Os líderes mundiais são de facto uma espécie perturbante. Antes das eleições na Tchetchénia, o governo Putin garantia que a queda dos dois aviões russos se devia a acidente. Depois de verem garantida a eleição do candidato apoiado pelo Kremlin, começaram lentamente a ser divulgadas provas de que havia sido um acto de terrorismo da responsabilidade dos separatistas tchetchenos. Um dia depois, em acto público com Jacques Chirac e Gerhard Schroeder, estava encontrado o novo culpado: Al'Qaeda. Extraordinariamente, os líderes francês e alemão responderam prometendo mais apoio político a Putin para resolver o problema... tchetcheno. Isto quando por diversas vezes instituições europeias divulgaram as piores suspeitas sobre a forma como a Rússia lidava com o problema tchetcheno.
Muitas felicidades para o Zé Mário e para a Margarida da parte do Barnabé!
Feito com tesoura e cola, é isto que a discussão entre o Pedro e o "How far can he get?" Luciano me recorda. (Longe do Calvin, claro está, defender que Kerry não deve responder taco a taco a Bush, nem lançar mãos de todos os meios possíveis e imaginários, justos ou injustos, para ganhar a eleição).
Luciano,
Espero não te estar a atrasar na arrumação das malas. Um ponto de ordem sobre as contradições do John Kerry. Eu entendo o incómodo dos apoiantes de Bush perante o facto da campanha de Kerry ter usado e abusado do seu passado militar. Afinal de contas, ele é um veterano condecorado (e recordo-te que as medalhas não costumam ser atribuídas de forma negligente: há uma investigação primeiro), enquanto que o primeiro impulso de Bush ao atingir a idade do serviço militar foi meter uma cunha para cumprir serviço na Guarda Nacional (cumprir, salvo seja).
Em segundo lugar, nesta campanha quem primeiro apostou na associação entre o espírito guerreiro e o leadership não foram os democratas mas sim Karl Rove e os estrategas da campanha de Bush.
O pontapé de saída para estas presidenciais foi dado em Maio de 2003, quando Bush aterrou no porta-aviões USS Lincoln vestido à Top Gun e, rodeado de marujos, exclamou: “Missão Cumprida”. A partir desse momento, só se o Kerry fosse parvo é que não puxaria dos seus galões. Além do mais, com as questões do Iraque e do terrorismo a dominarem o dia-a-dia dos americanos – e com os mass media e Hollywood a fomentarem uma visão “glamorosa” da guerra - era inevitável que os democratas usassem também esse trunfo (aliás, ao contrário do que tu dizes, em 2000 o McCain não fez outra coisa se não recordar a sua experiência de POW no Vietname). Enfim, de tudo o que pude ler até agora, e descontando a minha óbvia parcialidade, quer-me parecer que se o passado militar de Bush e Kerry nos diz qualquer coisa acerca do carácter de cada um deles, então o último sai claramente beneficiado. Apresentou-se ao serviço, arriscou a vida pelos seus camaradas, foi ferido, e depois veio a público criticar aquela guerra.
Será que isto faz dele um “inimigo da sociedade ocidental”? Se bem te entendo, o teu ponto é este: todas as guerras são sujas, mas quando os fins são legítimos isso pode justificar o emprego de certos meios. A derrota do fascismo na II Guerra Mundial justificou Dresden, Hiroshima e a aliança com Staline. Donde, a contenção do comunismo na Indochina também justificou o carpet bombing, o napalm, o apoio a ditadores militares, etc. Aparentemente, se o Ocidente tivesse mostrado firmeza logo desde o início, então o fim da Guerra Fria até poderia ter sido antecipado. Mas graças a appeasers como a Jane Fonda e John Kerry, lá acabámos por entregar o ouro aos bandidos. Como isto é uma hipótese impossível de verificar, não julgo que valha a pena tentar sequer refutá-la.
Mas há no teu post tantas observações estapafúrdias que não resisto a alongar-me um pouco mais – até porque algumas delas têm implicações para o actual debate da “guerra ao terrorismo”.
Por exemplo: a questão da credibilidade americana e a “teoria dos dominós”. Um dos últimos argumentos que resta aos defensores da guerra do Iraque (e não só) é este: se os EUA saírem agora isso terá um efeito devastador para a Pax Americana no Médio Oriente, tal como a retirada americana do Vietname em 1975 enfraqueceu a posição mundial dos EUA. Asserção muito questionável: no Sudeste asiático, não houve qualquer derrube de dominós. Tailândia, Malásia, Indonésia, Coreia do Sul, Taiwan, Japão mantiveram regimes favoráveis ao Ocidente. Em relação ao Camboja, recordo-te apenas que quem pôs termo ao regime genocida de Pol Pot foram... os vietnamitas e os soviéticos. Em segundo lugar, se os EUA cederam terreno no Corno de África, Angola, Irão, Afeganistão, e se isso se deveu a um enfraquecimento dos poderes da Presidência, então convém lembrar que a aprovação do War Powers Act (1973) surgiu na sequência das revelações que puseram a nu as mentiras de sucessivas administrações – do envolvimento da CIA na morte de Diem ao incidente (fabricado) no Golfo de Tomkim, aos bombardeamentos secretos do Laos e do Camboja. Portanto, crucificar John Kerry por ter levantado a voz contra os erros políticos que levaram milhares de jovens americanos a perder a cabeça nas selvas do Vietname não faz qualquer sentido.
Em última análise, o empenhamento americano na Indochina ameaçava o objectivo mais vasto da contenção do comunismo: dividiu a sociedade americana, prejudicou relações com aliados, comprometeu perigosamente a imagem dos EUA no exterior. Tudo somado, quase materializou a profecia que supostamente deveria evitar. Sim, em certas circunstâncias os EUA fizeram bem em oferecer um resposta militar ao comunismo. Mas a diplomacia, a propaganda, a ajuda económica ou o apoio a dissidentes podiam ser armas tão ou mais eficazes (e por vezes contraditórias em relação ao uso da força armada).
A força das democracias reside na sua abertura à crítica, à dissidência, ao escrutínio dos actos dos governantes. Acredita que se há algo que me entristece nos debates do pós-11 de Setembro é ver como as pessoas podem perder o sentido das proporções com tanta facilidade. Voltamos à atmosfera mais maniqueísta da Guerra Fria. Acusar John Kerry de ser um “inimigo da sociedade ocidental”? Por favor, tem dó.
Embora eu simpatize com a ala esquerda do PS ainda não tinha dado por mim a dizer cobras e lagartos de José Sócrates. Simplesmente não achava que o homem fosse tão mau como dizem.
Até hoje. Até ler no Público que "Sócrates quer estrangeiros no PS mas sem direito a voto", por uma questão de "prudência" [p. 9 da edição de hoje - não está em linha]. Tão Guterres. Tão PCP. Tão Paulo Portas. Tão português. Tão o que quiserem, mas tão anti-socialista e anti-democrático que me vou dispensar de dizer tudo o que acho de tamanha cobardia, tamanha incoerência, tamanha futilidade. Sócrates ou quer estrangeiros no partido ou não quer; o direito de voto num partido aparelhístico já não quer dizer quase nada; mas quem for militante de um partido democrático tem que ter direito a esse quase nada. Ou Sócrates acha que há muitos estrangeiros politizados que estejam dispostos à humilhação de serem militantes de segunda?
Os outros dois candidatos a líder do PS serão uns tontos se não massacrarem Sócrates por isto. Mas não o devem fazer para não perder votos. Tão PS, no fundo.
Entretanto, a majorette do Governo continua, como lhe compete, a clamar vitória. Hoje, Luís Delgado exulta com a "pouca visibilidade" do barco das Women on Waves, escrevendo mesmo: "O barco vai como veio: sem ninguém dar por ele, e a milhas de distância".
Luís Delgado deve ter fontes privilegiadas.
Mas não é só ele que vive num universo paralelo. O próprio Diário de Notícias parece ter passado por uma contaminação inter-dimensional. Na primeira página, faz a chamada: 'Barco do aborto' obrigado a afastar-se. Um tipo compra o jornal, abre-o nas páginas 18 e 19, onde se encontram os artigos sobre assunto, lê-os da primeira à última palavra, e em nenhum momento encontra o suposto facto que foi chamado à primeira página.
Mas se a chamada ficar sempre na primeira página, mais tarde ou mais cedo acertam.
Doze mortos e pelo menos 53 feridos num ataque duplo em autocarros na cidade israelita de Be'er Sheva. [Ha'aretz][Reuters]

Não vejo a TVI e perdi as declarações de Paulo Portas neste canal de televisão, ontem. O Público transcreve hoje alguns excertos.
Portas, falando da sede do CDS/PP e basculando entre declarações como Ministro de Estado da Defesa e dos Assuntos do Mar e presidente de partido, declarou que o "Mar territorial não é uma selva" e que "amanhã nenhuma autoridade nacional teria legitimidade para combater o tráfico de droga, a pesca ilegal e a imigração clandestina" se ele tivesse deixado entrar o navio, que definiu como "um desafio à legalidade" e um "puro acto publicitário", deixando bem claro que não "é qualquer pressão mediática que faz recuar o Estado".
Eu sei que há pessoas e blogues que se irritam com a insolência de considerar Paulo Portas como sendo de extrema-direita ou comparar as suas atitudes às de um ditador. Mas essas pessoas têm que entender que "democrata" não é título honorífico que vem com os cargos e os fatos de bom corte.
O que se pode dizer de alguém que acha que pode atropelar a liberdade de expressão, que acha que é a ele que lhe compete definir o que é propaganda legítima e ilegítima, e que compara o que ele próprio define como "puro acto publicitário" com o tráfico de droga para manipular a opinião pública e que, finalmente, utiliza a marinha de guerra para impedir a entrada de um barco desarmado de um estado comunitário no nosso país? Não teria sido suficiente realizar uma busca policial ao barco em terra e apreender quaisquer fármacos ilegais em Portugal – se é que os havia?
O "Mar territorial" português não deveria de facto ser uma selva; passou a sê-lo quando Paulo Portas agiu como Rei da Selva. Com esta atitude, Paulo Portas igualou Alberto João Jardim como a maior afronta à democracia em Portugal.
Santana Lopes continua calado.
George W. Bush disse durante a Convenção Republicana que não acredita que seja possível ganhar a guerra contra o terrorismo. Os tipos dos auriculares devem se ter deixado dormir.
Leiam e assinem a petição contra a proibição da entrada do barco das Women on Waves, seguindo o link no parágrafo acima.
Diogo Belford Henriques, n'O Acidental, protesta por aquilo que diz serem insultos do Daniel Oliveira ao Secretário de Estado dos Assuntos do Mar, Nuno Fernandes Thomaz – isto porque o Daniel escreveu aqui no Barnabé que o governante poderia tentar dominar melhor a língua portuguesa, o que não sei bem se é um insulto ou um desejo.
O que é insólito é que para ilustrar o seu texto, Diogo Belford Henriques escolheu um retrato do Almirante Américo Thomaz, quem sabe se familiar do Sr. Secretário de Estado, mas certamente o presidente mais imbecil e subserviente da ditadura.
De facto, o que é entendido ou não como "insulto" naquelas bandas é sempre muito extravagante.
Do Público: "Repreender Alguém Activa Região do Cérebro Associada ao Prazer".
«Quando alguém repreende outra pessoa por transgredir as regras sociais, activa-se uma região do cérebro associada ao prazer, mesmo que não lhe esteja associado qualquer benefício, indica um estudo publicado na última edição da revista norte- americana "Science". [...] "Os nossos resultados sugerem que as pessoas experimentam uma satisfação em sancionar as violações da norma e que a activação do estriato dorsal reflecte a satisfação antecipada da punição", acrescentam.»
Já agora: o artigo da Science está aqui.
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Monsieur Verdoux (1947).
O meu Chaplin favorito. Em exibição no Millenium Alvaláxia.

George Orwell descreveu um dia a Inglaterra (cito de cor) como o país dos subúrbios verdejantes, dos posters anunciando jogos de cricket e casamentos reais, dos homens de chapéu de coco, pombos em Trafalgar Square, autocarros vermelhos e polícias de azul (“all sleeping the deep, deep sleep of England”). Graças à decisão do mayor de Londres de retirar os Routemasters de circulação em 2005, é mais um pedaço desta gentil Inglaterra que desaparece.

Imagem publicada no site das Women on Waves com a legenda Is This a War?
O país ridicularizado, cortesia de Paulo Portas.
Zita Seabra é um caso interessante para os psicólogos estudarem. A necessidade que tem de pedir desculpas pelo seu passado e a forma solícita como se presta a esse serviço (o único que a direita dela pretende) já não é apenas um fenómeno político. Trata-se de uma patologia. Depois de se arrepender de quase tudo, sobrava no seu património a corajosa luta que encabeçou pela legalização do aborto. Ontem, fez o mea culpa que lhe faltava. Não me interpretem mal. Eu acho bem que as pessoas mudem de opinião. Eu já mudei muitas vezes e as pessoas que mais admiro também. Mas faz-me confusão quando, de um passado, nada sobrevive. Sobretudo quando se tratam das convicções mais profundas, as que têm a ver com os costumes e com a moral. E faz-me confusão que Zita Seabra não perceba que, mesmo com todos os erros que tenha cometido, já só tem passado. Se o mata todo, é ela própria que desaparece. E aí, nem a direita a vai querer. Acabará tratada com a mesma dignidade de uma Cândida Ventura ou de um Chico da CUF. Uma curiosidade de alfarrabista.

Perigosamente perto do Guadiana, senhor Ministro.
Ao contrário do que parecem pensar os fanáticos anti-aborto e os partidários de Paulo Portas, dois grupos que cada vez mais se justapõem, a sua causa e o governo português perderam este combate político.
É esta análise micro-política – e não a questão moral ou política mais ampla, que já discutimos aqui muitas vezes – que vou tentar fazer aqui.
Devo dizer que, enquanto defensor da despenalização, não estava com grandes expectativas na chegada do barco das Women on Waves. O caminho do sucesso era muito estreito, e muito nestas acções depende de factores incontroláveis. As organizações portuguesas esqueceram-se de divulgar um nome em português para a missão, o que abriu a porta à designação sensacionalista "Barco do Aborto". Às vezes a boa vontade não chega.
Só que Paulo Portas veio dar um grande empurrão à missão.
Paulo Portas, se estivesse interessado em preservar a actual lei do aborto, teria deixado o barco entrar e demonstraria tolerância, como fizeram irlandeses e polacos. O que nunca poderia fazer seria chamar a atenção para o nosso país como uma espécie de Irão católico. Mas Paulo Portas neste momento já sabe que esta lei do aborto está condenada, porque até no PSD o número dos que a querem mudar aumenta a cada legislatura. E ele próprio nunca teve uma verdadeira ligação que não fosse instrumental a esta questão.
A preocupação de Paulo Portas está em preservar para si a base eleitoral dos "pró-vida", uma das poucas a que se vai poder agarrar depois de ter abandonado os reformados e os ex-combatentes. E os "pró-vida" ficam contentes com este tipo de gesticulação militarista, porque não são suficientemente frios (nem espertos, sequer) para entender o dano que lhes causará a imagem de um barco europeu com meia-dúzia de pessoas desarmadas, escoltado por dois barcos da marinha de guerra. E aplaudem (como certamente na Indonésia houve gente que aplaudiu a decisão de enviar a marinha para barrar o Lusitânia Expresso) sem perceber que estão a prejudicar a sua própria causa. Aplaudem, sem entender que estão a ser usados. Aplaudem, sem perceber que estão a ser derrotados a cada dia que o barco ficar no alto mar.
Curiosamente, acho que ninguém ainda deu os parabéns a Manuel Monteiro. Quando, no início da semana passada, a atitude oficial do governo era de distância em relação à viagem do barco, Manuel Monteiro desafiou (pessoalmente) Paulo Portas a proibir a entrada do barco. No dia seguinte, Paulo Portas anunciou que o barco não entraria, e se não foi por arrasto, bem o pareceu. Paulo Portas prejudicou o entendimento com o PSD, a imagem do país e a própria causa anti-despenalização para se proteger do dano que um partido menor do que o MRPP lhe poderá causar amanhã, caso o PP tenha de ir a votos. O PP e o PND serão partidos a mais para os três por cento que decidem o seu voto pela defesa da vida dos fetos de menos de 12 semanas.
E isto tudo quando nunca ouvimos a Paulo Portas uma única declaração sobre os milhares de portuguesas que se limitam a atravessar a fronteira e ir a Badajoz para abortar. Se eu fosse Manuel Monteiro, a próxima coisa que pediria seria o encerramento da fronteira em Elvas.
O barco da Juventude Socialista que ia visitar o barco holandês foi impedido de sair do Porto da Figueira da Foz.
Correcção: O barco saiu e foi para o mar. Entretanto, parece que a polícia marítima resolveu revistar o barco com um um cuidado invulgar. Pelo erro, ficam as desculpas.
Com um novo elenco, este governo reserva-nos maravilhosas surpresas que nos fazem, por alguns minutos, esquecer a crise, oferecendo-nos momentos de descontracção e humor. Eu quero que esta crise do barco holandês dure muito tempo só para ver na televisão, todos os dias, o Secretário de Estado para os Assuntos do Mar. A imbecilidade estampada no rosto chega a ser comovente. Acompanhar o seu raciocínio é um desafio para o melhor dos charadistas. É verdade que Nuno Thomaz podia dominar melhor a língua pátria, mas não conheço muitos humoristas capazes de proporcionar, em horário nobre, momentos tão deliciosos como esta revelação da política nacional. Que muitos thomazes dêem à costa, que é de boa-disposição que o País precisa.

O ministro da Defesa colocou a marinha de prevenção para o caso do barco da Women on Waves desafiar a proibição de entrar em zona de soberania portuguesa, lê-se hoje no Público. Espero não estar a fazer confusão, mas quando se deu o desastre do Prestige ele não confessou que tinha rezado à Virgem para que os ventos levassem o crude derramado para bem longe da nossa costa? Agora parece disposto a empregar meios aéreos e navais para garantir a defesa moral da nossa soberania. Afinal, o ministro da Defesa está-se a revelar um homem de pouca fé.

Num post sobre a controvérsia que tem rodeado os anúncios alusivos ao passado militar de John Kerry, o Luciano sugere que a pergunta que convinha fazer ao candidato democrata seria qualquer coisa do género: o que pensa o senhor hoje acerca da guerra do Vietname? Aparentemente, se Kerry respondesse que achava mal isso desqualificava-o imediatamente para liderar a América nestes tempos difíceis.
Bem, eu não posso dizer que o cepticismo do meu amigo Luciano acerca do senador Kerry me surpreenda; já o facto de achar que o Vietname foi uma justa causa traída por esquerdistas irresponsáveis é que me faz mais impressão. Não, eu nunca andei com t-shirts do Ho Chi Minh, e também não ignoro as atrocidades que o regime de Hanói cometeu antes e depois da tomada de Saigão em 1975, os crimes do Pol Pot no Camboja. Enfim, ele sabe que em matéria de crimes do comunismo, eu não sou propriamente um negacionista. Mas daí a achar que tudo o que o Ocidente fez para conter o comunismo foi acertado... Caramba, nem o homem que inventou a ideia do containment, o diplomata George Kennan, abençoou a estratégia americana na Indochina. Apoiar uma administração colonial corrupta (a francesa) e sucessivas ditaduras militares sul-vietnamitas não é propriamente algo de que a América se possa orgulhar, pois não? E quanto às “atrocidades” cometidas pelo exército americano? É certo que elas podem não ter seguido um padrão sistemático, ditado de cima para baixo (na maior parte dos casos, foram perpetradas por soldados de 19, 20 anos que não faziam a mais pequena ideia do que andavam ali a fazer), mas e então os raides dos B-52, o napalm, os bombardeamentos secretos do Camboja, onde é que isso fica?
Em última análise, se formos a julgar a descolonização dos impérios europeus pelo que sucedeu no período pós-independência, então o melhor seria que elas nunca tivessem acontecido - essa parece ser a conclusão do Luciano. Que as descolonizações foram quase todas processos traumáticos, para não dizer trágicos, é coisa que eu não contesto. Terão sido prematuras? É possível. Mas, ironicamente, foram os próprios ocidentais que as tornaram inevitáveis. A semente do nacionalismo foi plantada por eles. Não por acaso, as coisas correram menos mal no antigo império britânico (pace Mugabe, Idi Amin e mais uns quantos), exactamente porque os ingleses tiveram o bom senso de perceber que seria mais inteligente chegarem a um compromisso com os nacionalistas, do que contrariá-los. Ironia das ironias, quando Ho Chi Minh proclamou a "República Democrática do Vietname" em 1945, estava rodeado por dois oficiais do OSS americano (antecessora da CIA) e até citou passagens da Declaração de Independência no seu discurso...
E por aqui me fico hoje, que o sermão já vai longo.
A Polónia e a Irlanda proíbem o aborto.
A Polónia e a Irlanda não proibiram a entrada do barco holandês.
A Polónia e a Irlanda não têm a extrema direita no poder.
Women are periodically taken to court for having unwanted pregnancies illegally terminated. [Periodicamente ocorrem casos de mulheres levadas a tribunal por interromper ilegalmente gravidezes não desejadas]
Many Portuguese favour changing the law to make getting an abortion easier, according to opinion polls. [Muito portugueses estão a favor de mudar a lei para permitir que o aborto seja mais fácil, de acordo com sondagens de opinião]
But in the spring, Portugal's centre-right administration used its majority in parliament to vote down proposals by left-wing parties which would have loosened abortion legislation. [Mas, na Primavera, o governo de centro-direita usou a sua maioria no parlamento para recusar propostas dos partidos de esquerda que teriam flexibilizado a legislação sobre o aborto]»
Dica da leitora Palmira.

Invocando a saúde pública, Paulo Portas proibiu a entrada do barco holandês em Portugal. A saúde pública é invocada por risco de epidemias ou contágios. Portas adora falar da lei e da ordem mas, como qualquer pequeno ditador, substitui a lei por expedientes e a ordem pela arbitrariedade.
Coloco aqui e no Barnabé Rebelo de Sousa uma entrevista recente do Le Monde (de 19 de Agosto passado) a Jacques Derrida, o famoso filósofo francês. Uma conversa longa e sobre tudo, da desconstrução filosófica à política mundial, passando pelo casamento homossexual, a relação com a língua e a difícil sobrevivência do pensamento nos nossos dias. E marcada por uma circunstância difícil que torna as suas palavras mais urgentes: a grave doença que o afecta e que o coloca a ele próprio em luta pela sobrevivência.
Jacques Derrida : "Je suis en guerre contre moi-même"
A 74 ans, Jacques Derrida, philosophe de renommée mondiale, poursuit son chemin de pensée avec une singulière intensité, tout en affrontant la maladie. Dans sa maison de Ris-Orangis, en région parisienne, il évoque pour "Le Monde" son oeuvre, son itinéraire et sa trace
P-Depuis l'été 2003, votre présence n'a jamais été plus manifeste. Vous avez nonseulement signé plusieurs nouveaux ouvrages, mais aussi couru le monde pour participer aux nombreux colloques internationaux organisés autour de votre travail - de Londres à Coimbra en passant par Paris, et, ces jours-ci, Rio de Janeiro.
On vous aura également consacré un deuxième film (Derrida, par Amy Kofman et Kirby Dick, après le très beau D'ailleurs Derrida, de Safaa Fathy en 2000) ainsi que plusieurs numéros spéciaux, notamment du Magazine littéraire et de la revue Europe, ainsi qu'un volume des Cahiers de l'Herne particulièrement riche en inédits, dont la parution est attendue à l'automne. Cela fait beaucoup en une seule année, et pourtant, vous ne vous en cachez pas, vous êtes...
R-... Dites-le donc, assez dangereusement malade, c'est vrai, et à l'épreuve d'un traitement redoutable. Mais laissons cela, si vous voulez bien, nous ne sommes pas ici pour un bulletin de santé - public ou secret...
P- Soit. Au seuil de cet entretien, faisons donc plutôt retour sur Spectres de Marx (Galilée, 1993). Ouvrage crucial, livre-étape, tout entier consacré à la question d'une justice à venir, et qui s'ouvre par cet exorde énigmatique : "Quelqu'un, vous ou moi, s'avance et dit : je voudrais apprendre à vivre enfin." Plus de dix ans après, où en êtes-vous aujourd'hui, quant à ce désir de "savoir vivre"?
R-Il est alors surtout question d'une "nouvelle internationale", sous-titre et motif central du livre. Au-delà du "cosmopolitisme", au-delà du "citoyen du monde" comme d'un nouvel Etat-nation mondial, ce livre anticipe toutes les urgences "altermondialistes" auxquelles je crois et qui apparaissent mieux maintenant. Ce que j'appelais alors une "nouvelle internationale" nous imposerait, disais-je en l993, un grand nombre de mutations dans le droit international et dans les organisations qui règlent l'ordre du monde (FMI, OMC, G8, etc., et surtout l'ONU, dont il faudrait au moins changer la Charte, la composition et d'abord le lieu de résidence - le plus loin possible de New York...).
P-Quant à la formule que vous citiez ("apprendre à vivre enfin"), elle me vint une fois le livre terminé. Elle joue d'abord, mais sérieusement, avec son sens commun. Apprendre à vivre, c'est mûrir, éduquer aussi. Apostropher quelqu'un pour lui dire "je vais t'apprendre à vivre", cela signifie, parfois sur le ton de la menace, je vais te former, voire te dresser. Puis, et l'équivoque de ce jeu m'importe davantage, ce soupir s'ouvre aussi à une interrogation plus difficile : vivre, cela peut-il s'apprendre ? s'enseigner ? Peut-on apprendre, par discipline ou par apprentissage, par expérience ou expérimentation, à accepter, mieux, à affirmer la vie ? A travers tout le livre résonne cette inquiétude de l'héritage et de la mort. Elle tourmente aussi les parents et leurs enfants : quand deviendras-tu responsable ? Comment répondras-tu enfin de ta vie et de ton nom ?
R- Alors, bon, pour répondre, moi, sans plus de détours à votre question, non, je n'ai jamais appris-à-vivre. Mais alors, pas du tout ! Apprendre à vivre, cela devrait signifier apprendre à mourir, à prendre en compte, pour l'accepter, la mortalité absolue (sans salut, ni résurrection ni rédemption) - ni pour soi ni pour l'autre. Depuis Platon, c'est la vieille injonction philosophique : philosopher, c'est apprendre à mourir.
P-Je crois à cette vérité sans m'y rendre. De moins en moins. Je n'ai pas appris à l'accepter, la mort. Nous sommes tous des survivants en sursis (et du point de vue géopolitique de Spectres de Marx, l'insistance va surtout, dans un monde plus inégalitaire que jamais, vers les milliards de vivants - humains ou non - à qui sont refusés, outre les élémentaires "droits de l'homme", qui datent de deux siècles et qui s'enrichissent sans cesse, mais d'abord le droit à une vie digne d'être vécue). Mais je reste inéducable quant à la sagesse du
savoir-mourir. Je n'ai encore rien appris ou acquis à ce sujet. Le temps du sursis se rétrécit de façon accélérée. Non seulement parce que je suis, avec d'autres, héritier de tant de choses, bonnes ou terribles : de plus en plus souvent, la plupart des penseurs auxquels je me trouvais associé étant morts, on me traite de survivant : l'ultime représentant d'une "génération", celle, en gros, des années 1960 ; ce qui, sans être ri! goureusement vrai, ne m'inspire pas seulement des objections mais des sentiments de révolte un peu mélancoliques. Comme, de surcroît, certains problèmes de santé se font pressants, la question de la survie ou du sursis, qui m'a toujours hanté, littéralement, à chaque instant de ma vie, de façon concrète et inlassable, se colore autrement aujourd'hui.
Je me suis toujours intéressé à cette thématique de la survie, dont le sens ne s'ajoute pas au vivre et au mourir. Elle est originaire : la vie est survie. Survivre au sens courant veut dire continuer à vivre, mais aussi vivre après la mort. A propos de la traduction, Walter Benjamin souligne la distinction entre überleben d'une part, survivre à la mort, comme un livre peut survivre à la mort de l'auteur, ou un enfant à la mort des parents, et, d'autre part, fortleben, living on, continuer à vivre. Tous les concepts qui m'ont aidé à travailler, notamment celui de la trace ou du spectral, étaient liés au "survivre" comme dimension structurale. Elle ne dérive ni du vivre ni du mourir. Pas plus que ce que j'appelle le "deuil originaire". Celui-ci n'attend pas la mort dite "effective".
P- Vous avez utilisé le mot "génération". Notion d'usage délicat, qui revient souvent sous votre plume : comment désigner ce qui, en votre nom, se transmet d'une génération ?
R-Ce mot, je m'en sers ici de façon un peu lâche. On peut être le contemporain "anachronique" d'une "génération" passée ou à venir. Etre fidèle à ceux qu'on associe à ma "génération", se faire le gardien d'un héritage différencié mais commun, cela veut dire deux choses : d'abord, tenir, éventuellement contre tout et contre tous, à des exigences partagées, de Lacan à Althusser, en passant par Levinas, Foucault, Barthes, Deleuze, Blanchot, Lyotard, Sarah Kofman, etc. ; sans nommer tant de penseurs écrivains, poètes, philosophes ou psychanalystes heureusement vivants, dont j'hérite aussi, d'autres sans doute à l'étranger, plus nombreux et parfois plus proches encore.
Je désigne ainsi, par métonymie, un ethos d'écriture et de pensée intransigeant, voire incorruptible (Hélène Cixous nous surnomme les "incorruptibles"), sans concession même à l'égard de la philosophie, et qui ne se laisse pas effrayer par ce que l'opinion publique, les médias, ou le fantasme d'un lectorat intimidant, pourraient nous obliger à simplifier ou à refouler. D'où le goût sévère pour le raffinement, le paradoxe, l'aporie.
Cette prédilection reste aussi une exigence. Elle allie non seulement ceux et celles que j'ai évoqués un peu arbitrairement, c'est-à-dire injustement, mais tout le milieu qui les soutenait. Il s'agissait d'une sorte d'époque provisoirement révolue, et non simplement de telle ou telle personne. Il faut sauver ou faire renaître cela, donc, à tout prix. Et la responsabilité aujourd'hui est urgente : elle appelle une guerre inflexible à la doxa, à ceux qu'on appelle désormais les "intellectuels médiatiques", à ce discours général formaté par les pouvoirs médiatiques, eux-mêmes entre les mains de lobbies politico-économiques, souvent éditoriaux et académiques aussi. Toujours européens et mondiaux, bien sûr. Résistance ne signifie pas qu'on doive éviter les médias. Il faut, quand c'est possible, les développer et les aider à se diversifier, les rappeler à cette même responsabilité.
En même temps, ne pas oublier que, à cette époque "heureuse" de naguère, rien n'était irénique, certes. Les différences et les différends faisaient rage dans ce milieu qui était tout sauf homogène comme ce qu'on pourrait regrouper, par exemple, dans une appellation débile du genre "pensée 68" dont le mot d'ordre ou le chef d'accusation domine souvent aujourd'hui et la presse et l'université. Or même si cette fidélité prend quelquefois encore la forme de l'infidélité et de l'écart, il faut être fidèle à ces différences, c'est-à-dire continuer la discussion. Moi, je continue à discuter - Bourdieu, Lacan, Deleuze, Foucault, par exemple, qui continuent de m'intéresser largement plus que ceux autour desquels se presse la presse aujourd'hui (sauf exception, bien sûr). Je garde ce débat vivant, pour qu'il ne s'aplatisse pas, ni ne se dégrade en dénigrements.
Ce que j'ai dit de ma génération vaut bien sûr pour le passé, de la Bible à Platon, Kant, Marx, Freud, Heidegger, etc. Je ne veux pas renoncer à quoi que ce soit, je ne le peux pas. Vous savez, apprendre à vivre, c'est toujours narcissique : on veut vivre autant que possible, se sauver, persévérer, et cultiver toutes ces choses qui, infiniment plus grandes et puissantes que soi, font néanmoins partie de ce petit "moi" qu'elles débordent de tous les côtés. Me demander de renoncer à ce qui m'a formé, à ce que j'ai tant aimé, c'est me
demander de mourir. Dans cette fidélité-là, il y a une sorte d'instinct de conservation. Renoncer, par exemple, à une difficulté de formulation, à un pli, à un paradoxe, à une contradiction supplémentaire, parce que ça ne va pas être compris, ou plutôt parce que tel journaliste qui ne sait pas la lire, pas lire le titre même d'un livre, croit comprendre que le lecteur ou l'auditeur ne comprendra pas davantage et que l'Audimat ou son gagn! e-pain en souffriront, c'est pour moi une obscénité inacceptable. C'est comme si on me demandait de m'incliner, de m'asservir - ou de mourir de bêtise.
P-Vous avez inventé une forme, une écriture de la survivance, qui convient à cette impatience de la fidélité. Ecriture de la promesse héritée, de la trace sauvegardée et de la responsabilité confiée.
R- Si j'avais inventé mon écriture, je l'aurais fait comme une révolution interminable. Dans chaque situation, il faut créer un mode d'exposition approprié, inventer la loi de l'événement singulier, tenir compte du destinataire supposé ou désiré ; et en même temps prétendre que cette écriture déterminera le lecteur, lequel apprendra à lire (à "vivre") cela, qu'il n'était pas habitué à recevoir d'ailleurs. On espère qu'il en renaîtra, autrement déterminé : par exemple, ces greffes sans confusion du poétique sur le philosophique, ou certaines manières d'user des homonymies, de l'indécidable, des ruses de la langue - que beaucoup lisent dans la confusion pour en ignorer
la nécessité proprement logique.
Chaque livre est une pédagogie destinée à former son lecteur. Les productions de masse qui inondent la presse et l'édition ne forment pas les lecteurs, elles supposent de façon fantasmatique un lecteur déjà programmé. Si bien qu'elles finissent par formater ce destinataire médiocre qu'elles ont d'avance postulé. Or, par souci de fidélité, comme vous dites, au moment de laisser une trace, je
ne peux que la rendre disponible pour quiconque : je ne peux même pas l'adresser singulièrement à quelqu'un.
Chaque fois, si fidèle qu'on veuille être, on est en train de trahir la singularité de l'autre à qui l'on s'adresse. A fortiori quand on écrit des
livres d'une grande généralité : on ne sait pas à qui on parle, on invente et crée des silhouettes, mais au fond cela ne nous appartient plus. Oraux ou écrits, tous ces gestes nous quittent, ils se mettent à agir indépendamment de nous. Comme des machines, au mieux comme des marionnettes - je m'en explique mieux dans Papier Machine (Galilée, 2001). Au moment où je laisse (publier) "mon" livre (personne ne m'y oblige), je deviens, apparaissant-disparaissant, comme ce spectre inéducable qui n'aura jamais appris à vivre. La trace que je laisse me signifie à la fois ma mort, à venir ou déjà advenue, et l'espérance qu'elle me survive. Ce n'est pas une ambition d'immortalité, c'est structurel. Je laisse là un bout de papier, je pars, je meurs : impossible de sortir de cette structure, elle est la forme constante de ma v! ie. Chaque fois que je laisse partir quelque chose, je vis ma mort dans l'écriture. Epreuve extrême : on s'exproprie sans savoir à qui proprement la chose qu'on laisse est confiée. Qui va hériter, et comment ? Y aura-t-il même des héritiers ? C'est une
question qu'on peut se poser aujourd'hui plus que jamais. Elle m'occupe sans cesse.
Le temps de notre techno-culture a radicalement changé à cet égard. Les gens de ma "génération", et a fortiori des plus anciennes, avaient été habitués à un certain rythme historique : on croyait savoir que telle oeuvre pouvait ou non survivre, en fonction de ses qualités, pendant un, deux, voire, comme Platon, vingt-cinq siècles. Mais aujourd'hui l'accélération des modalités de l'archivation mais aussi l'usure et la destruction transforment la structure et la temporalité de l'héritage. Pour la pensée, la question de la survie prend
désormais des formes absolument imprévisibles.
A mon âge, je suis prêt aux hypothèses les plus contradictoires à ce sujet : j'ai simultanément, je vous prie de me croire, le double sentiment que, d'un côté, pour le dire en souriant et immodestement, on n'a pas commencé à me lire, que s'il y a, certes, beaucoup de très bons lecteurs (quelques dizaines au monde, peut-être), au fond, c'est plus tard que tout cela a une chance d'apparaître ; mais aussi bien que, d'un autre côté, quinze jours ou un mois après ma mort, il ne restera plus rien. Sauf ce qui est gardé par le dépôt
légal en bibliothèque. Je vous le jure, je crois sincèrement et simultanément à ces deux hypothèses.
Au coeur de cette espérance, il y a la langue, et d'abord la langue française. Quand on vous lit, on sent à chaque ligne l'intensité de votre passion pour elle. Dans Le Monolinguisme de l'autre (Galilée, 1996), vous allez jusqu'à vous présenter, ironiquement, comme le "dernier défenseur et illustrateur de la langue française"...
Qui ne m'appartient pas, bien que ce soit la seule que "j'aie" à ma disposition (et encore !). L'expérience de la langue, bien sûr, est vitale. Mortelle, donc, rien d'original à cela. Les contingences ont fait de moi un juif français d'Algérie de la génération née avant la "guerre d'indépendance" : autant de singularités, même parmi les juifs et même parmi les juifs d'Algérie. J'ai participé à une transformation extraordinaire du judaïsme français d'Algérie : mes arrière-grands-parents étaient encore très proches des Arabes par la
langue, les coutumes, etc.
Après le décret Crémieux (1870), à la fin du XIXe siècle, la génération suivante s'est embourgeoisée : bien qu'elle se soit mariée presque clandestinement dans l'arrière-cour d'une mairie d'Alger à cause des pogroms (en pleine affaire Dreyfus), ma grand-mère élevait déjà ses filles comme des bourgeoises parisiennes (bonnes manières du 16e arrondissement, leçons de piano...). Puis ce fut la génération de mes parents : peu d'intellectuels, des commerçants surtout, modestes ou non, dont certains exploitaient déjà une situation
coloniale en se faisant les représentants exclusifs de grandes marques métropolitaines : avec un petit bureau de 10 mètres carrés et sans secrétaire, on pouvait représenter tout le "savon de Marseille" en Afrique du Nord - je simplifie un peu.
Puis ce fut ma génération (une majorité d'intellectuels : professions libérales, enseignement, médecine, droit, etc.). Et presque tout ce monde en France en 1962. Moi, ce fut plus tôt (1949). C'est avec moi, j'exagère à peine, que les mariages "mixtes" ont commencé. De façon quasi tragique, révolutionnaire, rare et risquée. Et de même que j'aime la vie, et ma vie, j'aime ce qui m'a constitué, et dont l'élément même est la langue, cette langue française qui est la seule langue qu'on m'a appris à cultiver, la seule aussi dont je puisse me
dire plus ou moins responsable.
Voilà pourquoi il y a dans mon écriture une façon, je ne dirais pas perverse, mais un peu violente, de traiter cette langue. Par amour. L'amour en général passe par l'amour de la langue, qui n'est ni nationaliste ni conservateur, mais qui exige des preuves. Et des épreuves. On ne fait pas n'importe quoi avec la langue, elle nous préexiste, elle nous survit. Si l'on affecte la langue de
quelque chose, il faut le faire de façon raffinée, en respectant dans l'irrespect sa loi secrète. C'est ça, la fidélité infidèle : quand je violente
la langue française, je le fais avec le respect raffiné de ce que je crois être une injonction de cette langue, dans sa vie, son évolution. Je ne lis pas sans sourire, parfois avec mépris, ceux qui croient violer, sans amour, justement, l'orthographe ou la syntaxe "classiques" d'une langue française, avec de petits airs de puceaux à éjaculation précoce, alors que la grande langue française, plus intouchable que jamais, les regarde faire en attendant le prochain. Je décris cette scène ridicule de façon un peu cruelle dans La Carte postale (Flammarion, 1980).
Laisser des traces dans l'histoire de la langue française, voilà ce qui m'intéresse. Je vis de cette passion, sinon pour la France, du moins pour quelque chose que la langue française a incorporé depuis des siècles. Je suppose que si j'aime cette langue comme j'aime ma vie, et quelquefois plus que ne l'aime tel ou tel Français d'origine, c'est que je l'aime comme un étranger qui a été accueilli, et qui s'est approprié cette langue comme la seule possible pour lui. Passion et surenchère.
Tous les Français d'Algérie partagent cela avec moi, juifs ou non. Ceux qui venaient de la métropole étaient tout de même des étrangers : oppresseurs et normatifs, normalisateurs et moralisateurs. C'était un modèle, un habit ou un habitus, il fallait s'y plier. Quand un prof arrivait de la métropole avec l'accent français, on le trouvait ridicule ! La surenchère vient de là : je n'ai qu'une langue, et en même temps cette langue ne m'appartient pas. Une histoire singulière a exacerbé chez moi cette loi universelle : une langue, ça n'appartient pas. Pas naturellement et par essence. D'où les fantasmes de propriété, d'appropriation et d'imposition colonationaliste.
P-En général, vous avez du mal à dire "nous" - "nous les philosophes", ou "nous les juifs", par exemple. Mais, à mesure que se déploie le nouveau désordre mondial, vous semblez de moins en moins réticent à dire "nous les Européens". Déjà, dans L'Autre Cap (Galilée, 1991), livre écrit au moment de la première guerre du Golfe, vous vous présentiez comme un "vieil Européen", comme "une
sorte de métis européen".
R-Deux rappels : j'ai en effet du mal à dire "nous", mais il m'arrive de le dire. Malgré tous les problèmes qui me torturent à ce sujet, à commencer par la politique désastreuse et suicidaire d'Israël - et d'un certain sionisme (car Israël ne représente pas plus à mes yeux le judaïsme qu'il ne représente la diaspora ni même le sionisme mondial ou originaire qui fut multiple et contradictoire ; il y a d'ailleurs aussi des fondamentalistes chrétiens qui se disent sionistes authentiques aux USA. La puissance de leur lobby compte plus que la communauté juive américaine, sans parler de la saoudienne, dans l'orientation conjointe de la politique américano-israélienne) -, eh bien malgré tout cela et tant d'autres problèmes que j'ai avec ma "judéité", je ne la dénierai jamais.
Je dirai toujours, dans certaines situations, "nous les juifs". Ce "nous" si tourmenté est au coeur de ce qu'il y a de plus inquiet dans ma pensée, celle de celui que j'ai surnommé en souriant à peine "le dernier des juifs". Elle serait dans ma pensée ce qu'Aristote dit profondément de la prière (eukhè) : elle n'est ni vraie ni fausse. C'est d'ailleurs, littéralement, une prière. Dans certaines situations, donc, je n'hésiterai pas à dire "nous les juifs", et aussi "nous les Français".
Ensuite, depuis le début de mon travail, et ce serait la "déconstruction" même, je suis resté extrêmement critique à l'égard de l'eurocentrisme, dans la modernité de ses formulations, chez Valéry, Husserl ou Heidegger par exemple. La déconstruction en général est une entreprise que beaucoup ont considérée, à juste titre, comme un geste de méfiance à l'égard de tout eurocentrisme. Quand il m'arrive, ces temps-ci, de dire "nous les Européens", c'est conjoncturel et très différent : tout ce qui peut être déconstruit de la tradition européenne n'empêche pas que, justement à cause de ce qui s'est passé en Europe, à cause des Lumières, à cause du rétrécissement de ce petit continent et de l'énorme culpabilité qui transit désormais sa culture (totalitarisme, nazisme, génocides, Shoah, colonisation et décolonisation, etc.), aujourd'hui, dans la situation géopolitique qui est la nôtre, l'Europe, une autre Europe mais avec la même mémoire, pourrait (c'est en tout cas mon voeu) se r! assembler à la fois contre la politique d'hégémonie américaine (rapport Wolfowitz, Cheney,
Rumsfeld, etc.) et contre un théocratisme arabo-islamique sans Lumières et sans avenir politique (mais ne négligeons pas les contradictions et les hétérogénéités de ces deux ensembles, et allions-nous avec ceux qui résistent de l'intérieur à ces deux blocs).
L'Europe se trouve sous l'injonction d'assumer une responsabilité nouvelle. Je ne parle pas de la communauté européenne telle qu'elle existe ou se dessine dans sa majorité actuelle (néolibérale) et virtuellement menacée de tant de guerres internes, mais d'une Europe à venir, et qui se cherche. En Europe ("géographique") et ailleurs. Ce qu'on nomme algébriquement "l'Europe" a des responsabilités à prendre, pour l'avenir de l'humanité, pour celui du droit international - ça c'est ma foi, ma croyance. Et là, je n'hésiterai pas à dire "nous les Européens". Il ne s'agit pas de souhaiter la constitution d'une Europe qui serait une autre superpuissance militaire, protégeant son marché et faisant contrepoids aux autres blocs, mais d'une Europe qui viendrait semer la graine d'une nouvelle politique altermondialiste. Laquelle est pour moi la seule issue possible.
Cette force est en marche. Même si ses motifs sont encore confus, je pense que plus rien ne l'arrêtera. Quand je dis l'Europe, c'est ça : une Europe altermondialiste, transformant le concept et les pratiques de la souveraineté et du droit international. Et disposant d'une véritable force armée, indépendante de l'OTAN et des USA, une puissance militaire qui, ni offensive, ni défensive, ni préventive, interviendrait sans tarder au service des résolutions enfin respectées d'une nouvelle ONU (par exemple, de toute urgence, en Israël, mais aussi ailleurs). C'est aussi le lieu depuis lequel on peut penser au mieux certaines figures de la laïcité, par exemple, ou de la justice
sociale, autant d'héritages européens.
(Je viens de dire "laïcité". Permettez-moi ici une longue parenthèse. Elle ne concerne pas le voile à l'école mais le voile du "mariage". J'ai soutenu de ma signature sans hésiter l'initiative bienvenue et courageuse de Noël Mamère, même si le mariage entre homosexuels constitue un exemple de cette belle tradition que les Américains ont inaugurée au siècle dernier sous le nom de "civil disobedience": non pas défi à la Loi, mais désobéissance à une disposition législative au nom d'une loi meilleure - à venir ou déjà inscrite dans l'esprit ou la lettre de la Constitution. Eh bien, j'ai "signé" dans ce contexte législatif actuel parce qu'il me paraît injuste - pour les droits des homosexuels -, hypocrite et équivoque dans son esprit et dans sa lettre.
Si j'étais législateur, je proposerais tout simplement la disparition du mot et du concept de "mariage" dans un code civil et laïque. Le "mariage", valeur religieuse, sacrale, hétérosexuelle - avec voeu de procréation, de fidélité éternelle, etc. -, c'est une concession de l'Etat laïque à l'Eglise chrétienne - en particulier dans son monogamisme qui n'est ni juif (il ne fut imposé aux juifs par les Européens qu'au siècle dernier et ne constituait pas une obligation il y a quelques générations au Maghreb juif) ni, cela on le sait bien, musulman. En supprimant le mot et le concept de "mariage", cette équivoque ou cette hypocrisie religieuse et sacrale, qui n'a aucune place dans
une constitution laïque, on les remplacerait par une "union civile" contractuelle, une sorte de pacs généralisé, amélioré, raffiné, souple et
ajusté entre des partenaires de sexe ou de nombre non imposé.
Quant à ceux qui veulent, au sens strict, se lier par le "mariage" - pour lequel mon respect est d'ailleurs intact -, ils pourraient le faire devant l'autorité religieuse de leur choix - il en est d'ailleurs ainsi dans d'autres pays qui acceptent de consacrer religieusement des mariages entre homosexuels. Certains pourraient s'unir selon un mode ou l'autre, certains sur les deux modes, d'autres ne s'unir ni selon la loi laïque ni selon la loi religieuse. Fin de la parenthèse conjugale. (C'est une utopie mais je prends date.)
Ce que j'appelle "déconstruction", même quand c'est dirigé contre quelque chose de l'Europe, c'est européen, c'est un produit, un rapport à soi de l'Europe comme expérience de l'altérité radicale. Depuis l'époque des Lumières, l'Europe s'autocritique en permanence, et dans cet héritage perfectible, il y a une chance d'avenir. Du moins voudrais-je l'espérer, et c'est ce qui nourrit mon indignation devant des discours qui condamnent l'Europe définitivement, comme si elle n'était que le lieu de ses crimes.
P-Quant à l'Europe, n'êtes-vous pas en guerre avec vous-même ? D'un côté, vous marquez que les attentats du 11-Septembre ruinent la vieille grammaire géopolitique des puissances souveraines, signant ainsi la crise d'un certain concept du politique, que vous définissez comme proprement européen. De l'autre, vous maintenez un attachement à cet esprit européen, et d'abord à l'idéal cosmopolitique d'un droit international dont vous décrivez, justement, le déclin. Ou la survie...
R-Il faut "relever" (Aufheben) le cosmopolitique (voir Cosmopolites de tous les pays, encore un effort !, Galilée, 1997). Quand on dit politique, on se sert d'un mot grec, d'un concept européen qui a toujours supposé l'Etat, la forme polis liée au territoire national et à l'autochtonie. Quelles que soient les ruptures à l'intérieur de cette histoire, ce concept du politique reste dominant, au moment même où beaucoup de forces sont en train de le disloquer : la souveraineté de l'Etat n'est plus liée à un territoire, les technologies de communication et la stratégie militaire non plus, et cette dislocation met effectivement en crise le vieux concept européen du politique. Et de la guerre, et de la distinction entre civil et militaire, et du terrorisme national ou international.
Mais je ne crois pas qu'il faille s'emporter contre le politique. De même pour la souveraineté, dont je crois qu'elle a du bon dans certaines situations, pour lutter par exemple contre certaines forces mondiales du marché. Là encore, il s'agit d'un héritage européen qu'il faut à la fois garder et transformer. C'est aussi ce que je dis, dans Voyous (Galilée, 2003), de la démocratie comme idée européenne, qui en même temps n'a jamais existé de façon satisfaisante, et reste à venir. Et en effet vous retrouverez toujours ce geste chez moi, pour
lequel je n'ai pas de justification ultime, sauf que c'est moi, c'est là où je suis.
Je suis en guerre contre moi-même, c'est vrai, vous ne pouvez pas savoir à quel point, au-delà de ce que vous devinez, et je dis des choses contradictoires, qui sont, disons, en tension réelle, me construisent, me font vivre, et me feront mourir. Cette guerre, je la vois parfois comme une guerre terrifiante et pénible, mais en même temps je sais que c'est la vie. Je ne trouverai la paix que dans le repos éternel. Donc je ne peux pas dire que j'assume cette contradiction, mais je sais aussi que c'est ce qui me laisse en vie, et me fait poser la question, justement, que vous rappeliez, "comment apprendre à vivre ?".
P-Dans deux livres récents (Chaque fois unique, la fin du monde et Béliers, Galilée, 2003), vous êtes revenu sur cette grande question du salut, de l'impossible deuil, bref de la survie. Si la philosophie peut être définie comme "l'anticipation soucieuse de la mort" (voir Donner la mort, Galilée, 1999), peut-on envisager la "déconstruction" comme une interminable éthique du survivant ?
R-Comme je l'ai déjà rappelé, dès le début, et bien avant les expériences de la survivance qui sont à présent les miennes, j'ai marqué que la survie est un concept original, qui constitue la structure même de ce que nous appelons l'existence, le Da-sein, si vous voulez. Nous sommes structurellement des survivants, marqués par cette structure de la trace, du testament. Mais, ayant dit cela, je ne voudrais pas laisser cours à l'interprétation selon laquelle la survivance est plutôt du côté de la mort, du passé, que de la vie et de l'avenir. Non, tout le temps, la déconstruction est du côté du oui, de l'affirmation de la vie.
Tout ce que je dis - depuis Pas au moins (dans Parages, Galilée, 1986) - de la survie comme complication de l'opposition vie-mort procède chez moi d'une affirmation inconditionnelle de la vie. La survivance, c'est la vie au-delà de la vie, la vie plus que la vie, et le discours que je tiens n'est pas mortifère, au contraire, c'est l'affirmation d'un vivant qui préfère le vivre et donc le survivre à la mort, car la survie, ce n'est pas simplement ce qui reste, c'est la vie la plus intense possible. Je ne suis jamais autant hanté par la nécessité de mourir que dans les moments de bonheur et de jouissance. Jouir et pleurer la mort qui guette, pour moi c'est la même chose. Quand je me rappelle ma vie, j'ai tendance à penser que j'ai eu cette chance d'aimer même les moments malheureux de ma vie, et de les bénir. Presque tous, à une exception près. Quand je me rappelle les moments heureux, je les bénis aussi, bien sûr, en même temps ils me précipitent vers la pens! ée de la mort, vers la mort, parce que c'est passé, fini...
Propos recueillis par Jean Birnbaum
Vindo do século XXI, um barco chega no domingo à Idade Média.
No Blasfémia, João Miranda provoca as almas cândidas (como a minha) com a ideia de que o facto de Portugal ter poucas medalhas nestes Jogos Olímpicos é bom sinal: "é sinal que as preferências das pessoas são minimamente respeitadas e o estado não está a desviar demasiados recursos para uma actividade que as pessoas só valorizam de 4 em 4 anos e que não estão dispostas a subsidiar voluntariamente.". Não quero discutir muito isto nem a aplicação ao desporto de critérios como a "preferências das pessoas". Noto apenas que se a "preferência das pessoas" é o futebol e o resto que se dane, lá se corta revolucionariamente com a mais nobre tradição olímpica portuguesa, que é a do atletismo (para além da antiga tradição da vela, dos meus homónimos manos Belo). E a tradição portuguesa é uma coisa que merece respeitinho. Viu-se, por outro lado, o que o futebol português "da preferência" produziu em Atenas, algo um tanto chunga.
Na verdade, o que me traz aqui é o desejo de emulação do meu mestre Rui Tavares na polémica com blogues tão respeitáveis como a Blasfémia. Caro João Miranda, o seu post dá uma explicação estatizante (o estado não investe nos desportos menos conhecidos) a uma questão importante: Portugal é uma lástima em todos os desportos que exigem apuramento técnico e especialização. Obikwelu é um caso especial e, mesmo assim, ao que leio, teve de ir melhorar a técnica de corrida para Espanha. Não existimos em disciplinas técnicas, pura e simplesmente. Não temos nadadores de alto nível, os atletas das disciplinas especializadas são muito raros, não temos ginastas de alto nível, etc. E o mais impressionante nem é termos poucas medalhas: é que não vamos a nenhumas finais. É um deserto. Os franceses, os italianos, os espanhóis, além de medalhas, passam as eliminatórias, vão às finais. E nos desportos colectivos não temos uma só selecção (à parte o futebol) de alto nível europeu. A única que temos é o hóquei em patins, que não é modalidade olímpica. A falta de apoio do Estado é evidente. Mas não podemos estar sempre a dizer que a responsabilidade é do Estado. Eu acho que isto é um bocado à imagem da nossa economia: somos pouco competitivos. Falta know-how, falta qualificação, falta diversificação da produção desportiva, isto para não dependermos só do futebol. A sociedade civil é fraquinha e os clubes só ligam à bola — e todos vivem à pála do Estado de que se queixam e de que vivem. Em suma, os recursos do Estado são importantes, mas falta mercado, um verdadeiro mercado, não o mercado protegido do futebol. É também por isso que ganhamos poucas medalhas. E, chego ao meu ponto, se isto assim é, isto é muito mau sinal para nós. Depois, vamos à Grécia e damos uma pálida imagem do nosso país — e não podemos ignorar a importância que as questões de imagem têm hoje em dia.
Mesmo assim, o Obikwelu só por si deu imenso tempo de antena a Portugal e a colheita em medalhas não pode ser considerada má. Duas medalhas de prata, uma de bronze. Melhor que Sidney (dois bronzes, se não me engano). Terminadas as grandes gerações de atletas de fundo (uma tradição barata, terceiro-mundista), era de esperar um vazio maior. Desenrascaram-nos um ciclista matreito, um atleta de cepa à antiga portuguesa e os benefícios da imigração.

Margaret Bourke-White, Floods in Saint Louis, 1937.
Público: «Mais 1,3 Milhões de Pobres nos Estados Unidos em 2003».
"O Gabinete do Censo dos EUA divulgou que em 2003 havia 35,8 milhões de americanos abaixo do nível de pobreza - um aumento de 12 por cento em relação a 2002. A percentagem de americanos sem acesso ao sistema de saúde aumentou também, em 15 por cento. [...] Os dados do Censo mostram que 12,5 por cento da população dos EUA vive abaixo do limiar de pobreza; este número inclui 12,9 milhões de crianças. Foi o terceiro ano consecutivo em que este número subiu - ou seja, desde que Bush chegou à Casa Branca, todos os anos há mais americanos pobres."
Para leitura de fim-de-semana, decidi publicar aqui no Barnabé XL [fica ali ao lado, na coluna do mesmo nome] um texto a partir de Goya que foi escrito para outro lugar, que depois tentei publicar noutro lugar ainda, e que já estava para aqui parado há uns meses. Espero que interesse ao leitor do Barnabé.
“Carrascos” e “vítimas”
Percurso de um tema goyesco

Goya, No se puede mirar, Desastres. [clique nas imagens para as aumentar]
Desde o proto-Renascimento que era bem conhecido o preceito segundo o qual uma personagem representada de costas coloca o observador, simbolicamente, “do seu lado”, como se estivesse numa segunda fila de uma plateia. No caso da representação de uma cena de “carrasco” e “vítima”, contudo, este recurso tem o inconveniente de colocar o observador do lado do “carrasco”. Por outro lado, colocar os “carrascos” de frente ou de perfil obriga no entanto a figurar os seus rostos. Goya tentou por diversas vezes representar os rostos dos “carrascos” nos Desastres sem resultados muito convincentes. Em duas ocasiões, contudo, experimentou obliterar os rostos dos “carrascos”, e aqui encontrou algo de verdadeiramente original. Em No se puede mirar, apenas as pontas das baionetas assomam nos limites da estampa, deixando praticamente todo o espaço ao pavor das “vítimas”, reforçado pelo título. O que não se pode, afinal, olhar? O que está na estampa ou fora dela?

Goya, Con razón ó sin ella, Desastres.
Con razón ó sin ella, a segunda gravura dos Desastres, representa a morte na peleja de dois camponeses, um dos quais segura uma espécie de lança e outro uma navalha, às baionetas de um grupo de soldados em uniforme. A solução desta imagem consiste em representar a cena obliquamente, colocando os soldados não de costas mas de esguelha e tapando-lhes os rostos. Evitam-se assim dois problemas: colocar os soldados “do lado” do observador e ter que dar-lhes um rosto e uma expressão.

Goya, El 3 de Mayo (1814), Madrid, Museu do Prado.
É fácil reconhecer nesta estampa o embrião de uma das pinturas mais conhecidas de Francisco Goya, Os Fuzilamentos do 3 de Maio (Madrid, Museu do Prado), com que compartilha elementos formais: o braço estendido do camponês à esquerda lembra os braços abertos do fuzilado de branco no Três de Maio e o grupo de soldados da gravura é praticamente idêntico ao pelotão de fuzilamento da pintura.
A “desumanização” decorrente desta opção era uma coisa nova, na pintura e talvez na percepção da guerra.

Édouard Manet, Exécution de l’Empereur Maximilien (1867), Mannheim, Städtische Kunsthalle.
Meio século depois seria reutilizada por Édouard Manet na sua Execução do Imperador Maximiliano (1867; Musem of Fine Arts, Boston e Stadtische Kunsthalle, Mannheim) que subverte inteiramente as fotografias que conhecia da execução do imperador mexicano para realizar uma cópia do Três de Maio. Uma outra citação célebre é Massacre na Coreia, de Pablo Picasso (1951; Museu Picasso, Paris). Aqui o artista opta por representar os rostos das “vítimas” em posição frontal e os dos “carrascos” de perfil, mas tapados por elmos e máscaras.

Pablo Picasso, Massacre en Corée (1951), Paris, Musée Picasso.
Este tipo de recurso pode ser encontrado fora da pintura. Poderia mesmo argumentar-se que ele se tornou habitual não só na forma como as cenas são representadas mas também na forma como o público deseja ver este tipo de cenas. Pode encontrar-se no fotojornalismo clássico de Robert Kapa (Loyalist Militiaman at the Moment of Death, Cerro Muriano, September 5, 1936) ou William Eugene Smith (Following Japanese Suicide Charge, 1944) e nas fotografias da invasão da Checoslováquia por Josef Koudelka. É sempre possível identificar contra-exemplos, mas parecem não merecer o estatuto icónico que é conferido pelo público às imagens em que o agressor aparece convenientemente desumanizado pela ausência de rosto ou de expressão.
Uma das imagens-símbolo do século XX representa um homem solitário em frente a uma coluna de tanques numa das avenidas perto da praça Tiananmen em Pequim. Os adversários da humanidade solitária parecem ser só máquinas e não outros humanos. É certo que aqui também não vemos o rosto da “vítima”. Só que ela se encontra de costas para nós – e tal como os renascentistas imaginaram, estamos simbolicamente do seu lado; participamos da sua coragem, embora nos encontremos seguramente do lado de cá do écran.
Esta breve reflexão talvez nos dê alguma matéria para a análise das recentes imagens de Abu Ghraib. Recorde-se que elas são da autoria de amadores, possibilitadas pela disseminação de câmaras digitais e realizadas segundo os preceitos da fotografia turística, em que o rosto do protagonista aparece habitualmente em primeiro plano, de frente para o observador, sorrindo e posando ao lado do motivo de interesse (monumento, pessoa célebre, paisagem) que se visitou, como prova de que se esteve no lugar. Por muito que nos custe, estas fotografias de Abu Ghraib têm essa marca. É por isso que, poucos dias depois de terem sido reveladas, arrisco dizer que a inquietação que provocam tem origem precisamente naquilo que em Goya era pouco convincente: a representação dos rostos, que Goya tinha tentado representar em esgares de raiva. Mas o que é perturbador, ao contrário do que Goya pensava, é descobrir que se tratam de rostos pacíficos e sorridentes. São, na verdade, iguais a nós.
Maio 2004
[Origem das estampas de Goya: PAAS-ZEIDLER, Sigrun, Goya. Caprichos, Desastres, Tauromaquia, Disparates. Reproducción completa de las cuatro series, Barcelona, Gustavo Gili, 2001.]

O JMF do Terras do Nunca já tinha reparado como Pedro Santana Lopes aparece na entrevista da Visão "a ler o Le Monde, na primeira página, um livro grosso, na página 34, e uma resma de papelada, na página 37".
Curiosidade e uma lupa permitiram-me descobrir que o livro que Santana anda a ler é Franklin and Winston: An Intimate Portrait of an Epic Friendship, de Jon Meacham [Random House, 2003], uma dupla biografia dos líderes dos EUA e da Reino Unido durante a IIª Guerra Mundial [conferir na imagem acima].
O site da amazon permite mesmo dar uma olhada nas primeiras páginas do livro e assim saber mais ou menos aquilo que, algures entre as páginas três e cinco, pedia tamanha concentração por parte de Santana Lopes. Pode ser a página da catalogação na Biblioteca do Congresso ou, mais presumivelmente, aquela página em branco com a simples dedicatória "to Keith". Aceitam-se apostas.
Gosto sempre de ler Edward Luttwak, comentador americano de muitos assuntos, mas principalmente de questões estratégicas e militares. Confesso que nunca li nenhum dos seus livros (que abordam temas tão variados quanto a estratégia militar do Império Romano, as modalidades do golpe de Estado, ou o “turbocapitalismo”), mas há anos que sigo com imenso interesse os seus artigos na imprensa. Além de escrever muito bem, apresenta os seus pontos de vista de forma original e desassombrada. Na maior parte das vezes, não concordo com as suas premissas e conclusões, mas lá que elas dão que pensar... Lembro-me, por exemplo, de ter ficado bastante embatucado com este artigo, cujo título condensa todo um programa: “Give war a chance”. E em tempos cheguei a traduzir e publicar um outro texto seu sobre a necessidade de neo-colonizar África, mas desta feita sob a bandeira das Nações Unidas - ponto de vista partilhado por um número crescente de africanos educados... Agora que as coisas no Iraque não estão a correr nada bem para os partidários das teses wolfovitizanas, é possível que o realismo de Luttwak se torne mais atraente para os decisores americanos. Em baixo encontram um excelente artigo de análise seu, publicado há mais de uma semana no New York Times.
The New York Times
OP-ED CONTRIBUTOR
Time to Quit Iraq (Sort Of)
By EDWARD LUTTWAK
Published: August 18, 2004
Chevy Chase, Md. — Many Americans now believe that the United States is depleting its military strength, diplomatic leverage and Treasury to pursue unrealistic aims in Iraq. They are right. Democracy seems to interest few Iraqis, given the widespread Shiite proclivity to follow unelected clerics, the Sunni rejection of the principle of majority rule, and the preference of many Kurds for tribe and clan over elected governments. Reconstruction was supposed to advance rapidly with surging oil export revenues, but is hardly gaining on the continuing destruction inflicted by sabotage and thievery. And in any case, it is unlikely that the new Iraqi interim government will be able to oversee meaningful elections in a country where its authority is more widely denied than recognized.
Yet few Americans are prepared to simply abandon Iraq. For one, they are rightly concerned that to do so would be a mortal blow to America's global credibility and encourage violent Islamists everywhere. An outright withdrawal would leave the interim government and its feeble forces of doubtful loyalty to face the attacks of vastly emboldened Baath regime loyalists, Sunni revanchists, local and foreign Islamist extremists and the ever-more numerous Shiite militias. The likely result would be the defection of the government's army, police and national guard members, followed by a swift collapse and then civil war. Worse might follow in the Middle East - it usually does - even to the point of invasions by Iran, Turkey and possibly others, initiating new cycles of repression and violence.
Thus the likely consequences of an American abandonment are so bleak that few Americans are even willing to contemplate it. This is a mistake: it is precisely because unpredictable mayhem is so predictable that the United States might be able to disengage from Iraq at little cost, or even perhaps advantageously.
Here's why: In Iraq America faces several different enemies, as well as some remarkably unhelpful nominal allies. As things stand, their intense mutual hostility now brings no advantage to the United States. But all could be unbalanced by a well-devised policy of disengagement, and forced to stop harming American interests and possibly even serve them in some degree.
At present, because the United States is fully committed in Iraq, the Shiite followers of the renegade cleric Moktada al-Sadr feel free to attack the same American forces that elsewhere are fighting Sunnis bent on restoring their ancestral supremacy. Many Shiite clerics and the population at large - the very people the Sunnis are hoping to oppress once again - either applaud Mr. Sadr or do nothing to stop him.
But if the Shiites were persuaded that America might truly abandon them to face Saddam Hussein's loyalists alone, it seems certain that they would quickly revert to the attitude of collaboration with the occupation forces they showed in the aftermath of invasion.
Likewise, while some say that the two major powers in the region, Iran and Turkey, would see an anarchical Iraq as an opportunity to expand their influence, that seems unlikely. Rather, a divided Iraq would be a base from which those countries' enemies - especially dissident Kurds - would be able to operate with impunity.
For now, with the United States viewed as determined to stay the course, the hard-liners in Iran can pursue their anti-American vendetta by encouraging the Shiite opposition, supplying Mr. Sadr's militia and encouraging Syria to help Islamist terrorists sneak into Iraq. But an American withdrawal would mean the end of any hopes for a unified, Shiite-led Iraq, which is Iran's long-term goal, and likely a restored Sunni supremacy, which is Iran's greatest fear.
As for Turkey, our ever-more nominal ally, it now seems focused on uniting the Turkmen minority in Iraq under its leadership, while dividing the Kurds. It has done nothing to help the United States in its difficulties - and Turkey could do much, most obviously sharing information collected by its intelligence units operating in Iraq. But if the alternative is an imminent American withdrawal - and a de facto independent Iraqi Kurdistan - Turkey would soon come to heel.
The threat of disengagement would affect the lesser players as well. Kuwait, whose very existence depends on American power, has done little to help. At a time of exploding oil revenues, and with Kuwaiti subcontractors collecting huge sums from Pentagon contracts, the Kuwait Red Crescent is sending only odd truckloads of food into Iraq (and even those figures seem inflated). As for the Saudis, their attitude is exemplified by their recent offer of an Islamic contingent to help garrison Iraq: it sounded courageous at first, but turned out to be a promise of troops other than their own, and was hedged by conditions that made it worse than useless.
Yet Kuwait and Saudi Arabia would be greatly endangered by an anarchical Iraq, which might even allow Iran to invade its southern regions on the pretext of protecting fellow Shiites. Again, the threat of American withdrawal would be apt to concentrate minds wonderfully. The goal would be to get Kuwait and Saudi Arabia to replace the American taxpayer in aiding Iraq; the two could also jointly sponsor peacekeeping troops, in earnest this time, financially rewarding poorer Muslim countries with troops to spare. While deploying such soldiers across Iraq would be a very bad idea - they would be Sunnis of course, and most unwelcome to Iraq's Shiites - they would be fine for the recalcitrant Sunni towns.
This is no diplomatic parlor game. The threat of an American withdrawal would have to be made credible by physical preparations for a military evacuation, just as real nuclear weapons were needed for deterrence during the cold war. More fundamentally, it would have to be meant in earnest: the United States is only likely to obtain important concessions if it is truly willing to withdraw if they are denied. If Iraq's neighbors are too short-sighted or blinded by hatred to start cooperating in their own best interests, America would indeed have to withdraw.
That is a real constraint. Then again, the situation in Iraq is not improving, the United States will assuredly leave one day in any case, and it is usually wise to abandon failed ventures sooner rather than later.
Yes, withdrawal would be a blow to American credibility, but less so if it were deliberate and abrupt rather than a retreat under fire imposed by surging antiwar sentiments at home. (See Vietnam.)
So long as the United States is tied down in Iraq by over-ambitious policies of the past, it can only persist in wasteful futile aid projects and tragically futile combat. A strategy of disengagement would require risk-taking statecraft of a high order, and much competence at the negotiating table. But it would be based on the most fundamental of realities: for geographic reasons, many other countries have more to lose from an American debacle in Iraq than does the United States itself. The time has come to take advantage of that difference.
Edward N. Luttwak is a senior fellow at the Center for Strategic and International Studies and the author of "Strategy: The Logic of War and Peace."
Copyright 2004The New York Times Company

O Supremo Tribunal chileno decidiu retirar a imunidade a Augusto Pinochet contra uma possível indiciação criminal. Aparentemente, os juízes não terão sido sensíveis às alegações de “demência” apresentadas pelos advogados do ex-ditador. Pinochet poderá assim ter de responder, num tribunal chileno, pelos seus inúmeros crimes. Mas talvez nem tudo esteja perdido: no rol de testemunhas abonatórias, o general contará certamente com Lady Thatcher e Henry Kissinger, duas referências morais acima de qualquer suspeita.
«Acha que os portugueses desconfiam de si, das suas capacidades?»
«Não. Interessam-se [...] Para as pessoas é um motivo de curiosidade.»
Pedro Santana Lopes, entrevista à Visão.
«Sente-se diminuído pelo facto de não ter sido legitimado pela vontade popular?»
«Não.»
Pedro Santana Lopes, entrevista à Visão.
«Um primeiro-ministro ocupa metade do seu dia com assuntos de política externa.»
Pedro Santana Lopes, entrevista à Visão.
«Eu, desde que soube que ia ser primeiro-ministro até o ser tive três semanas. Não sei se as pessoas sabem o que isso representa. É de uma violência...»
Pedro Santana Lopes, entrevista à Visão.
«Não tem sido fácil»
Pedro Santana Lopes, entrevista à Visão.
«Os membros eleitos do Conselho de Redacção do "Diário de Notícias" ("DN") consideraram inaceitável que a direcção do jornal tenha retirado de página um texto de opinião da jornalista Fernanda Câncio, que esteve para sair na edição de 18 de Agosto, a mesma em que a direcção também não permitiu a saída de um texto na secção de política nacional sobre divergências antigas entre Pedro Santana Lopes e o seu actual número dois no Governo, Álvaro Barreto.
No comunicado que emitiu, e a que o PÚBLICO teve acesso, o Conselho de Redacção considerou esta decisão inaceitável, realçando que "nada havia no texto de Fernanda Câncio que justificasse a sua não publicação". E justifica: "Neste texto, a jornalista fazia algumas alusões políticas (exemplo: 'O quadro temporal do reinado de Ferreira Leite coincide com o acesso de loucura da nação'), mas naquele mesmo espaço, dias antes, a escritora Maria João Lopo de Carvalho usara a sua crónica para fazer igualmente considerações políticas (exemplo: 'O país esteve triste mas agora a temperatura subiu (...) depois da lufada de ar fresco que Pedro Santana Lopes nos veio trazer'). Sem que a direcção tivesse levantado qualquer objecção à publicação do referido texto."
Fernando Lima considerou que os dois casos "não são comparáveis", porque Maria João Lopo de Carvalho é uma colaboradora convidada apenas para escrever no "DN" no período de Verão, enquanto a segunda é membro da redacção do jornal.
Foi ainda criticada a publicação de uma notícia na edição de 22 de Maio sobre uma sondagem encomendada pelo PSD-Açores que dava a vitória a este partido nas eleições regionais. O conselho de redacção não vê "motivos jornalísticos que justificassem esta notícia, que nem sequer vinha acompanhada de uma ficha técnica, como é obrigatório por lei". O facto de o último barómetro do "DN" antes das eleições europeias, que antecipava a vitória do PS por larga maioria, não ter sido chamado à primeira página do jornal também mereceu reprovação. "Um facto tanto mais de estranhar quanto todos os barómetros têm chamada de capa", lê-se no referido comunicado.»
O que nos vai valendo é que o Público, que não se dignou esclarecer os seus leitores sobre uma questão idêntica que ocorreu no seu jornal há poucos meses, usa as suas páginas de média para informar os seus leitores sobre a concorrência. Antes assim. Os jornais não têm de ser opacos aos leitores.
«Paulo Portas coordena resposta de Portugal [ao barco das Women on Waves] ..."O Estado não reage a golpes publicitários, mas agirá pronta, adequada e proporcionalmente, se e quando tiver de agir"»
Público [versão impressa], 26/08/2004, p. 21.

A um preço absolutamente ridículo (EUR 4,90), a TV Guia pôs à venda uma colecção de filmes em DVD do período inglês do Hitchcock. Uma segunda boa notícia: em certas bancas, os jornaleiros vendem-nos sem a revista. E ainda uma terceira: as cópias são muito boas.
Conhecia mal esta fase de Hitchcock: por uma razão ou outra, nunca consegui vê-la na Cinemateca, e há muito que a RTP 2 parece ter desistido de mostrar filmes “a preto e branco”. Comecei a comprá-los numa lógica de investimento: a partir de Janeiro, passarei a ter muito menos hipóteses de ir ao cinema, e daí a vantagem de armazenar um bom stock de DVDs. Mas a curiosidade falou mais forte, e a colecção já está quase toda vista. Uma das coisas que mais me divertiu foi verificar como alguns deles adquiriram uma tonalidade "politicamente incorrecta" com o passar dos anos - praticamente todos os personagens adultos fumam desalmadamente, e mesmo nas situações mais improváveis são incapazes de largar o cigarro; os "estrangeiros" são sempre umas criaturas apalhaçadas ou tipos completamente sinistros; num cerco a uma casa guardada por bandidos, os polícias desatam aos tiros sem primeiro tentarem uma negociação, e por aí fora. Adorei “Os 39 Degaus” e “O homem que sabia demais” (embora continue a preferir a versão com o James Stewart e a Doris Day), mas deleitei-me sobretudo com “The Lady Vanishes” (1938), que entre outras coisas é uma crítica muito inteligente à mentalidade insular dos ingleses e à política do “appeasement” que antecedeu a II Guerra Mundial.
Stardust memories

Calenture: espécie de febre que provoca visões aos marinheiros há muito tempo no mar e que os faz ter vontade de se atirarem sobre verdes prados imaginários.
Gosto de muitas coisas nesse país: o mar, a cor do mar. A língua, a maneira das pessoas dizerem as palavras, os sotaques diferentes. Gosto das cidades, do passado das cidades que se deixa imaginar a partir do presente. Sobretudo as cidades junto ao mar, com o seu movimento humano. É a partir de coisas como estas que construo uma ideia superior, uma alma, uma coisa exaltante que me dá vontade de cantar. Enfim, adoro a Itália.
Hoje tive um momento de revelação, uma epifania. Foi enquanto lavava o chão da cozinha, – não sei se é inédito –, que vi a nova estratégia de Santana Lopes.
Parece evidente que aquela história de prometer coisas impossíveis em catadupa está esgotada. De quantos mais casinos flutuantes, prédios futuristas, semi-túneis e campos anti-gravitacionais precisará ainda o país?
Santana 2.0 operou uma mudança de paradigma que já esta a dar frutos. Consiste em dois pontos:
§1 Não fazer nada. Isto deixa a oposição muda, uma vez que não há nada a que se opor.
§2 Em casos extremos, fazer duas coisas contraditórias.
Desta é que ninguém estava à espera.
Ainda não tinha aproveitado para dar os parabéns ao BdE pela contratação do Jorge Palinhos [o J. do Cruzes Canhoto]. É um dos mais completos trabalhadores da bloga portuguesa: inteligente, informado, divertido e politicamente coerente.
Uma discussão na blogosfera que o meta a ele, ao JMF do Terras do Nunca, ao MacGuffin do Contra-a-Corrente e ao Nuno Guerreiro da Rua da Judiaria seria sempre um deleite intelectual. Este post do Jorge, nomeadamente, é um tour de force praticamente impossível de contrariar.
Infelizmente, esta é a enésima discussão sobre o espectral "anti-semitismo da esquerda", ou da Europa, ou da esquerda europeia. Eu já pequei nela, embora reconheça que é uma discussão que simplesmente não vale a farinha que come. Que o anti-semitismo infelizmente existe, ninguém o nega. Agora que a esquerda tenha alguma culpa nesse cartório é puro delírio. Poucos campos ideológicos se podem orgulhar de ter uma história e uma prática de oposição ao anti-semitismo como a esquerda europeia.
A discussão teria então todo o interesse fora da modalidade enjoativa do "tiro à esquerda". Assim, nasce torta e nunca se endireita.
E, sinceramente, faz-me pena quando Mac Guffin escreve que: "Começa a estar gasto esse novo expediente que invoca a “a confusão entre antisemitismo e contestação às opções políticas do Estado de Israel” para ardilosamente esconder o que, em muitos casos, está por detrás das ditas «contestações»: o mais puro ódio aos judeus." Será que o MacGuffin não parou para pensar que esta sua frase é igual àquelas com que o MPLA responde às críticas à corrupção de José Eduardo dos Santos ("escandalosas demonstrações de racismo e neo-colonialismo"), ou os apoiantes de Yasser Arafat responderam às mesmas críticas de corrupção (feitas sempre por "inimigos da causa palestiniana"), ou os diversos PC's aos ataques às ditaduras de leste ("mero anti-comunismo primário")?
Ariel Sharon é um criminoso de guerra. E existe muita gente que quanto mais gosta do judaísmo e abomina o anti-semitismo, mais detesta este homem. Pena que o MacGuffin não o queira admitir.
Foto da direita de Paulo Novais/Lusa
A final dos 1500 metros de ontem foi para mim, até agora, a corrida mais bonita das que se fizeram no atletismo destes Jogos. Os comentadores da televisão francesa (que são informados e muito profissionais, se exceptuarmos um entrevistador histriónico) não deixaram de salientar a magnífica prova que fez Rui Silva, extremamente inteligente a deixar-se ficar um pouco para trás e ao confiar na sua óptima ponta final. Os outros atletas eram de outro campeonato e por isso o bronze dele vale ouro, fazendo talvez lembrar o bronze de António Leitão nos 5000 metros dos Jogos de Los Angeles, em 1984.
Quanto ao marroquino Hicham El-Guerrouj, esta era a última grande ocasião para ganhar o ouro daquele que é provavelmente o maior corredor de 1500 metros de todos os tempos (como também sublinharam os comentadores franceses; aliás, os portugueses também são bons ou eram, no meu tempo, estou-me a lembrar de Luís ou Jorge Lopes). Em Atlanta, Hicham caiu durante a corrida. Em Sidney, depois da sua última volta a ritmo fortíssimo, foi ultrapassado ao sprint em cima da meta por um queniano. E ontem parecia que lhe ia acontecer o mesmo. Mas Hicham aguentou, aguentou, aguentou. O queniano, Lagat, estava na posição do "caçador", como disseram os comentadores (será do atletismo, rainha das modalidades olímpicas? Ou será simplesmente do contraste que fazem comparados com a indigência dos comentadores de futebol?). Enquanto ao seu lado Lagat esticava o pescoço com o esforço e revirava os olhos para ver se o passava, Hicham foi buscar as suas últimas forças na sua última oportunidade para aguentar o metro de vantagem para si e para Marrocos.
Um rei assim merece a coroa de oliveira. Na verdade ela não lhe é dada: é-lhe devolvida.
Infelizmente, o Público on-line não traz esta interessante notícia da sua versão impressa de hoje [p. 8], que passo a transcrever na íntegra.
«Ministros querem novos carros: Vários membros do Governo de Pedro Santana Lopes queixaram-se dos carros deixados pelos seus antecessores e pediram à Direcção-Geral do Património novos veículos, ao todo, 50. As ordens do Ministério das Finanças foram em sentido contrário, alegando que não havia carros disponíveis e também não havia dinheiro para novas aquisições, noticiou ontem o jornal electrónico "Portugal Diário". Fonte oficial do Ministério prometeu explicações no futuro próximo. Ontem, a assessora de imprensa de Bagão Félix não esteve contactável. Cada gabinete ministerial tem direito a seis viaturas (duas de representação, uma de uso pessoal, uma para o chefe de gabinete e duas para serviços gerais). O gabinete do Primeiro-Ministro escusou-se ontem a revelar se Santana Lopes tinha sido um dos governantes a quem as Finanças recusaram o pedido. O primeiro-ministro partiu ontem para as ilhas Baleares, onde gozará três dias de férias.»
Certamente que muito haveria para dizer sobre esta notícia. Para já, o que mais me intriga é o seguinte: Bagão Félix só tem uma assessora de imprensa? Esta não estava disponível? Ninguém lhe pode emprestar mais uma ou duas?
De cada vez que escrevo menos posts, é sinal de que a tese está parada. De cada vez que escrevo mais, é sinal de que está a avançar.
Consigo identificar-me com Nuno Gomes e Tiago (ainda antes da sua venda estar assegurada sabia-se que a entrada de José Veiga para o Benfica era para ele um bilhete de saída), Miguel e Moreira. Até o Argel consigo esquecer com estes jogadores. Mas com José Veiga ou Luís Filipe Vieira não, com esses é que não há identificação possível. Não sou adepto do José Veiga.
Mas escrever a bater em José Veiga é um bocado uma perda de tempo. Faz parte da impotência do adepto, que não escolheu o seu clube de infância e que sabe que o futebol não é democrático nem é suposto que seja. Como tirar de lá os dirigentes de que não gostamos sem nos chatearmos muito, nem nos envolvermos num mundo que definitivamente não nos interessa? Não somos cidadãos na bola, seremos quanto muito, e com boa vontade, meros consumidores. Mas aí já não do Benfica necessariamente, apenas do bom futebol.Haveria coisas muito mais importantes, algumas bonitas (a extraordinária corrida dos 1500 metros de ontem, de Hicham El-Guerrouj e Rui Silva), de que falar hoje. Mas a condição de emigra associada a uma pulsão agressiva leva-me a falar da derrota por 3-0 com o Anderlecht, jogo que não vi mas que só pode ter sido uma catástrofe. O tempo do Benfica é o tempo cíclico: ilusão, seguida de princípio doloroso da realidade, e logo a cada mês de Agosto, quando se joga a partida mais cara do ano. E o Benfica perde. A derrota até seria normal se a gente a pudesse digerir como uma coisa normal. Mas os adeptos do Benfica, os míticos 6 milhões, querem-se para vender jornais, subir audiências, comprar camisolas e lugares cativos. E para fazerem todos os anos o papel de parvos. Somos os parvos que acreditam que o clube ainda é grande pois isso convém a uma série de gente. E somos os parvos particulares de um mundo particularmente opaco. Percebemos um mínimo do que se passa no campo. Por isso perguntamos: por que é que Argel joga e Ricardo Rocha não? A resposta deve estar naquelas coisas que todos os jornalistas sabem dos corredores da bola e que o público leigo que gosta de bola só pode imaginar: se for verdade, por exemplo, que Ricardo Rocha não joga porque não é do José Veiga, como parece por esta crónica, então quer dizer que a equipa está completamente nas mãos dos empresários, e de um em particular. E, como os jogadores são todos dele, nada mais lógico que ele ter assumido funções directivas. O que quer dizer que as opções desportivas estão completamente submetidas à lógica dos empresários, e de um em particular. E que Trapattoni, na idade da reforma, é o idiota útil, aquele que não faz ondas, o eterno sobrevivente. (Ontem mostrou a sua ambição: segundo o que declarou à imprensa, ela reduz-se a fazer bem um pressing defensivo num jogo em que era fundamental marcar um golo fora. Deixou portanto no banco o jogador que estava a marcar golos este ano, Zahovic). Mas Trapattoni também não vai durar muito se as coisas continuarem assim, e irá sobreviver para outro lado em breve. Porque a lógica dos empresários manda no clube e faz ganhar dinheiro à conta do clube, mas não faz ganhar os jogos. Os tais jogos que dão dinheiro ao clube, sem o qual nada se pode fazer. Pode ser que fique para o ano, pois leio que já não há pré-eliminatória. Mas para isso é preciso ficar em segundo no campeonato.
Em primeiro lugar, ninguém imagina que agora, depois de dois anos de congelamentos, se vão abrir as comportas aos empregos na função pública.
Em segundo lugar, reciclar estes professores em quê? Todos sabemos que há menos miúdos nas escolas, mas isso não quer dizer que estes professores não nos sejam úteis. Se, afinal de contas, eles podem ser empregados, porque não empregá-los na sua profissão? Sem ser exaustivo, estou a pensar em funções como acompanhamento de alunos atrasados, auxílio na realização de trabalhos de casa, direcção de "clubes de ciências" (ou de artes, ou de línguas), coordenação de actividades desportivas, etc. Com miúdos a menos e professores a mais as escolas poderão estar disponíveis por mais tempos para além das actividades curriculares nucleares, com as vantagens que se podem imaginar para os estudantes, famílias e sociedade em geral.
Se, no fim de contas, havia dinheiro para empregar esta gente, por que não reciclar a maioria dos professores como professores, e de preferência mantê-los na mesma escola por mais do que um ano de cada vez?
Enfim. Claro que sabemos que isto é impossível enquanto esta direita, puramente destructiva e civicamente infantil, estiver no governo. Não aparecerão 40 mil empregos da noite para o dia, ainda por cima na função pública. Afinal, não acredito que precisem assim de tantos assessores e chefes de gabinete.
Nos velhos tempos, os governos tentavam dar o máximo nos seus 100 primeiros dias. Santana Lopes, que não é homem para fugir às dificuldades e gosta de surpreender, passou os primeiros 40 dias exclusivamente a fazer nomeações. Quando já tivermos esquecido que temos governo e esta gente toda começar a trabalhar, os últimos dez dias serão certamente fantásticos.
Jorge Sampaio vai visitar o Luxemburgo no próximo mês de Setembro. Para os mais distraídos é aquele país de tótós cujo primeiro-ministro recusou ser Presidente da Comissão Europeia para cumprir a promessa de não abandonar que tinha feito aos seus eleitores.
José Manuel Fernandes de novo, a propósito do seu editorial de hoje sobre um livro publicado em França intitulado "Bonjour paresse". Ignoro tudo sobre este livro. Mas, para que não haja confusões, quero aqui declarar o seguinte: o facto de sermos algumas dezenas de milhares de pessoas a ler diariamente o Público não demonstra que nos sintamos todos atraídos pela preguiça intelectual do seu director.
William Kristol, "neoconservador influente", entrevistado por José Manuel Fernandes no Público de hoje.

A Women on Waves continua a lutar pela descriminalização do aborto nos países onde ele é ilegal. Hoje zarpam no seu barco para Portugal. Mais informações aqui.

... mas a Obikwelidade anda lá perto.
Obrigado, Francis Obikwelu, por teres decidido ser português. Todos nós também o decidimos, mais tarde ou mais cedo, às vezes sem nos darmos conta. Tu decidiste-o mais tarde e de forma mais consciente do que eu, o que certamente não tem menos significado, bem pelo contrário. Espero que o teu país saiba aprender com essa generosidade que demonstras tu e muitos outros novos portugueses que não ganham medalhas nos 100m.

(Enviado directamente de férias)
Segundo o «Correio da Manhã», a direcção do Diário de Notícias terá vetado um artigo que reportava uma desavença entre Santana Lopes e Álvaro Barreto que data de 1999. Não vou opinar sobre questões internas de um orgão de comunicação social sobre as quais não tenho outras informações que não as da concorrência. Mas, a serem exactos os termos em que a coisa é posta no CM, é evidente que o caso não tem qualquer relevância jornalística. Gostava de ter 500 euros por cada ministro do governo que já disse mal de Santana. Não vejo que actualidade tenha o facto de ter havido um conflito há cinco anos que pelas mais variadas razões (como a simples passagem do tempo) possa ter sido sanado. Muito pior foi o conflito entre Santana e Durão e foi graças à generosidade do segundo que Santana é agora o nosso primeiro. Por outro lado, estas coisas têm um efeito perverso, permitem a quem é visado a tentação da vitimização. Parece-me importante que se esteja vigilante em relação à acção do governo, mas muito pouco interessante andar a tirar esqueletos dos armários.
P.S. este post foi aqui colocado acidentalmente às 3.21h numa versão de rascunho. é a presente a sua versão definitiva.
Lá perdemos com o FC Porto, como seria de esperar, mas também não fomos humilhados. A isto chamo estabilidade.
Stardust memories

Je suis belle, ô mortels! comme un rêve de pierre
Caro Manel,
Concordo com a tua equipa. Mas acho que o Miguel merece mais pontos do que o Simão. E que o Ricardo Rocha merece mais do que o Luisão. Quanto ao João Pereira, inteiramente de acordo, tem muito que aprender.
Um abraço benfiquista.

Para mim, David Mamet é um daqueles realizadores que nunca conseguiu repetir a magia do primeiro filme – o fabuloso “House of Games” (1988). Sempre que se estreia um filme dele, lá vou eu à espera de nova proeza, e invariavelmente saio da sala desiludido. Nalguns mestres (o Hitchcock parece-me o exemplo mais óbvio), grande parte dos seus filmes são variações sobre os mesmos temas. Mas no caso de Mamet, o efeito de repetição torna-se cansativo. No fundo, é o conto do vigário contado de uma maneira ligeiramente diferente. Na segunda vez em que o seu talento como argumentista resultou num filme poderoso e original – “Glengarry Glenn Ross” (com um casting genial: Jack Lemmon, Al Pacino, Ed Harris, Kevin Spacey) – a realização pertenceu a outra pessoa (James Foley).
“Spartan”, o último filme de Mamet, voltou a desiludir-me. Depois dos filmes sobre a máfia, burlões e assaltantes, Mamet revisita o género thriller político. Mas lá temos os mesmos artifícios, os mesmos jogos de biombo, os diálogos com respiração teatral. Ainda assim, entre isto e “O Homem Aranha 2”, confesso o meu conservadorismo.
Não sei quem selecciona os artigos internacionais que de tempos a tempos surgem no Público, nem quais as condições em que essa aquisição é feita. Mas confesso aqui minha decepção perante um critério que sistematicamente privilegia autores alinhados com uma orientação mais liberal-conservadora. Admito que Ralf Dahrendorf, Francis Fukuyama, Timothy Garton Ash e Robert Kagan possam ser nomes a ter em conta no comentário internacional, mesmo que não partilhemos os seus pontos de vista. Mas estão longe de representar a diversidade de opiniões que normalmente encontramos na imprensa estrangeira de referência. Pode-me ter escapado, mas não me lembro de ter lido recentemente no Público traduções das críticas especialmente contundentes que nos últimos meses autores como Paul Kennedy, Anatole Lieven, William Pfaff, Paul Krugman ou Zbigniew Brzezinski dedicaram à política americana no Iraque, por exemplo. Em contrapartida, o único artigo sobre a campanha eleitoral americana e as opções de política externa dos candidatados ali publicado é este texto incrível do Robert Kagan, um dos gurus do neoconservadorismo.
Um pouco mais de pluralismo (como aquele que, apesar de tudo, existe na secção de opinião nacional) não fazia mal nenhum ao Público, que construiu a sua reputação como um diário de centro-esquerda de qualidade e que, tanto quanto posso perceber, continua a ser maioritariamente lido por pessoas dessa área política.
Começou o atletismo e sua ostensiva beleza (Christine Arron, Guadalupe/França).
Quantos dias passaram desde que foi anunciada a abertura de um inquérito sobre o caso das cassetes roubadas? Seria de imaginar que uma das primeiras diligências dessa investigação tivesse sido apreender imediatamente as provas principais do caso – as cassetes originais.
Mas calma, pessoal, estamos em Agosto.
Segundo o Comércio do Porto, citado pela RTP, o Correio da Manhã destruiu as cassetes originais, comprometendo esta investigação de importância menor. E aqui pergunta o leitor: isso não será crime de destruição de provas? Não, não é. As cassetes não eram prova coisa nenhuma, porque ainda não tinham sido apreendidas.
É um país fantástico, não é?
Ministros de Santana Lopes pedem mais assessores de imprensa.
Se há dúvidas sobre o resultado do referendo na Venezuela, o tira-teimas é simples. Ao votar nas urnas electrónicas que foram utilizadas, cada eleitor recebe um papel com o seu voto. Após confirmar pessoalmente se o voto expresso no papel corresponde ao que foi efectivamente escolhido, o eleitor coloca este papel numa urna selada. Em caso de disputa sobre o resultado pode sempre recontar-se da forma tradicional, porque há um rasto de papel que garante que os votos não se perderam no meio dos bits e dos bytes.
Este "paper trail" é uma ponte indispensável para a confiança no voto electrónico. O que torna incompreensível que a Election Assistance Commission dos EUA, nomeada por Bush, esteja a permitir que um terço dos votos das próximas presidenciais americanas seja efectuado em máquinas que não deixam qualquer rasto em papel, como nos explica este artigo do The Nation. Depois do fiasco de 2000, como pode Bush permitir que haja suspeita sobre o vencedor das eleições em 2004?
Nem parece coisa dele.

Aqui há um mês e tal, nos cafés dizia-se que Figo estava velho. A sentença era largada com aquele ar brutal de quem já tinha outro rei – Cristiano Ronaldo – na barriga. Hoje Figo suspendeu a sua participação na selecção nacional. Calhou ser no mesmo dia em que a selecção olímpico foi eliminada dos Jogos depois de uma participação medonha, com 9 golos sofridos e mais cartões amarelos e vermelhos ainda em apenas três jogos.
Esperemos que esta suspensão seja breve. Figo vai fazer-nos mesmo muita falta.
Ontem um amigo lembrava-me como em tempos os critérios de responsbilidade política eram entendidos. Nesses tempos até um político como Jorge Coelho sabia que tinha de se demitir logo a seguir ao terrível acidente de Entre-os-Rios, ainda antes de se apurarem responsabilidades nos serviços do seu próprio ministério.
Com o PSD e o PP no governo a responsabilidade política passou a comportar-se como a lei da gravidade. Na Câmara Municipal de Lisboa, na Procuradoria, no Ministério da Educação, em todo o lado, tudo o que sobe tem de descer. Tem de haver sempre um assessor, uma secretária, um adjunto de um adjunto responsável por tudo, das pequenas gaffes às jogadas sujas. Atenção, estafetas e moços-de-recados de Portugal: não pensem que podem escapar-se para sempre.
A TSF noticia que o número de desempregados inscritos nos centros de emprego aumentou 6,4% no mês de Julho. O desemprego aumentou 0,3% em relação a Junho. O Público noticia que a despesa corrente tem crescido desde o início do ano e que isso coloca de novo em risco a consolidação orçamental. O que se poupa no investimento público desaparece, entre outras coisas, em transferências para a Seguranca Social. Um gajo como eu, que não percebe nada de finanças, pergunta-se se não será para pagar subsídios de desemprego, por exemplo.
Durão Barroso passava a vida a proclamar que não havia alternativa a esta política. De facto, dentro dos círculos viciosos não há alternativas.
Os actuais políticos estão a tentar convencer-nos que, uma vez que as divergências ideológicas desapareceram, a política se reduz à administração (...) Segundo esta visão, a vida política não seria diferente do quotidiano de um administrador de empresa, pelo que qualquer debate filosófico teria deixado de fazer sentido (...) O leitor pode ser tentado a concluir que tenho saudades das discussões mantidas com os meus amigos durante o PREC. Não terá acertado. Hoje sei que os confrontos desses anos tiveram um custo demasiado elevado, não só sobre a economia nacional, que precisa de estabilidade, mas no que diz respeito à minha vida pessoal. Hoje, gosto da placidez política que me permite sentar na Biblioteca Nacional, sabendo que não estou a ser sobrevoada, como sucedeu a 11 de Março, por aviões que poderiam ter levado o país a uma guerra civil. Mas, se quisermos sair do torpor ideológico em que caímos, teremos de encontrar uma maneira de voltar a falar a sério de opções políticas.
[Filomena Mónica, hoje, no jornal Público]
Afinal a senhora doutora não tinha nada a ver com a procuradoria. Afinal o procurador não vai assumir porra nenhuma. Afinal Sampaio não fará coisa alguma para dar um pouco de higiene à cena. Afinal era bom termos uma palhinha para respirar nos próximos dois anos...
Na arte contemporânea, o contexto em que cada produto cultural é apresentado é essencial para estabelecer uma leitura sobre o mesmo. O cinema, a mais contemporânea e popular das artes, não é excepção. Ora, Fahrenheit 9/11 é apresentado como um documentário, coisa que não é, na mesma medida em que o Couraçado Potemkine está longe de o ser. O filme é construído como uma tese, exactamente da mesma maneira que um advogado constrói as suas, com argumentos fortes e inelutáveis e outros que se destinam apenas a cimentar a convicção que se quer produzir. Nesse sentido, trata-se de uma peça de propaganda, o que não faz de Moore um mentiroso. O que caracteriza a propaganda é, sobretudo, o olhar sem contraponto como se não existisse nenhuma dialéctica nem contradição numa realidade que corre como um rio em leito certo. Não vale por isso a pena ouvir pontos de vista discordantes nem analisar um argumentário que contradiga a tese de partida. Por outro lado, muitas das coisas que Moore invoca não são novidade para ninguém, mas é a férrea arquitectura que nos é apresentada que lhes fornece um nexo de uma extraordinária eficácia manipuladora. Nesse sentido o filme não se afasta um milímetro da publicidade eleitoral agressiva que os americanos tão bem debitam de quatro em quatro anos. Isto não quer dizer, repito, que sejam ditas mentiras, como alguns pretenderam. Claro que há a cena do momento do atentado contras as torres – com Bush a ler uma história numa escola - que é puro assassinato político, ou a sequência extensíssima com a mãe do soldado morto que só vem fazer o corolário de um sentimentalismo barato que aqui e ali pontua o filme (alguma mãe é imune à perda de um filho?). Para já não falar na permanente tentativa de ridicularizar Bush (que, em certos casos, paradoxalmente, o humaniza como na história das férias - quem não gosta de férias?). O que me parece é que talvez este dourar da pílula não fosse preciso já que enfraquece os aspectos em que o filme é mais forte, como na sistematização da ideia muito partilhada de que as corporações sequestraram a democracia, numa empresarialização do poder que dá sentido à famosa expressão «Sociedade de mercado»; ou na tese lúcida de que são sempre os excluídos os primeiros a levantarem-se para defenderem o sistema (aqui Moore é brilhante ao expor o facto de que apenas um congressista tinha um filho na guerra). Quanto a documentário, procurem noutro lado. É propaganda, mas da mais bem feita que tem aparecido. Só comparável à que criou o ambiente para a invasão do Iraque.
Stardust memories

Música para morder pescoços

Quando soube da notícia, pensei logo em fazer um post maldoso. Mas depois arrependi-me – pronto, lá iam dizer que o Barnabé é um blogue movido pelos piores sentimentos (inveja, mesquinhez, etc.). Mas eis que o respeitável Economist pega no assunto e não resiste a mandar a sua piadinha. Então é assim: Tony Blair passou parte do mês de Agosto na casa de Cliff Richards, em Barbados, e por esta altura deve estar a brincar ao karaoke com Sílvio Berlusconi, na Sardenha. A gente até lhe pode perdoar a obsessão com o spin, a subserviência ao Bush, os erros do Iraque, mas férias com Cliff Richards e Berlusconi, isso é que não.
Eu cá, sobre o tema do último post do Rui, prefiro fazer o elogio da preguiça: a nossa, que é a que sabe bem. Já lá dizia o poeta. Que bom não ter que escrever aquilo que tenho para escrever. Que bom não trabalhar hoje. Que bom ter preguiça intelectual e deitar as culpas da má qualidade do ensino para cima de Rousseau. É um problema de civilização, a história explica, e como o ontem não tem emenda (pior: enraizou-se em cada lar na pieguice de cada educador) não vale a pena investir ou ter política de educação hoje. É melhor cortar nos programas "Ciência Viva". E que bom faltar às aulas, ser professor universitário ausente no público e acumulando no privado (não é o caso de Fátima Bonifácio, sublinho). Que trabalhem os alunos. Que façam eles o que lhes não ensinam. Que tenham eles a aplicação e o rigor que não vêem à sua volta. Que trabalhem eles para um emprego que não há. Que façam eles anos e anos de trabalho intelectual para uma carreira inexistente. Quem quer prescindir de ser preguiçoso? Eu não. Assim tenha condições para isso que logo verão.
José Manuel Fernandes elogiou ontem no Público o artigo de Fátima Bonifácio sobre o Ensino Superior que eu critiquei aqui. Resume-o desta forma: "ano após ano os critérios de exigência e rigor vão decaindo perante estudantes que não correspondem e a última coisa que desejam é esforçar-se. Hão-de desenrascar-se, como tantos antes deles, e haverá sempre forma de um dia ganharem a vida pior ou melhor [...] Sem mudar os nossos paradigmas culturais dominantes, de nada servirá dar mais dinheiro à Educação: será dinheiro desperdiçado".
Aproveito o ensejo para responder aos comentadores que aqui no Barnabé discordaram da minha posição – e para não me repetir muito, podem encontrar outros argumentos meus aqui ou aqui.
Para começar, devo dizer que escrever um texto a lamentar a preguiça e o facilitismo dos jovens estudantes deve ser, neste momento, uma das maneiras mais fáceis de conseguir aplauso público. Todos os anteriores sermões neste sentido, de Fátima Bonifácio, Filomena Mónica ou António Barreto, por exemplo, mereceram sempre réplicas elogiosas nos dias subsequentes – de José Manuel Fernandes, várias vezes. Estas queixas caem sempre bem entre as gerações mais velhas e a sua tendência a dourar o próprio passado. Também não há dúvida que ser um cavaleiro do "rigor" e do "esforço" contra os "meninos mimados" é uma atitude enobrecedora. Só que estas queixas, extremamente rotineiras e previsíveis, se tornaram elas próprias num exemplo acabado de facilitismo intelectual e de uma enorme preguiça em pensar os problemas efectivos do ensino.
1. Em primeiro lugar, estes textos não têm objecto político. Propôr que todos sejamos trabalhadores e deixar a coisa por aí é muito reconfortante para quem o faz, mas enquanto proposta política vale zero. Claro que seria óptimo que todos fôssemos óptimos, excelente que fôssemos excelentes e maravilhoso que fôssemos maravilhosos; mas seja como for, essa é uma questão do domínio moral. Os autores destes textos têm por aí muito púlpito de pastor protestante onde poderão dar largas às suas prescrições, mas a política faz-se com as pessoas que existem. Ao invés de nos dizerem que deveríamos todos ser trabalhadores, o que agradecemos, estes autores têm de nos explicar como é que propõem que passemos todos a ser trabalhadores. E aí, infelizmente, o seu programa é circular. Limita-se a isto: dizer a toda a gente que o estudo exige trabalho. Aparentemente não tem funcionado, porque afinal, como agora diz José Manuel Fernandes, o que temos é de mudar os nossos "paradigmas culturais dominantes".
2. Este é outro erro básico. José Manuel Fernandes parece convencido que os paradigmas mudam se lhes pedirmos, quando tudo na noção de paradigma aponta para a ideia contrária. O que fazemos enquanto não mudam? Acima de tudo, não investimos dinheiro. Mas nada garante que vão mudar no sentido que José Manuel Fernandes preconiza, muito menos quando ele se recusa a investir nos meios que possibilitariam tal fim. Pois apesar desta imprevisibilidade, acredito que seja possível às sociedades dar empurrões que talvez desencadeiem uma mudança de paradigma. A Finlândia, como sabemos, conseguiu-o; mas conseguiu-o com investimento e objectivos políticos muito fortes e claros – e não vagas formulações morais. Quantos alunos por sala? Quantos livros na biblioteca? Quantos professores com emprego estável? Que condições sociais para as famílias terem tempo para os filhos? Estas são, claro, perguntas muito difíceis, especialmente nos dias de hoje, bem mais difíceis do que perorar sobre a decadência dos valores.
3. Por outro lado, os paradigmas não podem de forma alguma mudar quando tudo o resto na realidade humana se move em sentido contrário. E aqui nota-se uma curiosa dissociação de personalidade destes autores. Praticamente todos avisam para a impossibilidade de se voltar atrás nas sociedades abertas, na economia de mercado, na globalização. Em contrapartida, desejam regressar ao passado no domínio dos valores, como se fosse possível, em sociedades abertas, exigir a adolescentes do tempo do consumo e da publicidade que se comportem como os nossos autores imaginam que as pessoas se comportassem no passado, mais ou menos mítico, que gostam de citar como exemplo (e que em Portugal nunca existiu). Gertrude Himmelfarb, a historiadora americana cuja obra Fátima Bonifácio divulgou em Portugal, tem clamado pela necessidade de um regresso aos "valores vitorianos". Para a sua divulgadora portuguesa, contudo, o século XIX não deve bastar, uma vez que identifica o ponto de decadência na segunda metade do século XVIII, o que quer dizer que só encontraremos consolo na pedagogia pré-pombalina. Estou ansioso para ver, nas próximas ocasiões, até que século passado teremos de levantar a fasquia para endireitar a mocidade de hoje.
4. Se é verdade que eu gostaria de ter um euro por cada uma destas lamentações, não deixo de me perguntar como é possível que nenhum destes professores se pergunte até que ponto o problema poderá estar com eles. Não é jogar as culpas para o próximo, afinal, um dos sinais do terrível facilitismo dos tempos actuais? Os professores que se queixam permanentemente em público de que os seus alunos não aprendem não são, no fim de contas, mais do que a versão adulta da caricatura que Herman José fazia do adolescente preguiçoso. Só que quando este último gemia "não explicam! não explicam!", estes vociferam "não aprendem! não aprendem!". Como podem escrever que há 25 anos descem sistematicamente as suas notas sem se perguntar, ó sacrilégio, se no decurso desse 25 anos não poderiam ter mudado nada nos seus métodos de ensino? Até que ponto não se poderiam ter actualizado em relação aos programa de secundário, que mudaram várias vezes nesse período? Fico por aqui, mas os exemplos são muitos. O que explicará que existam ainda hoje professores que ensinam, marcam os seus alunos, e não deixam de dar boas notas?
5. O ensino pós-1974 pode ter muitos problemas. Mas é mentira que tenha criado o exército de ignorantes de que se fala. Pelo contrário, nenhuma outra época aumentou tanto o nível geral de conhecimentos na população portuguesa. Se o objectivo é o regresso moral aos tempos da aprendizagem difícil, os seus defensores que nos digam então qual foi a época dourada do conhecimento em Portugal. E não falo só da maior abrangência social do ensino, mas mesmo de qualidade caso a caso. Já fiz pesquisa em trabalhos de fim de curso de décadas passadas [em Letras de Lisboa, por ex.] e vi vários exemplos de trabalhos feitos sem os mínimos critérios de aparato crítico (sem notas, por exemplo) que não aguentariam a comparação com trabalhos actuais. Claro que também haveria trabalhos excelentes, como hoje os há; e que hoje em dia há trabalhos péssimos como nunca deixará de haver. É muito fácil dourar as memórias, mas os historiadores não podem ser levianos nas comparações diacrónicas que estabelecem.
6. Não nego que existam problemas no ensino em Portugal, graves principalmente nas disciplinas científicas. Só que vejamos o artigo de José Mariano Gago no mesmo número do Público: os programas Ciência Viva foram asfixiados financeiramente nos últimos anos e grande parte do investimento em ciência cessou por cegueira ideológica. Não nego também que vivemos numa situação de quase emergência em relação ao ensino do Português. Mas observemos como todos os anos milhares de professores de secundário sabem à ultima da hora para que parte do país se devem deslocar. Veja-se como 14 mil ficaram no desemprego no último ano. Como se passa frio nas escolas durante o Inverno. Veja-se também como a crença ingénua na necessidade de "especialização" (de que curiosamente ninguém fala) amputou demasiado cedo os alunos de uma base de conhecimentos ampla. O resultado foram estudantes de ciências que desprezavam as línguas estrangeiras e "humanísticos" sem cultura científica.
Não se dá a volta a isto sem investimento, ou seja, sem mais dinheiro melhor aplicado. Os novos vitorianos acham que a sua batalha contra os míticos "filhos de Rousseau" será suficiente para mudar o ensino em Portugal e que não vale a pena investir no ensino. Qualquer pessoa sensata verá que isto é o mesmo que exigir a um insuficiente renal que se cure pela força de vontade. Pura irresponsabilidade e inconsciência.
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Dor e uma cabana
O Pedro Oliveira escreveu aqui um texto, maioritariamente de contextualização, sobre o "caso" Benny Morris, para apresentar um outro texto, por sua vez bastante neutral, da Prospect. Pedro Marques Lopes, um novo "acidental", não foi capaz de lhe responder sem o acusar de anti-semitismo (o que já é banal), comparar a esquerda com Le Pen, e terminar lembrando (quem mais?) Estaline. Tudo num só parágrafo.
Não me vou meter na questão concreta, que não é comigo. A minha pergunta é: como é que há gente que consegue compor os seus textos – sérios – de forma a que eles acabem por ficar iguais à imitação do Baptista Bastos pelo Herman? "Bom dia, Artista Bastos!" "Bom dia, minha puta fascista?"
Eu juro que um dia respondo-lhes assim: "O Nazi-fascista fulano de tal acabou de provar que é uma espécie de Mussolini. O seu último post é típico de um elemento de um esquadrão da morte a estagiar na Gestapo".
Pode ser que nesse dia compreendam.
Não tenho simpatia nenhuma por Hugo Chavez, mas a verdade é que parece que o homem ganhou mesmo o referendo e com margem folgada (quase 59%) beneficiando, pelo menos em parte, da crise petrolífera. Agora é bom que os indefectíveis defensores da democracia venezuelana ponham a viola no saco e um ponto final no Período de Destituição em Curso (PDEC), acabando de vez com o regabofe e com a maioria ruidosa. É quando perdemos que mostramos se somos democratas.

A vitória de Chávez é o triunfo do populismo mais rasteiro e inconsequente que teima em não desaparecer da América Latina. Desenganem-se aqueles que julgam ver no “chavismo” uma fórmula capaz de combinar democracia, progresso económico e justiça social. Quando o preço do petróleo cair, os venezuelanos vão pagar uma factura elevada pelos disparates do seu presidente e então as coisas poderão ficar muito feias. Mas por muito autoritários que sejam os instintos de Chávez, por muito duvidoso que seja o seu apego às instituições que definem um Estado de direito, há algo que vale a pena registar: as cadeias venezuelanas não acolhem prisioneiros políticos, nem há notícias de vítimas de esquadrões da morte. E isso não é irrelevante.
Caro Luciano,
Não conto começar a dirigir-me a ti como o "Luciano do Acidental/PP". Quando aludi à reciprocidade estava-me a referir apenas às pessoas do blogue onde começaste a escrever que iniciaram esse divertido jogo.
Julguei ler no teu disclaimer uma nota de incomodidade por te veres apanhado no pingue-pongue das provocações. Já percebi que me enganei.

Nos anos 80, ele foi um dos principais responsáveis pela destruição de um dos mitos mais acarinhados pelo Estado de Israel: a ideia de que o êxodo dos 700 mil palestinianos no rescaldo da Guerra de 1947-49 havia sido uma consequência infeliz do conflito, mas, de qualquer forma, uma decisão voluntária. Estou-me a referir a Benny Morris, possivelmente o mais importante dos “novos historiadores israelitas” que há cerca de 15 anos atrás empreenderam uma extensa reavaliação histórica daquele conflito. Em The Birth of the Palestinian Refugee Problem (1987), Morris, um antigo jornalista do Jerusalem Post, demonstrou com ampla evidência documental que o êxodo palestiniano resultara afinal de uma gigantesca operação de “limpeza étnica”, planeada e executada de forma sistemática pelas forças armadas israelitas. O impacto desta e outras revelações na sociedade israelita foi tremendo (as pesquisas dos "novos historiadores" destruíram também a lenda da inferioridade militar de Israel em relação aos estados árabes que o atacaram em 1948). Elas confrontaram muitos israelitas com a falácia do célebre slogan sionista – “uma terra sem povo para um povo sem terra” – e obrigaram-nos a encarar as reivindicações palestinianas (o direito de retorno dos refugiados) a uma nova luz.
Morris passou um mau bocado depois de publicar o livro. O establishment académico e os sectores mais conservadores da política israelita digeriram mal a sua investida crítica e fizeram-lhe a vida negra. Morris foi despedido do Jerusalem Post (entretanto comprado pelo magnata Conrad Black, um pró-sionista amigo do Likud) e teve de esperar vários anos até conseguir um emprego numa universidade israelita.
Recentemente, Morris regressou à primeira linha do debate político mas por razões ligeiramente diferentes. Ao realizar novas pesquisas para uma edição revista do seu livro, descobriu novos indícios de atrocidades cometidas contra os palestinianos em 1947-49, mas, para espanto de muitos, alterou por completo o sentido das suas conclusões ao declarar que as autoridades israelitas fizeram mal em não terem levado até ao fim a expulsão em massa dos árabes - afinal de contas a única maneira realista de resolver um conflito intratável. Em suma, Morris transformou-se num apologeta da “limpeza étnica”, alegadamente por não vislumbrar entre os responsáveis palestinianos uma aceitação inequívoca do direito de Israel à existência. A desilusão entre os colegas de Morris e aquilo que passa por ser o “campo da paz” em Israel foi enorme. Um artigo no último número da Prospect dá conta de toda esta polémica e oferece-nos várias pistas para perceber a implosão da esquerda israelita, os impasses do Partido Trabalhista e o aparente sucesso da estratégia prosseguida por Ariel Sharon nos últimos anos. Leitura deprimente, mas inegavelmente interessante.
O Luciano manifesta alguma incomodidade pelo facto d’ O Acidental ser referido como “um blogue do PP”, quando a verdade é que alguns dos seus colaboradores (o Luciano, nomeadamente) não possuem qualquer ligação àquele partido. Tem piada: que eu saiba, quem iniciou a prática de insinuar filiações de blogues a organizações partidárias foi, precisamente, o fundador d’O Acidental, o Paulo Pinto Mascarenhas, que sistematicamente escreve Barnabé/BE (sabendo bem que apenas o Daniel é militante do Bloco). Por isso, caro Luciano, qual é o espanto? A isto chama-se reciprocidade.
O Cibertúlia lembra o título do livro de Sara Pina, a (ainda!) assessora da Procuradoria-Geral da República, especialista em fugas de informação como fonte anónima. Ele é nem mais nem menos do que...

... A Deontologia dos Jornalistas Portugueses [Minerva, col. Comunicação]! Ficamos todos felizes por saber que a prática da Dra. Sara Pina se esteia numa sólida base teórica.
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Oceano Pacífico
Para quem tenha perdido as 125 mil jeremíadas anteriores com o mesmo tema e no mesmo estilo, Fátima Bonifácio escreve hoje no Público sobre a ignorância e a preguiça dos estudantes universitários.
No momento actual, precisamos tanto de professores que se impressionem com a ignorância dos alunos como de ortopedistas que desmaiem ao ver uma fractura múltipla. Afinal de contas, a ignorância não é o bicho papão do professor. A ignorância é o seu objecto de trabalho. O professor serve para atacar a ignorância, não para choramingar quando ela lhe aparece à frente. Também eu já dei aulas de história da arte a alunos que não sabiam quem foi Giotto. E, sabem que mais? – quando isso acontecia, o meu trabalho era explicar-lhes de quem se tratava.
O meu conselho para os profissionais académicos da auto-comiseração é então: deixem de ser piegas, arregacem as mangas e trabalhem. Os alunos não aprendem nada? Mudem de método; olhem que há colegas aí ao lado que têm sucesso, marcam os seus alunos, criam discípulos.
Fátima Bonifácio foi minha professora, e peço desculpa pela brutalidade com que eu aqui ponho as coisas. Faço-o para evitar a "degradante e ridícula pieguice em que culminou a "Sensibilidade" descoberta na segunda metade do século XVIII".
Depois dos 10 mil mortos que resultaram do Blitz americano (e do número indeterminado de feridos e estropiados); depois do saque ao Museu de Bagdade; depois das explosões de violência em Falluja e Najaf; depois de Abu Ghraib; depois da reintrodução da pena de morte e da censura à imprensa; depois dos massacres xiitas contra as populações cristãs, o Dr. Pangloss do jornalismo português ainda é capaz de escrever isto no fim de uma visita ao porta-aviões USS Truman: “Por já terem experimentado o combate no Iraque, gostam de dizer que o lema que está pintado em todo o lado – ‘Give’em hell!’ (Dêem-lhes o inferno) -, evocativo de um desabafo de Truman durante uma campanha eleitoral, poderia ser substituído por ‘Give’em freedom! (Dêem-lhes liberdade), recordando agora aquilo que acreditam ter sido a sua última missão no Golfo Pérsico, há pouco mais de um ano”. Tocante.
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Tão pouco e tanto.

Ao ler alguns textos de cinema do João Bénard Costa, fico sempre com a sensação de que vi apenas metade do filme. Aconteceu-me ao ler a “Casa Encantada” de ontem, dedicada ao “Agente Triplo”, de Eric Rohmer, um dos filmes mais inteligentes (e bem escritos) que pude ver nos últimos meses.

Até 10 de Outubro, o Museu do Design em Londres acolhe uma exposição dedicada a este genial designer nova-iorquino: Saul Bass.
Estas declarações do ex-director da PJ nas cassetes roubadas cheiram a perseguição política, sabem a perseguição política, parecem perseguição política e muito provavelmente é isso mesmo que são. Se isto se confirmar este senhor terá sido um dos responsáveis pelo assassinato político bem sucedido de um líder da oposição. Terá de pagar por isso. Só que, entretanto, isto é gravíssimo para a nossa democracia e a responsabilidade política (repito, política) sobe, como é evidente, até à Ministra da Justiça da época, que nomeou e sempre apoiou este senhor.
Hoje, durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, o jornalista da RTP que ia comentando explicou aos espectadores que os Jogos Olímpicos antigos terminaram por culpa da invasão romana da Grécia. Já tenho ouvido várias vezes esta explicação e outras em sentido semelhante, que apontam a "decadência" dos costumes pagãos como a culpada.
É falso. Os Jogos Olímpicos realizaram-se durante mais de dois séculos sob domínio romano sem qualquer perturbação. Os cidadãos romanos chegaram mesmo a poder participar das provas.
O que lixou 12 séculos de Jogos Olímpicos, mas nunca ninguém admite, foi o cristianismo. O mau da fita, o imperador Teodósio I, tem algumas coisas em comum com os nossos maus da fita actuais, como Bin Laden ou George W. Bush. Apesar de ter sido educado no cristianismo, passou por uma fase pecaminosa (chegou a ser excomungado) e virou depois um fanático perseguidor não só de pagãos mas de cristãos arianos.
Os vários decretos anti-pagãos do seu tempo são assim um bocadinho a dar para o talibã. Os seus súbditos foram proibidos sequer de olhar para as estátuas dos antigos deuses; muitas foram destruídas. Os templos foram condenados ao abandono, e quem limpasse ou cuidasse deles seria castigado. Muitos sacerdotes foram apedrejados. A Biblioteca de Alexandria (no templo de Sérapis) foi incendiada. Acima de tudo, todas as cerimónias, peregrinações e festivais religiosos do paganismo foram proibidos. E os Jogos Olímpicos da antiguidade eram religião: faziam parte de uma festividade dedicada a Zeus, num dos mais importantes templos pan-helénicos, e não podem ser desligados do politeísmo.
Como se diz nos filmes de máfia, that's what's done it. Não foi a "decadência" dos pagãos, mas a pureza do monoteísmo. E já que estamos nisto, era impossível os Jogos voltarem antes de o cristianismo perder para a laicidade, no século XIX. Não é que tenha grande importância, mas...
Na Grécia antiga, os jogos assinalavam um período de trégua e os atletas-guerreiros, a caminho de Olímpia, eram invioláveis. A última corrida era feita de capacete e escudo, preparando já o regresso às batalhas. Agora, durante duas semanas, os atletas de todos os países do mundo, alguns dos quais devastados por toda a espécie de agressões, vão bater-se, sorridentes, pelo inalienável direito a uma vitória em paz. Apesar da desigualdade na dimensão das delegações, o desfile olímpico encena um planeta sem guerras, miséria ou desrespeito pelas resoluções da ONU. Na cerimónia de encerramento não haverá distribuição de capacetes ou escudos, mas talvez não fosse assim tão irrealista. Acabou há pouco de desfilar a Palestina. (Há um movimento pela promoção, hoje, da trégua olímpica. Ver por exemplo aqui)
O que eu gostava, num dia do passado ou do futuro, nem que fosse na gloriosa disciplina de lançamento da carica, era de participar nuns jogos olímpicos. E de desfilar agora, diluído na multidão, com os maiores e mais belos atletas do mundo.
A Câmara Municipal de Almodôvar criou uma conta de solidariedade para com as vítimas dos incêndios na freguesia de São Barnabé. Pode perguntar-se pelo número desta conta em qualquer agência da Caixa Geral de Depósitos.
[Cemitério do Vale da Paz, Najaf, Iraque]
«Aviões e helicópteros atacaram durante todo o dia posições das milícias no gigantesco Vale da Paz, o cemitério onde todos os xiitas sonham ser enterrados, ao lado do complexo da mesquita.» (do “Público”, sem link)
Quando matar os vivos já não chega, matam-se os mortos. O cemitério do Vale da Paz tem mais de 1.300 anos e é um lugar santo para os xiitas. Mais erros na “cidade santa” de Najaf e o conflito ganhará proporções religiosas. Mas explicar isto a militares analfabetos não é fácil.
"I couldn't get a job with the CIA today. I am not qualified. I don't have the language skills.". Disse-o Porter Goss, novo director da CIA, a Michael Moore e este mostrou as gravações. Claro que as gravações podem ser mais uma mentira de Moore. Cheguei lá por via do Luís Rainha.
Conversa entre Sara Pina, Porta-Voz do Procurador-Geral da República, Souto Moura, e um jornalista do “Correio da Manhã”, publicada no “Independente”.
Jornalista do “Correio da Manhã” – Estou? Está-me a ouvir Sara?
Sara Pina – Estou a ouvir um bocado mal.
CM – Mas eu estou. Pode falar à vontade, vamos lá. (…)
SP – É isso, o acórdão do Constitucional deve ter, não sei, nós ainda não vimos o acórdão do Constitucional, não é?
CM – Já passou na SIC, já passou em todo o lado, por amor de Deus. Fala apenas de uma criança.
SP – Pois, tá bem, mas não é.
CM – É mais?
SP – Sim.
CM – Pode-se escrever com garantia que o “Correio da Manhã” sabe que ao contrário do que diz o acórdão do tribunal, há mais crianças que acusam o Hugo Marçal de…
SP – Ó Octávio, o Hugo Marçal está preso preventivamente por vários crimes, além do abuso sexual de crianças.
CM – Sim. Quatro crimes de lenocínio e (…)
SP – Tá bem, mas são várias crianças. (…)
CM – O “Correio da Manhã” sabe que, ao contrário do que está escrito no acórdão do Tribunal Constitucional, tal como Rui Teixeira informou a defesa, é acusado de 72 crimes de abuso sexual e quatro de lenocínio e os 72 crimes de abuso sexual são referentes a mais do que uma criança. Correcto?
SP – Sim, é verdade, é.
CM – Posso escrever isto? Fonte do MP? Correcto?
SP – Pode o quê?
CM – Fonte do MP, soube o “Correio da Manhã”.
SP – Não pode pôr fonte nenhuma.
CM – Fonte próxima do processo e está a andar.
SP – Não pode.
CM – Fonte próxima do processo e…
SP – Não pode. Isso muito menos.
CM – Então, pronto, soube o “Correio da Manhã”, o “Correio da Manhã” apurou junto de qualquer coisa (…)
SP – Isso pode pôr.
CM – Tanto que, ao contrário de…
SP – Ponha assim, o “Correio da Manhã” apurou que é mais do que uma criança, pronto, mas não põe fonte nenhuma, nem judicial, nem do MP e muito menos fonte do processo, senão sou morta na segunda-feira.
CM – Tá bem, não morre nada.
SP – O “Correio da Manhã” apurou.
CM – O “Correio da Manhã” apurou que (…)
SP – Não ponha fonte nenhuma senão nunca mais lhe dou uma informação.
CM – Tá bem Sara, obrigadinha.
A Procuradoria-Geral da República, de que Sara Pina é porta-voz e assessora, pôs vários processos a vários jornalistas por violação do segredo de justiça. Não era a informação que eles queriam divulgar. Se Souto Moura não se demite, que o demita quem tem de o fazer: o Presidente da República. Ainda o temos?
Uma das conversas publicadas pelo “Independente”, entre o antigo director da Polícia Judiciária, nomeado e mantido por Celeste Cardona, com um jornalista do “Correio da Manhã”, depois de lhe divulgar várias informações sobre um processo em relação ao qual nada poderia, por lei, saber, já que estava entregue ao MP.
Adelino Salvado – Os factos apurados pelas testemunhas em relação a ele [Ferro Rodrigues] não podem ser levados à acusação uma vez que a pessoa que os relata não deduziu queixa nos 6 meses subsequentes a antigir a maioridade.
Jornalista do “Correio da Manhã” – Ah, mas só uma pessoa ou várias?
AS – Não sei, penso que são, pelo menos, umas três. O que eu acho engraçado no Ferro e, nessa perspectiva, no PS, e estou a falar sempre como cidadão, é que basta ter acesso ao processo, porque ele deixa de estar em segredo, e se relata aí, no seu jornal, os depoimentos, isso é a morte física e moral de qualquer pessoa. Como é que subsiste a isso? Vai dizer que é uma calúnia, que não é verdade? É uma coisa que aparece logo no princípio do processo, logo ali em Janeiro. Vai dizer que é uma cabala, isto, aquilo e aqueloutro…?
CM – No fundo o sr. Dr está a dizer aquilo que já sabíamos.
AS – Os factos, quando aparecerem, são factos de tal poder de destruição que ele não resiste. O que é que ele vai dizer, diga-me lá? Que é uma cabala?
CM – Não pode dizer.
AS – Como é que prova uma coisa destas?
CM – ‘Tá bom, dr, mais uma vez obrigadíssimo.
AS – Portanto, acho basicamente que ele está num beco sem saída, está a ganhar 6 meses, tá bem, mas para quê?
CM – Não se percebe bem, talvez para minimizar os estragos em relação ao próprio PS, digo eu.
AS – Tá bem, talvez, mas de qualquer das formas é a crónica de uma morte anunciada.
Portugal 2 - Iraque 4
Um atentado suicida palestiniano matou ontem dois palestinianos num "checkpoint" perto de Qalandiyah, entre Jerusalém e Ramallah. Como outros, ele vai ficar confuso, sem saber se condena, se festeja.
Este blogue, que antes seguia, sem pestanejar, todos os disparates neocons, virou-se para a Santa Madre Igreja. Compreende-se. Agora, só rezando muito.
"Este Santana que agora propõe pactos, para mim já não é o mesmo" Alberto João Jardim
Já não há dúvidas: foi Adelino Salvado que envolveu publicamente Ferro Rodrigues no caso Casa Pia, numa conversa telefónica que deu origem, a 10 de Novembro, a uma manchete do Correio da Manhã, onde se podia ler: «três jovens envolvem Ferro». Mais: tudo indica que as informações dadas por Salvado ao jornalista eram falsas. Tudo isto é confirmado pela Visão, que ouviu a conversa.
Adelino Salvado foi nomeado e mantido, até ao insustentável, pela ministra do CDS, Celeste Cardona.
Ontem, vi na televisão uma notícia: um condenado a prisão perpétua ganhou dois milhões de contos na lotaria. Reacção de um transeunte, acompanhado pelos tabloides e, ao que parece, pela maioria dos britânicos, entrevistado pelas televisões: «É nojento, eles não deviam poder jogar na lotaria, esse dinheiro devia ir para as vítimas». A diferença entre a justiça e a vingança é esta: a primeira condena para criar ordem, a segunda condena para decretar a morte da esperança.
Está o governo disposto a dar à reintegração dos condenados e às condições de vida nas prisões (dignas de um país do Terceiro Mundo) toda a prioridade, incluindo prioridade orçamental?
Está o governo disponível para abandonar a sua paranóia securitária em relação à droga, que tem invertido de tal forma os critérios morais, que faz com que, tantas vezes, um consumidor-traficante apanhe penas maiores que um homicida ou um violador?
Está o governo disponível para promover o recurso a penas alternativas?
Está o governo disponível para encontrar instâncias alternativas de resolução dos conflitos?
Está o governo disposto a impedir que as empresas façam dos tribunais seus cobradores de fraque?
Está o governo disposto a não prescindir das garantias de todos os arguidos, aumentando mesmo essas garantias para os que têm menor acesso aos instrumentos de defesa?
Está o governo disponível para criar a carreira de defensor público que garanta um real acesso dos mais pobres à justiça?
Estará o governo disposto a diminuir de novo as taxas e custas de justiça?
Está o governo disponível para garantir a manutenção dos serviços públicos na justiça, combatendo a privatização de instrumentos que devem ser exclusivamente estatais?
Não me parece. E a democracia é isto mesmo: cada um bate-se por aquilo em que acredita. Uns ganham e outros perdem. Os pactos são a negação da democracia porque são a negação do confronto. Porque na vida, quase nada é consensual. Crescer é saber isto.
Excelente reportagem, ontem na SIC Notícias, no programa Grande Reportagem, sobre adolescentes homossexuais. Uma boa lição para quem acha que os homossexuais são uns privilegiados, um fortíssimo lobby e por aí fora. Na reportagem eram descritas as reacções dos colegas e sobretudo dos pais, em casa, na escola e em terras pequenas. Os adolescentes descreviam o seu enorme sofrimento e a incompreensão de quase todos. E neste país atrasado ainda há muita gente que não faz a mais pálida ideia do país onde vive.
Um dos lugares onde os adolescentes (e não adolescentes) podem encontrar apoio é a Rede Ex-Aequo, também referida na reportagem.
Este texto sobre "artificial" motivou diversas respostas, a maior parte das quais do João Miranda do Blasfémias com quem o diálogo inicial se estabeleceu, mas também por parte do Luis Rainha (do BdE), Pacheco Pereira e AAA (também do Blasfémias). Estas foram as respostas que eu notei (o Technorati está em baixo). Obrigado a todos.
Em vez de fazer um texto longo (e provavelmente ilegível) a responder a tudo, vou mandando uns pacotes de vez em quando.
O João Miranda responde-me com diversos exemplos de coisas artificiais e naturais. Na gaveta do artificial coloca, por exemplo, a Jugoslávia e aponta o seu fracasso, a ditadura, os massacres interétnicos. Por outro lado, recusa terminantemente que o dinheiro seja artificial.
O problema com estes exemplos é que eles só servem para reforçar aquilo que eu notei em primeiro lugar, ou seja, que existe da parte de muitas pessoas (e isto é transversal à esquerda e à direita) um preconceito extremamente reactivo em relação a coisas que levam a qualificação "artificial", preconceito esse que não é justificado por nenhum raciocínio mais sustentado. Dá a sensação que JM se limitou a colocar na coluna do artificial coisas más ou com as quais antipatiza (a Jugoslávia) ao passo que não pode admitir que coisas que ele respeita não possam ser senão "naturais" (o dinheiro). Porque me parece que esta questão só tem um correspondência ideológica muito ténue, vou declinar a oportunidade para perguntar se a Jugoslávia foi mais artificial do que os EUA, a Espanha, o Reino Unido ou a Liga Hanseática. Limitar-me-ei a notar como certamente seria muito simples para qualquer pessoa fazer o contrário do que fez João Miranda. Bastaria fazer uma série de posts assim: «coisas naturais – o canibalismo, o incesto»; «coisas artificiais – a Universidade, a World Wide Web». O casuísmo, caro João Miranda, não nos leva mais longe do que isto.

Duas semanas volvidas sobre a Convenção Democrata, Kerry continua sem conseguir descolar de Bush nas sondagens. Nos últimos inquéritos referidos pelo Economist (YouGov, Gallup, Newsweek, WP/ABC), surge com uma margem que varia entre os 5 e os 7 pontos, e uma delas até lhe dá uma desvantagem de 1 ponto em relação a Bush. Nas sondagens que procuram auscultar a opinião dos eleitores sobre determinados atributos dos candidatos, a maioria afirma confiar mais em Kerry para gerir a economia, tratar dos impostos, reformar a saúde, lidar com o Iraque e restaurar as relações com os aliados. Mas Bush, a um mês da Convenção republicana, é o preferido quando se pergunta aos eleitores “quem é o líder mais forte” ou em quem confiam mais para conduzir a “guerra ao terrorismo”. Ora, não é preciso ser bruxo, nem acreditar em teorias da conspiração, para prever que até Novembro ainda teremos mais uns quantos alertas vermelhos que não deixarão de beneficiar o perfil securitário cultivado por Bush.
Este artigo do Economist, porém, vem colocar alguma água na fervura. A América permanece tão dividida como há quatro anos e a maioria dos eleitores já terá feito a sua escolha. Os dois partidos têm conseguido mobilizar as suas bases e os activistas desdobram-se em esforços para registar mais uns quantos eleitores distraídos. Tudo aponta, pois, para uma eleição super-renhida com um desfecho decidido por uma franja estreita do eleitorado, na ordem dos 8-10%.
Em todas as eleições, eles formam o grupo mais cortejado pelos estados-maiores dos dois partidos. Quem são estes swing-voters? Ao certo, ninguém sabe muito bem. De quatro em quatro anos, os jornais referem-se lhes sob designações diferentes. Os anos 80 foram a época dos “Joe Sixpack” (colarinhos-azuis do Mid-West que trocaram os democratas a favor dos republicanos), os anos 90 a época das “Soccer Moms” (senhoras de classe média preocupadas com a segurança nos subúrbios). A eleição de 2004 ameaça ser dominada pelos “Nascar Dads”, que Wayne LaPierre, do National Rifle Association, definiu como “hard-working, average tax-paying Americans that are raising their families and putting their kids through school. They are patriotic. They own guns. They hunt, and they go shooting and they love the Second Amendment”. Em suma, é um eleitorado macho, conservador, que embora desconfie das políticas económicas dos republicanos (cortes fiscais para os ricos), simpatiza com o estilo “easy-going” de Bush e revê-se na sua postura de xerife durão.
Bush abriu a caça a estes eleitores em Fevereiro passado, quando se deslocou à Florida para inaugurar as corridas de Daytona, mas Kerry não parece menos determinado em obter os favores destes grunhos – vejam-se as suas frequentes alusões a caçadas, aos passeios de Harley ou a continência que ameaça tornar-se a sua imagem de marca.
Mas até que ponto é que estes eleitores poderão pender para Kerry? Katha Pollitt, num artigo publicado pela Nation em Abril, revela o seu cepticismo – e defende que os eleitores “naturais” dos democratas são as mulheres com menos de 65 anos (as “Sex and the City voters”), um grupo tragicamente negligenciado pelos estrategas do Partido.
Seja como for, e como observa o Lexington esta semana, esta eleição parece condenada a ser mais uma “eleição testosterona”.

Nalguns centros de imprensa, talvez ainda possam encontrar este número “fora de série” do Courrier International (Julho-Agosto de 2004; € 6,50). É um óptimo guia para acompanhar, à distância, a corrida eleitoral americana. Reúne dezenas de artigos publicados em jornais e revistas anglo-saxónicas, sobretudo inglesas e norte-americanas, bem como magníficos cartoons e fotografias, sobre a América na era Bush. O número tem uma organização temática: há uma secção sobre os estados e as cidades que serviram de laboratório para as mudanças sociais e culturais mais marcantes dos últimos anos, outra sobre o mosaico religioso do país, uma outra sobre os temas que dominaram a agenda política durante a presidência Bush (Iraque, Neo-Cons, binómio segurança-liberdade, política ambiental), um pequeno guia sobre os americanos mais influentes da actualidade (em várias áreas, da política à cultura, da economia aos media) e por aí fora. Entre os autores seleccionados, temos, por exemplo, Michael Lind (um neo-conservador arrependido), as escritoras Joan Didion e Sara Paretsky, entre outros. A resenha é bastante pluralista: vai do Financial Times à Mother Jones, do Washington Times à American Prospect, embora com um enviesamento a favor das publicações mais liberais (predominam textos do New York Times e da New York Review of Books).
Atarantado com as situações na Polícia Judiciária e no Futebol Clube do Porto, José Rodrigues dos Santos acaba de anunciar, no Telejornal da RTP1, que a Judiciária já tem um novo treinador.
Quartos fora de Lisboa, com águas correntes e serventia de cozinha, a estudantes e secretarias de Estado deslocalizadas.
Se um problema for difícil e não souber o que dizer, faça como Santana Lopes: proponha um pacto de regime.
Em Najaf, a guerra continua. É dos livros: entrar numa guerra é fácil, difícil é sair dela. É dos livros, mas é das mais dificeis lições que não há maneira de ser aprendida.
A propósito do acidente em Matosinhos, vale a pena ler o último livro do antropólogo Paulo Granjo, Trabalhamos Sobre o Barril de Pólvora, sobre os homens que trabalham na refinaria de Sines e a sua percepção do perigo, ligando-os a princípios de gestão, objectivos produtivos e relações de poder.
Desde que chegou ao poder, o PSD tem mais 30 mil novos filiados. O mesmo já tinha acontecido antes com o PS e antes com o PSD e antes com o PS e antes com o PSD... Eles não se enganam: estão sempre onde cheira a vitória. É para eles que um PS responsável e com vocação de poder, longe do radicalismo de esquerda e ligado às preocupações do País real deve falar. Não é?

É Fahrenheit 9/11 um filme manipulador e demagógico? Claro que é. Todos os documentários, tal como todos livros de história ou reportagens jornalísticas, digamos, manipulam a realidade – essa é uma consequência inevitável em qualquer processo de selecção de factos. O filme de Moore, porém, leva essa lógica demasiado longe. Não procura analisar criticamente a política de Bush, não se dá ao trabalho de apresentar nuances e pontos de vista contrastados – convoca apenas as imagens e os depoimentos que validam os preconceitos do seu autor. Não deve, como tal, ser avaliado como um documentário, como uma tentativa honesta de compreensão da realidade, baseada em critérios de alguma imparcialidade.
Mas é ou não um bom panfleto satírico? Diverte-nos enquanto espectadores? É imaginativo na forma como parodia os seus alvos? Difícil será negá-lo. Fahrenheit 9/11 é uma espécie de MAD magazine ou Punch em forma de filme. É brilhante na forma como monta aquelas imagens tipo “apanhados” com as principais figuras da administração Bush (alguém poderá pensar em Wolfowitz da mesma maneira depois de vê-lo a lamber um pente e alisar o cabelo pouco antes de “entrar no ar”?). É muito incisivo na denúncia da atmosfera jingoista que prevaleceu na América nos últimos anos (“For me, Navy Seals rock!”, afirma uma locutora americana numa das partes mais hilariantes do filme), e num momento em que o Iraque corre o risco de ser “afeganizado” pelos mass media, filmes como este ajudam a impedir que a questão da guerra seja relegada para segundo plano na campanha eleitoral americana.
Há um ano estava de férias e não lhes pude dar as boas-vindas. Dou agora, no 1º aniversário. Estamos sempre a pegar-nos. Mas é só amor. Parabéns à Glória e aos que a fizeram Fácil: à Ana, ao João Pedro, à Maria José e ao Nuno Simas. A companhia tem sido boa.
«Estando sujeito, mais uma vez, a um surto de violentos ataques levados a efeito por alguns indivíduos usando massivamente os "media" ou vias de outra índole, essencialmente porque aceitei exercer, em comissão de serviço, as funções de Director Nacional da Polícia Judiciária;
Admitindo que, no exercício das referidas funções, perturbei múltiplas e indistintas pessoas, entidades e interesses que objectivamente receiam a crescente mobilização de meios para instauração, prossecução e conclusão de investigações criminais e, reagindo, têm demonstrado inusitada capacidade para manipular e vilipendiar com manobras astuciosas e colaboracionismos ocultos (o que, como foi público e patente, se iniciou pouco depois da minha tomada de posse do cargo, nunca mais parou de suceder e provavelmente vai continuar);
Considerando que as orquestradas e sucessivas acções visando aquele objectivo já passaram por insinuações e pérfidos artigos de imprensa sempre pelos mesmos "jornalistas", reprodutivos noticiários televisivos, desprezíveis missivas anónimas, múltiplos "blogs", execução de assalto a escritório particular, vandalismo recaindo sobre bens próprios e sistemáticas manobras visando gerar inquietação em familiares e amigos, continuando agora com o anúncio de distribuição de ilegal suporte áudio que, caso exista, seguramente foi engendrado por pessoa(s) habilitada(s) a truncar, manipular e subverter som digitalizado;
Ponderando que as razões que poderão justificar as descritas acções levadas a efeito de forma reiterada, persistente e manifestamente organizada assentam, quer em quadrantes políticos quer económicos e em franjas da mais diversa criminalidade;
Tendo em atenção que é previsível que tais sofisticadas actuações, (nomeadamente aquelas que de imediato são publicadas em alguns órgãos de comunicação social que privilegiam, sem pudor, o sensacionalismo destrutivo), só cessam, ou atenuam, quando der por finda a actual comissão de serviço na Polícia Judiciária;
E, fundamentalmente, não sendo de excluir que todo o circunstancialismo acima descrito, além de visar afectar a honorabilidade do actual Director Nacional da Polícia Judiciária provocando o seu desgaste, desmotivação a que se soma uma clara situação de isolamento perante a tutela política, tem a susceptibilidade de prejudicar a imagem da Polícia Judiciária, enquanto prestigiado órgão auxiliar da Administração da Justiça, a cujos Dirigentes e Funcionários agradeço penhoradamente a inexcedível dedicação e colaboração
Por todo o exposto, mormente pela última razão e em consonância com a disponibilidade já manifestada por ofício entregue no passado dia 19 de Julho a Sua Excelência o Ministro da Justiça, solicitei agora o deferimento do pedido de cessação da comissão de serviço como Director Nacional da Polícia Judiciária
Lisboa, 09 de Agosto de 2004
Adelino Salvado»
Já nem falo do barroco delirante do comunicado de imprensa do ex-director da PJ. O que eu queria mesmo entender é o que leva um homem com a responsabilidades de Salvado a receber «desprezíveis missivas anónimas», a sofrer um «assalto a escritório particular» e «vandalismo recaindo sobre bens próprios», a assistir a «sistemáticas manobras visando gerar inquietação em familiares e amigos» sem que apresente queixa à sua própria PJ. Um homem com as responsabilidades de Adelino Salvado não faz insinuações. Ou as coisas aconteceram e ele agiu em conformidade. Ou não fala delas na hora da despedida.
Não deixo de ficar preocupado com a forma como a Procuradoria-Geral da República tentou imediatamente desvalorizar as possibilidades de investigação sobre as fugas ao segredo de justiça. Tão lestos que foram a instaurar processos a jornalistas, tão lestos que são a desistir, quando entre as pessoas que falaram com o "Correio da Manhã" estão pessoas da PGR, entre as quais a porta-voz de Souto Moura...
Demitiu-se há 30 anos
Salem Chalabi, o homem que tinha sido escolhido para preparar o julgamento de Saddam, é procurado por corrupção. E o seu tio, Ahmed Chalabi, ex-membro do Conselho do Governo Iraquiano escolhido pelos EUA, também. Falsificou dinheiro. E eu, não sei porquê, não fico espantado com o perfil moral dos homens escolhidos como representantes do Iraque livre. No tempo de Saddam, as coisas eram claras: estávamos perante uma ditadura. Agora também: estamos na Sicília. Sempre é melhor.
A pena de morte foi reintroduzida no Iraque. Entre os crimes puníveis com a pena capital está um tão vago como a “distribuição de droga”. No tempo de Saddam, as coisas eram claras: estávamos perante uma ditadura. Agora também: estamos no Texas. Sempre é melhor.
Como é que os jornalistas divulgam as fontes de um outro jornalista? Pouco interessa saber se o jornalista do “Correio da Manhã” devia ou não gravar as suas conversas com as suas fontes. Pouco interessa saber se os jornalistas conseguiram essas conversas através de um furto levado a cabo por um anónimo. O que interessa é que os jornalistas devem proteger as suas fontes e, por maioria de razão, não têm o direito de divulgar as fontes dos outros. Não deviam solidariedade para com o jornalista do “Correio da Manhã”. Mas as fontes desse jornalista é que não têm culpa nenhuma da sua falta de cuidado. Para a próxima vez que cada um dos jornalistas garantir anonimato a uma fonte, ela lembrar-se-á que ele pode estar a gravar a conversa, que a gravação pode ser roubada e que os restantes jornalistas não hesitarão em divulgar a sua identidade. Quem afecta assim a confiança das fontes em toda a classe, afecta o seu próprio trabalho. O que eu acho extraordinário é que ninguém tenha pensado nisto.
PS: Um dia ainda hei de entender porque é que a Maria José sente sempre todas as dores de todos os jornalistas de cada vez que eu resolvo tocar em algum. Se calhar ela até pensou em tudo o que eu escrevi aqui em cima, mas como não o escreveu em lado nenhum, nem ela nem nenhum camarada dela, e eu não sou medium... A solidariedade corporativa tem destas coisas: paga o calado pelo pecador.
Leitura benevolente: a Hallyburton sextuplicou os seus lucros desde que Dick Cheney deixou de ser presidente da empresa.
Leitura malevolente: a Hallyburton sextuplicou os seus lucros desde que Dick Cheney passou a ser Vice-presidente dos EUA.
O JCD do Jaquinzinhos tem razão num ponto. Eu li mal a notícia em causa. Não foram os lucros globais da Hallyburton que sextuplicaram, mas sim os lucros gerados por contratos com o Pentágono. O problema é que, nesse caso, percebe-se que é a leitura malevolente a que está correcta.
O João Miranda publicou no Blasfémias este post com o título «Cidades que não gostam de pessoas: Brasília». E debaixo de uma fotografia do sector hoteleiro-bancário de Brasília, e de um trevo num dos eixos rodoviários da cidade, acrescentou "As cidades artificiais não gostam de pessoas. Preferem os carros. "
Sempre me intrigou muito a forma como as pessoas reagem mal à ideia de artificialidade, e esta nota publicada no Blasfémias permite-me introduzir esse assunto. Na minha área de estudos humanísticos, então, essa desconfiança chega a ser agressiva. Considerem-se por exemplo os mitos sobre o esperanto. Já ouvi gente de Letras, que deveriam informar-se um pouco melhor, dar voz às histórias de que o esperanto se tornou incompreensível devido às diferenças de sotaque [falso], que a sua estrutura é rígida e não permite inovação [falso] e que a sua oralidade é mecânica e inexpressiva [só para quem achar o italiano falado, com que o esperanto facilmente se confunde, mecânico e inexpressivo].
Será que é um problema com "artificial"? O próprio termo "artificial" tem má recepção, ao contrário de "inventado" ou "criativo". Por exemplo, nunca vi um liberal como João Miranda falar mal do dinheiro, embora não haja coisa mais artificial do que o dinheiro. Por outro lado, mal se diz "artificial", as pessoas reagem a medo, como se lhes tivesse disparado o instinto de sobrevivência. Veja-se as acusações passadas (e mesmo actuais) à inteligência artificial, – como se a inteligência artificial ou os idiomas artificiais ou as cidades "artificiais" não fossem, afinal, invenções nossas.
Sobre Brasília ouvem-se mitos análogos aos que circulam sobre o esperanto. Diz-se por exemplo, que não existem árvores em Brasília porque Niemeyer achava as árvores "burguesas". Nada poderia ser mais errado. Pelo contrário, Brasília só pode ser uma das cidades mais arborizadas do mundo. Em Brasília não é preciso ir a nenhum parque para ver árvores; elas estão por todo o lado. Entre cada dois prédios existe um mini-parque com duas ou três dezenas delas. A seguir às chuvas, a cidade fica tão cheia de cigarras que achamos que vamos enlouquecer com o barulho. Chega a ser natureza a mais.
A foto da cidade que o João Miranda publica é pois muito enganadora: qualquer nó rodoviário nas nossas cidades naturais é igual àquilo. Ao invés, nas zonas habitacionais (nas "asas" Sul e Norte) Brasília é uma cidade de prédios baixos, plana, óptima para se andar de bicicleta ou patins em linha. Eu adoro Lisboa, mas...
Preferirá Brasília os carros às pessoas, como diz o João Miranda? Bem, o que eu posso dizer é que desconfio que em 44 anos de história nunca ninguém em cadeira de rodas ou carrinho de bébé terá ficado encurralado por um carro no passeio, como acontece nas nossas cidades "naturais". É que em Brasília os carros não estacionam em cima dos passeios, nem sequer ao lado dos passeios, prejudicando a visibilidade. Estacionam em pracetas discretas no meio das "super-quadras".
Num comentário ao mesmo post o João Miranda desenvolve um pouco o que queria dizer: o problema está na falta de espontaneidade destes sistemas. A objecção insere-se na tradição de desconfiança dos liberais de direita em relação à "planificação socialista". Dá para entender. Como libertário, também tendo a desconfiar das utopias e a preferir-lhes a espontaneidade. Mas devo dizer que se há algum problema com Brasília é de falta e não de excesso de socialismo. Uma parte das habitações reservadas para os rendimentos mais baixos foi liberalizada, o que expulsou muita classe média-baixa e baixa do "plano piloto". A parte "artificial" de Brasília é uma das mais caras do Brasil; pelos vistos o "mercado" gosta dela.
Não esqueçamos sobretudo que o plano de Brasília foi brutalmente interrompido pelo golpe militar de 64, tinha a cidade quatro anos. Mesmo em democracia, a cena política em Brasília tem sido dominada há quase vinte anos (com uma breve interrupção) por um governador corrupto e ultra-direitista, Joaquim Roriz. É, que eu saiba, a única cidade onde uma linha de metro foi construída e logo encerrada. Ninguém se lembra sob que pretexto ao certo, mas todos sabem que é para dificultar o acesso dos suburbanos das cidades-satélite ao plano piloto – para trabalhar, eles que venham nos autocarros (dispendiosos); para se divertirem no fim-de-semana, eles que fiquem lá bem longe.
João Miranda diz que Brasília "não gosta das pessoas". Mas olhe que já as pessoas que lá vivem não querem outra coisa. Nunca vi nenhum brasiliense – ou candango, como são chamados – a dizer que não gosta e se quer vir embora.
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Este tema do artificial e do natural é muito interessante para discutir aqui na blogosfera. Mete cultura, política e ciência. Mete cidades, linguagens e (naturalmente) blogues. Spinoza, talvez por trabalhar com lentes, que afinal de contas são "visão artificial", tentava desarmar os preconceitos afirmando que "tudo o que existe pertence à natureza". A nós do tempo da poluição talvez não nos seja permitido tal optimismo. Pessoalmente, se X for politicamente justo, socialmente confortável para o maior número e respeitar a inviolabilidade da liberdade individual, pouco me interessa se é natural ou artificial.
Está a dar Maria Bethânia no segundo canal. Ainda cheguei a pensar "Rui, não sejas preconceituoso, tens a certeza que não gostas disto?". Acto contínuo, Bethânia mandou dois berros em "meu amor" e "paixão". Depois atacou uma das músicas mais belas de Chico Buarque (ou seja, praticamente qualquer música de Chico Buarque) com uma tal intensidade que quase se conseguia ver as vísceras espalhadas pelo chão. A seguir trinchou uma música do seu irmão Caetano como quem corta uma galinha no forno e descobre que ela está viva.
Não dá para aguentar. Tenho de tornar público este meu desamor. Deve haver mais gente como eu, apareçam.
Em Maio de 2003, confrontado com as cenas de caos e pilhagem em Bagdad, Donald Rumsfeld definiu a liberdade como uma coisa desleixada (“untidy”) e confusa (“messy”). Lamentavelmente, o novo governo iraquiano parece ter adoptado uma linha menos contemporizadora do que a do Secretário da Defesa. No mês passado, a nova Alta Comissão para os Média (curiosamente, instalada no antigo Ministério da Informação de Saddam) tinha já definido uma série de “linhas vermelhas” que os órgãos informativos não poderiam ultrapassar, como por exemplo as “críticas ao primeiro-ministro” Iyad Allawi. Agora chegou a vez de suspender as emissões da Al-Jazeera por um período de 30 dias, a fim de que esta possa “reajustar a sua política em relação ao Iraque”. O ministro do Interior justificou a sua decisão com o facto da estação mostrar “demasiados crimes e criminosos” e de assim difundir uma “má imagem do Iraque e dos iraquianos”. Edificante, sem dúvida.
Com todos os igredientes: o filho de Reagan faz o filho de Bush em picadinho neste texto.
Coisa estranha é esta, vou escrever sobre o filme do momento depois de o ter visto. Não consegui de outra forma. Isto prova que a direita afinal é que é inteligente: ainda antes de terem visto Fahrenheit 9/11 já sabiam todos que aquilo era uma porcaria desonesta e mentirosa.
De forma que estava eu a ver o filme e a sentir-me intimidado – eh Rui, estarás tu a gostar desta porcaria desonesta e mentirosa? cuidado, meu –. A coisa foi de tal forma antes do lançamento que torna muito difícil às pessoas falarem bem do filme, ou pelo menos muito bem do filme.
E agora pensando bem, será que a intenção era mesmo torpedear a recepção do filme? Não, não pode ser. O pessoal de direita não seria capaz de uma coisa dessas. Esse pessoal de direita, na sua comovente recém-chegada à crença na importância da confirmação factual e documental das acusações que se fazem, não faria uma chantagem dessas. Dizer que o filme é uma colecção de falsidades, que sequer debatê-lo é já enlamear-se (Christopher Hitchens), que concordar com ele faz de nós pessoas com quem nunca mais se poderá discutir a sério (maradona, Luciano Amaral), que ir ver aquilo é como ir ver um documentário realizado por Goebbels em que se explica que os polacos invadiram o Terceiro Reich (Fox News), não poderia ser uma forma de colocar as pessoas numa posição desconfortável quando quisessem dizer que o filme é excelente.
Porque se assim fosse, teria de os mandar dar uma volta ao bilhar grande. O filme é excelente. Vou defender porque o acho em dois posts. Neste tratarei da questão das "mentiras" e dos textos anti-Moore. Depois, discutirei uma questão associada: desceu Cannes muito baixo ao dar a Palma de Ouro a Fahrenheit 9/11?
Em primeiro lugar, tem de concordar-se que não é desonesto alguém defender um ponto de vista diferente do nosso. Sem isto, nenhuma discussão é possível. O que é desonesto é ancorar esse ponto de vista em mentiras conscientes, falácias ou distorção de factos. Além disso o que é desonesto é através desse ponto de vista, mesmo que ele retoricamente se aguente, defender ou preconizar acções que são em si mesmas imorais.
Como escrevia um comentador aqui no Barnabé, as alegações gerais de F9/11 são as seguintes: a) que Bush, além de não ter ganho as eleições, não é um presidente capaz do EUA; b) que existe no mínimo uma proximidade alarmante ou promiscuidade entre ele (e a sua clique) e o poder económico-político da tirania saudita, que inclusive pode levá-lo a fazer "favores" a esta gente; c) que a Administração Bush usou o estado psicológico do 11 Set para fazer avançar a sua própria agenda de guerra, que no caso do Iraque era anterior e não tinha nada a ver com os ataques de 2001; d) que para o fazer usa de manhas e truques indignos de um governo de uma democracia e; e) que é imoral colocar as tropas americanas, maioritariamente oriundas das classes mais fragilizadas da sociedade, em grande risco com base em mentiras ou sem para tal ter razões minimamente plausíveis.
Muitas destas questões já foram discutidas aqui e não entrarei em todas elas em pormenor. O que nenhum adversário de Moore pode ignorar é que existe uma enorme massa factual e documental em apoio de cada um daqueles pontos, o que invalida qualquer tipo de jogada de menosprezo daquilo que Moore está a dizer. Mais: o campo bushista não pode certamente ignorar que já perdeu há muito o debate em vários destes pontos e que hoje em dia ele prossegue apenas em termos académicos (por exemplo: as razões aludidas – as AMD – no último ponto eram plausíveis ou não? Não; e a prova disso é que a esmagadora maioria da população mundial, como confirmaram diversos estudos, em nenhum momento as considerou minimamente credíveis. A resposta bushista consiste hoje em dizer que ninguém provou que as armas não existem, quando eles próprios nunca as conseguiram achar, ou dizer que as armas não foram a razão principal da guerra – o que é por si só a demonstração da derrota mais humilhante de qualquer posição política desde a queda do muro de Berlim).
Quem quer que queira defender as posições que Moore defende no seu filme tem hoje ao seu dispor uma massa tão grande de argumentos a seu favor – em jornais, em livros muito sérios cujo probidade não foi atacada, em documentos públicos – que mentir para o fazer seria, além de desonesto, muito idiota. Tirando a questão saudita – que o livro de Craig Unger trouxe à luz de uma forma muito sólida – todos aqueles pontos acima já foram tão sustentados ou provados em diversos fora e investigações em todo o mundo e tornaram-se até consensuais.
Deve ser por isso que os últimos dos moicanos – e não falo da direita em geral, falo daqueles poucos que ainda acreditam que Bush seja um presidente capaz ou a sua administração digna de uma democracia – fazem tanto estardalhaço com o filme. Começam os seus textos por dizer coisas como: "To describe this film as dishonest and demagogic would almost be to promote those terms to the level of respectability. To describe this film as a piece of crap would be to run the risk of a discourse that would never again rise above the excremental" [Christopher Hitchens], que só podem ser escritas por alguém que sabe exactamente o contrário daquilo que está a dizer: que a maioria do que é dito em F9/11 tem enorme sustentação e que a única forma de atacar o filme é através de um fogo de artifício sem precedentes que esconda a própria fragilidade da posição bushista. Shock and awe – Hitchens ainda não aprendeu nada desde há um ano.
O texto de Hitchens (e perco algum tempo com ele porque foi muito citado na blogosfera) termina a sua descarga de bilís com uma desonestidade flagrante, muito triste para quem passou um texto inteiro a acusar Moore de desonestidade. Hitchens considera escandalosamente desajustada a citação final de Orwell no filme de Moore, um excerto de 1984 em que se diz que o estado de guerra permanente é do estrito interesse do poder porque ele permite uma chantagem psicológica ininterrupta sobre as populações. É incompreensível o escândalo de Hitchens, a não ser por ver citado um guru cuja influência gosta de alardear num filme que despreza. É que, pense-se o que pensar da argumentação de Moore, aquela citação de Orwell adapta-se de forma particularmente justa ao que ele disse durante todo o filme.
Hitchens contra-ataca então com outra citação de Orwell em que este diz cobras e lagartos dos pacifistas. E a desonestidade dessa utilização é dupla: 1) porque Moore não é um pacifista; 2) porque os pacifistas a que Orwell se referia era àqueles que se tinham oposto à Guerra Civil de Espanha e à IIGM, duas guerras cuja fundamentação moral e pragmática é, para dizer o mínimo, incomensuravelmente mais sólida do que a da Guerra do Iraque.
Mais uma vez, concorde-se ou não com o resto do que Moore diz, é muito difícil ter visto o filme e cometer o erro de achar que Moore defende uma posição pacifista "genérica", do tipo que Orwell abominava. A última secção do filme até deixa bem claro o contrário, ou seja, que um governo correcto só coloca os seus jovens soldados em risco se for absolutamente necessário ("our soldiers mustn't be put into harm's way unless it is absolutely necessary", como é várias vezes repetido). A citação de Orwell que Hitchens usa não belisca esta posição, bem pelo contrário. Hitchens parece achar que Orwell nos diz que se não quisermos ser uns mariquinhas de uns pacifistas temos que estar sempre a favor de todas as guerras. É um erro contra o qual Orwell avisa em diversas ocasiões, nomeadamente na citação que aparece no filme e que, de forma tão dolorosa para Hitchens (que se apresenta como uma reincarnação de Orwell no século XXI), Moore sabe citar mais adequadamente.
A principal peça anti-Moore, aquela que mais se vê citada na blogosfera, é muito fraca como polémica. Até eu acho que era possível fazer melhor.
Depois temos a indústria subsidiária de blogues e sites anti-Moore, que supostamente recolhem todos os dias novos exemplos das "mentiras" de F9/11. Uma pessoa vai lá dar uma volta (aqui, por exemplo) e vê que há "mentiras" do género "aquele texto do Pantagraph (que aparece durante uma fracção de segundo no filme) parece uma notícia de primeira página mas afinal era uma carta de um leitor", "antes daquela tacada de golfe o Presidente estava a falar do Hamas e não da AlQaeda" ou "aquele tipo cujo pénis é agarrado por soldados americanos era um velho bêbado e não um cadáver". Na maior parte dos casos, trata-se de coisas que nem sequer chegam a ser ditas no filme. Espremido, tudo aquilo dá muito pouco.
Para isso, é bem mais impressionante o que podemos encontrar no próprio site do filme, e que eu nunca vi feito para nenhum documentário. Este documento em seis partes [1, 2, 3, 4, 5, 6] que apresenta literalmente cada frase que é dita por Moore e outros no filme sustentada por links para a imprensa, imagens de documentos, etc. Mesmo as afirmações que me pareceram mais absurdas, do género "George Bush passou 42% do seu primeiro ano em férias", o "nome do James R. Bath foi apagado dos documentos militares de Bush" ou os dados sobre investimento saudita nos EUA lá se encontram apoiadas, no primeiro caso com uma investigação feita pelo Washington Times, no segundo caso com imagens dos documentos oficiais, no terceiro com diversas fontes. Ninguém se deve lançar na polémica "ponto-por-ponto" sem passar por lá, e a coisa parece bastante sólida.
Quem já o fez foi o The New York Times, neste artigo chamado "Will Michael Moore's Facts Check Out?", cuja resposta foi largamente positiva.
Portanto, caros Luciano, maradona, amigos d'A Blasfémia. Não somos nós que estamos a rebaixar-nos ao elogiar o filme. Em grande parte, o que ele diz não é novidade e nós até já dissemos pior. São vocês que se estão a rebaixar ao ceder à raiva espumada deste pessoal. Ninguém espera que vocês gostem do filme, uma vez que o vosso ponto de vista é contrário àquele. Seria a mesma coisa que esperar que o Álvaro Cunhal gostasse do Darkness at Noon ou do Arquipélago de Gulag. Mas ao negarem que o filme tenha sequer informação e factos credíveis, são vocês que se estão a colocar ao nível do Álvaro Cunhal que não só não gostava de Solienitsine como negava que existissem campos de concentração na URSS. E um palerma como Bush não merece isso da parte de gente inteligente.
Um gajo passa a vida ouvir esta história de como as eleições são más para a economia e para "a estabilidade", e passado pouco tempo as eleições começam a parecer uma coisa muito importante "para a democracia", sim senhor, mas uma maçada para tudo o resto. Um xarope que tem de se tomar de quatro em quatro anos, de que se fala sempre com o ar muito sério, mas que se deve evitar ao máximo para além disso. Veja-se a famosa entrevista de Santana Lopes pouco antes da sua indigitação: "vamos poupar aos portugueses terem de ver a cara do Dr. Ferro Rodrigues, e a minha, quando forem levar os filhos à escola" – uma descrição do acto eleitoral que dá toda a espessura democrática da gentaça que temos agora no governo.
E no entanto dá para pensar se as vantagens – mesmo económicas, mesmo sociais – das eleições não são maiores do que as da "estabilidade". Desde logo, porque as eleições são uma festa que mobiliza (surpreendentemente, dada a maneira como são tratadas) uma maioria da população. Como os partidos têm de falar, mais ou menos, dos seus programas, acaba por se criar um momento em que o futuro do país é discutido (bem ou mal), em que se criam esperanças. Há pessoas que se entusiasmam, que militam mais, que discutem mais. Depois vem um governo novo, que entra com a legitimidade do voto, que quer fazer coisas nos seus primeiros 100 dias, com políticos que ainda acreditam que o seu programa é para cumprir, que ainda acham que vão melhorar o país. E como entrou um novo governo, há pessoas que acham que é a altura para arrancar com novos projectos – novas empresas, novos jornais, novas associações –.
Quem nos diz a nós que as eleições são piores para a economia do que "a estabilidade"? Dizem-nos os instalados, mas o que é bom para esses tende a ser pernicioso para a economia em geral. Quanto não daríamos nós para estar agora no lugar dos espanhóis, a ver um novo governo legitimado nas urnas, obrigado a cumprir promessas que fez? Mesmo para além de todo o contexto político que fazia com que as eleições tivessem sido a única boa escolha para o país, teríamos ficado a ganhar com elas em todos os outros aspectos para além dos políticos.
Quando entra um novo governo, o pessoal anima-se. Em Portugal acabou de entrar um novo governo e o desânimo nunca foi tão grande. A famosa retoma, um fogacho, parecia que vinha e já se sumiu. O país volta a arder, o turismo está a meio e eu continuo a ver as mesmas velhinhas comprar arroz e papa no minipreço, contadas as moedas pretas na carteirinha, e as meninas da caixa a dizer que elas só comem aquilo o ano inteiro. Daqui a pouco será a altura de uns milhares de professores ficarem no desemprego – quantos serão, 14 mil como no ano passado? – e o ano lectivo pode vir a ser adiado, duas coisas que devem mesmo ser excelentes "para a educação". A deslocalização das secretarias de estado é um nome de código para "campanha das autárquicas" – veja-se o caso de Santarém, que pelos vistos já se lixou por a Câmara ser do PS –. O Ministério da Justiça afinal até tem dinheiro, só que não vai para a reforma da justiça e sim para umas aventuras financeiras. Quem no-lo explica é um senhor, Paulo Rangel, que aparentemente ganhou o seu lugar de jovem ideólogo no dia em que publicou um artigo contra as eleições que fez furor entre as hostes governistas, – ou assim disseram eles uns aos outros.
E eu não há dia em que pense neste governo e não me lembre do novo slogan de um detergente: Skip. Com as nódoas aprendemos a viver.
As denúncias de abusos sobre prisioneiros iraquianos continua. Depois dos EUA, a Dinamarca.
O que nenhuma vitória justifica, nem contra o mais ignóbil dos inimigos.
Era tão bom que este apego à verdade e ao rigor de Luciano Amaral tivesse chegado há um ano. Teríamos poupado tantas discussões. Mas, infelizmente, estes arrebatamentos só lhe dão no escurinho do cinema. O homem é tímido e isso é sempre muito respeitável.
Eu aceito que o filme de Moore tem falhas (que estão longe de abalar o conjunto das teses defendidas pelo realizador e a léguas das que são apontadas por Luciano Amaral, como até ele sabe). Aceitará Luciano que apoiou uma guerra que matou milhares de pessoas com base num «amontoado de mentirolas e paranóia, à mistura com a mais estrita estupidez e alarvice»? Não, claro que não. Nunca à luz do dia. Porque a Luciano não incomoda «a desprezível companhia» de Bush, nem avançar «alegremente para o atoleiro mental em que ele já está enfiado». «Encontrar nele algo de positivo para o avanço das suas ideias diz quase tudo sobre o lastimável estado intelectual a que [a direita] se reduziu a si mesma».
Adoro isto: escrever como o Luciano e seus companheiros. Ainda lhe ganho o gosto e começo a chamar “biltres” aos amigos e a dizer que O Acidental não é o meu “cup of tea”. Já agora, quero dar os parabéns ao Luciano por ter sido um dos primeiros criticos do filme a ver o filme. Coisa rara.
Por fim: quem quiser ler a resposta de Moore às acusações de falsidade, estão aqui, usando exclusivamente o relatório da Comissão que investigou o 11 de Setembro. Bom seria que o Presidente dos EUA, com um pouco mais de responsabilidades que Moore, também se desse ao trabalho de justificar tudo o que disse.
"A fé cristã ensina realmente que Deus ama as lésbicas e os homossexuais, como aos heterossexuais, como a todas as pessoas, como a todos os pecadores, e que todas as pessoas devem ser respeitadas. Mas não aprova nem quer o seu pecado, que as destrói. Deus quer "desesperadamente" salvar a todos, mas pede o seu arrependimento e a sua conversão, convida à santidade." Alexandra Tété, das Mulheres em Acção, no "Público"
Para não dizerem que só falo mal deste governo (o que é, felizmente, uma verdade quase absoluta), tenho de dar os parabéns por terem corrido com o incompetente veterano Cardoso e Cunha da TAP e terem segurado Fernando Pinto. Que, por uma vez, alguém avalie o trabalho de gestores e que o cartão partidário valha menos que os resultados conseguidos. Pronto, já está. Volto com um elogio daqui a um ano.

“Os nossos inimigos são inovadores e astuciosos, e nós também. Eles estão sempre a pensar em novas maneiras de fazer mal ao nosso país e ao nosso povo, e nós também”.
George Bush perante uma plateia de militares e dirigentes do Pentágono, citado no The Guardian de hoje.
Devo aqui um pedido de desculpas à Grande Loja do Queijo Limiano por não ter dado o mesmo destaque aos seus posts que dei ao filme de Michael Moore. Eles queixam-se, puxam pelos galões e têm razão. Por isso, aqui vão os meus sentidos pedidos de desculpa. Espero vir a ser acompanhado, neste mea culpa, por toda a imprensa internacional e nacional, por Cannes e pela generalidade da população. Há injustiças que não podem passar em claro. Não sabemos exactamente quem são eles, porque não assinam as suas incontornáveis opiniões. Mas sabemos que se têm em grande conta. Parem as rotativas, que a Grande Loja falou.
A direita tem analisado à lupa as mentiras e as verdades do filme de Moore, com o mesmo afinco com que se esteve nas tintas para as mentiras de George Bush. A dúvida metódica que dispensaram para apoiar o bombardeamento e invasão de um país, tomou-lhes agora as consciências. Sejam então bem-vindos.
Aceitemos aqui que o filme de Moore tem algumas informações que não são verdadeiras. O essencial é verdadeiro e pertinente e isso ainda ninguém conseguiu pôr em causa. Aceitemos que o discurso de Bush sobre o Iraque tinha algumas verdades. O essencial era falso, e isso é hoje indiscutível. Mas o mais importante não é isto. É saber quantas vidas custaram as falsidades de Moore? Nenhuma. E as de Bush? Muitos milhares. Aceitar que nem tudo o que Moore diz é verdadeiro e que não se perde o sono com isso nada tem de imoral. Pôr um filme ao mesmo nível que uma declaração de guerra, isso sim, é relativismo moral. Quem apoiou uma guerra sem querer saber da verdade não se pode querer limpar com um filme de uma hora e meia. Era fácil, mas ninguém cai nessa.
No PS, continua o debate interno. O assunto mais polémico parece ser se o PS deve ou não falar para o centro. O inquérito do “Público” aos candidatos é elucidativo do significado desta nebulosa questão. Sócrates precisa de fazer sempre vinte ressalvas depois de dizer seja o que for e dizer sempre seja o que for de forma a ter três mil interpretações possíveis. Quer falar para todos ao mesmo tempo, ou, como disse, dirigir-se «a todos os portugueses», como se não existissem clivagem políticas fundamentais na sociedade portuguesa. E quem foge das clivagens políticas dificilmente pode falar de política. Se Sócrates se dirige «a todos os portugueses», não pode esperar que cada um dos portugueses acredite que está a falar para ele.
Eu não acho mal que o PS fale para o centro. Só espero que não se zangue com a esquerda se esta se desinteressar da sua conversa. Quem fala para o centro deve esperar os votos do centro. Quem fala para esquerda deve pedir os votos à esquerda. Isto sim, é justo.
A "esquerda" é moralista. A "direita" ataca o moralismo da "esquerda" (a que, talvez complexadamente, chama arrogância moral) considerando que esta não está à altura dos altos padrões morais que defende. O que até pode ser verdade, nalguns casos. Mas a "direita" é que é esperta: nunca diz nada sobre a sua própria relação com esses padrões morais que a "esquerda" alegadamente não respeita. E, como os padrões morais da "esquerda" não são os seus ou estão escondidinhos, não precisa de se medir com eles na sua acção. Moral da história: enquanto a "esquerda" se justifica, folgam as costas morais da "direita" (e o que é um bocadinho de má consciência comparada com esta vitória moral?).
É velhinha mas continua a funcionar.

Bruce Springsteen assina hoje artigo no New York Times, apelando à derrota de Bush. É a sua primeira tomada de posição partidária nos últimos 25 anos. Abaixo podem encontrar o texto completo.
August 5, 2004
OP-ED CONTRIBUTOR
Chords for Change
By BRUCE SPRINGSTEEN
A nation's artists and musicians have a particular place in its social and political life. Over the years I've tried to think long and hard about what it means to be American: about the distinctive identity and position we have in the world, and how that position is best carried. I've tried to write songs that speak to our pride and criticize our failures.
These questions are at the heart of this election: who we are, what we stand for, why we fight. Personally, for the last 25 years I have always stayed one step away from partisan politics. Instead, I have been partisan about a set of ideals: economic justice, civil rights, a humane foreign policy, freedom and a decent life for all of our citizens. This year, however, for many of us the stakes have risen too high to sit this election out.
Through my work, I've always tried to ask hard questions. Why is it that the wealthiest nation in the world finds it so hard to keep its promise and faith with its weakest citizens? Why do we continue to find it so difficult to see beyond the veil of race? How do we conduct ourselves during difficult times without killing the things we hold dear? Why does the fulfillment of our promise as a people always seem to be just within grasp yet forever out of reach?
I don't think John Kerry and John Edwards have all the answers. I do believe they are sincerely interested in asking the right questions and working their way toward honest solutions. They understand that we need an administration that places a priority on fairness, curiosity, openness, humility, concern for all America's citizens, courage and faith.
People have different notions of these values, and they live them out in different ways. I've tried to sing about some of them in my songs. But I have my own ideas about what they mean, too. That is why I plan to join with many fellow artists, including the Dave Matthews Band, Pearl Jam, R.E.M., the Dixie Chicks, Jurassic 5, James Taylor and Jackson Browne, in touring the country this October. We will be performing under the umbrella of a new group called Vote for Change. Our goal is to change the direction of the government and change the current administration come November.
Like many others, in the aftermath of 9/11, I felt the country's unity. I don't remember anything quite like it. I supported the decision to enter Afghanistan and I hoped that the seriousness of the times would bring forth strength, humility and wisdom in our leaders. Instead, we dived headlong into an unnecessary war in Iraq, offering up the lives of our young men and women under circumstances that are now discredited. We ran record deficits, while simultaneously cutting and squeezing services like afterschool programs. We granted tax cuts to the richest 1 percent (corporate bigwigs, well-to-do guitar players), increasing the division of wealth that threatens to destroy our social contract with one another and render mute the promise of "one nation indivisible."
It is through the truthful exercising of the best of human qualities - respect for others, honesty about ourselves, faith in our ideals - that we come to life in God's eyes. It is how our soul, as a nation and as individuals, is revealed. Our American government has strayed too far from American values. It is time to move forward. The country we carry in our hearts is waiting.
Bruce Springsteen is a writer and performer.
Ontem vi um documentário amador. Mau, muito mau, do ponto de vista cinematográfico. Mau, péssimo, do ponto de vista documental. Ignorante, mas atrevido, do ponto de vista político. Arrogante, do ponto de vista cultural. Acho que é sobre Arafat, mas não fiquei muito seguro. Parece mais ser sobre um realizador de cinema medíocre e cansado, que julga que pode fazer um documentário sobre o conflito israelo-palestiniano numa visita turística de três dias e meia dúzia de entrevistas mal amanhadas, sem que tenha lido uma linha sobre o assunto. No fim, só me lembro de uma câmara a tremer, a armar ao moderno, meia dúzia de perguntas indigentes e uma hora de sofrimento para o espectador. Nome? "Persona non grata". Realizador? Oliver Stone, quem mais poderia ser? Foi editado em DVD, mas não chegou aos cinemas. Até os exibidores menos exigentes têm algum critério. Há realizadores que acham que basta assinar um filme caseiro para nos fazerem perder o nosso rico tempo.
«Ministério da Justiça aposta na Bolsa: investimento de 100 milhões de euros repartido por mercados de capitais e fundos imobiliários.» Diário de Notícias. Isto acontece quando o Ministério da Justiça não tem dinheiro para mandar cantar um cego.
Nomeações do anterior governo, já depois de Durão Barroso depois de aceitar ser Presidente da Comissão Europeia, noticiadas pelo “Jornal de Negócios”:
28 de Junho
Luis Filipe Pereira nomeia Daniel Abílio Ferreira Bastos para presidente do conselho consultivo do Centro Hospitalar de Vila Real/Peso da Régua e Fernando Alberto Matos Ribeiro da Silva para presidente do conselho consultivo do hospital nossa Senhora da Oliveira
29 de Junho
José Amaral Lopes renova o mandato de Fernando Costa, coordenador do arquivo de Fotografia de Lisboa
Paulo Portas exonera Luis Manuel Fourneaux Macieira Fragoso das funções de assessor para a Marinha e porta-voz do gabinete. Noutro despacho nomeia-o para sub-director geral da Direcção Geral de Armamento e Equipamentos de Defesa
30 de Junho
Luis Filipe Pereira renova a comissão de serviço de Maximina da Conceição Rodrigues dos Santos Pinto, directora do Instituto de Genética Médica Doutror Jacinto de Magalhães
Durão Barroso e Luis Filipe Pereira nomeiam, antes do fim da comissão de serviço anterior, o director geral das Instalações e Equipamentos da Saúde, José António de Rios Vilela, na prática é uma renovação, pois foi nomeado em 2002, mas não passaram os três anos.
Luis Filipe Pereira nomeia Rui Pedro Costa de Magalhães para sub-director geral da DGIES, na prática é renovação foi nomeado em 11 Outubro de 2002
Luis Filipe Pereia nomeia Maria Paula Marques da Costa Melo para subdirectora da DGIEs, na prática é renovação pois tinha sido nomeada em Agosto de 2002
Pedro Roseta exonera Maria José Sabino Moura e nomeia Rui Alberto Mateus Pereira para vice-presidente do Conselho Superior de Bibliotecas
1 de Julho
Durão Barroso nomeia Maria Lídia Ferreira Sequeira, gestora do eixo prioritário da Intervenção Operacional da Ciência, Tecnologia e Inovação
Durão Barroso nomeia Margarida Corrêa de Aguiar para vogal da ERSE
Durão Barroso nomeia sete pessoas para os órgãos sociais da Parpública
Pais Antunes – designa sub-inspector para assumir a gestão corrente da IGT, depois da saída de Athaíde das Neves,
Maria Manuela Macedo Franco, sec.Estado dos Negócios Estrangeiros nomeia Luísa Margarida de Carvalho Bastos de Almeida, para a vice-presidência do Instituto Camões
Durão Barroso e Teresa Gouveia nomeiam Rui Quartin Santos para secretário-geral do Ministério, lugar que ficou vago pela cessação de funções do embaixador João Alberto Bacelar da Rocha Paris
Teresa Caeiro nomeia Maria do Rosário Carvalho da Costa Lopes para presidente da comissão administrativa da Caixa de Previdência do Pessoal dos TLP
2 de Julho
José Amaral Lopes nomeia, sob proposta do director do teatro nacional de São Carlos, o maestro Giovanni Andreoli
Teresa Gouveia nomeia Ana Paula Gil Soares como coordenadora do ensino português na Alemanha
5 de Julho
Arlindo Cunha nomeia José Lemos Carvalho para adjunto do gabinete
Luis Filipe Pereira, nomeia António Manuel dos Santos Sousa, vogal não executivo do conselho de administração do Hospital Espírito Santo (Évora), director clínico
Carmona Rodrigues, director adjunto (equiparado a sub-director geral) do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, tenente-coronel na reserva, Fernando Ferreira dos Reis
Manuela Ferreira Leite e Luis Filipe Pereira nomeiam a sociedade Moisés Cardoso e Manuel Pinheiro, como fiscal único do Centro Hospital de Lisboa
Manuela Ferreira Leite e Luis Filipe Pereira nomeiam a sociedade A. Gonçalves Monteiro e Associados como fiscal único do Centro Hospitalar de Torres Vedras
Luis Filipe Pereira nomeia Fernando Diogo Martins Pinheiro presidente do conselho de administração da Maternidade de Júlio Dinis
Luis Filipe Pereira nomeia Manuel Martinho da Conceição Carolino, vogal não executivo do conselho de administração Hospital Espírito Santo, em Évora, enfermeiro director
A Teresa Patrício Gouveia nomeia Maria Rita de Franca Sousa Ferro Levy Gomes para secretária-geral adjunta do MNE.
7 de Julho
Durão Barroso e Morais Sarmento nomeiam António João Cadete de Matos para vogal suplente do Banco de Portugal e Pedro Jorge Nunes da Silva Dias e Maria dos Anjos dos Santos Almeida, para vogal efectivo e suplente do Min. SS no Conselho Superior de Estatística
9 de Julho
Celeste Cardona nomeia Maria da Conceição Cardoso Reis Ventura, assessora principal da Sec.Geral do Ministério da Economia, para integrar o quadro da Inspecção Geral dos Serviços de Justiça
14 de Julho
Ferreira Leite designa para vogal da comissão de fiscalização da Casa do Douro, a Sociedade e ROC Álvaro, Falcão e Associados
Sevinate Pinto renova a comissão de serviço de Luis Alberto Pires de Moura como vogal da direcção da Agência do Controlo das Ajudas Comunitárias ao Sector do Azeite
Sevinate Pinto renova a comissão por dois anos (e não três) de Eduardo Alberto Lynce Faria, vogal da direcção da Agência do Controlo das Ajudas Comunitárias ao Sector do Azeite
15 de Julho
O secretário de Estado do Ambiente, Artur Rosa Pires, nomeia a nova comissão directiva da Paisagem Protegida do Corno do Bico.
Estatuto dirigente da Administração Pública de 15 Janeiro de 2004: “Não pode haver nomeações para cargos de direcção superior depois da demissão do Governo ou da convocação de eleições para a Assembleia da República, nem antes da confirmação parlamentar do Governo recém-nomeado.”
Assim, 12 destas nomeações fora pura e simplesmente ilegais e as restantes politicamente imorais..
Também fui ontem ver o Fahrenheit 9/11. Estou mais ou menos de acordo com o que tu dizes, Daniel. Penso também que são de levar a sério algumas das críticas que leio nos blogues e nos jornais ao filme e concordo com que Michael Moore simplifica e cria alguns atalhos informativos. Se Moore, além disso, tiver dito coisas que se possa demonstrar serem falsas, isso será grave. Até porque essas falsidades contribuirão para obscurecer verdades mais importantes que o filme mostra. Nomeadamente, o escândalo gritante de que ele parte: a administração norte-americana está de tal maneira enredada nos negócios com a família real saudita que lhe concedeu imunidades que mais ninguém teve em território norte-americano depois do 11 de Setembro, sabendo que ela tinha relações familiares com o principal suspeito dos ataques; e nos dois anos, quase três, que se seguiram a eles, em vez de procurar a melhor maneira de combater os responsáveis conhecidos, escolheu como alvo da sua guerra um inimigo que não estava a ele ligado e conduziu-a de maneira imperialista e cruel. Isto o filme demonstra de forma simples e eficaz. Quem o ataca com base na ideia de que Moore manipula a realidade não pode ignorar esta verdade principal que o filme defende, que parece bem mais importante do que as incorrecções que lhe possam ser apontadas. Não se trata de uma verdade "objectiva", mas as verdades objectivas não existem em nenhum olhar sobre o real. E, como escreveu o Daniel ali em baixo, comparado com a "objectividade" da Fox News, Moore é um menino de coro.
Moore é maniqueísta. Mas o drama é que a realidade que ele filma também. A realidade tornou-se ela própria uma caricatura. Moore mostra-nos, entre outras coisas, que o significado político de Bush é a sua imagem patética, as suas caretas antes de falar para a televisão. Basta apontar a câmara, a imagem fala por si. Aqui está talvez a força e a fraqueza de Moore. A caricatura dá força ao filme, mas parece convencer essencialmente os convencidos (e não sei se desfavorece Bush). Esses gostam do filme, aplaudem e saem mais convictos da sua razão. Já quem não concorda, combate o filme acusando Moore de má-fé. Dessa maneira, pretende descredibilizar todo o trabalho do realizador. Esta maneira de descredibilizar é uma característica de todo o debate sobre Bush ou o Médio Oriente que todos conhecemos aqui dos blogues também. As posições extremaram-se. Quanto mais se apela à Verdade com maiúscula, mais se sabe que esse apelo é retórico, que a nossa verdade é incompatível com a do outro lado. Só que o responsável por este maniquíesmo não é Michael Moore, mas a conflitualidade política actual, criada pelos terríveis conflitos em que o mundo vive e que Bush tanto contribuiu para agravar à vista de todos.
Henri Cartier-Bresson [1908-2004] viveu.
Henri Cartier-Bresson morreu na passada Segunda-feira a poucos dias de fazer 96 anos. Foi concerteza o fotógrafo mais influente do século XX, não só por esta longevidade, mas por ter estado no eixo central da fotografia no século. Cartier-Bresson é uma figura central do chamado "humanismo fotográfico francês", mas fundou a Magnum com Robert Capa, George Rodger e "Chim" Seymour. Tornou-se num fotojornalista, mas já tinha começado enquanto surrealista.
Foi provavelmente cada um destes momentos que preservou a sua obra dos piores dos habituais defeitos dos outros. O seu "humanismo" não era sentimental mas cerebral; ao contrário dos outros fotógrafos "humanistas" é difícil encontrar uma imagem piegas na sua obra. O seu fotojornalismo ancorava-se num sólido conhecimento de história da Arte e na passagem pela prática na vanguarda artística dos anos 30; essa exigência de cultura artística era bem maior do que no fotorepórter comum. O seu famoso teorema do "momento decisivo" tem a sua origem muito mais próxima das "trouvailles" surrealistas do que propriamente no facto jornalístico.
De certa forma, pode dizer-se que Cartier-Bresson pode muito bem ter sido ele mesmo o "momento decisivo" da fotografia do século. Depois dele, a arte deu muitas voltas. Mas hoje que sabemos da sua morte aos 95 anos de muitas viagens, pensamento e criação artística, não conseguimos impedir-nos de admirar e invejar a forma como viveu.
***
Não fiquei muito contente com este texto. Não é bem as ideias, é mais a forma. Para compensar, tomem lá mais umas fotos, vindas do portfolio de Cartier-Bresson na Magnum. Mais o link da recém-criada Fondation Cartier-Bresson. Mais o link para dois textos históricos [a pagar] da New York Review of Books: uma entrevista a Cartier-Bresson em 1976, e uma reportagem-ensaio com ele, por John Banville, em 2003. Li esta última e vale bem a pena.



Os eleitores do Missouri aprovaram a proibição de casamentos entre homossexuais.
Um leitor, portador do vírus da Hepatite C, uma doença grave e sobre a qual é difícil encontrar informação, pede-nos para divulgar o seu blogue, sobre esta doença. A blogosfera começa a ter muitas utilidades.
Acabei ontem de ler Contra Todos os Inimigos (Against All Enemies: Inside America's War on Terror), o livro do antigo responsável pelo combate ao terrorismo, Richard Clarke. É um documento interessantíssimo. Clarke é um burocrata experimentado, que passou pelas administrações de Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho. Teve, durante duas décadas, um papel de destaque na segurança e na política externa americanas. Clarke está longe de ser um idealista. Burocrata pragmático, Richard Clarke participou activamente em todas as manobras de bastidores de apoio indirecto a Saddam Hussain e aos mujahedin afegãos, que aceitaram nas suas fileiras homens como Bin Laden. Muito menos será um pacifista. Pelo contrário: indignou-se inúmeras vezes com a moleza das sucessivas administrações. O primeiro valor deste livro é ficarmos a conhecer de perto o pragmatismo dos jogos de guerra e as suas perigosas consequências.
Mas o mais interessante do livro é a confirmação da obsessão da nova Administração em relação ao Iraque. Cheney, Rumsfeld e Wolfowitz, ainda antes do 11 de Setembro, repisavam permanentemente o tema da necessidade de invadir o Iraque, sem que ninguém entendesse a origem de tamanha paranóia. Logo no dia 12 voltaram à carga. De nada valeu todas as garantias dadas por todas as agências e especialistas de que nenhuma informação credível ligava o Iraque de Saddam à Al-Qaeda. A decisão estava tomada. Os diálogos reproduzidos por Richard Clark são deliciosos, tal é a obstinação dos homens fortes da Casa Branca.
O laxismo em matérias de segurança interna, a incompetência do risível Ashcroft, os sucessivos erros depois da invasão do Iraque, que vão da desmobilização dos militares iraquianos ao afastamento de todos os militantes do Baas, a utilização despudorada do combate ao terrorismo como arma política, tudo isto é tratado no livro.
Clarke acaba por explicar o que já todos sabemos: que os perigos vêm do Paquistão, Afeganistão e Arábia Saudita; que não há solução para o terrorismo que não passe pela resolução do conflito israelo-palestiniano e que a ocupação do Iraque não foi apenas uma enorme perda de tempo e de energias, foi sobretudo o tremendo erro político, que apenas reforçou a base de apoio da Al-Qaeda e isolou os EUA em relação ao Mundo Árabe e às opiniões públicas europeias.
O que motivou Richard Clarke para revelar a sua experiência na Casa Branca? Um ajuste de contas, sobretudo com outros burocratas e serviços de segurança. Nem isto, nem o facto do Clarke nunca pôr em causa o status quo da política externa americana tira mérito ao livro, como um testemunho muito esclarecedor da vida internacional pós-Guerra Fria.
Também ontem, fui ver o Fahrenheit 9/11. É um somatório de informações vindas de várias fontes – algumas descritas no livro de Richard Clarke – em versão panfletária e com alguns momentos do melhor humor, que só a Administração Bush pode proporcionar. Tirando um momento confrangedor de utilização do sofrimento da mãe de um militar morto no Iraque, o filme é competente no seu objectivo: propaganda anti-Bush. Mais: propaganda pró-democratas. Não me choca. Perante a propaganda e a sucessão de mentiras dos neocons e do seu braço televisivo, a FOX, Michael Moore é um menino do coro. Mais competente, equilibrado e honesto. E está melhor do que em Bowling for Columbine.
As eleições americanas vêm aí e Bush continuará debaixo de fogo. Clarke e Moore deram o seu contributo para a derrota do pior presidente da história americana. O livro e o filme não se dirigem à comunidade internacional, mas aos cidadãos (e eleitores) dos Estados Unidos. Oxalá resultem.

A Estátua da Liberdade reabriu ontem ao público. Esteve encerrada durante quase três anos, por se temer que as medidas de segurança não fossem suficientes para prevenir um eventual atentado terrorista.
A Estátua da Liberdade é, possivelmente, o mais emblemático dos monumentos americanos. Durante a crise do Iraque, dizer mal da França tornou-se um dos pontos centrais da vulgata neo-conservadora. Ora, num momento tão simbólico como este, vale certamente a pena recordar alguns factos relacionados com a história de "Lady Liberty" (mais dados aqui): a) o escultor que a desenhou foi um francês, Auguste Bartholdi; b) o engenheiro responsável foi Gustav Eiffel, outro francês c) a estátua foi oferecida à América, como "um presente do povo da França", no dia 4 de Julho de 1884.
Vive l'Amérique! Vive la France! Vive la Liberté!

Os anos oitenta não foram só sintetizadores estridentes e cabelos a pingar laca.
Isto não devia ser assim. Estas coisas não deviam ser reveladas.

A "Canção Nova", estação fundada pela comunidade católica de origem brasileira, vai conhecer o mesmo destino que o infame Canal 18: a partir de Outubro, será codificada. Os fãs da eucaristia, da oração do rosário e dos talk-shows do Padre João Seabra passarão a ter de desembolsar mais 3,5 euros por mês se quiserem continuar a ver os seus programas preferidos. Mais uma vez se prova que João César das Neves tem carradas de razão: numa sociedade capitalista, não há almoços grátis.
José Lello, n'A Capital: “Desconfio da sanidade mental de João Soares”.

Tem sido feito um paralelismo entre Sócrates e Santana, acusando os dois de populismo. Em defesa de Sócrates, muitos têm sido os que recordam o seu papel no Ministério do Ambiente. Confesso que começo a ficar confuso com este debate. Não vejo como pode ser o populismo a questão. Não entendo como pode ser o desempenho ministerial de Sócrates a resposta.
Não sendo Sócrates um populista, a questão também não passa por saber se ele foi ou não bom ministro do Ambiente e se teve ou não coragem política. Acho que o balanço é bem mais discutível do que nos querem fazer crer, mas o que me interessaria, o que é realmente relevante quando se fala de um candidato a candidato a primeiro-ministro, era conhecer o perfil político de Sócrates e as suas propostas para o País.
Escolhidas ao acaso, podem ser respostas a perguntas como estas: Que posição tem Sócrates sobre o Pacto de Estabilidade e Crescimento? O que pensa Sócrates de um referendo à Constituição Europeia? Vai-se bater pela modificação da Política Agrícola Comum? Que posição tem Sócrates sobre a intervenção no Iraque e que posição acha que o PS deve defender? Que posição tem Sócrates sobre o novo código do trabalho? Quer modificá-lo? Defende Sócrates o mínimo de 2% de Orçamento de Estado para a Cultura? Quer aumentar o orçamento para a defesa? Defende uma reforma fiscal? Qual? Defende o plafonamento das contribuições para a Segurança Social? E sobre os processos de privatizações, o que pensa? É a favor da privatização da gestão hospitalar? É contra ou a favor da gratuitidade do Ensino Superior? O que pensa em relação à regionalização? E podia continuar aqui durante horas, de tal forma José Sócrates é um mistério político.
O que é extraordinário é que Sócrates esteja na vida política há tantos anos, tenha sido até comentador semanal numa televisão, e saibamos tão pouco sobre as suas posições em relação a tantas questões políticas concretas. Ao ponto de ser difícil defini-lo politicamente. Tudo, porque Sócrates tem o dom de fazer brilharetes sem dizer coisa nenhuma.
Eu não acho, nem nunca achei, que Sócrates fosse um populista. O populismo (expressão que hoje é usada contra todos os que digam alguma coisa politicamente mais violenta) é uma outra coisa, bem identificável em homens como Santana Lopes: é ter sempre a posição mais fácil e mais popular. Com Sócrates as coisas não se passam assim. Sócrates é tão cauteloso nas suas posições, que não chegam sequer a ser posições.
Uma coisa é óbvia: Sócrates parece não ter grandes convicções políticas. No entanto, esta sua indefinição nunca o impediu de ser um voluntarista. Mas a coragem não substitui a clareza política, nunca substituiu. Sem clareza política, a coragem pode mesmo ser um problema. Não faltam na história corajosos despolitizados e convictos medrosos. E é nestas características, a de serem aguerridos e politicamente vazios, e não no populismo, que há um paralelo entre Sócrates e Santana Lopes: não sabemos nada sobre o que pensam em relação a quase tudo o que é estruturalmente importante, nem sabemos se se dão sequer ao trabalho de pensar nestas matérias. Mas sabemos que vão em frente, mesmo que não saibam porquê.
Por isso, contra Sócrates, o PS precisava de um candidato com um programa e não da retórica republicana e socialista. Não caio na esparrela de propor nomes para um partido que não é o meu. Mas não é difícil puxar pela cabeça. A escolha poderia ser menos mediática do que a de um Manuel Alegre, mas marcaria de forma bem mais clara a diferença entre duas culturas: uma, reformista e claramente posicionada à esquerda, outra, da mera gestão política da alternância no poder. Uma, que se apresentasse como alternativa num tempo de escolhas decisivas, outra, que se limita a prolongar a velha lógica do bloco central. Este é o debate que me interessa e não, como alguns comentadores têm escrito, o que é melhor ou pior para o meu partido. Porque se o melhor para o meu partido fosse o pior para a esquerda, o meu partido nem faria muito sentido.
Medeiros Ferreira, João Cravinho, Vicente Jorge Silva e Augusto Santos Silva: Paulo Gorjão deseja que a vossas vidas sejam poupadas. Não sejam ingratos e agradeçam.

A Fox, a televisão que Murdoch criou para dar umas abébias aos republicanos passa a vida a insultar Kerry, chamando-lhe Flip-flop (troca-tintas) e ultimamente insinuando uma coisa enternecedora de tão idiota: que ele tem cara de francês (já não se pode ser feio de modo universal). Entretanto leio um artigo publicado na New Yorker (que me chega via Grande Reportagem) onde se faz um retrato do candidato como se ele fosse o melhor dos seres humanos, íntegro e porreiraço até à nausea. Estarão a falar da mesma pessoa? Eu sei que estas coisas são da maior subjectividade, mas não podiam salpicar tanta propaganda com um bocadinho de jornalismo?

Confesso que me começa a irritar a tentativa de estabelecer uma simetria entre José Socrates e Pedro Santana Lopes a que de um modo difuso mas generalizado se tem assistido na imprensa. Não deixa de ser curioso que essa tentativa venha precisamente da esquerda da esquerda e de um sector da direita que, rejeitando Santana Lopes, se esforça para que não pareça que qualquer alternativa possa vir do PS. A tese é simples: ao populismo de direita protagonizado por Santana corresponderia, um populismo de terceira via vestido por Sócrates. É curioso que esta acusação nunca venha complementada por nenhum argumento concreto, nem ninguém se esforce muito por justificar as equivalências de estilo entre Sócrates e Santana. É assim porque sim. Eu pouco tenho a ver com aquilo que ideologicamente Sócrates representa, mas chateia-me de morte ver um político que desde cedo se especializou numa área específica como o ambiente, que quando esteve no governo foi exactamente o contrário do que o guterrismo teve de pior (decidiu quando teve de decidir como no caso de Souzelas, precisamente contra o populismo local da esquerda dos galões), que estuda e conhece os dossiês, ser confundido com alguém que tem da política a ideia de uma mera batalha naval. Tudo isto se torna mais patético quando vemos um outro candidato, como João Soares, usar todas as armas do populismo (juro que ranjo os dentes quando ele usa a expressão «a gente da nossa terra») e não merecer qualquer crítica. A última invenção relacionada com Sérgio Sousa Pinto é exemplar: porque é que só agora João Soares se vem queixar de Sousa Pinto se a conversa (privada, note-se bem) ocorreu há um mês? se é isto a esquerda, eu sou de direita. Sócrates tem muito que provar, mas não vejo grandes alternativas no PS, pelo menos enquanto Manuel Alegre disser coisas como que «sente uma grande incomodidade» (Expresso) e que tem saudades de estar a caçar perdizes.
Se vir este senhor preocupado com «pretos», é porque do outro lado está gente de «etnia árabe». Ele tem as suas prioridades. Sempre criterioso, o nosso doméstico não dorme com Darfur, só a pensar como pode usar a tragédia para defender o muro da Cisjordânia. Sem dúvida, um homem preocupado com os direitos humanos.

Tenho pena que a "ala esquerda" do PS tenha escolhido Manuel Alegre como alternativa a José Sócrates. A escolha de um histórico, em vez de um dirigente ligado a uma nova geração de socialistas, marca uma postura de resistência e não de conquista, de passado e não de alternativa futura.
Escrevi aqui que a oposição a Sócrates perderia. Foi interpretado como uma vontade. Não o é. Pelo contrário. É apenas a constatação do óbvio: Sócrates cheira a poder e isso costuma chegar às bases sedentas de lugares. Mesmo assim, gostava que, perdendo, esta oposição interna deixasse marcas. E a principal seria a de condicionar Sócrates nas suas opções políticas. Por isso, mesmo não me revendo na retórica um pouco serôdia de Manuel Alegre, espero que consiga o melhor resultado possível para os socialistas que querem um PS alinhado à esquerda. Para que o vácuo guterrista não sufoque tudo o que, mesmo que de forma pouco hábil, Ferro Rodrigues foi conseguindo mudar no PS.

150.000 mortos
200.000 refugiados no Chade
1,2 milhões deslocados internos
2,2 milhões de pessoas afectadas pela guerra
O que se pode dizer perante a absoluta barbárie humana?
Bom site com muita informação sempre actualizada sobre a tragédia de Darfur.
Regressei de férias. Não vi um único telejornal e fui lendo, sem grande atenção, o “Público”. De resto, abstinência completa. Chegado, confirmei que me esperava a mais longa silly season da história política portuguesa. Dois anos e meio, para ser exacto.