Sensibilizado pelo drama do “Pedro e da Cecília”, revelado pelo blogue Acidental, o Barnabé lança hoje uma campanha de solidariedade para com as vítimas do soarismo, do cavaquismo e do guterrismo. Os donativos, a entregar preferencialmente aos casais que falharam as últimas prestações do Land Rover, poderão ser depositados na conta “SOS Pedro & Cecília”, na Caixa Geral dos Depósitos, NIB 00072163426041738361.
Isto é muito feio. Então agora os profissionais do humor andam a parasitar o humor alternativo? Haja maneiras.
Chegado ao fim do ano, decidi abrir uma gaveta aqui em casa e procurar nela o envelope lacrado que ali tinha deixado no primeiro de Janeiro. Quebrado o selo, pude recordar as minhas previsões de há doze meses. Eis algumas delas:
"Os chefes de estado da União Europeia terão enormes dificuldades em encontrar um novo presidente da Comissão, porque ora o candidato perfeito não fala francês, ora o candidato ideal não é do partido certo, ora finalmente o candidato imaculado não quer ocupar o cargo. Acabarão por escolher, em desespero de causa, José Manuel Durão Barroso, que aceitará imediatamente." [...] "Portugal perderá o primeiro jogo do Euro, contra a Grécia. Depois ganhará todos os jogos até à final e será nela derrotado pela mesma Grécia. Durão Barroso sugerirá que as vitórias se devem à sua gravata da sorte." [...] "Portugal terá como primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, escolhido por Jorge Sampaio e pelo Conselho Nacional do PSD." [...] "Na tomada de posse do governo vários ministros parecerão surpreendidos com os cargos para que foram nomeados. No fim-de-semana seguinte, um ministro ocupará e despejará das suas instalações outro ministro." [...] "O primeiro-ministro e dois ministros anunciarão em simultâneo a) o encerramento de uma refinaria em Matosinhos, a) a abertura de um período de reflexão sobre o assunto c) a manutenção da mesma refinaria." [...] "A ministra da educação anunciará que os professores serão colocados nas escolas a tempo e horas." [...] "O ministro da defesa e dos assuntos do mar enviará barcos de guerra para impedir a entrada em Portugal de um barco holandês que faz propaganda pró-despenalização do aborto." [...] "A ministra da educação anunciará que os professores serão colocados nas escolas a tempo e horas." [...] "O ministro dos assuntos parlamentares exortará a Alta Autoridade da Comunicação Social a intervir no formato de um comentário semanal numa televisão e depois dirá que não pressionou para o fim desse comentário." [...] "A ministra da educação anunciará que os professores serão colocados nas escolas a tempo e horas." [...] "O mesmo ministro dos assuntos parlamentares inventará o conceito de cabala subjectiva e involuntária." [...] "O primeiro-ministro comparará o seu governo a um bébé numa incubadora sendo agredido pelos irmãos mais velhos" [...] "Estas previsões foram realizadas por Rui Tavares a 1 de Janeiro de 2004, seladas e lacradas perante duas testemunhas. [assinaturas ilegíveis]"
Já sei que os mais desconfiados me vão perguntar porque não divulguei eu estas previsões no início do ano. Pois merecem os mesmos que eu vos pergunte: se eu as tivesse divulgado, vocês acreditariam?
Aos 71 anos, Susan Sontag morreu.
Segue um apelo enviado por uma amiga que está numa ONG na Índia, com indicações sobre como ajudar enviando dinheiro para a coordenação das acções humanitárias no terreno - no caso, no sul da Índia.
"Oi,
Antes de mais, não se preocupem porque estou bem, não se sentiu quase nada na cidade onde estou - Bangalore.
O principal problema no que diz respeito a respostas face a esta emergência é que a coordenação é pouca mas extremamente necessária. Há centenas de ONG que tentam fazer alguma coisa mas completamente cegas no que diz respeito ao trabalho das outras ONG. Juntem à confusão ONG internacionais, agências governamentais e organizações internacionais.
Devido a este caos, o nosso mestre aqui na minha ONG - Murray Culshaw
Consulting - esteve um dia inteiro ao telefone para perceber quem faz o quê, quem coordena e qual a melhor forma de canalizar recursos que vão ser utilizados eficientemente por pessoas que estão no terreno e sabem o que fazer.
O mail que segue diz respeito à célula de coordenação estabelecida na Índia pelas ONG indianas. Elas sabem melhor o que fazer do que as congéneres estrangeiras. Por isso, apelo a que leiam este mail, contribuam se puderem - por pouco que seja (5 euros é significativo em rupias) - e passem a mais gente.
Fiquem bem,
Joana Vasconcelos
O mail que segue diz respeito à célula de coordenação estabelecida na Índia pelas ONG indianas. Elas sabem melhor o que fazer do que as congéneres estrangeiras. Por isso, apelo a que leiam este mail, contribuam se puderem - por pouco que seja (5 euros é significativo em rupias) - e passem a mais gente.
Fiquem bem,
Joana Vasconcelos
As death-tolls begin to rise, nearing 40,000 on the Asian coasts, India has been taken completely unawares and Tamil Nadu, Kerala, Andaman Islands have been badly affected. Many voluntary organisations and the government have begun relief operations to provide support and are mobilising resources.
However, we believe that a coordinated effort on behalf of the NGO community will result in maximum help being given in a timely and organised manner rather than everyone doing their little bit in stray areas.
In order to do this, a Tsunami-South India NGO Coordination Cell has been set up at Chennai, headed by Dr Jacob D Raj and the national contact point at Delhi is Ms Gurinder Kaur. Various voluntary organisations and groups are coming together to help in a united manner to make a difference more effectively.
We urge you to mobilise resources and offer support as best you can. All contributions to the NGO Coordination Cell will be managed by PREPARE, and PREPARE will also be accountable for the same. Two Chartered Accountants (M Samuel Jeyakumar and V Narasimhamurthy) are appointed to be responsible for the NGO Coordination Cell fund management.
Contributions from India may be electronically transferred to
Account No 0017 454796 001 at Centurion Bank Limited, 995 C 2nd Avenue, Anna Nagar West, Chennai 600 040, Tamil Nadu, specifying 'Tsunami Relief Fund -
Prepare'.
Cheques/ DDs may be sent to:
'Tsunami Relief Fund - Prepare'NGO Coordination Cell
No 4, Sathalvar Street, Mugappair West, Chennai 600 037, India.
Foreign contributions may be wired to Account No 520300224 at American Express Bank Limited,187 Anna Salai, Chennai 600006,
Tamil Nadu, India, specifying 'Tsunami Relief Fund - Prepare'.
Swift code : AEIBINDXMAS
Kindly copy all bank intimations to prepare@vsnl.com
We urge you to forward this appeal as soon as possible to the media,
corporates, donors, NGOs and friends.
Thank you.
Present needs are:
1. Funds to support activities - medical aid, housing, counselling,
information centres
2. Human resource/ volunteers to help with various activities - packing, distribution, handling phone calls, managing the centres
3. Health care personnel, doctors
4. Psycho-social counsellors who can speak Tamil and train other locals in counseling
5. Civil engineers to help with construction of houses needed after a month
6. Other materials as mats, blankets, baby food, biscuits, plastic roofing sheets, vessels for cooking, plates for eating, rice, masala/ salt/ chillies, firewood, match boxes, etc.
7. Clothes for children, women and men
8. Groups to organise fundraising activities for this cause.
Information provided by: Tsunami-South India NGO Coordination Cell, Chennai
Circulation by: MCC - Murray Culshaw Consulting mcc@fundraising-india.org
Contacts
Tsunami-South India NGO Coordination Cell
No 4, Sathalvar Street
Mugappair West
Chennai 600 037
India
Phone (Off) +91 44 26244211
+91 44 26357854
Fax (Off) + 91 44 26250315
Coordinator: Dr Jacob Dharmaraj
+91 98402 21710
+91 93801 26090
prepare@vsnl.com
NGO Cell admin.: Mr R Mohan +91 93801 25945
National/ Delhi support:
Ms Gurinder Kaur, Oxfam India Trust +91 9811626727
oxfamindia@vsnl.net
gurinder.kaur@oxfamint.org.in"
Comunicação de Natal de Santana Lopes: «Oxalá tivesse uma varinha mágica» para acabar com os desempregados.
Santana Lopes quer levar campanha a aldeias.
Na sua comunicação de Natal Santana disse que queria que a política fosse mais bonita.
Acabo de ver na TSF que o número de mortos da catástrofe na Ásia já vai em mais de vinte mil. De viagem, sem acesso a noticiários regulares sobre o assunto, fico apenas estupefacto. Andamos nós em guerras, em transe com revoltas, assustados com atentados, e de repente vem a natureza e leva-nos vinte mil irmãos nossos, de vários países, línguas, crenças e fortunas.
Se não for como uma exortação a que nos deixemos de puerilidades sobre "choques de civilizações" e passemos a entender que todas as culturas são potencialmente uma cultura só; que cada cultura é potencialmente todas as culturas e que cada indivíduo traz potencialmente em si todas as ideias do mundo.
Se não for como uma exortação a que nos juntemos todos para dar educação e informação ao maior número.
Se não for como uma exortação a que utilizemos o engenho e a tecnologia da humanidade unida na prevenção possível da dor e do sofrimento.
Eu confesso a minha impotência para interpretar construtivamente esta tragédia.
Se me perguntassem quando é que me converto, eu responderia - talvez um pouco a medo, dependendo do interlocutor - nunca! Mas, numa atitude contraditória com aquilo que sei ser, andarei sempre olhando as fachadas das igrejas brancas de Lisboa e quererei entrar em plena missa do galo para me espantar com as luzes, como menino. E como menino deitarei fora toda a alma - que preferiria, se me perguntassem pela conversão, negociar com Satanás. E ficarei só com aquilo que a igreja não for, com aquilo que ela rejeitar. Ficarei só com tudo o que toca ao corpo, ao sexo, à forma, ao aparato. (A missa do galo a que não fui hoje é a que decorre neste momento na igreja de São Francisco de Paula, rua do Presidente Arriaga, onde habitantes do meu bairro de infância estão reunidos, como sempre fazem, para meu desconhecimento).
Um feliz Natal para todos e que o menino Jesus deixe no sapatinho dos portugueses um bom governo que apesar de tudo lá vamos merecendo, num país mais justo e com mais liberdade para todos. Não é pedir demais de cada um de nós, para o início do próximo ano.
Estive sem acesso à rede nos últimos dias. Quando as coisas se proporcionarem, gostaria de deixar de presente aos leitores do Barnabé uns relatos sobre Goiás e Mato Grosso que terei ainda de transcrever, juntando-lhes uma fotografia ou outra. Não prometo nada, mas a intenção é essa. Veremos se e quando.
Acabo de fazer a minha compilação de natal. Inclui tudo: Band Aid (uma inevitabilidade), Wham, (a canção de natal é a melhor de uma carreira inteira), Chris Rea (um sobrevivente FM), Bing Crosby, Johnny Cash, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Nat King Cole, Yo La tengo, Belle & Sebastian, James Brown, Moody Blues, Bruce Springsteen, Jethro Tull, Peggy Lee, José Feliciano e até um «Merry Fucking christmas» da banda sonora do South Park. Enfim, a cultura ocidental transformada em verdadeira heterodoxia (sempre me inquietou a ideia de ver o Eduardo Lourenço diante de umas miseráveis rabanadas) confirmando o espírito ecuménico da época. Uma sugestão gastronómica: o bacalhau e o polvo não podiam ser metidos no forno, com azeite e alho, em prol de um natal à lagareiro? Ficávamos perto de Portugal e tão cumpridores do déficite de carne. Acho eu.
Ouve-se Bagão Felix e percebe-se, no despudor das justificações, que o problema do deficit não é o das sanções. O pacto de estabilidade está suficientemente desacreditado para alguém exercer retaliações sobre um pequeno país em vias de desenvolvimento, depois de as maiores potências da Europa terem quebrado as regras do jogo. O problema é que passaram quase três anos de governação e o único objectivo visível desta maioria só lá vai com tapumes. É essa sensação colectiva de perda de tempo o verdadeiro pesadelo do nosso ziguezagueante ministro.
«Ninho de Falcão volta à Quinta Avenida de Nova Iorque», última página do Público.
Eu concordo e sugiro ao governo que deixe de fazer encartes de propaganda nos principais jornais diários para pagar as despesas socais do Estado (incluido a divida à segurança social). Bem sei que 100 mil euros não chegam, mas conheço alguns serviços para os quais este dinheiro faria uma grande diferença. Se o governo quer, e muito justamente, exigir rigor e contenção aos outros, não seria mau começar por dar o exemplo.
Hoje, quando vir, em qualquer diário, o encarte sobre o Orçamento a fazer campanha eleitoral ao PSD e aos CDS, leia-o com atenção. Foi você que o pagou.

"[Sou] Democrata-cristã, quer esteja por cima ou por baixo".
Maria da Graça ("Cinha") Jardim numa entrevista à TV 7 Dias, citada pelo Público de domingo.
Pacheco Pereira, velho amigo do Barnabé, refere-se ao facto de Francisco Louçã, Luís Fazenda e Ana Drago não serem mencionados no nosso livro, enquanto ele próprio e George Bush o são abundantemente. Escandaloso! Mas, caro abrupto, estava à espera de quê? Vindo da gente? Então não sabe onde é o nosso mundo? Está a olhar para Saturno? Para cá, para cá é que há-de olhar.
A mim o que me espanta é essa outra coisa extraordinária que o abrupto revela: George Bush é tão citado no livro como ele. Escandaloso afastamento do espírito original barnabita. Eu explico o que nos aconteceu. O problema é que o abrupto meteu-se a heterodoxias e pôs-se a dizer mal do Santana. Mas agora voltamos a ter ocasião para fazer-lhe justiça e nunca mais Pacheco Pereira terá quem lhe faça sombra no nosso top de citações. Cesse neste mesmo instante qualquer despeito: Em Pacheco Pereira é que a gente gosta mais de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta mesmo de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta realmente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta a sério de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta essencialmente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta sobretudo de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta mais que tudo de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta imenso de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta sobremaneira de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta incrivelmente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta afincadamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta descaradamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta obstinadamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta invariavelmente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta abruptamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta superlativamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta particularmente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta bué de bater Em Pacheco Pereira é que a gente não gosta mesmo nada pouco de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta mais que muito de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta mesmo mesmo de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta duplamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta sempre de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta ainda de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta obsessivamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta mais e mais de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta repetidamente de bater Em Pacheco Pereira é que a gente gosta incansavelmente de bater
[P.S. Volto a ter espaço para comentários aqui em baixo depois da introdução de um sistema de registo.]
Assunto: marcação de outra conferência de imprensa para quinta-feira.
a) Viu o tempo de antena do PSD e não se riu
b) Está a rever as respostas às perguntas que lhe foram feitas porque não entende porque lhe sairam todas erradas
c) Eu não sou uma pessoa séria, gosto de me rir com a política, votei PSD e não estou arrependido
Vi ontem o tempo de antena do PS. Vou resumir a comunicação de Sócrates ao País, ávido de saber ao que vem o seu futuro Primeiro Ministro:
O País está mal. O País precisa de mudança. E para mudar é preciso ter sentido de Estado e responsabilidade. Eu quero fazer tudo para que o País avance. Alguns aspectos do actual governo estão correctos e serão mantidos. Outros devem ser corrigidos. O País precisa de se mobilizar. O País tem de acreditar no futuro. Fazer apostas de futuro. O governo não pode estar de costas voltadas para a economia. Vamos começar a mudança. Os portugueses conhecem-me.
E ficámos todos satisfeitos. Isto sim, é um programa virado para o futuro. Eu já estou mobilizado. Basta que Sócrates diga de que raio é que está a falar e eu logo seguirei para o futuro, cada vez mais virado para a economia e sempre com imenso sentido de Estado e responsabilidade, claro. Estou mortinho para mudar isto. Apesar do vácuo político não ser uma experiência completamente nova no nosso País.
Hoje vi Bagão Félix e Santana Lopes na televisão. Era suposto explicarem porque não vão cumprir o deficit, porque contaram com o ovo no traseiro da galinha e porque tentaram mais uma vez enganar a União Europeia com um truque contabilístico que deixava as despesas para um governo futuro. O que tinham para nos dizer? Que o hábito de espetar facas nas costas de Santana e dar estaladas a bébés prematuros se começa a internacionalizar.
*De uma canção de Sérgio Godinho
Para comentar os posts registe-se em www.typekey.com
O meu anúncio de suspensão dos comentários foi lacónico e apressado. Sinto que devo uma explicação mais desenvolvida.
A opção de abrirmos uma janela de comentários aos nossos posts (sem qualquer espécie de filtragem) foi inicialmente pensada como uma maneira de nos submetermos a um escrutínio cerrado, de abrirmos o Barnabé ao agora tão parodiado “princípio do contraditório”. Com o decorrer do tempo, os comentários tornaram-se praticamente inseparáveis da dinâmica do blogue – para o bem e para o mal. Alguns de nós, mas especialmente o Daniel, passaram a ser alvo de insultos sistemáticos, habitualmente feitos em regime de anonimato. Em Dezembro do ano passado, os primeiros comentários começaram a ser apagados. Alguns dos difamadores foram vencidos pelo cansaço; outros hibernaram por uns tempos e depois regressaram com novos pseudónimos. Dada a minha participação mais esporádica – e o meu tom mais manso – fui sempre dos barnabés mais poupados pela ferocidade dos comentadores. Até que há algumas semanas atrás uma referência a um artigo de jornal de um historiador português deu azo a que um certo troglodita invadisse a minha caixa de comentários e iniciasse uma campanha nojenta que, entre outras coisas, apelava à morte da pessoa em causa e de todos os que ousavam exprimir alguma simpatia por Bush e Sharon (Por coincidência, o assassinato de Theo Van Gogh ocorreu mais ou menos na mesma altura). O incidente entristeceu-me. Mesmo que involuntariamente – e a uma escala modesta - não quero estar a contribuir para que um clima de intolerância e intimidação psicológica envenene o nosso debate público.
As coisas pioraram quando um outro bando de Neandertais decidiu utilizar o espaço de comentários do Barnabé para difundir boatos caluniosos sobre algumas figuras políticas. Nas discussões que tivemos entre nós, prevaleceu a posição dos que acham que a melhor forma de lidar com este género de assaltos é ter paciência e ir limpando a porcaria. Eu – e penso que o André me acompanha neste ponto – penso que essa é uma solução pouco prática, que nos obriga a fazer turnos de 24 horas para termos a certeza de que as calúnias não ficam muito tempo on-line. Entre o suposto “capital de participação cívica” (a expressão algo lisonjeira que o Celso inventou para se referir aos nossos comentadores) e o direito de terceiros ao seu bom-nome, pareceu-me que os pratos da balança deveriam pender para este último.
Daí a decisão algo drástica que tomei na semana passada. Ver nisto uma limitação ao debate plural não faz o menor sentido: por um lado, nós não desempenhamos aqui nenhum “serviço público” e, por outro, qualquer pessoa com espírito de iniciativa pode iniciar o seu blogue. Admito que nem toda a gente tenha disponibilidade de tempo para o fazer, mas para muitos dos comentadores “profissionais” do Barnabé o passo que teriam de dar seria bem pequeno. Resmungar pelos cantos não é a mesma coisa que intervir de parte inteira num debate.
Ontem o Barnabé mudou de formato com vista a eliminar alguns dos problemas do velho sistema de comentários - o que desactualiza algumas passagens deste post. Até esclarecer uma ou outra dúvida de carácter mais técnico, manterei os meus posts sem a opção dos comentários.
Por causa da migração para um novo sistema, o Barnabé esteve bloqueado durante um dia. As nossas desculpas. Entretanto, os comentários foram-se acumulando. Novas desculpas. Os comentários que sejam feitos nas próximas horas só são publicados depois de aprovados. É isso que estamos a fazer. Brevemente as coisas mudarão: os comentadores irão poder registar-se e não terão de esperar pela aprovação de cada comentário. Para eles, a caixa de comentários será como sempre foi. Caso não cumpram as regras, perdem o registo aqui. Os que não se queiram registar ou vejam o seu registo negado ou anulado (o que só acontecerá em casos excepcionais) terão de ver os seus comenários aprovados caso a caso.
PS: Quem se queira registar para poder comentar sem esperar por aprovação, faça-o aqui:www.typekey.com. Este registo serve para vários blogues, apenas nos dá a possibilidade de banir comentadores. O registo será automático. Quem o faça pode já comentar sem qualquer moderação (salvo seja).
«Não se pode praticar o catolicismo e a homossexualidade ao mesmo tempo.», Frederico Lourenço, in Pública
Toda a gente que aqui vem está careca de saber que eu sou do Bloco de Esquerda. Pois bem, parece que um putativo entendimento entre o Bloco e o PS é o que está a dar na comunicação social. Antes que me ponham como secretário de Estado contra minha vontade, aqui vai a minha posição sobre o assunto que, mais vírgula menos vírgula, não deve andar longe da do meu partido:
NÃO. O Bloco não fará parte de qualquer governo enquanto a correlação de forças à esquerda for semelhante à actual.
NÃO. O Bloco não fará nenhum acordo permanente de incidência parlamentar.
NÃO. O Bloco não criará condições que impeçam a criação de um governo alternativo ao actual sem antes lhe dar o tempo necessário para mostrar ao que vem.
NÃO. Na oposição, o Bloco não se aliará à direita em nenhumas circunstâncias.
SIM. O Bloco fará todos os entendimentos pontuais necessários para que parte, ou a totalidade, do seu programa seja cumprido.
Desculpem o desabafo, mas as especulações da comunicação social parecem ter dificuldades em entender o que, para mim, surge como cristalino.

O casal Beckham no Presépio criado pelo Madam Tussaud para o Natal de 2004
A um rato morto encontrado num parque
Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas — tão junto ao focinho! —
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário
Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo — com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa — e aos médicos —
ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos — vítima e carrasco
Não tinha amigos? Enganava os pais?
Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.
Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?
Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?

Isto tresanda. Mas agora sente-se o cheiro. Nunca o humor em português teve tanta qualidade. há para todos os gostos. É para a sopeira e para o universitário. Para o bancário e para o intelectual. Mas há que dizer que estes moços há muito mereciam o incentivo. Eu lembro-me de ninguém lhes ligar nenhuma e só, por acaso, por um gag que transpirou para as esplanadas, acabaram por se tornar populares. Eu já vi o DVD, e foi o meu pai, entre gargalhadas, que mo mostrou. Isto diz tudo.
Confirmando que ainda há instiuições com bom senso em Portugal, o Tribunal Constitucional lá chumbou a pergunta do referendo ao Tratado Constitucional Europeu. O PS e o PSD já estão na praça pública a trocarem acusações quando ambos aprovaram a pergunta. A culpa como sempre acabará donzela.
«Adolfo Hitler não pagou impostos entre 1925 e 1935 e defraudou o estado alemão em mais de 405 mil marcos.», in Público
Tinha pensado escrever coisa articulada e longa sobre a questão dos comentários, mas afinal saíram-me só uns ésse-éme-éssezitos. E, como sou uma alma sensível, acabei por não publicar nada. Preferi enviá-los a um amigo, que, por sua vez, não lhes viu interesse e apagou. Portanto, foi-se. E também eu me vou, desblogando um bocadinho, preparando a minha viagem natalícia até à santa terrinha. Se não nos falarmos antes, bom natal e bom ano.

O piqui é uma planta [Caryocar brasiliense Camb. Família caryocaraceae] que dá um caroço amarelado depois de seco ao sol. Em Goiás e Mato Grosso faz-se um arroz de piqui ou um frango de piqui, que fica com um gosto base seco e um pouco doce. A princípio parece que o paladar é coisa pouca – e até é – mas depois fica um gosto agradável na boca por horas, mesmo quando – como mandam as regras – se escovam os dentes após a refeição. O cheiro do piqui também não é forte, mas impõe-se. Se alguém no prédio cozinhar piqui, todos os vizinhos darão conta. É uma planta humilde, esforçada, trabalhadora, um pouco seca mas simpática – características também dos habitantes das regiões onde ela é apreciada.
Com um particularidade. Para se comer o piqui, há que tirar lascas do seu polme com um faca, ou roê-lo na ponta dos dentes. Não se pode morder o seu centro, que é feito enorme quantidade de espinhos que se soltam e espetam na boca, lábios e língua. Em Goiás são comuns as histórias sobre políticos grandes, candidatos a qualquer coisa vindos em campanha de outras regiões do Brasil, e que mesmo quando avisados pelos locais resolveram numa bravata fincar os dentes num caroço de piqui – acabando, naturalmente, no hospital mais próximo.
Parto hoje por alguns dias para as regiões do piqui. Só sei que passaremos por Goiás Velho e tentaremos chegar a Cuiabá, capital do Mato Grosso. Se encontrarmos uma aldeia xavante ou boróró sem shopping, papai noel ou música de jingou-béus, pode ser que eu fique por lá. Mas onde houver um modem e uma linha de telefone, hei-de ir mandando novidades para o Barnabé.
Em vez de apoiar alguém, Pinto da Costa põe a possibilidade de se candidatar à Câmara Municipal do Porto.
Beneficiários do Rendimento Social de Inserção recebem em média pouco mais de um euro por dia
Confesso que não sou grande fã de debates no Barnabé sobre o Barnabé. Ainda assim, devo explicações. Porque deixo os comentários? Porque num país onde escasseiam os espaços de debate para o mais comum dos cidadãos eles fazem falta. Porque gosto que me confrontem com as minhas opiniões, encontrem as minhas contradições. Porque esse desconforto é o teste que faço às minhas opiniões. E recuso-me a ceder a quem não sabe debater. Por isso, cá continuarão. Tento apagar o que posso, sobretudo para que ninguém use este espaço para a difamação. Detesto, acima de todas as pessoas, cobardes. Por mim, continuarei a escrever o que quero, assinando com o meu nome e assumindo o que escrevo. Acabar com os comentários é o objectivo de quem os usa para despejar o que seria incapaz de dizer em público.
Reconheço ao André e ao Pedro o direito de não os quererem ter enquanto o problema não for resolvido de uma forma tecnicamente viável, para melhor combater os terroristas da opinião. Usando a mesma metáfora (e trata-se de uma metáfora), calar todos para calar os terroristas é fazer um favor aos terroristas. Na blogosfera e fora dela. Entretanto, sempre que não se consiga apagar imediatamente a difamação, solicito aos comentadores que a ignorem e nunca lhe respondam, recusando assim contribuir para a sua credibilidade. Gosto dos comentários, gosto de trocar ideias com os leitores e gosto até de ser insultado (como diz o Rui) com conteúdo. A exposição é isso mesmo. O debate é isso mesmo. A democracia é isso mesmo. Mesmo que alguns sejam incapazes de a compreender.
A discussão sobre os comentários é uma discussão sobre a discussão na internet. Ela interessa-me muito. Se tivesse tempo, fazia um blogue exclusivamente sobre isto. Volto ao tema dos comentários, para responder ao post mais recente do Celso e a outros ecos (os que pude acompanhar) sobre isto. Primeiro, um esclarecimento que é preciso fazer as vezes que for preciso: a opção de suprimir os comentários nunca foi discutida entre os barnabés. Discutimos apenas sobre o que fazer face à perversão daquele espaço por uma minoria. Perante isso houve aqui quem suspendesse, houve quem não o fizesse. SUSPENDER, não suprimir. E houve duas pessoas em cinco que suspenderam, não o barnabé. Quem quer discutir sobre isto nesta base, eu acompanho. O resto, não é discutir este assunto, mas outra coisa.
Segundo, não sei se os comentários fazem parte da identidade do barnabé. Mas queria dizer ao Celso que não são eles que trazem a interactividade. Ela está inscrita neste meio que é a net. Sem comentários, o barnabé continuaria interactivo, dialogando com os outros blogues. O Celso fala de não pactuar com ataques à participação e democracia e eu estou de acordo. Mas isso não deve servir de desculpa para nos tornarmos acríticos em relação ao meio em que participamos, neste caso os blogues. E, no caso particular dos comentários, é importante que o apelo à participação e à interactividade não impeça que tomemos consciência dos seus limites. Quando digo isto, não estou a falar da qualidade dos comentadores (embora haja bons e maus, honestos e desonestos, como em tudo na vida), estou a falar da qualidade do formato. Trata-se, se quiserem, de uma questão de software (ao qual se ligam as questões éticas). Vou tentar escrever depois uma coisa mais longa e articulada sobre isto.

"Quando se foi inequivocamente o filho predilecto da sua mãe, guarda-se esse sentimento conquistador por toda a vida, essa confiança no sucesso que, na realidade, raramente deixa de chegar". [Sigmund Freud, referindo-se a si mesmo, em A interpretação dos sonhos]
[Meu caro, foi esta a frase sobre ti que descobri hoje]
Jacinto Serrão (PS/Madeira) – Diz que discurso de Jardim faria "adormecer rinocerontes".
Jaime Ramos (PSD/Madeira) – Diz que presidente socialista é que é "rinoceronte", "gatuno" e "burro".
Jacinto Serrão (PS/Madeira) – advertindo Ramos para não entrar pelo "caminho da zoologia" e acusou o líder da bancada social-democrata de chegar a "milionário ao fim de dez anos", quando antes era "vendedor de sifões de retretes". "Onde arranjaste o dinheiro?", questionou.
Site do CDS/PP comenta fim da coligação.

[Imagem retirada do Alcagoita.]

Há muito tempo que tenho prometido aqui para o Barnabé um texto sobre Haruki Murakami, um escritor japonês das minhas preferências. Só que o "Deus dos Recibos Verdes", como lhe chamou Pedro Mexia num momento de exactidão, não me deixa descansar nem um minuto sequer e não tem havido tempo. Disso se ressente a minha participação no Barnabé.
Enquanto não cumpro com o que prometi, sempre vou dizendo que 2046, de Wong Kar-Wai, é um filme de ambiente murakamiano. Sem intenções de esgotar o tema, eis alguns dos sinais do filme que são também recorrentes na obra do escritor japonês:
– Hotéis antigos; hotéis antigos que se transformaram misteriosamente; uma sala ou um quarto num hotel que estão fechados e à volta dos quais uma história não consegue deslindar-se; quartos de hotel vazios que são eixos espacio-temporais;
– Relações entre a China e o Japão [vice-versa em Murakami]; casais sino-nipónicos; traumas da invasão japonesa da Manchúria; ex-soldados chineses [ou japoneses] com marcas dessa guerra; incompreensão desses traumas por parte da geração do pós-guerra;
– Homens solitários desempregados que escrevem ou têm sub-empregos relacionados com a escrita; divorciados; jornalistas free-lance; homens com muito tempo livre, à margem da sociedade laboriosa do Japão [ou da China]; homens numa encruzilhada, depois de uma separação, despedimento e/ou mudança de cidade;
– [ainda relacionado com o último ponto]: a escrita de qualidade medíocre como forma ganhar a vida; encomendas de artigos para encher papel; livros comerciais de ficção científica ou artes marciais [este último ponto é mais Wong Kar-Wai do que Murakami, adiante]
– histórias em dois planos; um plano real, que é falso ou oco, e um plano da imaginação, que está na raiz da verdade das personagens; um plano do passado e um plano do futuro.
Estou certo de que há ainda mais temas recorrentes entre os dois. Já vi o filme há uns bons tempos e não me lembro de tudo. Uma das coisas que compartilho com esses dois autores é o amor da literatura comercial, de ficção científica ou de aventuras, que lia quando era adolescente e está ainda na base das minhas influências. Desses tempos ficou o gosto de, além de ter uma relação de reflexão com a literatura, investir emocionalmente na identificação com os detalhes temáticos recursivos em certos autores [Edgar-Pierre Jacobs: os túneis e as maquinarias; Ray Bradbury: a infância; Karel Capek: os recortes de jornal, as redacções com jornalistas preguiçosos e sem notícias, etc.]. E tanto Murakami como Wong Kar-Wai são dois autores de referência que têm ainda esse gosto da construção de um mundo próprio.
Queria agradecer as sugestões que nos têm chegado para resolver o problema dos abusos que têm aparecido. O problema da "netiqueta" existe desde que existe internet, não é de agora. É bom que quem escreve nos blogues e nas caixas de comentários tome consciência de que a "realidade virtual", apesar das aparências, não está fora do mundo. Não falamos sobre o mundo a partir de fora. Somos o mundo (e, já agora, nesse mundo, a difamação é, justamente, um crime punido por lei).
Pacheco Pereira explicou finalmente, no programa Quadratura do Círculo, a razão porque vai votar em Santana Lopes. É militante, acredita na regeneração do partido e ou esta acontece ou o partido fica acantonado de vez (as palavras não são exactamente estas, mas é esta a ideia). Lamento, mas não percebo a lógica disto. Quem andou meses a falar no pobre país que estava entregue à bicharada, a dizer que Santana Lopes era errático, inconsequente e populista vai fortalecê-lo nas urnas? é votando na podridão que se regenera o partido? Se ele dissesse simplesmente que era militante e que isso o obrigava a uma lealdade eu calava-me já. Assim, é o seu próprio discurso que é errático e inconsequente. Só há uma maneira de o PSD se regenerar: é Santana Lopes ter uma esmagadora derrota nas urnas. E pelo que vem dizendo e pela coragem de o ter feito, Pacheco Pereira tinha todo o direito de dizer «Meus amigos, eu gosto muito do partido, mas ainda gosto mais do país.» Nos próximos meses, muitos eleitores do centro-direita - aqueles que sentem que Santana Lopes nos continuará a fazer mal a todos - vão ter de fazer esta escolha patriótica entre o partido e o país. Pensei que Pacheco Pereira era um deles.
Tinha o Barnabé poucos meses quando houve um debate sobre os comentários, se não me engano em conversa com o Ivan Nunes d'A Praia. Era aquela velha história de a maioria dos blogues de esquerda terem comentários e os de direita não. O Ivan, de esquerda mas sem comentários no blogue dele, era uma excepção – tal como o Blasfémias, de direita e com comentários, é outra. Eu tentava desmistificar essa dicotomia esquerda-direita e dizer que é uma questão de gosto. Há quem goste de ter a casa arrumadinha, e há quem goste da Casa da Mãe Joana. O Barnabé, pela sua história, é a Casa da Mãe Joana, mas dizia eu (não vou citar porque a máquina de pesquisa da Weblog está em baixo) qualquer coisa como: mesmo na casa da Mãe Joana, se mexerem nos CDs do Celso ou bulirem com o mau acordar do Daniel é possível que sejam corridos com dois ou três berros. Não há Casa da Mãe Joana que aguente um gajo aos pontapés nos móveis.
Acho que já toda a gente percebeu que estamos na fase dos berros, ou até mesmo de correr a pontapé esse bando de skinheads que nos entrou porta adentro, violentando a liberdade de todos.
Para que os leitores tenham noção da seriedade da coisa, vale a pena explicar uma coisa a título de exemplo: neste momento, 9 em cada 10 dos comentários que eu tento escrever simplesmente não entram (ler uma explicação neste post do Paulo Querido). Enquanto eles difamam gente nas caixas de comentários, nós nem sequer conseguimos responder-lhes lá em baixo. Entretanto, gastamos o nosso tempo a apagar lixo. E dos comentadores sérios do Barnabé, já muito poucos conseguem aguentar.
Vamos procurar arranjar solução técnica que nos permita fazer face a isto sem perdermos o nosso tempo e a nossa paciência. Mas no entretanto, se a situação de emergência requerer que os comentários sejam suspensos, teremos de o fazer. Não podemos pactuar por omissão com a difamação de pessoas. Mas vocês também podem ajudar-nos: comentando mais, com mais qualidade, não cedendo ao baixo nível, mostrando a esses tipos que eles estão em minoria. Dos quatro mil e tal leitores que temos por dia, talvez nem meia centena de pessoas escreva comentários. Desses, uma maioria ainda faz bons comentários. O problema são meia dúzia de comentadores, quem sabe se o mesmo sob vários pseudónimos, quem sabe utilizando scripts automáticos, reproduzindo centenas de vezes os mesmos comentários.
Vale a pena falar acerca do assunto, porque ele é um desafio para toda a gente que gosta de debater, e em particular um desafio para a esquerda. Posso estar enganado, mas não vi nunca um blogue de direita a ser vítima deste tipo de ataques reiterados por parte da esquerda. Já os blogues de esquerda padecem destes ataques por parte de gente que – e quero deixar isto bem claro – não representa a direita, mas que é certamente de uma direita na qual gente decente não se revê. E cujos ataques, como é evidente, irão aumentar com a proximidade das eleições.
Não me espanta a falta de escrúpulos nem de capacidade argumentativa destes tipos da RIAPA desde o tempo em que atacavam o Blogue de Esquerda como fazem agora com o Barnabé (não tenho problema em dizer-lhes o nome e dar-lhes publicidade; eu até acho que a melhor estratégia nestes assuntos é mesmo falar). Mas estou espantado com o desespero. O desespero de poderem vir a ter um governo de esquerda que os leva a querer difamar políticos de esquerda num blogue de esquerda. A esquerda, dizem eles, é um nojo e um covil. Mas como a eles ninguém os lê, gostam de vir para aqui alimentar os seus boatos com os leitores dos blogues de esquerda.
A vontade de inquinar o ambiente é clara. Eles sabem-na toda, são até profissionais. Não querem ganhar discussões; querem impedir mesmo que se discuta. De caminho, querem que o voluntarismo e a boa disposição que fizeram o Barnabé desapareçam.
Eu digo: comigo não, passarão. E convido-vos a que façam o mesmo: autores do Barnabé ou outros servos da bloga, leitores e comentadores. A começar agora.
Também eu decidi suspender a minha janela de comentários a partir de hoje.
Creio que as razões são bastante óbvias: não quero dar cobertura a insinuações caluniosas e insultos gratuitos, a maior parte dos quais feitos sob anonimato. É uma questão de higiene.
O André resolveu tirar, pelo menos por agora, os comentários dos seus posts. É provável que outros, no Barnabé, o sigam. Os meus, por enquanto, ficam. Custa-me tirar a todos os que usam com lealdade as caixas de comentários a possibilidade de dar a sua opinião e premiar assim quem quer boicotar um espaço de discussão. Mas se o espaço continuar a ser usado para difamar pessoas, terei de seguir o mesmo caminho, até melhor solução e seguro de que essa solução acabará por aparecer. Não tenho vida para passar o dia a apagar lixo. Veremos.
«Poderosos que não estavam habituados a que se tocasse nos seus privilégios» Pedro Santana Lopes
«Irresponsáveis são os que fogem. Incompetentes são os que fugindo deixam o país à beira do pântano» Pedro Santana Lopes
Santana vale tanto eleitoralmente que mendiga junto de um partido com 8% uma coligação. E ele dá-lhe uma tampa.
Pedro e Paulo: Prometidos para um casamento que nunca se consumará.
Eu gostava de ser hacker, por exemplo, para não depender de forma tão básica das empresas de telecomunicações. Como esta, propriedade da France Telecom. Em França, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, são a mesma tanga. Baixo preço, mas desrespeito total pelo consumidor. Quando há "problemas técnicos", chamadas a preço acrescentado pagas pelo cliente que não tem culpa, total opacidade e falta de informação, recomeço a cada nova tentativa. O poder, o responsável, aquele a quem devíamos poder pedir contas, está lá longe. Pertinho está o atendimento personalizado, a tanga comercial amável. Podemos saber o nome do empregado da empresa e ser tratados pelo nome: ninguém segue verdadeiramente o nosso caso.
Aqui há uns anos eu tinha descoberto um programa de esquerda sobre a segurança bem fixe. Prometi explicar e nunca mais consegui. Não é agora. No entanto, digo qualquer coisinha: o que eu gostava era de ser hacker. Não um hacker daqueles que a gente ouve falar na televisão, e que são uns mauzões. Esses na realidade são os crackers, uns exibicionistas que só querem destruir. Os hackers verdadeiros são o lado bom da força do hacking — aqueles que querem converter os problemas de insegurança em segurança colectiva nas redes informáticas. São os hackers de chapéu branco. Têm um grande sentido ético, promovem a partilha de informação e software, a autogestão das redes. São anti-monopólios e a favor da transparência e do controlo das redes por consumidores-programadores conscientes.
É claro que eu disto de hacking não percebo nada nem nunca perceberei. Mas o The Hackademy Journal, jornal impresso feito por jedis do Hacking, deu-me a noção de que pode haver coisas interessantíssimas hoje de que um gajo não pesque nada: nem os títulos do jornal, nem as referências, nem as piadas, nada. Não percebe mas percebe que é muito interessante, e que é talvez um discurso novo, politicamente muito livre, que por aí anda, onde haveria propostas, textos programáticos (como se dizia) a ir buscar. Talvez noutra encarnação.
Como nos últimos tempos tenho passado mais tempo a tentar distinguir entre os comentários que são para apagar e os que não são do que propriamente a lê-los, decidi suprimir a opção de comentar nos meus posts, incluindo este mesmo. Reservo-me o direito de prolongar no tempo esta opção, até quando me pareça necessário. E é até provável que me pareça por bastante tempo. O formato é mau, permitindo a difamação impune. Depois, há o problema ecológico do blogolixo (uma minoria ruidosa, mas uma minoria). O qual tende a contaminar de lixo todo o espaço, prejudicando todos os outros que são limpinhos. A estes as minhas desculpas. É porque não os confundo que vos peço que continuem, se vos apetecer, a enviar-me sugestões e críticas para o nosso email — barnabe@yahoogroups.com.
Estou a ver uma manifestação em Canas de Senhorim. Há mais polícias que manifestantes. Com tanto polícia acho que já têm população suficiente para serem concelho.
Público on-line às 7.28: Socialistas rejeitam PCP mas aceitam Bloco.
Público on-line às 9.27: José Sócrates desmente possível entendimento com Bloco de Esquerda.
Saí de Portugal ainda não faz duas semanas. Já foi dissolvida a Assembleia da República, convocadas eleições, demitiu-se o governo, o FCPorto ganhou a Taça Intercontinental e agora até houve um sismo. Reconhecerei o país?

Vai com certeza deixar saudades o embaixador José Calvet de Magalhães, falecido hoje aos 89 anos de idade.
Num blogue como o Barnabé este obituário pode parecer algo bizarro, mas não resisto a render-lhe aqui a minha homenagem. Há três anos atrás, tive a sorte de o conseguir entrevistar, com uma colega, na sua casa no Estoril, ainda estava ele de boa saúde. Falou quase ininterruptamente durante quatro horas, deixando-me exausto. No fim, saiu-se com esta: “Então, já não tem mais perguntas?”
Calvet de Magalhães entrou para a carreira diplomática em finais de 1941, com a II Guerra Mundial ao rubro. Se não me engano, teve algumas simpatias “nacional-sindicalistas” durante a sua juventude mas nos corredores do MNE era geralmente conhecido como um homem de inclinações liberais, ou mesmo “de esquerda”. Durante o Estado Novo, isto queria dizer que simpatizava com as democracias anglo-saxónicas e a integração europeia. Enquanto diplomata, distinguiu-se pela sua missão na China (era cônsul em Cantão quando Mao chegou ao poder), pelo envolvimento nas questões europeias (EFTA, Mercado Comum) e nas relações bilaterais com os Estados Unidos da América (foi ele quem negociou o acordo de Defesa de 1971, que regularizou a presença americana nas Lajes). Aluno de Marcelo Caetano na Faculdade de Direito de Lisboa, ainda acalentou esperanças de que o sucessor de Salazar pudesse reformar o regime por dentro e operar uma viragem na "política ultramarina". Na entrevista que me concedeu em 2001, deixou-me uma imagem extraordinariamente vívida do desalento final de Caetano, desiludido com todos os que o rodeavam e profundamente amargurado com as posições assumidas pela Igreja católica – ao ponto de ponderar uma conversão ao Protestantismo!
Após o 25 de Abril, o então ministro dos Estrangeiros, Mário Soares, impediu que se efectuassem saneamentos no MNE – a experiência da I República fora desastrosa a esse respeito e havia que sossegar os nossos aliados ocidentais. Calvet foi mantido como secretário-geral do MNE e depois enviado para o Vaticano, onde negociou uma importante revisão da Concordata (aquela que veio permitir o divórcio dos católicos), com a ajuda do então ministro da Justiça, Salgado Zenha. Disse-me que nunca tinha conhecido diplomatas tão astutos e competentes como os cardeais da Santa Sé.
Após a reforma no início dos anos 80, esteve longe de permanecer inactivo. Deu aulas e palestras, esteve ligado a várias instituições, como o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, e publicou muito: livros de história diplomática (nossas relações com o Brasil e Estados Unidos, participação portuguesa na ONU e na construção europeia), memórias (a sua missão em Cantão), biografias (Antero, Eça, Garrett), manuais de diplomacia.
Jornalistas e historiadores recorriam com frequência à sua memória de elefante: era incrível ouvi-lo descrever o ambiente que se vivia na Sala da Cifra durante os anos da guerra, ou evocar as disputas entre Salazar e alguns dos seus embaixadores menos dóceis. Calvet falava com imenso desassombro da vida diplomática e não tinha medo de emitir opiniões politicamente incorrectas (sobre o caso Aristides Sousa Mendes, por exemplo). Um americanófilo assumido (a sua mulher era norte-americana e o seu filho vivia no outro lado do Atlântico), foi altamente crítico da última intervenção dos EUA no Iraque, posição aliás coincidente com a de outros liberais conservadores, como George Kennan, o decano dos diplomatas americanos.
Se pudesse recomendar um livro de Calvet de Magalhães, a minha escolha recairia em Diplomacia Doce e Amarga (Lisboa, Bizâncio, 2002), um volume que lembra muito os contos de Lawrence Durrell da série Antrobus. A qualidade das histórias é muito variável, mas há pelo menos uma («A Polónia Restituta») que me fez andar com um sorriso nos lábios durante dois dias inteiros.
Portas disse no sábado que não aceitaria trabalhar com outro primeiro-ministro. Hoje a comunicação social diz que Santana queria sair e passar o cargo para Álvaro Barreto. Quem contou à comunicação social? Quem ganha com esta imagem de instabilidade de Santana? Percebe-se facilmente porque não há coligação.
Santana demitiu-se. A terra tremeu a 177 km a Sudoeste do Cabo de São Vicente.
Para mostrar como passamos por três fases para reconhecer uma cara, a revista “Nature Neuroscience” fez um morphing entre a cara de Margaret Thatcher e de Marilyn Monroe. Mais do que o estudo, dado a conhecer pela BBC, impressionou-me o facto de Thatcher poder parecer sexy. Mas nunca lhes perdoarei o que fizeram a Marilyn. Para esta gente, nada é sagrado.

Golo anulado
Presidente anulado
Futebol anulado
«Vamos para estas eleições de cara lavada»
Vítor Cruz, porta-voz do PSD
Paulo Portas, respondendo se ia ou não em coligação com o PSD: «sei exactamente o que quero e para onde vou. Mas também aqui quero marcar a diferença: primeiro vou ouvir o Presidente da República e, no minuto seguinte, falo». Já passaram quase três dias e Portas ainda não disse, oficialmente, se haveria coligação.
Há coligação. De certeza que há coligação. É seguro: não há coligação. Hoje, talvez haja coligação. Ou talvez não haja. Não há, de certeza que não há. Logo diremos se haverá.
Santana e Portas formam o par perfeito: para eles não há rotina. Cada dia é uma aventura.
Escrevi aqui há uns tempos que a coligação do PSD com o CDS era uma boa notícia para a esquerda. Juntariam descontentamentos e não votos. Parece que a direita também o entendeu. Vão separados. É a estratégia correcta para quem, obviamente, já não se está a bater pela vitória. O CDS é quem mais ganha, com Portas a fazer o número do costume: apagar a memória e vestir a farda de Estadista. Assim, salva-se. Quanto a Santana, talvez assim consiga ter a companhia de alguns moderados do PSD.
Um fim-de-semana longe da Internet e o país fica de pernas para o ar. O discurso de Jorge Sampaio foi claro na sintaxe, na gramática e no vocabulário. Mas politicamente foi a confusão do costume. Jorge Sampaio não tinha resposta para duas coisas:
1 – Se o governo estava ferido na sua legitimidade e não podia ser mais do que um governo de gestão, porque não demitiu Jorge Sampaio o Governo ao mesmo tempo que dissolveu a Assembleia?
2 – Se o Orçamento era mau, porque fez Sampaio questão que este fosse aprovado, sabendo que, ao contrário do que afirmou, o aumento dos salários da Função Pública não dependia da sua aprovação?
Santana Lopes reagiu como só Santana Lopes sabe reagir. Num dia pôs Vítor Cruz a dizer que aceitavam, no dia seguinte entrou em confronto com Sampaio. Num dia disse: agora vamos às eleições. No outro choramingou que as eleições eram uma perda de tempo.
A auto-demissão do governo fazia sentido, mas só fazia sentido dizê-lo na sexta. No sábado, já era tarde. Se é verdade que o governo tinha ganho um estatuto inexistente na Constituição, não é menos verdade que a simulação de surpresa não colhe. A estratégia de vitimização, continuo a dizer, não pega. E de cada vez que Santana diz que não percebe de que está a falar Sampaio quando este se refere à instabilidade, o País ri-se. Continuar a dizer que se vivia um ambiente de estabilidade e retoma só o faz Santana parecer um Alien.
A auto-demissão de Santana tem outro problema: dá força à imagem que se instalou (imagem mais do que justa, diga-se em abono da verdade) de pessoa instável e na qual não se pode confiar. Sócrates continuará a explorar isto mesmo: fazendo um ar sereno e doce e nunca dizendo nada que nos possa acordar.
Um tipo consulta as notícias no fim do fim-de-semana e descobre que o governo se demitiu e que o PSD e o PP agora estão numa de concorrer separados. E como sempre com Santana Lopes, fica-se com a impressão de que perante duas estratégias opostas ele decidiu escolher metade de cada uma. A demissão inscreve-se na velha táctica da vítima, agora com uns pós de birra por não o deixarem ser ainda mais vítima. Mas se o governo foi vítima de uma golpada vinda do exterior, não seria natural que ficasse mais unido na adversidade? Como vai Santana aguentar a sua narrativa anti-presidente durante a sua campanha com o PP na campanha do lado a capitalizar com uma narrativa anti-Santana?
Ainda dizem que o tempo cíclico não existe. E que não se pode prever o futuro. Trapattoni tinha méritos: sabia coisas que pertencem ao passado da bola e falava português como um gentiluomo que se adapta a todas as circunstâncias.
Nunca percebi porque é que o nome romano Celso sobreviveu melhor no Brasil do que em Portugal. Se eu fosse místico via isto como um sinal e zarpava daqui p'ra fora.

No dia em que os políticos começarem uma frase por «portugueses e portuguesas», já teremos a despenalização do aborto aprovada; nenhuma mulher ganhará menos que um homem na mesma função; e olharemos os políticos apenas do pescoço para cima.
Ainda está tudo em aberto, mas se for verdade que o CDS-PP e o PSD vão separados a eleições estamos perante uma vitória da política sobre a estatística. Ou seja, depois de tudo ponderado, chegaram à conclusão que preservar o espaço vital - por vezes contraditório - de cada um dos partidos beneficiava ambos e era mais importante do que rapar para a coligação os votos inúteis do CDS-PP nos distritos em que este não pode eleger deputados. Portas parece ter feito a jogada certa: com esta estratégia vai poder dizer que tinha os melhores ministros, que fez bem as reformas e que não fez isto (e junta o indicador ao polegar) para acabar com a coligação. E como vai perder de qualquer forma, tenta ganhar terreno antes do dilúvio. Às vezes é difícil apanhar um táxi, a tarefa aqui é encher um táxi - Quem lhe pode levar a mal? Tempos de carestia, é o que é.
O debate sobre a língua portuguesa interessa-me ainda mais desde que dou aulas de Português a estrangeiros. Estou de acordo com posições como esta do Rui e esta de Isabel Pires de Lima. Acrescento só duas coisas: a globalização é uma oportunidade para a língua portuguesa, não uma ameaça. Ela significa não tanto uma ocasião para expansão da língua como língua materna, mas como segunda língua. É no terreno do multilinguismo (do português como segunda ou terceira língua) que esse futuro tem de ser preparado e muito melhor defendido do que até agora. Isso tem um custo que toda a gente que fala inglês como segunda língua aceita sem problemas: uma certa simplificação da língua enquanto língua não materna.
A sacralização da norma é uma atitude elitista, que pretende manter uma distância grande entre a língua falada e a escrita. A norma depende dos usos, não da gramática codificada. Mais exactamente: da relação entre os usos e a gramática codificada. O medo do abastardamento da norma é quase sempre uma projecção das angústias letradas sobre o seu próprio mundo. Esse mundo é o mundo da língua portuguesa na televisão, na internet, nos telemóveis (e também nos livros, apesar de tudo). Mais capitalista e incontornável que isto não existe. Perante isto, perguntar "O que fazer?" é colocar uma questão leninista.
E depois era interessante saber o que os especialistas da língua têm a dizer sobre a norma portuguesa (de Portugal). A minha experiência é que ela é particularmente plástica e flexível. Ou seja, pouco codificada, pouco normativa. Apresenta uma quantidade impressionante de excepções e de variantes que a tornam, aliás, particularmente rica como caso a estudar. E particularmente difícil, nas suas "nuances", de ensinar a não portugueses. Um exemplo: as formas de tratamento, que vêm direitinhas do Antigo Regime (falo do Antigo Regime Mesmo Antigo, da sociedade de ordens anterior às revoluções liberais e industriais). Outro: a colocação dos pronomes em relação ao verbo. Lindley Cintra e Celso Cunha dedicam-lhe seis páginas de casos diferentes na Nova Gramática do Português Contemporâneo. Se formos ao Ciberdúvidas e lermos as questões colocadas sobre este problema, como aqui, percebemos que não há resposta única da parte dos especialistas. Umas vezes o pronome pode vir antes do verbo, outras depois. Há quem diga "deve manter-se" e quem diga "deve-se manter". Ambas estão bem. Aqui não há norma. Há um padrão tão pouco palpável como o "estilo" ou "aquilo que fica bem". Ora o que "fica bem" é uma coisa muito bonita mas está longe de ser uma lei. Conclui-se que a Norma é uma miúda gira mas com muitas caras. É — chatice — um bocado relativa.
Em Minas Gerais existe uma marca de cachaça chamada "Atitude" e outra chamada "Providência". Isso permite ao boémio inveterado fazer a cara mais séria deste mundo e declarar solenemente "vou tomar uma atitude!", ao que o companheiro de mesa pode responder "ah é?! então eu vou tomar uma providência!" Assim se passam noites inteiras, entre atitudes e providências.
Um jornalista foi condenado a 11 meses de pena suspensa por se recusar a ser um informador. Quem não sabe investigar, quer que outros façam o trabalho por si. Um nojo.
Normalmente as declarações de Sampaio são de difícil interpretação. Por isso, há razões para temer o pior. São os próprios serviços da presidência a garantir que hoje ele fará «uma declaração complexa».
Não há muito a acrescentar. A tonteria pode justificar-se por falta de referências. Sempre é uma atenuante.
Aqui há uns tempos o Pedro Oliveira escrevia no Barnabé acerca do paradoxo que era a mesma Câmara Municipal de Lisboa que comprara o hotel errado para inventar uma casa Eça de Queirós não se incomodar em deixar demolir a casa onde morreu Almeida Garrett, ali a Campo de Ourique. Pensei comentar que como Almeida Garrett não é Eça e não passa a vida a ser citado como bote de salvação por cronistas desinspirados, e como também não é Pessoa nem Camões, já a sua memória se pode deixar apagar da cidade sem merecer sequer uma lápide comemorativa.
Isto é incompreensível porque para além de todas as coisas que Garrett se voluntariou para inventar ou reinventar, umas com mais sucesso do que outras – um novo teatro nacional e um novo Teatro Nacional, uma literatura etnográfica em língua portuguesa, uma sociedade literária liberal, um sistema de recompensas para a criatividade intelectual, uma imprensa para mulheres, um romance português duplamente deambulatório – foi Garrett, portuense solto em liberdade pela capital, que inventou o boémio elegante lisboeta, e só por isso já deveria merecer todos os agradecimentos da sua cidade adoptiva. A Lisboa que, como dizia Júlio de Castilho, era naquele tempo o Chiado, e o Chiado que era o Café Marrare, e todas essas três coisas que eram, de uma forma ou de outra, Almeida Garrett. Sem ele talvez houvesse Eça de Queirós na mesma, mas não existiriam certamente algumas das melhores personagens queirosianas. E até ao tempo dos futuristas e da preta Fernanda, a boémia lisboeta vivia ainda sob o signo dele.
Vários acasos me têm deixado nos últimos dias numa modalidade garrettiana. Ando a ler, como já disse numa posta aí abaixo, O Romantismo em Portugal, de José-Augusto França. No primeiro volume há um capítulo que é um brilhante retrato duplo, desses que se iluminam mutuamente, de Garrett e Alexandre Herculano. Depois foi aquela notícia que o DN divulgou há poucos dias, da descoberta de um conjunto importante de inéditos de Garrett na casa dos irmãos Futscher Pereira, incluindo aquilo que parece ser o terceiro volume do Romanceiro. E por último o excelente destaque do Público de ontem dedicado aos 150 anos da morte de Garrett.
Tudo isto me deixa politicamente com esperanças de que o país público deixe de se limitar a Camões, Eça e Pessoa. E intimamente com uma saudade impossível de poder entrar no café Marrare, acompanhado de um meu amigo portuense solto em liberdade por Lisboa (tu sabes quem és, pá), aproximar-me dos balcões de madeira polida e pedir, só naquela mesmo da primeira coisa que me veio à cabeça, um bife e um capilé.
«Exemplos deste tipo [a decisão de Jorge Sampaio de dissolver o Parlamento], só numa lógica de Caudilho (...) Do ponto de vista da democracia, são sinais de imaturidade de regime» Nuno Morais Sarmento, no "Diário Económico".
«Provavelmente é um problema nosso, mas não conseguimos perceber o que levou o Presidente da República a iniciar este processo.» Pires de Lima
Bem sei que Sampaio é confuso a falar, mas, neste caso, o problema deve ser mesmo deles.
Santana Lopes e Paulo Portas não foram às audiências com o Presidente da República.
Ontem, o livro do Barnabé lançou-se muito bem. O Pedro Mexia estava doente e não foi, mas avisou antes. O Ricardo Araújo Pereira esteve igual a si próprio e foi o ponto alto da noite. O Rui Tavares e o André Belo conseguiram comunicar de Brasília e de Paris sem problemas de maior, graças ao Zé Nuno que tratou dos pormenores tecnológicos. O Celso Martins e eu próprio dissemos o que queríamos dizer sem gaguejar. O Pedro mandou a sua nota de Londres. O editor foi, como desde o princípio, simpático e profissional. O Sérgio Godinho esteve lá como “padrinho” do blogue. A Ler Devagar ficou cheia, os livros venderam-se e a "Caras Notícias" da SIC esteve neste acontecimento social “cheio de caras bonitas”. Hoje, eu e o Celso vamos ao “Cabaret da Coxa”, tratar da degradação definitiva da esquerda portuguesa. Depois teremos o périplo pelos programas literários da RTP, claro, que nos darão a devida respeitabilidade. Sim, nós conhecemos as regras do mercado.
O PSD e o CDS, ao que tudo indica, irão coligados às eleições. Excelente! Assim, nem o PSD convence os seus eleitores que detestam o CDS, nem o CDS faz jogo duplo, fingido que não está com Santana. Não juntam votos, juntam descontentamentos. Boas notícias, portanto.
O Presidente está receber os partidos políticos. Todos confirmam: em Belém vive-se um ambiente de "serenidade emocional". O Presidente ainda não chorou.
Julgava-se que haveria bastantes despejos graças à Lei das Rendas proposta por este governo. Afinal, o único despejado por causa da política será Santana Lopes. Não gozem, o caso é dramático. Trata-se de uma família numerosa com o seu ganha-pão dependente de um futuro desempregado de longa duração.
Santana Lopes inaugurou um parque de estacionamento. Na placa lia-se que o dito parque tinha sido inaugurado por Carmona Rodrigues. Carmona que se cuide. Santana, prevendo a derrota, já lhe está a ficar com o lugar. É que não consta que tenha deixado saudades no Sporting, na Figueira ou no escritório de Henrique Chaves. E um homem tem de fazer pela vida.
«Santana Ainda Não Decidiu Se Quer Coligação.»
Veja em directo o lançamento do livro do dr. Mário Soares em rtsp://darwin.fccn.pt/barnabe.sdp.
Por outro lado, e como é sabido, na versão contemporânea da história, toda a gente acha que a tartaruga é uma otária. E ela só ganha porque a lebre foi controlada positiva no controlo anti-doping.
Daqui a pouco, às 21.30, na Ler Devagar, o livro do Barnabé vai ser apresentado. Teremos menos gente que o jantar de Mário Soares? De certeza que sim. E eu não me conformo que ele tenha feito o seu aniversário no mesmo dia em que nós apresentávamos o nosso livro. É o nosso primeiro. É o 80º dele. Lambão!
Qual é a diferença entre um blogue e um livro? O blogue é a lebre e o livro é a tartaruga. No fim a tartaruga ganha? Sim, mas sem a lebre não havia tartaruga.
Há exactamente uma semana já se sabia que o Governo Santana Lopes tinha morrido mas eu matutava ainda, ignorante, no clima moral da incubadora, e em como nesse ambiente não se concebia que um crítico não pudesse ser um oportunista nem as suas críticas menos do que traições à pátria. Lembram-se?
O que aconteceu não era nenhuma inevitabilidade, mas o padecimento comum a qualquer governo sem legitimidade política – ainda que a tenha jurídica – e, no caso, a consequência directa de não se ter devolvido a voz ao povo na altura certa. Se tivesse essa legitimidade, o governo não se teria esboroado debaixo dos nossos olhos em questiúnculas mesquinhas de gabinete.
O que me fazia repisar neste tema era a coincidência de estar lendo O Romantismo em Portugal de José-Augusto França e de aí encontrar estes versos de António Feliciano de Castilho ["Sacrifício a Camões"]:
O regime decadente era o do usurpador Dom Miguel; estávamos em guerra civil, o que torna qualquer comparação um esticanço. E felizmente Pedro Santana Lopes governou quatro meses e não quatro anos. Mas tornar-se "crime a voz do pensamento" e aqueles ministros que "vertem da língua fel" e "embustes" não deixaram de ter uma mão no governo da incubadora. Restará saber quem será o nosso Dom Pedro IV. Será ele José Sócrates, como parece que se prepara, apesar de não se saber que seja bom músico nem compositor de modinhas? Seja; mas com uma condição – a de morrer romanticamente tísico e abdicar, por exemplo, na pequena Maria de Belém Roseira.


Diz-se que Mário Soares é o pai da democracia. Discordo. Ou melhor, é só parte da verdade. É a verdade de quem venceu, que raramente é a verdade justa. Os pais da democracia são Mário Soares, sim, mas também Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral ou Sá Carneiro. São os fundadores da democracia e todos têm uma característica em comum: o tacticismo. Todos eles jogaram, em poucos anos, um jogo de vida ou de morte na arrumação do poder político em Portugal. A estrutura ideológica de cada um dos seus partidos, feitos à sua imagem e semelhança, as alianças internacionais e os objectivos nacionais que foram definidos tiveram sempre em conta esse combate que se fazia na rua.
Mário Soares aliou-se à direita e aos militares moderados, transformou-se no homem dos americanos e definiu a entrada de Portugal na União Europeia como um desígnio nacional. Tudo para tirar o poder da rua e estabilizar a política nacional, o Portugal onde Soares tinha futuro. Em nada disto pesou qualquer princípio ideológico. É por isso um disparate pensar que Soares virou à esquerda no fim da sua vida. Soares apenas percebeu, no jogo táctico em que é um mestre, que os tempos mudaram e que os perigos para o centro-esquerda vêm do lado oposto e que os partidos socialistas e sociais-democratas estarão condenados se se limitarem a seguir a agenda da direita. E que o seu papel teria de ser, tivessem engenho para tanto, o de federar as esquerdas. Soares sabe que, neste tempo de mudança radical, o centro é um não-lugar. É o lugar dos derrotados. Basta olhar para Blair para perceber isso mesmo: Blair é hoje o mais carismático líder europeu, é verdade. Mas o mais carismático líder da direita europeia.
Mais: Soares não joga agora o jogo do poder. Não precisa dele. Soares apenas trabalha para a sua memória. E quer, nos últimos anos da sua vida, fazer as pazes com a esquerda. E fez. Por mim, que tenho um percurso em tudo diferente de todos os que seguiram Soares, já fiz. O anti-soarismo, à esquerda, é um anacronismo. Soares é o melhor senador que a esquerda, a esquerda à esquerda do vazio ideológico da nova liderança do PS (e grande parte desta esquerda está dentro do próprio PS), poderia encontrar. Tem a legitimidade histórica e a habilidade política necessária. Sim, Soares é fixe.
Há uns dias o Pedro falou da vinda a Portugal de um dos principais estudiosos do Médio Oriente . Vale a pena ler entrevista a Fred Halliday, na "Pública" do último do último domingo.
À 25ª hora, Portas garante um lugar para os seus no SIS.
Toda a gente tem as suas irritações de estimação. A minha é esta conversa acerca de a língua portuguesa estar em perigo, e os três tipos de vigilantes da língua que dessa conversa se alimentam.
Primeiro existem aqueles sempre prontos a saltar da cadeira à mínima infidelidade de uma ex-colónia. Não entenderam ainda que o português não só não está em perigo como está em expansão. Excepto na Índia, o português progrediu muito mais nos seus territórios históricos nos últimos anos do que no último século e mais nesse do que em praticamente toda a sua história desde as descobertas. Em Macau houve provavelmente mais chineses a aprender português nos cinco anos antes (e mesmo nos cinco anos depois) da devolução do que nos quatrocentos anos anteriores. Em Timor-Leste assiste-se a uma coisa inédita, que é a reintrodução de um idioma oficial. Em África, não só o português progride como chega a colocar em risco outras línguas. Em Angola as gerações urbanas mais jovens já não gostam de falar nas línguas dos seus avôs. O português deixou de ser a língua de poucas cidades para ser falado em todo o país. Em Cabo Verde o crioulo de hoje é bem mais "lusitanizado" do que o de há cinquenta anos. Nos PALOP em geral (salvo, talvez, a Guiné-Bissau) o facto de o português ser a língua de acesso aos empregos da administração faz com que ela tenha muito mais importância para as populações locais do que aquela que tinha nos tempos coloniais. E o Brasil nunca foi, para grande tristeza de antropólogos e linguistas, tão monolingue como hoje em dia.
Isto deve dar-nos de que pensar. Eu, por muito que ame a língua em que fui criado, não posso ficar contente por a sua expansão se fazer em parte às custas de outras línguas.
Depois há todo este arrancar de cabelos a propósito do domínio do inglês. Embora eu goste de fintar os anglicismos (daí "blogue" ou melhor ainda "blogo", "blogueiro" ou até "servo da bloga", "posta", "ismael", etc.) sou da opinião que nisto das línguas o que não mata engorda. Que grande mal terá feito ao português o ter-se enchido de termos árabes, italianos, espanhóis e franceses que lhe possa agora fazer pior a moda do inglês? As línguas saudáveis comem de tudo e aguentam. Veja-se o próprio inglês, contaminado como nenhuma outra língua não-românica pelo latim e o francês, e compare-se com o islandês, que foi a primeira língua a ter (no século XII) uma lei a defender a sua pureza contra a invasão por palavras estrangeiras. Os islandeses podem ler as sagas escandinavas no original, mas pagam um preço por isso.
Finalmente, temos o caso do editorial do Público de ontem, por Nuno Pacheco, que pertence àquela categoria de vigilantes para quem os perigos são endógenos e não exógenos. De todos, são aqueles onde se revela ser maior a futilidade. Com regularidade cíclica, não perdem a ocasião de ser Alexandre Herculano por um dia, e lamentar: "Não é que nos falte a língua mas, num exercício de continuada crueldade, vemo-la definhar, acometida de vulgaridades, doente de vícios, trôpega de verbo." Veja-se a escolha de verbos e adjectivos deste trecho – o "definhar", o "acometida", o "trôpega" –. Aí temos o editorialista vestido de gala para um daqueles feriados que já toda a gente se esqueceu porque comemora. Será assim, escrevendo como um embalsamador, que Nuno Pacheco quer convencer-nos a reanimar a língua?
O português continua como sempre foi e como qualquer outra língua saudável. Com um Camões, um Vieira ou um Pessoa por século, como tem que ser (também só houve um Dante ou um Cervantes). Com milhares de Nunos Pachecos mais os seus achaques. E com milhões de pessoas a falá-la como lhes dá na real gana, como é necessário e excelente que seja.
Ora mas se isto é tudo assim tão natural, porque me irritam então tanto os vigilantes da língua? Porque são como os hipocondríacos. Enquanto eles se preocupam com doenças imaginárias, existe muito para fazer no mundo real de todos os dias. Nesse mundo, o português tem uma fracção dos leitorados que têm outras línguas comparáveis, as bibliotecas estrangeiras quase não recebem livros de autores lusófonos e um ex-primeiro ministro português, hoje com um bom emprego na Europa, preferiu antes ir ver um jogo de futebol a ter que inaugurar uma cátedra de português na maior universidade de língua espanhola do mundo. E enquanto carpimos, nada se faz para contrariar isto.
Quem tem dúvidas em relação à mais do que certa derrota de Santana Lopes nas próximas eleições deveria ouvir o seu discurso, hoje, no Parlamento. Uma autêntica tragédia. Alguém tem de lhe explicar que há algumas diferenças entre o Parlamento e o Congresso do PSD, entre os portugueses e os militantes do seu partido. Felizmente esta depressão vai acabar daqui a uns meses. Começo a ter pena do homem. E a piedade tira a pica a qualquer um.
No Parlamento, o PSD e o CDS estão a choramingar há meia hora e a fazerem-se de vítimas do Presidente. Se é evidente que o papel de vítima cola mal com Santana, o papel de agressor ainda cola pior a Sampaio. Assim não vão lá.
Crescer é pôr distância entre choro e riso.
Santana ainda não apareceu no debate do Orçamento de Estado. Estava para chegar de manhã, mas, até agora, nem sinal dele. O homem anda abatido. Espero que não faça nenhum disparate.
Paulo Portas quer 14 deputados na coligação.
Durão Barroso diz que está surpreendido com a crise política em Portugal.
Hoje, o Presidente da República vai estar no "Prós e Contras" para debater a língua portuguesa. O mesmo Jorge Sampaio que não se digna a dirigir-se ao País no meio de uma crise para lhe explicar o que se passa e porque faz questão que o Orçamento seja aprovado por um Parlamento ferido de morte, vai a um programa de televisão como se nada se estivesse a passar. Desisto de compreender este homem.
Um governo com demissão anunciada apresenta a um Parlamento com uma dissolução anunciada um Orçamento com revisão anunciada.
«Acabou o 'Síndroma da rejeição' do CDS», título do Público
Seria realmente muito ocioso querer convencer o director do Público de que a França de que ele fala é um país de fantasia. Uma fantasia na pluma de Villepin ou de outros nostálgicos da grandeza da França e uma fantasia na pluma de José Manuel Fernandes. Boa fantasia esta que faz viver tantas plumas, aquém e além fronteiras.
Mas há tempo para umas perguntas retóricas: como é que o director do Público compara Napoleão com figuras históricas de épocas tão díspares (Carlos Magno, Hitler) e não faz uma comparação mais comezinha com o presente? Quem recuperou o conceito de guerra preventiva na actualidade? Quem concilia nos nossos dias, como nos tempos das invasões napoleónicas, um discurso emancipador e uma prática imperial? Quem foi, quem é? Uma pista: é na terra de Washington, também começa por George, mas de modo algum é George Washington.
«Sampaio Esqueceu-se de Avisar Mota Amaral da Dissolução»
PSD indignado com Cavaco Silva.
Soube através do Pé de Meia: no site do PSD há uma votação. Pergunta: "Concorda com a decisão do Presidente da República em convocar eleições antecipadas?" Há coisas que não se perguntam quando não se tem a certeza da resposta. Vejam lá os resultados.
Pinto da Costa entrou no tribunal rodeado de membros da claque Super Dragões
Pinto da Costa chega finalmente ao Tribunal de Gondomar
O PSD e o PS vão tentar apresentar, discutir e votar na generalidade e na especialidade a mudança da lei eleitoral autárquica, facilitando executivos maioritários de um só partido. Tudo na próxima quinta-feira, último dia antes da dissolução.
«Alberto João Jardim está disposto, "a partir de agora", a ir para Lisboa "meter o país na ordem".»
António Borges está disponível para liderar e renovar o PSD
Criado e recomendado pela imprensa especializada.
Santana Pode Sempre Voltar à Câmara de Lisboa.
«Ao menos, devias ter vergonha na cara e ter vindo aqui dizer a verdade, meu palhaço de merda!»
Pedro Namora, mediático advogado e ex-assessor do PCP, para Lopes Guerreiro, dirigente do partido crítico da direcção actual, depois da sua intervenção no Congresso comunista. Na "Visão".
«Ainda [Fernando] Vicente se encaminhava para o púlpito, à mera menção do seu nome pela mesa que dirigia os trabalhos, instala-se a vaia». "Visão"
Fernando Vicente é um histórico anti-fascista (o recordista da tortura do sono nas prisões da ditadura) o que, no PCP, costumava ser tido em conta. Mas isto era no tempo em que a retórica da "coragem física" valia menos do que a memória de quem a provou.
Segundo rumores não confirmados que a TSF tem dinfundido, com ressalvas, Pinto da Costa poderá ter sido detido pela PJ.
[actualização: Pinto da Costa vai apenas ser ouvido pela PJ]
Fátima Felgueiras promete entregar-se à justiça em Março e descreve a sua situação:
Não seria normal, dois dias depois de se saber que a Assembleia vai ser dissolvida, de haver um imbróglio com o Orçamento, de haver um governo que não está demitido mas é como se estivesse e que dá posse a secretários de Estado, que Sampaio já se tivesse dignado a dirigir umas palavrinhas ao País?
Vi na televisão dois secretários de Estado a tomar posse num governo demissionário. Mais interessante: dois secretários de Estado que foram nomeados por um ministro que entretanto se demitiu. A possibilidade de dar estes cargos a um secretário de Estado em função, já que o governo está de partida, não passou pela cabeça de ninguém? Saía um pouco barato e era bastante menos ridículo.
Ontem vi Paulo Portas e a sua nova imagem: dar um ar de quem sempre respeitou a estabilidade e de quem, ao contrário do PSD, nunca criou conflitos. A nova estratégia, num País onde a memória vai sempre para os últimos 15 dias, pode bem resultar. Se Santana aprendesse alguma coisa com Portas, talvez tivesse algum futuro. Ele é um mestre.
Só Jorge Sampaio para continuar a trapalhada: dissolve uma Assembleia e pede para que ela finja que não vai ser dissolvida. Põe na rua um governo e pede que, num último suspiro, aprove um Orçamento para todo um ano. Orçamento que o próximo governo terá de mudar. Nem o argumento de que estariam em causa os aumentos na Função Pública faz qualquer sentido. Eles podem acontecer através de uma simples portaria, mesmo governando Santana através de duodécimos. Não é a situação ideal? Não. Mas quem resolveu esperar quatro meses foi Sampaio e só ele é responsável por este timing absurdo.
Santana Lopes caiu do cabeçalho do Barnabé. Pedimos desculpa por este desfasamento de 24 horas.
E não é que o Plano Santana Lopes começa a funcionar?
Está comprovado: Santana Lopes é um homem mais fadado para a oposição do que para o poder. Pelo menos nos últimos 4 meses foi o mais eficaz opositor ao seu governo.
Afinal não há perguntas difíceis. a melhor resposta à incompetência do PSD é o... PSD. Como se a democracia portuguesa não conseguisse gerar qualquer outra alternativa. Qualquer coisa que venha à esquerda do centro direita é igual a Santana Lopes, nem que para isso seja preciso transformar António Vitorino em moeda falsa. É o problema dos dissidentes em terreno pouco propício: divergem mas ficam obrigados a não sair do quintal. Pacheco Pereira quer que Cavaco volte, não como presidente, mas como primeiro-ministro para fazer a purga messiânica, não percebendo que o mundo mudou e os interesses que sustentavam Cavaco já não se contentam com ele - querem uma marioneta ao serviço do «Compromisso Portugal». Já podemos imaginar o novo governo de Cavaco Silva: Eurico de Melo, Mira Amaral, Ferreira do Amaral e Álvaro Barreto farão o núcleo duro. Mota Amaral fará uma perninha.Se for preciso uma coligação lá estará Bagão Felix que tanto cabe no desenho cavaquista como no pórtista. Os outros são todos filhos da degeneração, veteranos da JSD ou coisa pior. Eu sei que sonhar é bonito e a coisa pública está tão má que pede nostalgias, mas esta é a hora de perceber se Pacheco Pereira é assim tão diferente de Morais Sarmento. Caro Pacheco: não vale ser do Belenenses. Sócrates ou Santana Lopes? O tempo é de perguntas difíceis.
No momento X desta crise, quando Sampaio teve que decidir se mantinha a actual maioria, muitos dos comentadores resguardaram-se na posição inteligente. Não era necessário ir para eleições ainda que Santana fosse o pior que podia acontecer à pátria. Hoje estão à vista os resultados danosos do comentário político pendular.
Aconteceu um sismo na política portuguesa e, a ver pelo serão, os canais abertos de televisão não souberam.
Bem, vocês não sabem mesmo tomar conta de vocês sozinhos. Está um gajo a não-sei-quantos-mil pés de altitude e o país a implodir cá em baixo. Mas, enfim, é a implosão do bem. Só vos posso dizer que enquanto a notícia correu entre uma bicha (ups, fila) de alfândega no aeroporto de Guarulhos - São Paulo, onde estavam umas dezenas de portugueses, ninguém lamentou o governo. Pelo contrário, mal se sentiram à vontade uns com os outros, a comunidade lusa riu a bom rir. Eu ainda aventei a hipótese de pedirmos asilo político, uma vez que estamos sem governo. A resposta foi: o quê? Agora que estes gajos estão na rua? Agora já não é preciso.
Que fique bem clara a minha altíssima presciência como analista político. Ainda ontem ou anteontem escrevi que não tinha qualquer esperança que Sampaio dissolvesse o parlamento.
Bem, falhei eu. Mas acertou o presidente, que é o mais importante. Em vez de ter ido para eleições em Julho, precisou de ver que o governo não ia a lado nenhum. Temendo que daqui a uns tempos já não pudesse fazer nada, convocou eleições por causa de uma razão menor.
No entanto, não há queixinhas a fazer. O povo decidirá. Pode até voltar a eleger o mesmo governo – se tiver impulsos suicidários. Mas será com a legitimidade do voto. É uma festa bonita, e tenho pena de não a acompanhar para já.