abril 30, 2004

A frase

Diana: "Ó pai, eu quero a Galp".

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 30 abril 19:57 | Comentários (10)

O carteiro não tem culpa, é a sua profissão

Pacheco Pereira recorre ao argumento entaladinho ("então-falou-disto-mas-sobre-aquilo-ficou-caladinho") para acusar o Barnabé de ter uma "memória elástica". A razão: ter reproduzido uma fotografia de Durão Barroso nos tempos do MRPP (que por acaso até veio da Visão) e "e esquecer-se do passado colectivo das organizações que lhe são próximas, em particular o Bloco de Esquerda".

Respondo com uma história. Uma vez eu e os meus irmãos pedimos ao meu pai para irmos todos ao funeral de um autor importante que nós admirávamos lá em casa. A resposta do meu pai foi a seguinte: "Para que hei-de eu ir ao funeral de fulano? Ele também não vai ao meu!".

Da mesma forma, também eu só comentarei "em particular" o passado colectivo da UDP e do PSR quando Louçã e Fazenda se pronunciarem "em particular" sobre as postas do Barnabé. Aquele passado não é o meu, comentá-lo-ei eventualmente, mas não o farei a pedido.

Acho que toda a gente entende uma coisa tão simples quanto esta: nós não somos nem deixamos de ser "próximos do BE". Um de nós – o Daniel – é militante do BE. Os outros quatro são de esquerda. Isto certamente faz de nós mais próximos dos partidos da oposição do que do PSD/PP, pelo menos tanto como faz a oposição estar mais próxima do Barnabé do que do Abrupto. Apoiamos mais vezes a oposição do que o governo. Sei que há gente que acha isto estranho – mas deve ser porque leram demasiado António Barreto.

Ou seja: as perguntas sobre o passado colectivo "em particular" do BE devem ser endereçadas a quem de direito. Mas além disso, devo acrescentar ainda o seguinte: não tem o mínimo cabimento acusar o Barnabé de "memória elástica".

Publicámos aqui cartazes revolucionários de quase todos os quadrantes políticos (incluindo os desses partidos) sem preocupações de branqueamento ou embelezamento algumas. Está aqui o Álbum, é só comprovar. Exceptuando os cartazes anarquistas (cof cof cof) que envelheceram melhor do que o vinho do Porto, todos eram igualmente ingénuos / datados / comoventes / caricatos.

Naquilo que diz respeito aos nossos curtos passados também falámos todos. Aquele que tem mais vida partidária – o Daniel, mais uma vez – já escreveu várias vezes sobre a sua vida no PCP. Só faltou um – o Celso – que ainda nos deve um texto sobre o ponto de vista do miúdo retornado de Moçambique nos anos 70.

Pacheco Pereira foi aqui uma espécie de carteiro. Só que bateu duas vezes na porta errada.

Publicado por ruitavares em sexta-feira 30 abril 19:08 | Comentários (14)

Le non passage à l'acte

Há pouco, como me acontece regularmente, cruzei-me com Fernando Gil na biblioteca da minha escola. Apeteceu-me lançar-lhe um sonoro: -"Então?!", como quem lhe pede contas pelos seus guerreiros impasses. Mas, assim como eu me cruzei com ele, ele não se cruzou comigo. Não me conhece, ou então apenas de me ver na biblioteca. Voltei-lhe silenciosamente as costas e regressei aos meus próprios impasses - que são grandes mas não são guerreiros.

Publicado por andrebelo em sexta-feira 30 abril 16:21 | Comentários (2)

Infâmia

Na prisão de Abu Gharb, onde os torcionários de Saddam operavam a seu bel-prazer, soldados americanos sujeitaram prisioneiros iraquianos a humilhações e torturas com requintes de sadismo. O caso, tornado público pelo programa 60 Minutos da CBS, está a ser investigado pelas autoridades militares norte-americanas e os abusadores irão ser levados a tribunal militar. "Fomos ao Iraque para impedir estas coisas, e aqui estão elas a acontecer debaixo da nossa tutela", comentou um antigo oficial dos Marines que fez parte da equipa que conduziu o inquérito. Isto ainda não é a versão iraquiana do massacre de My Lay - mas algo me diz que ainda lá chegaremos.

Publicado por pedrooliveira em sexta-feira 30 abril 14:47 | Comentários (15)

Sempre a facturar


Negócio do Ministério da saúde com a Vodafone: imagem de Luís Branco para Grão de Areia e Barnabé.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 30 abril 11:51 | Comentários (7)

O mundo às avessas II

Não há crise nem recessão nenhuma: segundo o Público "o resultado líquido global dos quatro maiores bancos privados portugueses cresceu 14,82 por cento no primeiro trimestre deste ano".

Publicado por ruitavares em sexta-feira 30 abril 11:35 | Comentários (17)

O mundo às avessas

Telmo Correia acabou de acusar Francisco Louçã de ter mentido aos portugueses sobre as armas de destruição massiva no Iraque.

Publicado por ruitavares em sexta-feira 30 abril 11:28 | Comentários (15)

Para pôr a casa em ordem, vendende-se a casa

Défice de 2003 chegou aos 5,3 por cento sem receitas extraordinárias, diz o Banco de Portugal. Ou seja, o défice, sem as receitas extraordinárias, que não se repetem, subiu com o PSD. E isto é aquilo em que eles supostamente são bons.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 30 abril 04:06 | Comentários (13)

Liberdade, liberdade


Cartaz de Comício em Almada do Movimento da Esquerda Socialista (MES). A última imagem de Abril.

Publicado por ruitavares em sexta-feira 30 abril 03:41 | Comentários (1)

No país dos matraquilhos

A investigação às relações perigosas entre as autarquias e os clubes de futebol continua. Esperemos que chegue a acabar.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 30 abril 03:15

Enquanto Durão sonha com a maior maioria absoluta de sempre

Barómetro DN/TSF.

PS: 41,9%.
PSD: 36,5%
CDU: 7,3%
BE: 6,9%
CDS: 2,6%

Esquerda: 56,1%
Direita: 39,1%

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 30 abril 03:03 | Comentários (28)

Santana num buraco

Para não me repetir, mais uma vez publico aqui o meu texto n’A Capital sobre o Túnel do Marquês.

Ao fim de dois anos e meio, quais foram as duas grandes batalhas de Santana Lopes? Um túnel para fazer entrar carros em Lisboa e a construção de um casino. Como currículo autárquico que é, no mínimo, caricato.

Vamos então ao burburinho do momento. Justiça seja feita, desde a campanha eleitoral, há dois anos, que Santana tinha avançado com a proposta do túnel. A legitimidade democrática da decisão não está, assim, em causa. A proposta de Santana Lopes é a da construção de um túnel que vem das Amoreiras e desemboca no Marquês de Pombal e na Fontes Pereira de Melo.

A ideia quase só tem defeitos. O “timing” é o pior de todos. Fazer as obras antes do Euro implicou apertar prazos sem que tal fosse indispensável. Depois há os custos. A proposta de Santana Lopes tem valores exorbitantes. E há os problemas técnicos. O túnel proposto tem uma inclinação de 9%, quando a União Europeia não permite túneis viários com inclinações superiores a 5% e recomenda mesmo que sejam inferiores a 3%. O túnel cruzará duas das principais condutas da EPAL e a linha de metro, ficando a 45 centímetros deste. Por fim, atravessa as zonas húmidas das nascentes da Ribeira da Liberdade, com os resultados que se puderam observar no Martím Moniz ou na Avenida de Ceuta.

Mas a questão central é outra. O maior crime do Túnel de Santana, como ele próprio o gosta de chamar, é o de, em vez de tirar carros de Lisboa, os querer meter cá dentro.

(artigo continua no link em baixo)

Lisboa tem cerca de 700 mil carros, nos dias de semana. Não cabe nem mais um e muitos têm deixar de deixar de entrar. Isto sim, e não números circenses ou teimosias destituídas de conteúdo político, exigem coragem. Qualquer túnel que se faça em Lisboa deve ter uma função central: facilitar a saída e, arrisco-me a dize-lo, mesmo sabendo da impopularidade do que digo, dificultar as entradas. O resto deve ser investimento no transporte público.

Há alternativas ao túnel que propõe e até já foram apresentadas. Um túnel que comece no lado direito da Avenida da Liberdade, junto à Alexandre Herculano, que siga próximo à superfície, paralelo ao metro, não o cruzando, e que vá desembocar na Fontes Pereira de Melo, servindo para escoar o que vem da Baixa para Lumiar, Pontinha, Campo Grande e 2ª Circular. Este túnel bifurcaria, para que outro seguisse para o parque de estacionamento do Parque Eduardo VII, levando os carros para a Artilharia I, para seguirem daí para a Avenida Duarte Pacheco. Ou seja, um túnel que tirasse depressa, nas horas de ponta, os carros de Lisboa. Para além desta vantagem, teria outras, não negligenciáveis: uma das linhas não cruzaria a linha de metro e a outra só o faria quando ele está praticamente à superfície. Não perturbaria os lençóis freáticos da Avenida da Liberdade. Custaria, no mínimo, menos de um décimo do que está proposto.

Outra questão é o problema que está agora criado. Santana estava legalmente obrigado a realizar um Estudo de Impacto Ambiental e não o fez. Bem pode Santana mandar as culpas para o secretário de Estado do Ambiente. Esta era uma responsabilidade sua. E fica-lhe mal, quando as coisas apertam, sacudir a água do capote.

Santana quis abreviar caminho, e o resultado está à vista: o Tribunal de Administrativo de Lisboa suspendeu as obras no subsolo. Os custos e o atraso serão ainda maiores. Tentar, como fez Santana Lopes, responsabilizar um cidadão que usou do seu direito ao controlo democrático das decisões públicas, José Sá Fernandes, por este imbróglio, é uma inversão moral inaceitável. Quando um titular de um cargo político não cumpre a lei e é sancionado por isso, não é o cidadão que o denuncia que deve ser responsabilizado. É quem não cumpre a Lei. Se quem paga o preço da ilegalidade somos nós todos, deve ser o político a pagar o preço político. Esperemos que Santana Lopes tenha aprendido a lição, cumpra agora a decisão de suspensão e não improvise mais.

Mas Santana dá os piores sinais. O anúncio publicado na terça-feira, em dois diários (quem pagou?) a marcar uma manifestação contra a decisão do tribunal é uma demonstração de infantilidade política indescritível. Santana diz que não foi obra sua. Ou tem um admirador secreto, ou há aqui qualquer coisa para explicar. Esperemos que Santana explique, porque esta história já começa a enjoar.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 30 abril 03:01 | Comentários (5)

abril 29, 2004

Investigação

Querem saber quem foi o admirador secreto de Pedro Santana Lopes que fez o anúncio à concentração em seu apoio? Hoje, às 12 horas, estavam 4 pessoas na Praça do Município. Deve ser uma delas.

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 21:17 | Comentários (11)

Estamos com muita dificuldade em encontrar republicanos

"Cientistas tentam ler o cérebro de eleitores norte-americanos".

Publicado por ruitavares em quinta-feira 29 abril 17:47 | Comentários (4)

Querem que a gente levante os cheques com os dentes?

«Conselho de Arbitragem não pode funcionar amputado».

Publicado por ruitavares em quinta-feira 29 abril 17:34 | Comentários (1)

Desses assuntos trata o tesoureiro

O primeiro-ministro escusou-se hoje a comentar eventuais benefícios que o vice-presidente da câmara de Gondomar, José Luís Oliveira, terá concedido a empresas de construção civil, em troca de dinheiro para o PSD: «Não falo sobre questões partidárias. Não quero confundir questões de Estado com questões partidárias».

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 17:14 | Comentários (4)

Os durões

Foto de Eduardo Gageiro, publicada na "Visão". Durão Barroso está à frente, à direita. O fotógrafo acabou por ser espancado e a sua máquina destruída, pelo serviço de ordem do MRPP, quando mudava de rolo. É destes tipos que o mesmo Durão Barroso fala hoje com desprezo.
Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 17:05 | Comentários (23)

Dr. Vodafone

Já tinha saído no "Expresso", mas numa nota explicativa (não pública) do Ministério das Finanças as coisas ficam mais claras: nos termos do acordo Netsaúde com a Vodafone, os médicos recebem 0,12 euros por cada minuto de conversação com os doentes, que são mais caras (0,60/minuto) que as chamadas normais. Esta retribuição aos médicos «não constitui retribuição de um serviço médico mas sim a retribuição pela angariação de chamadas para a rede Vodafone». Mais claro é impossível: os médicos passam a ser angariadores de clientes da Vodafone e os doentes pagam as chamadas para o seu médico de família mais caras do que as chamadas normais de telemóvel.

Aqui estão os excertos do documento do Ministério das Finanças:

«Por cada chamada feita para o número profissional do médico (que só serve para receber chamadas), é pago pelos doentes a um custo de 0,60 euros/minuto, recebendo o médico um crédito de 0,12 euros, por igual período de tempo, atribuído pela Vodafone.
(…)
O pagamento (atribuição de crédito) ao médico é feito pela Vodafone.
(…)
O pagamento de 0,12 euros/minuto aos médicos não constitui retribuição de um serviço médico mas sim a retribuição pela angariação de chamadas para a rede Vodafone para números cujo o custo de chamada é superior ao nomal (cerca de 0,60 euros/minuto).
(…)
Nesta medida, aquela retribuição aos médicos assume a natureza de uma comissão, sujeira a IRS pela categoria B (rendimenttos empresariais e profissionais) e a retenção na fonte de acordo com as regras estabelecidas para este tipo de rendimentos.
(…)
O custo da chamada efectuada pelo doente para o número profissional da rede Vodafone não constitui despesa de saúde.(…)»

Assinado pela Directora de Serviços do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares.

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 16:27 | Comentários (8)

O amor é tão bonito

Os ditadores também têm sentimentos

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 14:58 | Comentários (4)

E uma conferência sobre a Islamofobia?

Sob os auspícios da OSCE, iniciaram-se ontem os trabalhos de uma grande conferência sobre o anti-semitismo na Europa. É o segundo evento deste género que decorre este ano, depois do seminário organizado pela Comissão Europeia em Fevereiro. Nada tenho contra a realização destas conferências: o verniz da civilização é uma película muito fina e há indícios credíveis de um recrudescimento do anti-semitismo em vários países europeus (profanações de cemitérios, apedrejamento de sinangogas, incitamentos ao ódio na internet, etc.). Mas há duas coisas que me incomodam: em primeiro lugar, o facto de ser sempre a Europa o bombo da festa quando se fala de anti-semitismo, como se os europeus tivessem de pagar até à eternidade pelos crimes de Hitler, Pétain e Cª. Se há país que nos últimos anos tem feito um esforço notável para expiar os crimes do seu passado recente (desde a discussão histórica à reparação simbólica e material às vítimas dos campos de extermínio nazis), esse país é a Alemanha. Desde o gesto de Willy Brandt em Varsóvia que todos os líderes alemães têm renovado o pedido de perdão da Alemanhã ao povo judaico. A má consciência alemã é de tal ordem que é muito raro ouvir um político alemão responsável formular a mais pequena crítica à conduta de Israel nos territórios ocupados. Além do mais, não deixa de ser curioso que a mais espectacular manifestão anti-semita dos últimos tempos, o filme A Paixão do Cristo, de Mel Gibson, tenha sido produzida nos EUA e tenha facturado milhões nas bilheteiras desse país (a propósito, ainda não há muito tempo a Liga Anti-Difamação contabilizava mais actos de anti-semitismo nos EUA do que em toda a Europa, o que sugere que o recrudescimento do fenómeno no nosso continente estará estreitamente ligado à evolução do conflito israelo-palestino e ao impacto que este tem em certos elementos da comunidade muçulmana europeia). Em segundo lugar, a louvável preocupação com o anti-semitismo pode ter o efeito perverso de nos desviar a atenção de um outro fenómeno emergente, talvez mais preocupante a médio/longo prazo: a islamofobia. Cada atentado terrorista na Europa é acompanhado por um aumento da desconfiança dos europeus brancos em relação aos seus vizinhos muçulmanos, cujas práticas e rituais religiosos lhes causam tanta estranheza e, não poucas vezes, horror (é claro que essa desconfiança é também alimentada por um racismo social latente). Até à data, a conduta dos governantes europeus tem sido impecável (gostei de ver a deslocação de Durão Barroso à mesquita de Lisboa uns dias depois do 11-M espanhol, por exemplo). Mas entre certos sectores da intelligentsia europeia (e portuguesa), sempre muito preocupados com a "defesa do Ocidente", é visível uma hostilidade crescente em relação ao Islão: muitos dizem rejeitar apenas a versão radical do Islão, mas eu digo-vos o seguinte: dêem-lhes mais uns anos e verão que essa distinção acabará por desaparecer. Não faltam, aliás, "orientalistas" distintos que lhes fornecerão a necessária respeitabilidade para manifestarem a sua islamofobia: de Samuel Huntington a Bernard Lewis, a escolha é grande. É claro que não veremos os nossos orientalistas de trazer por casa a defenderem o internamento ou a deportação maciça dos muçulmanos europeus. Mas são eles os clercs que andam a preparar o caldo cultural de onde emergirão os sucessores de Pim Fortuyn e Le Pen - os quais, acreditem, se revelarão criaturas bem mais sinistras.

Publicado por pedrooliveira em quinta-feira 29 abril 12:55 | Comentários (20)

Guardei um cravo para mim

Pá, a festa foi mesmo bonita. Ainda hoje estou a cantarolar o hino do MFA. Ta-ra-ran ta-ran ta-ran, ta-ra-ran ta-ran ta-ran, ta-ra-ran ta-ran ta-ran, taraririraran ta-ran.

Publicado por andrebelo em quinta-feira 29 abril 09:41 | Comentários (3)

Ele não precisa do nosso dinheiro! Independência, já!

«Não foi por acaso que mandámos fazer, há pouco tempo, um estudo económico-financeiro sobre as possibilidades de a Madeira viver como país. O estudo concluiu que a Madeira poderia viver independente muito melhor do que muitos países que há por esse mundo fora. (…) Íamos ficar à escala do Chipre, que é um país com um bom nível de vida. A Madeira não seria um país miserável.» Quem fez esta revelação, assinalada pelo Causa Nossa, foi Alberto João Jardim. Como Jardim esclareceu imediatamente que tal decisão seria um erro, acabámos por ficar sem saber se o estudo incluía a divisão da ilha a meio.

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 03:27 | Comentários (19)

Liberdade, liberdade


Panfleto do CMLP e da OCMLP, apelando a uma manifestação contra a NATO e a CIA.

Dedicado a Pacheco Pereira. Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Publicado por ruitavares em quinta-feira 29 abril 02:23 | Comentários (6)

Elevação, por favor

«O último da nossa lista europeia é melhor do que o primeiro do PS», disse Durão Barroso no Conselho Nacional do PSD. Fui ver quem era o último: o inenarrável António Maria Pereira. Ok, Sousa Franco é fraquinho, mas também não é preciso insultar.

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 01:33 | Comentários (16)

Enterrado vivo

Quem é que o PSD, no seu Conselho Nacional, mandou para falar em defesa de Valentim Loureiro? Isaltino Morais. Se era para enterrar mais o homem, estiveram bem.

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 01:14 | Comentários (5)

Extravio de carga

E a petição para enviar José Manuel Fernandes como escudo humano para o Iraque chegou, finalmente, às mil assinaturas. Bem sei que a petição seria vinculativa a partir do primeiro milhar, mas não só foram expeditos como se enganaram no destino. Era para o Iraque, não era para Bruxelas. Reparem no 10º candidato da coligação PSD/CDS ao Parlamento Europeu .

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 01:10 | Comentários (6)

Triste fado

Nuno da Câmara Pereira, que chegou a afirmar ser o verdadeiro herdeiro do trono português, é candidato, em 16º lugar, na lista da coligação PSD/CDS ao Parlamento Europeu. Já não há respeito pela realeza.

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 29 abril 01:08 | Comentários (4)

abril 28, 2004

A insustentável leveza

"Valentim garante que consciência não lhe pesa"

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 28 abril 23:49 | Comentários (9)

Na pele do anjo


REUTERS/European Commission/HO © Reuters 2004

Não há frase que eu abomine mais do que "uma imagem vale mais do que mil palavras". Enquanto professor de história da arte e de história da fotografia estou sempre a pedir aos meus alunos para que não a usem.

Mas que se lixe, quem nunca pecou que me atire agora a sua pedra.

Esta aqui acima (que saiu também hoje no Público a preto-e-branco) vale muito mais do que um milhão. Mas não é só porque se trata de uma imagem estupenda.

É mais porque as palavras dos governantes valem de facto muito pouco.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 28 abril 17:06 | Comentários (13)

Vamos inventar um país?

Houve iraquianos que não gostaram da nova bandeira do Iraque, decidida por “lideres” escolhidos pelos Estados Unidos, ainda antes da transferência de poderes ou de qualquer eleição. Bolas, até foi feita por um artista. Gente esquisita, esta.

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 28 abril 04:30 | Comentários (7)

Iraque tem nova bandeira

Ver esta

Para sentir esta

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 28 abril 04:06 | Comentários (17)

A democratização do Iraque continua

Falluja, 27de Abril de 2004

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 28 abril 04:02 | Comentários (7)

Endereço errado

António Ribeiro Ferreira comprava armas a mil paus. Teresa de Sousa era voz da AOC (“uma espinha cravada na garganta de Cunhal”). José Manuel Fernandes escrevia textos sobre as maravilhas da Albânia, na “Voz do Povo”. Durão Barroso roubava mobília ao Conselho Directivo da Faculdade de Direito. E agora, a gente que os ature mais as suas diatribes contra a esquerda e o seu passado tenebroso. Andaram a divertir-se quando eram cachopos e depois ainda vêm cobrar a factura.

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 28 abril 03:55 | Comentários (18)

Momento publicitário

Frederico Lourenço é o convidado do próximo "É a cultura, estúpido!", que vai ter lugar hoje, às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. Frederico Lourenço falará sobre a tradução de clássicos e as suas três novelas, numa conversa com a jornalista Anabela Mota Ribeiro.

Como sempre acontece nestes encontros, poderá também ouvir as escolhas dos críticos e jornalistas residentes: José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, o debate dos colunistas Daniel Oliveira (sou eu) e Pedro Lomba (é ele) - sobre o PREC e o 25 de Abril, a partir do livro "Pensamento e Acção Política - Portugal Século XX", de Fernando Rosas (Editorial Notícias), e assistir ao stand-up comedy de Ricardo de Araújo Pereira.

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 28 abril 02:50 | Comentários (13)

Liberdade, liberdade


Cartaz de Campanha da Liga de União e Acção Revolucionária (LUAR) Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 28 abril 02:43 | Comentários (5)

A campanha promete

Os ataques mais recentes a John Kerry por parte de segundas figuras da Casa Branca e da imprensa populista demonstram que a direita americana voltou àquilo que melhor sabe fazer em época eleitoral: jogar sujo. Em primeiro lugar acusam Kerry de ter jogado fora as suas medalhas de bravura ganhas no Vietname num cerimónia pública anti-guerra em 1971, embora Kerry diga que lançou apenas as fitas. O texto do tablóide New York Post é um belo exemplo do nível raivoso do ataque dos bushistas, mesmo quando o presidente (e candidato) que defendem não pode ter mandado fora medalhas de bravura algumas pela simples razão de nunca as ter ganho, até porque se escapuliu da guerra do Vietname – que no entanto apoiava. Apesar destas reviravoltas, tudo serve para dizer que é Kerry que não tem convicções. Afinal, trata-se da mesma gente que está a ter uma crise histérica só porque se soube que um dos carros de Tereza Heinz Kerry é um Audi.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 28 abril 01:43 | Comentários (13)

Começou a retoma!


Mantorras volta a jogar.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 28 abril 00:20 | Comentários (20)

Recomeçou a guerra?

Violentos combates em Fallujah e Najaf. Não se trata certamente de uma surpresa, depois da escalada verbal dos últimos dias e de Paul Bremer acusar as milícias iraquianas de estarem a esconder armas nestas cidades. Entretanto, se o "irresponsável" e "precipitado" Zapatero não tivesse tirado as tropas espanholas de Najaf os seus soldados estariam envolvidos precisamente nesta acção que ninguém sabe como vai acabar nem com que consequências se os "aliados" decidirem mesmo entrar na cidade santa dos xíitas. Durão Barroso, com 130 homens de uma força policial estacionados longe da confusão, já decidiu de que lado quer estar: quer enterrar-se no mesmo buraco que levar George Bush.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 28 abril 00:15 | Comentários (3)

abril 27, 2004

Banda gástrica já

O que é que se passa com esta rapaziada que, ultimamente, só pensa em comida? Fazem-me lembrar uma viagem a Nova Iorque que fiz com o Rui Tavares em que ao virar de cada esquina eu me punha a falar de comida de uma forma tão obsessiva que o Rui já trazia os nervos em franja. Acho que cheguei mesmo a sugerir uma receita para despacharmos um esquilo do Central Park. Mas o Glória está a ficar pior do que nós com o Benfica, até já têm receitas para o 25 de Abril. Estarão de dieta?

Publicado por celsomartins em terça-feira 27 abril 23:27

Alive and kicking

52 diplomatas britânicos reformados publicam hoje no The Guardian uma carta aberta a Tony Blair: "Doomed to Failure in the Middle East". Devastadora.

Publicado por pedrooliveira em terça-feira 27 abril 18:04 | Comentários (4)

Mercado negro (e branco)

Segundo o Público, o Boavista terá beneficiado durante vários anos de policiamento pago pelo erário público enquanto vários oficiais da PSP viajaram frequentemente nas comitivas do clube em deslocações ao estrangeiro. É o que se chama economia paralela. Eu dou-te um presunto e tu dás-me uma galinha. Depois há uns patos (nós) que pagam o acompanhamento.

Publicado por celsomartins em terça-feira 27 abril 17:14 | Comentários (1)

Já não há tias como antigamente

Paulo Portas mascou pastilha elástica na parada do 25 de Abril. Celeste Cardona saiu à pressa das condecorações para não cumprimentar Isabel do Carmo. Eu não sei se a revolução ainda é uma criança mas esta direita parece uma menina mal educada.

Publicado por celsomartins em terça-feira 27 abril 17:03 | Comentários (16)

Estavam bem uns para os outros

O António Granado fez o favor de pôr, na caixa de comentários do post sobre os jornalistas d'O Primeiro de Janeiro, um excerto de um post dos rapazes depedidos: «Fazer uma publireportagem não é fazer de conta que se é jornalista, enquanto se é, na realidade, um redactor publicitário. Fazer uma publireportagem é ser jornalista, com a dificuldade acrescida de, naquilo que se escreve, procurar a verdade, não caíndo no facilistismo do elogio que, por inerência, é suposto existir na publicidade». Conclusão: os rapazes mereciam bem o lugar onde trabalhavam e o lugar onde trabalhavam merecia bem os rapazes. Mas com uma nota: o despedimento não deixa de ser ilegitimo. O "crime" primeiro é o do jornal, os "jornalistas" seus meros executores. Podem e devem ser responsabilizados, mas nunca pelo "mandante".

Publicado por danieloliveira em terça-feira 27 abril 16:28 | Comentários (10)

Se te está a custar, dá na pastilha


Paulo Portas, muito respeitador de paradas e afins, mascou pastilha elástica, com displicência, durante o desfile militar do 25 de Abril.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 27 abril 15:52 | Comentários (18)

Não se esqueçam homens, atirem aos corações e mentes

Remember men, aim for hearts and minds!

É no semanário conservador britânico Spectator que tenho encontrado alguns dos melhores cartoons e artigos de opinião sobre os últimos desenvolvimentos da crise iraquiana. A revista ainda não se viu livre do horrendo Mark Steyn (o correspondente nos States) e também não me parece que em termos editoriais já tenha emendado completamente a mão em relação à política externa de Bush e Blair. Mas é evidente que o facto de já não ser controlada por Conrad Black, e do seu editor, Boris Johnson (deputado conservador), ter intuido que sob a liderança de Michael Howard os tories poderão começar finalmente a criticar o envolvimento britânico nesta aventura desastrosa, ajudará a explicar a maior abertura da revista a autores que nada têm a ver com a direita neo-conservadora. Um bom sinal disso mesmo é, por exemplo, a contratação do já lendário Andrew Gilligam (o jornalista da BBC que denunciou o "apimentamento" do dossiê de Downing Street sobre as ADM) como correspondente para assuntos diplomáticos e de defesa. O penúltimo número (parcialmente disponível no site da revista), além de ter um punhado de cartoons fabulosos, traz alguns dos comentários mais ácidos que pude ler nas últimas semanas sobre o "quagmire" iraquiano (além da reportagem de Gilligan em Bagdade, o de Rod Liddle, "Things were better off under Saddam", é impagável). A edição desta semana, apesar de nos impingir um artigo-resposta de William Shawcross a Gilligam e Liddle, traz três textos de primeira água: um de Michael Lind sobre o culto neo-conservador de Churchill (figura indecentemente apropriada por uma direita americana profundamente ignorante), outro de Paul Robinson sobre a ameaça que algumas das tácticas e métodos de combate ao terrorismo colocam aos valores humanistas das nossas sociedades democráticas (artigo a que voltarei mais tarde), e, finalmente, uma crítica demolidora de Gerald Kaufman ao apoio de Bush ao plano de "desengajamento" de Ariel Sharon de Gaza e da Cisjordânia.

Publicado por pedrooliveira em terça-feira 27 abril 15:34 | Comentários (3)

Baixas fraudulentas, esse drama nacional

Portas não foi à cerimónia de condecorações dos 30 anos do 25 de Abril. Disse que estava com gripe.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 27 abril 12:55 | Comentários (29)

Cataratas e varizes à retaguarda!

Novo sistema de combate às listas de espera dá "passe" ao doente para escolher hospital

"Ó, psssst, pssst, o que é que o senhor está a fazer aí na marquesa? Para um transplante do rim? Mostre lá o seu título de operação, sáxavor. Ó meu senhor! Então não vê que o seu passe não dá para transplantes? Tá fora da sua coroa, homem. Tem de comprar o L123. "

Publicado por danieloliveira em terça-feira 27 abril 12:26 | Comentários (7)

Um Narciso injustiçado

Leio no Ânimo que o Presidente da Câmara de Pombal, Narciso Mota, do PSD, recusou a medalha de honra do município a Salgueiro Maia, proposta pelo PS. «Não podemos vulgarizar uma homenagem que diz respeito ao município. Eu também era militar no 25 de Abril e a revolução foi feita por muita gente», afirmou o Narciso.

Steinbeck? Beckett? Hermann Hesse? Günter Grass? Camus? Thomas Mann? Sartre? Hemingway? Faulkner? Bernard Shaw? García Márquez? Yeats? Neruda? Octavio Paz? Saramago? Dario Fo? Camilo José Cela? Porque raio recebeu esta gente toda o Nobel da Literatura quando eu escrevi um poema tão catita, em 1977, pelo Dia da Mãe? Amiguinhos bem colocados, é o que é.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 27 abril 04:27 | Comentários (6)

Evolução no álbum da revolução

O Álbum da Revolução foi actualizado. Mas com uma surpresa: para além dos que aqui já foram publicados podem lá encontrar mais 14 cartazes e folhetos, que, por o mês só ter 30 dias, aqui não serão publicados. As imagens de Abril continuarão a ser postadas até ao fim do mês. No conjunto, o Álbum da Revolução acabará com 44 imagens. O álbum continuará disponível depois deste mês. Bom proveito.

Publicado por danieloliveira em terça-feira 27 abril 03:34 | Comentários (2)

Liberdade, liberdade


Panfleto de propaganda eleitoral da Aliança Operária-Camponesa (AOC), 1976 Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Publicado por ruitavares em terça-feira 27 abril 02:49 | Comentários (12)

Ex-ELP’s no CDS: esqueçam a medalha

O CDS está contra a condecoração de «bombista».

Publicado por danieloliveira em terça-feira 27 abril 02:43 | Comentários (11)

abril 26, 2004

As primeiras vítimas

Os blogues já fizeram as suas primeiras vítimas em Portugal. Três jornalistas d’O Primeiro de Janeiro foram despedidos por denunciarem, no blogue Diário de um Jornalista., algumas práticas comerciais menos ortodoxas daquele jornal. O despedimento foi justificado pela quebra da obrigação legal de dever de lealdade para com o empregador. O Sindicato dos Jornalistas considera que, a serem verdadeiros os factos denunciados, estamos perante um direito fundamental de qualquer cidadão e ainda mais de um jornalista. Se forem falsas, serão os jornalistas a responder judicialmente. Os blogues já não são a brincar.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 26 abril 17:35 | Comentários (25)

Voltaram as "Tolices das Cinco da Tarde"

Continua denso o “nevoeiro da guerra” no Iraque. Ontem, a morte de mais um soldado americano em Bagdade esteve na origem de um violento tiroteio entre um pelotão do exército americano e alguns snippers iraquianos. Poderão ter morrido 4 crianças, mas os óbitos ainda não foram confirmados. Entretanto, os porta-vozes militares da Coligação anunciaram mais um cessar-fogo em Falluja – imediatamente desmentido pelos directos de várias cadeias de televisão, que davam conta de vários tiroteios e explosões à medida que o brigadeiro Mark Kimmitt anunciava as boas notícias. A cada dia que passa, os comunicados da Coligação vão se assemelhando cada vez mais aos briefings do Estado-Maior americano em Saigão, as famosas “Five O’Clock Follies”.

Publicado por pedrooliveira em segunda-feira 26 abril 15:36 | Comentários (1)

Entre duas baforadas de charuto...

Graças a uma nota de rodapé de William Pfaff no último NYRB, cheguei a esta entrevista com o general Tommy Franks, o último comandante do CentCom, e coordenador dos ataques ao Afeganistão e Iraque. A entrevista foi concedida à revista Cigar Aficionado em Novembro de 2003, pouco depois de Franks ter passado à reserva, e é um documento precioso a vários títulos. Numa conversa pontuada com aquelas saborosas expressões sulistas (“my gracious”, “holy smoke”, “my, my”), o general define-se como um tipo “antiquado”, um pouco “piroso” (“corny”) até, sempre que a Constituição e os valores americanos lhe vêm à mente. Em termos políticos, porém, declara-se rigorosamente apartidário – o que, todavia, não o impede de tecer rasgados elogios à “liderança” de Bush filho. Mas, a meu ver, as passagens mais sugestivas são aquelas em que Franks se pronuncia sobre o futuro do combate ao terrorismo e as suas implicações para a democracia americana. Sendo o terrorismo uma forma de guerra, e sendo a guerra algo de intrínseco à condição humana, não há grande coisa a fazer senão assumir uma postura vigorosa e evitar o exemplo de outras civilizações, como a Grega e a Romana, que a certa altura se tornaram “preguiçosas” e pereceram. Quer queiramos quer não, acrescenta Franks, a nossa civilização e o nosso modo de vida defendem-se “pela força, e não pela esperança”. Mas será que os métodos dos terroristas não poderão levar as democracias a enveredar por métodos mais expeditos e menos consentâneos com as normas do Estado de direito? É aqui que a resposta de Franks me enviou um calafrio pela espinha abaixo. Sim, se a América voltar a sofrer um mega-atentado terrorista, não é seguro que a Constituição resista e as pessoas poderão até exigir uma “militarização do país como meio de prevenir uma outra matança em grande escala”. Good gracious, I hope not.

Publicado por pedrooliveira em segunda-feira 26 abril 13:24 | Comentários (5)

Túnel interrompido

As obras do Túnel do Marquês de Pombal foram suspensas pelo tribunal. Como ele dizia? "As formalidades estão tratadas. Agora, mãos à obra". Acho que era assim. Afinal não estavam

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 26 abril 13:22 | Comentários (26)

Liberdade, liberdade


João Abel Manta: MFA, Dinamização Cultural/Acção Cívica, 1975 Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Publicado por ruitavares em segunda-feira 26 abril 03:57 | Comentários (40)

Um sedutor só

Victor Cruz, deputado do PSD e o novo homem da direita açoriana, afirmou, ontem, na sessão solene da Assembleia da República, que os portugueses foram libertados em 1974 da «redutora estratégia do orgulhosamente sós». Até aqui tudo bem. Só que, na versão do discurso distribuída aos jornalistas, lia-se «sedutora estratégia do orgulhosamente sós». A sedução, quando é a sós, devia ser uma coisa reservada e não para andar a contar aos jornalistas.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 26 abril 03:02 | Comentários (5)

Masoquista

Ontem, Durão Barroso levou de Sampaio. No fim, disse que tinha gostado.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 26 abril 02:50 | Comentários (10)

Quando lhes estala o verniz

Também eu, às vezes, me deixo embalar pelo canto da sereia. Acredito, por vezes – fraqueza minha – que anda para aí uma “nova direita”. Dizem-se liberais, o que não é mau, porque é coisa que em terras lusas nunca se viu. Uma direita que encha a boca com o mercado mas não esteja sempre na fila de espera dos favores do Estado. Uma direita que encha a boca com o “primado do indivíduo” mas não esteja sempre na primeira linha dos guardiões da família tradicional. Uma direita que se assanhe contra o comunismo mas não viva tão mal com a revolução que pôs fim a uma das mais longas ditaduras europeias. Uma direita urbana, cosmopolita, liberal na economia e nos costumes. Nunca se viu e eu gostava de ver. Porque assim, no debate, sempre se atalhava caminho.

Ultimamente, por ingenuidade, ainda cheguei a acreditar que ela andava por aí. Que tinha largado o pingalim e as botas, as patilhas e a farda, a batina e o nome de família. Engano meu. Bastou um dia de comemorações para que não se aguentasse. Mexemos-lhe no baú do seu passado e logo ficam à solta todos os seus fantasmas. O senhor Rui, do Blasfémia, deu um ar da graça da direita portuguesa. Não muda. E a questão é saber se esta direita periférica e atrasada alguma vez deixará de o ser. Título sugestivo do seu post: «25 de Abril, Nunca». Algumas passagens:

«O 25 de Abril histórico desmente cabalmente esta versão [a do “25 de Abril Mítico”] dos factos. Desde logo, na natureza do regime deposto: não se consegue compreender, por mais distraída que seja a alma portuguesa, que uma tirania com aquelas características não tenha dado, como não deu, um tiro em sua defesa.»

«À PIDE/DGS sucedeu uma polícia política bem mais temível.»

«Do ponto de vista da História, da História grande e verdadeira, o 25 de Abril serviria para a União Soviética manipular alguns “revolucionários” de ocasião e deitar mão aos territórios africanos»

Gabriel Silva, também do Blasfémia, lá tenta salvar a honra do convento. Mas tamanha alarvidade é difícil de remendar.

Por mim, poderia debater cada um dos argumentos do senhor Rui. Mas não o faço. Prefiro esperar pelo nascimento de uma direita portuguesa civilizada. Mas vou-me sentar, que esta espera é capaz de demorar.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 26 abril 02:41 | Comentários (26)

abril 25, 2004

O povo é quem mais ordena


Tal como prometido, o Barnabé, hoje, é só dos leitores. Todos os (muitos) textos que pode ler aqui em baixo são deles. Depois de nós próprios o termos feito, é a vez de outros contarem o seu dia 25 de Abril de 1974. Os textos não foram editados e estão aqui como nos chegaram. As imagens são da nossa responsabilidade. Nem todos cumpriram o espaço pedido, nem todos puseram títulos - alguns foram acrescentados por nós. Mas todos compreenderam o espírito desta ideia: o dia 25 de Abril de 1974 visto por muitos olhos, sentido de forma diferente. Obrigado a todos. Bom 25 de Abril, o dia mais feliz que este país fez. Foi há 30 anos.

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:56 | Comentários (31)

Visto da prisão


Caxias, noite de 24 para 25 de Abril de 1974 (até parece que foi ontem!): somos “informados”, através de um código sonoro, que tinha havido um golpe de estado. Alerta geral. Como, quem, etc,etc.. É que o “informador” do exterior não tinha dito – saberia?- qual a tendência ou orientação do golpe. E dentro de Caxias os guardas prisionais não sabiam patavina. Na dúvida, e à cautela, havia que tomar medidas de protecção e de segurança. Tínhamos bem presente na nossa memória o que ia acontecendo em certos países da América latina: golpes de estado da extrema/extrema direita levavam a que os presos políticos fossem simplesmente massacrados. A tensão e a ansiedade, que eram grandes, foram-se amenizando quando vimos os pára-quedistas rodearem a prisão, substituindo a GNR. Como os páras eram fiéis ao Spínola e como este tinha, pouco tempo antes, escrito “Portugal e o futuro”... Contudo, os suores só desapareceram quando vimos aparecer os fuzileiros navais com sorrisos e o dedo bem levantado para cima. Aí sim, respiramos fundo e libertamo-nos. As portas das celas foram escancaradas e os portões foram abertos para dar passagens aos nossos advogados e a alguns jornalistas. Os abraços quase que partiam ossos e as lágrimas, desta vez de alegria, escorriam abundantemente. Estávamos todos preparados para abandonar a famigerada cadeia, quando surge um oficial, a mando do Spínola, comunicando-nos que o sr. General tinha dados ordens para que não saísse ninguém. Os casos/processos seriam analisados um por um. Blá, blá, blá, blá. O absurdo ainda teimava em reinar em Portugal e o Spínolo já pensava que mandava em tudo. Depois da nossa firme e determinada recusa, com imediata greve da fome, e depois de negociações e pressões, o malabarista Spínola, determinou que os presos poderiam sair mas aos grupos; assim: uma camioneta iria descarregar um grupo no Areeiro, outro faria o mesmo no Campo grande, e por aí fora. Entretanto, as pessoas, aos milhares, rodeavam a cadeia e gritava: “Queremos os presos, queremos os presos”. E pronto, agora sim, lá saímos, cantando e rindo, mas desta vez com alma, alegria e determinação. No dia 26 de Abril. Na rua, já a Festa tinha começado!

Casimiro Ribeiro

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:40 | Comentários (7)

Parecia uma canção de embalar

No 25 de Abril eu era criança, a vida era-me fácil e tinha a ideia de que ser comunista era assim como uma doença. Não sei porque pensava assim porque não me parece que em casa me passassem essa ideia. Os pais da minha melhor amiga eram comunistas (vim a saber depois) e um ano antes, no 11 de Setembro de 73 estavam muito tristes e explicaram-nos o que tinha acontecido no Chile. Em minha casa o meu pai conversava com os amigos e a minha mãe desabafava: lá estão eles a falar de política. Também me lembro de ver lá por casa o livro do Mário Soares, “Portugal Amordaçado” ainda na edição francesa, trazido por um qualquer amigo viajante e de ter a sensação de que aquilo era algo secreto. Outra memória é a de uma manhã ouvir a vizinha de cima chorar e ouvir qualquer coisa como a polícia ter virado a casa dela do avesso por causa de um filho que estudava em Lisboa, mas ninguém me explicou muito bem o que tinha acontecido – não era conversa de crianças. Muito antes disso, o meu pai cantava-nos uma canção que para mim era uma canção infantil “Se eu fosse carpinteiro casava com uma ceifeira...” e que acabava mais ou menos assim “cinquenta de ditadura. Arre porra que é demais”, o meu avô ficava muito zangado com o meu pai e nós achávamos que era por causa do “arre porra”.

Isabel Prata

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:39 | Comentários (1)

Somos livres – Excertos de uma carta de amor


O afago meigo do vento na minha face atrida reclama as memórias delidas de uma noite distante. Éramos jovens com asas de anjo vingador, guerreiros indómitos com o buço a despontar e a G3 cingida ao corpo, amante engatilhada para o encontro com a morte. Naquele dia 25 de Abril de 1974, ainda o estertor da noite vinha longínquo, já os vultos camuflados adejavam, silentes, na mata de Cantanhez.

Foi nesse dia que perdi a audição. De qualquer forma eu já estava habituado ao silêncio. O silvo de uma bala, o último som que terei escutado, talvez a mesma que tocou o Gomes entre os olhos e o norteou para o reverso da vida. Quando capitulou, a face alva de minhoto surpreendida pela bala da “costureirinha”, o seu corpo baqueou mesmo a meu lado. Sussurrei-lhe, desesperançado, sem me ouvir, que ia ficar bem. E lembrei-me do dia em que vim para a Guiné, da minha mãe a rezar em frente de uma fotografia minha vestido de militar. Queria estar junto dela (será preciso dizê-lo?), olhar a sua face empergaminhada, tocar-lhe as mãos quentes. Não estar ali.

O sangue quente gotejava no meu rosto assassino, aquele vermelho vívido como um cravo no cano de uma G3, o olhar relapso nos olhos exauridos do Gomes. Percebi que aprendêramos a matar sem que soubéssemos porquê. O guerrilheiro pelo menos sabia porque matava, eu não. Ainda não sei.

Ao longe pressenti o limbo pardacento da tabanca. Deixei o frio subjugar o corpo em jeito de redenção. Olhei à volta, os homens abraçavam-se porque iam voltar para casa. Vivos, que o Gomes voltava encerrado entre tábuas de pinho. Alguém escrevinhou num papel gorduroso que os capitães tinham derrubado o governo, o lobo fora caçado. Antes de adormecer, uma lágrima solitária misturou-se com a poeira e o sangue na minha face. Somos livres, a última coisa que ouvi, dita em uníssono por centenas de vozes. Bem sei que não mas permite-me que esqueça o que te contei antes.

Francisco Curate

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:38 | Comentários (7)

O 25 de Abril da Revolução

O monge Cristiano decidira, piedosamente, emparedar-se. Através da estreita grade, almas caridosas deixavam cair comida e água. Vivia como quem está morto. Antecipava na Terra o castigo dos seus pecados e remia os dos Homens.

A imagem do impensável ficou. Tinha treze anos. Eu bem sei que era na Europa da Idade Média, na idade das trevas ou da Al-Qaeda. Eu bem sei. Mas mesmo assim… teria mesmo havido emparedados?

Também o meu neto vai um dia perguntar ao pai, quando tiver dez anos, se é verdade que ele nasceu na clandestinidade. E se de facto havia pessoas que decidiam passar à clandestinidade só para lutar pela Liberdade. E os pais dirão que sim. Que foi há muito tempo. Antes do 25 de Abril de 1974. Que foi para fazer uma RRevolução. E que será sempre assim. Mas de outro modo.

Raimundo Narciso

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:36 | Comentários (1)

Criança de Abril


Recordo acima de tudo o transformar das expressões dos meus pais. Do ar preocupado à gargalhada não reprimida. Lembro-me ainda de os ver, brilho nos olhos, a ir buscar discos proibidos que apenas nos era permitido ouvir baixinho...

Mas aquilo que lembro e me cravou a minha infância de Abril, são momentos que se deram depois, marcas que não se desvanecem apesar de ter dificuldade em os seguir cronologicamente. Uma birra monumental dos meus seis anos por não me deixarem ir ao primeiro 1º de Maio e o orgulho de, já que tinha ficado em casa da minha avó, me terem "alfinetado" um cravo vermelho ao peito.

Lembro-me de ter assistido a sessões de esclarecimento (era assim que se chamavam) que eram acima de tudo uma festa, com o Zeca Afonso em Porto Salvo, ou mais tarde com o G.A.C do Zé Mário Branco. Ainda nas memórias musicais, e políticas, recordo uma festa após uma ocupação de casas no Monte Estoril com o José Barata Moura e a pequenada, de que eu fazia parte, a cantar com a mesma alegria o "Come a papa Joana", como noutros dias cantávamos "A cantiga é uma arma" ou a "Grândola".

A casa onde eu vivia passou a ter um corrupio de gente que eu não conhecia e que brincava, ainda, à clandestinidade. As mesmas pessoas que tinham um nome com que eu as cumprimentava quando nos cruzávamos nos cafés, eram nesses momentos tratadas por outros nomes... e as saídas de casa faziam-se intervaladas de dez minutos para não levantar suspeitas. Suspeitas? Na minha rua, cheia de meninos do MIRN, todos nos chamavam Comunas e conheciam bem a nossa "cor".

Recordo Abril com a ingenuidade de uma criança. Mas sei que essa vivência que tive tão novo, me marcou mais profundamente do que ouso admitir.

Pedro Farinha

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:35

Agora isto vai

A minha recordação do 25 de Abril (à data do qual eu tinha 11 anos, já era consciente) é de um vizinho ter vindo visitar o meu pai, logo de manhã, às 8 horas, e dizerem "parece que agora isto vai". Ainda me lembro perfeitamente desta frase.

Depois não houve escola, nesse dia e a 26 salvo erro, foi muito bom.

Toda a gente estava farta da ditadura. Toda a gente, digo, inclusive a burguesia. Já antes do 25 de Abril me lembro de ouvir a minha prima, num passeio pela praia, explicar-me que Portugal era uma ditadura, que não se podia exprimir livremente a opinião. Fiquei muito traumatizado com isso. Depois, no 16 de Março, a minha mãe ficou muito frustrada com o falhanço do golpe. Lembro-me perfeitamente. A minha família era burguesa, não aristocrata nem oligarca, mas burguesa. A burguesia, a não ser mesmo os que estavam próximos do poder, estava farta da ditadura.

Contrariamente ao que hoje dizem certas pessoas, havia em Portugal uma burguesia que não estava no poder. A minha mãe era de uma família de pequenos industriais nortenhos. O meu pai era médico, com um curso universitário tirado no meio das maiores dificuldades, com a mãe a plantar couves na horta e o pai emigrado no Brasil. Esta burguesia, que não se alimentava do poder mas do seu trabalho árduo, estava farta do fascismo. Até às orelhas.

Luís Lavoura

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:34 | Comentários (1)

Três dias depois

Nasci no dia 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução (ou, como se diz agora, para não aborrecer ninguém, da Evolução) dos Cravos. Por isso, a minha experiência do 25 de Abril é exactamente igual à da generalidade das pessoas de direita que viveram naquela época: não mexi uma palha para que a Revolução se desse, não a desejei e não estava minimamente convencido de que fosse necessária.

Tal como o 25 de Abril, também eu celebrarei este ano o 30º aniversário. Diz-me o sr. Ministro da Presidência que os 30 anos são a idade da maturidade e que, por causa disso, a Revolução deixará cair o “r”. Eu, que tenho a fama de ser imaturo (entre outras), não quero perder esta oportunidade de mostrar que já sou um homenzinho, e decidi deixar cair também o meu próprio “r” inicial. Podem começar a tratar-me por Icardo.

Ricardo de Araújo Pereira

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:34 | Comentários (6)

Maio começou em Abril


Acordei com um telefonema às 6 da manhã: “Cuidado! Oiçam a rádio, passa-se qualquer coisa!” A primeira ideia – um golpe de direita. Telefonar era arriscado, a Pide existia. Saímos a correr de casa. Parecia um dia normal. Ao chegar à Baixa a tensão crescia, tropa, tanques. Ouvíamos que O Marcelo e o Tomás tinham ido para o Carmo. Tentamos chegar lá mas já não se conseguia passar, a multidão era grande e os tanques e jipes bloqueavam as passagens. As pessoas falavam umas com as outras o que seria impensável na véspera por medo da Pide. Gritavam: Viva a Liberdade! Já se começava a ter a certeza de que não era o Kaúlza como de início se tinha pensado. Vamos a Caxias buzinar, passar mensagem. Voltar a Lisboa, procurar amigos. Abraços, muito nervoso, alegria, inquietação. Mas quem está por detrás deste golpe? O que é o MFA? Ouve-se rádio, vê-se TV, e por fim vê-se a Junta de Salvação Nacional. Desilusão. Não eram as caras que se esperava. Mas o movimento era imparável, e a certeza chegou com o 1º de Maio.

Nascida a 25 de Abril

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:32 | Comentários (1)

O meu avô chamava-se José Ferreira

Nascido a 25 de Abril de 1910, viveu grande parte da sua vida debaixo de um regime opressivo onde a Liberdade não existia.

Fruto das circunstâncias e como aconteceu a tantos milhares de Portugueses, a escolha dos ideais de esquerda foram uma opção inevitável.

Foi preso várias vezes por ser dirigente sindical e levantar a voz em defesa de direitos básicos dos trabalhadores, sendo forcado a abandonar a esposa e os 4 filhos por períodos breves mas cheios de incerteza e preocupação.

O dia 25 de Abril de 1974, data do seu 65o aniversario, foi concerteza o dia
mais feliz da sua vida.

Eu tinha apenas 4 anos e não me lembro de muita coisa, alem da excitação dos adultos e da viagem de Lisboa para Santarém, procurando evitar problemas maiores se por acaso as coisas não corressem bem.

O meu avô chamava-se José Ferreira e nasceu 2 vezes a 25 de Abril. E eu todos os dias o recordo.

Rui Ferreira

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:21 | Comentários (13)

Palavras com R

Pedro (saiu de ) madrugada (para o) quartel. Maria (ficou em casa): era preciso (tomar conta das) crianças (tão pequeninas ainda).

(Ouvido colado ao) rádio: temor (a Pide que não caía, Marcelo que não se entregava) e esperança (a voz de Joaquim Furtado), Grândola; (até as) lágrimas correrem livremente sobre cravos vermelhos.

(Maria tinha vinte e oito anos e a) certeza (de que) Abril mudaria (tudo). (Ah); Revolução! (30 anos depois, ainda fazes bater o) coração (de Maria).

Maria, a própria

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:20 | Comentários (1)

O resto da tua vida


Com o 25 de Abril de 1974 o turbilhão chegou à nossa casa. Na cara de meu Pai eu só via desespero, na cara de minha Mãe, via medo e pressa de fugir. Nas ruas havia tiroteio e de noite ouviam-se basucas a explodir.

Um dia levaram-me de casa ao aeroporto de Luanda. Ali dormimos duas noites à espera de um avião. De Lisboa partimos para o Minho.
Chamavam-nos fascistas, retornados, apontavam-nos o dedo à cara como se fossemos uns monstros. O frio era de rachar, as pessoas não tinham alegria e a mentalidade era muito estranha. Na escola eu só via miséria e atraso. A amargura crescia a cada Inverno. Mastiguei-a lentamente e com a idade percebi que me arrancaram à força de uma vida que estava só a começar. Tinha feito a 1ª classe, andava feliz, realizada. Tiram-me o bolo da mão e só tinha dado uma trinca.

Foi duro conhecer a Mãe-Pátria. É impossível esquecer a Colónia onde nasci. Foi um sonho de menina que morreu com uma tal Revolução.

Gui

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:19 | Comentários (7)

7 anos

25 de Abril de 74: idade 7 anos, curiosidade estranha pelo nervosismo inicial da minha avó, que cresceu para uma alegria incontida, à medida que as horas do dia caminhavam definitivamente para a liberdade.
Os telefonemas, os abraços, a multidão desordenada; a minha tia-avó que veio do Porto e que se perdeu de nós no desfile do 1º de Maio; os tiros furtivos de alguns pides desesperados e o medo estampado da minha mãe dentro de um carro a proteger os seus filhos; a alegria do meu Pai e a inocente compreensão que as ruas afinal tinham sido construídas para viver!

António Machado

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:17

Amanhã, como já devem saber, é feriado. Não há aulas.

João, 14 anos, arrebita como um cão de Pavlov ao ouvir a sineta. Interrompe o papelinho que estava a escrever para entregar à Rita, amiga da Beta, destinatária de tão ardorosos ditos, e olha fixamente para o professor. Ele já sabia que era do 25 de Abril que se tratava. O 25 de Abril!! O que imediatamente lhe ocorria eram as corridas de atletismo e de ver os mais velhos a jogar à malha, isso quando não chovia. Mas era do tio Elias que se lembrava. O tio Elias!!! Militante do Partido Comunista, “bon vivant” e sempre com uma piada provocatória na ponta da língua. Grande dinamizador das comissões democráticas eleitorais e grande “pichador” de paredes e afins. “Abaixo o regime. Viva a Liberdade” valeram-lhe ficha na PIDE, várias noites a dormir de pé nos calabouços da esquadra de Alcains e um bilhete de ida para a guerra. O Padre Álvaro, seu irmão e tio do João, safara-o sempre. Por descargo de consciência, dizia. Lembrava-se da frase que, segundo o seu pai, o tio Elias disse ao Tio Álvaro logo após o 25 de Abril: “Olha, agora sou eu que te posso safar. Não te preocupes e diz aos teus amigos para não se preocuparem. A liberdade é para todos, irmão”

Rodion

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:16

A minha primeira noitada

A 24 de Abril de 1974 era eu um puto zarolho com 8 anos acabados de fazer, em tratamento oftalmológico no Porto, praticamente alheio aos detalhes da vida política do meu país. Fui para a cama cedo, numa pensão na Rua da Alegria, porque no dia seguinte tinha tratamento de manhã.

Não tive. O consultório, para grande surpresa minha e da minha mãe, estava fechado, sem sequer uma nota a dizer o porquê, embora as ruas desertas pusessem na situação uma nota a mais de estranheza. Pusemo-nos então a andar pelas ruas do Porto à procura de respostas, e obtivemo-las sob a forma de um trio de raparigas felizes e exaltadas que nos explicaram que estavam a prender pides e que havia tiros algures lá mais pra baixo, antes de se encherem de desconfiança sobre a natureza política da minha mãe, que nesse dia tinha resolvido vestir-se burguesmente com um casaco de peles.

Ainda insisti várias vezes para ir ver o que se passava, mas sem sucesso. As mães são assim, têm a mania de proteger os putos mesmo contra a vontade deles.

Restou-me(-nos) acompanhar os acontecimentos pela televisão, numa sala minúscula apinhada de actores. Bebeu-se, chorou-se e riu-se muito naquela sala. Foi a minha primeira noitada.

Jorge Candeias

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:15 | Comentários (2)

O meu 25 de Abril e o do meu irmão

Tenho sessenta anos e sempre vivi em Coimbra. Por motivos que não interessam, agora, para a história, nessa altura, ainda andava na faculdade, mas já trabalhava. Quando acordei nesse dia e me dirigi para a faculdade, havia uma agitação na rua, e um burburinho desusado. Os nossos Professores, estavam tão felizes como nós e depois de nos abraçarem, mandaram-nos para a rua, dizendo que tudo tinha mudado e para gozarmos o dia. Depois, quando fui para o trabalho, pensei no meu irmão mais novo, que estava precisamente na tropa. Conhecendo-o, como eu o conheço, fiquei com a convicção que quando nos encontrássemos, de novo, ele tinha feito o 25 de Abril todo sozinho... e foi mesmo assim que ele me contou: esteve na tomada do ralis, da televisão etc, etc... ( as histórias dos homens que fazem tropa...). Claro que não fez tudo sozinho, mas fez o que devia tal como a maior parte dos seus colegas. É também a esses anónimos soldados que devemos esse dia e os outros que se seguiram. Foi um tempo glorioso, um tempo de esperança e de alegria, em acreditámos, mesmo, que tudo ia mudar. Lembro-me que um dia, (creio que foi o primeiro 1 de Maio) eu ia numa manifestação e passámos junto dum cabeleireiro, estava uma senhora à janela, com a cabeça coberta de rolos, e começou a gritar: tirem-me isto da cabeça, que eu quero ir para junto daqueles companheiros! E veio feliz e contente. Era assim, também, o tempo de ousar, de experimentar, de quebrar amarras, tão apertadas e às vezes, tão ridículas. E pronto foi mais ou menos assim.

Fátima

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:14

Espaço de Sonho

No dia 25 de Abril de 1974 eu ainda não tinha nascido. O meu Abril, aquele que me formou, foi criado pelos meus pais, pelos valores que me transmitiram, pela festa que faziam sempre que se comemorava o Dia da
Liberdade. Lembro, com demasiada saudade, os ramos de cravos vermelhos com que a minha mãe enchia a casa, estivéssemos ou não, em Abril. Lembro quando me mostraram a voz quente do Fernando Tordo a cantar a poesia de José Carlos Ary dos Santos: “O povo não é livre em águas mornas / Não se abre a Liberdade com gazuas”. Lembro-me de ouvir, com eles, vezes sem conta, Zeca Afonso, exemplo máximo dos trovadores de Abril. Talvez por isso, ainda hoje me sinta um “Filho da Madrugada”.O 25 de Abril é, para mim, um espaço emocional, porque não o vivi. Um espaço de sonho, de inocência, de acreditar que tudo é possível. O primeiro momento, o momento fundador, de todos os ideais em que acredito. Liberdade. Democracia. Solidariedade. Paz. Neste dia, 25 de Abril de 2004, quero dizer obrigado e prestar homenagem aos militares que souberam dizer basta. E aos meus pais por terem criado, para mim que só nasci depois, esse espaço de sonho.

Serrinhas

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:13

Quando o Medo acabou!


A Mãe: ACORDA, ACORDA!!!! Está ali o António (O Namorado) a dizer que houve um golpe de Estado.

Eu (estremunhada): Ah sim? E já mataram o Marcelo?

O Namorado: Não, que disparate! Acho que está no quartel do Carmo com os outros ministros.

Ligámos a rádio: AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS.

Tinha começado a Festa e nós ainda não o tínhamos percebido. Não sabíamos ainda se o golpe era de direita ou de esquerda. Ao longo da manhã, a música que a rádio passava foi-nos explicando que o golpe não era de direita. O Zeca, O Adriano, O Zé Mário Branco, O Sérgio Godinho, as vozes e as cantigas que tantas vezes tínhamos ouvido às escondidas, estavam ali a dizer que as coisas estavam a mudar, que finalmente íamos poder falar à vontade sem receio que um Pide nos estivesse a ouvir e nos denunciasse. O Medo, que durante 50 anos nos tinha tolhido a voz e os movimentos, tinha sido derrubado. Finalmente derrubado!

Fomos para Lisboa. Para o Largo do Carmo. Já estava cheio de gente que como nós queria gozar da Liberdade acabadinha de chegar.

Graça

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:12

Inconformidades

25.04.74. Tinha acabado de fazer 11 anos.

Do regime de então, nada sabia mas, duas situações por mim vividas nessa época, anterior à revolução, acompanham-me até hoje.
Um casal, amigo dos meus pais, na época com 30 e poucos anos, tinha sido preso.

"Que raio, pensava eu, presos são os ladrões e os assassinos. Mas têm os meus pais amigos desses?"

Nunca compreendi essa prisão... nem nunca tive coragem de perguntar (não fossem eles ladrões).

Na minha inocência, ninguém era preso por pensar ou dizer, diferente do regime.

Nem sabia que havia regime. Vivíamos pacatamente e tinha uma infância feliz.

Numa altura, em época de eleições, pergunto à minha avó, mulher culta, instruída e com profissão, porque não ia votar?

Não vale a pena, foi a resposta. E o avô, vai porquê? Vai porque é obrigado... O meu avô era oficial da marinha.

Mais uma vez, não questionei.

A verdade, é que ao longo destes 30 anos, nunca esqueci estas 2 situações, pouco conformes com a vida em democracia.

Ana Rita

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:11 | Comentários (6)

A blusa vermelha de gola alta

Só me lembro de ter vestido uma blusa vermelha de gola alta. No liceu já estava preparada uma manifestação de alunos e professores . A malta rumou toda para a cidade e a manif foi engrossando até chegar ao centro. Acho que fomos todos correndo. A cidade estava cheia de pequenos comícios. Mas o que a malta nova queria mesmo era dar cabo da sede da Pide. E foram os jovens que primeiro lá chegaram. Toda a gente lançava pedras, imprecações e ameaças para a porta de ferro, da sede, em Portimão. Eu era um puto afoito, e talvez por isso me tenha aproximado da porta. A primeira cuspidela de asco e o primeiro pontapé foram meus, esse é o meu orgulho. Depois foi a destruição completa, a malta não quis saber de documentos, nem nada, retratos do Tomaz, do Tenreiro, do Caetano, saltaram todos em fanicos.

A seguir a esta azáfama, que horas seriam? Só me lembro de estar com o carpinteiro Joaquim na sua oficina, a serrar madeira e a pintar painéis para a manifestação que ia partir para Lagos. As palavras de ordem, tinha-as na cabeça, mas escolhi duas, que pintei a negro sobre o tabopan: “Em Luta pelo Pão!”; “Por um Regime Popular”.

Helder

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:10

Ter 17 anos já não era a mesma coisa

Fez ontem 30 anos...
Eu tinha dezassete, e sete dias antes despedira-me daquele que deveria ter sido o meu primeiro filho, porque era inconcebível tê-lo sem ser casada.
Eu tinha dezassete, e fui ver um filme ao Tivoli, e no dia seguinte, de manhã, escrevi na minha agenda: "Ontem, enquanto eu estava a ver 'A Golpada', parece que deram a golpada nisto tudo"...
Isto tudo era ... tudo: falar baixinho, forrar as capas dos livros, ver filmes "cortados", contar anedotas do "cabeça de abóbora" e achar que isso era ser "do contra", fugir de casa e voltar recambiada porque ameaçaram o meu namorado com a polícia, fazer sexo às escondidas, amar desesperadamente e não ter esperança no futuro, ver-me, 18 anos depois, a despedir-me do meu filho que ia preso pela PIDE, ou para a guerra, se o tivesse e fosse um rapaz (é mesmo verdade que isso me aterrorizava: apesar de nas conversas segredadas dizermos entre nós que o regime estava podre e ia acabar por cair, era impossível imaginar esse dia - afinal já tinha durado toda a nossa vida e as vidas dos nossos pais...)

Faz hoje 30 anos...
Eu tinha dezassete, fui para o liceu e não houve aulas, fiquei no café à espera de novidades, ninguém tinha a certeza de nada, mas dizia-se muita coisa. E depois voltei para casa e vi a Revolução na televisão, porque a minha mãe não me deixou sair (ah! se fosse hoje!...).

Mas no dia 26...
Eu ainda tinha dezassete anos mas, de repente, ter dezassete anos já não era a mesma coisa. E as ruas já não eram cinzentas, e também já não eram perigosas, porque aquilo que as tornava cinzentas e perigosas tinha acabado naquela estranha quinta-feira. E fui finalmente para a rua, nesse e em todos os dias seguintes, na vertigem da liberdade e da alegria, porque a rua já não era um "lugar para", era um "lugar onde"...

Ah! E um ano e três meses depois, o meu (outro) filho acabou por nascer!

Nikê

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:09 | Comentários (2)

A minha emissão radiofónica

Lembro-me de um dia 25 de Abril algures no meio da década de 80, altura em que os ânimos já se tinham acalmado e o país entrava nos primeiros anos cavaquistas. As comemorações estavam a ficar cinzentas e ritualizadas, contrastando com as festas coloridas dos anos que se seguiram à revolução. Recordo o colorido desses dias sempre solarengos. As cores dos cravos e das tintas que usávamos para pintar, até à exaustão, cravos em canos de espingardas. Lembro-me dos torneios desportivos, das corridas e das medalhas. Eram dias de vermelho e verde que coloriam as paredes híbridas dos prédios sem cor dos subúrbios da Margem Sul.

A partir da segunda metade dos anos 80 as festas deixaram de se viver nos bairros e nas freguesias e tornavam-se cada vez mais institucionais. Já não brotavam cravos nas paredes e marquises do Feijó. Por detrás do meu prédio existia um descampado que resistia à fúria da construção. Neste pedaço de terra passávamos dias a jogar à bola e a comer o pó levantado pelas tropelias. Era uma ilha rodeada de prédios. Alguns ainda estavam em construção e serviam de castelos para a nossa imaginação.

Contudo, nesse dia 25 de Abril já não se sentiam os sons e as cores da festa. Naquele bairro era um dia igual aos outros. Um feriado vivido em casa ou no deslumbramento dos primeiros centros comerciais. As festas decorriam nas cidades e o Tejo era um barreira quase intransponível que tornava Lisboa muito distante para um adolescente da Margem Sul. Recorri aos poucos discos que tinha em casa e que ouvia numa daquelas aparelhagens com gira-discos e gravador incorporado. Lembro-me particularmente de dois: o single da Grândola Vila Morena do Zeca Afonso e um LP de Adriano Correia de Oliveira “Gente Daqui e de Agora”, que por se encontrar tão riscado fazia saltar a agulha em algumas faixas.

O fio das colunas da aparelhagem era comprido e chagava à janela que dava para o descampado. De repente o som dos discos do meu pai entoou por todo o quarteirão durante duas ou três horas. Organizei uma transmissão radiofónica a partir dos poucos discos que tinha. Alguns sons de Abril saíam do altifalante da aparelhagem e espalhavam-se contra o betão do subúrbio. Senti que algumas pessoas que habitavam aquelas paredes poderiam estar a ouvir. Tentei levar aquilo a sério, tendo o cuidado de seleccionar as faixas adequadas, o que requeria alguma perícia pois tinha de acertar com a agulha no sítio certo. Ninguém reclamou do barulho e a música terminou ao entardecer. Naquele dia 25 de Abril fui eu que dei cor ao bairro com a minha emissão radiofónica.

Renato Carmo

Publicado por danieloliveira em domingo 25 abril 02:08

Liberdade, liberdade


Anónimo: A Vontade Popular, Movimento Democrático Português (MDP), Abril de 1974 Em Abril, todos os dias uma nova imagem da revolução.

Publicado por ruitavares em domingo 25 abril 01:59 | Comentários (1)

abril 24, 2004

Confissões revolucionárias

Nasci numa família de camponeses migrados para Lisboa nas décadas de 50 e 60. Poucos tinham mais do que a "instrução primária", mas a aldeia ribatejana de onde vieram tinha uma tradição republicana, oposicionista e de esquerda com raízes no início do século XX. Um dos meus tios foi preso diversas vezes, uma delas por participar em comemorações reviralhistas do 5 de Outubro, e mais tarde por suspeitas de pertencer ao Partido Comunista Português. Na verdade a única prova encontrada em casa dele havia sido um cabeçalho do Avante! que por azar tinha ficado esquecido, já não sei se debaixo de um colchão. O resto das coisas – cassetes, livros, etc. – tinha já sido enterrado num quintal insuspeito uns meses antes. Tudo isso tinha, contudo, pouquíssima importância, até porque o juiz que o condenou dormiu durante praticamente o tempo todo do julgamento. No fim abriu os olhos e proferiu as sentenças. O meu tio apanhou dois anos de prisão.

Em 1972, quando eu nasci, esse meu tio estava preso no forte de Peniche. No dia 15 de Agosto desse ano, com pouco mais de quinze dias, os meus pais levaram-me à cadeia para que ele pudesse ver o seu novo sobrinho. A minha mãe conta com orgulho que a dado momento os outros presos pediram aos familiares que se afastassem para que pudessem ver aquele recém-nascido enquanto ela me mudava as fraldas numa mesa ali mesmo no parlatório. Alguns daqueles presos estavam ali há anos; ver um bébé era ver um sinal da vida lá fora. Ou talvez, como eram comunistas, estivessem apenas a pensar no pequeno-almoço.

Foi essa a minha primeira acção de luta anti-fascista e de solidariedade para com os presos de opinião: deixar que me mudassem a fralda como sinal de que um dia haveríamos de sair daquela merda. Sei que não é grande coisa, mas fiz o que pude.

Uma estranha corrente freudiana liga este episódio a um outro ocorrido já depois da revolução: a minha primeira intervenção numa manifestação. Toda a família sabe que aconteceu num 1º de Maio, mas há divergências sobre se foi em 74 ou 75. A minha mãe acha que foi no grande 1º de Maio de 1974, e garante que esse foi o dia em que deixei de usar fraldas (viram?).

Aconteceu assim: perdi-me da minha família e as pessoas que me encontraram a chorar levaram-me até ao palco. Lembro-me de caminhar pelo meio de pernas de adultos que me pareciam gigantes, provavelmente políticos importantes. Puseram-me o microfone à frente da boca e perguntaram-me como me chamava, ao que eu respondi como tinha aprendido, repisando mecanicamente todos os meus cinco nomes. Não consta que as massas tenham ficado muito galvanizadas, mas pelos menos os meus pais e os meus quatro irmãos mais velhos chegaram a correr com grandes sorrisos e felicitaram-me muito.


(O revolucionário sem fraldas)

Chegado a este ponto, parece que já estou a ouvir o típico comentador de direita do Barnabé a perguntar-me onde é que eu estava no Verão Quente de 1975 se não a ocupar terras arduamente adquiridas por honestos cidadãos. E, por incrível que vos pareça, era exactamente isso que eu estava a fazer aos três anos. Não tenho aqui à mão uma fotografia muito goyesca que mostra o pessoal da aldeia a invadir a Quinta do Brinçal, com o meu pai em cima de um reboque erguendo uma forquilha. A Quinta do Brinçal era posse de um senhor chamado Barbieri Cardoso, que caso nunca tenham ouvido falar era um competente e trabalhador PIDE com uma brilhante folha de serviços, incluindo o momento alto da sua carreira que foi o envolvimento no assassinato de Humberto Delgado. Curiosamente, ele também se tinha limitado a ocupar ilegalmente aquele terreno. Mas os seus altos serviços à Nação, quem sabe o dedicado sadismo com que mandava torturar os presos, fizeram com que esta fechasse os olhos a uma ocupação que foi feita sem arruaça nem recurso à ralé.

O meu Verão Quente foi então passado a perturbar a economia do país com as terríveis consequências que conhecemos e que hoje em dia explicam tudo o que de errado acontece em Portugal, desde os comboios atrasados à falta de respeito. Foi assim: todos os dias vinha uma camionete da Azambuja que levava os miúdos todos a nadar à piscina que tinha pertencido ao tal senhor PIDE. Era uma piscina redonda que não dava grande jeito para ter aulas. De qualquer forma, foi a primeira em que nadámos, tanto eu como muitos miúdos das aldeias em volta.

Estávamos na fronteira entre Azambuja e Rio Maior, e nem nos dávamos conta de que se o país entrasse em guerra civil se partiria ao meio exactamente por ali. Nós viveríamos num paraíso socialista e o leitor para lá da terra das mocas num Iémen do Norte chileno, com o Cónego Melo como grande Ayatollah e os senhores do ELP como pinochês.

Publicado por ruitavares em sábado 24 abril 23:59 | Comentários (10)

R de inconsciente

A 25 de Abril de 1974 eu tinha 2 anos e 8 meses. Sem memória, imagino um dia pachorrento em Moncarapacho (concelho de Olhão), no tempo rural do meu avô, grandes portadas fechadas. Muitos como eu que aqui escrevem têm esta memória por procuração. Demasiado pequeno para me lembrar do dia, ainda captei qualquer coisa depois, senti o PREC como a criança que era. A minha memória menos fragmentada data realmente de 75-76, sobretudo com os meses passados em Árgea, perto de Torres Novas, na cooperativa Comunal. Apercebi-me mais tarde de como havia ali uma energia social extraordinária que se misturava com as histórias pessoais de cada um. Dois tumultos. O meu, do que me lembro, tinha a ver com prementes angústias de separação.
Mesmo se isso tem um lado angustiante, uma das coisas bonitas do 25 de Abril para mim é esta coisa de procurar recordações de menino. Posso fazer analogias com a revolução e a sua ingenuidade. Uma mitologia de ricos e GNR’s maus, e povo bom. O facto de eu não me lembrar do 25 de Abril como adulto abre mais a porta à fantasia e à ausência da decepção política característica do meio familiar em que nasci, o princípio da realidade (25 de Novembro). E faz de mim em certa medida um nostálgico sem objecto. Ou de um objecto deslocado, mas fundamental, ligado à construção da minha história. Assim, o meu 25 de Abril não deixa de ser real, presente. Testemunha de testemunhas, vivo esse dia através de emocionantes imagens que nunca poderei esquecer, como a do meu pai contando o seu 25 de Abril passado fora de Portugal, na cama de um hospital, em lágrimas, vendo na televisão a libertação dos seus amigos presos políticos. Com marcas tão reais e vivas, parciais mas históricas, nunca me entrarão na cabeça revisionismos badamecos.

(Tinha, para seguir os meus amigos barnabés, preparado uma foto de época, mas dificuldades técnicas impediram a publicação. Eu conto-vos em formato jpg: estou em Árgea, a olhar para vocês com um sorriso meiguinho e franco. Estou deitado de barriga para baixo, as mãos apoiadas no chão levantando o meu tronco até bem acima. Mas o facto mais saliente é que estou com a maior carecada que se possa imaginar porque tinha apanhado uma camada de piolhos ou lêndeas e, tal como a minha irmã, levei uma radical tosquia que detestei. E no entanto aqui estou francamente contente. Será pelas macacadas do meu pai, que tira a foto?)

Publicado por andrebelo em sábado 24 abril 23:18 | Comentários (6)

Os tios de Abril

Hoje li uma reportagem no “Expresso” sobre as famílias que depois do 25'4 fugiram de Portugal para o Brasil. Li que até houve uma senhora que teve de fazer bolos para fora. Já soube de gente que teve de vender pratas para os filhos poderem estudar no em colégios decentes, onde houvesse alguma ordem. Tinham, antes da bagunça, empresas da família, arduamente construídas com um empurrãozinho do tio Salazar e do tio Caetano, que os protegiam da concorrência de uns emergentes sem berço, garantindo um selecto monopólio. Às vezes também eram obrigados a um maçador mas inevitável telefonema aos senhores da António Maria Cardoso, para resolver alguns excessos reivindicativos de alguns funcionários ingratos, influenciados por comunas agitadores. Esta gente, com vidas inteiras de trabalho, comeu o pão que o Diabo amassou, no Brasil. É que os meninos nem imaginam. Felizmente tudo se resolveu. Agora, eles já estão outra vez lá na empresa, elas até ganharam o gosto e agora é uma canseira a organizarem “eventos” e, lá no colégio, os piquenos voltaram a usar farda. Tudo está bem quando acaba bem. Só falta uma coisa: está cada vez mais difícil arranjar criadagem. Não dava para resolver isso? Sei lá, tavez com uma lei qualquer.

Publicado por danieloliveira em sábado 24 abril 19:03 | Comentários (22)

Nick Má-fé contra o blogue Barnabé (VIII)

Precisava natureza pra assistir àquela briga não sofrer do coração não ter verme nem fadiga porque só em ver de longe desarranjava a barriga

O desfecho deste caso começou na madrugada quando o mau aparecia pela forma costumada dizendo que era alguém logo ouvia: “não és nada!”

Esta foi a condição de acabar com a peçonha cada nova falsidade o enchia de vergonha encontrava um espelho via a própria carantonha

Porque a nova personagem tinha poder especial por trás do anonimato duma forma original o carácter se encontrava duma pessoa real

Pela boca morre o peixe diz o povo e tem razão a sua curiosidade ficou Má-fé a roer por saber quem era aquele que o fazia assim sofrer

Já pedia e implorava diz quem és, dá-me um sinal! mas o blogue Barnabé fez-se nick universal por cada um que postava assinava um maralhal

Debaixo do nick novo viu-se algo de diferente ele não representava um ou outro propriamente mas sim a sinceridade e uma certa urbanidade que pode ter toda a gente

Má-fé foi-se ao meio-dia com o rabinho entre as pernas nunca mais por cá foi visto voltou prás terras eternas onde vive o esquecimento das nossas coisas modernas

E o sangue prometido? pergunta vossa excelência que chegou até ao fim tudo leu com paciência eu respondo foi um truque pra aumentar a audiência

[Inspirado em folheto de Erotildes Miranda dos Santos, o Trovador Nordestino]

Publicado por andrebelo em sábado 24 abril 16:42 | Comentários (1)

[XL] Os excessos de Abril

[Segue-se um artigo do amigo do Barnabé, e historiador, Luís Trindade, sobre os excessos de Abril. Trata-se de um ensaio de história cultural do nosso passado recente – uma síntese argumentativa, extremamente bem concatenada, que nos leva de Mário de Carvalho a Eduardo Lourenço, João Martins Pereira e José Gil. É leitura para imprimir e ler com atenção; o link ficará ali também no Barnabé XL. É uma co-publicação, que muito nos orgulha, do Barnabé a revista História.]

Trinta anos depois é praticamente impossível pensar o 25 de Abril. A realidade da revolução está de tal forma coberta de sentidos históricos que a antecedem e ultrapassam que podemos apenas lê-la como símbolo no século XX português. Só a partir do passado dictatorial e projectando-a no futuro democrático é que parece ser possível falar do momento historicamente mais denso da nossa contemporaneidade. O Estado Novo e a democracia ensombram como duas transcendências essa densidade, esvaziando-a. A revolução fica assim condenada, por excesso ou por defeito, a uma confrontação com realidades que não são exactamente a sua, ora como conjunto de conquistas à luz da privação salazarista, ora como momento de excessos perante uma democracia assente em instituições representativas estabilizadas.
Seria ingénuo pensar que o mesmo não se passa com todos os acontecimentos históricos. Seleccionamos sempre os nossos objectos por uma relevância que eles só mostraram ter quando cessaram, e explicamo-los como corolário de antecedentes. Neste caso, porém, o que me parece mais interessante é o modo como os meses da revolução, o período do Processo Revolucionário em Curso (Prec), são, nos balanços que se fazem sobre Portugal no final do século XX e inícios de XXI, ofuscantes: tudo se passa como se o 25 de Abril fosse uma síntese onde se dilui a ditadura e encerra o destino da democracia. É, paradoxalmente, nos discursos mais conservadores que se atribui um maior poder revolucionário ao Prec, como se tivesse conseguido, de um dia para o outro, fazer como se o salazarismo nunca tivesse existido e, seguindo por uma lógica semelhante, como se todos os atavismos estruturais da sociedade portuguesa fossem uma espécie de herança pesada daquele ano e meio.
A possibilidade de pensar Abril não como marca mas enquanto conjunto de coisas que aconteceram e que foram ditas pressupõe, antes, uma interpretação da carga simbólica que instrumentaliza a revolução e a força a um papel determinado na história de Portugal. O senso comum sobre esse papel tem-se deslocado ao longo dos últimos trinta anos: o próprio momento revolucionário viu-se como “libertação heróica de um povo oprimido”, a institucionalização da democracia e a integração europeia entendeu-o como “embriaguez libertária de um povo menorizado”, finalmente, à medida que a sociedade se despolitiza, é cada vez mais frequente um entendimento da democratização como fenómeno natural e inevitável, e portanto da revolução como retardador de um processo que poderia ter decorrido com mais eficácia e menores custos.
A questão que proponho neste artigo, aquela que parece necessário anteceder uma história não projectiva e não teleológica da revolução é, então, mais ou menos esta: onde está o 25 de Abril no século XX português? Trata-se de enfrentar abertamente as várias utilizações da memória da revolução e procurar devolver um momento histórico à sua imanência, de recuperar o seu modo de funcionamento, por enquanto coberto pelos grandes discursos de síntese e balanço da história de Portugal. E, sobretudo, avaliar a sua excepcionalidade nesse contexto, relacionando-o com as condições do país que gera os discursos que parecem situá-lo fora de uma suposta normalidade portuguesa.

Quem tem a palavra

No final de Formas de legitimação do poder no salazarismo, uma análise ao modo como a manipulação dos discursos impôs politicamente a figura de Salazar, o autor, José Rebelo, conclui com uma síntese desafiante: «Ressalvando Abril, em que se notam ainda sinais de um modernismo tardio, poderíamos dizer que o salazarismo fez a economia da modernidade. Com e por causa do salazarismo, o pós-modernismo surge, em Portugal, no prolongamento da pré-modernidade.» (Rebelo, 1998, p. 346) Aquilo que o salazarismo fez, esta “economia da modernidade”, ou seja, a privação do país de um determinado processo histórico, fê-lo antes de mais discursivamente, porque a própria modernidade é um discurso que procura ser a ordenação do nosso tempo.
É bem conhecido o modo como Salazar desenhou os contornos dessa privação: «Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século, procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.» O “século” de que fala Salazar é então esse tempo de que nos falam os discursos da modernidade e que se constrói sobre o desafio de abrir um espaço de discussão política conflitual onde se decide o destino das sociedades.
O que há de paradoxal no tipo de discurso salazarista é a mesma coisa que dá ao autoritarismo instaurado na passagem dos anos vinte para os anos trinta a eficácia que lhe permitirá durar meio século. Apesar da forma negativa – todo o discurso invoca simplesmente o que não se pode fazer – aquilo que não pode ser discutido fica dito, e assim inscrito como visão ideológica obrigatória. Deus, a Pátria ou a família estão antes de uma opção, pertencem a uma vivência natural onde a História, a moral e o dever são dimensões constituintes da existência de tal forma que nem precisam de ser invocados. Mas só a partir do momento em que Salazar os diz, situando-os, pela negativa, no seu projecto político, ou seja, só a partir do momento em que são ditos num enquadramento ideológico, é que podem verdadeiramente ser vividos nessa naturalidade.
A indiscutibilidade que Salazar impõe no seu discurso (e que o Estado Novo impõe nas práticas políticas) é, no sentido em que sugere José Rebelo, o retorno à forma política da pré-modernidade, assente no “conforto de certezas” transcendentais. Mas se o discurso de Salazar preconiza um conteúdo alheio à modernidade, já o seu poder legitimador é absolutamente moderno. O Presidente do Conselho fala então para o país, na ocasião do décimo aniversário da Revolução Nacional, em 1936, pela rádio, mas lê o seu texto. Funde, no mesmo acto, a intensidade da escrita, que é o suporte das grandes ideologias da modernidade, com a extensão do novo meio massificador.
Em outra análise dos discursos do salazarismo, José Gil estabelece com mais rigor o poder, moderno, que os discursos de Salazar têm na imposição do silêncio político pré-moderno: «há nele [no escrito de Salazar] a autoridade do colectivo, assim como a representação da palavra individual captada por uma instância social. O escrito pressupõe portanto a presença, não consciente ou “inconsciente”, do espaço público da comunicação: o seu silêncio deixa falar esse inconsciente quando se lê (…). Do mesmo modo, aquele que escreve ouve-se falar, mentalmente, como se dialogasse com outro; e o silêncio que envolve esta fala-palavra constitui a marca da interiorização do espaço público e da sua incorporação no texto escrito.» (Gil, 1995, p. 18)
O Estado Novo prolonga-se dos anos trinta aos anos setenta, o que significa que foi sob a sua autoridade que em Portugal nasceram e se difundiram o cinema sonoro, a rádio, a televisão, os grandes meios, enfim, da chamada cultura de massas que, assim, existem geneticamente em Portugal esvaziados de qualquer conteúdo político. Trata-se de duas coisas. Primeira: houve cinema, rádio e televisão em Portugal, bem como jornais de grande circulação que ocuparam eficazmente um imaginário massificado. Segunda: nas condições da indiscutibilidade salazarista tudo isso existiu no vazio político. Por si sós estes meios não têm capacidade de politização (mas podem servir poderosamente a despolitização). Para que pudessem servir como espaços públicos de combate político seria necessária (mas o discurso de Salazar mostra a sua impossibilidade enquanto durou a ditadura) uma permeabilidade a discursos ideológicos alternativos, que existiram, de facto, em suporte escrito (apesar da censura, o marxismo conseguiu tornar-se em cultura política dominante no meio intelectual e literário) mas que não penetravam nos grandes meios de massas.
Percebe-se que a revolução tenha sido, antes de mais nada, uma reapropriação dos discursos, a abertura à discutibilidade. José Rebelo, no entanto, sugeria que por um breve momento. Logo esses discursos, assentes na palavra escrita, abriram-se para uma nova época em que, aparentemente, perderam o seu poder. Como se, no momento em que se podia voltar a preencher a política esvaziada pela imposição da indiscutibilidade, falar se tornasse num acto vazio. A brevidade desse momento moderno, em forma de revolução, em que uma larga comunidade partilha um espaço público através dos meios de comunicação de massas discutindo política (e fazendo política um pouco por todo o lado), ou seja, ideologias com origem no campo intelectual da escrita, essa brevidade resulta, simultaneamente, do início de uma nova era dominada já não pela forma escrita, mas também do facto de a modernidade não ter podido deixar em Portugal um lastro de ideias materializadas em hábitos políticos, participação cívica e ideias em debate.
Em progressiva intensidade à medida que se aproximou o final do século XX, o domínio crescente do entretanto chamado audio-visual no espaço público português, funciona em parte como consagração (porque o tom é celebratório e o volume ensurdecedor) do vazio político instituído pelo salazarismo. Não necessito de repetir os protestos constantes, mas marginais, que se fazem contra a estupidez e incultura visíveis antes de mais na televisão. Mas o modo como o romancista Mário de Carvalho inicia a sua recente sátira, quase três décadas após a recuperação da palavra, ao país transformado em democracia pelo 25 de Abril, em Fantasia para dois coronéis e uma piscina, relaciona-se directamente com aquilo que Salazar dizia em 1936, ao situar-se novamente no plano da discursividade: «Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. (…) fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-