Ainda não entendi nada, mas estou neste momento a beber uma caipirinha para comemorar.
Santana, entre passado...
Marta: Joana, conheces o Pedro Santana?
Joana: Não, não sei quem é.
Marta: Mas ele conhece-te; é um amigo do Carlos e da Susana. É um rapaz alto, moreno.
Joana: Joga ténis?
Marta: Ténis, acho que não. Mas gosta muito de automobilismo. Tem 20 anos mais ou menos; e tem um carro muito desportivo... vermelho.
Joana: Ah! É o "Bombeiro"!
Marta: Não é nada... Ele trabalha nos CTT. Acho que está a acabar o curso de Engenharia...
Joana: Pois é. É o "Bombeiro"... Mora na minha rua. Anda sempre muito depressa... num carro vermelho... só não tem sirene!
[em Lusofonia: curso de português - língua estrangeira, dirigido pelo professor Malaca Casteleiro, Lisboa, 1989, p. 25]
... e futuro...

A prova da mediocridade deste governo é o facto de ser demitido por causa de Henrique Chaves.
Pese embora o que se passou no congresso do PSD, não há nada a apontar ao CDS-PP. Ou Santana carrega Portas ao colo ou vai tê-lo à perna. Muito legitimamente.
Jorge Sampaio emendou a mão com uma preciosa e metódica ajuda de um governo que conseguiu exceder as piores expectativas. Reconhecer um erro não é incoerência.
«O que provoca instabilidade é o facto de o presidente tomar esta decisão por causa da demissão de um ministro.» Marques Guedes, PSD.
HOJE É DIA PARA FESTEJAR
Vai haver eleições.
Jorge Sampaio vai ouvir os partidos e convocar o Conselho de Estado para, ao que tudo indica, dissolver o Parlamento. Podia ter sido há cinco meses.
Treme-se em Belém. Eu não acredito, mas lá que se treme, treme.
O preso político cubano e escritor Raúl Rivero foi finalmente libertado.
O Ivan bem se esforçou para chamar a atenção para a conferência de Fred Halliday num curso organizado pela Fundação Mário Soares (e a coordenação de João Gomes Cravinho), na semana passada, mas lamentavelmente a afluência de público foi bastante fraca. O que é uma pena. São raros os especialistas categorizados da área das relações internacionais que passam por Lisboa, e então se nos reportarmos a especialistas do Médio Oriente, por exemplo, o panorama é ainda mais desolador. Halliday vinha falar sobre “A guerra do Iraque e a redefinição da parceria euro-atlântica”, mas a sua palestra de cerca de uma hora, proferida num castelhano fluente, acabou por ser mais um comentário à situação política internacional após as últimas eleições norte-americanas. Muitas das suas observações podem, aliás, ser encontradas neste ensaio publicado no site Open Democracy, cuja leitura vivamente recomendo.
Halliday, que no início dos anos 1970 trabalhou como repórter e teve ocasião de entrevistar inúmeros dirigentes de movimentos guerrilheiros (incluindo os das colónias portuguesas) e de organizações terroristas, é um tipo posicionado à esquerda, combinando, como notou o Ivan, uma formação marxista sólida com uma visão muito realista das relações de poder e das dinâmicas internacionais (uma perspectiva até certo ponto partilhada por outro autor que gosto bastante de ler, o também irlandês Perry Anderson). A sua paleta de interesses é muito ampla: vai desde o estudo das revoluções contemporâneas ao Islão político, passando pela teoria das relações internacionais e o nacionalismo no Médio Oriente.
Gostei de o ouvir dissertar de uma forma “não-sentimental” acerca das grandes questões da segurança internacional, ao mesmo tempo que salientava a importância da humildade cultural e dos valores universalistas (democracia, direitos humanos) na busca e construção de soluções políticas. Halliday foi bruto para com a camarilha neo-conservadora que rodeia Bush, mas também não poupou críticas à esquerda “emancipatória”. Exprimiu a sua estupefacção pela persistência do culto de Che Guevara e fartou-se de zurzir na falta de memória histórica do Le Monde Diplomatique. Significativa foi também a sua posição acerca de uma questão em que Mário Soares foi, a meu ver, manifestamente infeliz: o diálogo com os terroristas - ou melhor, com os terroristas que não estão dispostos a renunciar aos seus métodos. “Não se negoceia com gente que nos quer meter uma bala na nuca, não se negoceia com assassinos em massa”, disse Halliday (citado de cor).
Manuel Paiva, físico e director do Laboratório de Física e Biomédica da Universidade Livre de Bruxelas em entrevista ao Público.
Vou passar o próximo mês fora da incubadora. Espero poder continuar a escrever no Barnabé e seguirei atentamente as notícias cá da terra. Receio é não conseguir acreditar nelas.
Rodapé da SIC: «União de Leiria vence - Benfica em queda livre»
«Jorge Sampaio exige consistência a Santana»
Deu na TV que em Timor Leste algumas pessoas julgaram ver a imagem da Virgem lá longe no sopé de um monte. Passados poucos dias eram milhares os que ali se juntavam à noite – e só à noite – em adoração. Só que então se descobriu, e isto o confirmou o próprio pároco, que a imagem da Virgem era apenas o efeito de um holofote iluminando uma árvore.
O povo, mesmo depois do mistério explicado, não descreu. E no dia seguinte já eram de novo milhares em veneração constante junto à árvore, com velas, preces e cânticos. E a minha pergunta é: então e o holofote? Não merece nada?
[Insultos e indignações ali em baixo à direita, onde diz "comentar"]
«Depois não se queixem: Se o poder vier a cair no regaço da esquerda, há muito boa gente no centro e na direita que pode e deve ser chamada a assumir a sua quota de responsabilidade.». [Paulo Pinto Mascarenhas]
Desesperado, o CDS continua a sua rusga em busca dos traidores sem “lealdade orgânica”.
“Com uma notável gestão de silêncio total e absoluto, o primeiro-ministro (PM) fez, na quarta-feira, um acerto governamental importante, que revela um bom senso indiscutível.” Luís Delgado, no dia 26 de Novembro, depois da última remodelação.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
A Tabacaria, Fernando Pessoa
Eles não votaram Bush e pedem desculpas ao Mundo pela escolha dos seus compatriotas.







Este site transformou-se num fenómeno de popularidade nos EUA.
Parece pouco provável que Sampaio dissolva o Parlamento. Por razões incompreensíveis, deverá querer esperar pela próxima asneira, que não tardará muito. A espera até quarta-feira poderá ser apenas um sinal de vida. Mas duas coisas são certas: Sampaio vai-se afundando com este governo, na vida interna do qual se vai envolvendo cada vez mais, e Santana não passará de 2005.
Não tenho nenhuma esperança em que Jorge Sampaio demita, agora, o governo. Os presidentes da república são eleitos para representar politicamente o povo, e é evidente que virtualmente todo o país da esquerda à direita anseia pelo fim deste martírio. Mas o consultor jurídico que temos na Presidência da República não responde ao país mas ao seu super-ego, e não se exprime política mas introspectivamente.
Para demitir o governo Sampaio precisa de razões constitucionais que fossem inatacáveis fora do espaço e do tempo. Teme encontrar-se com o criador e não poder justificar o seu acto. Precisa, sei lá, que o PSD e o CDS aprovem uma moção de censura contra o seu próprio governo. Até esse momento, reagirá como o marido enganado da anedota, que mesmo quando vê a esposa e o melhor amigo no meio dos lençóis insiste em responder: "sabe-se lá, pode haver uma boa explicação para isto".
Foi corrigido um lapso palerma deste texto: onde agora está, correctamente, super-ego, esteve em tempos inadvertidamente alter-ego. Se agora continuar a não se perceber o que quis dizer, então já não é lapso – é defeito de fabricação.
«Tem sido difícil, para quem está na incubadora, ver passar a família e, em vez de acarinhar, haver membros da família que dão uns estalos no bebé». Pedro Santana Lopes
Começa de novo a novela do Presidente que tinha de decidir alguma coisa.
Para continuar o debate sobre o multuculturalismo, aqui vai um excelente texto de Miguel Vale de Almeida, publicado na revista “Manifesto” de Novembro de 2002. Link em baixo.
Estado-Nação e Multiculturalismo
Miguel Vale de Almeida
Um novo senso-comum parece estabelecer-se: uma certa “nova direita”, oriunda da “velha esquerda”, emite, a partir dos lugares de poder que agora ocupa, pareceres negativos sobre as tentativas de democratização das nossas sociedades. Um dos alvos favoritos tem sido o “multiculturalismo”. Mas trata-se de demagogia, pois o parecer negativo é emitido na base da omissão completa dos antecedentes (nacionalistas, racistas, etc.) contra os quais o multiculturalismo foi promovido. Todavia, a esquerda tão-pouco pode subscrever acriticamente chavões (como “multiculturalismo”) sem proceder a uma avaliação dos seus potenciais e limites. É por aqui que pretendo ir, num texto (ironicamente?) escrito no dia da independância de Timor-Leste.
O século XIX europeu – prolongando-se pelo XX – foi o século do surgimento do Estado-Nação tal como o conhecemos hoje. É recente a ideia de que a forma ideal de organização política, social e cultural seja a da correspondência entre um território, o exercício da soberania por um estado, uma língua nacional, e um povo. Sabemos hoje como a criação do Estado-Nação foi feita na base de violências reais e simbólicas, de exclusão do Outro e de invenção do Mesmo.
Sabemos também que esse processo foi contemporâneo, para algumas nações europeias, da construção dos grandes impérios coloniais. O empreendimento colonialista e o nacionalismo dos séculos XIX-XX partilhavam características e participavam da mesma lógica: se cada Estado se definia como o apuramento político de uma suposta civilização étnica e linguisticamente definida, as suas colónias seriam o lugar de confirmação de uma suposta vocação civilizadora, correspondente ao “espírito” ou “génio” supostamente contido no carácter nacional do colonizador. Mas a colónia foi também o lugar da invenção, verificação e aplicação dos conceitos que permitiam legitimar o estado-nação e colocá-lo no topo de uma linha de evolução histórica.
Se, por um lado, o Estado-Nação permitia conceber uma ideia de “comunidade” que elidia as diferenças e desigualdades internas (de género, de classe, de região, etc.), a Colónia, por outro, assegurava a ordem “natural” de uma desigualdade hierárquica, implícita na ideia de que alguns povos ou nações seriam superiores e teriam a obrigação de tutelar os outros, inferiores. Nacionalismo e colonialismo alimentaram-se mutuamente e foi assim que se construíram as comunidades – agora instáveis e contestadas – em que vivemos pelo século XX fora. E que agora se encontram em plena crise.
Nos interstícios dessa organização, havia os grupos que se encontravam em situação de diáspora. Judeus e Arménios, mal ou bem integrados nas sociedades europeias de acolhimento, sentiram, como criaturas do Novecentos, a falta do seu estado-nação. A forma de se legitimarem e de serem legitimados como diferentes dentro das unidades nacionais onde viviam, fez com que as suas terras de origem fossem construídas imaginariamente como os estados-nação perdidos e a reconstruir. A sua alteridade no seio dos estados europeus – ou dos estados americanos feitos à imagem e semelhança do nacionalismo europeu pelas elites locais – não era semelhante à alteridade dos colonizados. Eram, por assim dizer, europeus ou brancos honorários. Ser membro de uma diáspora não era o mesmo que ser e/imigrante hoje, ou colonizado há cinquenta anos atrás.
Por causa do pensamento evolucionista e etnocêntrico, nem sequer todas as diásporas eram (ou são) vistas como iguais. Pensemos como duas outras grandes diásporas não foram, decididamente, consideradas como tal: refiro-me aos ciganos e aos africanos, ambos saídos das suas terras de origem há muito tempo, mas ambos impedidos de acederem ao estatuto diaspórico. Tal aconteceu, no caso dos ciganos, por não terem sido integrados na ordem burguesa do sedentarismo e do exercício corporativo de profissões, tendo-lhes mesmo sido recusado o acesso à nacionalidade em muitos contextos e épocas; no caso dos africanos, por terem sido retirados da sua origem por um processo violento, a escravatura, cuja responsabilidade foi sobretudo europeia. E, no limite, por causa das classificações raciais.
Façamos um parêntese: porque me é simpática, apesar de tudo, a noção de diáspora? Justamente porque ela é contraditória com a ideia de estado-nação. Ela permite, pelo menos teoricamente, considerar como possível a existência de afinidades culturais humanas que transpõem as fronteiras e a organização dos Estados; afinidades essas que se constroem num sistema globalizado, transnacional e intrinsecamente cosmopolita e anti-paroquial. O potencial diaspórico foi, infelizmente, perdido, com a sanha nacionalista e colonial: o sionismo está aí para comprová-lo, assim como a debilidade dos pequenos grupos de judeus que se definem como diaspóricos e não-sionistas.
Regressemos agora às semelhanças – ou à mútua constituição – da coisa colonial e da coisa nacional. A maior semelhança encontra-se no campo das representações sobre a cultura e a sociedade. As noções de “povo”, ”etnia” e “raça” são constituídas nesse universo. As raças serviram para diferenciar entre colonizadores e colonizados; os povos ou nações para diferenciar unidades nacionais supostamente imemoriais no seio da diversidade europeia; e as etnias, para conferir um conceito mais universal que abrangesse as diferenças entre grupos endogâmicos, distinguidos sobretudo pelo critério linguístico – quer fossem europeus, quer extra-europeus.
Ainda pensamos segundo este modelo. Mas este modelo está em crise. Como e porquê? Em primeiro lugar, porque a “coisa” nacional implodiu com o advento do nazi-fascismo e o ponto extremo a que as teorias raciais e nacionais chegaram. Em segundo lugar, porque a coisa “colonial” explodiu após o fim do colonialismo como projecto e instituição. Por fim, os processos nacionalistas de descolonização criaram uma realidade algo mistificada em que, por um lado, as nações colonizadoras europeias ficaram supostamente reduzidas à sua expressão territorial e étnica de origem; e, por outro, as ex-colónias passaram, também mistificadamente, a estados-nação segundo a modalidade europeia. São duas falácias que têm tido consequências terríveis. No caso das ex-colónias, como se sabe, os territórios delimitados a régua e esquadro pelos europeus cortam linhas de diferenciação étnica (muitas das quais, de qualquer modo, haviam sido criadas ou exacerbadas pelas administrações coloniais). No caso europeu, o suposto regresso às fronteiras históricas não foi regresso algum: por um lado porque na época colonial se fazia questão em distinguir muito bem o que era um nacional e o que era um colonizado; por outro, porque as sociedades europeias do pós-guerra vão ver a sua estrutura social consideravelmente alterada pelas correntes de imigração das ex-colónias. O sistema colonial deu lugar a um sistema internacional de que conhecemos os contornos: a criação do subdesenvolvimento segundo a linha divisória entre o primeiro e terceiro mundo, e o surgimento inesperado de sociedades multiculturais na Europa baseadas em desigualdades sociais profundas entre nacionais e imigrantes.
O imigrante é representado, nas sociedades de acolhimento, como alguém que intrinsecamente não lhe pertence. E como alguém que, em vez de ter uma terra de origem que não pode já recuperar (como seria o caso de uma diáspora tradicional), tem uma terra de origem à qual deve retornar mais tarde ou mais cedo – segundo os cânones do pensamento do estado-nação. Do ponto de vista simétrico, o do emigrante, ele constrói a sua identidade como a de alguém que está de passagem no país de acolhimento, mas quer ou deve voltar um dia para o país de origem. Ambos são “vítimas” do mesmo sistema, isto é, ambos pensam em termos de origem e chegada, local legítimo e local ilegítimo. Porque as suas identidades foram ambas historicamente construídas pelos discursos e práticas do nacionalismo e do colonialismo.
Referi acima que este modelo entrou em crise profunda. Alguns teóricos têm denominado essa crise pelo termo pós-colonial. Eu preferiria que se chamasse também pós-nacional. Que traços identificam essa crise? Em primeiro lugar, a desilusão sentida, sobretudo nos países saídos dos processos de descolonização, com as ilusões do crescimento e desenvolvimento modernizadores que não aconteceram; desilusão com a construção de estados-nação que não aconteceram, antes se tranformaram em barris de pólvora de conflitos fratricidas; desilusão com as utopias socialistas de construção de uma ordem igualitária e internacionalista. Em segundo lugar, a desilusão sentida nas nações europeias ex-colonizadoras: o estado-nação deixou de ser o lugar de chegada da acumulação ou o lugar de origem da produção, devido à globalização financeira, à deslocalização dos processos produtivos e à necessidade de fluxos migratórios de mão-de-obra.
Curiosamente – e talvez paradoxalmente - a reacção mais flagrante a estas incomodidades tem sido, ainda, o renascimento do nacionalismo e do modelo do estado-nação. Basta olhar para a Europa pós-queda do muro de Berlim; basta olhar para os processos de desagregação dos estados africanos e outros. Mas este desespero nacionalista é isso mesmo: desespero e já não força impulsionadora e até, por vezes, progressista (como foi no início da unificação da Itália ou dos movimentos anti-coloniais). Ele acontece no momento em que os processos de mundialização se tornaram irreversíveis; em que é difícil colocar entraves ou regulações nacionais à globalização; em que os fluxos de migração são imparáveis e as realidades sócio-culturais por eles criadas ganharam raízes inextricáveis. Em suma: a única forma de dar a volta aos problemas poderá ser através da regulação internacional da globalização (nomeadamente dos negócios financeiros), do desenvolvimento dos países sub-desenvolvidos, e da criação de uma ordem política de cidadania genuinamente multicultural.
O impulso no sentido do multiculturalismo encontra alguns dos seus melhores defensores entre membros das diásporas. Desde logo, entre grupos e estratos muito específicos: aqueles constituídos por pessoas que são, como diria Salman Rushdie, “irremediavelmente traduzidas”: aquelas pessoas ou grupos que vivem em circuitos internacionais, partilhando de duas ou mais culturas, ou que são o resultado de identidades culturais híbridas, produzidas a partir da cultura de origem dos antepassados e da cultura de chegada à qual se sentem pertencer de pleno direito. Esta consciência de identidade múltipla e intersticial é flagrante entre as elites letradas e certos grupos sócio-profissionais em que as pessoas são claramente confrontadas com requisitos culturais diferentes, por vezes contraditórios entre si. Não será por acaso que um discurso sobre a diáspora e as identidades de fronteira, “in-between”, como lhes chama Homi Bhabha, surge no campo dos estudos literários e entre os próprios escritores e intelectuais, sobretudo em dois grandes “grupos”: Anglo-Indianos e Anglo-Afro-Caribenhos vivendo em sociedades cosmopolitas e pós-imperiais como Londres.
Mas se um conceito como diáspora surge agora sem ser em referência às diásporas históricas de judeus e arménios, o que é que ele substitui, a que é que se opõe, ou de que é que se diferencia? Conseguimos encontrar dois termos com equivalente valor de circulação no mundo contemporâneo: imigrantes/emigrantes e minorias étnicas. A razão por que “migrante” não é a palavra querida dos actuais discursos sobre as realidades transculturais, é que ela está marcada pelo factor sócio-económico e de classe. No senso comum, e não só, o migrante é aquele que sai do seu país por aí não encontrar condições de subsistência e se dirige a outro país onde as encontra. Ele não é visto como expatriado ou exilado cultural.
No país de origem ele é visto de duas maneiras, consoante o lugar ocupado na escala social pelo observador: pelos seus pares é visto como alguém que conseguiu transcender as adversidades, sendo as suas remessas monetárias apreciadas e o seu regresso admirado no que tem de manifestação de ascensão social; pelos seus ascendentes sociais é visto como um desaculturado ou um “novo rico” que, no país de acolhimento, transmite uma imagem “errada” (porque popular e subalterna) da cultura nacional definida pelas elites e, no regresso, se apresenta como novo rico ou híbrido no sentido derrogatório da palavra. No país de acolhimento, ele é simultaneamente a mão-de-obra necessária para as tarefas desprestigiantes, e o Outro por excelência, que não consegue integrar-se, que transporta consigo hábitos “bárbaros”, que é um perigo potencial para a ordem social e, em última instância, o alvo da xenofobia, o bode expiatório das tensões sociais. Retenhamos isto: a categoria migrante está marcada simultaneamente pela subalternidade e pela ameaça da desordem.
Esta interpretação pretende tornar mais complexa a análise, deslocando-a do mero campo da diferença nacional e étnica, para o campo da desigualdade económica e de classe. Mas falta uma dimensão analítica importante: o tempo. O migrante do meu exemplo é o migrante que, no seu tempo de vida individual, sai da origem para o país de acolhimento e regressa ao país de origem, cumprindo a sua função na economia internacional. Que acontece, todavia, se ele ficar no país de acolhimento? Que acontece se ele tiver filhos no país de acolhimento e estes ficarem, e assim sucessivamente? Temos, então, a terceira categoria com que temos que lidar aqui – a de minoria étnica.
É certo que há minorias étnicas que nada têm a ver com as migrações. Precisamente porque o estado-nação a que antes me referia se construiu a ferro e fogo, nunca conseguiu estabelecer com perfeição a pureza etnolinguística, guardando dentro de si bolsas de diferença que, por inspiração no próprio modelo hegemónico do estado-nação, se cristalizaram e radicalizaram como identidades minoritárias (basta pensarmos nos casos Catalão e Basco no Estado Espanhol). Mas as minorias étnicas a que me refiro têm, por causa do factor tempo, uma característica que as torna mais frágeis: o período da sua chegada é conhecido e recente (pós-colonial), assim como as razões por que chegaram também (subalternidade sócio-económica), as actividades em que se engajaram (as mais desprestigiadas), os espaços que ocuparam (as margens). Mas talvez o marcador mais flagrante da minoria étnica seja, hoje, a raça, subsumindo cultura, língua e/ou religião.
Esse terrível conceito é o filho dilecto do colonialismo. Aquilo a que se assiste hoje, sobretudo na Europa, é ao regresso das características excludentes e naturalizantes do racismo, mas com uma alteração de designação devida ao opróbio a que a expressão “raça” foi votada no pós-guerra. Agora usa-se “etnia” e mesmo “cultura” para os mesmos fins. As situações coloniais – e, hoje, as situações pós-coloniais nas ex-metrópoles – são espaços e tempos em que populações diferenciadas por segmentações de desigualdade convivem lado a lado. Nada de novo, até certo ponto, pois qualquer sociedade é segmentada por diferenças e desigualdades. Mas algo de novo, porém: trata-se de novas segmentações, caracterizáveis por “novos” critérios: a mistura entre os critérios da diferença étnica e “racial” e os critérios da desigualdade económica e social. Se um patrão e um operário tinham já estabelecido um “protocolo” para conflitos e negociações, um nacional e um estrangeiro estão ainda a construi-los – e o único “protocolo” a que podem recorrer, já estabelecido, é o herdado da relação colonial. Se a situação colonial, pela sua natureza de ocupação, estabelecia as regras da separação – implícitas ou explícitas e num largo espectro, desde a retórica multiracial do colonialismo tardio português até ao apartheid sul-africano – a situação pós-colonial nas urbes industrializadas modernas não o consegue fazer. Aceita ou o gueto ou a assimilação plena. Não aceita o meio termo ou a transcendência daquela dicotomia. Aceita a aculturação ou o separatismo. E isto tanto da parte das populações e instituições dos países de acolhimento, quanto da parte dos membros das minorias étnicas. O que não parece ser aceite é a transculturação, a condição “traduzida”, cosmopolita, “in-between”. Infelizmente.
A “contaminação” – o fim dos puros, o nascimento dos híbridos - dá-se em dois sentidos. Num deles, produtos culturais do imigrante/minoria étnica/diásporas contaminam a sociedade de acolhimento: comida, música, dança, estão na linha da frente, e não por acaso, pois entram pela porta do corpo e dos sentidos, não pela da racionalidade e da ordem social. No outro, as instituições e leis da sociedade de acolhimento contaminam os grupos chegados de fora. Este último sentido é, obviamente (mas ao contrário do que o pensamento xenófobo crê) mais forte e complexo: vai da repressão policial até à cultura dos direitos humanos e de cidadania; vai da exploração no trabalho, até aos benefícios de segurança social; vai dos discursos racistas até à exposição ao pensamento crítico (quantos movimentos anticoloniais não foram gerados nas metrópoles, por coloniais que frequentavam as universidades ocidentais?).
Mas este quadro tem que ser tornado mais complexo se não queremos subscrever uma teoria da cultura que vê esta como uma coisa estanque, propriedade de um grupo discreto. É que os grupos de migrantes/minorias/diásporas são socialmente diversificados, assim como as sociedades de acolhimento. Isto por um lado. E as realidades culturais nas sociedades urbanas de hoje não são diádicas, isto é, compostas por hóspedes e anfitriões, mas sim por vários tipos de hóspedes (e vários tipos de anfitriões...) e por populações das mais variadas origens que pela primeira vez se encontram.
Em relação ao primeiro aspecto: um determinado grupo étnico numa grande cidade europeia, por exemplo, é, desde logo, constituído por homens e mulheres, portanto por relações desiguais de género; é constituído por migrantes económicos e por diaspóricos, isto é, pelos migrantes culturais a que me referi (quadros, intelectuais, refugiados políticos, etc), portanto por relações sociais de classe e estatuto desiguais; por fim, é constituído por grupos etários diferentes, correspondendo neste caso a períodos de chegada diversos, portanto por relações geracionais desiguais. Quanto ao segundo aspecto, entramos numa das áreas mais discutíveis: a que estipula que a sociedade ocidental é simultaneamente a inventora do racismo científico e do Holocausto, por um lado, e da ideia de direitos humanos universais e de cidadania, por outro. Sendo assim, o lugar de imigração, é o lugar por excelência da exploração da mão-de-obra imigrante e o lugar por excelência da obtenção da cidadania. São, aliás, estas contradições do Ocidente que permitem aceitar – ao contrário do que o relativismo moral diz – a universalidade de aspectos como os Direitos Humanos e a sua apropriação/reivindicação pelas comunidades imigrantes – no país de acolhimento e em “casa” .
Dos encontros e desencontros resultou uma realidade irreversível: a de que o estado-nação puro falhou e que alguma forma de multiculturalismo veio para ficar. O primeiro modelo é o da resistência/ressurgimento do estado nação, ou nacionalista, em toda a sua pureza. Assemelha-se a um fundamentalismo: procura no presente actualizar um passado que nunca existiu, como reacção a um presente que se apresenta irremediavelmente Outro. O modelo prescreve a unicidade linguística e religiosa, a distinção entre nacionais e estrangeiros com base no direito de sangue, a imigração temporária com visto de trabalho caducável mas sem possibilidade de residência, reagrupamento familiar ou exercício de cidadania.
O segundo modelo é o do que poderíamos chamar multiculturalismo essencialista. Na realidade corresponde a uma variedade de sub-modelos: o da distinção entre nacionais e estrangeiros desfasada por gerações, como quando se aplica o direito de solo para dar nacionalidade a uma criança nascida no país de acolhimento; o da acentuação da diferença cultural mas em coexistência cidadã, como na Holanda, em que apesar do usufruto da cidadania, o Estado promove a identidade cultural específica dos grupos estrangeiros, marcando assim perversamente uma diferença constitutiva das identidades pessoais e grupais; ou o da acentuação da cidadania nacional integradora e assimilacionista, pressupondo o multiculturalismo como transitório.
O terceiro modelo é o que está para vir: o do multiculturalismo pleno, ou, como eu preferiria chamar-lhe, da cidadania cosmopolita, em que “multiculturalismo” já nem seria uma expressão necessária.
O multiculturalismo é um conceito complicado devido à sua ambiguidade política e à manipulação retórica a que se presta. Não precisamos de ir muito longe: ele pode ser mero recurso retórico, como o foi no período final do colonialismo português; ou pode ser justificativo de formas de exclusão: o apartheid baseava-se em grande medida na teorização de uma diferença cultural irredutível e na defesa dessas diferenças (o que é no mínimo irónico: ouvir falar do direito à diferença como um dever e como a base para a desigualdade...). O problema, claro está, reside no conceito de cultura que é utilizado nestes sistemas, e que é o conceito ainda hoje vigente no senso comum e o mesmo que esteve na base da criação dos projectos coloniais e de estados-nação: a cultura como conjunto de atributos essencializados (como se naturais, sem consideração do processo histórico, da interculturalidade e das diversidade interna de qualquer grupo) de um população específica, com uma geografia delimitável. Em suma, a cultura como uma coisa. Ora, se esta concepção objectificadora de cultura serve, sobretudo, para excluir e impedir a contaminação, ela serve também para os excluídos se autoconstituirem como grupos e reivindicarem direitos graças à aceitação desse conceito por parte de quem os exclui. Por isso as identidades étnicas e raciais e, no extremo, os nacionalismos e os fundamentalismos, são estratégicos: em certas conjunturas são mesmo a única forma de se reagir e negociar.
Um dos resultados desta realidade de objectificação da cultura é a sua mercadorização. Nos contextos ditos pluriétnicos, o multiculturalismo não é mais do que o estabelecimento de um supermercado de culturas, competindo a cada uma o provimento de uma determinada mercadoria: música africana, comida chinesa, espiritualismo oriental, cultura pop americana, etc. Os próprios membros dos grupos minoritários marginalizados recorrem, naturalmente, à mercadorização como forma de construção de identidade e de ocupação de nichos na sociedade “multicultural”. Quando desistem da reprodução dessas expectativas, deixam de ser vistos como membros da cultura x e passam a ser vistos como aculturados ou – com a passagem das gerações – como membros da cultura y.
Existe alternativa a este binómio separação / aculturação? Eu creio que sim, mas para tal é necessário sair da análise social e entrar na política. Creio que existem projectos possíveis com base no que de bom temos, e existem indícios do que as coisas podem vir a ser. Quanto aos primeiros: em primeiro lugar a cidadania individualizada. Em segundo lugar o relativismo cultural. Em terceiro lugar a diversidade como valor. Quanto aos segundos: as figuras irremediavelmente traduzidas e os seus produtos culturais – as crioulidades. Para que tal projecto seja possível e tais indícios sejam multiplicados, é preciso ser muito crítico de algumas verdades feitas e prosseguir algumas velhas lutas. As verdades feitas são a noção de cultura como coisa e essência herdada do estado-nação e do colonialismo; a confusão entre relativismo cultural e relativismo ético; e a ideia de unicidade cultural ou da cultura como descritor autónomo, isto é, há que reconhecer e trabalhar as clivagens de género, geração e classe dentro de uma qualquer categoria descritiva. As velhas lutas a prosseguir são as que têm a ver com o desenvolvimento sustentado, a introdução de mecanismos de justiça e redistribuição na economia globalizada, e a pedagogia anti-racista. A isto deveríamos acrescentar novas lutas: as que têm a ver com a desigualdade e as relações de classe não podem mais passar pela divisão entre nacionais e imigrantes (como é corrente acontecer no sindicalismo), ou entre nacionais e estrangeiros nas relações de género (como se liga a condição feminina da imigrante à da nacional?) e destes níveis entre si.
O projecto de cidadania cosmopolita será trabalho das gerações que aí vêm. Mas, obviamente, só poderá sê-lo por parte dos sectores mais desprivilegiados das imigrações / minorias / diásporas se, primeiro ou em simultâneo, os seus direitos básicos forem garantidos: direitos de trabalho, acesso ao estado-providência, e direitos cívicos, na base de uma premissa simples: quem trabalha e habita num determinado território é membro de pleno direito da comunidade – cortando assim as amarras perversas ao velho estado-nação e à experiência colonial.
Se Sampaio não acaba com este circo, é ele próprio que cai no ridículo.
O ministro da Juventude e Desporto esteve 3 dias no cargo.
Para retomar um debate que já aqui tivemos:
Francisco Louçã – Estamos apostados em discutir uma política para a cidade e em derrotar o Governo de alto a baixo nas próximas eleições. Apresentaremos candidaturas com esse objectivo e acreditamos que é possível vencer o Governo em Lisboa, Porto, Coimbra, Sintra e outras e fazer disso a primeira eleição em que os portugueses têm o direito a votar contra este Governo. Lisboa tem uma situação particular, mas há outro lugar onde uma aproximação das forças de esquerda é indispensável: o Funchal. Uma grande aproximação das forças de esquerda permitiria vencer, pela primeira vez, Alberto João Jardim. Já o propusemos nas anteriores eleições, mas o PS preferiu coligar-se com o PP. Mas o que registamos é que, até agora, em Lisboa há um lavar de roupa suja entre o PS e o PC a propósito da coligação. Têm que acertar as contas previamente. Caso contrário, qualquer debate futuro fica contaminado por quezílias e mercearia de lugares e nós não aceitamos ser parte desse jogo.
DN – Nas legislativas, se o PS precisar do BE para formar governo, estariam dispostos a passar a essa fase?
FL - Esse tema vai ser discutido na próxima convenção do Bloco, em Março. Nas legislativas vão discutir-se projectos de governação do País e o BE deve apresentar o seu próprio projecto. Nas questões estratégicas centrais - serviços públicos (na educação e na saúde), política europeia, combate ao desemprego, compromisso de revogação das leis antipopulares, o BE deve apresentar as suas propostas, diferentes das do PS. Só deveremos assumir responsabilidades de Governo se as nossas propostas tiverem o apoio suficiente da população.»
«O ministro da Juventude, Desporto e Reabilitação, Henrique Chaves, demitiu-se hoje do Governo acusando o primeiro-ministro, Santana Lopes, de falta "de lealdade e de verdade".
O pedido de demissão foi entregue cerca das 15:00, na residência oficial do primeiro-ministro, disse à Lusa fonte próxima do ministro.
Em Vila Real, Santana Lopes, confrontado pelos jornalistas com a demissão limitou-se a referir: "não vou fazer nenhum comentário".
Henrique Chaves tomou posse em Julho como ministro Adjunto com o XVI Governo Constitucional, liderado por Pedro Santana Lopes, tendo sido afastado do cargo na quarta-feira, numa mini-remodelação governamental em que passou a assumir a pasta da Juventude, Desporto e Reabilitação, áreas que já tutelava.
"Convidado para Ministro Adjunto, nunca me foi dada oportunidade de exercer qualquer função ao nível da coordenação do Governo, própria das funções inerentes a esta pasta", pode ler-se no comunicado entregue hoje na redacção da Agência Lusa.
O ministro demissionário acrescenta, ainda, que "estando as principais funções de Ministro Adjunto exclusivamente dependentes do Primeiro Ministro, só a este cabe a responsabilidade de conceder, ou não, as condições para o exercício desse cargo", o que, no seu caso, "nunca aconteceu".
Henrique Chaves, que não pretende de momento prestar mais declarações, responsabilizou, no referido comunicado, o primeiro- ministro pela sua demissão, acusando-o de "grave inversão dos valores da lealdade e verdade" e revelou já ter tido intenções de se demitir na altura da remodelação (quarta-feira).
No entanto, afirma ter cedido aos pedidos feitos em nome da "índole patriótica" e da "instabilidade interpretável como irregular funcionamento das instituições", bem como ter tido a garantia de que "a remodelação resultaria de uma pressão de véspera, alegadamente por quem, para tanto, tem poder institucional".
No comunicado, Henrique Chaves alega "dois factos novos" que levaram à decisão de se demitir: "em primeiro lugar, tenho hoje a certeza que o cenário que me foi apresentado como sendo de véspera à noite (Ó) fora, afinal, delineado semanas antes (…). Em segundo lugar, um dia depois, foi-me comunicada a intenção, de se proceder à demissão de um outro ministro".
"Os dois factos referidos consubstanciam, para mim, o primeiro a constatação de que me faltaram à verdade, de uma forma muito grave, que não posso tolerar e com a qual não posso conviver, e o segundo, não só isso, mas também que, afinal, a saída de qualquer ministro não acarretaria, como consequência necessária, no contexto das pressões institucionais havidas, o irregular funcionamento das instituições", lê-se, ainda, no comunicado.» LUSA
Retiras as consequências ideológicas depois, ouviste? Primeiro vais pedir aos senhores para ao menos nos voltarem a ligar o telefone.
Li primeiro no Gávea e depois no Causa Nossa: os governos dos países da CPLP facilitaram o processo para que o acordo ortográfico aprovado em 1990 entre finalmente em vigor. Eu sou a favor: o acordo é fundamental para uma política internacional da língua, que é algo de que o Português precisa com urgência. Vai facilitar políticas de edição e de leitura, vai facilitar o ensino do Português no estrangeiro, vai facilitar o seu uso em organismos internacionais.
Face a isto, há quem tema a "descaracterização" da língua portuguesa, sobretudo no país que a exportou, Portugal. Mas o acordo é minimalista. Uniformiza a língua onde tal é possível: na ortografia das palavras que se pronunciam de forma semelhante nos vários países (em "atualizar", por exemplo, ou em "ótimo"; mas já não em "facto"). As restantes diferenças entre os Portugueses falados e escritos nos vários países — na pronúncia, no léxico, na sintaxe — não desaparecem (nem podem desaparecer por decreto). Para o Português escrito em Portugal e nos outros países que não o Brasil, a entrada em vigor da nova grafia significa perder-se um pouco na etimologia de certas palavras. Mas a "descaracterização" etimológica já aconteceu à nossa língua uma série de vezes no passado. A tensão entre etimologia e fonética faz parte da evolução da língua e, em certos momentos, a atualização fonética, em resultado da evolução da língua falada, é necessária para que a língua não fossilize. Para o bem e para o mal (muito mais para o bem do que para o mal), o Brasil é a vanguarda da língua portuguesa e nós só temos que ir com ele. É uma grande companhia. Por isso, tu, desgoverno de Portugal, faz-me ao menos esta boa ação: atualiza-me essa grafia que isso vai ter ótimos resultados dialéticos.
«Sou a grande cabeça do futebol na Europa». José Mourinho ao Expresso.
Está provado: o ridículo não mata.
«Menezes diz que Durão o maltratou de forma doentia.», título do Expresso.
O PCP actual não é o Museu da historia. É o Museu do Comunismo. Hoje, no PCP, dizem-se e escrevem-se coisas que há 10 anos não se diziam nem se escreviam. A seita defende-se fazendo de si própria uma caricatura.
A solução para a Europa não é o multiculturalismo, uma espécie de supermercado de culturas, onde nada se toca. É uma cidadania cosmopolita. A resposta à falência do multuculturalismo não é o isolamento, é a transculturalidade. Não se trata de integrar o imigrante, mas de construir culturas migrantes, que se encontram a meio caminho, entre o lugar de onde vieram e aquele onde chegam, entre o lugar em que estamos e o lugar de onde vêm os que recebemos. O que falhou não foi a tolerância, porque o multiculturalismo é apenas uma forma civilizada de intolerância. Defender que a resposta é afastar o Mundo das nossas fronteiras ou colonizar a cabeça do outro é só uma fuga em frente. Venha a confusão de culturas, que faça de todos nós mestiços. Mas a pergunta que resta é esta: estarão os europeus mais disponíveis do que os muçulmanos ou os hindus para baixar a guarda da defesa da fortaleza ameaçada? Não me parece.
Escrevi ontem no "Publico" e já tinha escrito aqui que sentia que havia a tentação, com o argumento de não deixar o caminho livre à extrema-direita, de legitimar o seu discurso e a sua agenda. Vale a pena ler este texto de Helena Matos. Está lá tudo. O populismo sobre a insegurança e a criminalidade, a mistura do assunto com um suposto "confronto de civilizações". E tudo com o argumento de que não se pode deixar este discurso a Le Pen. Para quem julgava que a melhor forma de combater Le Pen era combater a sua estratégia baseada no medo, Helena Matos dá a resposta: é seguir o mesmo caminho, dando-lhe respeitabilidade.
Sondagem da Universidade Católica/Público/RTP:PS: 46%; PSD: 35%; CDU: 7%; BE: 6%; CDS: 3%.
Porque é que eu sei que o próximo Comité Central do PCP vai eleger Jerónimo de Sousa secretário-geral, apesar do próximo Comité Central do PCP ainda não ter sido eleito? Porque os dirigentes do PCP informaram a comunicação social de um resultado de uma eleição que ainda não houve.
3/4 dos pensionistas e todos os trabalhadores que recebem o Salário Mínimo Nacional vão ter um aumento muito próximo da inflação prevista pelo Banco de Portugal.
Morreu Fernando Valle
Comentários de alguns “populares” na Boa Hora:
"Era capá-los a todos e não violavam mais ninguém", popular, em frente ao Tribunal da Boa Hora, que depois diz para os outros: "Já apareci na TV".
"Isto era entregá-los ao povo, isso sim!", popular
"Pena Máxima", cartaz do PNR
"Badalhoco!” popular para Carlos Cruz
“A mim não me enganas tu. Seu porco!", mulher para Carlos Cruz
“Paneleiro!!!” –grito de populares para uma das viaturas que transportava os arguidos
“Agora vão para Monsanto”, diz um popular. Resposta: “É muito longe para mim”
Confirmo o boato que saiu na imprensa. Vendi-me, definitivamente, ao grande capital mediático. Peço desculpa aos leitores pela minha fraqueza. A revolução proletária vai ter de esperar.
Parece-me bem a passagem do julgamento da Casa Pia da Boa Hora para Monsanto. Sempre dá para, quando a "gente anónima" vai ver "os pedófilos", fazer um piquenique e levar a família.
Chegou finalmente o livro, em capa menos alaranjada do que a imagem ali em baixo pode fazer supôr. O Scanner do Daniel conspira contra nós. Releio algumas partes: a guerra do Iraque, a questão do aborto, o governo português, Cuba, a Coreia do Norte, a Casa Pia, o bestiário nacional. A coisa está mais actualizada do que se pensa. Infelizmente.
No acórdão, proferido no passado dia 10, os juízes deste tribunal superior referem que "não terão sido alheias" ao crime "as condutas anteriores da vítima, designadamente os levantamentos bancários deixando as contas do casal a zero, a ponto de o arguido ficar sem dinheiro para pagar o [um] almoço e talvez isso [tenha sido] o detonador da raiva que conduziu ao homicídio". Entre as restantes condutas, conta-se que "deixou algumas vezes esturricar a comida que confeccionava; chegou a sair e a chegar a casa de noite; ia tomar café a um estabelecimento de cafetaria e não deu conhecimento ao arguido de uma deslocação; chegou a mostrar a barriga quando se encontrava junto de pessoas amigas e se falava da condição física de cada uma delas". (…)
Os juízes desvalorizam os maus tratos (insultos, murros, estalos e pontapés) infligidos pelo arguido à mulher e dados como provado em duas situações. Num dos casos, as feridas e os hematomas deram lugar a um período de doença de seis dias. "À parte as desavenças conjugais (onde, por regra, não existe apenas um culpado) que conduziram à criminalidade em apreço, o arguido mostra-se socialmente inserido", sustentam.»
O Barnabé saiu em livro. O lançamento está marcado para dia 7 de Dezembro. Mas já se pode encontrar em muitas livrarias. São os melhores posts escritos entre de 10 de Setembro de 2003 (quando o Barnabé nasceu) e 10 de Setembro de 2004. Editado pela Oficina do Livro. Daremos mais notícias.
És "gente anónima"? És um "popular"? Estás livre hoje à tarde?
Então, vai à Boa Hora ver os arguidos da Casa Pia.
Na rua, o julgamento da Casa Pia já foi feito. Todos culpados! Os arguidos e os que não são arguidos. Os poderosos! E se não forem condenados, é porque são poderosos. Basta ouvir as conversas na rua, nos fóruns das televisões e das rádios. A presunção de inocência é das coisas mais difíceis de garantir na justiça. E, no entanto, é o que distingue a justiça do linchamento. E é nestes casos, exactamente nestes, nos mais emotivos, que se tem de insistir.
Começou o julgamento do caso Casa Pia. Acabou-se qualquer outro debate.

Nos próximos dias deve chegar às livrarias o livro do Barnabé, que saciará (por enquanto) a nossa sede infrene de exibicionismo. O livro é bonito, estamos muito babados com ele e esperemos que venda bem.
Neste momento, nem sequer preciso de ir ver as caixas de comentários para ver que há quem nos pergunte se não estaremos nós a vender-nos ao capitalismo. Quero deixar os leitores descansados. Pela minha parte, todos os lucros reverterão para uma instituição de caridade, a ANACORUTA - Associação Nacional de Cobradores do Rui Tavares.
No outro dia ia eu a cruzar a rua, numa passadeira, e quase sou atropelado por uma furgoneta a alta velocidade. Quando me virei, instintivamente, para gritar com o condutor, reparo que o veículo vinha pintado com os símbolos da Santa Casa. Calei-me e pensei para mim: “deve ser exactamente isto aquilo a que se chama um golpe de Misericórdia”.
Madalena d’Orey Lorena, uma velha amiga, hesita entre o seu antigo conservadorismo e o neo-conservadorismo. Por um lado, agrada-lhe o apego estético às suas raízes aristocráticas. Por outro lado, insistiu ao casar em adoptar o nome do seu marido Manel Jaquim Silva, por acreditar que a sociedade actual precisa de sinais que reforcem a moral familiar que o nihilismo relativista insiste em atacar. E, apesar da reacção consternada dos seus avoengos, Madalena d’Orey Lorena levou a sua avante e mudou de nome.
Ainda não me consegui habituar a ligar-lhe para o emprego e pedir para falar com a Manel Jaquim d’Orey Lorena.
A Ucrânia "é um Estado de Direito e não precisa de lições". Vladimir Putin
Entalados entre os interesses ocidentais e os delírios imperiais do senhor Putin, o frágil gigante ucraniano vive um dos momentos mais perigosos da sua independência. A vitória de Victor Ianukovitch cheira a fraude por todo o lado. Iuschenko parecia ser um pouco melhor. Não por ser pró-Ocidental. Apenas por estar mais distante do Czar da Rússia. E, já agora, porque, parece visto de longe, que ganhou as eleições. Digamos que está longe de ser um pormenor. Mas, por aqueles lados, na política, não há homens limpos.
Na Ucrânia, a Europa confronta-se com o que encontra na Rússia, na Bielorrúsia, na Roménia, na Bulgária e em muitos dos países de Leste: o princípio do capitalismo é sempre um acto de pirataria e homens como Putin e o ex-presidente ucraniano Leonid Kuchma, vindos directamente da numenclatura corrupta do comunismo, dirigem a pilhagem. E esta é uma lição antiga: é a democracia que modera o mercado, não é o mercado que constrói a democracia.
Entre a ditadura comunista corrupta e o autoritarismo do capitalismo corrupto, os povos do Leste Europeu vivem o pior dos desesperos: não têm nada de que ter saudades, não têm nada para ter esperança.
Depois do recuo do PSD, os partidos começam a preparar as perguntas alternativas para o referendo à Constituição Europeia:
PS – Concorda com o tratado da Constituição Europeia, incluindo as alterações que são introduzidas do ponto de vista institucional, para uma construção mais realista e equilibrada da União Europeia, com a regra da maioria qualificada que, não retirando poderes essenciais aos Estados Membros, garante a governabilidade da União e a entrada de mais fundos estruturais para mais auto-estradas e cursos de formação, fundamentais para o desenvolvimento equilibrando e sustentado do País, tendo como base o desígnio nacional que é, e só pode ser, o da aposta na educação e na formação de quadros capazes de garantir o choque tecnológico de que o País tanto carece para...?
PSD – Concorda com a União Europeia?
PCP – Tem uma inclinação consensualizada para destruição das forças produtivas nacionais, da soberania e independência nacional, das pescas nacionais, do campesinato nacional, dos pequenos e médios comerciantes nacionais e da generalidade das classes trabalhadores nacionais? Se tem, levante o braço.
BE – Concorda com o golpe constitucional levado a cabo pelo eixo franco-alemão que, numa postura seguidista em relação ao processo de globalização armada do Império com sede em Washington, adia a construção de uma Europa que pugne por uma outra? Globalização, claro? Alterglobalização, melhor dizendo?
CDS – Concorda com um documento aprovado na UE, sem qualquer relevância e que não põe em causa a posição que a direita e o centro-direita patrióticos tinham, quer dizer, tiveram, ou melhor, ainda têm, sobre a soberania do Estado Português e o futuro da lavoura?
PND – Concorda com a posição de Paulo Portas sobre a União Europeia?
O Governo propôs à Conferência de Lideres da Assembleia da República que a pergunta sobre a Constituição Europeia, que fez aprovar no Parlamento há uma semana e que já enviou para aprovação de Sampaio, fosse alterada. Sim, leram bem: o PSD e o CDS querem mudar a pergunta que achavam óptima há uma semana. Os deputados da maioria aprovaram uma pergunta, sem discussão nem problemas, porque o Governo disse que sim e agora é o próprio governo concluiu que a pergunta era idiota. Mas agora não pode ser mudada. Sampaio vai ter de a chumbar para tudo começar de novo. Se este Governo não existisse…
Tudo o que eu teria para dizer sobre o que está a acontecer ao PCP disse-o Luís Rainha. Quem toma agora conta do PCP é quem nunca o poderia ter feito num tempo em que gente de qualidade, que conhecia da política e do País mais do que as paredes da Soeiro Pereira Gomes, ainda tinha algum peso no Partido Comunista. Não consegue debater quem sabe que só convence falando sozinho. Como bem escreve Luís Rainha, quem agora manda no PCP é quem «prefere por certo mandar em quase nada do que nada mandar».
A população de Canas de Senhorim quer ficar com o seu urânio.
Rui Gomes da Silva dividia o escritório com José Braga Gonçalves.
O PCP propôs que fosse suspensa a aplicação da lei do aborto até 2006. Do ponto de vista jurídico, trata-se de uma aberração. Do ponto de vista político, um erro. Um erro, porque dá a quem não quer mudar esta lei a possibilidade de eternizar esta situação. Porque, criando um vazio legal, impede a existência ou de clínicas privadas ou de estabelecimentos públicos que garantam a IVG em segurança. A solução apresentada pelo PCP é a pior possível: porque o facto da lei não ser aplicada não impede a clandestinidade. É apenas a tábua de salvação para o PSD, que assim lava as mãos de uma decisão. Bem português.
Almerindo Marques, presidente do Conselho de Administração da RTP., diz que o concurso para o correspondente de Madrid não poderia ser como Rodrigues dos Santos queria porque um quadro importante da empresa que está “algures” se demitiria e que isso seria "um sarilho". Ou seja, há um quadro da empresa, que não é o presidente do Conselho de Administração, que tem mais poder na escolha de correspondentes do que o próprio director de informação e que se as coisas não forem como ele quer é um sarilho.
A RTP continua a ser uma caixinha de surpresas. Mas o estilo de Almerindo, perante uma comissão parlamentar, é que me deixa maravilhado: há um certo, colocado algures, que se demitiria se escolhêssemos não sei quem. Ricardo Araújo Pereira: desiste! Nunca estarás à altura deste país. Falas, falas, falas...
Estou a ouvir José Rodrigues dos Santos no Parlamento. Uma coisa é clara: a Administração da RTP preferiu manter a decisão de escolher para correspondente em Madrid a 4ª colocada num concurso interno a manter a direcção de informação da RTP.
Das duas uma: ou para Administração era fundamental a escolha de Rosa Veloso para correspondente de Madrid ou a Administração queria que Rodrigues dos Santos se demitisse. Se é a primeira, porquê? O que tem Rosa Veloso de tão importante para a Administração? Se é a segunda, porquê? O que tem Rodrigues dos Santos que incomoda tanto a Administração da RTP. Se é a primeira, quem quis que fosse Rosa Veloso a escolhida? Se é a segunda, quem quis que Rodrigues dos Santos fosse borda fora, depois de uma notícia do "Expresso" dar sinais de que o Governo estava a apontar a porta de saída ao director de informação?
No Iraque, o Ocidente repete uma história de 500 anos: onde chega, tudo destrói, fazendo tábua rasa da história dos outros. E, como de costume, os outros é que são os bárbaros.

Com o computador temporariamente fora de combate, escrevo postas a partir da casa de amigos, aos bochechos. Escapou uma efeméride que me impressionou durante anos, e que se calhar ainda impressiona, a morte de Tolstoi (foi no sábado dia 20). Tolstoi tinha oitenta e dois anos em 1910 e ainda andava a cavalo até cansar, não só ele mesmo, mas os bichos também. Percorria as divisões da sua casa em Iasnaia Poliana e irritava-se com as questíunculas entre a sua mulher, os seus filhos e o seu secretário, que imaginava ser o grande defensor da sua obra e pensamento. Os admiradores também conseguiam ser cansativos. Dois americanos, por exemplo, combinaram dar uma volta ao mundo, cada um num sentido diferente, e encontrar-se na casa de Tolstoi. Como é evidente, não lhe disseram nada. E como é evidente, ficaram por lá uns meses. Como não estava para aturar aquilo, fugiu.
Quando eu era adolescente e como todos os adolescentes sonhava com a independência, esta história de um velhote de oitenta e dois anos que fugiu de casa para não aturar a família impressionava-me e impunha-me um certo respeito. Claro que Tolstoi só houve um. Mas chato, chato, era pensar que o homem morreu uma semana depois, a tiritar de frio, na estação de caminhos-de-ferro de Apostovo. O chefe da estação deitou o velho vagabundo na sua própria cama sem saber que se tratava do maior escritor russo, um quase santo. E eu fechado numa sala em frente à folha de exame da minha PGA, esforçava-me para arranjar uma maneira de lá meter esta história (tinha prometido a mim mesmo) e, depois, regressado a casa, continuar a encarar a vida doméstica. Ao passo que alguns colegas da escola de vez em quando pegavam na mochila e saíam de casa do pais, eu conformava-me com a ideia de que ainda não tinha ganho o direito de morrer com uma broncopneumonia na estação, sei lá, do Entroncamento.
Pedro Santana Lopes disse este fim-de-semana que quer vender a parte do Estado na PT para tirar o governo da comunicação social. Ou seja, à boleia de uma polémica de que Santana é responsável, o Estado deixa de ter qualquer poder sobre a rede fixa de telefones. Santana tinha outra solução e há muito que alguém a devia ter aplicado: tirar a PT da comunicação social, onde tem uma posição dominante inaceitável, seja a PT do Estado ou privada. Mas isso, claro, exigia coragem e capacidade de afrontar interesses privados. Alguém espera tanto deste governo?
O Causa Nossa comemora hoje um ano. O Barnabé envia-lhe muitos e redobrados parabéns pela data e pela qualidade dos posts. Ao longo deste ano, o Causa Nossa teve de lutar contra o peso dos seus próprios nomes. Conseguiu-o plenamente: a causa agora também é nossa e de muitos outros leitores.
Projecto "Bíblia Manuscrita": Santana vai copiar o último versículo do Apocalipse.
Nota: Afinal os organizadores subverteram a ordem divina da Bíblia e deram a Santana Lopes três versículos do Eclesiastes com conselhos para a vida pessoal e para o bom governo. É capaz de vir um bocado tarde...
O Filipe Nunes Vicente (FNV), do Mar Salgado, fez um post intitulado "vergonha" a criticar duramente este post de Ana Gomes (AG), no Causa Nossa. Nos comentários do Mar Salgado, reagi ao post de FNV. Ele agora responde-me. Para estarmos em pé de igualdade (os comentários e os posts escrevem-se em níveis de visibilidade distintos), trago a polémica para aqui.
Resumindo: Ana Gomes escreveu um post sobre Nelly Kroes, uma das comissárias da nova comissão de Durão Barroso. Da apreciação ali feita sobre Kroes, FNV retirou que AG fez uma insinuação de cariz racista ou anti-semita (estas palavras uso-as eu, mas é esse claramente o subtexto do post de FNV). Esta insinuação de AG traduzia-se, para FNV, na ligação estabelecida entre o talento empresarial de Kroes e a sua eventual costela judia. Como a insinuação era grave, fui ler o post de AG. Trata-se de um post essencialmente político sobre as ligações de Kroes a diferentes multinacionais e sobre as reservas que tais ligações podem trazer à independência da sua actuação política. No fim, e em P.S., AG escreve: "O "Kroes" da Comissária Nelly, lê-se Cruz. Será que tanto talento empresarial não se explica por costela de antepassado judeu/cristão novo português, como é marca de boa parte da elite holandesa (quem ficou a perder fomos nós!)? (...)". Sobre isto, afirmo: não há aqui nenhuma conotação negativa para com o "talento empresarial" da comissária. A autora até acrescenta à frase um lamento sobre a expulsão dos cristãos-novos pelos portugueses (um "nós" em que AG se inclui) que FNV não cita no seu post.
A isto FNV responde-me com uns mimos simpáticos e diz que não percebe "porque raio vai [AG] buscar a costela judeu/cristão-novo" para falar de Kroes, se não for para estabelecer uma ligação arbitrária entre a eventual costela judia da comissária e a alta finança. Respondo-lhe: como está claro no texto, é porque a senhora se chama Kroes. O facto de a senhora se chamar assim permite pôr legitimamente a hipótese de ela ter uma costela cristã-nova ao abrigo de outras conotações. A interpretação "rácica" da alegação de AG vem toda de FNV e da sua reserva mental sobre AG. A insinuação de AG transforma-se em insinuação de FNV. Os textos devem ser interpretados pelo que dizem, não pelo que não dizem. Repito a sugestão que fiz a FNV: guardemos a palavra "vergonha" para outros casos em que ela se justifique.
P.S. Peço imensa desculpa ao comentador a. pacheco, mas sem querer apaguei uma primeira versão deste post com um comentário seu lá dentro. Por favor volte a escrevê-lo.
Já conhecíamos a técnica do silêncio (a simples recusa de comentar), a técnica da ironia (queremos ajudar o presidente a acabar o seu mandato com dignidade), agora o governo de Santana inventou uma bem mais sofisticada: a técnica da dispersão. Depois de Guilherme Silva e Morais Sarmento terem vindo dizer que a Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) estava completamente desacreditada (mesmo depois de Guilherme Silva se ter escusado a agendar o debate na Assembleia escudando-se no facto de que a questão estava a ser tratada naquela instância), Santana Lopes veio defender que é preciso levar em conta o relatório e reflectir sobre ele. Ou seja, este governo não tem uma opinião sobre os assuntos: tem uma, duas, as que for preciso para que as questões fiquem tão diluídas que já não possam ser discutidas com seriedade. O primeiro ensaio fez-se na questão do IRS, com Bagão Félix a chamar mentiroso ao primeiro-ministro; agora percebemos que é todo um programa de acção. A central de comunicação já está a funcionar, ainda que na clandestinidade.
Ao som de mambos e jovanottis, só pergunto uma coisa e não quero resposta: o que faz Moretti? E porque não filma, porque não muda o mundo?
Aquilo que eu nunca imaginei que o Barnabé me pudesse fazer foi a primeira coisa que me aconteceu: descobrir família. Ainda antes de ter aqui publicado o que quer que fosse, já um servo da bloga tinha dado as boas vindas ao Barnabé, acrescentando que segundo lhe parecia eu era primo dele. Se por um lado desconfiei, porque não sabia nada de ter primos perdidos, por outro lado reconheci nas críticas que dirigia a umas postas nossas a argúcia autêntica do verdadeiro sangue arrifanense correndo pelos miolos (toma!). E uns telefonemas para os meus pais permitiram-me confirmar que sim, o Henrique Fialho era meu primo, e também filho e sobrinho de gente que eu conhecia e apreciava.
Por um sequência de acasos nunca nos tínhamos conhecido, apesar de termos quase a mesma idade e das aldeias dos nossos pais serem a dois quilómetros de distância. E apesar de uns quantos emails trocados ainda não nos conhecemos desde então. Vidas ocupadas, muito trabalho, a timidez e o facto de Portugal ser um país enorme têm até agora impedido um café já mais planeado e adiado do que a vitória "gloriosa" no campeonato.
Parece que o Henrique faz hoje anos [pelo menos segundo acusa a sua obra poética]. Tem um blogue literário que lhe deve dar um trabalhão mas que brilha com todo o trabalho que ele lhe dá. E vocês, se lhe quiserem oferecer um presente de aniversário não se esqueçam de o visitar.
«Cruz convoca Carlos Manuel e Chalana», título do Correio da Manhã.
Ontem (Quarta-feira), estes moços meteram-se connosco três vezes. A direcção do Barnabé quer assegurar aos seus leitores que eles não são pseudónimos nossos. Por nós, podem continuar a discutir com a caixa de comentários.


Nas fotos: Egon Krenz e Jerónimo de Sousa, respectivamente, os últimos secretários gerais do Partido Comunista da República Democrática Alemã e do Partido Comunista Português. Deus nosso-senhor terá uma linha de montagem para líderes de partidos decadentes?
Num autêntico suicídio político, Sócrates, depois de aparecer a combater o fim dos benefícios fiscais para a classe média, opôs-se à redução do IRS para o conjunto dos contribuintes, incluindo os que estão abaixo da classe média. Na vontade de se mostrar muito responsável e bem comportado, defende o indefensável e sem nenhuma necessidade, já que a redução do IRS é uma ilusão. Portas, claro, aproveitou e a partir daí fez a demagogia do costume. A falta de programa e rumo político, dando à imagem de respeitabilidade mais importância do que ao conteúdo político das propostas, tem destas coisas: dá armas ao inimigo.
Pergunta para o referendo europeu, proposta pela maioria: «Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da UE, nos termos da Constituição para a Europa?»
É suposto os portugueses compreenderem o que lhes é perguntado. Ou não?

A Alta Autoridade para a Comunicação Social emitiu um parecer em que confirma que houve pressões do governo para a demissão de Marcelo Rebelo de Sousa. O DN faz uma capa estilo Record ou A Bola antes dos jogos do fim-de-semana.
A Laranja Amarga anda a ouvir Mestre Ambrósio – a melhor música brasileira que ainda não entrou em Portugal, inexplicavelmente. Mistério.

Estes gajos são os gajos. Eles são filhos de Ariano Suassuna e João Cabral de Melo Neto, apadrinhados por Gil Vicente e pelo Cabra da Peste. Eles são os homens da rabeca furiosa, da zabumba zangada, da horrenda estrela-marinha e da dengosa guitarra. A primeira vez que os ouvi tocar ao vivo vi o André Belo ao meu lado dançar sem ter aprendido cirandas e caboclinhas, forrós pé-de-serra e perrés do mato, xotes e maracatus tanto e tão prolixamente que tive de o levar ao Sacré Cœur para um exorcismo. "Gente assim é Deus quem faz / e o Diabo quem tempera".

Aliás, Pernambuco – de onde eles são – é o estado brasileiro que eu mais admiro. Tem folhetos de cordel vendidos no meio dos arranha-céus e repentistas que sabem elevar vossas excelências ao céu ou acabar com a raça desses cães tinhosos que estão aí na minha frente. Pernambuco é o estado da bandeira mais esotérica que há. Da feira de Caruaru até ao Recife, com Olinda e o Capibaribe no buxo. Autos medievais portugueses (do Nordeste de cá para o de lá), canais holandeses, sinagoga sefardita e afrociberdélia. Pernambuco tem aquele vírus antigo português, transmitido por Bandarra e António Conselheiro; é pequeno e megalómano. "Cabocla índia, índia africana, és indiana, do jorumá".
Tragam-nos a Portugal, ó gentes! Que eu não hei-de morrer sem ver estes hednigarna dos trópicos desafiarem os gaiteiros de lisboa em baião e levarem a resposta em malhão.
Um comentador brasileiro diz-me que os Mestre Ambrósio acabaram em 2001. Mas não há nada de jeito que tenha acontecido nesse ano?! Restam-nos os três espantásticos discos, "Mestre Ambrósio", "Fuá na Casa de Cabral" (para mim, o menos bom) e "Terceiro Samba". E eu, como bom português, passo da euforia à depressão.
Novo hino, Congresso do PSD:
Hino à Fantasia
Somos actores da história
de coragem e de glórias
pátrio orgulho do passado
abraçado pelo mar.
Para vencer os desafios
desse povo soberano
abre a porta ao destino
que o futuro quer entrar.
Queremo mais Portugal
grande luso pequenino
nova força para o mundo
geração Portugal.
Grita Viva Portugal
pede a alma, bate o peito
nova força para o mundo
meu orgulho Portugal.
Tempo novo de acreditar
de ser mais feliz
de ser PSD
sempre mais e melhor.
Santana Lopes é a voz
na vanguarda do futuro
de norte a sul
de tods nós.
Grita Viva Portugal
meu orgulho, meu país
nova força para o mundo
Grita Portugal!
Por falar em mar. No fim-de-semana almocei com os meus pais, irmãos, sobrinhas, etc. A comida foi carapaus assados. Logo às primeiras garfadas, vimos que os carapaus estavam cheios de camarõezinhos.
E dizem que acabou a austeridade. Até a minha comida come melhor do que eu!
«O que nos resta da expansão marítima é tronco da nossa força. Sem a importância estratégica e económica do nosso triângulo – Continente, Açores, Madeira – seríamos apenas uma tira de território nos confins da Europa. Sem a plataforma marítima, o nosso potencial de riqueza seria exíguo.»
["Ainda e Sempre o Mar", Editorial do DN de hoje, por José Manuel Barroso – o outro –, sem linque.]
Está tudo chalupa.
Que Santana Lopes e Paulo Portas, macerados pelo desprezo que os portugueses lhes votam, decidam voltar-se para o governo do azul profundo, compreende-se. Embora eu não acredite que as fanecas e os besugos tenham limites de paciência tão generosos como nós. Agora que um director de jornal embarque nestas palermices já é um bocado mais preocupante.
Correndo o risco de desagradar a algum biólogo marinho, lanço mão da desculpa do costume: eu até tenho amigos que são biólogos marinhos. E acho o mar importante, como é evidente. Mas começa a cansar esta tanga de "mar para aqui, mar para acolá – e tal". Depois da Índia, do Brasil, de África e dos fundos comunitários, descobrimos que afinal nem era preciso termos saído daqui. A salvação esteve sempre debaixo do nosso nariz, na plataforma continental. Curiosamente, pouco depois de perdermos direitos sobre o mar para UE e quando ainda não sabemos se poderemos vir a aumentar a ZEE na ONU, "fazendo o Continente ir até aos Açores" como explicava o hilariante Nuno Fernandes Thomaz – que em boa hora o PP fez substituir Mariana Cascais como jogral da corte.
Tornar Lisboa uma cidade interessante a nível ibérico (como prometia Santana) e o Porto a cidade mais importante do Noroeste peninsular (como prometia Rui Rio), apoiadas por uma boa rede de cidades médias (como prometia Durão) é muito difícil? Alto astral! Entra na onda!
«Jerónimo de Sousa está 'orgulhoso' por o seu nome ser proposto para secretário-geral» SIC On Line.
Um comentador desafia-me a, só hoje, só porque é o dia do milhão, fazer um elogiozinho a Bush por ter nomeado Condoleezza Rice, que é mulher e negra, para o lugar de Secretária de Estado, cumprindo assim com duas quotas numa cajadada.
Cá vai o elogio, mas é só hoje, OK? Só uma vez sem exemplo.
E um...
E dois...
E dois e três quartos...
– espera. Pára tudo.
O ideal mesmo era que Colin Powell tivesse feito uma operação de mudança de sexo. Assim cumpria-se com três quotas em simultâneo.
O que já se sabia (e aqui fomos dizendo) muito antes de qualquer militante poder abrir a boca sobre o assunto, confirmou-se: Jerónimo de Sousa será o novo secretário-geral do PCP. A linha dura tomou conta do partido e acabaram-se os paninhos quentes na vinda interna do Partido Comunista Português. Más notícias para a esquerda.
Hoje, a inflação ficará nos 2%, o desemprego irá diminuir, o produto aumentará 2,4%. Isto é hoje, no debate do Orçamento de Estado. Amanhã voltamos a Portugal, às previsões da União Europeia e às estatísticas.
Descobri! Finalmente um discurso de esquerda sobre a segurança. Um discurso sem complexos, que não deve nada à direita, não securitário, baseado na responsabilidade individual e na consciência colectiva. E novo, moderno, inteligente. Está aqui. Partidos de esquerda de todo o meu país, preparem os Think Tanks. José Sócrates: também é consigo. Um dia destes demonstro.
Hoje o Barnabé ultrapassou um milhão de visitas desde Setembro de 2003 [conta agora 1 004 737, e é possível que o contador se passe como quando aconteceu o mesmo aos hits]. Era um número absolutamente impensável quando nos iniciámos há um ano e dois meses. Creio que este é um feito inédito na blogosfera portuguesa, precisamente porque se trata de visitas e não hits nem pageviews. Mesmo tendo noção que nunca há números exactos,mesmo acrescentando 20% ou 30% a mais aos utilizadores do sitemeter – e é sempre bom consultar este esclarecedor texto do Paulo Querido – e mesmo dando o desconto que se quiser ao nosso próprio contador, que é partilhado com o resto da weblog e me parece de confiança. A confirmar esta ideias está o facto de o Barnabé ter aparecido (com O Meu Pipi) num estudo de audimetria, o que indica que pela primeira vez os blogues estão a fazer um blip de audiência perceptível fora da blogosfera.
Enquanto nos preparamos para comemorar este facto com o despudor que nos caracteriza, pensei que a pior coisa que me poderia acontecer seria essa comemoração frustrar outros blogueiros mais recentes. Ainda por cima porque eu tenho consciência que nos últimos tempos não tenho seguido a blogosfera, nomeadamente a nova blogosfera, por absoluta falta de tempo. É uma falha minha (e imagino que dos outros barnabés).
Ao novo trabalhador da bloga que me encomendasse o sermão (e só a esse) eu diria o seguinte. Quando o Barnabé cá chegou, eu limitava-me a deprimir-me sozinho com o regresso ao meu país [contei essa história aqui]. E quando vi, nos primeiros dias, 200 ou 300 pessoas a consultarem isto pensava: trezentas visitas!? Caramba! Nem sei se ainda conheço trezentas pessoas em Portugal. Isto já dava para encher um anfiteatro! Às vezes as visitas podem parecer poucas e os outros blogues tantos. Mas imaginem receber as pessoas que vos lêem todos os dias na sala de vossa casa e aposto que a coisa muda de figura.
Por isso e sem mais treta. Daqui para diante, haverá muita maneira de a blogosfera crescer junta, e talvez até da blogosfera dar uma mão ao país. O primeiro milhão é para os pardais. O próximo está aí para quem o souber apanhar.
É difícil não ficar impressionado com a ferocidade do assalto americano a Falluja. Desde o nome da operação («A Fúria do Fantasma») às imagens de devastação urbana, tudo se conjuga para que esta operação venha a dificultar ainda mais a conquista dos «corações e mentes» dos iraquianos. Mesmo que consigam erradicar as últimas bolsas de resistência neste bastião sunita, é pouco provável que as forças da coligação e o governo provisório sejam capazes de garantir um ambiente de segurança indispensável à realização de eleições livres em todo o território. Se o processo eleitoral alienar um dos grupos nacionais, a futura assembleia constituinte e o novo governo provisório debater-se-ão com um gravíssimo problema de legitimidade. E até hoje os Estados Unidos ainda não declararam estar prontos a abandonar as 14 bases que possuem no Iraque, caso seja essa a vontade de um governo iraquiano eleito (aliás, é difícil conceber a sobrevivência de um regime iraquiano que aceite uma presença militar norte-americana com um carácter permanente). Há um ano atrás talvez ainda fosse possível dar outro rumo à transição iraquiana, mediante uma ampla internacionalização da força de ocupação – sob a égide da ONU, mas envolvendo organizações como a NATO e a Liga Árabe. Agora é tarde. Os países que poderiam fazer a diferença com o seu contributo financeiro e militar (França, Alemanha, Rússia, Canadá) não se querem aventurar naquele vespeiro, independentemente dos efeitos ricochete de um falhanço americano.
Quando a guerra do Iraque começou, lembro-me do jornalista José Vítor Malheiros ter dito que não desejava nem uma vitória de Saddam Hussein, nem um passeio triunfal da América. Formulou então um voto que me pareceu correctíssimo: que os americanos apanhassem, pelo menos, um «olho negro». Passados quase dois anos, eu diria que os EUA correm o risco de sofrer um castigo bem mais severo. No entanto, será que isso justifica o tipo de «resistência» a que temos assistido desde então? Esta é uma questão que deveria dar mais que pensar aos críticos da guerra.
Entre muitos deles, tem havido a tendência para estabelecer uma analogia entre os actos de terrorismo praticados pelos antigos baathistas, ou pelos sectores xiitas mais radicais, e as lutas de «libertação nacional» movidas contra os impérios europeus. Sem pretender discutir agora a pertinência dessa comparação, observarei o seguinte: é um erro «romantizar» a guerrilha iraquiana. Uma parte significativa dos 20 ou 30 mil militantes armados que contestam o governo provisório e as forças da coligação serão iraquianos movidos por um genuíno sentimento patriótico – aspiram a um Iraque soberano, governado sem interferência estrangeira. Mas em certas zonas do país, a resistência mais «espectacular» tem sido dinamizada por jihadistas estrangeiros, apostados apenas em castigar a América e os seus aliados. Imagino que alguns de vós acharão que há um salto de lógica na minha posição – se consideras ilegítima a ocupação americana, então como podes questionar a legitimidade da «resistência»? A isto eu responderia: perante o rol de atrocidades já cometidas, não devíamos meditar na adequação dos meios aos fins? O atentado à missão da ONU em 2003, o rapto e execução de civis, as câmaras privadas de tortura, o assassinato de polícias e funcionários iraquianos, tudo isso desacredita profundamente esta «resistência». Países que alcançaram a independência na sequência de guerras brutais, como a Argélia, ainda hoje pagam um preço muito elevado por algumas das opções dos seus movimentos de «libertação nacional» (depois convertidos em partidos ditatoriais). Em relação ao Iraque, país com uma longa história de violência atrás de si, talvez fosse irrealista esperar outro tipo de reacção. Os partidos políticos e a sociedade civil que sobreviveram à tirania de Saddam são porventura demasiado incipientes para animar um movimento de resistência com outras características – por exemplo, algo de semelhante às campanhas de desobediência civil que o Congresso Nacional Indiano travou contra o Raj britânico (e que demoraram décadas a dar os seus frutos). Mas um caminho desse género, mais longo, mais difícil, mas também mais humano, seria infinitamente preferível à bestialidade dos actuais insurgentes.
Pedro Santana Lopes e Paulo Portas fizeram as pazes no mar. Com a coligação a afundar, foi uma jogada arriscada. Mas consta que tudo acabou com um abraço carinhoso. O que não pudemos ver no Contra-Informação, vemos no Telejornal.
Portas terá começado a viagem amuado. Mas Pedro, que sempre teve muita lábia, lá lhe deu a volta. Adoro finais felizes.
Há anos que todos os governos manipulam a RTP. Este, conseguiu a proeza de fazer o mesmo que os outros levando à demissão da direcção de informação.
Soldados americanos executam iraquianos feridos.
PS: Se eles fazem isto quando estão a ser filmados, imaginemos como será quando estão mais à vontade.

Estão a ver aqueles dicionários e enciclopédias que utilizam um til [~] para evitar repetir expressões, palavras ou partes de palavras e assim poupar espaço precioso?
Bem. Agora isto é um "suponhamos". Eu estou aqui a arrumar uns recortes de jornais sobre Pedro Santana Lopes e vejo que numa altíssima proporção deles o vosso primeiro ministro "lembrou Sá Carneiro", "recordou a figura" ou "a memória" de Sá Carneiro, ou exortou alguém a seguir "o exemplo de Sá Carneiro".
Sugestão: porque é que as instâncias de direito não convencionam usar o [~] para estas situações em que escrevem sobre Santana Lopes? Já todos sabemos do que se trata, portanto a informação não se perde. A coisa ficaria assim: "Pedro Santana Lopes, iniciou a sua intervenção com ~"; "O primeiro-ministro ~ para se referir à primeira vez que visitou a cidade / paróquia / comarca / região autónoma"; "O Presidente do PPD/PSD inaugurou a sede e ~".
Com o tempo o próprio Santana poderia passar a fazer um gesto para o mesmo efeito, como aquelas pessoas que fazem "aspas" com as mãos.
Pelas minhas contas, era uns gigabytes de espaço de disco que se ganhava.
De repente tenho aqui em baixo na rua uma família cigana a tocar – em trio: pandeireta, sintetizador fanhoso e trompete – boleros e paso dobles. Para gozo dos brasileiros – goianos e mineiros – que pintam um prédio na rua, empoleirados num andaime – adoram a música – acompanham com gritos – cinco minutos de festa antes da hora do almoço. De repente parece que estou num filme do Kusturica – e uma coisa é certa – aqui dentro é muito melhor.
Os emails do Rui Tavares sobre o Barnabé ainda conseguem ser mais divertidos do que os posts do Rui Tavares no Barnabé.
Depois dos casos Marcelo, DN/Lusomundo e agora RTP, é como se tivéssemos os media em posição demissionário.


Não sei se repararam, mas no dia de ontem o Barnabé atingiu as 999.994 visitas. Faltam-nos seis para o milhão, um número inimaginável quando começámos esta coisa. Já liguei à minha mãe, ao meu pai e aos meus quatro irmãos a insultá-los por não terem vindo cá.
Pela primeira vez incitei alguém que não conheço a fundar um blogue. Trata-se de um comentador do Barnabé – João Delgado – que trocou uns emails com a gente e que agora criou o Palácio dos Balcões, sobre história grega antiga, o Sul, viagens, arte, e talvez um pouco de teoria política também. Promete uma conversa inteligente e constante, e eu aposto que vai ser um blogue a seguir.
Afinal a demissão na RTP foi de toda a direcção de informação, em bloco.
Quando Marcelo Rebelo de Sousa foi afastado da TVI nasceu uma teoria da "normalidade" para explicar o acontecimento. Essa teoria tinha várias declinações, algumas delas sobreponíveis. Marcelo tinha saído por interesseirismo, para lixar o governo. O que se tinha passado era da conta de uma empresa privada, nada mais. E, acima de tudo, o governo seria "louco" se pressionasse a TVI, porque o "escândalo" resultante haveria de queimar mais o governo do que os próprios comentários de Marcelo, por críticos que fossem.
Hoje passou tanto ou tão pouco tempo sobre o episódio que já nem sabemos há quanto tempo foi e ele passou a ser apenas isso mesmo – um episódio. O governo queimou-se o que se tinha a queimar no momento. Mas agora o que conta é que os comentáriozinhos, lá todos os domingos, já desapareceram. A rotina passou-lhes por cima e ninguém se lembra deles. Daqui a seis meses, um ano, quando se aproximarem as eleições os comentários continuarão a não existir – e as pressões do governo serão uma ruga numa cordilheira. Quem pode agora dizer que não compensou ao governo pressionar pela saída de Marcelo?
Tanto que compensou, que José Rodrigues dos Santos se demitiu hoje da RTP. Restará aos cínicos dizer que nada tem nada a ver com os comentários de Morais Sarmento, dizendo que quem manda na filosofia de programação é o executivo e não os jornalistas por "doutorados que sejam" (o recado levava destinatário – Rodrigues dos Santos).
Só que um povo para quem os entorses ao esqueleto da democracia se tornam "normais" está em hibernação política. Todos deixam passar tudo porque acham que este governo vai perder as eleições e pronto. Quando acordarem será tarde demais.
Primeiro foi o Luciano Amaral a chamar imbecil ao Daniel Oliveira. Agora é o João Pedro Henriques a dizer que alguma coisa, qualquer coisa, um intrigante algo aqui no Barnabé é uma "cretinice", sem mais nada.
Eu tenho uma opinião já repetida sobre os insultos na blogosfera e na política. Sou a favor. Farto de um Portugal em que toda a gente diz tratar-se "com o devido respeito" para depois cinicamente não acreditar em nada nem em ninguém.
Mas há duas ressalvas.
Uma é antiga: o conteúdo. Um insulto sem conteúdo reflecte apenas a falta de conteúdo de uma opinião. Responder a um texto argumentativo com um "é uma cretinice" faz do polemista o equivalente ao homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê dos gatos fedorentos.
Outra acabei de inventar agora. O estilo. É incompreensível que fora da mesa do café, em frente ao computador, pronto a falar para a Humanidade e a Posteridade, o trabalhador da bloga não se dê ao esforço de fazer melhor do que um "imbecil" ou um "cretino". Shakespeare não chamava ninguém de idiota, chamava de "obra-prima da confusão" [Macbeth]. Gil Vicente não se dignava a um "parvalhão" e nunca descia abaixo de um "mija n'agulha" [Barca do Inferno]. Um pouco de arte dignifica o insultador e o insultado. É por isso que eu acho que João Pedro Henriques, esse esplendor da ninharia, é capaz de muito melhor.
O 2º Curso d’ ATTAC será nos dias 19, 20 e 21 de Novembro, em Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mais informações aqui. Programa em baixo.
Programa
Dia 19 Sexta-feira
21h30
Os EUA – Uma perspectiva a partir da História das Ideias Políticas
Viriato Soromenho -Marques, FLUL
A Esquerda face ao Anti-Americanismo
Miguel Vale de Almeida, ISCTE
Dia 20 Sábado
10h30 - 12h45
Comércio Internacional e Desenvolvimento
Luís Francisco Carvalho, ISCTE
Empresas Transnacionais e Investimento Directo Estrangeiro
Francisco Madelino, ISCTE
Fluxos Internacionais de Capitais e Crises Financeiras
Nuno Teles, Universidade Paris-XIII
14h30 - 17h
Controlo de Capitais e Taxa Tobin
João Rodrigues, DINÂMIA
A Política Económica no Contexto da União Europeia
Ricardo Pais Mamede, ISCTE
Globalização e Desenvolvimento Local
Rogério Roque Amaro, ISCTE
17h30 - 19h30
Documentário “The Revolution will not be televised” de Kim Bartley e Donnacha O’Briain
Quem Manda nos Media Manda em Nós? Comunicação Social, Grupos Económicos e Democracia
Francisco Louçã, ISEG, Deputado pelo Bloco de Esquerda
José Luís Garcia, ICS
Dia 21 Domingo
10h30 - 12h30
Atelier ATTAC
14h - 17h
Problemática geral da Rede Fundamental de Conservação da Natureza em Portugal- Oportunidades e Constrangimentos
José Manuel Alho, Presidente da LPN
Os Espaços Florestais para o Desenvolvimento Rural
Vasco Paiva, Engenheiro
17h - 19h
O que fazer com a Europa? Constituição, Democracia e Modelo Europeu
Manuel Carvalho da Silva, Secretário-Geral da CGTP
José Adelino Maltez, ISCSP
Guilherme de Oliveira Martins, Un.Lusíada, Deputado pelo PS, Membro da Convenção para o Futuro da Europa
Entre o Cais do Sodré e o Arsenal, começando ali onde um relógio teve durante anos a inscrição "hora legal" e não sei dizer-vos por que razão sinto tanta falta dela. Foi só há uma hora atrás. Já tinha visto bandos maiores de pássaros voarem mudando repentinamente de direcção, fazendo com uma mancha quase negra desapareça instantaneamente, volte a aparecer, fique cinzenta, desapareça, apareça, enquanto sobe, desce, avança e recua em sincronia. Mas nunca tinha visto três ou quatro destes bandos (de pardais?) com apenas algumas dezenas de pássaros, tão perto do solo, misturarem-se, separarem-se, pousarem todos numa árvore ou levantarem vôo como se estivessem todos com a mesma crise epiléptica. Entretanto, o sol estourava por detrás da ponte 25 de Abril e enchia os prédios de dourado, salmão, laranja, rosa e amarelo.
Ah, a beleza cruel de Lisboa.
José Rodrigues dos Santos demite-se da RTP.
Tudo indica que esta demissão possa estar ligada a notícias vindas no "Expresso", com fonte no Governo, que indicavam alterações nas direcções da RTP, função que não é da competência do Governo.
Colin Powell anunciou que não vai continuar na Administração Americana. A dois meses da nova Administração tomar posse, com o Iraque a ferro e fogo e próximo de eleições e a Palestina a explodir, os EUA ficam com um responsável pela diplomacia demissionário e, por isso, sem qualquer peso. Como se não bastasse, fala-se de Condoleezza Rice para o lugar de Powell.
Paulo Portas está frito. Pedro Santana Lopes não tem condições para impor uma coligação pré-elitoral como o CDS/PP.
Texto enviado hoje para o “Público” de resposta a texto de Augusto M. Seabra:
A propósito do assassinato de Theo van Gogh por um islamita fanático, escreveu Augusto M. Seabra, na edição de dia 14 de Novembro do PÚBLICO, que eu teria afirmado, no blogue Barnabé, que «assassinado e assassino eram ambos “fanáticos” e que Van Gogh seria mesmo “anti-semita”». E daqui concluiu: «O raciocínio é inaceitável em termos de princípio, colocando no mesmo plano o assassinado e o assassino, a livre expressão e o assassínio».
Se eu tivesse dito exactamente o que Augusto M. Seabra afirma que eu disse, seria, de facto, inaceitável. Mas não deixaria o leitor de estranhar que, perante afirmação tão contundente, este não a tivesse citado. Não é seu costume. Só que é mentira e, no caso, a mentira faz-se através de uma omissão. E como Augusto M. Seabra é tudo menos distraído, só posso concluir que essa omissão resulta de má-fé.
Cá vai, então, a citação completa: «Um fanático assassina outro fanático (o que dá, e isso nem estou disposto a debater, toda a superioridade moral ao segundo fanático)». Depois de eu escrever que Theo van Gogh tem «toda a superioridade moral» em relação ao seu assassino (e que não estou sequer disposto a debater esta afirmação), concluir que eu coloco «no mesmo plano o assassinado e o assassino» não é apenas interpretar mal o que eu escrevi. É mentir deliberadamente. Pior: é não citar o que escrevi para o poder fazer sem que o leitor detecte a mentira. Resumindo: eu disse que os dois eram fanáticos e acrescentei que não podem ser postos no mesmo plano moral. Um matou, outro foi morto.
Resta, portanto, a possibilidade de Augusto M. Seabra não considerar Theo van Gogh um fanático e um «anti-semita» e por isso ter ficado chocado com esta afirmação. Neste caso, vale a pena citar esta piadinha do cineasta holandês, feita há uns anos, por escrito, e repetida em vários jornais de todo o Mundo: «Hoje cheira a caramelo – Bem, devem estar a queimar judeus diabéticos». Recorde-se que a piada é feita na Holanda, onde milhares de judeus foram vítimas do Holocausto nazi. Se Augusto M. Seabra não considera isto uma manifestação de anti-semitismo, confesso que fico preocupado ou com a sua bitola moral ou com o seu sentido de humor. O que, para que fique de novo claro e Augusto M. Seabra não me volte a citar truncando o que escrevo, não justifica qualquer acto mais violento do que este: dizer que ele era anti-semita. Foi o que fiz. Mas parece que Augusto M. Seabra queria mais: queria que eu reescrevesse a história desta personagem.
O que esperava, por parte de Augusto M. Seabra, era que debatesse o que eu escrevi e não o que ele gostava que eu tivesse escrito. E o post que comenta era sobre um outro assunto: o facto de estar a ser sistematicamente feita, a partir deste assassinato e de outros atentados terroristas, uma abusiva generalização sobre supostas características essenciais da cultura muçulmana e do Islão.
Do que fui lendo nos jornais, em diversos textos de opinião, ninguém quis perder esta oportunidade para desancar o Islão, o multiculturalismo, os imigrantes muçulmanos que não se querem integrar. A dada altura, somos levados a crer que Le Pen teria razão: que há um confronto de civilizações e que temos sido demasiado simpáticos com esta gente. Compreendo que a comparação caia mal. Estamos a falar de gente ilustrada, defensores da democracia e do pluralismo, e não de selvagens analfabetos como aquele simplório francês. Mas quem nos avisa para não sermos moles neste confronto de civilizações caso contrário a extrema-direita acabaria por vencer, pode ficar descansado: Le Pen já venceu. O seu discurso já é aceitável. Já se usam actos isolados de um terrorista muçulmano para falar dos muçulmanos. Já se aceita o confronto de civilizações. Assim, sem problemas, como se fosse a coisa mais natural do Mundo. Estamos perante o maior recuo civilizacional e ideológico dos últimos cinquenta anos.
Isto foi o que disse no post que Augusto M. Seabra comentou. Resta-me uma conclusão: Seabra queria parecer um rapaz bem-comportado para começar este debate. Para tanto, precisava de distanciar de alguém que tivesse uma posição dúbia sobre o assassinato de Theo van Gogh. Como não encontrou ninguém, preferiu confrontar-se com texto imaginário. Toda a falta de rigor que costuma, com muita frequência, criticar nos outros. É por estas e por outras que nunca mais levo a sério as suas indignações.
PS: André, não faço nenhum paralelismo moral e isso ficou claríssimo no texto. Digo apenas que são os dois fanáticos para depois os distinguir moralmente. Recuso-me a mudar a opinião que tenho de alguém e das afirmações que fez só para entrar na onda. Não o faço nem o farei: esse é o condicionamento nos debates que todos os fanáticos nos querem obrigar a fazer. Ter de estar ao lado de um anti-semita para condenar o seu assassinato. Condeno e não escolho van Gogh. Só isto pode ser sério. A minha opinião sobre o assassinato e o assassino de Van Gogh ficou claríssima. A minha opinião sobre quem goza com o Holocausto também. A diferença de avaliação moral que faço de quem mata e de quem goza com quem morre também. Tudo muito claro. Menos claro, não o faço.
Acho que as questões que o assassinato de Theo van Gogh levantam mereciam uma discussão mais informada e, sobretudo, fora do contexto polémico da blogosfera (o contexto polémico da blogosfera é aquilo em que o Barnabé se excede, no bom e, por vezes, no mau sentido da palavra. Penso, para o bem do Barnabé, que há que ter cuidado com ele). Concretizando.
Daniel,
quero discordar do teu último post sobre a morte do cineasta holandês. A minha divergência, como penso que é a de vários leitores do Barnabé que se pronunciaram sobre o assunto, tem a ver com a equivalência estabelecida entre o assassino e o cineasta na frase "um fanático assassina outro fanático". Tu ressalvas, em seguida, a superioridade moral de van Gogh. Porém, como é tragicamente evidente, a superioridade moral de van Gogh depois de ser assassinado não lhe serve de muito. Van Gogh podia até ser um fanático (a afirmação carece de demonstração), mas para o caso vertente a questão tem de ser irrelevante. Bem sei que a tua intenção é fazer o combate ao aproveitamento inevitável da questão e à sua instrumentalização por todos os simplismos também criminosos. Mas nesta última frase o adjectivo é metafórico. Os dois planos não podem aqui ser misturados. Mais: a instrumentalização do crime para uma cruzada anti-islâmica aposta precisamente nessa mistura de planos. Nós temos a obrigação de os separar.
Quero dizer que desafio daqui publicamente João Soares a candidatar-se à presidência da República. Ele já está mortinho por o fazer, portanto cá vai o meu contributo para uma vaga de fundo. E já agora, em nome do interesse nacional, desafio Manuel Monteiro a apresentar-se às eleições presidenciais. E Garcia Pereira! Garcia Pereira, o proletariado nacional e internacional contam contigo! Não nos deixes ficar mal! E aqui que ninguém nos ouve: avança, Manuel João Vieira! Avança, amigo! Entoarás o "Fado do Barnabé" nas escadarias de Belém! Last but not least, exorto desta tribuna à candidatura de Alberto João Jardim! Alberto João, se não vens para Lisboa partir este sistema todo, não és homem nem és nada!
Enfim, já que está na moda apelar à candidatura de outrem, também me quero divertir um bocadinho.
Neste momento, a propósito de uma rusga a casas de alterne no Alentejo, está a falar à reportagem da RTP um major da GNR chamado Libertário Fróis. Desconfio que um pai ou avô anarquista deve ter tido a desilusão da sua vida quando ele entrou para a guarda.
"Como podem alguns economistas dizer que o orçamento é opaco? É opaco porque é imaginativo!"
Pedro Santana Lopes
"É muito difícil governar um país nos tempos de hoje." Pedro Santana Lopes
«Ministros israelitas contra candidatura de Barghouthi às eleições palestinianas
O chefe da diplomacia israelita, Sylvan Shalom, o número dois do Governo, Ehud Olmert, e o ministro sem pasta, Tzahi Hanegbi, classificaram Marwan Barghouthi, líder da Fatah na Cisjordânia, como "terrorista assassino" e excluíram claramente a possibilidade de vir a ser libertado.
"É um assassino que cumprirá pelo menos cem anos de prisão se tiver reduções de pena. Na melhor das hipóteses, ele não poderá ser mais do que porta-voz dos detidos da prisão onde está encarcerado", disse Hanegbi à rádio pública israelita.»
Acabei de ouvir o interminável discurso de Fidel Santana Lopes.
Um presidente de um partido acaba de ser eleito pela primeira vez e passa um discurso inteiro a defender-se por tudo o que fez num cargo para o qual nunca foi eleito.
Carmona Rodrigues disponível para continuar à frente de Lisboa
"Não podemos continuar a ser masoquistas" Ana Manso, líder do PSD-Guarda
Santana Lopes quer liderar o Governo até 2014
"Santana Lopes tem a obrigação de moldar a sua equipa e o seu Governo à sua imagem e semelhança". Luís Filipe Menezes
É isto que agora se pode ler nas caixas de comentários. Antes de escrever por lá, leia com atenção. É para levar a sério.
"O Barnabé evita ao máximo apagar comentários. Mas se estiver a pensar insultar ou difamar pessoas ou grupos (especialmente assinando sob pseudónimo), usurpar identidades, e de forma geral prejudicar a utilização leal deste espaço... não se dê ao trabalho. Os comentários poderão ser apagados sem aviso.
Por outro lado, se o envio do seu comentário der uma mensagem de erro, saiba que o problema não é da responsabilidade do Barnabé, mas do sistema de comentários de toda a weblog.com.pt, que é partilhado por mais de mil utilizadores."
Muqata quer dizer “distrito” ou “bairro” e, no caso, a tradução para português nada nos diria. É um lugar, um sítio, que assim ficou conhecido, por razões que desconheço, desde os ingleses. Como quer então o doméstico sharonito que lhe chamemos? Eu, por exemplo, quando me refiro ao parlamento israelita, chamo-lhe de Knesset. Aí, fica tão incomodado?
Compreendo o desgosto deste senhor. É o mesmo que já nos garantiu que os palestinianos não existem. Por ele, nem Muqata, nem palestinianos, nem qualquer palavra que lhe recorde que, por aquela zona, vive um povo que ele, visivelmente, preferia que desaparecesse rapidamente do mapa. Mas vai ter de continuar a aguentar. Eles vivem e, pasme-se, até têm uma língua.
Santana quer apoiar Cavaco na corrida à presidência. A dúvida é se Cavaco precisa do apoio de Santana para alguma coisa.
Era o que mais faltava que Deus, que tudo vê e tudo sabe, não seguisse a blogosfera. Ele é o único que lê todos os posts. E Ele, que tudo vê e tudo sabe, Ele que conhece todos os links, Ele não gosta que tu abandones no menu de pré-publicação, como à saída do confessionário, o discernimento das coisas morais. Cuidado, pois: a ira, que é madre da má-fé, não passou a ser pecado acidental lá por estar no blogspot.
Imagino que todos os free-lancers, mas todos mesmo, desde o tradutor até ao matador profissional, precisem de um ritual para quando acabam de fazer um trabalho. Para mim, não há nada que se compare a descer do Marquês até aos Restauradores depois de entregar um trabalho no prazo. Vou numa das calçadas laterais a olhar para as miúdas e os turistas, distraído com as árvores e os pormenores dos prédios. Momentaneamente livre de obrigações vejo de repente que eu sou mais eu. Todas as pessoas com quem me vou cruzando – os polícias e os mendigos, os transeuntes e os motoristas, os lojistas e os empregados de escritório – me parecem muito mais gente também.
Depois páro cá em baixo para ver os jornais, os livros e as revistas estrangeiras, e apercebo-me que se as quiser comprar para ler vou ter de aceitar mais trabalhos.
A liberdade é breve mas preciosa.

Então por que raio está um ridículo écran afixado mesmo em frente do painel, impedindo a visão total do mesmo? Não havia outro lugar para pôr o maldito écran – que ainda por cima passa o seu tempo apagado?
O Instituto Camões restaurou um belíssimo edifício na esquina entre a Avenida da Liberdade e o Marquês, ao lado do edifício do DN. Esplêndido. Parece que era para ser a "Casa da Lusofonia", mas não sei se já entrou em funcionamento. Muito bem. Foi construído um discreto elevador lateral, decerto para facilitar o acesso. Excelente.
Então por que raio se acrescentaram ao elevador três enormes placas revestidas a mármore, incongruentes e pouco discretas? É que essas placas tapam o painel "Diário de Notícias", de Almada Negreiros, na parede do prédio ao lado – aquele dos telégrafos e jornais. Neste momento só se consegue ver o painel de esguelha.
Caramba! São um Vieira da Silva e um Almada Negreiros, pessoal. Corrijam lá isso, por favor.
Sou contra a proibição do Vlaams Blok. Problemas políticos não se resolvem na justiça, resolvem-se na política. Só há uma maneira de vencer a extrema-direita, é vencê-la no combate político. Acabam com o Vlaams Blok mas o problema continua a existir. Só que mais forte.
Vou lendo nos jornais e nos blogues a sucessão de textos de opinião sobre o assassinato de Theo van Gogh. Ninguém quer perder a oportunidade para malhar no Islão, no multiculturalismo, nos imigrantes muçulmanos que não se querem integrar… É verdade que lá vão falando do fundamentalismo islâmico, mas rapidamente se esquecem e dão o salto lógico necessário para gritar em defesa dos valores do "Ocidente" contra o tempo das trevas que nos chega do Sul. Um fanático assassina outro fanático (o que dá, e isso nem estou disposto a debater, toda a superioridade moral ao segundo fanático) e logo se levantam as vozes do costume, apostadas, nos últimos três anos, a provar o que Le Pen anda a dizer há quase vinte: que há um confronto de civilizações e que temos sido demasiado simpáticos com esta gente. Compreendo que lhes saiba mal a comparação. Estamos a falar de gente ilustrada, defensores da democracia e do pluralismo, e não de selvagens analfabetos como esse simplório francês. Mas quem nos avisa para não sermos moles neste confronto de civilizações caso contrário a extrema-direita acabaria por vencer, pode ficar descansado: Le Pen já venceu. O seu discurso já é aceitável. Já se usam actos isolados de um muçulmano para falar dos muçulmanos. Já se aceita o confronto de civilizações. Assim, sem problemas, como se fosse a coisa mais natural do Mundo. Estamos perante o maior recuo civilizacional e ideológico dos últimos cinquenta anos.
Vale a pena ler os textos de Helena Matos, de há uma semana, de Luís Carmelo e Esther Mucznik, de hoje. São apenas três exemplos, e até relativamente moderados, do que se tem escrito.
Serei “imbecil”, serei “perigoso”, serei pior que “imbecil” e “perigoso”. Pior que “totalitário”, pior que um “pária”, que “filo-nazi” e “filo-estalinista”. Aceito. Mas devo informar que não sou licenciado. Nem sequer acabei o curso superior. Por isso, meus caros amigos, chamem-me de tudo, licenciado é que não.
PS: o companheiro Vasco manifesta algumas dificuldades no rigor da citação. Eu não disse que a direita estava "nervosa", disse que estava "histérica". Os efeitos hormonais são diferentes e, geralmente, as causas também. Por exemplo: histérico, estava Vasco Rato quando disse que se despia no Rossio se as armas de destruição massiva não aparecessem no Iraque. Nervosos, ficámos todos perante tal possibilidade.
Não vou sair em defesa do Daniel na (não) polémica mais absurda que já vi. Desde logo porque ele não precisa de primos encorpados e, depois, porque eu não faço ideia de como é que se responde a um insulto que não vem agarrado a nenhuma argumentação. Um exemplo: alguém me diz: - és um palerma - e eu respondo - palerma és tu, pá… - e o interlocutor contra-ataca - palerma é o teu pai - e eu, das duas uma, ou ele não é muito maior que eu e acabamos a fazer uma figura muito triste no Chiado ou, francamente, não consigo desatar isto sem recuar quatro gerações em insultos e tombar morto de cansaço ou de tédio sem que isso aproveite a ninguém. Mais tortuosa é a adjectivação de Vasco Rato que, entre outras ironias, acusa o Daniel de ser uma estrela mediática emergente, quando toda a gente já o viu, a ele, pelo menos três vezes na televisão esta semana (a última foi há bocadinho). O mimo mais divertido é chamar-lhe «licenciado». Lembrei-me logo das tias do Vasco Santana, na Canção de Lisboa, todas contentes porque o sobrinho já era doutor. Mas isso foi no Portugal provinciano dos anos quarenta. Será que foi? Com franqueza: espanta-me muito que uma pessoa que tem a consideração intelectual de tanta gente pense que essa dádiva lhe vem do título académico que ostenta. Não haverá nenhum amigo jubilado que lhe explique que as universidades não passam atestados de inteligência?
Sharon deixou de ter um álibi chamado Arafat. Mas temo bem que só agora Israel sentirá o verdadeiro preço da estratégia de enfraquecimento da Autoridade Palestiniana. Sem Arafat, a pouco autoridade que restava na Palestina poderá passar a ser nenhuma. De nada servirá gritar para que alguém controle o terrorismo. Em terra onde ninguém manda, manda quem tem as armas. É por isso que o Hamas adora Sharon. Porque Sharon destruiu os únicos que o podiam travar. Gaza será deles, porque destruída a Autoridade Palestiniana e retirados os soldados unilateralmente e sem negociação para a transferência de poderes fica o vazio. E contra o vazio todas as balas são inúteis. Acredito, infelizmente, que os israelitas sentirão brevemente tudo isto. E compreenderão da pior maneira possível que Sharon, ao esmagar a resistência palestiniana laica, levou o seu próprio povo para um beco sem saída. Porque o destino da Palestina será sempre o destino de Israel. Foi o que nos ensinaram os homens de coragem que assinaram os acordos de Genebra.
Na verdade, a morte de Arafat não me deixa especialmente impressionado. É evidente, ou deve ser evidente, que se trata de um acontecimento de enorme significado histórico. Pelo menos é o que toda a gente diz. Mas ao contrário de Tiananmen, que me deixou noites sem dormir, ou do referendo em Timor Leste, ou mesmo do golpe de Agosto que acabou com a URSS ou das últimas eleições americanas, é com espanto que olho para a minha frieza – ao mesmo tempo que desconfio que não sou o único.
Isto é curioso, porque uma das primeiras "figuras históricas" internacionais de que me lembro é precisamente ele e o actual papa. Lembro-me de ter cinco ou seis anos quando o papa foi eleito e de ter ficado boquiaberto com o número de idiomas que ele falava. Mais ou menos pela mesma altura Arafat apareceu na televisão e achei graça àquele lenço que ele tinha na cabeça.
Uma época fechou. Não tenho qualquer empatia por Arafat. Mas também vejo com uma certa estranheza a diabolização do homem. Ela é tão insistente e exagerada que traz águia no bico (é assim mesmo – águia no bico).
A mim chateia-me principalmente Arafat ser um corrupto autoritário. Mas faz-me espécie que gente condoída por os palestinianos terem sido roubados de vários milhões não se preocupassem até há pouco tempo por os palestinianos não terem um estado. Também me choca Arafat ser um tirano. Mas tanto esforço foi colocado em bombardear a democracia para o Iraque e tão pouco em preservar o que Autoridade Palestiniana teve de democracia embrionária. Estava longe de ser perfeita, a "democracia" deles. Mas a israelita tampouco, e contudo tanta coisa se lhe permite à sombra de ser a "única democracia do Médio Oriente".
Finalmente, o terrorismo. Arafat foi um terrorista. Um terrorista particularmente brutal, principalmente nas décadas de 70 e 80. Já acusá-lo de todo o terrorismo palestiniano, e particularmente do terrorismo suicida dos últimos anos me parece interesseiro – mas pouco sofisticado.
Mesmo para quem moderadamente entende o que se passa na Palestina, é evidente que há mais de uma década que Arafat compete pela influência com inúmeros grupos, dentro e fora da OLP. A situação faz lembrar a do PCP e dos vários maoistas, nos anos 60 e 70 em Portugal. Podemos ir pelo caminho simples de dizer que "eram todos comunistas". Mas há-de reconhecer-se que exigir a Álvaro Cunhal – por determinante que este fosse – que controlasse as acções do MRPP só poderia ser ou [a] ignorante ou [b] oportunista. Agora que Arafat morreu, veremos qual das duas alíneas era mais verdadeira.
Como de costume, na Rua da Judiaria, um excelente texto sobre a morte de Arafat.
Sobre o meu post “Sementes do ódio”, escreveu Luciano Amaral, num estilo que lhe começa a ser habitual e que é um sinal preocupante de degradação intelectual: “Daniel, sem mais comentários: estás a transformar-te num imbecil”. Luciano Amaral já foi de esquerda. Já foi de direita. Agora é apenas isto.
Na excitação, veio logo um tal de Pedro Marques de Lopes, que não faço a menor ideia de quem seja, acrescentar: «Imbecil é pouco: Peço desculpa ao Luciano, mas o poste do Daniel Oliveira a que se referiu não é imbecil, é infame ».
A histeria da direita é maior sinal do seu autismo.
Poderia dar, a Luciano Amaral e ao tal Pedro Marques Lopes, vários exemplos de gente que se refere ao Islão de forma insultuosa, usando actos isolados para caracterizar milhões de pessoas, bestializando-as. Podia falar de Helena Matos ou Alberto Gonçalves, só para ficar pela rasteirinha vida doméstica. Mas não vale a pena. O nível do debate chegou ao infantário argumentativo. Escolher os adversários em cada debate é como escolher as companhias. E, nos tempos que correm, infelizmente, a maturidade argumentativa de Luciano Amaral está ao nível das companhias que escolheu.
A propósito deste post que escrevi hoje de manhã, notaram-me que ele generaliza a toda a blogosfera um determinado tipo de posts e de blogues. É verdadíssimo. Estava a referir-me aos posts dos blogues mais mediáticos e políticos. E a parte, realmente, não é o todo. Muitos posts e muitos bloggers têm uma estratégia de escrita diferente daquele a que eu me referia.
A este propósito, acrescento uma coisa. O texto que eu adaptei é de um historiador excelente que infelizmente não está traduzido em português (pelo menos que eu saiba). E é sobre os folhetos de propaganda política da Fronda (a crise política que abalou a França na infância de Luís XIV, cristalizada na oposição ao ministro Mazarin). Coisa que nada tem a ver com a blogosfera. Mas fiz um exercício um bocado selvagem que gosto de fazer e que é pôr em relação directa aquilo que se vê (que vejo) no presente com certos aspectos de sociedades passadas que são completamente diferentes (e que não vejo). Faz parte de uma teoria intuitiva do tempo cíclico (indemonstrável, só utilizável para fins poéticos). Às vezes pode ser interessante, outras vezes não, e é sempre anacrónico. Os folhetos da Fronda não têm relação com os blogues para lá da minha imaginação. Ao mesmo tempo, um determinado tipo de análise sociológica do género da que ali faz Christian Jouhaud (ou o Pierre Bourdieu que ele cita) tem muito interesse se aplicada aos blogues, embora nos blogues se leiam muitas coisas que querem negar a possibilidade de se fazer sociologia sobre eles. Daí a utilidade de pensar os blogues em termos sociológicos. Se será possível fazer essa sociologia "em directo", nos próprios posts, como se quem escreve os posts não fizesse parte do mundo que analisa, já é outra questão.
Outra pergunta que o excerto que adaptei me sugeriu: no século XVII, os textos impressos foram um instrumento de unificação da língua. Será que num futuro não muito distante a língua dos blogues e da internet deixará de ser unificada? Será que essa unificação, em que ainda vivemos, vai dar ou já está a dar lugar a uma multiplicação das ortografias (abandono de certas regras da pontuação, como a obrigatoriedade das maiúsculas, escritas fonéticas)? É possível que sim.
Boas notícias para todos os ideólogos de um novo tipo de racismo, mais sofisticado, tão em voga na intelectualidade de direita portuguesa: aqueles que dão a cada assassino fanático muçulmano o estatuto de representante legítimo de todo o Islão. A generalização de actos individuais a toda uma comunidade é o primeiro passo para a ideologia do ódio.
Bagão confessa que baixa de IRS só se sentirá em 2006
A eficácia dum post que se destina a um público socialmente heterogéneo depende muito da sua capacidade para se prestar a uma pluralidade de apropriações. Operação delicada. Nele deve-se evitar aquilo que Pierre Bourdieu chama de colisão estilística, ou seja o encontro de modos de expressão heterónomos exclusivos entre si, e o seu contrário, o discurso para toda a gente, ou seja para ninguém. Conscientes das distâncias sociais e culturais, muitos bloggers são peritos na diferenciação dos registos. A organização da blogosfera facilita-lhes a tarefa: a escrita visível a todos associa-se a uma compartimentação muito forte, facilitada pela organização em links que torna invisível o conjunto da esfera pública dos blogues. Por outro lado, os blogues têm a vantagem de utilizarem ainda uma língua unificada. Nestas condições, basta aos bloggers mais experimentados pensarem a escrita em termos de efeitos, investindo nela a sua experiência das formas de apropriação, não tanto dos discursos mas das acções e da narração das acções, de harmonia com as ressonâncias e as adesões à actualidade que pretendem manipular. O post reproduz a forma como se encaixam e agem um sobre o outro um espaço definido como comunitário e uma sociedade em que funcionam a diferença e a distância sociocultural. Assim são colocados em perspectiva registos intrinsecamente diferentes. Tal citação literária, carregada de referências eruditas e em inglês, tira a sua sedução, para uns, da sua força demonstrativa; para outros, da ostentação e da mise en scène que provocam um efeito de sideração. Dos dois lados se lhe dará crédito.
(Adaptação de um texto de Christian Jouhaud: Mazarinades. La fronde des mots, Paris, 1985, pp. 81-82)

Austerlitz, de WG Sebald é o maior livro do século XX no século XXI – ou se quiserem, o melhor livro escrito no nosso século sobre o século de onde viemos. Digo "livro", não digo romance, porque está para lá dos géneros. Está até para lá de qualquer controlo do leitor. Aproxima-se de nós, afasta-se, reflui, sobe em crescendos magníficos sobre a história ou prolonga-se em detalhes sobre temas insignificantes. Quando Sebald começou a escrever, depois dos quarenta anos, foi já na plena posse dos recursos literários que demoram livros e livros a ganhar. E quando escreveu Austerlitz, o seu quarto livro de ficção, era um autor supremo. Alguns meses depois teve um ataque cardíaco quando conduzia o carro e entrou na contra-mão. Quando ainda mal o tínhamos ganho, perdemos o grande autor de que precisávamos para estes anos.
Austerlitz foi finalmente editado em português, pela Teorema. Não hesitem em comprá-lo. E não se esqueçam de que a partir das primeiras páginas, quem manda é o homem. O melhor é não lhe resistir.
[Já agora: o que mais tenho a dizer sobre o assunto está neste obituário de Sebald, que coloquei aqui no Barnabé XL por não ter sido publicado na altura. É um pastiche, mas espero que gostem.]
...daqui a uma ou duas semanas aparece para aí um que, enfim, não é o livro do século, mas que não deixa de ser importante, pelo menos para cinco gajos e respectivas famílias.
Esta semana vi “Diários de Che Guevara”. Não gostei. Para beatificações, já me chegam as dos pastorinhos.
Fallujah, hoje
Acabei de ver uma reportagem de um senhor que, na SIC Notícias, passa por jornalista: Henrique Cymerman. Era sobre Barghouti, o homem que, segundo as sondagens, os palestinianos quariam ver a suceder a Arafat. Fiquei apenas como uma dúvida: Cymerman montou a reportagem que o governo israelita lhe deu ou passou-a em bruto?
Muro da Palestina, outra vez a vergonha

Todo o dia andei a pensar naquele Evereste da telenovela, O Bem Amado, de Dias Gomes. E e será sempre a minha preferida, pois quem viu O Bem Amado nunca mais precisará de ver outra novela.
A situação de Arafat parece a trama invertida de O Bem Amado: já sabemos quem é o morto, só não sabemos qual será o cemitério. Enquanto não houver cemitério não poderemos, como dizia Odorico Paraguaçu, "abandonar os entretanto pra tratar dos finalmente".
O caso remonta a Setembro de 2002, quando o jornalista foi testemunha de defesa num processo de tráfico de droga, tendo-se recusado a revelar perante o tribunal as fontes que lhe teriam dado informações sobre o caso, no âmbito de uma investigação jornalística que estava a desenvolver.»
Ministério Público acusou alegados autores de praxe.

Carlos Nô, Andreas #2, 2004.
Na Galeria Municipal dos Escudeiros – Rua dos Escudeiros, nº30, Beja. De terça-feira a domingo, das 14 às 20h.
Devo declarar um "conflito de interesses" em relação este artista e esta exposição: Carlos Nô é meu amigo e escrevi o texto para uma exposição no Porto de alguns destes trabalhos, que lidam com a questão de seres humanos desaparecidos por razões políticas – qualquer tipo de razão política, com origens em qualquer quadrante do espectro político. Deixo este texto aqui, depois da dobra, e aproveito para o colocar também no Barnabé XL, o nosso espaço para textos mais longos.
O que é um alguém
[Rui Tavares]
“Um alguém” (ou “arguem”, por vezes) é a expressão que se utiliza no crioulo de Cabo Verde e da Guiné Bissau quando se quer dizer “uma pessoa”. Além desse uso, “um alguém” serve para substituir o pronome “se” de uma forma análoga à do inglês “one” ou do espanhol “uno”. Num caso em que a frase portuguesa “quando se pensa” pudesse ser traduzida pela espanhola “cuando uno piensa” ou a inglesa “when one thinks”, a frase correspondente em crioulo poderia transcrever-se “kando um arguem ta pensa”. Aqueloutra pessoa é “outr’alguem” e assim sucessivamente.
A primeira vez que ouvi esta expressão fiquei instantaneamente encantado. E de cada vez que medito nela acontece qualquer coisa mais: vão-se descolando várias camadas de significados, como se fossem fibras de plantas ou frutos. Ou vejo as suas possibilidades acumularem-se como se fossem extractos num rochedo. “Um alguém” é ao mesmo tempo neutral e íntimo. Dizer que aquela pessoa é “um alguém” é entender, admitir, que ela é alguém como nós.
Uma palavra nova, ou uma palavra antiga a que damos nova vida, é um pouco como uma substância acabada de descobrir. A pouco e pouco lhe vamos descobrindo cada vez mais aplicações possíveis. Em primeiro lugar, apercebemo-nos de que “um alguém” admite mais espaço para a abundância interna a cada consciência individual. É-nos impossível ser exactamente como outrem; entrar na sua consciência; partilhar da experiência de “ser-se a si-mesmo” de outro alguém. Mas meditar sobre “um alguém” permite-nos considerar a esse alguém melhor na abundância da sua experiência porque nos obriga a compará-lo connosco mesmos. Nós somos um alguém e sabemos que é por isso que condensamos, em cada um, toda a abundância do mundo. Manhãs, insectos, sonhos, dores de dentes – é inesgotável.
Se chamássemos ao outro “um alguém” deveríamos ao menos notar que ele ou ela ou eu é assim – cada consciência com o universo todo dentro dela. Quando se apaga um alguém é como se se apagasse uma lâmpada que alumia sozinha tudo o resto. Parece que estavam erradas aquelas teorias antigas que supunham que era dos nossos olhos – e não do Sol – que partiam os raios que iluminavam os objectos. Mas tinham razão inteira numa coisa: de cada vez que perdemos um alguém perdemos tudo.
Nada é tão importante como manter cada alguém em vida. Logo depois, a segunda coisa mais importante é manter cada um desses alguém em dignidade e conforto. A razão é que, como notou Primo Levi em Se isto é um homem, depois de ultrapassada uma certa linha de indignidade se consegue fazer com que as pessoas deixem de parecer humanas. Aí começamos a correr todos os riscos do mal.
Vós que viveis seguros
Nas vossas mornas casas,
Vós que encontrais voltando à noitinha
A refeição aquecida e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Que trabalha na lama
Que não conhece paz
Que luta por meia broa
Que morre por um sim ou por um não
***
Há umas semanas visitei Carlos No no seu estúdio. Todos os quadros da série que então finalizava eram dedicados à forma mais estúpida e inaceitável do desaparecimento de um alguém. Quando humanos se organizam – e fazem-no todos os dias, em todo o mundo – para fazer desaparecer outros humanos.
Nas paredes iam sendo sucessivamente colocados os rostos depurados de pessoas desaparecidas que nos olhavam de frente a partir da tela. Emergiam de um claro-escuro de apenas dois tons. Os contornos das manchas eram rigorosamente demarcados; alguns rostos inscreviam-se neles com um olhar de pássaros, perscrutador. Talvez fosse incómodo meu: eles pareciam sondar-me. Noutros rostos, para alívio meu, um pequeno gesto quebrava aquela indagação do olhar: pareciam resignados. Seria eu tão egoísta que desejasse esquecê-los? Quis afastar esse pensamento; noutros quadros os rostos começavam a ser cobertos por uma camada branca, quase opaca. Era aflitiva aquela ideia, claustrofobicamente sentida mais do que pensada, de que alguém ali pudesse alguma vez ser esquecido. Mas é bom notar que para esquecer é preciso ter alguma vez lembrado; e isso, ao menos, alguém estava ali fazendo.
Carlos tratava-os pelo nome. Muhammed, Glenda, Andreas. Lembrei-me que ele passa ali horas sozinho com eles. Desenha-lhes os lábios, as sobrancelhas, os olhos. Os olhos.
Perguntei-lhe se em nenhum momento se questionava sobre a relação de intimidade que assim estabelecia com estas pessoas. Disse-me que sim. Que enquanto pintava e, mais ainda, quando se sentava ao fim da tarde, olhava para os rostos e se perguntava que pensariam os seus donos, cada um deles, disto tudo – que estivesse ali um indivíduo que eles nunca conheceram, dia após dia, a pintar os seus rostos.
A certa altura referi-me a algumas destas pessoas usando o passado. O Carlos corrigiu-me: não sabemos se estão mortos, muitos deles estarão certamente vivos. Alguns deles serão algum dia resgatados, tão breve quanto possível. Alegrámo-nos pensando como seria bom poder um dia oferecer-lhes uma imagem que havia tentado, em tempos, evitar-lhes um segundo desaparecimento. Porque se é verdade que quando perdemos um alguém perdemos tudo, é também verdade que se conseguimos salvar outro alguém ganhamos mais um universo inteiro.
[…]
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem forças para recordar
Vazios os olhos e frio o colo
Como uma rã no inverno
Meditai que isto ocorreu:
Ordeno-vos estas palavras.
[Primo Levi, Se isto é um homem]

O Teatro Aberto tem muito bom olho para peças contemporâneas. São uma das companhias portuguesas que tem sabido apostar num teatro inteligente, actual e com gosto pela reflexão política e ética.
Depois de “Copenhaga”, acabam de estrear a mais recente peça do britânico Michael Frayn, “Democracia”, centrada na relação de Willy Brandt com o seu espião Guillaume, e que é simultaneamente uma notável reflexão sobre o funcionamento da democracia parlamentar na Alemanha pós-1945. Aqui encontram uma reportagem do Público sobre o ensaio geral comentado por Mário Soares, e aqui uma entrevista ao autor, realizada aquando da estreia da peça o ano passado, em Londres.
José Saramago recebeu um doutoramento honoris causa na Universidade de Lille na passada sexta-feira. Para mim, que ali trabalho no departamento de português, foi uma ocasião para perceber algumas coisas práticas. Para um pequeno departamento de português como o nosso, a atribuição de uma distinção a Saramago é um momento alto; significa colocar o presidente da universidade a falar da importância que o Português tem para a universidade. Num contexto de redução das saídas profissionais que o Português permite aqui em França, não é pouco. Para os alunos que já conheciam alguma coisa da sua obra, significa poder contactar directamente com um grande escritor que apreciam; para os que o não conheciam, significa o primeiro contacto com a literatura portuguesa. Para o departamento significa também, provavelmente, mais alunos a aprender a língua para o ano que vem. Isto são consequências práticas de um acto altamente ritual e simbólico, cheio de togas e discursos. Questões de imagem, talvez, mas com consequências muito concretas, não quantificáveis, mas que contam para o futuro.
Falo disto aqui porque sei que, em Portugal, dizer mal de Saramago está um bocado na moda, sobretudo desde o Nobel. Como se o facto de a fama de alguém ultrapassar em muito as nossas fronteiras nos fosse insuportável. E, por causa das polémicas internas, talvez a maioria dos leitores em Portugal não tenha a noção de que nomes como Saramago, na literatura, ou Manoel de Oliveira, no cinema, representam para nós um bem inestimável no estrangeiro. São lidos, vistos e apreciados por um número impressionante de pessoas. São das boas razões por que um número impressionante de pessoas aprecia o nosso país. Em momentos como os de sexta-feira passada, representam-nos ao mais alto nível, fazem notícias de jornais, abrem portas para outros autores, abrem o nosso nicho de mercado. Na sexta-feira passada, o verdadeiro embaixador de Portugal na universidade francesa não era o diplomata que ali se deslocou propositadamente para assistir à cerimónia. O verdadeiro embaixador era Saramago, e essa — para além, é claro, de Baltasares e Blimundas — é uma coisa que todos lhe devemos.
Confesso que ainda me estou a refazer do choque. Sim, iludi-me mesmo até à última, especialmente quando as televisões passavam as imagens dos abnegados eleitores do Ohio aguardando à chuva a sua vez de votar. Bush ganhou e a sua vitória é, a vários títulos, uma vitória histórica.
Não sei se confirma a América como uma nação “naturalmente republicana”, mas provou que uma maioria significativa do eleitorado se revê no modelo de sociedade preconizado pelos Republicanos e se sente confortável com a resposta que a administração Bush deu aos problemas do terrorismo e da insegurança.
No entanto, será que o futuro do Partido Democrata passa por uma guinada à direita, por uma assimilação das políticas e dos valores puritanos que foram agora sufragados por 51% do eleitorado? Duvido muito.
Kerry foi um bom candidato e travou a campanha certa: ofereceu uma mensagem de esperança à classe média mais aflita, falou correctamente para as minorias e apresentou um programa de política externa consistente com as tradições liberais e internacionalistas dos Democratas (que podia não ser fácil de condensar em dois ou três soundbytes, mas era a única que um candidato com o passado de Kerry podia apresentar).
O problema, como notava alguém na BBC um destes dias, é que a travou muito tarde. Só demasiado tarde é que começou a atacar com verdadeira energia os aspectos mais controversos da governação Bush, sobretudo as políticas económicas e o Iraque. Antes disso deixou que os Republicanos o trucidassem sem resposta na sua convenção (a seguir a ela, Bush praticamente descolou nas sondagens; Kerry só conseguiu reduzir novamente o fosso depois das suas boas prestações nos debates televisivos).
Também cometeu as suas gaffes, sim senhor. Quando já era óbvio que o terrorismo iria ser o factor determinante na escolha de muitos eleitores, Kerry dá uma entrevista ao New York Times explicando que o que era preciso era “voltar ao ponto em que os terroristas não são o centro da nossa vida mas sim um incómodo” (certíssimo: mas Bush não perdeu tempo a acusá-lo de pretender colocar o terrorismo ao mesmo nível que “a prostituição” ou o “jogo ilegal”).
No entanto, e como nota o sempre optimista Ruy Teixeira no seu blogue, a verdade é que os Democratas alcançaram um resultado notável, especialmente se tivermos em conta que desde 1968 se converteram num partido sistematicamente minoritário (Carter e Clinton ganharam, respectivamente, com 41 e 43 % do voto popular em 1980 e 1992, e desde 1994 que os Republicanos controlam as duas câmaras do Congresso). Mobilizaram c. de 3 milhões de novos eleitores e isso só não foi suficiente porque os Republicanos começaram a preparar esta campanha há muito tempo(desde Dezembro de 2000, mais precisamente). Ainda se lembram do que eram as perspectivas dos Democratas aí por volta de Maio de 2003? Desmoralização geral, sete candidatos às primárias, cofres quase vazios…
Mas a candidatura de Kerry tinha um óbice quase inultrapassável: a completa demissão dos Democratas em relação aos aspectos centrais da estratégia de Bush para combater o terrorismo. Em questões cruciais (Patriot Act, Guantánamo, ataque ao Iraque), os Democratas abençoaram todas as iniciativas presidenciais. O que é compreensível: até há bem pouco tempo, a sociedade americana não estava preparada para ouvir quem lhe dissesse que Guantánamo era uma vergonha. Daqui da Europa, é fácil chamar-lhes cobardes. Mas se em 2002 ou 2004 os Democratas tivessem feito uma campanha “anti-securitária” ter-se-iam arriscado a sofrer uma débâcle ainda maior.
No entanto, apesar da ameaça às liberdades cívicas ser uma questão que pelos vistos ainda não sensibiliza a maioria do eleitorado, seria mau que o Partido Democrata a ignorasse ou, pior ainda, tentasse ultrapassar os Republicanos no seu zelo securitário. Mais tarde ou mais cedo – e isto no pressuposto de que não voltará a ocorrer outro mega-atentado em solo americano – os aspectos mais aberrantes da “guerra ao terrorismo” serão rejeitados pela sociedade americana. Nessa altura os Democratas poderão dar uma expressão política efectiva a essa reacção. E quando o eleitorado começar a sentir as consequências mais nefastas das políticas de Bush (aumento das desigualdades sociais, estagnação económica, possível reintrodução do draft), então não haverá valores morais que valham aos Republicanos. Os Burros voltarão.
Diz o governo que a GNR vai ajudar à realização das eleições no Iraque. Se depois desse para darem cá um pulinho, a ver se conseguem que por aqui também se façam umas...
GNR vai continuar mais três meses no Iraque.
«Álvaro Barreto acha 'normal' a actuação do patrão da TVI [no caso Marcelo]».«Sinceramente era capaz de o fazer», [respondeu quando perguntado se encararia a hipótese de ter a mesma atitude] Público [sem link].
Toda a gente sabe que o 'caso Marcelo' não é a primeira tentativa de calar um colunista em Portugal. O que é espantosa é a naturalidade como este governo escancara a sua pouca familiaridade com a democracia. É esse o perigo desta ofensiva: que a tentativa de condicionar deixe de ser escandalosa e seja normalizada como prática banal. Nesse dia estaremos noutro regime ainda que nem todos nos demos conta disso
1- No Iraque, foi anunciado o estado de emergência que oferece poderes especiais ao governo nomeado pelos EUA.
2 - O Estado de emergência é por dois meses.
3- As "eleições" são daqui a dois meses e meio.
PS: os patuscos GNR's portugueses vão ficar mais três meses no Iraque a gastar dinheiro, comida e espaço para que o governo português continua a viver na ilusão de que temos uma política externa. A sua presença é, evidentemente, de qualquer ponto de vista, completamente inútil.
Uma entrevista de Gore Vidal.
"Loures quer ser em dez anos a terceira maior cidade de Portugal": «Não queremos ter um Centro Cultural, porque já existe o de Belém, mas vamos ter os nossos próprios atractivos», diz o Presidente da Câmara.

Mapa da Civic Space Labs.
O estado da questão por Simon Schama.
Mais: em Nova Iorque, pensa-se em passar uns tempos no vizinho do norte. Entre outras coisas, os antidepressivos são mais baratos. Em Boston, diz-se que os canadianos não os querem lá. Mas uma organização do grande país do Norte promete casar com americanas progressistas para as ajudar a imigrar.
Helena Matos está a falar de Guantanamo ou da prisão de Abu-Graib? Está a falar da diabolização dos árabes ou do "Eixo do Mal"? Não, os nazis, os fascistas, os comunistas são os que acham que Bush deve pouco à inteligência. O que é a prisão sem culpa formada e advogado, a tortura ou 100 mil mortos no Iraque ao pé da arrogância dos europeus em relação a um texano?
Quando Portugal tem finalmente um ministro do Mar, deixa de ter mar.
António da Conceição Tomás é um crítico literário angolano que viveu quase uma década em Portugal, onde colaborou no Público. Actualmente faz o seu doutoramento na Columbia University em Nova Iorque. Hoje deixou estupefactos os seus amigos, entre os quais tenho a honra de me contar (tal como os restantes barnabés), com este relato escrito de raiva. Leiam-no e divulguem-no o mais que puderem. Para que nos convençamos de uma vez por todas a deixar de fantasiar Portugal como um bom país de acolhimento: isto não acontece só aos "outros", aos terroristas. Acontece a alguém que estudou aqui na Católica e no ISCTE, foi apoiado pelo Centro Nacional de Cultura, e é o exemplo de cidadão lusófono que é suposto nós – "nós", estado português – tratarmos preferencialmente. [Este relato irá também para o Barnabé XL]
Amigos:
Tenho de escrever-vos esta mensagem enquanto estou com raiva e vontade de sair pelas ruas de Nova Iorque, a cortar cabeças, montado num cavalo branco.
Como era do conhecimento de algum de vós, esta manhã eu deveria passar por Lisboa, em escala, rumo a Luanda onde participaria num encontro de quadros na diáspora. O meu plano era manter-me apenas algumas horas em Lisboa, mas, posteriormente, sair de Luanda a 11, de modo a que pudesse ficar três dias em Lisboa (e um na Vidigueira para visitar uma professora de italiano), uma vez que a minha passagem para Nova Iorque estava marcada para 14 de Novembro.
(E estava com muita vontade de sair de Nova Iorque, pois as eleições deixaram muita gente consternada, o que tem marcado negativamente o ambiente, sobretudo da minha universidade).
Na tarde de ontem procurei por todos os meios – junto à minha embaixada em Washington, junto ao consulado português em Nova Iorque e junto a Agência da TAP em Lisboa – saber se poderia viajar para Lisboa sem visto, uma vez que deveria apanhar o voo ainda nesse mesmo dia. Foi-me dito que sim, que não precisava de qualquer visto para escalar Lisboa. Mas ainda assim, se quisesse entrar em território português poderia fazê-lo, uma vez que a minha residência caducara em Julho, o que supostamente me daria o direito a uma espécie de ano de graça, desde que os Serviços de Estrangeiros Fronteiras tivessem registado o pedido de renovação que eu tinha feito.
E de facto, esta manhã, às seis da manhã, cheguei ao Aeroporto de Lisboa. Primeiro fui ter com as funcionárias da TAP e foi-me dito que não tinham conhecimento de nenhuma ligação para Luanda; em seguida, tentei passar a fronteira, mostrando a fotocópia da minha autorização de residência. Foi-me dito que não servia; tinha de mostrar o talão. Disse que o tal papel não estava comigo, mas sim com uma amiga e advogada, a Awa Baldé. Disseram-me que não havia problema, desde que conseguisse diligenciar que a minha amiga trouxesse o papel... perguntei se podia usar o telefone ao que me foi dado um rotundo ‘não’.
O que interessava ao funcionário era saber se eu tinha renovado a autorização. E uma rápida pesquisa no computador mostrou que sim. Portanto, parece-me que o talão neste caso se tinha tornado desnecessário, uma vez que ele já tinha tomado conhecimento com a verdade que o papel deveria expressar: o facto de ter renovado o documento.
Então, voltei ao Balcão da TAP, onde comecei uma longa conferência com uma funcionária de nome Vera. Ela disse-me que de facto conhecia o procedimento pois no dia anterior tinha chegado uma senhora dos Estados Unidos, chamada Amélia Cruz, e tinha sido encaminhada para Luanda. Tentei saber mais dados sobre que companhia que tinha a senhora utilizado: a Vera não sabia. Mas acrescentou que o meu nome estava na lista para seguir para Luanda ontem, 4, que se tivesse vindo ontem certamente teria partido. Tentei fazer-lhe ver, pela lógica, que não era possível chegar a Lisboa a 5 e partir para Luanda a 4 – porque o tempo é assim mesmo, não volta atrás. Mas acho que não me compreendeu (e falávamos em português: eu que pensei que fosse ficar aliviado quando pela primeira vez depois de três meses tivesse um burocrata a falar a mesma língua que eu).
Depois da conversa falhada, perguntei-lhe se podia telefonar; ela deu-me um cartão, tirado de um molho onde havia vários, o que me levou a presumir que fossem precisamente para este efeito, em casos como o meu. Telefonei para a Awa, que atendeu prontamente embora não fossem ainda 8 da manhã. A Awa disse que me trazia o documento, era só o tempo para sair de casa e passar pelo escritório.
Às 8:30, os guichets da TAP ficaram vazios. E fiquei horas à espera. Perto do meio dia chegaram as duas senhoras e eu muito calmamente lhes disse que ficaria muito agradecido se me pudessem arranjar um lugar no mesmo avião para regressar às 13:00 (hora de Lisboa) a Nova Iorque. Neste momento, D. Vera teve a luminosa ideia de me dar um papel com os números de telefone do meu consulado e dos serviços da TAAG (Transportadora Angolana) em Lisboa. Eu disse-lhe que era muito tarde, e que estava muito decepcionado pela forma como tinha sido tratado. Disse-lhe que achava estranho que me fosse permitido embarcar para Lisboa sem visto (os funcionários das Companhias Aéreas são muito sensíveis a estas questões) e por isso tinha julgado que houvesse algum plano para resolver o meu caso. E de facto havia: era apenas dizer por que companhia tinha a D. Amélia Cruz viajado no dia anterior.
[Tinha pensado e decidira voltar para os Estados Unidos; porque, primeiro, a se confirmar que não houvesse voo para Luanda na sexta teria de dormir no aeroporto; segundo, ainda que me fosse permitida a entrada em Lisboa, não sei se estaria disposto a passar por tudo o que passei por ter a residência caducada no momento em que vim para Nova Iorque.]
A D. Vera, como prova da sua boa vontade, disse-me que me tinha dado um cartão, procedimento que não se costuma fazer.
Foi-me dado o OK. E assim voltei a Nova Iorque num voo de sete horas em que por sinal de protesto não comi, não bebi, não li e não fui uma única vez à casa de banho. Ah, e para acabar a história: quando cá cheguei encontrei uma mensagem da Awa, em que dizia que esteve no Aeroporto com o meu talão e foi-lhe dito que não tinha sido retido ninguém com o meu nome. O pior é que os do SEF tinham razão: eu não estava retido; só não podia passar ou telefonar.
Este é o resumo do meu dia (terá alguma coisa a ver com o facto de ter vindo a ler ‘The Inferno’, edição bilingue italiano-inglês, de Dante?). Tomem cuidado quanto lerem o tal livro num voo da TAP.
Fica uma pessoa fechada na Universidade a estudar o poder, e a começar a perceber que o poder não emana de um centro, e que o poder não coage, mas que o poder está disseminado, e que as pessoas a ele obedecem voluntariamente. E numa viagem de estudo a Lisboa, numa verdadeira aula prática de Antropologia, vê de facto essa disseminação do poder, que autoriza um funcionário, em nome de uma ficção que se chama fronteira, ter o poder a mantê-la sentada, ou deitada, num banco de ferro, a olhar para o relógio, sem poder ir à casa de banho, por causa da mala, sem poder telefonar. O mesmo para uma funcionária, a quem já é difícil explicar a ordem da sucessão dos dias, poder olhá-la e não ver mais do que medo e desespero e fome talvez e cansaço certamente. E ser humilhada por um polícia da fronteira que deixa toda a gente passar, menos a si, a quem pede que abra a mala, e lhe mostre as suas coisas, e lhe pede para ligar o computador, e exponha o conteúdo do seu estojo de toilette aos olhos de todo o mundo, e folheie os seus livros, em busca de quê? E só hoje, num lampejo de clarividência, que me deu vontade de desatar a correr de alegria pelo aeroporto, percebi porque razão Walter Benjamim se tinha suicidado da forma que nós conhecemos, ao não lhe ser permitido que passasse uma fronteira (penso que em Espanha). O suicídio acabou por ser o único meio pelo qual nenhum guarda fronteiriço poderia exercer poder sobre o seu corpo.
António Tomás
[Depois de lhe pedir para publicar este relato, o António Tomás acrescentou o seguinte:]
Tu não imaginas como eu me sinto. Não me apetece falar com ninguém. Passo todo o tempo a remoer esta história e a pensar nas coisas que não escrevi, como o espanto da mulher por verificar que o meu passaporte era verdadeiro e que o visto não tinha sido falsificado. Acho que por isso não me ajudaram. Só assim percebo tanta indiferença.
Tens carta branca para publicar. A mim também interessa que esta história seja conhecida. Isto é o drama dos milhares de Benjamins que todos os dias tentam cruzar esta coisa estúpida que são as fronteiras, produtoras de tantas arbitrariedades e bizarrias.
Ao não entrar em Lisboa perdi sim muita coisa. Esta semana foi dura (as coisas na Universidade, a política americana) e queria muito estar com os meus amigos - sabes, esta coisa idiota que não reconhece fronteiras. E me foi negado esse direito, em nome de uma merda que é a inviolabilidade do espaço português.
Entretanto, um homem entrou no fosso dos leões de um zoo de Tawain para os converter ao cristianismo. Sentou-se numa pedra, iniciou o sermão e levou uma dentada no braço e outra na perna. Não teve lesões de maior porque os animais não tinham fome. Felizmente, o tratador tinha alimentado os leões naquela manhã.
Perdão: felizmente a divina providência tinha garantido que os bichos tivessem sido alimentados.
Título do Independente: "A aliança secreta de Pedro e Paulo".
Gostei muito do texto de ontem de Pacheco Pereira a desancar num editorial assinado pelo director interino do “Diário de Notícias”. Diz Pacheco Pereira: «Sempre achei estranho que os editoriais dos jornais se transformem em textos de "conselhos" e de "desejos" políticos, particularmente quando eles vão muito para além da análise ou da tomada de posição explícita sobre uma questão ou um problema do país.» Lembrei-me de vários editoriais assinados por José Manuel Fernandes aos quais se poderia aplicar esta frase. Mas assim o exercício seria mais arriscado.
“Nunca nos passou pela cabeça que a PT pudesse ser uma empresa tão instrumentalizável”. José Sócrates
A compra da Lusomundo pela PT foi feita no tempo do governo de Sócrates. Dizer que não sabia que seria assim? Sócrates é um bocado sonso, mas há limites. Além de que o problema não é apenas a participação do Estado. É a TV Cabo estar nas mesmas mãos de quem tem a rede telefónica. É a PT ter dois dos três jornais mais importantes. É ter uma das maiores rádios. Também não se apercebeu desse perigo ou a coragem política só existe em tempos de oposição? E já agora, pretende travar a concentração da propriedade dos media dos privados, ou isso é perigoso mesmo para quem só está na oposição?
Continua-se à espera da declaração da morte de Arafat. Imagino que tanta espera se deva à dificuldade em encontrar um localização digna para o enterro do símbolo da resistência palestiniana aceitável para os israelitas. Na Palestina, até os mortos têm de se bater por um lugar.
Estreia amanhã, na SIC Notícias, à meia-noite, o "Eixo do Mal". Um programa semanal com Nuno Artur Silva, Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia, José Júdice e eu mesmo. Estou peparado para as críticas implacáveis a partir de domingo.
Para ler o artigo de Vasco Pulido Valente, agora no Público. É um pouco apocalíptico e prevê um conjunto de desgraças terríveis (põe inclusive a possibilidade do desaparecimento de Israel) que só parecem descartáveis se não se levar em conta o terrível efeito dominó da asneira.

Só nove anos. Mas isso foi noutro século, noutro milénio – e noutro mundo.
Independentemente do que ache do homem, agora só me interessa prestar homenagem ao povo palestiniano. Que encontrem alguém que os ajude a alcançar a paz, a liberdade, a independência e o direito à dignidade que assiste a qualquer ser humano e que lhes tem sido negado por um Estado que teria obrigação de compreender, melhor do que qualquer outro, a indignação perante a perseguição.
PS: A morte de Arafat foi desmentida pelo hospital. Aguardemos.
O governo civil proibiu uma manifestação de estudantes, poder que não tem nem nunca teve, desde o 25 de Abril. Para completar o cenário revivalista, a PSP foi às associações de estudantes para identificar os responsáveis pelo protesto. Já terão fichas dos rapazes na António Maria Cardoso?
Na Holanda, o cineasta Theo Van Gogh foi assassinado por um fundamentalista islâmico. Um crime violento contra uma pessoa, e um crime contra a sagrada liberdade de expressão. É assim que eu o vejo – um daqueles crimes nojentos que abalam a nossa a crença na humanidade.
E a reacção no Blasfémias do CAA – um adversário inteligente e leal – não me deixa mais decansado. CAA culpa pelo assassinato "os perigos do multiculturalismo". Recapitulando: um fundamentalista mata um cineasta; a culpa é do multiculturalismo.
Sei que estamos a perder uma guerra quando vejo gente inteligente defender que, ao invés de exportarmos as nossas qualidades, importemos antes os vícios do inimigo.
«Esta direcção cessante tem a convicção que foi vítima de uma luta de agências de comunicação que tentam influenciar a informação do poder para obter vantagens» Fernando Lima, na Alta Autoridade para a Comunicação Social. LUSA
O ex-director do DN confirmou aos membros da AACS, que existia "uma carta de lealdade do administrador Henrique Granadeiro" em que se propunha um contrato para que "o grupo soubesse em primeira-mão que notícias iam sair sobre a PT". Fernando Lima, à Alta Autoridade para a Comunicação Social, na LUSA
[Barghouti e Arafat]
Arafat está em coma. Não tivessem os israelitas prendido o líder palestiniano mais promissor, honesto, respeitado e capaz de fazer todas as pontes, Marwan Barghouti, a morte de Arafat, sempre de lamentar do ponto de vista humano, abriria algumas portas políticas para a paz e para a dignidade dos palestinianos. Barghouti não se limitou a lutar contra a repressão israelita. Lutou, dentro de portas, pelos direitos das mulheres, pela justiça social e contra a corrupção que tomou conta da Autoridade Palestiniana. Sem Barghouti, depois de Arafat virá o caos. Israel ainda sentirá a falta dele. Sharon não. É no caos que se sente bem.

William Mortensen, Human Relations, 1932
«A situação [do terrorismo] está um pouco melhor porque agora os terroristas sentem necessidade de se proteger.»
José Pacheco Pereira, Quadratura do Círculo, SIC Notícias.
Santana Lopes inscreveu na sua moção para o congresso do PSD a magna questão das presidenciais. O objectivo é óbvio: pôr Marcelo Rebelo de Sousa fora do comboio de uma vez por todas, enquanto ainda tem o partido completamente amestrado e condicionar o mais possível a candidatura de Cavaco. O problema é que esta é uma estratégia que visa, sobretudo, arrumar a casa e não ganhar as presidenciais. Se conseguir afastar Marcelo e desanimar Cavaco, quem sobra? Balsemão? Por um lado, as sondagens não permitem pensar no empresário como um candidato ganhador, por outro, Cavaco pode muito bem avançar à revelia do partido e assim levar as bases e os seus seguidores cavaquistas. Tanto se estica a corda que ela acaba por partir. Este cenário de confusão só pode beneficiar a esquerda, sobretudo se esta souber contrapor alguma serenidade a este nervosismo, já que é previsível que tanta vontade de condicionar tudo e todos acabará por deixar Santana completamente condicionado.
Kerry reconheceu a derrota sem esperar pela contagem dos chamados "votos provisórios" dos eleitores do Ohio. Ignoramos as razões por que o fez, embora possamos imaginar que não tinha condições políticas para aguentar a reivindicação durante uma série de dias. Isto não invalida que a frase de Edwards, "we will fight for every vote", seja inteiramente justa. Os votos são para serem contados até ao fim. E é de uma espantosa inversão dos princípios democráticos vir dizer, como faz o Luciano no Acidental que "este argumento deve ser considerado suspeito de não acreditar em eleições". Contar todos os votos é até uma boa definição de democracia em termos formais. É por cada voto que se batem os políticos em campanha, e todos os cidadãos que votaram têm direito a que o seu voto seja contado. No fim, o vencedor que não deve não teme. Quem ganhou de facto não tem medo de que as urnas sejam contadas à lupa as vezes que for preciso. A democracia não é um duelo em que a vitória é marcada pelo momento em que o adversário reconhece a derrota. Ela é pura e límpida e aritmética e formal: contam-se os votos até ao fim. Mais ainda quando aritmeticamente o sentido do voto é reversível. Isto para a vitória de Bush de ontem já não tem muita importância: ela é incontestada e parece incontestável, ao contrário do que aconteceu em 2000, exactamente por se ter suspendido por decisão judicial a total averiguação dos resultados. Mas para o que entendemos sobre o que é a democracia tem mesmo a importância toda. Sobretudo se passamos a vida a dar lições da dita ao mundo "bárbaro" e "incivilizado". Não há dúvida: democratas há muitos.
Desta vez Bush ganhou as eleições. Tal como o pai, só vai ter ter essa experiência uma vez na vida.
"A experiência, muitas vezes, do primeiro mandato para o segundo faz com que o segundo tenha uma nova acuidade». Jorge Sampaio sobre vitória de Bush
O Provedor do Leitor do “Diário de Notícias”criticou António Ribeiro Ferreira por este ter escrito por este ter escrito estas dignificantes linhas: «um pide-estalinista vomitou algo na última página do Expresso sobre o autor destas linhas. É assunto para umas bengaladas.» Resposta do senhor: «Solicito que informem o provedor que sou jornalista portador da carteira profissional n.º 231.».
Os resultados quase patéticos de Ralf Nader são a lição para quem julga que as decisões políticas não estão sujeitas a critérios tácticos. Ralf Nader protagonizou o crescimento de uma esquerda liberal e desalinhada que era indispensável nos Estados Unidos. Os resultados de 2000 de Nader não serão estranhos ao crescimento de um movimento contra a guerra que, enquanto a maioria dos democratas descansava, faziam oposição a Bush e à sua política externa. Nader não compreendeu que estava perante uma situação de urgência cívica e que o sistema eleitoral americano, que esmaga todas as minorias políticas, não lhe permitia este passo. Indo às urnas completamente isolado, sem nenhum dos apoios que conseguira há quatro anos, Nader mostrou que não soube fazer a leitura do momento político que se vivia nos EUA. E a cegueira táctica, na política, tem resultados tão desastrosos como a falta de princípios. Com esta candidatura Nader conseguiu apenas reduzir o espaço político da esquerda norte-americana. E não tem desculpas: todos os que o acompanharam, desde sempre, o avisaram. Mas, infelizmente, a vaidade pesa muitas vezes mais do que a racionalidade política. É pena. A esquerda deixa de poder contar com um homem íntegro.
Entretanto, olhar para o mapa eleitoral americano é instrutivo. O hinterland é uma enorme mancha vermelha, republicana, e o azul democrata está reduzido às franjas do litoral oeste, nordeste e dos grandes lagos. Esta franja azul é onde a concentração de grandes cidades é maior, mas o hinterland republicano é sólido – e está para durar. Para já, isso quer dizer que se os EUA fossem o Brasil, o líder da única super-potência mundial seria um coronel de Goiás. Mas quer dizer qualquer coisa mais importante para o futuro: a única hipótese que qualquer democrata tem de ganhar em eleições futuras é garantir que não morre no Sul como agora acontece. A estratégia do partido democrático vai certamente bascular para a sua ala conservadora. A hipótese de um liberal europeízado de uma das costas ganhar é diminuta. A partir de agora, os democratas terão de seduzir o eleitorado conservador do Sul – por exemplo, de alguns dos onze estados que baniram ontem por referendo as uniões homossexuais. Péssimas notícias, por exemplo, para Hillary Clinton.
Essa grande divisão via-se nos debates. Bush, que tinha prometido unir o seu país, destratava Kerry de "liberal do Massachusetts", como se alguém do Massachusetts não fosse um americano a sério. Bush sabia o que fazia. Para o hinterland, alguém do Massachusetts não é mesmo um americano a sério. Kerry nunca poderia arriscar a mesma piadinha com o Texas.
Nada disto teria a mesma importância se os EUA fossem um país qualquer. No mundo de hoje, tem a maior das importâncias porque as grandes cidades (e as cidades universitárias) são o eixo de comunicação entre os EUA e o resto do mundo. As nossas embaixadas lá, como Nova Iorque, Los Angeles (ou Boston) batem com o nariz na porta do resto da América. E continuarão a fazê-lo.
Felizmente, a Europa tem autonomia suficiente para fazer as suas escolhas com a mesma naturalidade dos americanos.
Os americanos preferiam, no que toca à economia e ao emprego, Kerry. Preferiam Bush em matérias como a segurança e relações externas. Porquê? Porque Kerry nunca quis ter uma posição clara sobre estas matérias. Os americanos sentiam-se mais seguros com Bush porque Bush lhes dizia qualquer coisa. Mesmo que o caminho fosse suicida, era um caminho. Já Kerry, era a contradição em pessoa. Passava uma imagem de falta de coragem e de convicção. E os republicanos exploraram a sua fraqueza até ao limite. Kerry foi a favor da intervenção no Iraque e contra a forma como a ocupação foi feita, a favor de Patriot Act mas queria que este expirasse. Sobre Guantanamo nem abriu a boca. O que tinha para dizer aos americanos? Que deviam ter feito exactamente o mesmo, mas mais acompanhados. De facto, há coisas mais mobilizadoras.
Para quem enche a boca com o 11 de Setembro para explicar o voto dos americanos, seria interessante ver como votaram os que realmente foram afectados pelo atentado: New York e New Jersey.
Já acabou? Quase, mas ainda não. Kerry ganhou todos os estados de que precisava para não morrer. A eleição americana está agora empatada a 254-252, com três estados por decidir: Novo México, Iowa e Ohio. Os dois primeiros não mudam nada. Como o Ohio vale 20 votos no colégio, quem ganhar o Ohio é o presidente. Bush leva cerca de 150 mil votos de vantagem, mas a campanha democrática aprendeu com 2000 e não concedeu ainda a derrota, apesar de se começarem a sentir as pressões para que o faça. Como testemunho de que o Ohio é a nova Florida está o facto de que este é talvez o único estado onde ainda se vota a 90% com as máquinas que deram tantos problemas no passado. Muitos votos não estão ainda confirmados. Também do Ohio chegaram muitos relatos de intimidação e contestação legal.
Se a decisão estiver dependente dos votos por correspondência, podemos ter de esperar bastante tempo: aparentemente, a constituição do Ohio diz que estes só devem ser contados quinze dias depois das eleições.
Kerry faz bem em não conceder derrota, o que mostra que está empenhado em não cometer os erros de Gore em 2000. Enquanto as eleições forem tão renhidas como as de há quatro anos, as pessoas devem habituar-se a esperar por que todos os votos sejam contados e recontados. Também isso é a democracia.
Ao reeleger este Presidente, os americanos escolheram ficar sozinhos, contra a esmagadora maioria dos cidadãos do Mundo. É assim a democracia. Faz-se de escolhas.
Bush vai com trezentos mil votos de vantagem na Flórida e parece ter ganho este estado. Neste momento as coisas estão más para o nosso lado. Mas ainda não estão decididas, principalmente por causa do Ohio mas não só. Kerry só pode ganhar se mantiver todos os estados que Gore ganhou em 2000 e ainda ganhar mais qualquer coisa (várias combinações entre o Nevada, o Iowa e o Novo México ou New Hampshire dariam o temível empate de 269-269). Claro que se Kerry ganhar o Ohio será o próximo presidente. Mas George Bush tem uma pequena vantagem nesse estado.
Kerry corre atrás do prejuízo. Para Bush a vitória está mais perto.
Pennsylvania já está nas mãos de Kerry. Mas o futuro do Mundo continua dependente do voto em Ohio e na Florida. Mas o mais impressionante é isto: quatro anos depois, uma guerra depois, um atentado depois, milhares e milhares de desempregados depois, pelo que sabe até agora, os estados que votaram Bush voltaram a votar Bush, os estados que votaram Gore, votaram agora Kerry.
No My DD, blogue democrático, há um belo mapa em flash onde se pode ver os estados que já estão atribuídos a cada candidato e onde podemos brincar à vontade. Se o leitor quiser, pode clicar a Califórnia para Bush e o Texas para Kerry. Uma calculadora vão fazendo as contas ao voto eleitoral.
O mapa mais completo para as eleições está no c-span: aqui terão informação actualizada não só para a eleição presidencial, como para as eleições para o congresso. Vale a pena tê-lo sempre numa janela à parte.
Vão-se entretendo enquanto esperamos resultados mais sólidos.

O essencial da minha posição sobre as eleições de hoje nos EUA não mudou. Há cerca de dois meses escrevi aqui que achava que John Kerry podia ganhar – na altura, a seguir à convenção republicana, ninguém dava dois tostões pelo homem. E escrevi que torcia por isso não só por querer que Bush perdessse, mas também por achar que ter John Kerry como líder dos EUA seria positivo para o mundo.
Não tenho nada contra uma visão impura da fidelidade política. Não voto sempre nos mesmos partidos, e não voto sempre neles por adorar os seus líderes. Esse seria o melhor dos mundos; mas o melhor dos mundos não é certamente o que nos espera se Bush ganhar.
Muito se disse sobre a indefinição de John Kerry e se especulou sobre os perigos dela. Pensando bem, o que é extraordinário é o que não sabemos ainda sobre o homem que está há quatro anos na Casa Branca. Se Bush ganhar, os neoconservadores pagarão pelos seus ou continuarão no poder? Qual será o resultado de uma batalha entre eles e a "direita religiosa" no Partido Republicano? Quem substituirá Colin Powell? Bush aprenderá com os erros do Iraque e tentará reaproximar-se do resto da comunidade internacional? Ou interpretará a vitória como uma carta branca para invadir a Síria ou atacar o Irão? Que mundo seremos se isso acontecer?
Mas na verdade não posso concordar com a opinião do Daniel de que a grande qualidade de Kerry é não ser Bush. Nem passarei a ser contra Kerry no dia a seguir a ele tomar posse. Acho que Kerry será um bom presidente. Parece ser alguém que preza a inteligência mais do que a fé e que conhece e respeita o resto do mundo. Nenhum presidente terá um trabalho fácil no Iraque; Kerry, até pela sua "história de formação" no Vietname, talvez tenha a sensibilidade necessária para a missão. Mesmo em termos domésticos, esta eleição não é tão pouco importante para o resto do mundo como foram outras. Quanto mais não seja porque vai ser um ponto de viragem no debate a nível mundial. Se Kerry ganhar a mundividência neo-conservadora vai deixar de poder comportar-se como se fosse detentora da única verdade no mundo. A asfixia sobre a cultura, a economia e as questões sociais vai abrandar.
Para resumir então. Acho que Kerry pode ganhar. Acho que Kerry será melhor presidente não só do que Bush, mas até do que Clinton. Seja como for, vou ter saudades destas eleições. Há muito tempo que não seguia com tanta atenção uma campanha – mais até do que algumas eleições portuguesas.
Finalmente. Não sei qual vai ser o resultado. Mas tenho a minha previsão maluca: Bush ganhar o voto popular, e Kerry o voto no colégio eleitoral. Não só seria uma bela vingança como deixaria os republicanos loucos. Aí talvez o sistema eleitoral mudasse, talvez os problemas de burlas eleitorais diminuíssem, talvez a democracia americana deixasse de estar tão doente. Isso seria bom para um país de que eu gosto, e óptimo para o mundo.
Temos para horas. A verdade é que nunca desejei tanto que um burro ganhasse. Não confundir com o jumento, é claro.
Quem quiser acompanhar os resultados, estado a estado, município a município, tem aqui o site da CNN. Se a indecisão tomar conta destas eleições, vai dar jeito acompanhar alguns estados à lupa.
Os observadores da OSCE costumam acompanhar processos eleitorais em países que estão a dar passos em frente na construção da democracia. Nos Estados Unidos, pela primeira vez, acompanham um país que, desde há quatro anos, está a dar passos para trás.
A jovem que foi hoje a julgamento por aborto foi absolvida por falta de provas. Os juízes continuam a não aplicar a lei idiota que temos, como quem diz aos políticos: resolvam o problema. Eu próprio defendi ali abaixo que assim o fizessem, mas entretanto alguns comentadores pró-vida fizeram-me mudar de ideias. Vocês é que tinham razão.
Prendam a moça.
Prendam-na por ter engravidado aos 16 anos.
Prendam-na por não ter dinheiro para ir a Espanha.
Prendam-na por ser pobre, por ser suburbana.
Prendam-na por ser desinformada. Por nem sequer saber há quantas semanas estava grávida.
Prendam-na por não ter tido ninguém que lhe pagasse uma ida a uma clínica ou uma parteira. Por ter ficado cheia de medo. Por ter visto que ia ter de largar os estudos. Por não ter contado à mãe. Por ter tomado uns medicamentos, arranjados sabe-se lá como e por quem.
Prendam-na por se ter sentido mal e ter ido ao hospital. Para a próxima aprenda a aguentar-se sozinha, em casa. Aprenda que os hospitais não são lugares de confiança.
Prendam-na por ter explicado tudo aos médicos e aos enfermeiros. Prendam-na por ter confessado aos polícias no próprio hospital.
Prendam-na por ter ficado à rasca, por ter tido medo de contar à mãe, por não ter confiança no namorado, por não querer largar os estudos, por não saber o que fazer. Prendam-na por não querer ficar com a vida decidida aos dezassete anos.
Prendam-na por ter apanhado o susto da vida dela quando fez um aborto sozinha. Prendam-na por ter confiado nos adultos de bata e de uniforme à volta dela.
Prendam-na. Quanto tempo é que é mesmo? Por três anos. Deve chegar para lhe dar uma lição.

Cartoon de Steve Bell.
«A Velha Europa foi obrigada pelos americanos a libertar-se do nazismo». António Ribeiro Ferreira

Cartoon de Steve Bell.
Uma jovem de 21 anos começa a ser julgada por ter abortado aos 17 anos. Era estudante, pobre, vivia com a mãe e o namorado estava desempregado. Abortou sozinha com recurso a medicamentos. Foi denunciada por um enfermeiro do Amadora-Sintra. Confessou tudo à polícia. Esperemos que, mais uma vez, o juíz tenha coragem para contornar a lei e tomar a decisão política que os políticos da maioria cobardemente não tomam.
Os apoiantes de Bush têm que se decidir se querem assustar os moderados ou ser desmancha-prazeres com a esquerda. Porque nada justifica a contradição entre os seus dois argumentos principais:
a) Se Kerry ganhar vai ser tudo uma desgraça;
b) Se Kerry ganhar não muda nada na política americana.
É que, meus amigos, só há uma maneira de compatibilizar estes dois argumentos: defender que se não mudar nada na política americana vai ser tudo uma desgraça. Talvez seja isso que, num lapso freudiano, eles querem dizer contra a sua própria vontade.
«Estou convencido de que se o presidente Bush for reeleito a segunda etapa [da sua administração] não será como a primeira.» Martins da Cruz no programa Prós e Contras da RTP.
Será fanatismo religioso? desespero retórico? uma aposta com amigos a ver quem é que se afunda até ao lodo mais profundo? qual será a origem deste crédito ilimitado?
Pamela Anderson vai lançar um romance. Será em dois volumes?
O João Miguel Almeida, depois de meses de leitura atenta da blogosfera, decidiu-se a criar o seu próprio blogue, o E o esplendor dos mapas. Com, reparem bem, um «e» antes do esplendor. O nome foi tirado do primeiro verso de um poema de Álvaro de Campos: «E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,». O João é um amigo dos tempos da FCSH, um óptimo conversador que vou reencontrando nos corredores da Biblioteca Nacional. Nos posts que já tem escritos, há encontros literários entre Antero e os samurais ou críticas como esta a um documentário do Avi Mograbi, cineasta israelita de que falei aqui há uns dias. Muito bem-vindo, João.
Não tenho uma relação comum com o dia de Todos os Santos. Ninguém que tenha vivido perto de um cemitério tem. Ainda hoje, mais de dez anos depois de ter saído do Bairro Lopes, ao lado do Alto de São João, estranho sair à rua no primeiro de Novembro e não ter de lutar para abrir caminho entre vendedeiras de flores, engarrafamentos e gente de luto. Fora dali, este dia é uma calma de cemitério.
Controleiro amigo (terminada a ironia, o nome "controleiro" é efectivamente horrível),
Gostámos muito da vossa visita e esperamos que estes diazinhos tenham sido bons como vocês queriam, descansativos e despaisantes. O projecto político vai bem, como pudeste ver, embora ainda precise de ser muito acarinhado de modo a poder crescer. Quanto à tua ideia de eu escrever mais e sobretudo sem pensar muito nisso, ela corresponde também às minhas fantasias sobre esse assunto. Tenho escrito imensos posts virtuais. Como na nossa conversa no "Petit Garage" (para nós, e graças aos amigos brasileiros que o frequentavam, será sempre o "Pitchi Garage") — o ensino do português em França e a sua previsível falta de futuro, que é um problema muito actual e preocupante. Mas com o trabalho com que ando e uma certa saturação de ter de escrever, o mais provável é que continue um bocado silencioso ou "à côté de la plaque", como se diz por aqui. Deixo-te ainda assim a tal imagem de capa do "Courrier International" da semana passada.
Putain, mais quatro anos é que não.
P.S. Encontrei também o "cartoon" do Steve Bell sobre o Kerry. Vê ainda os outros dele, são muito bons.
Na sexta-feira, eu e o Rui Tavares aludimos, e tecemos alguns comentários, a um texto do historiador Rui Ramos publicado no Público (“Com Bush por causa de Kerry”). Nesse dia o jornal não o disponibilizou na sua edição on-line, pelo que não nos foi possível fazer um link para o artigo. Posteriormente, Rui Ramos enviou-me a versão completa do texto (editado pelo jornal com pequenos cortes), que podem ler abaixo.
Infelizmente, e como tantas vezes sucede, a janela de comentários dos nossos posts encheu-se de comentários injuriosos para com o autor do artigo. Nós já nos vamos habituando a que nos insultem por dá cá aquela palha, mas não é aceitável que isso suceda em relação a outra pessoa, que não se pode defender neste espaço como nós nos defendemos. Pessoalmente, não me agrada a ideia de poder estar a fomentar um clima em que determinadas opiniões minoritárias (como sucede com o apelo ao voto em Bush na nossa imprensa escrita) são objecto de insultos pessoais violentos.
Este caso deixa-me especialmente desgostoso porque não só tenho amizade pela pessoa em causa, como admiro a sua seriedade intelectual.
Uma correcção: os cortes da versão editada no Público são da responsabilidade do próprio Rui Ramos e não, como por lapso referi ontem, da redacção do jornal.
Versão integral do artigo publicado no jornal Público a 29.10.2004.
Cortes da publicação assinalados entre parênteses rectos
Com Bush por causa de Kerry.
Depois de fazer as contas, descubro que não tenho dez razões para desejar uma vitória de George Bush. Tenho apenas uma: chama-se John Kerry. O senador Kerry, ao contrário do Presidente Bush, não compreendeu ou age como se não tivesse compreendido a questão política fundamental da nossa época: essa é a da defesa das democracias liberais contra a campanha, iniciada por jihadistas e nacionalistas árabes, para condicionar a vida política das democracias e pôr em causa a sua supremacia mundial. [Os jihadistas e os nacionalistas árabes não esperam governar em Washington, em Londres ou em Paris: mas sabem que, através do terror ou do controle de recursos estratégicos, está ao seu alcance desvirtuar o processo político nas democracias, e limitar a sua projecção externa. Querem, de algum modo, tornar-se um factor de poder dentro das democracias, de modo a constituírem um pólo de poder alternativo no mundo.] Só os Estados Unidos da América têm, neste momento, os meios para assegurar a defesa das democracias [contra este projecto político]. Por isso, vejo a possibilidade do senador Kerry arrebatar o poder executivo nos EUA com preocupação. Escrevo, como é óbvio, do ponto de vista daqueles que, sem hipocrisias, querem viver nas democracias liberais, e reconhecem, sem idealismos, que a hegemonia desses regimes, e não qualquer fantasia desdentada de lei internacional, é o único meio para regular a relação entre os povos segundo um princípio de decência. Para o Senador Kerry, o esforço de defesa americano deveria ter-se limitado à caça a um homem nas montanhas do Afeganistão. Kerry não parece entender que a defesa das democracias liberais deve ser pensada em termos políticos e não policiais. A questão não é perseguir terroristas como quem persegue passadores de droga, mas impedir a conjugação entre os inimigos da democracia liberal e um estado dispondo de grandes recursos. Foi assim que, no passado, projectos políticos similares aos dos jihadistas e nacionalistas árabes alcançaram os seus fins. O fascismo sem a Alemanha e o comunismo sem a Rússia seriam hoje obscuras notas de rodapé na história. Ora, não era no Afeganistão que essa conjugação entre ideologia e recursos poderia acontecer. Era no Iraque. Por isso, o Iraque foi e é o campo de batalha de uma guerra necessária. Foram os jihadistas quem atacaram Nova Iorque em 2001, mas era o agressivo estado baathista do Iraque, pelo seu potencial económico e demográfico e capacidade de explorar o ressentimento árabe, a maior ameaça para as democracias liberais. Quem não compreendeu isto, nunca compreenderá nada.
[O projecto dos jihadistas e dos nacionalistas árabes é sobretudo político: é um projecto de afirmação e dominação mundial. O terrorismo deve ser entendido como um dos seus instrumentos. Não estamos simplesmente perante malfeitores ou niilistas, mas perante políticos, por mais odiosos que sejam. Ora, se o projecto de jihadistas e de nacionalistas árabes é essencialmente político, a reacção a esse projecto deve assentar num cálculo político. Pelo seu papel no mundo, às democracias liberais não é dada a opção de ignorar este desafio. É verdade que não estão teoricamente obrigadas a seguir uma via de confronto. Teoricamente, podem escolher entre tentar impedir jihadistas e nacionalistas árabes de alguma vez realizarem os seus objectivos políticos, ou, consentindo na sua realização, estabelecer com a nova entidade política um “equilíbrio de terror”, como aquele que existiu com a União Soviética. Devido à especial agressividade de jihadistas e nacionalistas árabes, à probabilidade de a concretização dos seus objectivos implicar a destruição do Estado de Israel, e ao facto de a sua área de acção incluir recursos estratégicos, os governos das democracias têm parecido convencidos da necessidade de negar ao seu projecto político quaisquer condições para se realizar. Sobre isso, há aparentemente consenso, como se viu pelo modo como os vários governos democráticos declararam concordar no “desarmamento” do estado baathista do Iraque, discordando apenas no que diz respeito aos meios mais apropriados para obter esse “desarmamento”. Ora, o 11 de Setembro, levou] alguns governantes – como o Presidente Bush – a despertarem para o risco de assentar a defesa das democracias em retaliações esporádicas e em regimes de sanções que os baathistas tinham transformado num mecanismo de corrupção internacional. [Kerry foi um dos que não despertou.] Para Kerry, a destruição da ditadura iraquiana foi um erro. A mentalidade de Kerry é hoje um fenómeno arqueológico. Conserva, como as geleiras siberianas conservaram os mamutes, a antiga distracção e cegueira que a Comissão sobre o 11 de Setembro denunciou no seu relatório [como uma das circunstâncias que permitiram a operação jihadista de 2001 em Nova Iorque]. A Comissão descobriu que os serviços de informações americanos coleccionaram, durante meses, as pistas suficientes para antecipar a acção dos jihadistas. Mas porque nunca imaginaram a possibilidade de um atentado como o de 11 de Setembro, escapou-lhes o sentido do que estavam a ver, e subestimaram a ameaça. Foi por isso que, nas origens do 11 de Setembro, a Comissão concluiu que estiveram acima de tudo “problems of imagination”. [De facto, em todas as circunstâncias, precisamos de um quadro interpretativo para dar conta das informações que obtemos. O que a Comissão sugeriu foi que, em 2001, os protocolos interpretativos dos serviços de informação não lhes deixaram perceber que os indícios da preparação de um atentado eram, de facto, isso mesmo: os indícios da preparação de um atentado. É óbvio, no entanto, que não estamos perante um problema simplesmente epistemológico. Trata-se de um problema político.] Prevenir não é fácil. Como a Comissão notou, “é mais difícil iniciar um grande esforço quando o problema parece menor. Quando o perigo se materializa e se torna evidente para todos, é fácil mobilizar – mas pode ser já demasiado tarde”. Bush correu o risco de mobilizar quando o perigo ainda parecia menor. Sofreu enormes pressões, nas chancelarias e nas ruas. Não desistiu, mesmo quando lhe sugeriram que a guerra poderia custar-lhe a reeleição. Quanto a Kerry, basta dizer que, em 1991, se opôs à operação militar autorizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas para repelir a invasão baathista do Koweit. Com Kerry na Presidência em 1991, os baathistas não estariam hoje apenas no poder no Iraque, mas também no Koweit, e provavelmente na Arábia Saudita, controlando metade das reservas petrolíferas mundiais. Kerry é, no mínimo, um homem com “problems of imagination”. Os americanos têm a obrigação de perceber o perigo que é serem liderados por alguém com este tipo de limitação intelectual. [Isto, claro, se tiverem compreendido antes que aquilo que sentem no imediato como um simples problema de segurança, deriva de um problema político, e que enquanto não confrontarem esse problema político, não é com operações policiais nas montanhas da Ásia que estarão alguma vez em segurança.]
O facto de a guerra no Iraque ser necessária [do ponto de vista político] não quer dizer que existam, nas democracias liberais, condições políticas para a fazer. Estas eleições nos EUA deveriam servir para tirar isso a limpo. Infelizmente, Kerry soube turvar as águas de modo a impedir uma escolha clara. É que não há só um Kerry. Há outro: aquele que, depois de declarar a guerra errada, se propõe ganhá-la; aquele que, antes de condenar a guerra, votou em 2002 para a autorizar. Esta ambiguidade induziu um autor tão respeitável como Edward Luttwak a convencer-se de que os pacifistas estão enganados acerca de Kerry. Um Presidente Kerry não só aumentaria o esforço de guerra no Iraque, como até provavelmente invadiria o Irão. Talvez. Mas duvido. Fundamentalmente, Kerry quer ganhar as eleições, custe o que custar: condena a guerra para arrebanhar os votos dos pacifistas, e propõe-se fazer a guerra para reter os que não tolerariam uma desistência precoce. Mas se o seu desejo secreto é verdadeiramente vencer no Iraque, Kerry já fez o suficiente para tornar essa tarefa muito mais difícil sob a sua direcção. Caso seja eleito, Kerry vai ser eleito com muitos votos dos opositores da guerra. Que fará Kerry, quando esses votantes começarem a marchar em Washington, acusando-o de os ter enganado? Será que espera, depois da sua vitória, abandonar aqueles que cinicamente usou para ganhar a presidência, e governar com aqueles a quem acusou de terem errado e mentido? E não terão estes o direito de serem tão cínicos como Kerry? Que fará Kerry quando os antigos apoiantes de Bush descobrirem, com uma inspiração facciosa, que afinal o isolacionismo tem muitas vantagens políticas? No terreno, Kerry também já se garantiu uma vida dura. Bush cometeu certamente erros. Mas nenhum tão grave como aquele de que Kerry, por cegueira política ou artimanha eleitoral, se tornou responsável ao pôr em causa a legitimidade do esforço militar. Os soldados americanos no Iraque são profissionais, que talvez estejam preparados para continuar a matar e a morrer numa campanha que um novo Presidente declarou errada. Mas como reagirão os iraquianos? Durante a campanha no Afeganistão, em 2001, os observadores americanos no terreno fizeram chegar a Washington uma mensagem simples: as populações afegãs, muito compreensivelmente, colocar-se-iam do lado que conseguisse dar a impressão de dispôr dos meios e da determinação para vencer. [Por vezes, acredita-se que, em situações como as do Iraque, prevelece o princípio da luta ou da resistência em nome de princípios. É uma visão romântica. A maior parte das populações regem-se, como seria de esperar em seres racionais, pelo princípio da sobrevivência. Se os jihadistas prevalecerem, não será pela adesão das populações à jihad, mas pela incapacidade dos americanos em criarem a segurança necessária à manifestação de outras opiniões. Da mesma forma, no entanto, é preciso reconhecer que se os jihadistas perderem não será apenas porque os iraquianos estejam animados de fervor democrático, mas porque as armas americanas prevaleceram. Não vale a pena ter ilusões onde as ilusões são descabidas. Estamos perante uma guerra, e as guerras vencem-se, em primeiro lugar, com a aplicação judiciosa e determinada da força. Para alcançar os seus fins,] os americanos terão sempre os meios: a questão está em saber se também têm a determinação. Ora a eleição de Kerry, na situação por ele criada, só poderá aumentar a impressão da falta de determinação americana: animará os inimigos dos americanos, e fará os amigos retraírem-se. [E se isso acontecer, é duvidoso que Kerry consiga seduzir novos aliados a comprometerem-se numa campanha que, sob a sua direcção, será mais dura a todos os níveis.]
[Mesmo sendo a guerra no Iraque uma guerra necessária, não quer dizer que seja uma guerra que possa ser vencida. Ao contrário do que dizia o velho Marx, a humanidade nem sempre se coloca apenas os problemas que pode resolver. No Iraque, os EUA aribuíram-se como objectivo o estabelecimento, não de um regime de ocupação ou tutela perene, mas de instituições representativas e do império da lei num estado independente e soberano. Por causa da inviabilidade desse projecto, que não vou agora discutir, ou por causa da impossibilidade de suportar os custos necessários para o viabilizar, não é de excluir que a guerra do Iraque se venha a tornar numa guerra de que seja necessário desistir em condições incompatíveis com a declaração plausível de uma vitória. Para esse cenário, talvez haja quem pense que haveria vantagens em escolher Kerry agora. Ora, não é verdade que Kerry seja o presidente mais adequado para extraír os EUA do Iraque. Do que Kerry quer, sabemos apenas duas coisas com certeza: que quer ser eleito Presidente em 2004, e que há-de querer ser reeleito em 2008. Por causa do seu primeiro objectivo, não pode dizer agora que deseja retirar rapidamente do Iraque; mas por causa do segundo, talvez nunca o possa sequer levar à prática. Seria um grande risco político para Kerry chegar a 2008 como o Presidente sob cujo mandato os EUA sofreram aquela que os seus adversários apresentarão como a mais grave derrota militar e política da sua história. E passada a memória da presidência anterior, de pouco valerá a Kerry dizer que foi Bush quem iniciou a guerra. Bush haverá sempre de dizer que, com ele, a vitória era provável, sem que ninguém possa provar cabalmente o contrário. A derrota, se a houver, será sempre do Presidente Kerry. De resto, Kerry precisa de vencer no Iraque, até para demonstrar que verdadeiramente, conforme prometeu, tinha um plano melhor do que o de Bush. E é isso que pode dar razão a Luttwak. A um Presidente Bush, bastar-lhe-ia salvar a face no Iraque, e retirar depois: com os seus antecedentes, ninguém se lembraria de o acusar de pacifismo ou derrotismo. Kerry, o homem que em 1971 infamou a acção militar americana no Vietname e que em 1991 se opôs à libertação do Koweit, precisará a todo o momento de provar que não é um fraco nem um “amigo dos inimigos da América”. Precisará, por isso, de vencer a guerra – isto é, de combater no Iraque, mesmo que tudo venha a apontar para a inutilidade desse combate. Lembremo-nos que foram Kennedy e Johnson, presidentes que precisavam de provar que eram anti-comunistas, quem comprometeram os EUA no Vietname, e que foi Nixon, um presidente que não precisava de provar que era anti-comunista, quem retirou do Vietname. Assim, paradoxalmente, até quem se opõs à guerra por razões unicamente relativas à oportunidade e vantagens da operação militar, tem razões para votar Bush. Em relação ao Iraque, Bush terá sempre mais margem de manobra política do que Kerry. Até porque não vai ser reeleito em 2008.
Em suma, com Kerry, será mais difícil fazer a guerra, e mais difícil deixar de fazer a guerra.] Por isso, espero que, mesmo com a falta de vacinas contra a gripe, os americanos escolham George Bush. Apesar de tudo. E por causa de tudo.
Rui Ramos