainda não há muito tempo a Liga Anti-Difamação contabilizava mais actos de anti-semitismo nos EUA do que em toda a Europa, o que sugere que o recrudescimento do fenómeno no nosso continente estará estreitamente ligado à evolução do conflito israelo-palestino e ao impacto que este tem em certos elementos da comunidade muçulmana europeia). Em segundo lugar, a louvável preocupação com o anti-semitismo pode ter o efeito perverso de nos desviar a atenção de um outro fenómeno emergente, talvez mais preocupante a médio/longo prazo: a islamofobia. Cada atentado terrorista na Europa é acompanhado por um aumento da desconfiança dos europeus brancos em relação aos seus vizinhos muçulmanos, cujas práticas e rituais religiosos lhes causam tanta estranheza e, não poucas vezes, horror (é claro que essa desconfiança é também alimentada por um racismo social latente). Até à data, a conduta dos governantes europeus tem sido impecável (gostei de ver a deslocação de Durão Barroso à mesquita de Lisboa uns dias depois do 11-M espanhol, por exemplo). Mas entre certos sectores da intelligentsia europeia (e portuguesa), sempre muito preocupados com a "defesa do Ocidente", é visível uma hostilidade crescente em relação ao Islão: muitos dizem rejeitar apenas a versão radical do Islão, mas eu digo-vos o seguinte: dêem-lhes mais uns anos e verão que essa distinção acabará por desaparecer. Não faltam, aliás, "orientalistas" distintos que lhes fornecerão a necessária respeitabilidade para manifestarem a sua islamofobia: de Samuel Huntington a Bernard Lewis, a escolha é grande. É claro que não veremos os nossos orientalistas de trazer por casa a defenderem o internamento ou a deportação maciça dos muçulmanos europeus. Mas são eles os clercs que andam a preparar o caldo cultural de onde emergirão os sucessores de Pim Fortuyn e Le Pen - os quais, acreditem, se revelarão criaturas bem mais sinistras.

Pá, a festa foi mesmo bonita. Ainda hoje estou a cantarolar o hino do MFA. Ta-ra-ran ta-ran ta-ran, ta-ra-ran ta-ran ta-ran, ta-ra-ran ta-ran ta-ran, taraririraran ta-ran.
«Não foi por acaso que mandámos fazer, há pouco tempo, um estudo económico-financeiro sobre as possibilidades de a Madeira viver como país. O estudo concluiu que a Madeira poderia viver independente muito melhor do que muitos países que há por esse mundo fora. (…) Íamos ficar à escala do Chipre, que é um país com um bom nível de vida. A Madeira não seria um país miserável.» Quem fez esta revelação, assinalada pelo Causa Nossa, foi Alberto João Jardim. Como Jardim esclareceu imediatamente que tal decisão seria um erro, acabámos por ficar sem saber se o estudo incluía a divisão da ilha a meio.

Panfleto do CMLP e da OCMLP, apelando a uma manifestação contra a NATO e a CIA.
Dedicado a Pacheco Pereira. Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
«O último da nossa lista europeia é melhor do que o primeiro do PS», disse Durão Barroso no Conselho Nacional do PSD. Fui ver quem era o último: o inenarrável António Maria Pereira. Ok, Sousa Franco é fraquinho, mas também não é preciso insultar.
Quem é que o PSD, no seu Conselho Nacional, mandou para falar em defesa de Valentim Loureiro? Isaltino Morais. Se era para enterrar mais o homem, estiveram bem.
E a petição para enviar José Manuel Fernandes como escudo humano para o Iraque chegou, finalmente, às mil assinaturas. Bem sei que a petição seria vinculativa a partir do primeiro milhar, mas não só foram expeditos como se enganaram no destino. Era para o Iraque, não era para Bruxelas. Reparem no 10º candidato da coligação PSD/CDS ao Parlamento Europeu .
Nuno da Câmara Pereira, que chegou a afirmar ser o verdadeiro herdeiro do trono português, é candidato, em 16º lugar, na lista da coligação PSD/CDS ao Parlamento Europeu. Já não há respeito pela realeza.
"Fátima: ambientalistas criticam descargas de inertes das obras do Santuário".
"Valentim garante que consciência não lhe pesa"

REUTERS/European Commission/HO © Reuters 2004
Não há frase que eu abomine mais do que "uma imagem vale mais do que mil palavras". Enquanto professor de história da arte e de história da fotografia estou sempre a pedir aos meus alunos para que não a usem.
Mas que se lixe, quem nunca pecou que me atire agora a sua pedra.
Esta aqui acima (que saiu também hoje no Público a preto-e-branco) vale muito mais do que um milhão. Mas não é só porque se trata de uma imagem estupenda.
É mais porque as palavras dos governantes valem de facto muito pouco.
Houve iraquianos que não gostaram da nova bandeira do Iraque, decidida por “lideres” escolhidos pelos Estados Unidos, ainda antes da transferência de poderes ou de qualquer eleição. Bolas, até foi feita por um artista. Gente esquisita, esta.
Ver esta
Para sentir esta
Falluja, 27de Abril de 2004
António Ribeiro Ferreira comprava armas a mil paus. Teresa de Sousa era voz da AOC (“uma espinha cravada na garganta de Cunhal”). José Manuel Fernandes escrevia textos sobre as maravilhas da Albânia, na “Voz do Povo”. Durão Barroso roubava mobília ao Conselho Directivo da Faculdade de Direito. E agora, a gente que os ature mais as suas diatribes contra a esquerda e o seu passado tenebroso. Andaram a divertir-se quando eram cachopos e depois ainda vêm cobrar a factura.
Frederico Lourenço é o convidado do próximo "É a cultura, estúpido!", que vai ter lugar hoje, às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. Frederico Lourenço falará sobre a tradução de clássicos e as suas três novelas, numa conversa com a jornalista Anabela Mota Ribeiro.
Como sempre acontece nestes encontros, poderá também ouvir as escolhas dos críticos e jornalistas residentes: José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, o debate dos colunistas Daniel Oliveira (sou eu) e Pedro Lomba (é ele) - sobre o PREC e o 25 de Abril, a partir do livro "Pensamento e Acção Política - Portugal Século XX", de Fernando Rosas (Editorial Notícias), e assistir ao stand-up comedy de Ricardo de Araújo Pereira.

Cartaz de Campanha da Liga de União e Acção Revolucionária (LUAR)
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Os ataques mais recentes a John Kerry por parte de segundas figuras da Casa Branca e da imprensa populista demonstram que a direita americana voltou àquilo que melhor sabe fazer em época eleitoral: jogar sujo. Em primeiro lugar acusam Kerry de ter jogado fora as suas medalhas de bravura ganhas no Vietname num cerimónia pública anti-guerra em 1971, embora Kerry diga que lançou apenas as fitas. O texto do tablóide New York Post é um belo exemplo do nível raivoso do ataque dos bushistas, mesmo quando o presidente (e candidato) que defendem não pode ter mandado fora medalhas de bravura algumas pela simples razão de nunca as ter ganho, até porque se escapuliu da guerra do Vietname – que no entanto apoiava. Apesar destas reviravoltas, tudo serve para dizer que é Kerry que não tem convicções. Afinal, trata-se da mesma gente que está a ter uma crise histérica só porque se soube que um dos carros de Tereza Heinz Kerry é um Audi.
Violentos combates em Fallujah e Najaf. Não se trata certamente de uma surpresa, depois da escalada verbal dos últimos dias e de Paul Bremer acusar as milícias iraquianas de estarem a esconder armas nestas cidades. Entretanto, se o "irresponsável" e "precipitado" Zapatero não tivesse tirado as tropas espanholas de Najaf os seus soldados estariam envolvidos precisamente nesta acção que ninguém sabe como vai acabar nem com que consequências se os "aliados" decidirem mesmo entrar na cidade santa dos xíitas. Durão Barroso, com 130 homens de uma força policial estacionados longe da confusão, já decidiu de que lado quer estar: quer enterrar-se no mesmo buraco que levar George Bush.

O que é que se passa com esta rapaziada que, ultimamente, só pensa em comida? Fazem-me lembrar uma viagem a Nova Iorque que fiz com o Rui Tavares em que ao virar de cada esquina eu me punha a falar de comida de uma forma tão obsessiva que o Rui já trazia os nervos em franja. Acho que cheguei mesmo a sugerir uma receita para despacharmos um esquilo do Central Park. Mas o Glória está a ficar pior do que nós com o Benfica, até já têm receitas para o 25 de Abril. Estarão de dieta?
52 diplomatas britânicos reformados publicam hoje no The Guardian uma carta aberta a Tony Blair: "Doomed to Failure in the Middle East". Devastadora.
Segundo o Público, o Boavista terá beneficiado durante vários anos de policiamento pago pelo erário público enquanto vários oficiais da PSP viajaram frequentemente nas comitivas do clube em deslocações ao estrangeiro. É o que se chama economia paralela. Eu dou-te um presunto e tu dás-me uma galinha. Depois há uns patos (nós) que pagam o acompanhamento.
Paulo Portas mascou pastilha elástica na parada do 25 de Abril. Celeste Cardona saiu à pressa das condecorações para não cumprimentar Isabel do Carmo. Eu não sei se a revolução ainda é uma criança mas esta direita parece uma menina mal educada.
O António Granado fez o favor de pôr, na caixa de comentários do post sobre os jornalistas d'O Primeiro de Janeiro, um excerto de um post dos rapazes depedidos: «Fazer uma publireportagem não é fazer de conta que se é jornalista, enquanto se é, na realidade, um redactor publicitário. Fazer uma publireportagem é ser jornalista, com a dificuldade acrescida de, naquilo que se escreve, procurar a verdade, não caíndo no facilistismo do elogio que, por inerência, é suposto existir na publicidade». Conclusão: os rapazes mereciam bem o lugar onde trabalhavam e o lugar onde trabalhavam merecia bem os rapazes. Mas com uma nota: o despedimento não deixa de ser ilegitimo. O "crime" primeiro é o do jornal, os "jornalistas" seus meros executores. Podem e devem ser responsabilizados, mas nunca pelo "mandante".

Paulo Portas, muito respeitador de paradas e afins, mascou pastilha elástica, com displicência, durante o desfile militar do 25 de Abril.

Remember men, aim for hearts and minds!
É no semanário conservador britânico Spectator que tenho encontrado alguns dos melhores cartoons e artigos de opinião sobre os últimos desenvolvimentos da crise iraquiana. A revista ainda não se viu livre do horrendo Mark Steyn (o correspondente nos States) e também não me parece que em termos editoriais já tenha emendado completamente a mão em relação à política externa de Bush e Blair. Mas é evidente que o facto de já não ser controlada por Conrad Black, e do seu editor, Boris Johnson (deputado conservador), ter intuido que sob a liderança de Michael Howard os tories poderão começar finalmente a criticar o envolvimento britânico nesta aventura desastrosa, ajudará a explicar a maior abertura da revista a autores que nada têm a ver com a direita neo-conservadora. Um bom sinal disso mesmo é, por exemplo, a contratação do já lendário Andrew Gilligam (o jornalista da BBC que denunciou o "apimentamento" do dossiê de Downing Street sobre as ADM) como correspondente para assuntos diplomáticos e de defesa. O penúltimo número (parcialmente disponível no site da revista), além de ter um punhado de cartoons fabulosos, traz alguns dos comentários mais ácidos que pude ler nas últimas semanas sobre o "quagmire" iraquiano (além da reportagem de Gilligan em Bagdade, o de Rod Liddle, "Things were better off under Saddam", é impagável). A edição desta semana, apesar de nos impingir um artigo-resposta de William Shawcross a Gilligam e Liddle, traz três textos de primeira água: um de Michael Lind sobre o culto neo-conservador de Churchill (figura indecentemente apropriada por uma direita americana profundamente ignorante), outro de Paul Robinson sobre a ameaça que algumas das tácticas e métodos de combate ao terrorismo colocam aos valores humanistas das nossas sociedades democráticas (artigo a que voltarei mais tarde), e, finalmente, uma crítica demolidora de Gerald Kaufman ao apoio de Bush ao plano de "desengajamento" de Ariel Sharon de Gaza e da Cisjordânia.
Portas não foi à cerimónia de condecorações dos 30 anos do 25 de Abril. Disse que estava com gripe.
Novo sistema de combate às listas de espera dá "passe" ao doente para escolher hospital
"Ó, psssst, pssst, o que é que o senhor está a fazer aí na marquesa? Para um transplante do rim? Mostre lá o seu título de operação, sáxavor. Ó meu senhor! Então não vê que o seu passe não dá para transplantes? Tá fora da sua coroa, homem. Tem de comprar o L123. "
Leio no Ânimo que o Presidente da Câmara de Pombal, Narciso Mota, do PSD, recusou a medalha de honra do município a Salgueiro Maia, proposta pelo PS. «Não podemos vulgarizar uma homenagem que diz respeito ao município. Eu também era militar no 25 de Abril e a revolução foi feita por muita gente», afirmou o Narciso.
Steinbeck? Beckett? Hermann Hesse? Günter Grass? Camus? Thomas Mann? Sartre? Hemingway? Faulkner? Bernard Shaw? García Márquez? Yeats? Neruda? Octavio Paz? Saramago? Dario Fo? Camilo José Cela? Porque raio recebeu esta gente toda o Nobel da Literatura quando eu escrevi um poema tão catita, em 1977, pelo Dia da Mãe? Amiguinhos bem colocados, é o que é.
O Álbum da Revolução foi actualizado. Mas com uma surpresa: para além dos que aqui já foram publicados podem lá encontrar mais 14 cartazes e folhetos, que, por o mês só ter 30 dias, aqui não serão publicados. As imagens de Abril continuarão a ser postadas até ao fim do mês. No conjunto, o Álbum da Revolução acabará com 44 imagens. O álbum continuará disponível depois deste mês. Bom proveito.

Panfleto de propaganda eleitoral da Aliança Operária-Camponesa (AOC), 1976
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
O CDS está contra a condecoração de «bombista».
Desculpem lá se pareço não confiar muito nesta história de armas escondidas, mas não se esqueçam que eu devo ser um daqueles anti-americanos primários.
Os blogues já fizeram as suas primeiras vítimas em Portugal. Três jornalistas d’O Primeiro de Janeiro foram despedidos por denunciarem, no blogue Diário de um Jornalista., algumas práticas comerciais menos ortodoxas daquele jornal. O despedimento foi justificado pela quebra da obrigação legal de dever de lealdade para com o empregador. O Sindicato dos Jornalistas considera que, a serem verdadeiros os factos denunciados, estamos perante um direito fundamental de qualquer cidadão e ainda mais de um jornalista. Se forem falsas, serão os jornalistas a responder judicialmente. Os blogues já não são a brincar.
Continua denso o “nevoeiro da guerra” no Iraque. Ontem, a morte de mais um soldado americano em Bagdade esteve na origem de um violento tiroteio entre um pelotão do exército americano e alguns snippers iraquianos. Poderão ter morrido 4 crianças, mas os óbitos ainda não foram confirmados. Entretanto, os porta-vozes militares da Coligação anunciaram mais um cessar-fogo em Falluja – imediatamente desmentido pelos directos de várias cadeias de televisão, que davam conta de vários tiroteios e explosões à medida que o brigadeiro Mark Kimmitt anunciava as boas notícias. A cada dia que passa, os comunicados da Coligação vão se assemelhando cada vez mais aos briefings do Estado-Maior americano em Saigão, as famosas “Five O’Clock Follies”.

Graças a uma nota de rodapé de William Pfaff no último NYRB, cheguei a esta entrevista com o general Tommy Franks, o último comandante do CentCom, e coordenador dos ataques ao Afeganistão e Iraque. A entrevista foi concedida à revista Cigar Aficionado em Novembro de 2003, pouco depois de Franks ter passado à reserva, e é um documento precioso a vários títulos. Numa conversa pontuada com aquelas saborosas expressões sulistas (“my gracious”, “holy smoke”, “my, my”), o general define-se como um tipo “antiquado”, um pouco “piroso” (“corny”) até, sempre que a Constituição e os valores americanos lhe vêm à mente. Em termos políticos, porém, declara-se rigorosamente apartidário – o que, todavia, não o impede de tecer rasgados elogios à “liderança” de Bush filho. Mas, a meu ver, as passagens mais sugestivas são aquelas em que Franks se pronuncia sobre o futuro do combate ao terrorismo e as suas implicações para a democracia americana. Sendo o terrorismo uma forma de guerra, e sendo a guerra algo de intrínseco à condição humana, não há grande coisa a fazer senão assumir uma postura vigorosa e evitar o exemplo de outras civilizações, como a Grega e a Romana, que a certa altura se tornaram “preguiçosas” e pereceram. Quer queiramos quer não, acrescenta Franks, a nossa civilização e o nosso modo de vida defendem-se “pela força, e não pela esperança”. Mas será que os métodos dos terroristas não poderão levar as democracias a enveredar por métodos mais expeditos e menos consentâneos com as normas do Estado de direito? É aqui que a resposta de Franks me enviou um calafrio pela espinha abaixo. Sim, se a América voltar a sofrer um mega-atentado terrorista, não é seguro que a Constituição resista e as pessoas poderão até exigir uma “militarização do país como meio de prevenir uma outra matança em grande escala”. Good gracious, I hope not.
As obras do Túnel do Marquês de Pombal foram suspensas pelo tribunal. Como ele dizia? "As formalidades estão tratadas. Agora, mãos à obra". Acho que era assim. Afinal não estavam

João Abel Manta: MFA, Dinamização Cultural/Acção Cívica, 1975
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Victor Cruz, deputado do PSD e o novo homem da direita açoriana, afirmou, ontem, na sessão solene da Assembleia da República, que os portugueses foram libertados em 1974 da «redutora estratégia do orgulhosamente sós». Até aqui tudo bem. Só que, na versão do discurso distribuída aos jornalistas, lia-se «sedutora estratégia do orgulhosamente sós». A sedução, quando é a sós, devia ser uma coisa reservada e não para andar a contar aos jornalistas.
Ontem, Durão Barroso levou de Sampaio. No fim, disse que tinha gostado.
Também eu, às vezes, me deixo embalar pelo canto da sereia. Acredito, por vezes – fraqueza minha – que anda para aí uma “nova direita”. Dizem-se liberais, o que não é mau, porque é coisa que em terras lusas nunca se viu. Uma direita que encha a boca com o mercado mas não esteja sempre na fila de espera dos favores do Estado. Uma direita que encha a boca com o “primado do indivíduo” mas não esteja sempre na primeira linha dos guardiões da família tradicional. Uma direita que se assanhe contra o comunismo mas não viva tão mal com a revolução que pôs fim a uma das mais longas ditaduras europeias. Uma direita urbana, cosmopolita, liberal na economia e nos costumes. Nunca se viu e eu gostava de ver. Porque assim, no debate, sempre se atalhava caminho.
Ultimamente, por ingenuidade, ainda cheguei a acreditar que ela andava por aí. Que tinha largado o pingalim e as botas, as patilhas e a farda, a batina e o nome de família. Engano meu. Bastou um dia de comemorações para que não se aguentasse. Mexemos-lhe no baú do seu passado e logo ficam à solta todos os seus fantasmas. O senhor Rui, do Blasfémia, deu um ar da graça da direita portuguesa. Não muda. E a questão é saber se esta direita periférica e atrasada alguma vez deixará de o ser. Título sugestivo do seu post: «25 de Abril, Nunca». Algumas passagens:
«À PIDE/DGS sucedeu uma polícia política bem mais temível.»
«Do ponto de vista da História, da História grande e verdadeira, o 25 de Abril serviria para a União Soviética manipular alguns “revolucionários” de ocasião e deitar mão aos territórios africanos»
Gabriel Silva, também do Blasfémia, lá tenta salvar a honra do convento. Mas tamanha alarvidade é difícil de remendar.
Por mim, poderia debater cada um dos argumentos do senhor Rui. Mas não o faço. Prefiro esperar pelo nascimento de uma direita portuguesa civilizada. Mas vou-me sentar, que esta espera é capaz de demorar.

Tal como prometido, o Barnabé, hoje, é só dos leitores. Todos os (muitos) textos que pode ler aqui em baixo são deles. Depois de nós próprios o termos feito, é a vez de outros contarem o seu dia 25 de Abril de 1974. Os textos não foram editados e estão aqui como nos chegaram. As imagens são da nossa responsabilidade. Nem todos cumpriram o espaço pedido, nem todos puseram títulos - alguns foram acrescentados por nós. Mas todos compreenderam o espírito desta ideia: o dia 25 de Abril de 1974 visto por muitos olhos, sentido de forma diferente. Obrigado a todos. Bom 25 de Abril, o dia mais feliz que este país fez. Foi há 30 anos.

Caxias, noite de 24 para 25 de Abril de 1974 (até parece que foi ontem!): somos “informados”, através de um código sonoro, que tinha havido um golpe de estado. Alerta geral. Como, quem, etc,etc.. É que o “informador” do exterior não tinha dito – saberia?- qual a tendência ou orientação do golpe. E dentro de Caxias os guardas prisionais não sabiam patavina. Na dúvida, e à cautela, havia que tomar medidas de protecção e de segurança. Tínhamos bem presente na nossa memória o que ia acontecendo em certos países da América latina: golpes de estado da extrema/extrema direita levavam a que os presos políticos fossem simplesmente massacrados. A tensão e a ansiedade, que eram grandes, foram-se amenizando quando vimos os pára-quedistas rodearem a prisão, substituindo a GNR. Como os páras eram fiéis ao Spínola e como este tinha, pouco tempo antes, escrito “Portugal e o futuro”... Contudo, os suores só desapareceram quando vimos aparecer os fuzileiros navais com sorrisos e o dedo bem levantado para cima. Aí sim, respiramos fundo e libertamo-nos. As portas das celas foram escancaradas e os portões foram abertos para dar passagens aos nossos advogados e a alguns jornalistas. Os abraços quase que partiam ossos e as lágrimas, desta vez de alegria, escorriam abundantemente. Estávamos todos preparados para abandonar a famigerada cadeia, quando surge um oficial, a mando do Spínola, comunicando-nos que o sr. General tinha dados ordens para que não saísse ninguém. Os casos/processos seriam analisados um por um. Blá, blá, blá, blá. O absurdo ainda teimava em reinar em Portugal e o Spínolo já pensava que mandava em tudo. Depois da nossa firme e determinada recusa, com imediata greve da fome, e depois de negociações e pressões, o malabarista Spínola, determinou que os presos poderiam sair mas aos grupos; assim: uma camioneta iria descarregar um grupo no Areeiro, outro faria o mesmo no Campo grande, e por aí fora. Entretanto, as pessoas, aos milhares, rodeavam a cadeia e gritava: “Queremos os presos, queremos os presos”. E pronto, agora sim, lá saímos, cantando e rindo, mas desta vez com alma, alegria e determinação. No dia 26 de Abril. Na rua, já a Festa tinha começado!
Casimiro Ribeiro
No 25 de Abril eu era criança, a vida era-me fácil e tinha a ideia de que ser comunista era assim como uma doença. Não sei porque pensava assim porque não me parece que em casa me passassem essa ideia. Os pais da minha melhor amiga eram comunistas (vim a saber depois) e um ano antes, no 11 de Setembro de 73 estavam muito tristes e explicaram-nos o que tinha acontecido no Chile. Em minha casa o meu pai conversava com os amigos e a minha mãe desabafava: lá estão eles a falar de política. Também me lembro de ver lá por casa o livro do Mário Soares, “Portugal Amordaçado” ainda na edição francesa, trazido por um qualquer amigo viajante e de ter a sensação de que aquilo era algo secreto. Outra memória é a de uma manhã ouvir a vizinha de cima chorar e ouvir qualquer coisa como a polícia ter virado a casa dela do avesso por causa de um filho que estudava em Lisboa, mas ninguém me explicou muito bem o que tinha acontecido – não era conversa de crianças. Muito antes disso, o meu pai cantava-nos uma canção que para mim era uma canção infantil “Se eu fosse carpinteiro casava com uma ceifeira...” e que acabava mais ou menos assim “cinquenta de ditadura. Arre porra que é demais”, o meu avô ficava muito zangado com o meu pai e nós achávamos que era por causa do “arre porra”.
Isabel Prata

O afago meigo do vento na minha face atrida reclama as memórias delidas de uma noite distante. Éramos jovens com asas de anjo vingador, guerreiros indómitos com o buço a despontar e a G3 cingida ao corpo, amante engatilhada para o encontro com a morte. Naquele dia 25 de Abril de 1974, ainda o estertor da noite vinha longínquo, já os vultos camuflados adejavam, silentes, na mata de Cantanhez.
Foi nesse dia que perdi a audição. De qualquer forma eu já estava habituado ao silêncio. O silvo de uma bala, o último som que terei escutado, talvez a mesma que tocou o Gomes entre os olhos e o norteou para o reverso da vida. Quando capitulou, a face alva de minhoto surpreendida pela bala da “costureirinha”, o seu corpo baqueou mesmo a meu lado. Sussurrei-lhe, desesperançado, sem me ouvir, que ia ficar bem. E lembrei-me do dia em que vim para a Guiné, da minha mãe a rezar em frente de uma fotografia minha vestido de militar. Queria estar junto dela (será preciso dizê-lo?), olhar a sua face empergaminhada, tocar-lhe as mãos quentes. Não estar ali.
O sangue quente gotejava no meu rosto assassino, aquele vermelho vívido como um cravo no cano de uma G3, o olhar relapso nos olhos exauridos do Gomes. Percebi que aprendêramos a matar sem que soubéssemos porquê. O guerrilheiro pelo menos sabia porque matava, eu não. Ainda não sei.
Ao longe pressenti o limbo pardacento da tabanca. Deixei o frio subjugar o corpo em jeito de redenção. Olhei à volta, os homens abraçavam-se porque iam voltar para casa. Vivos, que o Gomes voltava encerrado entre tábuas de pinho. Alguém escrevinhou num papel gorduroso que os capitães tinham derrubado o governo, o lobo fora caçado. Antes de adormecer, uma lágrima solitária misturou-se com a poeira e o sangue na minha face. Somos livres, a última coisa que ouvi, dita em uníssono por centenas de vozes. Bem sei que não mas permite-me que esqueça o que te contei antes.
Francisco Curate
O monge Cristiano decidira, piedosamente, emparedar-se. Através da estreita grade, almas caridosas deixavam cair comida e água. Vivia como quem está morto. Antecipava na Terra o castigo dos seus pecados e remia os dos Homens.
A imagem do impensável ficou. Tinha treze anos. Eu bem sei que era na Europa da Idade Média, na idade das trevas ou da Al-Qaeda. Eu bem sei. Mas mesmo assim… teria mesmo havido emparedados?
Também o meu neto vai um dia perguntar ao pai, quando tiver dez anos, se é verdade que ele nasceu na clandestinidade. E se de facto havia pessoas que decidiam passar à clandestinidade só para lutar pela Liberdade. E os pais dirão que sim. Que foi há muito tempo. Antes do 25 de Abril de 1974. Que foi para fazer uma RRevolução. E que será sempre assim. Mas de outro modo.
Raimundo Narciso

Recordo acima de tudo o transformar das expressões dos meus pais. Do ar preocupado à gargalhada não reprimida. Lembro-me ainda de os ver, brilho nos olhos, a ir buscar discos proibidos que apenas nos era permitido ouvir baixinho...
Mas aquilo que lembro e me cravou a minha infância de Abril, são momentos que se deram depois, marcas que não se desvanecem apesar de ter dificuldade em os seguir cronologicamente. Uma birra monumental dos meus seis anos por não me deixarem ir ao primeiro 1º de Maio e o orgulho de, já que tinha ficado em casa da minha avó, me terem "alfinetado" um cravo vermelho ao peito.
Lembro-me de ter assistido a sessões de esclarecimento (era assim que se chamavam) que eram acima de tudo uma festa, com o Zeca Afonso em Porto Salvo, ou mais tarde com o G.A.C do Zé Mário Branco. Ainda nas memórias musicais, e políticas, recordo uma festa após uma ocupação de casas no Monte Estoril com o José Barata Moura e a pequenada, de que eu fazia parte, a cantar com a mesma alegria o "Come a papa Joana", como noutros dias cantávamos "A cantiga é uma arma" ou a "Grândola".
A casa onde eu vivia passou a ter um corrupio de gente que eu não conhecia e que brincava, ainda, à clandestinidade. As mesmas pessoas que tinham um nome com que eu as cumprimentava quando nos cruzávamos nos cafés, eram nesses momentos tratadas por outros nomes... e as saídas de casa faziam-se intervaladas de dez minutos para não levantar suspeitas. Suspeitas? Na minha rua, cheia de meninos do MIRN, todos nos chamavam Comunas e conheciam bem a nossa "cor".
Recordo Abril com a ingenuidade de uma criança. Mas sei que essa vivência que tive tão novo, me marcou mais profundamente do que ouso admitir.
Pedro Farinha
A minha recordação do 25 de Abril (à data do qual eu tinha 11 anos, já era consciente) é de um vizinho ter vindo visitar o meu pai, logo de manhã, às 8 horas, e dizerem "parece que agora isto vai". Ainda me lembro perfeitamente desta frase.
Depois não houve escola, nesse dia e a 26 salvo erro, foi muito bom.
Toda a gente estava farta da ditadura. Toda a gente, digo, inclusive a burguesia. Já antes do 25 de Abril me lembro de ouvir a minha prima, num passeio pela praia, explicar-me que Portugal era uma ditadura, que não se podia exprimir livremente a opinião. Fiquei muito traumatizado com isso. Depois, no 16 de Março, a minha mãe ficou muito frustrada com o falhanço do golpe. Lembro-me perfeitamente. A minha família era burguesa, não aristocrata nem oligarca, mas burguesa. A burguesia, a não ser mesmo os que estavam próximos do poder, estava farta da ditadura.
Contrariamente ao que hoje dizem certas pessoas, havia em Portugal uma burguesia que não estava no poder. A minha mãe era de uma família de pequenos industriais nortenhos. O meu pai era médico, com um curso universitário tirado no meio das maiores dificuldades, com a mãe a plantar couves na horta e o pai emigrado no Brasil. Esta burguesia, que não se alimentava do poder mas do seu trabalho árduo, estava farta do fascismo. Até às orelhas.
Luís Lavoura
Nasci no dia 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução (ou, como se diz agora, para não aborrecer ninguém, da Evolução) dos Cravos. Por isso, a minha experiência do 25 de Abril é exactamente igual à da generalidade das pessoas de direita que viveram naquela época: não mexi uma palha para que a Revolução se desse, não a desejei e não estava minimamente convencido de que fosse necessária.
Tal como o 25 de Abril, também eu celebrarei este ano o 30º aniversário. Diz-me o sr. Ministro da Presidência que os 30 anos são a idade da maturidade e que, por causa disso, a Revolução deixará cair o “r”. Eu, que tenho a fama de ser imaturo (entre outras), não quero perder esta oportunidade de mostrar que já sou um homenzinho, e decidi deixar cair também o meu próprio “r” inicial. Podem começar a tratar-me por Icardo.
Ricardo de Araújo Pereira

Acordei com um telefonema às 6 da manhã: “Cuidado! Oiçam a rádio, passa-se qualquer coisa!” A primeira ideia – um golpe de direita. Telefonar era arriscado, a Pide existia. Saímos a correr de casa. Parecia um dia normal. Ao chegar à Baixa a tensão crescia, tropa, tanques. Ouvíamos que O Marcelo e o Tomás tinham ido para o Carmo. Tentamos chegar lá mas já não se conseguia passar, a multidão era grande e os tanques e jipes bloqueavam as passagens. As pessoas falavam umas com as outras o que seria impensável na véspera por medo da Pide. Gritavam: Viva a Liberdade! Já se começava a ter a certeza de que não era o Kaúlza como de início se tinha pensado. Vamos a Caxias buzinar, passar mensagem. Voltar a Lisboa, procurar amigos. Abraços, muito nervoso, alegria, inquietação. Mas quem está por detrás deste golpe? O que é o MFA? Ouve-se rádio, vê-se TV, e por fim vê-se a Junta de Salvação Nacional. Desilusão. Não eram as caras que se esperava. Mas o movimento era imparável, e a certeza chegou com o 1º de Maio.
Nascida a 25 de Abril
Nascido a 25 de Abril de 1910, viveu grande parte da sua vida debaixo de um regime opressivo onde a Liberdade não existia.
Fruto das circunstâncias e como aconteceu a tantos milhares de Portugueses, a escolha dos ideais de esquerda foram uma opção inevitável.
Foi preso várias vezes por ser dirigente sindical e levantar a voz em defesa de direitos básicos dos trabalhadores, sendo forcado a abandonar a esposa e os 4 filhos por períodos breves mas cheios de incerteza e preocupação.
O dia 25 de Abril de 1974, data do seu 65o aniversario, foi concerteza o dia
mais feliz da sua vida.
Eu tinha apenas 4 anos e não me lembro de muita coisa, alem da excitação dos adultos e da viagem de Lisboa para Santarém, procurando evitar problemas maiores se por acaso as coisas não corressem bem.
O meu avô chamava-se José Ferreira e nasceu 2 vezes a 25 de Abril. E eu todos os dias o recordo.
Rui Ferreira
Pedro (saiu de ) madrugada (para o) quartel. Maria (ficou em casa): era preciso (tomar conta das) crianças (tão pequeninas ainda).
(Ouvido colado ao) rádio: temor (a Pide que não caía, Marcelo que não se entregava) e esperança (a voz de Joaquim Furtado), Grândola; (até as) lágrimas correrem livremente sobre cravos vermelhos.
(Maria tinha vinte e oito anos e a) certeza (de que) Abril mudaria (tudo). (Ah); Revolução! (30 anos depois, ainda fazes bater o) coração (de Maria).
Maria, a própria

Com o 25 de Abril de 1974 o turbilhão chegou à nossa casa. Na cara de meu Pai eu só via desespero, na cara de minha Mãe, via medo e pressa de fugir. Nas ruas havia tiroteio e de noite ouviam-se basucas a explodir.
Um dia levaram-me de casa ao aeroporto de Luanda. Ali dormimos duas noites à espera de um avião. De Lisboa partimos para o Minho.
Chamavam-nos fascistas, retornados, apontavam-nos o dedo à cara como se fossemos uns monstros. O frio era de rachar, as pessoas não tinham alegria e a mentalidade era muito estranha. Na escola eu só via miséria e atraso. A amargura crescia a cada Inverno. Mastiguei-a lentamente e com a idade percebi que me arrancaram à força de uma vida que estava só a começar. Tinha feito a 1ª classe, andava feliz, realizada. Tiram-me o bolo da mão e só tinha dado uma trinca.
Foi duro conhecer a Mãe-Pátria. É impossível esquecer a Colónia onde nasci. Foi um sonho de menina que morreu com uma tal Revolução.
Gui
25 de Abril de 74: idade 7 anos, curiosidade estranha pelo nervosismo inicial da minha avó, que cresceu para uma alegria incontida, à medida que as horas do dia caminhavam definitivamente para a liberdade.
Os telefonemas, os abraços, a multidão desordenada; a minha tia-avó que veio do Porto e que se perdeu de nós no desfile do 1º de Maio; os tiros furtivos de alguns pides desesperados e o medo estampado da minha mãe dentro de um carro a proteger os seus filhos; a alegria do meu Pai e a inocente compreensão que as ruas afinal tinham sido construídas para viver!
António Machado
João, 14 anos, arrebita como um cão de Pavlov ao ouvir a sineta. Interrompe o papelinho que estava a escrever para entregar à Rita, amiga da Beta, destinatária de tão ardorosos ditos, e olha fixamente para o professor. Ele já sabia que era do 25 de Abril que se tratava. O 25 de Abril!! O que imediatamente lhe ocorria eram as corridas de atletismo e de ver os mais velhos a jogar à malha, isso quando não chovia. Mas era do tio Elias que se lembrava. O tio Elias!!! Militante do Partido Comunista, “bon vivant” e sempre com uma piada provocatória na ponta da língua. Grande dinamizador das comissões democráticas eleitorais e grande “pichador” de paredes e afins. “Abaixo o regime. Viva a Liberdade” valeram-lhe ficha na PIDE, várias noites a dormir de pé nos calabouços da esquadra de Alcains e um bilhete de ida para a guerra. O Padre Álvaro, seu irmão e tio do João, safara-o sempre. Por descargo de consciência, dizia. Lembrava-se da frase que, segundo o seu pai, o tio Elias disse ao Tio Álvaro logo após o 25 de Abril: “Olha, agora sou eu que te posso safar. Não te preocupes e diz aos teus amigos para não se preocuparem. A liberdade é para todos, irmão”
Rodion
A 24 de Abril de 1974 era eu um puto zarolho com 8 anos acabados de fazer, em tratamento oftalmológico no Porto, praticamente alheio aos detalhes da vida política do meu país. Fui para a cama cedo, numa pensão na Rua da Alegria, porque no dia seguinte tinha tratamento de manhã.
Não tive. O consultório, para grande surpresa minha e da minha mãe, estava fechado, sem sequer uma nota a dizer o porquê, embora as ruas desertas pusessem na situação uma nota a mais de estranheza. Pusemo-nos então a andar pelas ruas do Porto à procura de respostas, e obtivemo-las sob a forma de um trio de raparigas felizes e exaltadas que nos explicaram que estavam a prender pides e que havia tiros algures lá mais pra baixo, antes de se encherem de desconfiança sobre a natureza política da minha mãe, que nesse dia tinha resolvido vestir-se burguesmente com um casaco de peles.
Ainda insisti várias vezes para ir ver o que se passava, mas sem sucesso. As mães são assim, têm a mania de proteger os putos mesmo contra a vontade deles.
Restou-me(-nos) acompanhar os acontecimentos pela televisão, numa sala minúscula apinhada de actores. Bebeu-se, chorou-se e riu-se muito naquela sala. Foi a minha primeira noitada.
Jorge Candeias
Tenho sessenta anos e sempre vivi em Coimbra. Por motivos que não interessam, agora, para a história, nessa altura, ainda andava na faculdade, mas já trabalhava. Quando acordei nesse dia e me dirigi para a faculdade, havia uma agitação na rua, e um burburinho desusado. Os nossos Professores, estavam tão felizes como nós e depois de nos abraçarem, mandaram-nos para a rua, dizendo que tudo tinha mudado e para gozarmos o dia. Depois, quando fui para o trabalho, pensei no meu irmão mais novo, que estava precisamente na tropa. Conhecendo-o, como eu o conheço, fiquei com a convicção que quando nos encontrássemos, de novo, ele tinha feito o 25 de Abril todo sozinho... e foi mesmo assim que ele me contou: esteve na tomada do ralis, da televisão etc, etc... ( as histórias dos homens que fazem tropa...). Claro que não fez tudo sozinho, mas fez o que devia tal como a maior parte dos seus colegas. É também a esses anónimos soldados que devemos esse dia e os outros que se seguiram. Foi um tempo glorioso, um tempo de esperança e de alegria, em acreditámos, mesmo, que tudo ia mudar. Lembro-me que um dia, (creio que foi o primeiro 1 de Maio) eu ia numa manifestação e passámos junto dum cabeleireiro, estava uma senhora à janela, com a cabeça coberta de rolos, e começou a gritar: tirem-me isto da cabeça, que eu quero ir para junto daqueles companheiros! E veio feliz e contente. Era assim, também, o tempo de ousar, de experimentar, de quebrar amarras, tão apertadas e às vezes, tão ridículas. E pronto foi mais ou menos assim.
Fátima
No dia 25 de Abril de 1974 eu ainda não tinha nascido. O meu Abril, aquele que me formou, foi criado pelos meus pais, pelos valores que me transmitiram, pela festa que faziam sempre que se comemorava o Dia da
Liberdade. Lembro, com demasiada saudade, os ramos de cravos vermelhos com que a minha mãe enchia a casa, estivéssemos ou não, em Abril. Lembro quando me mostraram a voz quente do Fernando Tordo a cantar a poesia de José Carlos Ary dos Santos: “O povo não é livre em águas mornas / Não se abre a Liberdade com gazuas”. Lembro-me de ouvir, com eles, vezes sem conta, Zeca Afonso, exemplo máximo dos trovadores de Abril. Talvez por isso, ainda hoje me sinta um “Filho da Madrugada”.O 25 de Abril é, para mim, um espaço emocional, porque não o vivi. Um espaço de sonho, de inocência, de acreditar que tudo é possível. O primeiro momento, o momento fundador, de todos os ideais em que acredito. Liberdade. Democracia. Solidariedade. Paz. Neste dia, 25 de Abril de 2004, quero dizer obrigado e prestar homenagem aos militares que souberam dizer basta. E aos meus pais por terem criado, para mim que só nasci depois, esse espaço de sonho.
Serrinhas

A Mãe: ACORDA, ACORDA!!!! Está ali o António (O Namorado) a dizer que houve um golpe de Estado.
Eu (estremunhada): Ah sim? E já mataram o Marcelo?
O Namorado: Não, que disparate! Acho que está no quartel do Carmo com os outros ministros.
Ligámos a rádio: AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS.
Tinha começado a Festa e nós ainda não o tínhamos percebido. Não sabíamos ainda se o golpe era de direita ou de esquerda. Ao longo da manhã, a música que a rádio passava foi-nos explicando que o golpe não era de direita. O Zeca, O Adriano, O Zé Mário Branco, O Sérgio Godinho, as vozes e as cantigas que tantas vezes tínhamos ouvido às escondidas, estavam ali a dizer que as coisas estavam a mudar, que finalmente íamos poder falar à vontade sem receio que um Pide nos estivesse a ouvir e nos denunciasse. O Medo, que durante 50 anos nos tinha tolhido a voz e os movimentos, tinha sido derrubado. Finalmente derrubado!
Fomos para Lisboa. Para o Largo do Carmo. Já estava cheio de gente que como nós queria gozar da Liberdade acabadinha de chegar.
Graça
25.04.74. Tinha acabado de fazer 11 anos.
Do regime de então, nada sabia mas, duas situações por mim vividas nessa época, anterior à revolução, acompanham-me até hoje.
Um casal, amigo dos meus pais, na época com 30 e poucos anos, tinha sido preso.
"Que raio, pensava eu, presos são os ladrões e os assassinos. Mas têm os meus pais amigos desses?"
Nunca compreendi essa prisão... nem nunca tive coragem de perguntar (não fossem eles ladrões).
Na minha inocência, ninguém era preso por pensar ou dizer, diferente do regime.
Nem sabia que havia regime. Vivíamos pacatamente e tinha uma infância feliz.
Numa altura, em época de eleições, pergunto à minha avó, mulher culta, instruída e com profissão, porque não ia votar?
Não vale a pena, foi a resposta. E o avô, vai porquê? Vai porque é obrigado... O meu avô era oficial da marinha.
Mais uma vez, não questionei.
A verdade, é que ao longo destes 30 anos, nunca esqueci estas 2 situações, pouco conformes com a vida em democracia.
Ana Rita
Só me lembro de ter vestido uma blusa vermelha de gola alta. No liceu já estava preparada uma manifestação de alunos e professores . A malta rumou toda para a cidade e a manif foi engrossando até chegar ao centro. Acho que fomos todos correndo. A cidade estava cheia de pequenos comícios. Mas o que a malta nova queria mesmo era dar cabo da sede da Pide. E foram os jovens que primeiro lá chegaram. Toda a gente lançava pedras, imprecações e ameaças para a porta de ferro, da sede, em Portimão. Eu era um puto afoito, e talvez por isso me tenha aproximado da porta. A primeira cuspidela de asco e o primeiro pontapé foram meus, esse é o meu orgulho. Depois foi a destruição completa, a malta não quis saber de documentos, nem nada, retratos do Tomaz, do Tenreiro, do Caetano, saltaram todos em fanicos.
A seguir a esta azáfama, que horas seriam? Só me lembro de estar com o carpinteiro Joaquim na sua oficina, a serrar madeira e a pintar painéis para a manifestação que ia partir para Lagos. As palavras de ordem, tinha-as na cabeça, mas escolhi duas, que pintei a negro sobre o tabopan: “Em Luta pelo Pão!”; “Por um Regime Popular”.
Helder
Fez ontem 30 anos...
Eu tinha dezassete, e sete dias antes despedira-me daquele que deveria ter sido o meu primeiro filho, porque era inconcebível tê-lo sem ser casada.
Eu tinha dezassete, e fui ver um filme ao Tivoli, e no dia seguinte, de manhã, escrevi na minha agenda: "Ontem, enquanto eu estava a ver 'A Golpada', parece que deram a golpada nisto tudo"...
Isto tudo era ... tudo: falar baixinho, forrar as capas dos livros, ver filmes "cortados", contar anedotas do "cabeça de abóbora" e achar que isso era ser "do contra", fugir de casa e voltar recambiada porque ameaçaram o meu namorado com a polícia, fazer sexo às escondidas, amar desesperadamente e não ter esperança no futuro, ver-me, 18 anos depois, a despedir-me do meu filho que ia preso pela PIDE, ou para a guerra, se o tivesse e fosse um rapaz (é mesmo verdade que isso me aterrorizava: apesar de nas conversas segredadas dizermos entre nós que o regime estava podre e ia acabar por cair, era impossível imaginar esse dia - afinal já tinha durado toda a nossa vida e as vidas dos nossos pais...)
Faz hoje 30 anos...
Eu tinha dezassete, fui para o liceu e não houve aulas, fiquei no café à espera de novidades, ninguém tinha a certeza de nada, mas dizia-se muita coisa. E depois voltei para casa e vi a Revolução na televisão, porque a minha mãe não me deixou sair (ah! se fosse hoje!...).
Mas no dia 26...
Eu ainda tinha dezassete anos mas, de repente, ter dezassete anos já não era a mesma coisa. E as ruas já não eram cinzentas, e também já não eram perigosas, porque aquilo que as tornava cinzentas e perigosas tinha acabado naquela estranha quinta-feira. E fui finalmente para a rua, nesse e em todos os dias seguintes, na vertigem da liberdade e da alegria, porque a rua já não era um "lugar para", era um "lugar onde"...
Ah! E um ano e três meses depois, o meu (outro) filho acabou por nascer!
Nikê
Lembro-me de um dia 25 de Abril algures no meio da década de 80, altura em que os ânimos já se tinham acalmado e o país entrava nos primeiros anos cavaquistas. As comemorações estavam a ficar cinzentas e ritualizadas, contrastando com as festas coloridas dos anos que se seguiram à revolução. Recordo o colorido desses dias sempre solarengos. As cores dos cravos e das tintas que usávamos para pintar, até à exaustão, cravos em canos de espingardas. Lembro-me dos torneios desportivos, das corridas e das medalhas. Eram dias de vermelho e verde que coloriam as paredes híbridas dos prédios sem cor dos subúrbios da Margem Sul.
A partir da segunda metade dos anos 80 as festas deixaram de se viver nos bairros e nas freguesias e tornavam-se cada vez mais institucionais. Já não brotavam cravos nas paredes e marquises do Feijó. Por detrás do meu prédio existia um descampado que resistia à fúria da construção. Neste pedaço de terra passávamos dias a jogar à bola e a comer o pó levantado pelas tropelias. Era uma ilha rodeada de prédios. Alguns ainda estavam em construção e serviam de castelos para a nossa imaginação.
Contudo, nesse dia 25 de Abril já não se sentiam os sons e as cores da festa. Naquele bairro era um dia igual aos outros. Um feriado vivido em casa ou no deslumbramento dos primeiros centros comerciais. As festas decorriam nas cidades e o Tejo era um barreira quase intransponível que tornava Lisboa muito distante para um adolescente da Margem Sul. Recorri aos poucos discos que tinha em casa e que ouvia numa daquelas aparelhagens com gira-discos e gravador incorporado. Lembro-me particularmente de dois: o single da Grândola Vila Morena do Zeca Afonso e um LP de Adriano Correia de Oliveira “Gente Daqui e de Agora”, que por se encontrar tão riscado fazia saltar a agulha em algumas faixas.
O fio das colunas da aparelhagem era comprido e chagava à janela que dava para o descampado. De repente o som dos discos do meu pai entoou por todo o quarteirão durante duas ou três horas. Organizei uma transmissão radiofónica a partir dos poucos discos que tinha. Alguns sons de Abril saíam do altifalante da aparelhagem e espalhavam-se contra o betão do subúrbio. Senti que algumas pessoas que habitavam aquelas paredes poderiam estar a ouvir. Tentei levar aquilo a sério, tendo o cuidado de seleccionar as faixas adequadas, o que requeria alguma perícia pois tinha de acertar com a agulha no sítio certo. Ninguém reclamou do barulho e a música terminou ao entardecer. Naquele dia 25 de Abril fui eu que dei cor ao bairro com a minha emissão radiofónica.
Renato Carmo

Anónimo: A Vontade Popular, Movimento Democrático Português (MDP), Abril de 1974
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Nasci numa família de camponeses migrados para Lisboa nas décadas de 50 e 60. Poucos tinham mais do que a "instrução primária", mas a aldeia ribatejana de onde vieram tinha uma tradição republicana, oposicionista e de esquerda com raízes no início do século XX. Um dos meus tios foi preso diversas vezes, uma delas por participar em comemorações reviralhistas do 5 de Outubro, e mais tarde por suspeitas de pertencer ao Partido Comunista Português. Na verdade a única prova encontrada em casa dele havia sido um cabeçalho do Avante! que por azar tinha ficado esquecido, já não sei se debaixo de um colchão. O resto das coisas – cassetes, livros, etc. – tinha já sido enterrado num quintal insuspeito uns meses antes. Tudo isso tinha, contudo, pouquíssima importância, até porque o juiz que o condenou dormiu durante praticamente o tempo todo do julgamento. No fim abriu os olhos e proferiu as sentenças. O meu tio apanhou dois anos de prisão.
Em 1972, quando eu nasci, esse meu tio estava preso no forte de Peniche. No dia 15 de Agosto desse ano, com pouco mais de quinze dias, os meus pais levaram-me à cadeia para que ele pudesse ver o seu novo sobrinho. A minha mãe conta com orgulho que a dado momento os outros presos pediram aos familiares que se afastassem para que pudessem ver aquele recém-nascido enquanto ela me mudava as fraldas numa mesa ali mesmo no parlatório. Alguns daqueles presos estavam ali há anos; ver um bébé era ver um sinal da vida lá fora. Ou talvez, como eram comunistas, estivessem apenas a pensar no pequeno-almoço.
Foi essa a minha primeira acção de luta anti-fascista e de solidariedade para com os presos de opinião: deixar que me mudassem a fralda como sinal de que um dia haveríamos de sair daquela merda. Sei que não é grande coisa, mas fiz o que pude.
Uma estranha corrente freudiana liga este episódio a um outro ocorrido já depois da revolução: a minha primeira intervenção numa manifestação. Toda a família sabe que aconteceu num 1º de Maio, mas há divergências sobre se foi em 74 ou 75. A minha mãe acha que foi no grande 1º de Maio de 1974, e garante que esse foi o dia em que deixei de usar fraldas (viram?).
Aconteceu assim: perdi-me da minha família e as pessoas que me encontraram a chorar levaram-me até ao palco. Lembro-me de caminhar pelo meio de pernas de adultos que me pareciam gigantes, provavelmente políticos importantes. Puseram-me o microfone à frente da boca e perguntaram-me como me chamava, ao que eu respondi como tinha aprendido, repisando mecanicamente todos os meus cinco nomes. Não consta que as massas tenham ficado muito galvanizadas, mas pelos menos os meus pais e os meus quatro irmãos mais velhos chegaram a correr com grandes sorrisos e felicitaram-me muito.

(O revolucionário sem fraldas)
Chegado a este ponto, parece que já estou a ouvir o típico comentador de direita do Barnabé a perguntar-me onde é que eu estava no Verão Quente de 1975 se não a ocupar terras arduamente adquiridas por honestos cidadãos. E, por incrível que vos pareça, era exactamente isso que eu estava a fazer aos três anos. Não tenho aqui à mão uma fotografia muito goyesca que mostra o pessoal da aldeia a invadir a Quinta do Brinçal, com o meu pai em cima de um reboque erguendo uma forquilha. A Quinta do Brinçal era posse de um senhor chamado Barbieri Cardoso, que caso nunca tenham ouvido falar era um competente e trabalhador PIDE com uma brilhante folha de serviços, incluindo o momento alto da sua carreira que foi o envolvimento no assassinato de Humberto Delgado. Curiosamente, ele também se tinha limitado a ocupar ilegalmente aquele terreno. Mas os seus altos serviços à Nação, quem sabe o dedicado sadismo com que mandava torturar os presos, fizeram com que esta fechasse os olhos a uma ocupação que foi feita sem arruaça nem recurso à ralé.
O meu Verão Quente foi então passado a perturbar a economia do país com as terríveis consequências que conhecemos e que hoje em dia explicam tudo o que de errado acontece em Portugal, desde os comboios atrasados à falta de respeito. Foi assim: todos os dias vinha uma camionete da Azambuja que levava os miúdos todos a nadar à piscina que tinha pertencido ao tal senhor PIDE. Era uma piscina redonda que não dava grande jeito para ter aulas. De qualquer forma, foi a primeira em que nadámos, tanto eu como muitos miúdos das aldeias em volta.
Estávamos na fronteira entre Azambuja e Rio Maior, e nem nos dávamos conta de que se o país entrasse em guerra civil se partiria ao meio exactamente por ali. Nós viveríamos num paraíso socialista e o leitor para lá da terra das mocas num Iémen do Norte chileno, com o Cónego Melo como grande Ayatollah e os senhores do ELP como pinochês.
A 25 de Abril de 1974 eu tinha 2 anos e 8 meses. Sem memória, imagino um dia pachorrento em Moncarapacho (concelho de Olhão), no tempo rural do meu avô, grandes portadas fechadas. Muitos como eu que aqui escrevem têm esta memória por procuração. Demasiado pequeno para me lembrar do dia, ainda captei qualquer coisa depois, senti o PREC como a criança que era. A minha memória menos fragmentada data realmente de 75-76, sobretudo com os meses passados em Árgea, perto de Torres Novas, na cooperativa Comunal. Apercebi-me mais tarde de como havia ali uma energia social extraordinária que se misturava com as histórias pessoais de cada um. Dois tumultos. O meu, do que me lembro, tinha a ver com prementes angústias de separação.
Mesmo se isso tem um lado angustiante, uma das coisas bonitas do 25 de Abril para mim é esta coisa de procurar recordações de menino. Posso fazer analogias com a revolução e a sua ingenuidade. Uma mitologia de ricos e GNR’s maus, e povo bom. O facto de eu não me lembrar do 25 de Abril como adulto abre mais a porta à fantasia e à ausência da decepção política característica do meio familiar em que nasci, o princípio da realidade (25 de Novembro). E faz de mim em certa medida um nostálgico sem objecto. Ou de um objecto deslocado, mas fundamental, ligado à construção da minha história. Assim, o meu 25 de Abril não deixa de ser real, presente. Testemunha de testemunhas, vivo esse dia através de emocionantes imagens que nunca poderei esquecer, como a do meu pai contando o seu 25 de Abril passado fora de Portugal, na cama de um hospital, em lágrimas, vendo na televisão a libertação dos seus amigos presos políticos. Com marcas tão reais e vivas, parciais mas históricas, nunca me entrarão na cabeça revisionismos badamecos.
(Tinha, para seguir os meus amigos barnabés, preparado uma foto de época, mas dificuldades técnicas impediram a publicação. Eu conto-vos em formato jpg: estou em Árgea, a olhar para vocês com um sorriso meiguinho e franco. Estou deitado de barriga para baixo, as mãos apoiadas no chão levantando o meu tronco até bem acima. Mas o facto mais saliente é que estou com a maior carecada que se possa imaginar porque tinha apanhado uma camada de piolhos ou lêndeas e, tal como a minha irmã, levei uma radical tosquia que detestei. E no entanto aqui estou francamente contente. Será pelas macacadas do meu pai, que tira a foto?)
Hoje li uma reportagem no “Expresso” sobre as famílias que depois do 25'4 fugiram de Portugal para o Brasil. Li que até houve uma senhora que teve de fazer bolos para fora. Já soube de gente que teve de vender pratas para os filhos poderem estudar no em colégios decentes, onde houvesse alguma ordem. Tinham, antes da bagunça, empresas da família, arduamente construídas com um empurrãozinho do tio Salazar e do tio Caetano, que os protegiam da concorrência de uns emergentes sem berço, garantindo um selecto monopólio. Às vezes também eram obrigados a um maçador mas inevitável telefonema aos senhores da António Maria Cardoso, para resolver alguns excessos reivindicativos de alguns funcionários ingratos, influenciados por comunas agitadores. Esta gente, com vidas inteiras de trabalho, comeu o pão que o Diabo amassou, no Brasil. É que os meninos nem imaginam. Felizmente tudo se resolveu. Agora, eles já estão outra vez lá na empresa, elas até ganharam o gosto e agora é uma canseira a organizarem “eventos” e, lá no colégio, os piquenos voltaram a usar farda. Tudo está bem quando acaba bem. Só falta uma coisa: está cada vez mais difícil arranjar criadagem. Não dava para resolver isso? Sei lá, tavez com uma lei qualquer.
Precisava natureza pra assistir àquela briga não sofrer do coração não ter verme nem fadiga porque só em ver de longe desarranjava a barriga
O desfecho deste caso começou na madrugada quando o mau aparecia pela forma costumada dizendo que era alguém logo ouvia: “não és nada!”
Esta foi a condição de acabar com a peçonha cada nova falsidade o enchia de vergonha encontrava um espelho via a própria carantonha
Porque a nova personagem tinha poder especial por trás do anonimato duma forma original o carácter se encontrava duma pessoa real
Pela boca morre o peixe diz o povo e tem razão a sua curiosidade ficou Má-fé a roer por saber quem era aquele que o fazia assim sofrer
Já pedia e implorava diz quem és, dá-me um sinal! mas o blogue Barnabé fez-se nick universal por cada um que postava assinava um maralhal
Debaixo do nick novo viu-se algo de diferente ele não representava um ou outro propriamente mas sim a sinceridade e uma certa urbanidade que pode ter toda a gente

Má-fé foi-se ao meio-dia com o rabinho entre as pernas nunca mais por cá foi visto voltou prás terras eternas onde vive o esquecimento das nossas coisas modernas
E o sangue prometido? pergunta vossa excelência que chegou até ao fim tudo leu com paciência eu respondo foi um truque pra aumentar a audiência
[Inspirado em folheto de Erotildes Miranda dos Santos, o Trovador Nordestino]
[Segue-se um artigo do amigo do Barnabé, e historiador, Luís Trindade, sobre os excessos de Abril. Trata-se de um ensaio de história cultural do nosso passado recente – uma síntese argumentativa, extremamente bem concatenada, que nos leva de Mário de Carvalho a Eduardo Lourenço, João Martins Pereira e José Gil. É leitura para imprimir e ler com atenção; o link ficará ali também no Barnabé XL. É uma co-publicação, que muito nos orgulha, do Barnabé a revista História.]
Trinta anos depois é praticamente impossível pensar o 25 de Abril. A realidade da revolução está de tal forma coberta de sentidos históricos que a antecedem e ultrapassam que podemos apenas lê-la como símbolo no século XX português. Só a partir do passado dictatorial e projectando-a no futuro democrático é que parece ser possível falar do momento historicamente mais denso da nossa contemporaneidade. O Estado Novo e a democracia ensombram como duas transcendências essa densidade, esvaziando-a. A revolução fica assim condenada, por excesso ou por defeito, a uma confrontação com realidades que não são exactamente a sua, ora como conjunto de conquistas à luz da privação salazarista, ora como momento de excessos perante uma democracia assente em instituições representativas estabilizadas.
Seria ingénuo pensar que o mesmo não se passa com todos os acontecimentos históricos. Seleccionamos sempre os nossos objectos por uma relevância que eles só mostraram ter quando cessaram, e explicamo-los como corolário de antecedentes. Neste caso, porém, o que me parece mais interessante é o modo como os meses da revolução, o período do Processo Revolucionário em Curso (Prec), são, nos balanços que se fazem sobre Portugal no final do século XX e inícios de XXI, ofuscantes: tudo se passa como se o 25 de Abril fosse uma síntese onde se dilui a ditadura e encerra o destino da democracia. É, paradoxalmente, nos discursos mais conservadores que se atribui um maior poder revolucionário ao Prec, como se tivesse conseguido, de um dia para o outro, fazer como se o salazarismo nunca tivesse existido e, seguindo por uma lógica semelhante, como se todos os atavismos estruturais da sociedade portuguesa fossem uma espécie de herança pesada daquele ano e meio.
A possibilidade de pensar Abril não como marca mas enquanto conjunto de coisas que aconteceram e que foram ditas pressupõe, antes, uma interpretação da carga simbólica que instrumentaliza a revolução e a força a um papel determinado na história de Portugal. O senso comum sobre esse papel tem-se deslocado ao longo dos últimos trinta anos: o próprio momento revolucionário viu-se como “libertação heróica de um povo oprimido”, a institucionalização da democracia e a integração europeia entendeu-o como “embriaguez libertária de um povo menorizado”, finalmente, à medida que a sociedade se despolitiza, é cada vez mais frequente um entendimento da democratização como fenómeno natural e inevitável, e portanto da revolução como retardador de um processo que poderia ter decorrido com mais eficácia e menores custos.
A questão que proponho neste artigo, aquela que parece necessário anteceder uma história não projectiva e não teleológica da revolução é, então, mais ou menos esta: onde está o 25 de Abril no século XX português? Trata-se de enfrentar abertamente as várias utilizações da memória da revolução e procurar devolver um momento histórico à sua imanência, de recuperar o seu modo de funcionamento, por enquanto coberto pelos grandes discursos de síntese e balanço da história de Portugal. E, sobretudo, avaliar a sua excepcionalidade nesse contexto, relacionando-o com as condições do país que gera os discursos que parecem situá-lo fora de uma suposta normalidade portuguesa.
Quem tem a palavra
No final de Formas de legitimação do poder no salazarismo, uma análise ao modo como a manipulação dos discursos impôs politicamente a figura de Salazar, o autor, José Rebelo, conclui com uma síntese desafiante: «Ressalvando Abril, em que se notam ainda sinais de um modernismo tardio, poderíamos dizer que o salazarismo fez a economia da modernidade. Com e por causa do salazarismo, o pós-modernismo surge, em Portugal, no prolongamento da pré-modernidade.» (Rebelo, 1998, p. 346) Aquilo que o salazarismo fez, esta “economia da modernidade”, ou seja, a privação do país de um determinado processo histórico, fê-lo antes de mais discursivamente, porque a própria modernidade é um discurso que procura ser a ordenação do nosso tempo.
É bem conhecido o modo como Salazar desenhou os contornos dessa privação: «Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século, procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.» O “século” de que fala Salazar é então esse tempo de que nos falam os discursos da modernidade e que se constrói sobre o desafio de abrir um espaço de discussão política conflitual onde se decide o destino das sociedades.
O que há de paradoxal no tipo de discurso salazarista é a mesma coisa que dá ao autoritarismo instaurado na passagem dos anos vinte para os anos trinta a eficácia que lhe permitirá durar meio século. Apesar da forma negativa – todo o discurso invoca simplesmente o que não se pode fazer – aquilo que não pode ser discutido fica dito, e assim inscrito como visão ideológica obrigatória. Deus, a Pátria ou a família estão antes de uma opção, pertencem a uma vivência natural onde a História, a moral e o dever são dimensões constituintes da existência de tal forma que nem precisam de ser invocados. Mas só a partir do momento em que Salazar os diz, situando-os, pela negativa, no seu projecto político, ou seja, só a partir do momento em que são ditos num enquadramento ideológico, é que podem verdadeiramente ser vividos nessa naturalidade.
A indiscutibilidade que Salazar impõe no seu discurso (e que o Estado Novo impõe nas práticas políticas) é, no sentido em que sugere José Rebelo, o retorno à forma política da pré-modernidade, assente no “conforto de certezas” transcendentais. Mas se o discurso de Salazar preconiza um conteúdo alheio à modernidade, já o seu poder legitimador é absolutamente moderno. O Presidente do Conselho fala então para o país, na ocasião do décimo aniversário da Revolução Nacional, em 1936, pela rádio, mas lê o seu texto. Funde, no mesmo acto, a intensidade da escrita, que é o suporte das grandes ideologias da modernidade, com a extensão do novo meio massificador.
Em outra análise dos discursos do salazarismo, José Gil estabelece com mais rigor o poder, moderno, que os discursos de Salazar têm na imposição do silêncio político pré-moderno: «há nele [no escrito de Salazar] a autoridade do colectivo, assim como a representação da palavra individual captada por uma instância social. O escrito pressupõe portanto a presença, não consciente ou “inconsciente”, do espaço público da comunicação: o seu silêncio deixa falar esse inconsciente quando se lê (…). Do mesmo modo, aquele que escreve ouve-se falar, mentalmente, como se dialogasse com outro; e o silêncio que envolve esta fala-palavra constitui a marca da interiorização do espaço público e da sua incorporação no texto escrito.» (Gil, 1995, p. 18)
O Estado Novo prolonga-se dos anos trinta aos anos setenta, o que significa que foi sob a sua autoridade que em Portugal nasceram e se difundiram o cinema sonoro, a rádio, a televisão, os grandes meios, enfim, da chamada cultura de massas que, assim, existem geneticamente em Portugal esvaziados de qualquer conteúdo político. Trata-se de duas coisas. Primeira: houve cinema, rádio e televisão em Portugal, bem como jornais de grande circulação que ocuparam eficazmente um imaginário massificado. Segunda: nas condições da indiscutibilidade salazarista tudo isso existiu no vazio político. Por si sós estes meios não têm capacidade de politização (mas podem servir poderosamente a despolitização). Para que pudessem servir como espaços públicos de combate político seria necessária (mas o discurso de Salazar mostra a sua impossibilidade enquanto durou a ditadura) uma permeabilidade a discursos ideológicos alternativos, que existiram, de facto, em suporte escrito (apesar da censura, o marxismo conseguiu tornar-se em cultura política dominante no meio intelectual e literário) mas que não penetravam nos grandes meios de massas.
Percebe-se que a revolução tenha sido, antes de mais nada, uma reapropriação dos discursos, a abertura à discutibilidade. José Rebelo, no entanto, sugeria que por um breve momento. Logo esses discursos, assentes na palavra escrita, abriram-se para uma nova época em que, aparentemente, perderam o seu poder. Como se, no momento em que se podia voltar a preencher a política esvaziada pela imposição da indiscutibilidade, falar se tornasse num acto vazio. A brevidade desse momento moderno, em forma de revolução, em que uma larga comunidade partilha um espaço público através dos meios de comunicação de massas discutindo política (e fazendo política um pouco por todo o lado), ou seja, ideologias com origem no campo intelectual da escrita, essa brevidade resulta, simultaneamente, do início de uma nova era dominada já não pela forma escrita, mas também do facto de a modernidade não ter podido deixar em Portugal um lastro de ideias materializadas em hábitos políticos, participação cívica e ideias em debate.
Em progressiva intensidade à medida que se aproximou o final do século XX, o domínio crescente do entretanto chamado audio-visual no espaço público português, funciona em parte como consagração (porque o tom é celebratório e o volume ensurdecedor) do vazio político instituído pelo salazarismo. Não necessito de repetir os protestos constantes, mas marginais, que se fazem contra a estupidez e incultura visíveis antes de mais na televisão. Mas o modo como o romancista Mário de Carvalho inicia a sua recente sátira, quase três décadas após a recuperação da palavra, ao país transformado em democracia pelo 25 de Abril, em Fantasia para dois coronéis e uma piscina, relaciona-se directamente com aquilo que Salazar dizia em 1936, ao situar-se novamente no plano da discursividade: «Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. (…) fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações. (…) Passam-se dias, meses, anos, remoem as depressões, adejam os perigos e o país a falajar, falajar, falajar.» (Carvalho, 2003, p. 11)
O discurso do autoritarismo constrói-se solitariamente, quer em relação a discursos políticos divergentes, quer sobretudo porque ecoa numa sociedade ainda relativamente silenciosa; já o discurso da democracia, após o breve momento da revolução, foi-se diluindo no ruído constante de todos os suportes de imagem e som que destronaram nas últimas décadas o papel da escrita, base da modernidade enquanto narrativa que, sobretudo, é.
O laço entre o discurso de 1936 e o romance de 2003 é, antes de mais, estabelecido por este último (com a evocação final ao grito oco consagrando o chefe que manda: “Salazar, Salazar, Salazar”); mas a relação entre ambos evoca ainda o 25 de Abril como lugar central da história contemporânea portuguesa: ]o enunciado da historiografia sobre ditadura pressupõe sempre um desfecho revolucionário libertador (o autoritarismo do ditador mostra a legitimidade do 25 de Abril) enquanto a análise da actualidade portuguesa, hoje, se constrói invariavelmente sobre uma comparação com as expectativas da revolução (neste caso, como se Mário de Carvalho chamasse atenção para o falhanço do ideal de Abril) [1].
A simulação da modernidade
É nestes sentidos, fundamentalmente, que se tende a atribuir um significado ao 25 de Abril. O facto de as formas ditatoriais e autoritárias, o autarcismo e a censura, se terem tornado inaceitáveis juntos das opiniões públicas e na comunidade internacional no final do século, bem como os diagnósticos do falhanço do processo da revolução a posteriori, a partir do vazio de participação (o excesso de palavras inúteis que o romance denuncia), entendem-se apenas no interior de uma projecção sobre a realidade de uma história ideal. Esta é a história da modernidade, ou a história que a modernidade conta. Em lado algum se passou exactamente assim, mas, em termos gerais, entende-se que a contemporaneidade europeia é um percurso de modernização e democratização protagonizada pela burguesia enquanto classe emergente, história em que os momentos genéticos foram a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, e os seus frutos a constituição de um espaço social que foi, no interior das sociedades europeias mais avançadas, simultaneamente, mercado, opinião pública e eleitorado das democracias.
Recortada contra este modelo, a realidade portuguesa é assim sempre avaliada como atraso em relação ao que devia ser. Os primeiros liberais, a geração de 70, o movimento republicano, as franjas modernizadoras do Estado Novo, os ideólogos do “D” de desenvolvimento da revolução e toda a estratégia de integração europeia, todos questionaram exaustivamente a dificuldade do caso português no processo da modernidade, mas nunca puseram em causa ser esse o caminho.
O atraso surge aqui como uma questão central [2]
. E, em última análise, é em relação ao seu papel na questão do atraso que emerge hoje a grande discussão acerca da vantagem ou desvantagem do processo revolucionário. Esta instrumentalização do acontecimento salta por cima do Prec propriamente dito. A revolução deixa de se um conjunto de acontecimentos para se transformar simplesmente numa palavra usada para caracterizar a actualidade. É neste sentido que o problema surge claramente enquanto problema discursivo. A dificuldade de análise não passa por divergentes formas de ver a realidade mas por uma impossibilidade, aparentemente estrutural, em sequer olhar para a realidade.
Nada disto é muito novo. A tese central de “Psicanálise mítica do destino português”, em O labirinto da saudade, de Eduardo Lourenço, insiste, afinal, no mesmo: a cultura portuguesa criou uma imagem particularmente errónea da sociedade porque os seus autores são uma élite afastada, e portanto desconhecedora, do povo que descrevem. O problema, pode acrescentar-se, é que a literatura e o pensamento portugueses contemporâneos não falaram para ninguém porque não havia ninguém para ouvir. Ou seja, na sociedade portuguesa contemporânea não se criou a classe-chave da modernidade, uma classe média burguesa que constituísse um mercado literário, uma opinião pública e um eleitorado democrático. Falar do país seria, assim, falar de um povo distante das cidades, da cultura e da participação. E, portanto, os discursos sobre o país, por ausência de interlocutor, nunca se fizeram em confronto. Não fizeram parte de um processo político.
A inexistência de classe média impede a constituição dos fenómenos sociais que constituem a narrativa da modernidade, mas não impede a narrativa da modernidade propriamente dita. Por outras palavras – talvez redundantes –, Portugal não teve, até muito tarde, um mercado que alargasse as formas do capitalismo em toda a sua extensão social, mas teve bancos, capitalistas e projectos políticos de desenvolvimento; não teve uma opinião pública que desse densidade crítica ao funcionamento das suas instituições políticas, mas teve jornais, edição e absorveu as grandes ideologias produzidas nos centros da modernidade; não teve um eleitorado suficientemente participativo que constituísse uma sociedade democrática liberal, mas teve parlamento e governos eleitos em sufrágios mais ou menos alargados; não teve, finalmente, mercado literário nem universidade massificada, mas a sua elite cultural mimetizou os principais movimentos intelectuais e correntes estéticas europeias.
Significa isto que ao longo dos séculos XIX e XX, o país, em certo sentido, simulou a modernidade. A aparência discursiva do nosso liberalismo ou do nosso fascismo, bem como do nosso romantismo ou do nosso modernismo, viveu num desfasamento, em duplo sentido: fez parecer que a sociedade portuguesa percorria, no essencial, o mesmo caminho histórico que as restantes sociedades europeias e, consequentemente, obscureceu a verdadeira face social do país uma vez que a narrativa da modernidade foi, idealmente, determinada em diálogo com as sociedades liberais (leitoras, consumistas e participativas) onde emergiu, enquanto em Portugal essa narrativa é uma importação de um diálogo deslocado.
Este duplo desfasamento implica, e era aqui que queria chegar, uma enorme dificuldade em falar sobre a sociedade portuguesa porque, de uma perspectiva moderna, este falar de é um falar com. A sociedade do salazarismo é, seja pela perspectiva de que representação fôr, uma sociedade pré-moderna, como sugeria José Rebelo. A existência, neste contexto, carece então de realidade porquanto o povo é aí reduzido a um mero papel simbólico. A élite, como defendia Eduardo Loureço, determina-lhe uma posição e uma função. A menoridade cívica convida à irresponsabilidade e o processo alimenta-se a si próprio: o poder político que sustenta uma imagem infantilizada do povo legitima-se enquanto poder paternal por não poder confiar nos seus governados. Em suma, a ficção criada sobre “o português” cuja existência é reduzida à mínima expressão serve por sua vez para o menorizar, irresponsabilizando-o, retirando-lhe o papel social sobre que a narrativa da modernidade faz assentar a legitimidade do poder nas suas sociedades e a densidade dos seus processos históricos.
Pensar o 25 de Abril
Segundo uma perspectiva moderna que entende idealmente a história contemporânea como a da autonomização das sociedades assente em processos políticos, a história do Portugal contemporâneo é, em grande medida, um vazio, um não acontecimento – e a própria dificuldade em ler o real reflecte a obscuridade do objecto. Se assim é, a primeira frase deste artigo – “trinta anos depois é praticamente impossível pensar o 25 de Abril” –, pode agora colocar-se de forma mais concreta. Como pensar o povo português na rua, tomando decisões, debatendo, organizando-se, inventando, subvertendo? Como encarar de frente, no essencial, o único momento da contemporaneidade portuguesa em que a sociedade fez política? Ou seja, assim sendo, com que ferramentas ler esse fugaz momento em que a existência em Portugal foi vivida numa densidade moderna?
A hipótese com que vou prosseguir manterá toda esta questão no mesmo plano: a convulsão revolucionária não se limitou a transformar a realidade e esta transformação talvez tenha sido o menor, ou o mais superficial, dos seus alcances; não há portanto, após a revolução, uma súbita constituição dos mecanismos sociais que permitiram a densidade discursiva dos modelos da modernidade; mas, por outro lado, a explosão participativa e discursiva do “processo revolucionário em curso” criou uma dissensão entre os discursos da indiscutibilidade e uma actualidade, a de 1974-75, política e historicamente densas. Esta dissensão torna de súbito a realidade incoerente no momento em que a sociedade deixa de viver obscuramente, conforme os discursos que lhe impõem a menorização cívica, e passa a encher o tempo de acontecimentos políticos.
A questão mantém-se no mesmo plano, portanto, porque, ainda que por um breve momento, a vida de uma parte significativa dos portugueses se passou em público. Eles, por uma vez, mostraram-se, ou seja, conquistaram a visibilidade social a que se chama actividade política, ou cidadania. A revolução foi assim um momento único de produção de acontecimentos que obrigaram alguns intelectuais a um esforço inédito de lucidez. Esforço que desistiu de procurar num diálogo socialmente impossível o discurso sobre a realidade e como que aceitou as regras discursivas do jogo lançando-se na análise muito mais construtiva dos próprios modos como os discursos inventaram uma realidade fictícia que a revolução veio perturbar. Foi necessária a revolução, mas também o seu falhanço e a consequente resistência das dificuldades de leitura do real, para que se tornasse possível assumir que a realidade e os seus discursos são uma realidade só, e que a transformação pressupõe esse conflito, ou essa tensão, em que os acontecimentos dão conteúdo aos discursos e em que estes nomeiam os acontecimentos, dando-lhes existência.
A lucidez, no contexto pós-revolucionário, não podia ser senão a constatação da inexistência daquele diálogo ou tensão. É o que assumem, de forma necessariamente dramática (porque já em fase de recuo dos acontecimentos), Eduardo Lourenço e João Martins Pereira, naquilo que escrevem no contexto pós-revolucionário. ]O que os torna fundamentais está desde logo expresso nos títulos das obras que me proponho analisar: O fascismo nunca existiu e No reino dos falsos avestruzes [3]. Num caso como no outro, a sociedade portuguesa e o que nela acontece continuam indizíveis. O momento-chave da revolução não foi tão decisivo por mostrar-lhes o que podia mudar mas, exactamente, porque, enquanto momento em que o silêncio e o imobilismo foram desafiados pela acção, se tornou mais clara a profundidade de um atavismo estrutural. Por outras palavras, aquilo que parece impressionar ambos é em menor medida a explosão cívica que identificam como o que de fundamental aconteceu entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, mas sobretudo a imensa reacção posterior. Reacção que, mais uma vez, é, sobretudo, discursiva: o pós 25 de Novembro, nestas leituras, é mais lento a desmantelar as instituições da revolução do que a fechá-la numa nova narrativa vazia.
E o primeiro vazio que se cria é logo o maior de todos: a identidade do regime que resulta da contra-revolução é necessariamente não revolucionária; assim, não tinham passado sequer dois meses sobre o 25 de Novembro de 1975 para que Eduardo Lourenço pudesse constatar que a democracia estava a construir a sua legitimidade em alternativa ao Prec pelo apagamento da ditadura: «(…) chegámos a uma época em que parecem ter desaparecido do horizonte médio de muitos portugueses as razões imperativas de ordem política e ética que os havia levado a desejar a liquidação de um tal regime e os levaram a aplaudir o gesto redentor dos jovens capitães de Abril.» O pretexto para a questão surpreendente que o ensaísta se preparava para colocar tinha sido a referência, no Jornal Novo, do jovem colunista Marcelo Rebelo de Sousa, à “sucessão inopinada de tentativas golpistas” que, segundo ele, tinham agitado a vida nacional de Abril de 74 a Novembro de 75. «O simples facto que esta frase tenha sido escrita», continua Lourenço, «e não por um inconsciente (…), mostra a fundura da metamorfose operada nos espíritos. Ela é de tal ordem (…) que é legítimo pôr-se hoje a questão provocante (que se calhar já nem o é): e se o fascismo, realmente, nunca tivesse existido?» (Lourenço, 1976, pp. 179, 180)
É verdade que se trata de uma questão retórica, mas num quadro de leitura em que a retórica, como tenho insistido, é estruturante. João Martins Pereira também defende que o regime democrático procurou legitimar-se, paradoxalmente, em face da revolução e não em face da ditadura. Já em 1982 podia descrever como os valores do novo regime (os seus “mitos de afirmação”) não tinham sido «combates pela Liberdade contra o autoritarismo fascista, mas sim combates contra a memória de 74-75, obsessão e trauma da “classe política” portuguesa.» Era como se, para o autor de No reino dos falsos avestruzes, o discurso democrático «estivesse destinado a libertar-nos dos demónios e maldições que nos possuíram nesses anos descabelados», como se a “democracia” se opusesse a “revolução” e não a “ditadura”, como se a “libertação da sociedade civil” fosse alternativa à mobilização popular e não à restrição dos direitos cívicos durante o Estado Novo: «(…) aquilo a que chamámos os mitos de “afirmação” assentam todos numa simples negação. Não do passado anterior ao 25 de Abril (…), mas do passado mais próximo – o de 74-75.» (Pereira, 1982, p. 49)
Julgo que é precisamente na forma desta negação que é possível avaliar o Prec como «um acto revolucionário pleno» (Lourenço, idem, p. 231), ou seja, é na medida em que o regime democrático insiste no 25 de Abril como golpismo, apagando da memória tudo o que não foi militar e partidário, que se pode caracterizá-lo como a reinstauração de uma ordem sobre um movimento social que lhe era absolutamente subversivo. Por outras palavras, a democracia saída da contra-revolução esforçou-se por preservar uma existência fundamentalmente institucional da vida pública portuguesa. Mais do que um combate entre esquerda e direita ou entre democracia e totalitarismo (dualismos que fazem parte do discurso legitimador do regime vencedor em 25 de Novembro), aquilo que se jogou na revolução foi a continuidade de uma explosão participativa estranha a uma sociedade sem autonomia nem hábitos de intervenção.
A construção da democracia celebrara a estabilidade e o regresso dos portugueses a casa como um sinal de maturidade política. Os partidos que tomavam então conta da política, como nota Martins Pereira, foram progressivamente apagando a sua própria participação no Prec: «os partidos hoje ditos “com assento parlamentar” estiveram todos permanentemente instalados no poder (com a excepção de poucas semanas em Agosto de 75), cooperaram e fizeram exaltadas declarações revolucionárias, manipularam e instrumentalizaram quem puderam – o 25 de Novembro é bem prova disso.» A partir daqui, a democracia legitimada pela estabilidade fez a política regressar ao universo circunscrito das instituições da élite social – a “classe política” como diz sintomaticamente o senso comum. A institucionalização democrática materializou-se sob a forma de representação partidária, e esta representatividade formou-se claramente em alternativa à mobilização popular. «O que nenhum partido conseguiu», acrescentava porém o autor, «depois de Novembro, foi (re)descobrir o segredo de ter um povo inteiro em movimento, mobilizado, activo. Nem o (re)descobrirá. Pela simples razão de que não é possível mobilizar “um povo” atrás de uma ideia, de um partido, de uma ideologia, ou mesmo de um homem (…).» (Pereira, idem, p. 50)
O problema posto em ambas as obras ficaria aqui resolvido enquanto simples problema político se se tivesse tratado de um regresso dos dirigentes da ditadura. No entanto, apesar de abundantes excepções, a classe política da democracia não era a classe política do salazarismo (nem sequer a do marcelismo). Eduardo Lourenço e João Martins Pereira, porém, vão mais fundo. A questão, em O fascismo nunca existiu como No reino dos falsos avestruzes, é a própria persistência de algo chamado classe política, a inaceitabilidade de uma «mobilização [como a] de 74-75 [que] foi, naturalmente, uma mobilização conflitual, em que abertamente se manifestaram e vieram ao de cima as contradições e divergências profundas existentes na sociedade, entre grupos e interesses distintos.» (Pereira, ibidem)
Os riscos da democracia
São sensíveis os riscos que correm análises como estas. A ultrapassagem da reflexão sobre o político para além dos limites institucionais em que este se funda desconstrói a retórica discursiva com que ele se dá a ler. Quando Eduardo Lourenço e João Martins Pereira constatam a génese anti-conflitual da democracia portuguesa em análises que pressupõem que o político é sempre a abertura do horizonte de possibilidades que a estrutura social permite, estão a um passo de considerar que um regime construído sobre a anulação das “contradições e divergências profundas existentes na sociedade” é muito dificilmente um regime democrático.
Na tensão entre os discursos do regime político e a estrutura social portuguesa é fácil perceber a persistência do vazio. «A “democracia”», para Martins Pereira, «que lá fora tem correspondido (…) a uma necessidade orgânica do desenvolvimento económico capitalista (…) veio aqui sobretudo apresentar-se como uma necessidade de afirmação de uma “classe política”» (Pereira, ibidem, pp. 31, 32), não fundada numa representatividade social efectiva, o que, segundo Eduardo Lourenço, reduzia as perspectivas do novo regime a «uma democracia parlamentar clássica através da qual ressuscitarão pouco a pouco quase todos os privilégios da eterna classe dominante portuguesa (…).» (Lourenço, 1979, p. 168) – não porque isto faça parte da natureza das democracias parlamentares clássicas, mas porque em Portugal não existe a classe média que lhe serve de base de apoio (a existência de uma vida política socialmente desenraizada resulta naquilo a que Boaventura de Sousa Santos chamou “carnavalização da política”, cf. Santos, 1994, p. 62)
Nada aconteceu na sociedade portuguesa das últimas décadas que pudesse ter posto decididamente em causa a base estrutural que a marca como simulação da modernidade. A criação de instituições democráticas – contemporâneas da entrada de Portugal no mercado mundial e de uma abertura da sociedade ao consumo que transfigurou completamente a sua aparência –, não podia por si só preencher o vazio. «É que a ideologia dominante tem, em grande parte, sido importada (no que a televisão tem representado, nas últimas décadas, um papel decisivo) e não produzida pela débil burguesia nacional» (Pereira, idem, p. 90), sugestão de Martins Pereira da persistência na vida portuguesa de uma forma de existência social sem a tensão, a participação e o conflito que permitiram às democracias da modernidade transformarem mais ou menos as sociedades que governam e que as geram.
É por isso que, por entre a capacidade das restritas élites políticas e intelectuais em construírem regimes naturalmente representativos dos portugueses sem a participação dos portugueses, o 25 de Abril surge como um impensável. Esta é, hoje, a sua dificuldade historiográfica. Trata-se da impossibilidade de se pensar uma revolução como acontecimento transformador. «Tivesse a transição sido possível sem a “agitação revolucionária” de 74-75», diz ainda o autor de No reino dos falsos avestruzes, «e tivesse o 25 de Abril coincidido com uma fase de expansão do capitalismo mundial, é bem provável que, pelo meio de uns quantos ajustamentos e sobressaltos, fossemos hoje uma social-democracia dependente mas segura de si.» Nesse caso, a vida pública portuguesa reduzida ao funcionamento das suas instituições poderia ler na democracia uma espécie de humanização do elitismo político, em continuidade pacífica com a estrutura política do regime anterior.
«Só que não foi isso que aconteceu. Pense-se o que se pensar dos anos de 74-75, não poderá negar-se que foi uma base histórica imensamente “mobilizadora de energias” e imensamente “afirmativa”» (Pereira, ibidem, p. 32): o 25 de Abril surge então na nossa modernidade como uma estranheza, talvez o único momento em que as instituições e a estrutura social foram postas em causa por uma agitação transformadora que os discursos sempre tinham garantido não fazer parte da natureza do povo português. Ora, se a estrutura social se reconfigurou, após o abalo, o que é certo é que já não é mais possível garantir uma menoridade cívica dos portugueses como elemento que lhes é natural. O Prec, que deixou mais ou menos incólume, a prazo, a estrutura social, manchou a narrativa política portuguesa.
É que a revolução aconteceu, ou seja, desenrolou-se como acontecimento numa sociedade estruturada na imobilidade e portanto encerrada num discurso que, enquanto mera simulação, não abre espaço para a transformação social. No entanto, como acontecimento destinado a preencher a existência política portuguesa, enquanto abertura desse espaço de transformação, o Prec falhou na medida em que, nas últimas três décadas, a sociedade se voltou a despolitizar e a participação política no espaço público se diluiu no miserabilismo televisivo.
]Onde o discurso da democracia vê a sua maior vitória, na “maturidade política” do povo português depois do breve “desvario revolucionário”, identifica Eduardo Lourenço uma inconsciência colectiva que esconde a sobrevivência do salazarismo, incapazes que somos de o inscrever [4] na realidade: «infelizmente, o “fascismo português” foi qualquer coisa de “profundo”, de intimamente ligado por todas as fibras do nosso itinerário histórico a toda uma estrutura arcaizante da sociedade portuguesa, qualquer coisa de “orgânico” (…).» (Lourenço, 1976, p. 232) Se os dezoito meses do processo revolucionário foram naturalmente insuficientes para alterar radicalmente essa “estrutura arcaizante”, chegaram no entanto para instituir um negativo num “itinerário histórico” acomodado a uma imagem simulada de modernidade.
Ironicamente, a derrota da revolução talvez seja a única forma que permite pensar hoje o salazarismo, essa sua profundidade orgânica, estrutural, e portanto a sua sobrevivência. É esta sobrevivência que, por sua vez, dificulta pensar-se o 25 de Abril, concedendo-lhe uma espécie de desforra: como se o Prec, enquanto negativo de uma dinâmica social sem densidade, estranheza numa existência política vazia, se mantivesse irredutível a um discurso democrático meramente institucional e portanto preso a uma incapacidade atávica de transformar a realidade. O atavismo não deixa pensar o Prec, mas o Prec obriga a pensar o atavismo como atavismo. Neste sentido, Abril, enquanto acontecimento na contemporaneidade portuguesa, não pode ser visto senão como excesso.
***
NOTAS
11 Veja-se também como, outro romancista, o “Nobel” José Saramago tem diagnosticado a actual sociedade portuguesa enquanto falhanço devido a um desvio ao caminho começado a trilhar em 1974 [voltar acima].
22 Não apenas para quem sente vivê-lo, mas também, o que é ainda mais interessante, para algumas disciplinas das ciências sociais, nomeadamente as mais conservadoras, como a história política, económica e cultural, que se deixam prender quase inconscientemente nesta narrativa, seja para eleger como objecto essa mesma distância de Portugal em relação ao ideal ou para contar uma espécie de versão portuguesa da história da Europa, a partir de objectos que em Portugal são irrelevantes [voltar acima].
33 É também nesta altura que Eduardo Lourenço publica O Labirinto da Saudade e O Complexo de Marx, que participam, no essencial, do mesmo tipo de leitura [voltar acima].
44 Retiro a expressão, e a sua utilização neste contexto, de uma conferência de José Gil no colóquio O Conhecimento da Democracia, realizada em Maio de 2003 na Universidade Nova de Lisboa, onde o filósofo acrescentava que “o medo continua mas desapareceu” [voltar acima].

Não perca o último e lancinante capítulo do sangrento debate de Nick Má-fé com o blogue Barnabé. Vem com o dobro das estrofes!
Nick Má-fé assim ficou perplexo da ousadia daquele comentador que antes não conhecia fabuloso e dotado duma grande fantasia
Recobrou o seu sentido nem por isso se assustou a dança da intrujice súbito recomeçou fez velhas habilidades como passar por quem sou
Naquela dura palestra o nível ia descendo Nick má-fé só disparava toda a gente percebendo quanto mais se disfarçava mais se via que era horrendo
E assim travou-se a luta do Má-fé com um honrado debate bem truculento duelo duro, trincado a vontade dos leitores era bater no malvado
O manto negro da noite no espaço se estendia e o sol lá no crepúsculo também desaparecia deixando o mundo nocturno pra voltar no outro dia

Cartaz do Comício e Festa, no Porto, do Partido Comunista Português (PCP)
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Para quem aqui tenha chegado via "Expresso", à procura da petição para enviar José Manuel Fernandes para o Iraque, pode assinar aqui. Já tem 895 assinaturas. Como já disse, às mil é vinculativo.
Criança comuna de chapéu leninista com a sua prima. Fim do PREC.
Havia uma nesga de luz a entrar na sala. É a primeira memória da minha vida. Pelo menos é a primeira que sei em que dia aconteceu. Eu tinha quatro anos e a revolução era uma nesga de luz vinda da janela, com as portadas fechadas. Antes disso, tudo escuro.
Depois há a minha mãe e a minha tia a coser à mão uma bandeira vermelha de linho, pesada. A foice amarela. O martelo amarelo. A estrela amarela. E, letra a letra, todas amarelas: Partido Comunista Português. Pau de vassoura, um orgulho infinito naquela bandeira. Muito, mesmo muito mais tarde, ela acabou por sair do “partido”. Mas nunca conseguiu separar-se da bandeira.
Menos depois, há o dia em que a minha mãe descobre que o meu padrasto fazia uns “trabalhos” para o PCP. E quase todos os seus amigos. E a sua irmã. E uma amiga da sua irmã que dividia casa com ela e que tinha uma vida misteriosa. Dizia que se chamava Teresa. Afinal chamava-se Zita. Hoje está num outro lugar da política. E não só.
Há a minha avó a queixar-se que lhe tinham remexido os tuppperware’s que estavam sempre tão bem arrumadinhos no porta-bagagens. Procuravam armas, vejam bem. Por causa de uma tal de uma maioria, e ainda por cima silenciosa. E a minha mãe, que tinha andado à procura de armas nos porta-bagagens dos outros, nem um corta unhas tinha no bolso.
No primeiro aniversário da revolução, a música na rua. A minha mãe pôs a tal bandeira na janela. O vizinho da frente pôs uma do PS. Saímos à meia-noite e aquilo nunca mais me saiu da cabeça. Um homem mergulhava na fonte do Rossio.
O meu padrasto desesperado à procura de uma gravata. Ia votar a primeira Constituição. Não deve ter sido nesse dia que me sentei, no gabinete do PCP, na Assembleia, e desenhei Soares vestido de cowboy e Cunhal vestido de índio. Eu estava pelos índios, claro. Pelo "Álvaro", claro.
Dez anos passados, eu seria “o comuna”, no Pedro Nunes.
Mas tudo isso foi muito depois. Naquele dia era só uma nesga de luz na janela. Tínhamos um rádio estranhíssimo, cor-de-laranja, refeito pelo meu avô. O rádio cor-de-laranja tinha dito para não sair de casa. A minha mãe não saiu. Só muito mais tarde foi à rua ver o que se passava e fechou, a medo, todas as portadas. E eu, com os meus irmãos, só tinha aquela nesga de luz. Antes disso, tudo escuro e nenhuma lembrança. Depois disso, a janela abriu-se, tivemos televisão e máquina de lavar roupa e cada dia era mais rápido do que o outro. A luz até cegava.
PS: como o dia 25 de Abril será apenas para os nossos leitores (podem mandar os textos até ao fim do dia de hoje) esta é a minha memória, depois de o Pedro ter posto a sua.

Uma das fotos que a Administração Bush não queria que os americanos vissem, para que a guerra pareça só um jogo.
Porque é que algumas pessoas inteligentes, quando falam de futebol, deixam de pensar?
A provarem-se (e não estão provados), estes factos não surpreendem. Tenho uma ideia: vejam o que se passa em Braga e em tantos concelhos deste país, à esquerda e à direita.
Ao toque do apito dourado, João Loureiro, filho de Valentim, salta fora das listas do PSD para o parlamento europeu. Desse-se o caso de João Loureiro ter existência política própria e seria um escândalo (nunca ninguém se lembrou de penalizar Leonor Beleza pelo facto de o seu irmão José Manuel ter estado a contas com a justiça). João Loureiro sai pela mesma razão que entrou: ser filho de quem é.
A maioria votou a favor da consagração constitucional da proibição da discriminação em razão da orientação sexual. Parece que alguém os convenceu assim: não está certo um gajo ser descriminado só porque se consegue orientar.

Quando toda a gente se dedica a mostrar as suas credenciais revolucionárias, eu decidi assumir as minhas ligações ao Antigo Regime. A decisão de revelar esta faceta do meu passado foi motivada pela descoberta, no baú familiar, de uma fotografia minha com dois anos e meio de idade, nas férias do Carnaval de 1974. O retrato foi tirado na Alameda D. Afonso Henriques, onde viviam os meus bisavós, que enquanto foram vivos me cobriram de mimos. Ali estou eu, de barriga ligeiramente proeminente (hoje, felizmente, já eliminada) e um ar meio enfadado. Um belo representante da burguesia marcelista, sem dúvida. Na altura eu andava num jardim-escola, o "João Pequeno", situado ao pé do Jardim da Estrela, de onde os meus pais me viriam a retirar poucos meses depois, aparentemente porque as educadoras se entusiasmaram com a Revolução e decidiram alterar, de forma um pouco brusca, os métodos pedagógicos estabelecidos. Na altura a minha mãe ainda trabalhava: era professora de inglês no Liceu Pedro Nunes. A seguir ao 25 de Abril, abandonou o ensino porque não aguentou o ambiente de intimidação psicológica que alguns betinhos maoistas criaram nas salas de aula. O meu pai, um esquerdista muito moderado, não se deu nada mal durante o marcelismo. Foi adiando a incorporação militar graças aos estudos, e quando a tropa o chamou, o governo tinha entretanto optado pela "africanização" da guerra colonial; em consequência disso, o meu pai cumpriu os quatro anos de tropa na Administração Militar, ao mesmo tempo que ia montando uma pequena empresa de produtos congelados e jogando na bolsa. Após a Revolução, aderiu ao Partido Socialista e integrou, durante um curto período, o gabinete de Estudos do PS.
A minha adesão ao novo regime também se processou sem sobressaltos de maior. Há uma outra fotografia que atesta isso mesmo, mas, infelizmente, não consegui encontrá-la. Foi também tirada na Alameda, e eu apareço à varanda do apartamento dos meus bisavós com o meu primo Alexandre, cada qual com a sua bandeirinha verde-rubra. Essa foto data do 1º de Maio de 1974, possivelmente o dia mais memorável de toda a Revolução. Ora, como toda a gente sabe, o ambiente de unidade foi bem efémero e a política retomou o seu curso normal. Eu e o meu primo voltámos a andar à bulha. Não sei se por causa das nossas insanáveis divergências ideológicas (o Xano seguia a linha pró-albanesa dos meus tios e eu já era um soarista ferrenho), ou se por causa do triciclo que ambos disputávamos. Sei apenas que fui muito feliz durante a Revolução.

Cartaz da Partido Socialista (PS)
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

populares dirigem-se à sede da DGS (PIDE)
Hoje é o último dia para a envio de textos sobre o vosso (ou de outro) 25 de Abril de 1974. Deve ter mil caracteres e título. Será publicado aqui. O Barnabé será todo vosso. Só vosso.
Entretanto, vale a pena ler a sondagem que o Diário de Notícias publica hoje: 64,2% dos inquiridos diz que o 25 de Abril foi uma revolução e 28,1% afirma que foi um golpe de Estado. Entre várias alternativas, 56,2% acha que o 25 de Abril foi o acontecimento mais importante, 30% escolhe a adesão à CEE e apenas 6,6% optam pela descolonização. 73% acham que os pides deviam ter sido julgados. Nos jovens a percentagem é maior. O revisionismo histórico não funciona. Ainda bem. Um país sem memória é um país perigoso.
O novo comentador lá partiu para a missão munido de suas armas senso crítico e atenção a par do seu raciocínio que afastava a confusão
Mal chegou, o novo nick foi-se ao Má-fé e falou tua fama já conheço só te digo quem eu sou se teu hábito deixares foste tu quem começou
Disse-lhe mais eu andei muito blogue e muito clique pra vir te desfeitear ora aceita o meu despique os dois em pé de igualdade cada qual escreve sem nick
O Má-fé ouvindo isto ficou pra vida não ter dizendo consigo mesmo não posso compreender este homem ou é doido ou desistiu de escrever
Mentindo disse-lhe ok deixa cá ver o teu vulto o outro lhe respondeu tu primeiro e sem insulto vamos ver se és rapaz pra merecer um indulto

Obrigado Ariel.
«A meu ver, toda a gente deveria dizer "Obrigado, Ariel". Agora temos uma possibilidade de começar a construção de um Estado palestiniano pacífico». George W. Bush.
Passeio na Esplanada das Mesquitas

Muito Obrigado.
Muro da Cisjordânia

Excelente ideia. Obrigadíssimo.
Jenin

Ah que bom, que bom. Muito, muito obrigado.
Sabra e Chatila

Enfim, que dizer? Obrigado, Ariel.
Valentim Loureiro ainda está detido. Sou insuspeito de gostar de tal figura. Mas já devia estar solto. O Estado de Direito só se impõe recusando a arbitrariedade.
[Desde há tempos que estou a dever um texto aos fiéis barnabitas sobre os planos de Norman Foster para o quarteirão da Bela Vista. Aproveito o balanço e falo também, não num texto mas em dois, das "torres de Alcântara" de Siza Vieira e da hipótese de referendo sobre ambas. É um bocado grande mas há coisas que ou se discutem com detalhe ou ficam mal discutidas.]
Ao permitirmos a construção de torres em Alcântara ou na Bela Vista, ainda que assinadas por arquitectos de renome, não estaremos a abrir uma caixa de Pandora? Alguns arquitectos queixam-se de discriminação. Se Siza Vieira e Norman Foster podem construir torres, porque é que outros não o podem fazer?
É comum haver dois tipos de respostas a esta pergunta.
A primeira é manter o tabu da construção em altura, independentemente da qualidade dos projectos em apreço hoje em dia. Dizem os adeptos desta posição, e com muita razão, que a história recente de Lisboa nos tem de deixar num estado de desconfiança permanente. Que o interesse particular destes ou de outros projectos, se é que ele existe, não nos pode fazer baixar a guarda e admitir o precedente. A pressão económica do imobiliário fará com que a seguir a estas torres venham outras, e depois outras ainda. Se muitos arquitectos se queixam já de discriminação, podemos dar por garantido que as torres que se seguirão a estas torres serão cada vez mais banais, feias, desinteressantes. A seguir a Norman Foster ou Siza Vieira a porta ficará aberta, e daí para a frente será sempre a subir em altura e a descer em qualidade.
Outra resposta será dizer que a arte não é democrática. Que temos de reconhecer que o talento não se encontra igualmente distribuído e que devemos agir em conformidade, abrindo excepções para projectos excepcionais. Caso contrário arriscamo-nos a ter uma cidade banal. Como teria sido ridículo ter proibido Brunelleschi de fazer a Catedral de Florença como ele a quis, com a sua cúpula ultrapassando em muitas vezes a altura dos edifícios da cidade. E não houve também muita gente que se opôs à construção da Torre Eiffel? Como teria sido estúpido deixá-los ganhar essa batalha [por acaso discordo, porque acho que nem daqui a 500 anos a torre Eiffel deixará de ser uma coisa abominável]. Quanto aos restantes arquitectos que queiram construir em altura, fecha-se-lhes a porta, como se fez na Paris pós-Eiffel e na Florença pós-Brunelleschi. Será anti-democrático, mas é melhor assim.
Podemos chamar à primeira posição comunitarismo ético e à segunda elitismo estético. É justo dizer que cada uma delas tem inúmeras sub-posições que não se encontram aqui contempladas. Nenhuma das posições está errada: devemos ser éticos em comunidade, e talvez em nenhum campo que não na estética seja possível ser-se elitista sem causar dano a ninguém.
Nem uma nem outra, contudo, são satisfatórias quando se fala de arquitectura. É verdade que o talento não se encontra uniformemente distribuído. Mas o argumento é um non sequitur por muitas razões. Desde logo, porque a apreciação do talento tão-pouco é consensual. Nem toda a gente gosta de Siza Vieira. Mas mais importante do que isso, porque a arquitectura não é uma arte qualquer. Podemos sempre escolher não ouvir um compositor que nos desagrada ou fechar um livro a meio. Se as torres forem feitas, isso não vai ser possível. Ali vão estar elas, todos os dias, à vista dos que as adoram e dos que as abominam. A arquitectura interfere de forma decisiva com a cidade, que é (para mim) o mais nobre de entre todos os terrenos da política. Não podemos encolher os ombros como se ela não tivesse nada a ver com política.
Podemos afastar desde já um falso argumento. É evidente que devemos exigir democracia na construção da cidade. Mas essa democracia não é "democracia" para com os construtores ou arquitectos que não participam nos actuais projectos de torres. Pode ser muito chato não sentir igualdade de oportunidades entre arquitectos. Mas é muito chato ter uma cidade esquizofrénica só para respeitar essa suposta igualdade de oportunidades. A democracia de que necessitamos mais do que tudo é democracia para connosco em geral, todos os habitantes da cidade de Lisboa. Somos nós que temos de decidir.
Em Portugal existe uma desconfiança profunda em relação aos referendos. À esquerda e à direita enumeram-se, numa desproporcionalidade gritante, os defeitos que eles têm. Esse nunca foi o meu problema. Acho que os referendos têm mais vantagens do que desvantagens (e note-se que em Portugal nunca "ganhei" nenhum) e que os seus defeitos tendem a diminuir com a prática deles. E não vejo razão para não os aplicar mais na política local. As populações podem, em muitos casos, dar mais garantias de saber proteger as suas cidades do que a lei – e mesmo que assim não fosse quem deve decidir são eles.
Ao propôr um referendo para as torres, Santana Lopes removeu um obstáculo ético essencial. Do meu ponto de vista, o essencial agora é garantir duas coisas: que o Presidente da CML ponha no calendário essa ideia e que garante que o(s) referendo(s) se realizarão mesmo em boas condições de divulgação, liberdade, e justiça. E, em segundo lugar, garantir que o verdadeiro precedente a abrir seja – não o da construção em altura – mas o da realização de referendos quando obras de vulto estiverem em causa. São dois grandes "ses", para mais num político escorregadio como Santana Lopes. Mas deve constituir-se uma corrente de opinião que diga que, sem eles, nada feito.
***
Aproveito para dizer que, pela lógica dos referendos em Portugal, a resposta será provavelmente não. Pouco habituados a ter de decidir sozinhos, os cidadãos têm optado para deixar tudo na mesma. Por outro lado, quem for contra as torres vai votar de certeza; quem for a favor já não sei.
Eu, num referendo, votarei a favor dos dois projectos. Num próximo texto explicarei porquê.
PS: não desejo a morte a niguém. Só uma perninha partida, pode ser?
Em todo o processo de Revisão Constitucional, há pelo menos duas coisas positivas: a proibição de discriminação em função da orientação sexual e a limitação de mandatos dos autarcas. É hoje unânime e ainda bem. Pena que a unanimidade não se tenha aplicado aos presidentes dos governos regionais. Não consigo entender porque há de o critério ser diferente.
O PS, o PSD e o CDS consideram que estão a comemorar o 25 de Abril por fazerem uma revisão constitucional em quatro horas. É triste ver esta gente, que enche a boca com o respeito pelas instituições, a mudar uma Constituição desta forma ligeira. É ainda mais triste ver o PS a associar-se a esta brincadeira, de braço dado com o CDS. O PSD já avisou, pela voz do representante de Alberto João Jardim no Parlamento, Guilherme Silva: já estamos a preparar a próxima revisão constitucional. E concluiu, para que o PS ouvisse: “a tradição em matéria da revisão constitucional é a derrota da esquerda e a vitória de Portugal”. Espero que Ferro se recorde desta ingratidão da direita, hoje, quando votar favoravelmente a mais rápida e secreta revisão constitucional desde o 25 de Abril.
PS: Depois do seu partido chegar a um acordo com o PSD e o CDS, José Magalhães lê um poema de Manuel Alegre para bater na maioria. Quando não há nada para dizer, opta-se por jogos florais.
Recorde-se que Valentim Loureiro é Presidente da Liga de Clubes, responsável máximo do Metro do Porto, Presidente da Junta Metropolitana do Porto, dirigente nacional do PSD e Presidente da Câmara de Gondomar.
Estes factos não estão provados. Se se vierem a provar, eles resumem muito bem a relação promíscua entre autarquias, partidos, construção civil e futebol.
Ou seja, os tratados europeus e a Constituição Europeia, mesmo quando não referendados, têm primazia sobre a Constituição Portuguesa. A nossa Constituição passa a ser aberta e meramente indicativa, apesar dos tratados serem menos exigentes nos formalismos democráticos de aprovação do que uma constituição. Ou há um referendo à Constituição Europeia ou isto será uma inversão completa das regras da democracia.
Resumo: hoje à tarde, a Constituição Portuguesa, como lei fundamental do País, acabou. Ela pode ser corrigida pela União a qualquer momento, sobre qualquer assunto. Isto não merecia mais do que uma tarde de debate?

Dia 5 de Maio, Porto: Hard Club. Dia 7 de Maio, Lisboa: Aula Magna.
Obrigado ao Pedro pela lembrança.
«Resolução do Conselho de Ministros n.º 51/2004:
(...)o Conselho de Ministros resolve: 1 - Fixar, (...), que a admissão de trabalhadores que não tenham a nacionalidade de um Estado membro da União Europeia em território nacional, durante o ano de 2004, será feita de acordo com as seguintes necessidades de mão-de-obra, por sector de actividade: Agricultura - 2100; Construção - 2900; Alojamento e restauração - 2800; Outras actividades de serviços - 700.»
Informação indecentemente roubada a um dos mais combativos blogues de direita: o Blasfémia.
Escusado será dizer que estes números delirantes servem apenas para esconder aquilo que se quer: manter a maioria dos imigrantes ilegais.
Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica espanhola, Iberdola, em Portugal.

Cartaz da Liga Comunista Internacionalista (LCI)
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
“Paulo Portas promete recuperar capacidade submarina perdida”

Paulo Portas diz que a compra dos dois submarinos é também um acto de “prestígio”.
«Hoje é um grande dia para a Marinha e para o país.» Chefe do Estado-maior da Armada, a quem Paulo Portas ofereceu dois submarinos.
«Um grande dia para Portugal, para a Marinha portuguesa e também para a GSM.», Walter Freitag, o responsável pela empresa alemã GSM, a quem foram comprados os submarinos.

Populares em festa num carro de combate
Hoje, quinta-feira, e amanhã, sexta, são os últimos dias para a entrega de textos sobre o dia 25 de Abril de 1974.
Foi um grande momento de televisão ouvir Avelino Ferreira Torres dizer que no dia em que protagonizou uma das maiores arruaças do futebol português, dando pontapés em cadeiras de plástico, tinha era vontade de dar pontapés no «sistema». Nós é que não percebemos, o homem estava a a viver um estado de indignação premonitória. Com tipos destes não precisamos de humoristas.

Até os animais estão a ler o debate sangrento de Nick Má-fé contra o blogue Barnabé.
Com efeito a discussão trouxe grandes novidades prometendo o fim dos crimes de todas as qualidades e mormente o desacato de roubar identidades
Um leitor já calejado foi quem deu a boa ideia pra um Nick tão ruim só há uma panaceia envolvê-lo na prisão com a sua própria teia
Pra vencê-lo é preciso não perder a compostura encontra-se a solução na madre literatura ficciona-se um lutador capaz de estar à altura
Um nick de simetria exemplar de boa fé quando o outro atacar ficará sempre de pé não liga aos seus insultos só comenta o Barnabé
Pra bater o canastrão fez-se então o necessário toda a gente o desenhou nick humano mas lendário foi-se logo preparando todo o seu itinerário
[Inspirado em folheto de Erotildes Miranda dos Santos, o Trovador Nordestino]
Se alguma vez se vier a debater a política europeia na próxima campanha para as eleições europeias, a questão do federalismo pairará, como um fantasma, sobre todos os debates. O federalismo aparece, quase sempre, como um equívoco. Ele tem sido utilizado como arma de arremesso entre euro-cépticos e euro-conformados. E a sua longa tradição política tem sido abastardada.
Começo assim, para depois explicar: sou federalista. Defendo, do ponto de vista teórico, a construção de uma unidade política europeia, confederada, que retire espaço de soberania aos estados actuais. Também sou regionalista: defendo um processo de regionalização que retire poderes ao Estado central. Perdendo poderes para “cima” e para “baixo”, acredito que se pode reforçar o espaço da democracia e da eficácia nas decisões políticas.
(O texto continua em baixo)
Numa economia globalizada, só um espaço económico e político europeu comum pode ter peso suficiente para ter influência nos destinos do Mundo e na democratização das instituições internacionais. Se defendo uma alternativa à globalização neo-liberal, tenho de defender a construção de espaços políticos que a travem e que favoreçam a construção de uma globalização regulada e solidária. Acredito que a Europa é um desses espaços prioritários.
Também acredito que a democracia exige maior proximidade dos cidadãos em relação às políticas “locais”. Os municípios têm uma dimensão que não garante nem a massa crítica nem um âmbito territorial suficientes. Para facilitar, defendo um municipalismo adaptado à nova realidade económica, com espaços territoriais mais amplos. A resolução de problemas relativos ao ambiente, aos transportes ou à habitação, para pegar em três exemplos, põem-se, quase sempre, ou a nível global ou nível regional. Quase sempre nos dois, muito poucas vezes no espaço nacional.
Resumindo: acho que os Estados-Nação são a mais ineficaz das formas de acção política. É a Europa das Regiões que deve encontrar tradução política.
No entanto, penso que a construção europeia, tal como tem sido comandada, é a mais anti-democrática das invenções da democracia. Ela não tem correspondido à participação cidadã e tem retirado ao espaço da democracia muitas das decisões fundamentais para os cidadãos. Hoje, cerca de 60% da legislação produzida é de origem comunitária. No entanto, nem o Parlamento Europeu tem reais poderes sobre a condução da Europa, nem os europeus se sentem minimamente próximos das instituições europeias. A burocracia europeia tem substituído as democracias nacionais. As segundas podem ser pouco eficazes, mas, apesar de tudo, sempre são mais democráticas.
Ser federalista não significa defender o federalismo eurocrata. Aceito, sem dificuldade, que o federalismo que hoje defendo não tem apoio maioritário na Europa. E se o federalismo que defendo só pode e deve ser construído democraticamente, ele está, por enquanto, condenado ao fracasso.
Como não sou vanguardista, penso que o melhor caminho para a construção de um federalismo democrático só pode ser o aprofundamento da própria democracia nas instituições europeias e transição gradual e voluntária de poderes. Só eles podem ganhar os cidadãos, ainda muito ligados às suas especificidades nacionais. O comportamento arrogante de Bruxelas, com directivas normalizadoras cegas e burocráticas, tem feito exactamente o contrário: acentuar as resistências. Desde a fundação da Comunidade do Carvão e do Aço nunca deverá ter havido tantos anti-europeístas como hoje.
O federalismo democrático é o caminho oposto ao que é proposto pela Constituição Europeia. Ser contra ela não significa, assim, ser nacionalista. Essa será a posição explícita e respeitável da Nova Democracia e do PCP e a posição envergonhada (e bem menos respeitável) do CDS/PP. Ser contra esta Constituição é também defender um federalismo democrático europeu.
Só haverá unidade europeia com uma refundação europeia: a que substitua o governo dos governos por um governo dos cidadãos, que reforce em muito os poderes do Parlamento Europeu, que aceite, em casos fundamentais, a lógica referendária, que crie um Senado com representação paritária de todos os países e que dê ao poder político europeu o papel de controlo e regulação da actividade económica. Tudo é o contrário do que tem sido feito.
Se Valentim Loureiro não está em prisão preventiva deveria ser solto. Mas não é por isso que algumas pessoas se manifestam em frente tribunal de Gondomar. Não. Manifestam-se pelo “homem da terra”, porque sim. O Portugal dos caciques nunca se manifesta pelo Portugal do respeito pelas direitos de cidadania. O primeiro vive bem com a impunidade. O segundo, não querendo a impunidade, não acha normal que alguém fique detido por razões burocráticas. Seja Valentim Loureiro ou outra qualquer pessoa. 24 horas têm de chegar para ouvir alguém. O resto, é espectáculo.
O bloco central, com a ajuda do CDS/PP, apresentou agora os primeiros pontos do seu projecto de revisão constitucional. Muitas coisas vão bem para além do que era previsível. Apesar de ainda não ter sido entregue tudo, o debate e votações estão já marcados para amanhã. Quem não participou neste hábito de negociar revisões constitucionais fora do Parlamento, terá direito a 15 minutos de debate e 12 horas para conhecer as propostas. E a esmagadora maioria dos deputados do PS, PSD e CDS limitar-se-á a ocupar o lugar, porque nem conhece o que está a ser proposto. Quanto à opinião pública, ninguém dará por nada. Se a grelha de debate proposta vingasse, o debate e votações aconteceria entre as 15 e as 18 horas de amanhã. A Constituição, em países normais, é levada um pouco mais a sério.
PS: Estão agora a ser votadas, em Comissão de Assuntos Constitucionais, alterações, cinco minutos depois de serem apresentadas. Amanhã, haverá partidos que terão, feitas as contas, vinte segundos para defender cada uma das suas propostas e não lhes resta tempo para falar das dos outros. O debate da última revisão constitucional teve 15 dias. Este terá uma tarde. Sinais dos tempos.
«Valentim "inaugura" nova cadeia da PJ do Porto»


Um destino possível para um casal perfeito

Manuel Paula e João Freire: cartaz do Partido Revolucionário do Proletariado (PRP-BR), sem data
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Pide obrigado a despir-se. Foto de Eduardo Gageiro
Daqui a dois dias acaba o prazo para a entrega de textos sobre a experiência pessoal dos leitores do Barnabé no dia 25 de Abril de 1974. Mil caracteres, com título. Voltámos a receber textos a bom ritmo. Ainda bem.
Pacheco Pereira considerou ontem que João de Deus Pinheiro é «uma boa escolha» para cabeça-de-lista da coligação PSD.

O debate sangrento de Nick-Má-fé com o blogue Barnabé continua amanhã ou depois num poste perto de si.
Barnabé um dia disse basta de exploração nesta casa não há porta mas quem vem sujar o chão correndo com toda a gente há-de ter oposição
Disse ainda nunca vi combate tão desigual tanto é um como são mil vou chamar o pessoal agora mesmo convoco uma assembleia geral
Com 10 dias de viagem montou-se um acampamento vieram muitos leitores uns dormiam ao relento outros diziam sorrindo isso só em pensamento
Quem não viu pode achar é só esquerda reunida mas naquela ocasião estava gente divertida de toda a sociedade isto pra lá da comida
Todos fizeram propostas foi voto pra todo o lado debates a dar com pau tudo muito bem pensado em pouco tempo se viu que o Má-fé estava quilhado
[Adaptado de folheto de Erotildes Miranda dos Santos, o Trovador Nordestino]
O Causa Liberal está com dificuldades em interpretar um texto com mais de um nível de leitura. Impõe-se uma mudança de nome.
«Tenho o major como uma pessoa séria». Luís Filipe Vieira
Valentim Loureiro está calmo.
«Eu estava no quarto de banho, a fazer as minha higiene diária…»
Descrição, na SIC Notícias, da chegada da Polícia Judiciária a casa do senhor Azevedo Duarte, do Conselho de Arbitragem.
Os blogues Liberdade de Expressão, Esmaltes e Jóias, Contrafactos & Argumentos, Galo Verde e Causa Liberal condenaram as minhas postas sobre Omar Bakri Mohammed.
Eu entendo que devo pedir aqui as minhas mais humildes desculpas. Eu não estava a par dessa nova fatwa que proíbe satirizar fanáticos apoiantes do terrorismo islâmico. Era sabedor daquela do homem a dias e do jaquinzinhos contra o uso da palavra "mas". Estava inteirado da existência de uma outra, de Pacheco Pereira e de Paulo Gorjão, contra o uso do termo "fascizante". E obedeço cegamente àqueloutra de José Manuel Fernandes contra tentar "compreender" os terroristas, embora o mesmo tenha lançado recentemente uma nova fatwa [em duas partes: 1, 2], motivada pela mesma entrevista de Omar Bakri Mohammed, e na qual exorta a que se "entenda" o inimigo que temos em face, – longe de mim insinuar que exista contradição entre elas.
Para nós, os intocáveis da casta esquerdalha, as proibições são tantas que se torna impossível acompanhá-las a todas. À hora a que escrevi, pensei que era legítimo ridicularizar um defensor do terrorismo, do assassinato de civis inocentes, de furar os olhos a pessoas com facas e outras tantas barbaridades. Para os blogues de direita sempre fora legítimo. Mas esqueci-me de que quando alguém da minha casta faz o que eu fiz, isso significa "estar do lado do terrorismo", "ser tão fechado como Bakr Mohammed", "ser parcial" e até "não abrir a boca para falar do assunto"(!). Arranjar uma "boa maneira de não reprovar", "tirar importância ao assunto" e "banalizar as afirmações". "Tolerar os movimentos extremistas islâmicos" e "não apresentar uma única palavra de reprovação". Tudo coisas que em mim lastimaram os blogues acima citados, como peço ao leitor que verifique para sua própria edificação.
Pelo meu lado, prometo de futuro estar mais atento e não me desviar da boa estrada.

Acho mal. Muito mal. Tramarem Avelino Ferreira Torres e Valentim Loureiro por causa de uns joguitos da segunda divisão? Homens destes mereciam crimes de primeira. Já não há respeito?
Anda por aí muita gente indignada com a orgia de posts satíricos (14 de seguida) que o Rui Tavares escreveu sobre o autodenominado teólogo da al-Qaeda, Omar Bakri Mohammed. Preferiam que o Rui saísse a terreiro muito escandalizado a dizer «como é possível, aqui del-rei, isto é inaceitável!»?. Claro que não. A verdade é que as mentes que acham o humor do Rui discutível, são as mesmas que pensam que não se discute com os terroristas. E é por não se poder discutir com terroristas que o único remédio é uma demarcação satírica, que ridicularize, como nos ensinou a caricatura que Chaplin fez de Hitler em O Grande Ditador . Claro que se quiserem atestar da nossa antipatia em relação ao dito lunático, sempre vos conforto: nós no Barnabé achamos todos que esse senhor é um mauzão, um ordinário, um desclassificado e apostamos que ele rouba o pirolito às crianças quando as vê na rua. Melhor assim?
Leiam o excelente artigo de Vital Moreira sobre a questão da Revolução/Evolução. Concordo na íntegra. Poupa-me trabalho.


Fernando Gomes (PS), Paulo Teixeira (PSD) e Lobo Xavier (CDS) são candidatos, na lista de Pinto da Costa, a vice-presidentes do F.C.Porto. Promiscuidade entre a política e o futebol? Nãããããããã.
Demorei tempo a confirmar e desculpem o atraso: o José Manuel Fernandes que assina, na petição, lançada pelo Barnabé, "José Manuel Fernandes (o próprio)", é mesmo o próprio. É o número 264 das 704 pessoas que assinaram a petição para enviar o director do "Público" para o Iraque. Ele quer ir. Quer mesmo ir. Nós queremos que ele vá. Queremos mesmo que ele vá. O que está a travar este encontro de vontades? Senhor Durão Barroso, senhor Paulo Portas, senhor Figueiredo não sei quantos, libertem o camarada Zé Manel.

O Washington Post iniciou já a serialização do mais recente livro de Bob Woodward, Plan of Attack, uma história jornalística da preparação da guerra do Iraque, feita a partir de dezenas de entrevistas com membros da administração Bush, incluindo o próprio presidente. Aparentemente, o livro é muito menos lisonjeiro para a Casa Branca do que o anterior, Bush em Guerra, na medida em que algumas das suas revelações vêm comprometer uma das premissas básicas da retórica de Bush em relação ao Iraque: a de que uma guerra contra Saddam não desviaria recursos do combate ao terrorismo noutras frentes, a começar pelo próprio Afeganistão. Vamos aguardar pelo impacte que o livro poderá ter a médio prazo, sendo certo que ele já saltou para o topo dos mais vendidos da Amazon.com, sucedendo assim aos libelos de Paul O’Neill e Richard Clarke. É certo que últimas sondagens dão um Bush com uma vantagem de 5 pontos em relação a Kerry, e, mais deprimente ainda, atribuem-lhe uma cotação ainda mais robusta nas “questões de segurança nacional”. Isto depois da crise em Falluja e Najaf, das audiências da Comissão do 11/9 e dos custos crescentes (humanos e militares) que a ocupação do Iraque tem vindo a conhecer. Apenas um sinal encorajador: a mesma sondagem do WP e da ABC atribui 6 por cento das intenções de voto a Ralph Nader, pelo que a desistência deste a favor de Kerry poderá mesmo desequilibrar as coisas.


Mantém-se o cerco a Falluja, apesar das notícias de hoje darem conta de um possível acordo de pacificação entre as forças sitiantes e os insurgentes (o que, a acontecer, não pode senão ser visto como uma admissão de fraqueza da parte dos norte-americanos, que se vêem forçados a "negociar com os terroristas"). Mas o desfecho da crise em Najaf é ainda incerto. Se dependesse dos comandantes no terreno, o mais provável seria um assalto à cidade santa xiita, seguido da captura ou morte de Moqtada al-Sadr. Há uns dias atrás, o general James N. Mattis, comandante da 1ª Divisão de Fuzileiros, fez esta declaração notável, que ilustra bem a sensibilidade política dos operacionais americanos: “Combateremos o inimigo nos nossos próprios termos. E possa Deus ajudá-los quando acabarmos com eles (no original: We will fight the enemy on our own terms. And may God help them when we’re done with them”, declaração reproduzida há uns dias no New York Times, mas já não recuperável por mim)

O major Valentim Loureiro foi detido pela Polícia Judiciária para interrogatório. É, claro, inocente até prova em contrário. Dizer isto em relação a Valentim Loureiro deve ser um exercício de todos os portugueses. É a prova máxima de que acreditam no Estado de Direito. Repitam comigo: Valentim é inocente, Valentim é inocente, Valentim é inocente. É difícil, mas vão ver que conseguem.
A PJ está a investigar o tráfico de influências na arbitragem. Finalmente! Se o tivesse feito há mais tempo não cairia em cima do Euro 2004. Mas mais vale tarde que nunca.

Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha
Até sexta-feira, venham mais textos sobre o vosso (ou de outro) 25 de Abril de 1974. Deve ter mil caracteres e título. Será publicado aqui. No dia 25 os barnabés não postam e o blogue será de todos.
Vejo a excelente reportagem da jornalista Raquel Alexandra sobre os presos políticos durante o fascismo, na SIC Notícias. Torturas, assassinatos, suicídios, fugas, famílias separadas durante anos chegam-me pelas vozes de homens endurecidos como Jaime Serra, Dias Lourenço, ou Raimundo Narciso desfiando recordações da luta contra um regime inamovível, mas também os depoimentos das suas mulheres e filhos. Nada de muito inédito, mas bem contado, de uma forma que nos deixa perceber a extensão da dor, da dor de todos os envolvidos. Então penso como deve soar a palavra Evolução na cabeça desta gente, a tentativa de revisionismo, de fazer da revolução um parêntesis atribulado num mar de progresso que nos empurrou da ditadura para a democracia. Nunca tive grande simpatia pelo PCP, mas a palavra que me ocorre é uma só: tudo isto é um insulto, nada mais.

Augusto Cid: folheto de propaganda do PPD, 1974
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
“Portugal ganha no plano externo com decisão de Madrid”. Diário de Notícias
Oferta de paz de Sharon aos palestinianos: retira da minúscula faixa Gaza e de quatro colonatos na Cisjordânia e, em troca, não reconhece o direito de regresso dos refugiados, anexa para o futuro parcelas da Cisjordânia, onde mantém, definitivamente, os mais importantes colonatos, e acaba a construção de um muro que entra por território palestiniano. E os gajos nem agradecem. Ingratos.
Zapatero decidiu o regresso repentino das suas tropas, estacionadas em Najaf, uma cidade santa para os xiitas, cercada pelos americanos. Se os Estados Unidos avançassem (esperemos que não o façam), esta seria a mais irresponsável das acções militares no Iraque. Seria como acender um isqueiro dentro de um paiol. Quem estivesse por perto…
Zapatero não quer trazer mortos para casa, vindos de uma guerra contra a qual esteve ele e mais de oitenta por cento dos espanhóis. A decisão é mais do que legítima e o primeiro-ministro espanhol tem todas as razões para não acreditar no bom-senso de Bush.
O PS foi contra a ida da GNR para o Iraque. O PS é contra o regresso da GNR.
Eis um exemplo de como uma pergunta mal feita pode tornar uma sondagem imprestável. Hoje à noite, o programa Prós e Contras dará espaço à sondagem que o Público divulgou hoje, e que pretende saber de que lado se situam as pessoas na polémica "Revolução Vs. Evolução". Só que as opções que foram dadas no questionário são as seguintes: "Sem o 25 de Abril, não seríamos hoje uma democracia" [teve 49% de escolhas] ou "Teria evoluído mais tarde ou mais cedo para uma democracia" [42%]. Ora este é o género de perguntas que não esclarece nada. Em primeiro lugar, imaginemos que o "Golpe das Caldas" de 16 de Março tivesse resultado. Faria então sentido perguntar se "sem o 16 de Março não seríamos hoje uma democracia?". Claro que não, porque após o 16 de Março veio o 25 de Abril. E após o 25 de Abril viria outra.
Mas estou a adiantar-me. Vejamos a segunda pergunta.
A ditadura "teria evoluído mais tarde ou mais cedo para uma democracia"? A chave desta pergunta é "mais tarde ou mais cedo". Ora, mesmo o abrilista ou revolucionista (para distinguir de revolucionário) mais ferrenho diria que sim. Eu diria que sim, que "mais tarde ou mais cedo" a ditadura evoluiria para uma democracia. Dez anos e dezenas de milhares de torturados, desaparecidos e assassinados depois, a Argentina, o Chile e o Brasil tornaram-se democracias. Quinze anos e milhares de presos, exilados e censurados depois a Hungria, a Polónia e a República Checa tornaram-se democracias. 25 anos depois e 300 mil timorenses a menos a Indonésia tornou-se mais ou menos numa democracia. E estou em crer que passado uns anos e uns mortos no Ultramar, Portugal teria sido uma democracia.
A pergunta correctas a fazer, se se quisesse de facto "separar as águas", seria: "acredita que, sem uma revolução, a ditadura se transformaria por si só numa democracia até (digamos) 1980? [sim/não]" Qualquer pergunta destas tem que ter uma data limite definida. Dou aquela data a título de exemplo, e até sabendo que muitos de nós não consigam imaginar Portugal em ditadura em 1980 (o que favoreceria as respostas "evolucionistas").
Já sei, já sei. Vão dizer-me que "toda a gente" percebe as perguntas da maneira como estão feitas, que "toda a gente" percebe que campos é que elas querem delimitar. Mas não é verdade. Perguntas mal feitas enterram a sondagem mais fácil de realizar, quanto mais a difícil. A prova disso é que eu, "revolucionista", votaria nesta sondagem ao lado dos "evolucionistas". Não era certamente o que se pretendia com ela.
Vejamos: o que nós temos por detrás do slogan "Abril é evolução" é, da parte do PSD e do PP, puro wishfull thinking. Que a ditadura tivesse evoluído sozinha para uma democracia quebraria todo o género de galhos no interior da base sociológica da maioria, nomeadamente entre os ressentidos do regime anterior, os genuínos democratas e os genuínos democratas-de-dia-26-de-Abril-à-tarde. Uma vez que o nosso governo é descarado por natureza, diz-nos logo na cara que dava muito jeito que todos passássemos a achar que "abril é evolução", – o que lhes evitaria, desde logo, aquela maçada anual de assistir às comemorações com cara de quem comeu e não gostou.
Nuno Morais Sarmento bem pode aparecer nas entrevistas com um ar compungindo, queixando-se de que para os jovens o 25 de Abril é mais um feriado como o 5 de Outubro ou o 1º de Dezembro. Mas como, manifestamente, isso não é verdade, o sub-texto do que ele está a dizer é antes: "quando é que esta porra acaba e, por amor de Deus, passa a ser assim mais como o 5 de Outubro e o 1º de Dezembro"?
Só que há aqui um grande problema: é que a ditadura teve 48 anos para evoluir para uma democracia – e não evoluiu. Depois do Estado Novo teve 41 anos para evoluir – e não evoluiu. Depois da IIª Guerra Mundial teve 29 anos para evoluir – e não evoluiu. Depois de Humberto Delgado teve 16 anos para evoluir – e não evoluiu. Depois da Guerra Colonial começar teve 13 anos para evoluir – e não evoluiu. Depois de Salazar morrer teve seis anos para evoluir – e não evoluiu.
Claro, "mais tarde ou mais cedo" evoluíria para uma democracia. Lá isso é verdade. Teria sido sempre mais tarde do que cedo, porque na verdade até o 25 de Abril veio tarde. E poderia ter sido depois de Kaúlza e os ultras nos terem feito passar por uma ditadura pior ainda – o que também andou a ser planeado em Abril de 1974.
Escrever a história quando já se sabe o fim do livro é fácil. O 25 de Abril foi a primeira revolução democrática do pós-guerra a dar certo. Antes da democratização espanhola, a que veio dar um grande empurrão. Antes das democratizações da América Latina. Antes das da Europa de Leste. Não por acaso, no estrangeiro toda a gente lhe chama "revolução dos cravos": "carnation revolution", "revolución de los claveles", "révolution des œillets" e por aí afora. Sem ela teria sido tudo diferente (como não sabemos), mas foi, na história que realmente aconteceu, o dia mais belo do Portugal contemporâneo.
É esta revolução que comemoramos, e não o que "mais tarde ou mais cedo" poderia ter acontecido. Até porque, como o Público bem sabe, precisamente porque o seu primeiro lema foi "mais tarde ou mais cedo o seu diário", "mais tarde ou mais cedo" é uma coisa que às vezes leva um tempo do caraças.

O antigo ministro iraquiano da informação, Muhammed Saeed al-Sahaf, voltou ao trabalho. Os responsáveis militares norte-americanos deram-lhe novos papéis, um novo rosto e confiaram-lhe o cargo de porta-voz militar da coligação. Al-Sahaf chama-se agora brigadeiro-general Mark Kimmitt e, se sintonizarem a CNN ao fim da tarde, podem voltar a rir-se com ele.
«José Luiz Zapatero, o novo Presidente do Governo espanhol, confirmou as piores expectativas». José Manuel Fernandes
«Alguém que se comporta assim poderá mais alguma vez na vida defender o multilateralismo?» José Manuel Fernandes, sobre Zapatero
«Ferro Rodrigues tem uma actuação plena de Vigor».
Manuel Maria Carrilho
«É preciso reconquistar Lisboa para relançar o ciclo político». Manuel Maria Carrilho, in Público.
«Eu sou muito antitabus. Os tabus em política associam-se a um cinismo, a um calculismo que repudio na maneira de fazer política.» Manuel Maria Carrilho, in Público.

Daqui a quatro dias acaba o prazo para entrega de textos com a experiência pessoal dos nossos leitores (ou de outros que lhes contaram) do dia 25 de Abril de 1974. Mil caracteres e título. Depois de uma boa remessa inicial, deixaram de chegar textos. Precisamos de mais e a tempo para os ordenar e arranjar imagens ilustrativas para alguns. Por isso, mandem.

Comunicado do Movimento Libertário sobre as Eleições Presidenciais, 1976
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Explicando o que pretende a Al'Qaeda:
«O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva, contra os que atacaram o Islão. E a longo prazo querem restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter o mundo inteiro.»
«Por exemplo, eu não fornico, porque a minha lei o proíbe. Mas a lei britânica não obriga a fornicar. Portanto estou a agir no respeito pelas duas leis.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«Há muitos jovens que sonham entrar na Al-Qaeda, mas, pior do que isso, há muitos grupos "free-lancers" dispostos a lançar operações iguais às da Al-Qaeda. [...] Cada vez mais. O que é perigoso, porque nem todos têm a preparação teórica adequada.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«É uma honra. Não me associam a dançarinas do ventre nem a homossexuais, mas às melhores pessoas que jamais existiram na Terra (depois do profeta e seus companheiros): os membros da Al-Qaeda.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«Outros dois alunos meus também abandonaram um dia as aulas e foram-se fazer explodir na Palestina, sem me avisarem. Fiquei muito zangado.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«Um muçulmano nunca pode envolver-se num ataque terrorista no país onde vive legalmente.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«A palavra "terrorismo" não é nova entre os muçulmanos. Maomé disse mais: "Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo". Não é portanto apenas uma questão de matar. É rir quando se está a matar.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«Os seculares dizem que "o Islão é a religião do amor". É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. Maomé disse: "eu sou o profeta da misericórdia". Mas também disse: "Eu sou o profeta do massacre".»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
Explicando porque não vê diferença entre matar civis ao atacar militares ou atacar deliberadamente civis:
«Há uma diferença: nós não somos hipócritas. Não dizemos: "Desculpem, foi engano". Dizemos: "Vocês mereceram".»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
Respondendo à objecção de que os atentados da Al'Qaeda também mataram muçulmanos:
«Isso está previsto. Segundo o Islão, os muçulmanos que morrerem num ataque serão aceites imediatamente no paraíso como mártires.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«[...] eu não levo os meus filhos à escola. Disse: "Têm de mudar a lei". Porque as leis imperfeitas feitas pelo Homem podem ser mudadas. Responderam: "Ensino alternativo". É o compromisso. Eles acham que tudo se faz com compromissos. Criámos a nossa própria escola, pagamos a professores. Mas então eles ripostaram: "Mesmo nas escolas islâmicas, têm de adoptar o curriculum nacional". Está a ver? É impossível viver com as leis feitas pelo homem.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
Omar Bakri Mohammed explica porque não faz seguro automóvel:
«Porque é um contrato entre três partes. Segundo a lei divina, só pode haver duas. Portanto não tenho seguro no meu carro. A Polícia manda-me parar e multa-me, porque o seguro é obrigatório. Pois bem, não ando mais de carro. Meu Deus, por Ti, sofro, vou de comboio.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«Deus diz: Pensam que vos criei para nada? Eu criei-vos com um propósito. Para se submeterem. Para obedecerem ao meu comando. Se o fizerem têm garantido o paraíso. Se não, espera-vos o fogo do Inferno. É simples.»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
«O terror é a linguagem do século XXI»
Omar Bakri Mohammed, entrevistado por Paulo Moura, na Pública.
Deus Pinheiro «levou o prestígio de Portugal mais longe»
Paulo Portas, que, n’O Independente, acusou Deus Pinheiro de ter roubado uma manta da TAP.

Não perca os próximos capítulos do debate sangrento entre Nick Má-fé e Barnabé, o blogue português mais nordestino.
Agora veja leitor que coisa tão inclemente este homem aparece mordendo como serpente até o vento lá fora tinha medo deste ente
E assim em pouco tempo tinha Nick conseguido deturpar os comentários do blogue já referido Barnabé e seus leitores estava tudo deprimido
Eles lá tudo faziam pra resolver o assunto a cara do aldrabão encontravam em conjunto passavam algumas horas o croquis estava defunto
Mal era contrariado pela força perseguido logo Nick via maneira de fazer-se arrependido punha a máscara de anjo sobre a face de bandido
E muitas malfeitorias cujos nomes não citei porque o tempo é pouco e roubar tempo não sei pois foram mais de 200 as que eu presenciei
[Adaptado de folheto de Erotildes Miranda dos Santos, o Trovador Nordestino]
1 - A eliminação de Abdel Aziz Al-Rantissi deu-se pouco depois da visita de Sharon a Washington.
2 - Os EUA foram o único país relevante a não condenar o assassinato.
Eles não deviam disfarçar isto um bocadinho? até parece mal.
«Quase que não posso sair à rua, pois estão sempre a colocar-me essa questão [das presidenciais].»Cavaco Silva, in Público.
Só faltou acrescentar: é tão incomodativo, mais parece uma vaga de fundo.
O Hamas decidiu não revelar o nome do seu terceiro líder em menos de um mês, por receio de que ele seja também vítima dos "assassinatos selectivos" ordenados por Ariel Sharon.

Ontem, ao ver o jogo do Sporting com o Boavista, gritei, na sala: «ladrãããããããoooo!!!!». Depois, senti vergonha. Sempre achei sinal de pouco fair-play andar a chamar ladrão ao árbitro.
Gatttuuuuuuunooooo!!!
Um morto, o outro vivo, no entanto tão parecidos.
Durão Barroso Recusa Ser a "Vítima" do Sistema.
Governo Admite "por Hipótese" Retirada do Iraque.
Durão Barroso Esteve Sob Escuta por Usar Telemóvel de Isaltino Morais

Autocolante "Luta da Rádio Renascença, ocupada pelos trabalhadores"
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Com este texto, publicado n'A Capital, acabo o meu debate sobre Monsanto, agora que para mim, com a notícia do "Expresso" da semana passada, já é claro o que se quer fazer por ali.
Lisboa parece estar condenada a uma catástrofe cíclica: a da especulação que tudo decide, tudo destrói e que elege e faz cair autarcas. Lisboa é a capital dos especuladores e dos construtores civis. Da Avenida da República quase não resta nada. Da Avenida da Liberdade, muito pouco. E grande parte do que se constrói não acrescenta nada à cidade.
Não sou um conservador em matéria de urbanismo. Uma cidade não é um museu, faz-se por camadas e o presente é, nela, tão importante como o passado. Mas uma cidade só é apropriada pelas pessoas se nela as pessoas conseguirem encontrar uma memória, a sua e a de outros. Uma cidade sem memória é como uma pessoa sem memória: não tem nada para contar.
Estamos a preparar-nos para mais um ataque à cidade: o começo da destruição de Monsanto: Para ali, Santana quer a Feira Popular e um hipódromo. O hipódromo terá um grande relvado, uma bancada de dois mil lugares, um picadeiro coberto e boxes para 500 cavalos, entre outras instalações. Objectivo? Libertar os terrenos ocupados pelo hipódromo do Campo Grande e a Feira Popular de Entre Campos para projectos imobiliários. É sempre, desgraçadamente, esta a última razão de quase tudo o que se faz em Lisboa: negócio.
Monsanto deve ser pensado como um espaço lúdico, nisso estou de acordo. Todas as metrópoles precisam de um canto de calma, que nos faça respirar e gozar o sossego da natureza. E para ser gozado tem de ser usado. Mas Monsanto precisa de ser usado como espaço livre de cidade, não como um parque de diversões. Precisa de melhores acessibilidades, mais pontos de referência, pequenos equipamentos discretos e agradáveis em que os divertimentos se liguem ao gozo de um espaço florestal. Precisa de mais caminhos pedestres, seguros e planeados com uma lógica de conjunto. A instalação de um mono-rail de acesso, que não perturbasse o Parque, seria um bom motivo de atracção e facilitaria o acesso.
Monsanto deve continuar a ser um Parque Florestal, não a dispensa para onde se atiram todos os equipamentos que o Presidente da Câmara não quer na cidade, para que mais negócios se façam com os terrenos que ficam livres. Monsanto deve ter uma estrutura coerente, e não ser um conjunto de retalhos incongruentes.
O que ganha exactamente Lisboa por ter um hipódromo em Monsanto? Santana responde como responde a tudo: será mais moderna. Este é o fascínio de Santana: quer que Lisboa seja “moderna”. Que pareça europeia. Mas, contra o novo-riquismo de Santana, temos de lhe mostrar o que são cidades modernas e europeias: são equilibradas, têm qualidade de vida, têm bons transportes, têm pouca poluição, não têm carros estacionados em cima do passeio, tem escolas no centro da cidade e crianças para lá estudar, têm espaços verdes e lugares para respirar. A cidade “moderna” de que Santana gosta, a dos casinos e dos hipódromos, é tão velha e ultrapassada como o seu deslumbramento provinciano.
Lisboa pode ser uma das melhores cidades para se viver na Europa. Tem o clima. Tem o rio que é quase um mar. Tem as praias mesmo ao pé, Sintra ao lado, Cascais a um passo. Tem as colinas e os miradouros. Tem a Baixa. Tem o Bairro das Colónias e o Bairro Azul. Tem a Avenida da Liberdade. O Jardim da Estrela. O Parque Eduardo VII. A Bica, Alfama, Bairro Alto, Mouraria. Tem Belém. Tem bairros magníficos. Escadinhas e becos. Tem, apesar de todos os crimes, alguns equipamentos modernos e bem enquadrados. Tem os recantos, os pátios, as antigas vilas operárias. Tem a brisa. Tem a mistura de gente vinda de todos os lados do país e do Mundo. Tem Monsanto e o Aqueduto, se não forem destruídos aos poucos. Só lhe têm faltado duas coisas: lisboetas que sintam a sorte de ter nascido por aqui e um presidente que goste mais desta cidade do que dos negócios que a destroem. Se tivesse mais dos primeiros, nunca o segundo voltaria a ser eleito.

"Temos aqui, com excepção de mim, uma lista de excelentes candidatos".
Sousa Franco
Alberto João Jardim recusa ler "essas merdas de José Saramago".

Não perca os próximos capítulos do debate sangrento de Nick Má-fé com o blogue Barnabé. Se não for mais logo, talvez amanhã ou depois.
Ali deixei barnabé Pra falar dum impostor mau carácter sem razão ora passa por doutor ou qualquer identidade de ser vivo a tractor
Nick Má-fé era malandro porém não era beócio sabendo que nenhum blogue o queria para sócio resolveu ser caceteiro achando ser bom negócio
Sem fazer vacilação deixou o nome de lado ligou-se à Internet dizendo tu estás lixado amanhã tu vais virar um bombo mal martelado
Na vida de trauliteiro satisfazia a vontade gente insultava sorrindo sem a menor piedade o instinto só pedia pra fazer perversidade
Sem nome por vocação xingava só por moer quem fosse lutar com ele desistia de escrever a fama deste má-fé fazia todos tremer
[Adaptado de folheto de Erotildes Miranda dos Santos, o Trovador Nordestino]
Bush and Blair: Things can only get better.

Anónimo: Cartaz de campanha da Associação para a Defesa dos Interesses de Macau.
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Atenção: o álbum revolucionário do Barnabé foi actualizado.
«Cavaco Silva Diz Que "Colocou Ordem na Confusão"».
Só? E não separou também as trevas da luz?
"Mandasse eu no mundo, Condoleezza Rice e Kofi Annan seriam meus colaboradores".
Telmo Correia, secção "Em Foco" da Visão.
Hoje começa, na Assembleia da República, a revisão constitucional com uma reunião-maratona. Acaba no dia 21. Sim, leram bem. Três dias úteis para mudar a lei fundamental portuguesa. Outros países mudam a Constituição quando o rei (ou o Presidente) faz anos. Nós fazemos actualizações regulares e rápidas. Sim: nós já chegámos ao século XXI. Eles, pobres desgraçados, ainda estão no século XIX.
Não. Estou a brincar. Hoje começa a parte pública e oficial. Já foi tudo negociado entre o PS, PSD e CDS/PP. Que isto de mudar a Constituição da República Portuguesa não é para todos.
A petição, lançada pelo Barnabé, que exorta o governo português a enviar José Manuel Fernandes para o Iraque, dando-lhe a oportunidade de demonstrar o seu amor à causa, já chegou às 400 assinaturas. Acho que a partir das mil devia ser vinculativa.
Depois da fase em que era oposição à oposição, Durão Barroso é agora oposição a Zapatero. Sejamos justos: ele tinha avisado que Portugal estaria sempre ao lado do PP espanhol. Ontem, criticou o governo espanhol por ter cumprido a sua promessa eleitoral e ter retirado os seus militares do Iraque.
Sobre a revisão da legislação que regula a Reserva Agrícola Nacional e a Reserva Ecológica Nacional e as afirmações que o Presidente da República foi fazendo, esta semana, vale a pena ler este texto de Miguel Sousa Tavares.

Anónimo: Comício por uma Frente de Unidade Revolucionária, 1975.
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.


«Militares aptos mas sem material».
...pelo menos. Nos últimos dias também tenho colocado uns blogues ali nos linques da esquerda. Assim de repente que me lembre foram incluídos o My moleskine e o Oeste Bravio. Mas também tenho impressão que temos para ali alguns blogues que estão em estado vegetativo, sem postas há muitos meses. Enfim, tem que se dar ali uma grande poda.
E mais oito na lista de blogues (aqui à esquerda), o Acuso, porque vou lá às vezes. O Albergue dos Danados, porque gostei, o Amor e Ócio, porque me disseram que era bom, o Bota Acima, porque tem uma entrevista a um velho amigo de que gosto muito (Raimundo Narciso, estás aí?) e relembra um outro que já não anda por cá (o António Graça), O Estado das Coisas, porque me ofereceu uma viagem, o Fórum Comunitário, porque é bom e é de um ex-comentador residente do Barnabé, o Posts de Pescada, porque está há muito tempo para entrar e O Quarto do Pulha, porque é desbocado. Da minha parte, a partir de agora, só entra novo se sair velho.

«Ben Laden deu um período de tréguas à União Europeia».
Como sempre aqui defendi, não há nada para negociar com Ben Laden. É preciso derrota-lo. Não acho que assim se derrotasse a Al Qaeda (que é bem mais difusa do que um homem), mas isso é outra questão. Como é outra questão a cada vez mais forte convicção que muitos têm de que o caminho que está a ser seguido não só não o está a derrotar, como lhe tem facilitado a vida. Até já diz que dá tréguas, vejam bem.

Durão Barroso almoçou com Saramago. Pediu-lhe desculpa por uma coisa que aconteceu há 10 anos. Saramago, muito radical a atacar os políticos, gostou do número para as televisões. É bom para as vendas e para o ego.
Agora peguei na pena De pensamento afirmado Para contar ao leitor Um caso bem complicado Sobre o debate que teve Barnabé com um safado
Mas este grande debate que aqui vou descrever Não se trata num só dia É fácil compreender Foi um debate sangrento Conforme o leitor vai ver
É Barnabé esse blogue que escreve antes do dia caminha antes do tempo e posta em demasia tem já mais de sete meses não conhece covardia
Provocando a direita sendo por demais humano lutando para ganhar seu clique cotidiano não teme a reacção nem governo americano
Aqui deixo Barnabé Sigo em outro roteiro Vou falar dum impostor que usa nome verdadeiro para comentar nos blogues mas que grande batoteiro
[Adaptação de folheto de Erotildes Miranda dos Santos, o Trovador Nordestino]
Como, ao falar de mim, fez um link para o partido a que pertenço, penso que não será uma inconfidência dizer de onde vem José Bourbon Ribeiro. O lema do seu blogue (O Estado das Coisas) é este: «O único blog que não confunde O Estado das Coisas com As Coisas do Estado». Vindo do chefe de Gabinete de Paulo Portas, longe de mim duvidar. Depois, no humor original que caracteriza os nossos amigos do CDS/PP, manda-me para a Albânia. Por mim, caro Bourbon, davam-me jeito agora umas férias. E oferece-se para pagar! Isto é que é gente generosa. Mas tenho a certeza que, apesar do Estado das coisas do pessoal do CDS/PP não se confundir com o estado das coisas do Estado (nunca!), o dinheiro não lhe fará muita falta. Pessoal, vou de férias pagas pelo orçamento da Defesa! Com uma vantagem em relação ao nosso amigo Bourbon: não tenho de aturar Paulo Portas. Ser da esquerda caviar é uma maravilha: eles pagam o caviar e nós é que nos divertimos. Adeus pessoal, obrigado Bourbon.

A melhor notícia do Iraque em muito tempo: os reféns japoneses foram libertados. Ainda não há muitos detalhes, mas já há imagens dos três reféns em lugar seguro.
Que alívio. Esperemos que esta libertação possa servir para ajudar a dominar, entre os grupos resistentes no Iraque, a tentação de lançar mão desta barbaridade dos sequestros de civis enquanto táctica política. Esperemos apenas.
Mas, na verdade, não me apetece fazer mais leitura política nenhuma. Basta-me saber que hoje é o dia mais feliz nas vidas de "Noriaki Imai, de 18 anos, e Nahoko Takato, uma mulher de 34 anos -, e o terceiro um fotógrafo independente, Soichiro Koriyama, de 32 anos." E isso, creio, é o suficiente para salvar este dia e nos deixar alegres a todos.
Post-scriptum: Para comemorar, fico a dever a todos os fiéis barnabitas um texto sobre o grande Haruki Murakami. Eu sei que não tem nada a ver, mas o prometido fica devido. E agora, como dizia ele: "todas as crianças de deus podem dançar".

Não perca a mais hilariante história que satisfará os mais exigentes leitores! Começa ainda hoje!

Maria Velez: Programa de Dinamização Cultural do MFA, sem data.
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
« 'Resistência iraquiana' abate um refém italiano».

Hoje vi, com imenso atraso (é de 1995), um filme cristão. Muitos já terão visto. Chama-se “Dead Man Walking”(Tim Robbins). Está longe de ser, do ponto de vista cinematográfico, um bom filme. Mas escolhe o caminho mais difícil na condenação da pena de Morte. Não condena porque pode haver enganos, porque as pessoas têm momentos impensados, porque os criminosos são pessoas que não foram amadas. Condena, apenas porque é errado. O condenado (Sean Penn) é realmente culpado, apesar de se dizer inocente, é nazi, racista, violou e assassinou. Tem uma mãe e irmãos que gostam dele. No filme, uma freira (Susan Sarandon) acompanha este homem com todas as suas forças até ao fim e encontra nele o impossível: humanidade. Aconselho o filme a todos os que gostaram da “Paixão de Cristo”. Para ver se este cristianismo lhes diz alguma coisa. Aquele que, sendo eu ateu, não consigo deixar de admirar. Pena que, ao pé da exibição arrogante da dor, seja tão pouco popular.

Vítor Valente, 1974
Quero recordar que queremos textos sobre o dia 25 de Abril de 1974 . Já sabem: a 25, para comemorar os 30 anos da revolução, vamos dar todo o nosso espaço aos leitores. Enviem textos com a vossa (ou de outros) experiência pessoal desse dia. Queremos recordar o 25 de Abril, vendo-o por muitos olhos. Mandem os textos, com título e menos de mil caracteres, para o nosso e-mail, até dia 23 de Abril.
Entretanto, a petição, lançada pelo Barnabé, para mandar José Manuel Fernandes para o Iraque como escudo humano dos civis que ele exige que lá fiquem, aproxima-se perigosamente das 200 assinaturas. Tanta gente amiga, não é, Zé Manel?
Quando o Barnabé nasceu, há pouco mais de sete meses, fomos claros no que tocava à participação dos leitores nas caixas de comentários. Aqui não entrava propaganda fascista e xenófoba. Os nazis que criassem os seus próprios blogues. Esta era a excepção à regra: as caixas de comentários eram um espaço de liberdade e confronto. Que nos defendessem, que nos atacassem, que criticassem, que fizessem reparos, que nos insultassem até, dentro das regras mínimas da civilidade e da higiene deste blogue.
À medida que o Barnabé foi ganhando mais leitores e alguma notoriedade, foram aumentando não apenas os comentadores de direita (óptimo, são sempre bem-vindos), mas sobretudo gente que, independentemente das suas convicções, baixa o nível do debate até um ponto insuportável. Por nós, vivíamos bem com isso. A coisa que mais vezes ouvimos foi: «como é que vocês aguentam? E respondem-lhes? Que paciência!». Não vivemos mal com a acidez do debate e sabemos que quem vai à guerra, dá e leva. Nunca nos fizemos de virgens ofendidas.
Ultimamente, as coisas atingiram um novo patamar. E começámos a receber cada vez mais e-mails de leitores a protestar. E com razão. Gente que concorda ou discorda das nossas opiniões, mas que gosta de as ler. E que, quanto tem vontade de comentar, desiste ao verificar o nível a que a coisa chegou nestas caixinhas democráticas. Alguns barnabé-haters já não se limitam a atacar. Passaram à sabotagem pura e simples. Tudo já foi feito, desde o insulto mais vulgar, até à quadruplicação de nicks usados por uma mesma pessoa, passando, recentemente, pela utilização da assinatura de outros comentadores e de bloggers do Barnabé para os deixar mal vistos.
Os protestos das pessoas que gostam de cá vir têm fundamento. Por elas, e porque gastamos tempo com isto, seremos, a partir de agora, mais rigorosos. Como se costuma dizer, agiremos em conformidade.
As regras do jogo são claras: é permitida a total liberdade de opinião (continuando a não se aceitar propaganda nazi e racista), o insulto pessoal não deve nunca ser utilizado, é interdita a utilização de nomes e nicks de figuras públicas, de bloggers ou de outros comentadores e não permitiremos a utilização do Barnabé para a difamação pessoal de qualquer pessoa (pela qual poderiamos ser legalmente responsabilizados). São estas as regras, muito permissivas e abertas. Quem não as cumpra verá o seu comentário apagado e, nos casos mais graves, o seu IP bloqueado. E nem perderemos tempo com mais explicações. Simples? Simples. Porque as pessoas civilizadas têm direito a comentar aqui. E entre os nossos leitores elas são a larguíssima maioria. De direita e de esquerda, para o caso pouco importa. A maioria dos comentadores não terá de mudar nada no seu comportamento. Para os outros, fica o aviso.
Estou cheio de inveja daquele senhor que está ali em baixo em cima do escadote. Ele é que está a comemorar o 25 de Abril como deve ser. Mas aquele senhor não é um perigoso revolucionário, é um conservador que defende que o respeitinho é muito bonito.
[Nota de Rui Tavares: Caros leitores. Vários comentários tiveram de ser apagados da janela de comentários a este texto. Um comentador que assina como AP usurpou identidades de outros comentadores e autores deste blogue. Escreveu comentários em nome de Daniel Oliveira, Rui Tavares, Real e Thirdbacus, além de outros sob outros nomes. Alguns destes leitores exigiram a remoção daqueles comentáríos, o que foi feito. Não podemos permitir que venham para aqui fazer jogo sujo, ainda para mais prejudicando leitores fiéis e adversários leais do Barnabé.]
Luís Delgado: «No período da Páscoa morreram seis soldados americanos no Iraque. No mesmo espaço de tempo, Portugal perdeu 20 pessoas nas estradas. Sendo que nenhuma morte é boa, qual das duas é mais inglória e insensata?»
Em quatro horas, a petição para mandar José Manuel Fernandes para o Iraque, servindo de escudo humano aos oito civis portugueses que ele quer que lá fiquem, chegou às 60 assinaturas. Assina.
Em seis horas: 106 peiticionários. Juntando uns trocos até vai dar para pagar a viagem.
Correcção ortográfica, para que um cartaz pago por todos não sirva para insultar a memória do País. Juro que o Barnabé não teve nada a ver com isto. Bolas!
PS: Esta imagem é uma montagem. Mas, na maior parte dos cartazes que eu vi em Lisboa, já não é.
George Bush: "não faço planos de perder o meu emprego".
Para fazer o favor a José Manuel Fernandes, o Barnabé já lançou uma petição, solicitando ao governo da República Portuguesa o envio de José Manuel Fernandes para o Iraque, como sinal da firmeza de Portugal perante as ameaças e a chantagem, servindo de escudo humano aos oito civis portugueses que lá se encontram. Assina.
Ministério Público quer poupar dinheiro em autópsias inúteis.
José Manuel Fernandes: «É este o mundo em que vivemos. Um mundo que exige cooperação e coragem. Um mundo que não autoriza que se enviem aos terroristas mensagens de fraqueza, como as enviadas pelos países (França e Alemanha) que apelaram aos seus civis para abandonarem o Iraque. Ou por Durão Barroso, que fez questão de dizer que não garantia a segurança dos oito (repito: oito) civis portugueses. É isso que os terroristas querem ouvir». Eu li bem? Ele está a defender o sacrifício de civis para não dar parte fraca? Ofereça-se para ir para lá servir de escudo humano. O País agradece.

DN: «Quem tem perfil na máquina do partido para disputar estas eleições [Europeias]?
PSL: «Não forçosamente da máquina do partido. Deve ser alguém capaz de assumir este risco. Se eu pudesse lá estava eu. Mas há muita gente que diz que não.»
Noutra pergunta, acaba por explicar porquê: «tem que ser alguém respeitado intelectualmente».
Que picuinhas. Não tem nada! Como lisboeta, faço já campanha: vamos pôr Santana em Bruxelas!
«O mundo está numa fase em que tudo pode acontecer eleitoralmente». Pedro Santana Lopes
«É mau para a abstenção uma campanha demasiado longa», diz Pedro Santana Lopes. Critica os partidos que já apresentaram os candidatos às Europeias. Afinal, ainda faltam três meses para as eleições. Que apressadinhos!
Lembram-se quando Santana se queixava da demora de Cavaco em relação às Presidenciais? São daqui a dois anos.
Numa semana dedicada ao ambiente, Jorge Sampaio manifesta-se contra o «fundamentalismo ambiental».
Primeiro-ministro aconselha civis portugueses a abandonarem o Iraque.

Anónimo: Autocolante com juramento de bandeira do RALIS, Novembro 1975.
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
O governo anunciou aumentos das pensões mínimas para Junho. Em que mês são as eleições europeias? É?, tabém, tabém... tou a ver... tá certo...

No site oficial da Paixão de Cristo, poderá comprar para oferta pins e joalharia com réplicas dos pregos que atravessaram os membros de Jesus nazareno. Afinal, não fomos originais.
Veja o filme. Compre o prego.
«A crucificação a que Bush foi sujeito no último ano teve traços inaceitáveis de radicalismo e má-fé», Pedro Lomba.
Fez ontem dez anos que foi enviado o primeiro spam. Quem o lançou? Exactamente! Advogados. Por isso, meninos e meninas, se o vosso pénis ainda está do mesmo tamanho, metam-lhes um processo.

Isto parece estar mau? Morreram 600 de civis em Fallujah? Já ninguém se lembra o que os americanos foram fazer ao Iraque? O nosso general não é dos que vacila. Quer determinação na guerra. Quer mais tropas no terreno. Quer mais estrangeiros «simbólicos» a combater. Quer que os franceses não sejam uns empatas. Quer que a opinião pública não seja mariquinhas. Ele está na primeira linha. Pronto para o que der e vier.
Depois, José Manuel Fernandes desliga a PlayStation e vai-se deitar. Mais um longo dia na vida de um combatente sem medo.
«Bush sai do rancho e quebra silêncio»
PS: post refeito. Apeteceu-me. Achei que estava a ficar mole com o senhor presidente dos EUA. Houve um comentador que achou que eu estava a comparar Bush com um canídeo [na versão anterior post o título era: "Bolas! Quem é que deixou o portão aberto?"]. Aqui está o desmentido. Seria incapaz de fazer isso ao melhor amigo do homem.
Ontem saiu, no "Diário de Notícias", um artigo meu sobre o livro de Fernando Gil e Paulo Tunhas. Nem eu dei por isso. Já debati o assunto no "É Cultura, Estúpido!", mas ainda não tinha tido oportunidade de escrever sobre "Impasses" aqui. Não está on-line mas está aqui em baixo. É clicar no link.
Relatório Minoritário
Daniel Oliveira
Washington vive uma paz que nunca antes conhecera. A segurança total, sem homicídios, sempre sonhada, é uma realidade. Já ninguém tenta disparar um tiro, a não ser maridos ciumentos e loucos varridos. A punição é certa, o crime impossível. A utopia está ali. Tudo graças ao sistema “Precrime”. O “Precrime” resume-se assim: três seres com capacidades “precognitivas”, os “precogs”, conseguem prever qualquer homicídio, ainda antes que ele aconteça. Nem sempre a previsão coincide entre os três. A versão minoritária fica registada num relatório. Depois da previsão, a polícia prende e condena, sem precisar de julgamento. A prova está na previsão e a previsão é mais do que suficiente.
Quem viu “Relatório Minoritário”, um bom filme de ficção científica, reconhece esta história. O filme tem dois anos e estreou quando os argumentos em defesa da guerra “preventiva” dominavam o debate político sobre o Iraque. A analogia não pode ter passado pela cabeça de Philip K. Dick, o autor da pequena história que deu origem ao filme. Mas ela salta aos olhos.
“Impasses”, um livro de Fernando Gil e Paulo Tunhas, vem em defesa do espírito “Precrime”. No caso, aplicado ao Iraque e à questão de as armas de destruição em massa. Os Estados Unidos tinham razões para presumir que o Iraque tinha as armas, defendem os autores. E perante a presunção, seria desonesto exigir provas irrefutáveis antes do ataque ou vir agora criticar o facto das armas não existirem. Num salto lógico difícil de acompanhar, dos muitos que se encontram no livro, Fernando Gil considera que a presunção de que as armas poderiam não existir seria pura má-fé de quem queria evitar a guerra a todo o custo. Num caso avalia a racionalidade da defesa da guerra, no outro faz psicanálise sobre as intenções de quem a ela se opunha. Fernando Gil tem uma fé, e a fé não pede explicações lógicas. Acrescente-se que, na sua fé, nem o rigor académico a que nos habituou é poupado.
Vamos supor, para facilitar o debate, que os Estados Unidos acreditavam na teoria que nos vendiam. Com maior generosidade ainda: tinham mesmo fortes razões para a sua presunção. Mais: suponhamos que os opositores à guerra se moviam desprovidos de qualquer dado factual. Ainda assim, valeriam o mesmo as presunções de uns e de outros? Não. Porque uma pedia precipitação e outra cautela. Porque uma exigia capacidades “precognitivas” e outra apenas pedia que se seguissem as regras racionais de qualquer julgamento: para condenar precisamos de mais do que uma presunção da culpa. E se isto é assim num julgamento, tem de o ser, por maioria de razão, numa guerra.
Eu sei que não se faz, mas vou contar-vos o fim do filme: o responsável pelo “Precrime” usa-se deste sistema, que parecia infalível, para mascarar um crime cometido por si. Iludindo as suspeitas que sobre ele vão recaindo, tenta esconder todas as provas constantes no Relatório Minoritário, envolvendo-se numa gigantesca mentira. Felizmente, havia gente menos histérica e disponível para usar a dúvida como método racional. A verdade acaba por se saber e o projecto “Precrime” é encerrado. Voltam a ser aceites, a partir desse momento, estas inquietantes mas inevitáveis certezas: que a liberdade, como a paz, nos obriga a viver com o risco e com a dúvida; e que sendo a segurança absoluta a mais perigosa das ilusões, quem sacrifica tudo por ela acaba por ficar sem nada. Nem liberdade, nem paz, nem segurança.
Tal como no filme, a guerra preventiva morreu. Os seus resultados não deixam espaço para argumentações desesperadas: quase dez mil mortos civis no Iraque, um país a ferro e fogo, sunitas e xiitas unidos contra as forças de ocupação, uma rede terrorista reforçada, o direito internacional fragilizado, nem uma arma encontrada e a fraqueza de todas as provas apresentadas, reconhecida pelo próprio Collin Powell. Será Fernando Gil o último a reconhecê-lo?
Aviso: isto é uma metáfora. É cada vez mais difícil fazê-las.

«Portugal é um país viável» desde que «não se bata com a cabeça na parede». Mais uma frase de Jorge Sampaio.

Cartaz anarquista, 1976.
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Dois linques novos no Barnabé Rebelo de Sousa. Em primeiro lugar, um excelente texto de Robert Fisk em que este resume o recado dos responsáveis pela guerra aos seus críticos: calem-se. E depois, um texto de John Pilger sobre Timor-Leste em que este exprime o seu receio de que a Austrália abocanhe um quinhão demasiado grande do petróleo do Mar de Timor.
Aproveitei também para colocar na coluna de referência linques aos sites de onde retirei estes textos, e nos quais se recolhem sistematicamente artigos destes dois bravos repórteres. No caso de John Pilger trata-se de um site oficial, no de Robert Fisk um outro gerido por admiradores. Já agora, devo chamar a atenção para o blogue de Noam Chomsky, que já ali estava desde que apareceu, e que agora mudei de lugar por uma razão de facilidade, da letra T (de Turning the Tide, o nome do blogue) para a letra N do nome do autor.
A direita não pode com nenhum destes três gajos, de forma que me vou deitar com a sensação do dever cumprido.

Tem sido dito e escrito que os EUA não podem nem devem abandonar o Iraque. Vamos partir do princípio de que quem defende este ponto de vista considera que a guerra foi e é um erro. Só com estes se pode fazer este debate. Quem defende a guerra tenta apenas, com este argumento, encontrar no facto consumado a defesa da continuação da guerra.
Deixemos de lado a questão moral. Apenas digo, sobre ela, que o papel do agressor, depois da certeza de que o seu argumento para a agressão não tinha qualquer validade, deveria ser o de pagar a factura: pagar a reconstrução feita pelos e para os Iraquianos, indemnizar um país que foi destruído e pagar o esforço de pacificação que tivesse de ser feito por outras forças que não as responsáveis pela situação em que o Iraque se encontra. Isto é que seria justo. Mas adiante.
Um dos argumentos que tem sido utilizado é o de que a saída dos Estados Unidos do Iraque, agora, tendo em conta a inexistência de autoridade e a luta pelo poder que se adivinha, seria entregar o Iraque ao caos. Dito assim, parece um argumento de bom-senso. Mas não é. Não é porque os EUA são o último país que ali conseguirá a pacificação. Não é porque existem alternativas.
A permanência dos EUA no Iraque apenas acentuará a espiral de guerra. As forças americanas serão mais vezes atacadas, responderão com ataques, serão de novo atacadas, mais forças serão enviadas, e por aí adiante. Não serei o primeiro a fazer um paralelismo com o Vietname. Os EUA serão um factor de instabilidade. Até porque enquanto estiverem no Iraque atrairão toda a espécie de movimentos não-iraquianos, agravando ainda mais a situação. Sendo pragmáticos (e o argumento da defesa da presença dos EUA apela ao pragmatismo), eles serão, ali, um íman para a desgraça.
Não se conhece, nunca se conheceu, qualquer capacidade pacificadora a forças que são vistas como ocupantes. As forças ocupantes, quando não são vistas como libertadoras, acabam sempre ou por ter de abandonar os territórios que ocupam ou por transformá-lo em colónia sua. Pior: temo que se a saída não se fizer quanto antes terá de ser feita em muito piores circunstâncias, sem a possibilidade de garantir qualquer tipo de transição pacífica. A história colonial de muitos países, Portugal incluído, ensinou-nos isto.
A alternativa passa pela transição negociada. Só uma organização está em condições de o fazer: a ONU. As forças dos Estados Unidos e dos seus aliados nesta guerra devem ser substituídas por forças de países não envolvidos no conflito, aceites pelas forças iraquianas no terreno (as que se mostrarem disponíveis à negociação - e muitas delas, com a mira no poder, estão disponíveis), e dirigidas pelas Nações Unidas. O governo provisório iraquiano deve ser nomeado pela ONU e incluir as várias organizações no terreno, muitas delas indisponíveis hoje para trabalhar com o ocupante. A transição para a democracia deve conter em si a própria democracia. Ela terá de ser feita com esta gente. Se a negociação com esta gente é impossível, então a própria democracia será uma impossibilidade.
A prova provada da incapacidade negocial dos EUA é o facto de, em Fallujah, terem tido a necessidade de recorrer a sectores do governo provisório toleradas pelos revoltosos. Ou seja, os únicos que podem ser ouvidos e ouvir no Iraque são iraquianos. E eles existem.
Dir-me-ão que nunca os restantes países, no âmbito da ONU, sem os EUA, conseguirão garantir 130 mil militares no terreno. É verdade. Só que os EUA precisam de 130 militares porque estão a ocupar um país. Estão a defender os seus interesses na região e estão em guerra. O país é-lhes hostil e a ocupação inclui a tomada dos recursos naturais do Iraque. Para proteger o saque precisa-se de mais forças no terreno do que para garantir a paz. Para fazer uma guerra é preciso mais força do que para defender os cidadãos.
Mesmo assim, o Iraque não viria a ser um exemplo de paz e segurança? Não. Mas, cerca de 11 mil mortos depois, alguém pode dizer que agora o é?

Por viver noutro país, não gosto de dizer mal de Portugal. Como sei que dizer mal é um desporto nacional que tem exímios praticantes, abstenho-me de contribuir também eu para ele. Não é só um cálculo: não me apetece mesmo, porque tenho saudades do meu país. Mas quando vi o livrinho de promoção do Euro 2004 no estrangeiro, feito pelo ICEP (Instituto do Comércio Externo), fiquei horrorizado. Meço as palavras. Fiquei mesmo. Eu adoro futebol, como penso que quem lê regularmente o Barnabé já percebeu. Mas ao ver a relva de estádio a espalhar-se como uma praga pelo chão do país todo, na Gare do Oriente, nas colinas do Douro, numa esplanada com vista sobre o Porto, na praia da Rocha, nas lagoas dos Açores, na pousada-castelo do Crato, fico arrepiado. Alguns destes lugares na realidade não são idílicos, e os campos de golfe já são um bocado aquilo, mas pronto, se tirarmos mentalmente os turistas da praia da Rocha, aquilo continua a ser bonito e é uma imagem nossa. Cada um pode pensar que um dia a praia da Rocha será sua outra vez por um momento, rochas espectrais ao fim da tarde só para mim. Agora, transformá-la numa praia de relva, num lago húngaro à beira do oceano? Ora ai está um pesadelo pago a peso de ouro. O pior é que esta fantasia é um sonho de quem a pode realizar. O ideal de levar o campo de futebol para todo o lado do ICEP corresponde a um ideal de dirigentes desportivos e construtores civis seus aliados. O de, onde quer que estejamos, sermos obrigados a ver futebol, a falar de futebol, a associar coisas ao futebol. Na natureza, nas actividades produtivas, no património. Uma intoxicação de publicidade, e o revolver inteiro da paisagem de um país tornado relvado. O futebol como horizonte inescapável. É isso que vai acontecer em Junho. Aliás, provavelmente, já é isso que acontece. Qual Fátima, qual Fado: foi o F do Futebol que ganhou e, neste aspecto, os ideólogos de Salazar eram verdadeiros amadores comparados com os de hoje.
Filme de Mel Gibson leva mais fiéis às igrejas australianas.

Um batalhão das novas forças armadas iraquianas, que deveriam receber as funções de segurança daqui a uns meses, recusou-se a lutar em Fallujah. A notícia foi dada pelo Washington Post (é preciso registar-se gratuitamente) e pela Al Jazeera.
Aconselho ainda a visita ao blogue de Dahr Jamail, um “correspondente” no Iraque e que esteve nestes dias em Fallujah. Não conheço o seu currículo e parece-me ser um pouco tendencioso. Mas, para além dele, que se saiba, só estiveram, desde que começou o cerco punitivo a Fallujah, dois jornalistas no interior da cidade. Jamail faz uma descrição terrível. Espero que exagerada.
Hoje, pelo segundo dia, as coisas estão mais calmas.
O triste comportamento do ocupante americano, desta vez em Bagdad, foi também relatada pelo Guardian.
Obrigado aos dois leitores pelas dicas. São sempre bem-vindas.

Até às eleições regionais, Alberto João Jardim já tem quase todos os dias preenchidos com inaugurações que custarão muitos milhões de euros. Se em 2003 os seus rendimentos resultam apenas de trabalho dependente, a declaração do seu contributo para a campanha de Jardim terá sido entregue até 15 de Março. Se não, tem até dia 30 deste mês. Com os agradecimentos do PSD/Madeira.
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600 iraquianos civis mortos, em apenas uma semana, e o Estádio de Fallujah usado como cemitério. Suponho que, hoje, os iraquianos não terão direito a uma lágrima furtiva.
Recordo que continuamos a receber textos sobre o dia 25 de Abril. Está a correr bem, mas queremos mais. Nesse dia, para comemorar os 30 anos da revolução, vamos dar todo o nosso espaço aos leitores. Enviem textos com a vossa experiência pessoal desse dia. Se têm menos de 30 anos, podem ser histórias de um outro. Queremos recordar o 25 de Abril, vendo-o por muitos olhos. Mandem os textos, com título e menos de mil caracteres, para o nosso e-mail, até dia 23 de Abril.

Anónimo, sem data.
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Liberdade é Escravidão
Guerra é Paz
Ignorância é Força
Abril é Evolução
MacGuffin (Contra a Corrente) está zangado porque quem criticou a guerra acha e diz que tinha razão. O crime: os factos dão-nos razão e nós recordamos isso. Conclusão: isto só pode querer dizer que estamos contentes com o rumo que as coisas estão a levar.
Não sei se acompanham o raciocínio: ele apoiou a ocupação, ele acreditou na existência das armas de destruição em massa, ele defendeu que a democracia se podia implantar à bomba, ele defendeu que isto era uma boa forma de combater o terrorismo. As coisas não aconteceram como ele esperava. De que em é a culpa? Nossa. Evidente, não é?
E melhor: tenta colar-nos às forças xiitas, as mesmas que, ainda há uns meses, eram aliadas dos ocupantes e para as quais nós, insensíveis, não tínhamos uma palavra de amizade perante a opressão de Saddam. Como viram, deste lado cabe tudo, desde que não preste.
Mais uma nota: já escrevi aqui, milhares de vezes, que para mim a culpa do que aconteceu em Madrid foi da Al Qaeda e contestei as distribuição de culpas para fora desta rede de organizações. Ao fingir que não, MacGuffin dá mais um exemplo de má-fé. Seja como for, comparar o que está a acontecer em Falluja com o que aconteceu em Madrid, isso sim, é que me parece de um relativismo moral insuportável.
Mas em todo o seu post, MacGuffin tem um pouco de razão numa coisa: «de todas as soluções de “estabilização”, o Daniel preferirá sempre, de longe, a retirada dos “mentirosos”». De rabinho entre as pernas». Duas correcções:
Primeira: não prefiro nem deixo de preferir. Acho que todas as soluções de “estabilização” passam pela retirada dos “mentirosos” e pela sua substituição por forças da ONU, que tenham mais olho na segurança dos iraquianos do que no dinheiro da reconstrução e do petróleo e que sejam vistas pelos iraquianos como forças de paz e não como força de ocupação.
Segunda: desde que se retirem, é me indiferente se os americanos se retiram com o rabo entre as pernas ou de cabeça bem erguida. Mas suponho que, na verdade, é só mesmo isso que preocupa MacGuffin: não perder face, quando tudo o que era seguro se revelou fantasia.
Depois da notícia deste fim-de-semana, no “Expresso”, já não tenho grandes dúvidas: a transferência do hipódromo e da Feira Popular para Monsanto tem apenas como objectivo libertar para projectos urbanísticos zonas centrais da cidade e, com isto, continuar a desflorestação do parque.
Ao mesmo tempo, para fazer o último lanço da CRIL, vai ser completamente destruído o aqueduto das Princesas, um aqueduto secundário do Aqueduto das Águas Livres, e uma parte do aqueduto principal.
Corre um abaixo-assinado, promovido por várias figuars públicas e pela Associação Ofícios do Património e Reabilitação, contra este atentado ao património. Para pedir informações ou enviar mensagens, o e-mail é este (info@oprurb.org ou arq.lopes@clix.pt), indicando o nome completo, a profissão e o número do Bilhete de Identidade, ou então enviar estes elementos por carta para a seguinte morada: Rua Sousa Martins nº 20 4º esq 1050-219 Lisboa - T: 213 556 902.
Segue no link em baixo o texto do abaixo-assinado.
Abaixo-assinado dirigido ao Senhor Presidente da Republica,
Senhor Primeiro-Ministro,
Senhor Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente,
Senhor Ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação,
Senhor Ministro da Cultura,
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Amadora,
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa,
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Loures,
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra,
Senhor Presidente do IPPAR,
e Senhor Presidente da EPAL
O ano de 1731 marca o início da construção do Aqueduto de Lisboa, sistema de captação, transporte e distribuição de água para abastecimento da cidade. Obra hidráulica da responsabilidade técnica de Manuel da Maia e Carlos Mardel, foi custeada em grande parte pelo real d'água, taxa paga pelo povo de Lisboa sobre os géneros de primeira necessidade. Daqui resulta o peso indestrutível de um património que se fez à custa de dificuldades e carências da população que, certamente já teria muitas. A sua grandeza monumental traduz-se nos seguintes números: o aqueduto principal com 18,5 km atravessa os 940m do vale da Ribeira de Alcântara com 35 arcos sendo um deles o maior arco em pedra do mundo. Tem uma rede de captação de 30km de condutas e abastece uma rede de distribuição de 12km. Completado por edifícios que abrigam as Mães de água, reservatórios e chafarizes, forma um conjunto de alto valor patrimonial pela arquitectura e a qualidade da construção, mas igualmente por ser o único sistema em «água livre» com esta dimensão e ainda por ter chegado praticamente intacto até nós, o que fundamenta e exige a sua conservação. Sofreu algumas intervenções desastradas num passado não muito distante. Por isto mesmo, é tempo de dizer basta e não deixar livre a ignorância que permitiu tais desmandos. Hoje, temos consciência do valor em causa pelo que não poderemos permitir que se prejudique a integridade do seu conjunto. Hoje, já somos muitos a escolher entre uma auto-estrada e um monumento. E este, pelo seu impacto visual positivo, constitui um ex-libris da cidade e pelo que ele custou aos homens do seu tempo, exige de nós o respeito e o reconhecimento. Os abaixo assinados, alertados pelas notícias referentes à construção do último lanço da CRIL, esperam que:
- seja completado o inventário deste monumento em toda a sua extensão;
- seja impedida, na prática, a demolição de qualquer dos seus elementos ou troços;
- a EPAL persista no seu esforço de defesa, valorização e divulgação deste património, que gere;
- as tutelas assegurem a vigilância para a sua protecção e os apoios necessários às operações de salvaguarda e valorização;
- as Câmaras em cujo território o Aqueduto está implantado
- Amadora, Lisboa, Loures e Sintra, tratem com o cuidado indispensável e a dignidade devida, as zonas envolventes, tanto dos pontos visíveis como dos troços subterrâneos, de modo a não prejudicarem o monumento e a valorizá-lo.
- seja rapidamente accionada a sua candidatura a Património Universal, como meio seguro para a sua preservação.

Libertar, jornal católico, 1976?
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
O grupo Swatch comprou o velho espaço do Cabaret Voltaire em Zurique e começou a fazer uma linha de relógios Dada. Miserável mundo este!
P.S. Não ponho imagem. Não se faz publicidade neste blog

(...)
Both simultaneously recognise his Anty-tipe: that I am an Arcadian, that He is an Utopian.
He notes, with contempt, my Aquarian belly: I note, with alarm, his Scorpions's mouth.
He would like to see me cleaning latrines: I would like to see him removed to some other planet.
Neither speaks. What experience could we possible share?
(...)
W.H. Auden, Vespers
(...)
Em simultâneo ambos reconhecemos o nosso Anti-tipo; que eu sou um Arcádio e ele um Utópico.
Ele com desgosto, nota o meu ventre de Aquário ; eu, com alarme, a sua boca de Escorpião.
Ele gostaria de ver-me limpar latrinas; eu gostaria de o ver desterrado noutro planeta.
Nenhum fala. Que experiência poderíamos, porventura, partilhar?
(...)
Trad.José Alberto Oliveira

E, de repente, a direita descobriu a pobreza.
Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Só esta semana morreram, em Falluja, mais de 400 civis iraquianos. Os confrontos já chegaram a Bagdad.
O facto de estar cientificamente provado que a curva é melhor que a recta não te condena a andar em círculos feito estúpido.
Quanto mais consigo perceber exactamente como se resolveriam certos problemas teus, mais me é difícil conseguir resolver certos problemas meus que só tu consegues perceber exactamente como se resolvem.
Nomes de código das operações americanas no Iraque: «Vigilante Decidido» e «Espada Firme».
Comunistas admitem viabilizar Governo de César.

Acompanhei com entusiasmo as últimas eleições brasileiras. Acompanhei-as com militantes do PT, em Lisboa. Sofri com eles e festejei com eles. Não esperava de Lula nenhuma radicalidade. Esperava apenas uma política decente, de centro-esquerda, o que no Brasil já não seria nada pouco. Esperava reformas sociais fundamentais misturadas, provavelmente, com os compromissos necessários num país-continente, muito pressionado pelos mercados financeiros.
A verdade é que a única coisa de esquerda que Lula fez até hoje, na política interna, como Presidente, afinal era um improviso e está a ser abandonada: o programa Fome Zero. A todos os brasileiros que conheço e que me foram transmitindo a sua decepção, fui sempre perguntando: não estarão com demasiada pressa? Lula não precisará de alguma confiança internacional e dos mercados? Não será, apesar de tudo, melhor ter Lula do que outro? Com esta notícia sobre a Fome Zero, que era o mínimo dos mínimos que se exigiria a Lula e a sua prioridade número um, anunciada no dia da eleição, percebi claramente que tinham toda a razão: Lula já fez a sua escolha. Hoje, só posso compreender a profunda decepções de muitos dos brasileiros a quem Lula deve, desde a primeira hora, a sua chegada ao Palácio do Planalto.
As alianças internas que fez são contra-natura (os seus principais parceiros são a direita corrupta brasileira), deu legitimidade à oposição interna, da extrema-esquerda do PT (muitas vezes mal-intencionada); violou o tradicional pluralismo do seu partido, expulsando dirigentes históricos que, mesmo que me sinta distante de alguns, se limitavam a cumprir, como deputados eleitos, o programa eleitoral e as deliberações do congresso do partido; o seu governo está envolvido em sucessivos escândalos; os dirigentes do PT estão deslumbrados pelo poder; o aparelho de Estado entrou em força para o partido, criando laços de dependência paralisantes; a política económica é mais neo-liberal do que a de qualquer governo democrático que o tenha antecedido; e as políticas sociais parecem não passar do simbolismo propagandístico.
A distribuição de terras (uma medida pragmática e muito menos revolucionária do que alguns imaginam) está adiada e a política económica e de segurança social tem consistido em avançar com tudo o que Fernando Henrique Cardoso não teve coragem nem margem de manobra para fazer. Neste ponto, Lula é o sonho da direita: neutralizou a oposição a uma política neo-liberal.
A popularidade de Lula, no Brasil, não pára de cair. E digo-o com tristeza. Porque Lula da Silva teve condições únicas para escolher outro caminho: bastava uma social-democracia moderada e já seria muito. Só mesmo na política externa, com destaque para o seu papel na Cimeira de Cancún, parece ter algum rumo coerente com a sua tranjectória e com a sua base de apoio.
Seria melhor ter Serra ou Fernando Henrique Cardoso (que já começa a aproveitar a decepção da esquerda) como Presidente? Provavelmente não. Mas a verdade é esta: com esta decepção, a esquerda brasileira fica sem alternativas. De tanto se querer tornar respeitável, Lula perde a sua base de apoio, sabendo que nunca terá a de quem nunca tolerou ter um torneiro mecânico na presidência. Todos os que o levaram ao poder, ainda antes da vitória ser segura, estão hoje a virar-se contra ele: Igreja progressista, Movimento dos Sem Terra, CUT, funcionalismo público. E sem eles Lula está entregue aos seus novos amigos.
Já sei que a direita vai dizer que Lula foi realista, que quem tem de tomar decisões acaba por ter de ser pragmático, etc. Só lamento que Lula tenha confirmado todas estas frases feitas. Se era para fazer o mesmo, não precisava de ter gasto as energias e as esperanças de tantos brasileiros. A decepção é pior que o adversário claro. Sei também que muitos dos meus amigos de esquerda, portugueses, acharão que vale a pena esperar e ver o jogo até ao fim. Talvez sim. Mas só mesmo porque a esquerda brasileira pagou o "ingresso".
No dia em que o Barnabé chegou aos 300 mil visitantes (na véspera de fazer 7 meses), quero chamar a atenção para o nosso desafio de fazer do próximo 25 de Abril o dia do leitor aqui no nosso blogue. Já sabem: enviem textos com a vossa experiência do 25 de Abril, tamanho máximo mil caracteres, com um título curto. Para mais explicações, cliquem no link "25 de Abril dos leitores", ali à esquerda.
Nesses links do lado foi também incluindo o nosso Álbum da Revolução, que vai sendo actualizado a pouco e pouco (foi-o agora mesmo, por exemplo). Também com tempo, hei-de incluir nesse álbum a informação disponível sobre cada cartaz ou imagem. Já agora, devo dizer que também actualizei o Álbum Barnabé das "imagens do dia", mas que me falta reescrever algumas legendas.
Para terminar, chamo a atenção para uma discussão bem sucedida que poderia continuar nos comentários ao texto do Daniel sobre Monsanto. E aproveito para dizer que já respondi aos comentários que fizeram ao meu texto sobre o tabu da sátira religiosa. Desculpem lá o atraso.
O “Expresso” lançou um jogo: chama-se o "Grande Jogo do 25 de Abril". É assim: todos os concorrentes começam com poucos pontos, pertencendo a um pequeno partido de extrema-esquerda. O objectivo é ir somando pontos e ir subindo de nível: primeiro, editor de um semanário de direita de grande circulação, depois, director de um diário e divulgador do neo-conservadorismo, por fim, primeiro-ministro. O concorrente que chegar mais cedo ao objectivo final ganha o “Grande Jogo da Evolução” e a auto-biografia de Cavaco Silva autografada.
A JSD já comemora o 25 de Abril fora de discotecas, diz o "Expresso". Pedro Santana Lopes acha muito bem. Diz que «tudo o que tem a ver com a liberdade faz parte da nossa história» e «não aceitamos ficar relegados para um lugar secundário». É bonito ver a JSD evoluir, mas é ainda mais reconfortante ver um ex-militante do MIRN a fazer sua a história do 25 de Abril. Toda a campanha «Abril é evolução» ganha um novo sentido: a direita está, de facto, em evolução.
Os cartazes diários do 25 de Abril, postados no Barnabé (e também no Grão de Areia) tiveram direito a artigo na revista "Única", do "Expresso". O Paulo Querido, com a modéstia que o caracteriza, não referiu, no seu artigo, o site "Aqui, Posto de Comando". É pena. Merecia.
Diz-nos o "Expresso" que o PSD vai fazer um cartaz contra o cartaz do PS. Estão com saudades da oposição. Não se apoquentem, não tarda nada estão lá outra vez.

Na Laranja, para quem se interessa por Alternative-country e territórios afins, uma recensão exaustiva da carreira dos 16 Horsepower, uma das bandas mais interessantes daquele universo, por quem percebe muito do assunto. Começa aqui e vai sempre a subir.
India

Nicarágua

Filipinas

Neste Mundo de Mel Gibson, o Kit Páscoa está a vender-se muito bem

Os Estados Unidos suspenderam o ataque a Falluja, mas parece que os confrontos podem ter recomeçado 90 minutos depois. Nem os americanos sabem muito bem. Ler aqui

Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
«Tribunal Constitucional extinguiu FUP de Otelo Saraiva de Carvalho.» Diário de Notícias.
Por segundos fui enganado e li: «Tribunal Constitucional extinguiu FUP e Otelo Saraiva de Carvalho». Estranhei. Seria demasiado bom-senso para um tribunal.
Se a chegada dos americanos a Bagdad foi, como escreveu José Manuel Fernandes há um ano, com uma lágrima ao canto do olho, o 25 de Abril, o que se está a passar agora é o PREC?
Ao contrário do que é costume, quero aqui postar o artigo publicado hoje n’A Capital (que não tem site). Assim não me repito.
O marcelismo dizia de si próprio: “evolução na continuidade”. O marcelismo, sabe quem o viveu e quem ouve e lê quem o viveu, foi uma decepção. As mudanças sociais e económicas já se sentiam: a industrialização, a mini-saia e a classe média. Mas a tensão entre estas mudanças e o poder político e económico que a elas resistia, junto com a Guerra Colonial, tornava tudo insuportável. O marcelismo não mudava, tentava apenas desesperadamente que não se mudasse demasiado.
No dia 25 de Abril de 1974, nesse dia exacto, as forças da mudança explodiram. Elas não nasceram de geração espontânea. O golpe terá sido contra a Guerra Colonial, certo. Mas a revolução que explodiu na rua, surpreendendo até os golpistas, era a mudança que já se sentia em casa e na cabeça dos portugueses. As revoluções nunca começam nem acabam no dia em que se dão.
O governo espalhou pelo país um insulto: diz que comemoramos, no dia 25, uma evolução. Já nem falo da contradição dos termos: como raio se comemora uma evolução, se a evolução por definição não tem data?
A estrutura social do país mudou? Mudou. Não mudou naquele dia. Mas sectores sociais que há muito exigiam a mudança tomaram a mudança nas suas mãos. A estrutura económica mudou? Mudou. Um capitalismo monopolista centrado em meia dúzia de famílias ruía e toda a classe empresarial era a partir dali regenerada. O sistema político mudou? Mudou. Eleições livres e democráticas, sindicatos livres, confronto político em liberdade. O papel do Estado mudou? Mudou radicalmente. Nasceu a segurança social universal e o Serviço Nacional de Saúde, a educação para todos e os direitos dos trabalhadores. De protector do Império, o Estado passou a ter como primeira função a equidade social. A família mudou? Mudou. Já estava a mudar e ainda ia mudar mais. Mas conquista-se ali o direito das mulheres à sua emancipação e o direito de todos a organizar a sua vida como entenderem. Se isto não é uma revolução, o que é então uma revolução? Se virmos bem, tirando a mudança de regime de uma monarquia para uma república, as mudanças em 1910 foram menos profundas do que aquelas a que assistimos em 1974.
Dizer que as mudanças vêm de antes, é dizer o óbvio. As revoluções não se dão fora do contexto que as propicia. As mudanças vinham de antes, na Revolução Francesa. As mudanças vinham de antes, na revolução de Outubro. As mudanças vinham de antes, na queda dos países de Leste. Ou o 25 de Abril foi uma revolução, ou nunca houve revoluções na história.
As mudanças deram-se depois, com a entrada na CEE e todo o período que se lhe seguiu? Também vieram. Mas a nossa entrada na Europa é fruto de quê? Do abandono da vocação colonial, do fim do isolamento internacional, da modernização económica e das radicais mudanças sociais. Os divórcios, a compra de electrodomésticos, a diminuição do fluxo migratório para fora do país, o aumento do fluxo migratório para dentro do país, tudo isto cresceu a partir de Abril. Tudo isto eram sinais do caminho para o desenvolvimento a que hoje chamamos Europa.
Não me espanta esta tentativa de revisionismo histórico. A direita tem má consciência em relação ao papel que teve no século XX português. Por isso, tenta que a revolução seja um lugar difícil de encontrar, para que não se consiga ver o lugar onde esteve. E quer, também, legitimar o ataque a tanto do que foi conquistado naqueles primeiros anos de democracia. Porque coisas como a segurança social, a saúde ou a massificação do ensino têm raízes fortes nos portugueses. Porque foram conseguidas na rua, contra o passado de uma ditadura que não era apenas política.
Eu, que tinha 4 anos no dia 25 de Abril de 1974, não me lembro de quase nada. Mas aprendi com quem se lembra. A tradição oral tem algumas vantagens. Escreva-se o que se escrever, sei o que sabem quase todos, sinto o que sentem quase todos: naquele dia viveu-se uma revolução.
Num texto sobre o aborto, um colunista do "New York Times" dá o exemplo de Portugal. Um mau exemplo, claro. Explica a Bush que, caso consiga aquilo que pretende, os EUA passarão pelo mesmo que Portugal: os julgamentos deixarão a lei sem apoio popular. E que a lei será ineficaz. E tem toda a razão.
Quem se queira registar no NYT (é gratuito) siga este link e irá dar ao artigo. Quem não tenha paciência, siga o link que está em baixo («Continue a ler "Somos um case study"»). O texto está lá todo.
The Abortion Question
April 7, 2004
By NICHOLAS D. KRISTOF
LISBON - To understand what might happen in America if President Bush gets his way with the Supreme Court, consider recent events in Portugal.
Seven women were tried this year in the northern Portuguese fishing community of Aveiro for getting abortions. They were prosecuted - facing three-year prison sentences - along with 10 "accomplices," including husbands, boyfriends, parents and a taxi driver who had taken a pregnant woman to a clinic.
The police staked out gynecological clinics and investigated those who emerged looking as if they might have had abortions because they looked particularly pale, weak or upset. At the trial, the most intimate aspects of their gynecological history were revealed.
This was the second such mass abortion trial lately in Portugal. The previous one involved 42 defendants, including a girl who had been 16 at the time of the alleged abortion.
Both trials ended in acquittals, except for a nurse who was sentenced to eight and a half years in prison for performing abortions.
Portugal, like the U.S., is an industrialized democracy with a conservative religious streak, but the trials have repulsed the Portuguese. A recent opinion poll shows that people here now favor abortion rights, 79 percent to 14 percent. In a sign of the changing mood, Portugal's president recently commuted the remainder of the nurse's sentence. There's a growing sense that while abortion may be wrong, criminalization is worse.
"It's very embarrassing," said Sandy Gageiro, a Lisbon journalist who covered the trials. "Lots of reporters came and covered Portugal and said it had this medieval process."
Portugal offers a couple of sobering lessons for Americans who, like Mr. Bush, aim to overturn Roe v. Wade. The first is that abortion laws are very difficult to enforce in a world as mobile as ours. Some 20,000 Portuguese women still get abortions each year, mostly by crossing the border into Spain. In the U.S., where an overturn of Roe v. Wade would probably mean bans on abortion only in a patchwork of Bible Belt states, pregnant women would travel to places like New York, California and Illinois for their abortions.
The second is that if states did criminalize abortion, they would face a backlash as the public focus shifted from the fetus to the woman. "The fundamentalists have lost the debate" in Portugal, said Helena Pinto, president of UMAR, a Portuguese abortion rights group. "Now the debate has shifted to the rights of women. Do we want to live in a country where women can be in jail for abortion?"
Mr. Bush and other conservatives have chipped away successfully at abortion rights, as Gloria Feldt notes in her new book, "The War on Choice." That's because their strategy has been to focus on procedures like so-called partial-birth abortion and on protecting fetal rights. The strategy succeeds because most Americans share Mr. Bush's aversion to abortion.
As do I.
Like most Americans, I find abortion a difficult issue, because a fetus seems much more than a lump of tissue but considerably less than a human being. Most of us are deeply uncomfortable with abortion, especially in the third trimester, but we still don't equate it with murder.
That's why it makes sense to try to reduce abortions by encouraging sex education and contraception. The conservative impulse to teach abstinence only, without promoting contraception, is probably one reason the U.S. has so many more abortions per capita than Canada or Britain.
Portugal's experience suggests that while many people are offended by abortion on demand, they might be even more troubled by criminalization of abortion.
"Forbidding abortion doesn't save anyone or anything," said Sonia Fertuzinhos, a member of the Portuguese Parliament. "It just gets women arrested and humiliated in the public arena."
The upshot is that many Portuguese seem to be both anti-abortion and pro-choice. They are morally uncomfortable with abortion, especially late in pregnancies, but they don't think the solution is to arrest young women for making agonizing personal choices to end their pregnancies.
As one sensible woman put it in her autobiography: "For me, abortion is a personal issue - between the mother, father and doctor." She added, "Abortion is not a presidential matter."
President Bush, listen to your mother?
Como no alcoolismo, também na mitomania, reconhecer que há um problema é meia solução.

A publicidade, paga por todos nós, contra as comemorações dos 30 anos da revolução dos cravos, já está na rua.
...era Gregório de Matos, famoso poeta do s. XVII, bom católico, desbragado moralista, membro do panteão literário luso-brasileiro. Não cito aqui para não dar mais polémica em tempo pascal. Mas recomendo a releitura, faz rimar a clerezia, como direi... com adjectivos finos. (sublimação, como vêem, parcialmente conseguida).
Ando eu a perder-me com blasfémias e recebo logo um sinal do Senhor. Ontem, ao fim do dia, perdi a minha carteira com todos os cartões e 200 euros lá dentro. Já estava desesperado e recebo um telefonema: um senhor encontrou a minha carteira. Vou busca-la e está imaculada. Tudo lá. Obrigado, muito obrigado, que sorte, uma pessoa honesta, etc., etc. Resposta: «Sabe, sou testemunha de Jeová. "Não roubarás", está na Bíblia». Bendito Jeová. Já lhe devo 200 euros.
Uma Santa Páscoa a todas as boas famílias portuguesas, plena de exemplos faris... Certos comentários do barnabé alimentam o lado obscuro da minha (já de si escassa) força. Vou ali mandar uma sublimadela e já venho.
Olhe, olhe, sim, sim, você aí, é consigo, é... Por acaso, não me sabe dizer onde é que uma pessoa pode sublimar aqui perto, não?
Para disparar sobre militares portugueses, e segundo o disposto na lei, o elemento da força inimiga deve preencher o modelo 437, com assinatura autenticada em notário e entregue na Secretaria-Geral do Ministério da Defesa da República Portuguesa. Junto com este formulário devem ser entregues os seguintes documentos: fotocópia do Bilhete de Identidade; 4 fotografias de tipo passe; declaração fiscal assinada pelo técnico oficial de contas; requerimento dirigido ao oficial de dia, em formato A4; declaração de registo de actividades militares; e recibo da compra da bala, rubricado pelo chefe do Estado-Maior das suas Forças Armadas ou seu representante. O sujeito passivo do ataque deve ser notificado por via postal (carta registada) no seu domicílio fiscal ou do seu representante, no prazo nunca inferior a 15 dias. Não sendo conhecido o domicílio fiscal do notificando, as notificações podem ser feitas por edital afixado no serviço de finanças da área da sua última residência.

Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Manuel Dias Loureiro: ex-ministro e actual Presidente do Congresso Nacional do PSD, é quadro superior do grupo BPN e presidente da Plêiade e da Ericsson Portugal. Será agora o novo presidente da Assembleia Geral do grupo Jerónimo Martins. Dias Loureiro só entrou na vida empresarial depois de deixar de ser ministro. Antes fora Governador Civil, deputado e advogado. Em 1996 era consultor jurídico. Uma subida fulgurante que merece aplauso. Sobretudo para um homem que consegue tomar conta de tantas coisas ao mesmo tempo. Ainda dizem que a política não dá experiência.
Cheguei à notícia por via do Causa Nossa.

Segundo uma sondagem do Jornal de Negócios, os portugueses querem ver substituídos seis ministros na próxima remodelação do Governo: Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Luís Filipe Pereira, Celeste Cardona, David Justino e Bagão Félix. Mas o dado mais engraçado é este: os eleitores do CDS/PP escolhem, como terceira prioridade para expulsão, Paulo Portas.

São cada vez melhores os textos que nos chegam sobre o dia da revolução. Que venham mais, que estamos a gostar. Deles será todo o espaço do Barnabé, no dia 25 de Abril. Mandem para o nosso e-mail, até dia 23 de Abril. Já sabem: mil caracteres e título. E, já agora, os cartazes que temos publicado estão disponíveis num álbum com link na coluna à esquerda.
Segundo o “Portugal Diário”, a testemunha que acusou Herman José não terá dito que tinha estado com ele no Carnaval (quando o humorista estava no Brasil), mas apenas que ele estava de máscara. O Ministério Público terá, assim, cometido um pequeno «erro de cálculo». No próximo Carnaval, já sei do que me vou mascarar: de João Guerra. Vai ser cá uma risota.
Uma posta de anteontem, publicada pelo Daniel, visava satiricamente a exteriorização ostensiva do martírio que nos últimos tempos tem (também) infectado o Ocidente. O emblema perfeito deste vitimismo é, claro, o filme de Mel Gibson. Mas, a bem dizer, ninguém duvida de que nos próximos dias lá tenhamos de passar por mais um enjôo do mesmo género, e agora agravado pelos clamores de que a Cristandade, a "nossa" civilização, está em perigo. Como é habitual, a caixa de comentários foi inundada por gente que se declarava ofendida, alguns deles com uma linguagem agressiva e escabrosa, outros apenas porque consideram que não se deve brincar com as crenças dos outros. É principamente a estes que me dirijo. Acho que vale a pena entender o que se passa aqui.
1. Não se deve brincar com as crenças dos outros? Eu acho que deve. A blogosfera, aliás, tem sido um meio poderoso de brincar com as crenças dos outros. Os blogues de direita escarnecem dos alternativos, dos pseudo-intelectuais e dos comunas. Os blogues de esquerda atacam os reaccionários, os belicistas e os homofóbicos. Nem sempre estes ataques são muito justos. Sendo eu anti-comunista, reconheço que culpar os velhinhos da Festa do "Avante!" pelos assassinatos em massa de Estaline é um pouco oblíquo. Mas a analogia também tem alguma razão de ser, e isso é o suficiente para que muita gente a utilize.
Zombar do cristianismo é que, por alguma razão, deixa as pessoas desconfortáveis. A "fé" é suposta ser coisa de um nível diferente. E talvez até o seja. Mas não se esqueçam que a "fé" só é distinta para quem a tem. Para mim que a não tenho, é uma crença igual às outras – apenas mais divertida e menos explorada em termos humorísticos. De resto, conheci comunistas que tinham uma veneração igualmente irracional pela URSS, o que nunca deteve ninguém de gozar com eles, bem pelo contrário.
2. Perguntam-me depois porque não faço aqui no blogue piadas com muçulmanos, negros ou homossexuais. Na verdade, já fiz piadas com muçulmanos, pelo que esta não conta. Por sinal a reacção até foi muito semelhante: não toques na fé dos outros, etc. Em relação a negros e homossexuais não faço piadas por razões que têm muito pouco a ver com o chamado "politicamente correcto". Não faço porque não estou disposto a contribuir para um preconceito que me indigna e enoja, e que campeia livremente na nossa sociedade.
Além disto, esta é uma comparação tão descabida que chega a ser patética. Onde está o último cristão a quem foi recusado o aluguer de uma casa no momento em que o viram de crucifixo ao pescoço? E quando foi a última vez que um católico foi expulso de casa dos pais ou do trabalho quando se descobriu que ele gostava de ir à missa aos domingos?
3. Sejamos sérios. Os cristãos não são em Portugal uma minoria ameaçada. Gozar com eles não é, como nos casos anteriores, um acto de cobardia. Gozar com o cristianismo pode custar caro. Custou um dos poucos assomos de censura na televisão do pós-25 de Abril (o célebre caso da "Última Ceia" de Herman José). E custa a lei não-escrita nas redacções, produtoras e televisões de que, com a religião, não se pode brincar. Tudo o resto, contudo, já é campo livre e explorado até da forma mais imbecil, repetitiva e mesquinha. Uma sitcom recente de Nicolau Breyner era inteiramente estruturada à volta do retrato grotesco de uma empregada negra. Os alentejanos são gozados todos os dias em horário nobre. (Devo dizer que isso não me chateia nada, mas quem julga que se trata de uma brincadeira inocente desengane-se: os meus alunos alentejanos, quando se apresentam no primeiro dia de aulas, provocam de imediato risos na restante turma.)
Poderíamos ficar aqui horas a dar exemplos. Em Portugal, quase toda a gente diz sem problemas: "és mesmo judeu" ou "és mesmo cigano", nos sentidos de cruel e ladrão ou mentiroso, respectivamente. O brasão de Évora ostenta as cabeças de um casal mouro, acabadas de cortar por um cristão.

Já se alguém o nota, cuidado!, trata-se de um chato e um hiper-politicamente correcto.
Mesmo aqui na blogosfera existiu, durante quase um ano, um blogue dos melhores e mais lidos chamado Mata-Mouros. Ninguém se chateou com isso. Os autores desse blogue fazem hoje parte do também excelente Blasfémias. Se algum dia tentarem uma verdadeira blasfémia, no sentido técnico do termo, aí sim teremos um verdadeiro escândalo.
4. Finalmente, diz-se que não se deve brincar com a igreja por uma questão de respeito para com os outros. Falemos então do respeito para com os outros. A Igreja em Portugal, na minha opinião, tem de o praticar bastante mais. Hoje em dia, o proselitismo religioso extravazou o espaço já de si generosíssimo que a lei lhe deu sem mais exigências. Nos media encontramos religiosos de todas as estirpes a fazerem a sua doutrinação. A Igreja Católica tem uma Universidade, paga também com dinheiro do Estado, e onde a liberdade de expressão não é a norma. Lobbies como a Opus Dei ou os Legionários de Cristo têm mais poder neste país (presidentes de bancos, ministros, até a segunda figura do estado) do que qualquer outro dos famigerados lobbies que preocupam tanta gente. Quando as inaugurações de edifícios públicos têm sempre de contar com a benzedura de um bispo; quando um jovem ateu ou agnóstico tem de ver símbolos religiosos em quase todas as escolas públicas; quando os religiosos acham que nada disto faz mal (mas faz sim; pelo menos aos dez por cento de não-católicos que são tão cidadãos como os outros), quem é afinal desrespeitado neste país?
6. As ideias das mais sérias às mais tontas, as instituições em geral e os estilos de vida todos pagam desde sempre a sua taxa à irrisão. Eis porque acho, recapitulando, que a religião não pode estar isenta desse preço: a) a fé não é uma crença diferente de outras; b) os cristãos não são uma minoria ameaçada; c) os católicos estão, de diversas formas, nos centros do poder. E mais ainda: d) a Igreja gosta de fazer de conta de que nada disto é verdade; e) quando se toca nestes assuntos há logo gente que fica pior do que estragada. Poder, dissimulação e empertigamento; terão algumas vez existido melhores condições para o humor?
Das duas uma. Ou se proíbe a sátira, o que sucedeu em Portugal de 1768 a 1794, com fracos resultados. Ou, caso contrário, a sátira vale para todos sem excepção. Falo de sátira mesmo, não de piadinhas simpáticas. Sátira dura, às vezes injusta, sempre higiénica. Não precisa de que toda a gente goste dela – o que é, aliás, a negação do humor. Não me venham com os Monty Python e A Vida de Brian, de que todos parecem tão desportivamente gostar hoje em dia. A Vida de Brian é excelente mas é de 1979. Trazer o filme à discussão é como dizer às mulheres para não usarem calças porque isso já houve uma que as vestiu nos anos 20. Precisa é de ser uma sátira sempre praticada, porque uma liberdade que não se usa é uma liberdade que se perde. E porque se levarmos este tabu a sério viramos um Irão católico – e chato.
Há uns meses, Pedro Namora acusou os amigos de Carlos Cruz de quererem pressionar a justiça, por jantarem na Costa da Caparica. Hoje, Namora manifestou-se em frente ao Tribunal da Relação contra a libertação de Jorge Ritto. Não tenho nada contra pressões legítimas e públicas sobre a justiça. Estamos em democracia e os juízes não estão fora dela. Só se deixa pressionar quem quer. A falta de coerência é que me irrita.
Num ano já houve mais baixas americanas no Iraque (só até Novembro do ano passado) do que nos primeiros três anos da guerra no Vietname.
Rumsfeld admite aumentar número de soldados no Iraque.
Interessante texto de Maria José Morgado sobre terrorismo e branqueamento de capitais. O combate ao terrorismo de que ninguém fala. Porque dele podem resultar “danos colaterais”.

No mesmo dia em que se assiste a combates com forças dos xiitas, em todo o Iraque, as tropas americanos atingiram uma mesquita sunita, matando 36 pessoas. Em apenas um ano os Estados Unidos estão a conseguir o que parecia impossível: unir xiitas e sunitas. Só faltam mesmo os curdos. Estão a ir muito bem, sim senhor.
Durão garante que «é absolutamente sincera a convicção social» do governo.
Título do Público
Manifestação de Pedro Namora em frente ao tribunal da relação de Lisboa. Espera… Em frente a quê? Não era proibido?

Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Santana Lopes prepara-se para começar a construir em Monsanto. Sendo eu favorável a que se criem condições para que mais pessoas usem o Parque Florestal de Monsanto como lugar de lazer, sinto a marca megalómana de Santana Lopes no projecto, o que poderá significar desflorestação do único grande espaço verde da cidade de Lisboa.
Não acho indispensável que toda a cidade tenha de ser vivida como “cidade”. Não acho, por outro lado, que seja viável manter uma parte de Lisboa isolada dos lisboetas. No equilíbrio destas duas coisas e na protecção intransigente da integridade do Parque, estará, provavelmente, a solução.
Sem dar grande opinião, proponho, por enquanto, a leitura, no link em baixo («Continue a ler "Monsanto"»), de um conjunto de opiniões de vários especialistas e interessados, recolhidas pelo “Público” (9 de Março). Cheguei ao artigo através do site do Gaia. Proponho, por fim, que se tente fazer, na caixa de comentários deste post, um debate fundamentado e, se possível, civilizado. A ver se baixa a adrenalina.
O Que Fazer com Monsanto?
Terça-feira, 09 de Março de 2004
Paisagistas, arquitectos e docentes advertem contra ocupações pesadas do parque mas advogam melhores acessibilidades, como um mono-rail. O campo de tiro é repetidamente condenado
João Gomes da Silva, paisagista
"É preciso estruturar o parque, não criar lotes"
"Há um problema estrutural em Monsanto que, face às tentativas de deslocar para ali novas funções, deveria ser tido em atenção. Não existe uma ideia de parque urbano, com uma unidade e relação com a cidade. O que se tem introduzido ou são medidas para tentar salvar Monsanto dos efeitos de uma urbanização perniciosa, ou acções pontuais para introduzir funções. Quando foi criado o parque, primeiro plantou-se de forma desequilibrada, como se fossem matas. Keil do Amaral fez depois um traçado viário e localizou várias funções, mas nunca chegou a haver a ideia de um parque urbano.
Monsanto é agora um bosque com uma função metropolitana, mas não há ainda esta perspectiva. Para se libertarem terrenos no centro da cidade, tenta-se deslocar funções para Monsanto, como se isso bastasse para ser útil. Esse erro de perspectiva tem sido sistemático. O que há a fazer é reconverter Monsanto num parque com características metropolitanas. Tem de ter acessibilidades francas à metrópole, tem que se determinar como é que as pessoas o visitam, tem que ter um certo grau de naturalidade e tem de ser organizado espacialmente. Estar a criar lotes não vai ajudar a dar unidade e condições de usufruto.
Uma mata por si só não chega para que Monsanto funcione como um espaço urbano. Há ali uma disfunção, faltam pontos de referência. Falta-lhe arquitectura da paisagem. Mas quando se começam a sobrepor funções e a criar células que vão ter uma gestão privada, concessionada, não se está a contribuir para uma unidade espacial para Monsanto. É urgente que se discuta como se vai estruturar. Neste momento há um problema que é o de se poder estar a impedir a regeneração, ao localizar no parque funções que vão acentuar o artificialismo inicial. O recado que daria ao presidente da câmara é este: 'Sim senhor, faça alguma coisa por Monsanto, mas com consistência."
Artur Lourenço, utente habitual de Monsanto
"Fora o campo de tiro, venham os corredores verdes"
Artur Lourenço, que nasceu e cresceu em Caselas, mesmo ao lado do parque, é um utilizador frequente de Monsanto, cujos percursos conhece bem, a pé ou de bicicleta. "O que é bonito é entrar dentro da mata. As pessoas têm receio e pensam que é perigoso, mas não é. As pessoas temem perder-se porque não há indicações". Este é um aspecto que Artur acha que deve ser melhorado.
Apesar de ser contra a instalação da Feira Popular ali, acha que recentemente se têm feito várias coisas positivas: o anfiteatro, as ciclovias. Mas é preciso mais para que as pessoas deixem de ir de carro para Monsanto. A solução não é novidade, diz: "São os corredores verdes de que fala há anos Ribeiro Telles, as ciclovias e uma infra-estrutura de transportes públicos com carreiras frequentes. Falta também regulamentar o trânsito, para proteger peões e ciclistas. Circular ali pode ser perigoso. Chega-se ao fim de uma ciclovia e não há uma passadeira. E os carros passam a toda a velocidade".
Para melhorar o parque, acrescenta, "não há muito mais a fazer, há é que tirar: o campo de tiro, em primeiro lugar, porque viola não uma mas todas as regras do parque. Limpar as matas também é muito positivo. E também se deviam tirar dali as antenas. O parque parece uma plantação de antenas".
Manuela Raposo Magalhães, paisagista e professora em Agronomia
"Não se faça de Monsanto um puzzle de guetos e concessões"
"Monsanto foi concebido como um pulmão verde, conceito hoje ultrapassado porque o que protege de facto é a existência de um contínuo natural que deve permear toda a cidade. Foi nesse sentido que se concebeu a Estrutura Ecológica de Lisboa, mas a câmara pouca atenção lhe dá. Quando, na década de 90, se pôs a hipótese de permitir construção na periferia, nas áreas viradas ao Tejo, coloquei essa questão ao professor SuKopp, da Universidade de Berlim, considerado o pai da ecologia urbana. Ele respondeu-me: 'Nunca deixem que isso aconteça porque do ponto de vista da biodiversidade a dimensão do parque é fundamental, há espécies que só vivem em espaços de grande dimensão'.
Monsanto passou a ser uma peça fundamental da Área Metropolitana de Lisboa [AML] e entre a linha de Cascais e de Sintra é indispensável que se mantenha a intercalação verde. O Parque de Monsanto é a peça de maior dimensão na estrutura ecológica da AML. Deixou de ser o Monte Santo de Lisboa para ser o Monte Santo da AML. Isso não quer dizer que o parque não possa receber mais equipamento. Mas há que evitar os regimes de concessão e os clubes privados que vão guetizar mais aquela área. Devia ser valorizado com percursos a pé e a cavalo, como já houve, de forma a ficar mais ligado à cidade. Um mono-rail permitiria uma outra ligação e ao longo desse percurso podia haver alguns equipamentos de apoio - caminhos de bicicleta, salas de chá, equipamentos leves, onde as pessoas possam parar para descansar, equipamentos de recreio mais activos, como os cavalos. Mas é preciso que não se faça um puzzle de guetos e áreas concessionadas."
Fernando Mascarenhas, responsável pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna
"Que não se destrua o património"
"A discussão sobre o futuro do Parque Florestal de Monsanto tem carácter de urgência, porque se não se consegue travar já a instalação de equipamentos como a Feira Popular vamos deparar-nos com um facto consumado. Isso é de travar porque Monsanto ainda é um parque florestal, não é um parque urbano. Não tenho objecção nenhuma a que se procure que seja mais usufruído. Mas esse usufruto tem limites. É como o património: as coisas só fazem sentido se se puderem fruir mas, se se fruírem muito, destroem-se. Portanto, há que manter um equilíbrio difícil e que tem de estar sempre a ser posto em questão e analisado.
Monsanto é um património frágil e o que precisa é de equipamentos leves e dispersos que não tragam grandes afluxos de pessoas em simultâneo. Isto em termos gerais. Depois, temos também um interesse particular [da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna]. Pela nossa parte, nesta zona tudo o que seja haver menos trânsito, menos movimento, implica que as estruturas são menos afectadas. Aqui há um património físico que é monumento nacional a preservar. Não vejo que possa agradar a ninguém que viva nesta zona do Calhau ter uma parte de uma Feira Popular ao pé de casa. No parque do Alvito, as mesmas razões que nos assistem a nós, assistirão às pessoas que vivem para essas bandas. Além disso, há o problema dos estacionamentos que seria preciso criar e que iriam destruir um pouco mais de Monsanto. Monsanto já foi muito ratado."
Filomena Silvano, socióloga
"O triste produto da nossa ignorância"
"Antes de tudo, há a questão dos estilos de vida da população citadina, que não integram o usufruto dos espaços verdes. Isso só acontece para aquela classe média que é um pouquinho cosmopolita e importou esses gostos. Mas não há em Lisboa espaços verdes como em Londres ou Nova Iorque. O mais recente, o Parque da Bela Vista, que é bonito, ninguém vai lá.
Um argumento plausível para o afastamento dos lisboetas refere-se à sua experiência urbana curta, nomeadamente em termos quantitativos, e a uma memória rural que não teve a ver com o lazer, o ócio ou o desfrute de olhar a natureza e que tem uma conotação desagradável, de violência, pobreza, humilhação. Mas é mais seguro dizer que o que falta são os hábitos de vida que passam pelas relações prazerosas com o mundo. Não temos isso na nossa burguesia, que na sua maioria não é culta e que não vai a um parque florestal da mesma forma que não vai a um museu. Há hoje um estilo muito novo-rico, posterior à revolução, na ocupação dos tempos livres, marcado por um consumo que nem sequer é de luxo, porque ele está ausente dos centros comerciais. É triste, é o produto da nossa ignorância.
Há que criar momentos atractivos para essa parte da classe média que procura estilos de vida que encontra no estrangeiro, mas que aqui ainda não tem condições de reproduzir. A Expo, por exemplo, foi um exemplo do que fazer. Talvez vá aos poucos, mas para que haja uma mudança tem que haver um pacote mais geral para criar um público para este tipo específico de consumo cultural que, sobretudo, tem a ver com o olhar, com a observação, com o silêncio."
João Nunes, paisagista
"Se começarmos a cortar a estrutura, estamos a destrui-la"
João Nunes, autor do Parque do Tejo, na zona da Expo, está muito preocupado com os anúncios recentes para Monsanto. Acha que revelam "uma visão de que o parque é uma plataforma vazia de funções, que pode albergar tudo o que a cada momento se queira lá pôr". Sublinha uma contradição: "Este executivo até tem aparecido com preocupações quanto aos espaços verdes da cidade e criou um Prémio Valmor de arquitectura paisagista, mas depois não lhe dá o devido valor".
A instalação da feira em Monsanto é "uma resposta pragmática a uma situação complexa, mas, às vezes, vale mais esperar e procurar melhores locais. Haverá outros sítios para instalar a feira, o aterro de Algés ou outros", diz. "Monsanto é uma realidade muito ambígua e artificial mas esconde-se por detrás de uma aparência quase espontânea." O parque vive "uma relação de confronto aberto com a cidade, mesmo em relação ao trânsito, apesar de se terem feito esforços para que não haja invasões".
"Se olharmos para Monsanto como uma área expectante para instalação de equipamentos vagamente lúdicos e começarmos a cortar essa estrutura, estamos a destrui-la", diz. "A nível técnico, essa consciência existe na câmara, mas há um corte horizontal gravíssimo entre a decisão política e a alimentação técnica".
João Nunes critica em particular a ideia de instalar a feira popular numa área tão sensível como o Parque do Calhau, de elevadíssima sensibilidade ecológica e baixa capacidade de carga. Quanto ao parque do Alvito, destaca que o que lá está "é uma obra de autor [Keil do Amaral], não é uma obra anónima, sem intenção", onde se possa instalar aquele equipamento. Para melhorar a fruição, João Nunes acha que o mono-rail é uma hipótese. "Não é muito difícil imaginarmos ligações mais directas não só com a frente que contacta mais directamente com a cidade, mas também com a Tapada da Ajuda e o pólo universitário".
Fernando Catarino, biólogo e professor da Faculdade de Ciências
"Sou completamente contra a Feira Popular no Alvito"
Monsanto foi durante muitos anos para Fernando Catarino "o laboratório vivo" onde deu muitas aulas. O parque já foi "o local de maior diversidade de orquídeas no país", mas a própria evolução do coberto vegetal, fechado pelos pinheiros, tem reduzido o aparecimento destas espécies. A mão do homem também já fez estragos no parque que Fernando Catarino viu nascer. A instalação do clube de tiro foi uma das maiores afrontas: "É um perigo real e representa uma enorme poluição sonora, além da poluição pelo chumbo, que algumas pessoas recolhiam para vender a peso".
"Sou completamente contra a instalação da Feira Popular no Alvito. E não acredito que a roda lá caiba. E ainda haverá mercado para a Feira Popular? Acho que é um bocado como a revista, acabou. As pessoas querem outras coisas".
Cita exemplos positivos do que já tem sido feito: "A reabilitação dos moinhos e do Parque da Serafina, tal como o Parque Ecológico, que tem uma procura espantosa. Só não concordei com a introdução dos esquilos, uma coisa bacoca e desnecessária. São muito bonitinhos, mas uns grandes predadores, omnívoros, que comem os ninhos dos pássaros e os rebentos das árvores".
A actual operação de reflorestação acha-a demasiado intensa: "É muito densa e rápida, mas mesmo que morram 50 por cento ainda ficam muitas árvores". Colocar um hipódromo em Monsanto parece-lhe uma opção perigosa, caso a localização não seja bem ponderada.
Pitum Keil do Amaral, arquitecto
"Qualquer dia Monsanto é uma manta de retalhos"
"Desde que nasceu, Monsanto foi cobiçado. Já no tempo do meu pai havia lutas com a Marinha. Aquilo é uma tentação. E essa tendência manteve-se, o que é lamentável", lembra Pitum Keil do Amaral, filho de Francisco Keil do Amaral, autor do traçado viário e dos equipamentos que nos anos 50/60 foram introduzidos no parque. "A ideia de lá pôr uma Feira Popular é um disparate. Cada vez mais há a ideia de que é preciso rentabilizar tudo e é nesse espírito que vem também a Feira Popular. Se qualquer dia se lembrarem que a madeira do parque dá dinheiro ainda deitam tudo abaixo. Qualquer dia é uma manta de retalhos", diz.
Questionado sobre se alguma vez a Câmara de Lisboa o contactou para decidir sobre projectos que incidam sobre o legado de Francisco Keil do Amaral, que tem sofrido diversas alterações, responde: "Não é que fosse uma obrigação, mas não. Excepto uma vez que um vereador do Desporto me procurou para falar de um projecto para a piscina do Campo Grande, outra obra do meu pai. Como o que eu disse não agradou, nunca mais me disseram nada".
José Tudella, arquitecto
"São precisos mais pontos de interesse"
O arquitecto José Tudella, responsável do urbanismo municipal durante décadas, expressa uma posição oposta à dos conservacionistas. Para ele, Monsanto deve ser ocupado por muito mais entidades. Foi ele, de resto, quem escolheu o local para lá instalar o CIF (Clube Internacional de Futebol), vindo do Campo Grande. "Quem é que vai a Monsanto? Ninguém! Não se pode lá ir. É grande demais, uma área sem fim, deserta, acidentada e sem ligações à cidade", diz. O primeiro projecto de um parque para a cidade, lembra, situava-se nas freguesias de Carnide e Benfica e servia os concelhos de Oeiras, Lisboa e Loures. "Mas, em vez disso, escolheu-se Monsanto e que fosse apenas a cidade de Lisboa a custeá-lo".
"O único sítio possível para estabelecer boas ligações entre Monsanto e a cidade é Sete Rios, onde há transportes de massas, com o comboio da Linha de Sintra e o Metropolitano. Por isso, a Feira Popular, que precisa de grandes acessibilidades, deve ser construída deste lado e não na zona escolhida: o Parque do Alvito, que é o mais inacessível. A feira, que poderia ser servida por um teleférico para o Metropolitano, que poderia ter uma roda gigante ou uma montanha russa com iluminação nocturna, seria um chamariz para Monsanto, que precisa de mais pontos de interesse".
José Tudella propõe que se multiplique a instalação em Monsanto de clubes ou associações culturais e desportivas lisboetas ligadas à natureza, que façam a manutenção dos espaços que lhes forem atribuídos e tragam mais frequentadores. "Mas há que planear; não é chegar ali e distribuir milho aos pombos. Monsanto não é para derreter", diz.
Já chegaram à redacção do Barnabé vários textos, para serem publicados no dia 25 de Abril. Queremos mais. Recordamos que no dia 25 vamos dar todo o espaço do Barnabé aos leitores. Enviem textos (com mil caracteres no máximo) sobre a vossa experiência pessoal desse dia. Também podem fantasiar um pouco. Pode até ser uma história vivida por outra pessoa. A ideia é recordar o dia visto por muitos olhos. Mandem os textos para o nosso e-mail, até dia 23 de Abril. Quanto mais cedo melhor.

Os pequenos derrubam os grandes, é o mundo às avessas, toda a gente pode ganhar. Desde que a Liga dos Campeões se voltou a decidir em eliminatórias, o futebol regressou. Primeiro foi o Porto a eliminar o milionário Manchester, agora o Mónaco eliminou a equipa publicitária do Real Madrid. Inteiramente justo porque, como se diz em francês, ils en voulaient. Quiseram, pois: tiveram vontade, talento e muito mais pernas. E tiveram Morientes, o tal que o povo queria e o Madrid dos dirigentes não. E este Giuly da foto, um fantástico jogador de explosão. Um golo de bandeira, um calcanhar de bilhar. O Príncipe até se passou. Olé!
O governo fez publicar hoje em diversos jornais um anúncio de página inteira com as suas realizações. "Muito trabalho feito. E mais vamos fazer. Um Governo de Palavra. Dois anos de governo em quatro de mandato". Graficamente estes anúncios são a versão very british dos reclames de Pedro Santana Lopes. Em termos de conteúdo são uma desilusão. Muitas das medidas são compromissos anteriores [participação de forças portuguesas nas operações internacionais em Timor Leste, Kosovo]; sem efeitos práticos [combate à fraude e evasão fiscal]; meramente reactivas, nomeadamente a grandes disparates do mesmo governo [livro branco dos incêndios e programa de meios de combate a fogos florestais]; vagas ou omissas [a quantidade de entradas que dizem apenas "revisão" ou "alteração" sem explicar nada sobre o conteúdo prático dessas]; em usurpação de mandato [participação na guerra do Iraque]; ínfimas quando comparadas com realizações anteriores [praticamente todas as medidas dos Ministérios da Cultura e da Ciência]. Veja-se a propósito deste último ponto como o Ministério da Cultura tem o descaramento de iniciar a sua folha de serviços com a realização da Feira do Livro de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe (que se fazem já há anos) e a preparação (!) das feiras de Luanda e Maputo. Quando comparadas com as presenças no Salon du Livre de Paris e na Feira de Frankfurt não se pediria menos do que o ataque ao mercado britânico, acessível mesmo em tempo de crise.
Aquele anúncio é, em termos gerais, o contrário de informação. Mesmo a sugestão final ["Esta é apenas uma amostra das medidas tomadas pelo Governo até Abril de 2004. Para as conhecer todas aceda a www.portugal.gov.pt"] é vazia de sentido prático, uma vez que o referido link remete não para uma versão estendida do documento, como se esperaria, mas para o portal de assuntos correntes do executivo.
Em suma: não sobra quase nada de positivo. É de pasmar então, que o governo ainda ocupe o resto com medidas que são meramente administrativas. Isto já para não falar no despropositado "Dois anos de Governo em Quatro de Mandato" – eh lá, que enorme conquista! Tal como com o Presidente da Câmara de Lisboa que pretendem emular numa versão mais oficial, nós lemos e ficamos naquela: mas será que esta gente pretende que lhes fiquemos gratos por não terem tirado os militares de Timor-Leste e não terem cortado a Feira do Livro da Cidade da Praia?
O Iraque está, desde há dois dias, a ferro e fogo. À beira de uma guerra civil. De que se fala em Portugal? Dos ferimentos ligeiros dos nossos GNR’s.
Bagão Félix diz no Público que a pobreza que existe em Portugal «não é tanto a de recursos monetários» mas a que resulta do facto de «as pessoas não terem oportunidades, ou porque não têm emprego, ou vivem sozinhas ou têm uma iliteracia elevada, ou estão numa situação de licença profissional.»
Cavaco com "muita relutância" em voltar à política.

Na mesma entrevista, Sharon reiterou a ameaça de assassinar Arafat, confirmou a continuação da construção do muro e afirmou que, da Cisjordânia, só sairão 4 colonatos. E acha que talvez assim os palestinianos combatam o terrorismo. Só se for para se distinguirem de Sharon.

Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
Já há no CDS quem se queira fundir com o PSD. No PSD não falta quem esteja fundido com a ideia.
“Vamos governar Portugal” . Manuel Monteiro
Cunha Rodrigues diz que excesso de prisão preventiva é culpa dos políticos.
Os nossos comentadores de direita já eram previsíveis. Mas a reacção histérica que acompanhou a divulgação da biografia do nosso Primeiro-ministro demonstra que andam a perder qualidades. Desde logo, porque 95% do texto é da responsabilidade do próprio governo – as reclamações devem ser então, endereçadas a quem de direito. Em segundo lugar, porque não se criticava a Durão Barroso o ter sido do MRPP. Que todos os nossos problemas fossem esse. O que se criticava era o escamotear desse facto. Qualquer pessoa, menos as tristes almas que têm por função a defesa da imaculada honra do nosso Primeiro-ministro, veria isso.
Para mim, contudo, há uma passagem que acho pior ainda: é o chamar-se à ditadura "o regime anterior ao 25 de Abril de 1974". Suponho que por esta lógica o nazismo se passe a chamar "o regime alemão entre 1933 e 1945".
Para comemorar os 30 anos do 25 de Abril, o Barnabé quer, no dia 25, dar todo o seu espaço aos seus leitores. O que se pede é o seguinte: que nos enviem textos com menos de mil caracteres (condição obrigatória) e com a vossa experiência pessoal nesse dia. A história que nos contarem não tem de ser exacta, pode ser real ou mais ou menos fantasiada, pode ser a sua ou de outro (se tem menos de 30 anos só pode mesmo ser de outro). Fundamental é que tenha título pequeno e o tamanho pedido. A ideia é recordar o dia, vendo-o por muitos olhos. Mandem os textos para o nosso e-mail, até dia 23 de Abril. Quanto mais cedo, melhor.
Vejam a biografia de Durão Barroso, no portal do governo: «Actividade Política: Iniciou a actividade política muito jovem, ainda durante o regime anterior ao 25 de Abril de 1974; Militante do Partido Social Democrata desde Dezembro de 1980 (...)»
Numa coluna que se chama "Quentes & Boas", esse jornal de referência que dá pelo nome de “24 horas” acusa o Bloco de Esquerda de ser racista e gozar com a altura de Marques Mendes e a pronúncia de Carvalhas. De quem estão a falar? Do Barnabé e, no caso, do autor destas linhas, dizendo que sou «um dos mais afoitos meninos do Bloco». O Vitorino foi despromovido a Marques Mendes (era sobre o primeiro o meu texto). E o Celso foi promovido (ele achará uma despromoção) a "menino do Bloco" (é dele o texto sobre Carvalhas). E para que não houvesse dúvidas sobre a autoria do Barnabé, o “24 horas” ilustra o texto com uma fotografia de Francisco Louçã e nunca dizendo o nome do blogue nem o endereço, não vá alguém querer confirmar o que ali se “escreve”. Ou seja, nem ganhamos nada com a publicidade.
A coluna é assinada por uma tal de Gracinha de Sousa Botelho. Por isso e pelo título da coluna, interessou-me no “texto” outra coisa: é que a senhora chama-me «queriducho Dani». Fiquei entusiasmado. Mas logo me tiraram as esperanças: esta coluna é escrita pelos editores e directores do jornal. O "24 horas" é como os chats, nunca conseguimos ter a certeza de nada e há gajos a fazerem-se passar por gajas. Indecente!
Diz depois o Gracinho que sou pago para escrever nos blogues. Meu caro, lamento desiludi-lo: a minha conta bancária é mais careca que Sebastião Salgado (ops, lá estou eu outra vez a ser racista). Ao contrário de si, a mim ninguém me paga para escrever piadinhas. Ao contrário de si, assino, em todo o lado, os meus textos com o meu nome. Ao contrário de si, não mando recados, nem faço favores políticos escondido no anonimato. Ao contrário de si, nunca tive de me envergonhar de nada que escrevesse, ao ponto de não o assinar. Ao contrário de si, não faço de tudo para ter ordenado ao fim do mês. Como vê, pior partido não há.

Deve haver poucas profissões mais aborrecidas do que esta: chega hoje e vai logo jantar com o Chirac, amanhã almoça com o Raffarin e é recebida pelos chatos dos senadores. A única coisa divertida do programa da visita da rainha de Inglaterra a França é o passeio com Delanoë, o presidente da câmara de Paris. Comemoram-se 100 anos da última "Entente cordiale" anglo-francesa. Segundo sondagem publicada no Libération (número especial em conjunto com o Guardian), ingleses e franceses continuam a não confiar muito uns nos outros. Como dizia um francês que conheci um dia, rapaz para mais de cinco séculos de sangue nobre nas veias (chama-se Bóris, passou a infância na Roménia comunista com os pais, que foram para lá por opção ideológica): os franceses podem fazer a guerra aos alemães, mas o inimigo continua a ser a Inglaterra.



Com a colaboração de João André, aqui vai o link para o download do vídeo, em versão Real Player. Será mais uma piada de campanha de Bush, como aquela das armas na Sala Oval? Como sabem, a má publicidade não existe. E para Bush, esta é a única máxima que um publicitário pode usar.
No mesmo espaço, pode ler o que se vai escrevendo sobre os 30 anos do 25 da Abril na Imprensa e nos blogues. Uma ideia que nasceu nas cabecinhas do Grão de Areia, foi executada e pensada pelo indispensável Paulo Querido e contou com umas colaborações do Barnabé, do Blogue de Esquerda e da Internet para as domésticas. Mas já muitos outros aderiram. Nome da página: Aqui Posto de Comando.
Para quem tem blogues: divulga esta iniciativa e coloca nos teus posts o trackback URL do Posto de Comando (http://grupos.com.pt/s/mt-tb.cgi/8) ou linka palavras dos teus posts sobre o 25 de Abril para o Posto de Comando, para que eles possam aparecer nesta página.

Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

«Sou o último romântico do 25 de Abril», Mota Amaral ao Expresso
Mota Amaral era deputado à Assembleia Nacional no dia 24 de Abril de 1974. Fizera parte da Ala Liberal, mas não seguiu os seus companheiros quando estes renunciaram aos seus mandatos, em 1973. Ele e Correia da Cunha não só ficaram na Assembleia como foram, já sem a companhia de Sá Carneiro e Pinto Balsemão, candidatos pela União Nacional à Assembleia Nacional. Foram eleitos e, no dia 24 de Abril, Mota Amaral era um dos deputados eleitos por uma farsa eleitoral.
Não estive na festa do Bloco de Esquerda e por isso não ouvi Miguel Portas e Fausto Berttinotti, secretário-geral da Refundação Comunista Italiana. O Público diz que ambos defendem a revolução contra a globalização capitalista. Gostava de saber o que quer dizer esta palavra neste contexto e, já agora, qual o seu programa.


Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
No início, como sempre em história, era o anacronismo (e no fim também). Ontem à noite, óptimo documentário no canal franco-alemão Arte sobre as origens do cristianismo.
Autores: Jérôme Prieur e Gérard Mordillat. Interessante para qualquer pessoa, um regalo para quem gosta de história — falo de história bem feita, não das patranhas sensacionalistas que nos são servidas tantas vezes com este nome. A forma da montagem é original: o programa consiste numa sucessão de depoimentos, sem narrador, e as questões abordadas vão avançando apenas pela arte de bem encadear os testemunhos. As únicas, esporádicas, imagens que ilustram os depoimentos mostram livros e manuscritos com os textos bíblicos. Tudo esteticamente despojado, sóbrio e eficiente. Falam exegetas de tradição católica, protestante, judaica. Há essencialmente um trabalho de interpretação crítica a partir das fontes existentes, não propriamente uma discussão teológica. O que não quer dizer que a interpretação crítica não tenha consequências teológicas: o dogma de Maria sempre virgem imaculada, por exemplo, sai muito mal tratado dos dois primeiros episódios, e Tiago, irmão de Jesus, aparece como um dos personagens históricos fundamentais entre os primeiros cristãos. O ponto de vista adoptado é o da exegese histórica dos textos e o objectivo do programa é dar ao espectador um conjunto coerente de informação, suficientemente aprofundado (talvez aqui também a sua principal fraqueza: não nos são mostradas as divergências existentes entre os especialistas). Eis um exemplo de como se pode aprofundar um tema de história em televisão, sem as imagens do costume, sem a música de fundo sempre igual e sem monotonia. E de como se pode falar das fontes, argumentando com elas em favor da demonstração, explicando tambem os seus limites, o que elas não permitem afirmar. Os dois primeiros episódios colocaram as seguintes questões: como se passou do anúncio feito por Jesus do Reino de Deus iminente à Igreja temporal? Podemos dizer que Jesus fundou a Igreja cristã? Como foi gerida a herança de Jesus entre os seus seguidores nas primeiras décadas após a sua morte? Nesta herança, qual o papel de Pedro, Paulo, Tiago e, através deste, da família de Jesus? Fartei-me de aprender. Continua na próxima sexta e sábado, e na sexta e sábado seguintes, num total de dez episódios.
Colin Powell, sobre as provas da existência de armas de destruição massiva que mostrou nas Nações Unidas: «Now it appears not to be the case that it was that solid».
...Saramago aceita a declaração de tréguas de Durão Barroso.
Só que o problema dele tinha dez anos. O nosso tem dois.
«PCP quer Odete Santos na Europa».

Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Sharon põe a possibilidade de mandar matar Arafat. Bush está contra.
«Nunca vendi um cartucho»
Pierre Falcone, traficante de armas com mandato de captura internacional, amigo francês de José Eduardo dos Santos e diplomata de Angola na UNESCO (com imunidade), ao Expresso.
Segundo o Expresso, os fiscais da Segurança Social desconheciam que a “Santa da Ladeira” albergava crianças no Santuário, sabe-se agora que de forma ilegal. Não vêem televisão? Foram várias as reportagens televisivas (na RTP e na SIC) que falaram das ditas crianças nos últimos quatro anos.
PS: Entretanto, Seguro escreveu aos deputados do PS a desmentir o Barnabé (e o "Público"). Afinal mudou de ideias e a legalização do aborto é uma prioridade.
Sobre as razões da libertação de Jorge Ritto por erros processuais na atribuição do caso ao juiz Rui Teixeira, repito aqui o que aqui já escrevi inúmeras vezes (sempre com o protesto dos indignados de serviço) nos últimos seis meses: sem rigor, o processo da Casa Pia iria ter um triste fim, com a suspeita espalhada por todo o lado e com um processo desfeito. A histeria colectiva e os gritos populistas e justiceiros ajudaram à ligeireza com que tudo isto foi investigado e construído. O resultado está à vista. O processo da Casa Pia parece estar cada vez mais condenado. Quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos. Os que forem culpados provavelmente irão enviar os devidos agradecimentos ao Ministério Público, a alguns dos juízes, a grande parte da comunicação social e aos profissionais de boas intenções e marchas brancas. Os inocentes, provavelmente, carregarão a suspeita toda a vida, sem poderem pedir contas a ninguém. As vítimas, em nome das quais se disseram e fizeram tantos disparates, nunca mais acreditarão na justiça. Que nos vá servindo de lição.
Leiam isto e isto e tentem descobrir as diferenças. Vai ser difícil.
Desde os seus tempos de escriba do “Voz do Povo”, José Manuel Fernandes nunca foi muito dado a ter ideias de sua lavra. Sempre preferiu a segurança da propaganda. Nada mudou. Nos tempos que correm, o ideólogo José Pacheco Pereira dá a linha e, meses depois, o agitador das massas, José Manuel Fernandes, reproduz as directivas, em versão reduzida para agit-prop.
«O que mais me preocupa é que foi destruída, em pouco tempo, aquela excepcional empatia que havia entre os portugueses e a selecção nacional»
Jorge Nuno Pinto da Costa

Alguns maus portugueses ainda duvidam da vocação reformista deste governo. Pois que saibam as almas descrentes: o preço das viagens de táxi vai ser reformado, o do pão também. E tudo isto graças a uma outra grande reforma: a liberalização do preço da gasolina. Há que dar a mão à palmatória. E olhem que vai doer.


Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.
"A invasão [do Iraque] não terá sido legítima mas também não foi ilegítima."
Fernando Gil, ao Jornal 2
Uma das coisas de que os brasileiros se gloriam por contraste com, principalmente, os EUA, é o facto de as diferenças raciais no seu país serem mais matizadas: "Para os americanos, branco é branco / preto é preto / e a mulata não é tal", como cantava Caetano Veloso. E é precisamente por isso que eu estranho que Da Cor do Pecado [passa na Sic; baseio os meus comentários numa peça do Correio do Brasil de dia 25/3] tenha sido promovida no Brasil como sendo a primeira telenovela de protagonista negra. O péssimo título já vem nas piores tradições católicas, portuguesas e brasileiras, evocando a suposta lascívia pecaminosa dos negros. E, já agora, apresentar a actriz Taís Araújo (que é descendente de africanos mas também de portugueses e austríacos) como negra só pode servir para propagandear progressos que ainda não se fizeram. A mulata já não é a tal? Os meus amigos e parentes brasileiros que me desculpem, mas no dia em que a protagonista fôr negra como os negros de Cidade de Deus os elogios serão mais merecidos.
Lille parecia hoje uma cidade mediterrânica. Era quase uma Génova. (é tudo ao contrário neste filme publicitário que eu realizei: aí no sul são becos de sombra e as pessoas a fugirem do sol; e cá no norte é o pessoal espojado mesmo como lagartos no chão do grande pátio; e os meus alunos, quando lhes confio inquietações apocalípticas sobre o clima, gozam comigo)
Estamos a sair, se é que não saímos já, do longo túnel. Tornámo-nos todos adoradores do rei-sol. Nos dias que vêm aí (que se espera que continuem a vir, mas sem dar demasiado estrilho para não estragar tudo), a disponibilidade da rua é total. Para acolher cada raio de luz e de calor, cada bocadinho na esplanada, cada imperial de preço proibitivo - e é tudo um sorriso beato voltado para o ar. Os canais cinzentos do Sena tornam-se estuários do Tejo. Patins, bicicletas e adereços do circo vão para os parques. Vestidos vaporosos vão para os olhos. Até a primeira vaga dos turistas-praga da Place du Tertre se atura. Aqui chegou a Primavera com o seu exibicionismo bom.
«Desarmar o Iraque é um objectivo essencial». Durão Barroso, 19 de Março de 2003.
«Hoje, a defesa da paz passa pelo desarmamento do Iraque». Durão Barroso, 27 de Março de 2003
«A verdade nua e crua é esta: a paz passa pelo desarmamento do Iraque. Esta é a vontade unânime da comunidade internacional: o desarmamento do Iraque.» Durão Barroso, 19 de Março de 2003
«A origem do actual conflito iraquiano é inquestionável: a recusa de Saddam Hussein cumprir 17 resoluções das Nações Unidas que, desde 1991, exigem o desmantelamento incondicional, total e efectivo do arsenal de armas de destruição massiça». Martins da Cruz, 27 de Março de 2003
«Quanto à questão das armas de destruição massiça, que nunca construíram – sejamos sérios! – o fundamento ou a causa principal da nossa argumentação…». Durão Barroso, 11 de Outubro de 2003
«Repito: as armas de destruição massiça não foram a principal razão para a defesa da intervenção do Iraque» Teresa Gouveia, hoje

Ontem a TVI lá arranjou mais um desgraçado meio enlouquecido a viver numa gruta para adornar o seu jornal. É isto quase todas as semanas. Terão um espeleólogo só para estas coisas?
raiz - a boa notícia
tronco - a matéria
ramos - os diferentes discursos
varas - a repreensão dos vícios
folhas - as palavras que vestem os discursos
flores - as sentenças morais
frutos - a finalidade

Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Um inquérito do Ministério da Educação que anda pelas escolas pergunta às crianças se são:
Portuguesas
Europeias
Africanas
Ciganas
Brasileiras
Que os portugueses não são europeus, já desconfiávamos. Agora ficamos a saber que os ciganos não são nem europeus nem portugueses. De pequenino se conhece o destino.