– Pois é, nós lá no PP vamos processar o Francisco Louçã por ele ter dito que a Celeste Cardona é inimputável.
– A sério? Vocês andam um bocado susceptíveis, não andam?
– Um bocado quê?!
– Susceptíveis.
– Ah, é?! Então espere pelo telefonema do nosso advogado.
O genealogista português Marcos Soromenho Santos demonstrou que George W. Bush tem uma ascendência portuguesa e que descende mesmo de D.Urraca, mãe do fundador da nacionalidade. Já sabiamos que a qualidade das nossas exportações era um dos factores que dificultavam a nossa capacidade concorrencial. Não sabiamos é que o problema era tão antigo.
Há muito tempo que não via um filme, simultaneamente tão triste e tão cómico e que pusesse tudo isso ao serviço de uma melancólica sensação de inevitabilidade. «Lost in Translation» joga de modo extraordinário com a escala, com a escala dos desencontros entre os personagens e a cidade, entre o enorme ruído visual e sonoro da primeira e os mínimos gestos e sons entre os segundos. Vi o filme ontem e li hoje o artigo de Inês Pedrosa, no Expresso, que acusa o filme, entre outras coisas, de se afundar no «chique», de os personagens só dizerem trivialidades e de Sofia pintar o Japão de forma caricatural. Esta é uma análise que pede constantemente ao filme que tenha um registo naturalista que está a léguas do que o filme quer ser. Por um lado, mais do que o «chique» o que percorre o filme é o «kitsch» que lhe empresta uma insinuante ternura; por outro, a trivialidade inteligente e humorada é aqui como a arma dos estranhos que se desconhecem ainda que queiram convergir. Só as pessoas despropositadas se põem a debitar o que andam a ler para impressionar o parceiro. Não há predação entre Bill e Scarlett. Finalmente, parece-me que o exotismo japonês é absolutamente necessário ao filme para colocar o casal naquele estranhamento permanente que os faz convergir sempre um para o outro como se tudo à sua volta se passasse em Marte. E, reconheça-se, por muito relativismo cultural que se exiba, quando se está num país radicalmente diferente do que somos, temos a tentação de caricaturá-lo no mais íntimo de nós próprios. Continua a ser possível dizer-se que se gostou mais das Virgens Suicidas, mas é muito pouco justo insinuar, como faz a Inês, que Sofia é, simplesmente, a filha de Francis Ford Coppola. Eu gosto de alguns filmes de Coppola Pai (Rumble Fish, por exemplo), mas é evidente que o cinema de Sofia – com uma subtileza que o pai nunca quis ter – não é uma consequência genética.
Seguindo o exemplo britânico, o Barnabé quer aqui, publicamente, pedir desculpas a Durão Barroso, Paulo Portas, António Ribeiro Ferreira, José Manuel Fernandes e a todos os que mentiram sobre as armas de destruição massiva no Iraque.
É que nós temos que defender a nossa credibilidade, não podemos ficar atrás da BBC.
Como já se disse, há em Marte um lugar que se chama Lisboa. Pedro Santana Lopes já mandou fazer o cartaz:

O que é que um Presidente nunca tinha feito até hoje: reagir a um comentário de Luís Delgado. Quando digo um presidente, note-se, falo de qualquer tipo de presidente: da República, do Benfica, da Junta de Freguesia de São João das Lampas, da Associação dos Jogadores da Malha de Sarilhos Pequenos, da Associação dos Moradores do Bairro da Belavista, da União Zooófila, dos Amigos da Sesta e por aí em diante. Dizem-me que Jorge Sampaio representa a Nação. Pode ser. Mas, então, isso da Nação não é lá coisa muito importante.
Caro Tiago,
Entrei na via mística para o socialismo (as vias para o socialismo são múltiplas e insondáveis). Acho que a exegese bíblica fica muito bem com as cores rubras deste blogue.
Lembro o último ponto em que a nossa discussão ficou: você, reagindo à minha admiração pelo radicalismo social de Cristo, citou-me um exemplo contrário em que Jesus "não foi simpático com os pobres". Como sou rapaz aplicado, lá fui ler o versículo que você citou (Marcos 14:7). E você desculpe mas, por mais voltas que dê ao texto, não vejo lá o que você diz que está. Se não vejamos:
MC 14:3 Estando ele [Jesus] em Betânia, reclinado à mesa em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro cheio de bálsamo de nardo puro, de grande preço; e, quebrando o vaso, derramou-lhe sobre a cabeça o bálsamo.
MC 14:4 Mas alguns houve que em si mesmos se indignaram e disseram: Para que se fez este desperdício do bálsamo?
MC 14:5 Pois podia ser vendido por mais de trezentos denários que se dariam aos pobres. E bramavam contra ela.
MC 14:6 Jesus, porém, disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou uma boa ação para comigo.
MC 14:7 Porquanto os pobres sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; a mim, porém, nem sempre me tendes.
MC 14:8 ela fez o que pôde; antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura.
MC 14:9 Em verdade vos digo que, em todo o mundo, onde quer que for pregado o evangelho, também o que ela fez será contado para memória sua. [Bíblia dos Luteranos, tradução de João Ferreira de Almeida]
Os pobres aqui não são o sujeito do exemplo moral de Cristo. Eles são o contra-exemplo da caridade ordinária, quotidiana. O que importa aqui é a mulher que, com o seu acto, pratica uma generosidade extraordinária, sem preço, incompreendida por quem pratica uma caridade apenas ritual. É para estes que vai a antipatia de Jesus, não para com os pobres. Parece-me que com esta leitura não estou a "jogar ao Tetris", nem a usar de um "vago esoterismo humanitário". Mas como não quero que me diga que a minha é uma "clareza dogmática de um discurso totalitário", diga-me lá como é que interpreta este texto. Destas santas coisas você é que sabe.
A RTP contou que, em Marte, há um lugar que se chama Lisboa e outro que se chama Aveiro.
30 personalidades da área empresarial pediram aos deputados para resolverem o problema das finanças públicas. Tenho uma ideia: os empresários podiam todos pagar mesmo os impostos que lhes estão destinados. Não resolve tudo, mas era uma grande ajuda. E para isto não precisam dos deputados para nada.
O sempre muito atento Cruzes Canhoto chamou a atenção para esta notícia: «Os EUA anunciaram hoje a libertação de três menores, com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos, detidos há quase dois anos no presídio militar da Base Naval de Guantanamo, em Cuba, depois de terem sido capturados no Afeganistão enquanto "combatentes inimigos".»
Durão diz que é mentira que os cortes nas comparticipações para a ADSE afectarão dois milhões de pessoas. Jura Durão que não serão mais de do que 300 mil os que gastarão mais em medicamentos e consultas. Ficamos mais descansados.
Criticando os portugueses, Sampaio afirmou que, em Inglaterra, ninguém discute a imparcialidade do relatório Hutton. O Presidente foi educado por gente com uma forte ligação ao Reino Unido. Por favor, escrevam-lhe, contem-lhe as novidades. É que por lá não se discute outra coisa. De tal maneira que os britânicos não acreditam no relatório e mantêm confiança na BBC. Eles lá sabem porquê.
Durão Barroso disse, a propósito do caso das dívidas do Ministério da Justiça à Segurança Social, que o Relatório Hutton vai fazer doutrina.
«Make that man a Duke!»
Comentário de um deputado trabalhista depois de ouvir as conclusões de Lorde Hutton

Factos: não havia armas de destruição massiva no Iraque; a BBC disse que Blair mentia quando dizia ter provas da sua existência; a BBC garantia que os relatórios oficiais eram manipulados pelo governo. Lord Hutton não encontrou provas para esta última afirmação. Transformar, a partir daqui, Blair em inocente e a BBC em vilã, aí está um exercício de branqueamento para ficar na história.
Lord Hutton achou grave a falta de rigor e de critério no cruzamento de informações da BBC. O facto de Blair ter dito, com base em informações oficiais, que as armas inexistentes existiam e ter assim levado o Reino Unido para uma guerra, parece ser um pormenor sem relevância. O que é indesculpável para a BBC, é um pequeno engano em Blair. Neste caso, a falta de rigor não é problema, o mau uso de fontes menos ainda. O fim da história é assim: Blair, que mentiu ao seu país e ao Mundo sobre as armas de destruição massiva, acaba a exigir à BBC um pedido de desculpas, por esta ter sido, supostamente, pouco rigorosa. O descaramento não tem limites.
Falando em descaramento, por cá, José Manuel Fernandes, o mesmo que fez da inventada revolta em Bassorá capa do seu jornal, aproveita este relatório, recebido com desconfiança pela imprensa inglesa de referência - de esquerda e de direita - para dar (veja-se bem) lições de deontologia à BBC e concluir que Blair não mentiu, enganou-se. A ele, José Manuel Fernandes, é que não podemos exigir um pedido de desculpas por ter repetido vezes sem conta a mentira das armas de destruição massiva. Porque o director do "Público" é como Tony Blair, limita-se a repetir o que lhe dizem. Tal como Blair, quando mente não faz por mal.

É mesmo assim que é o principio e o fim dos amores que nunca se chega a saber se o são. Estrangeiro à volta, tudo fica como tem mesmo que ficar e nunca mais sai da memória o que podia ter sido. Lost in Translation é o melhor filme que vi desde há muito tempo.
Isto é lá um assunto deles e eu não quero complicar a vida já suficientemente dificil a Pacheco Pereira. Mas posso dar nota aqui de que, nesta matéria, a do aborto, agora como antes, concordo e concordei sempre com Pacheco Pereira. É um dos poucos assuntos em que estou seguro que ele não faz jogo político. Talvez queira dizer que esta é mesmo uma questão de consciência. Pelo menos em partidos como o PS e o PSD. No meu, como noutros, é mais do que isso: é uma questão de civilização e, por isso, completamente política. E acho muito bem. Mas isso é outra conversa.
A ministra da Justiça não cumpre a lei.
O ministro da Segurança Social não paga à Segurança Social.
O ministro do Ensino Superior não sabia falar.
Só falta saber se o Ministro da Administração Interna anda a gamar carteiras no metro.

A recepção da carreira literária de Chico Buarque é capaz de ter sido, até agora, prejudicada pela excelência da sua outra obra – enquanto compositor, poeta para música, e cantor. Digo isto porque para mim foi-o certamente. Chico Buarque escreveu quatro peças de teatro (Roda Viva, Calabar, Gota d'água e Ópera do malandro), uma novela (Fazenda modelo) e, já na maturidade literária, três romances: Estorvo, Benjamim e Budapeste. Vendo esta lista, e excluíndo Ópera do Malandro porque também existe como álbum musical, reparo que dos primeiros li apenas Fazenda Modelo, que se bem me lembro era uma espécie de distopia rural inventiva e engenhosa que hoje me faz pensar, talvez errando na memória, no Animal Farm de Orwell e em Um Copo de Cólera de Raduan Nassar.
Isto apesar de (ou precisamente por causa de, como defenderei) desde cedo ter sido educado a regime de Chico Buarque de manhã à noite pelos meus irmãos.
Quando, após anos de afastamento da literatura, saiu Estorvo, fui um dos que comprou imediatamente o livro. O problema é que a quase-perfeição da música de Chico Buarque coloca o horizonte de exigência demasiado alto. Se fosse um livro de outro autor, talvez tivesse ficado com vontade de o seguir. Mas era um livro "de Chico Buarque". Quando terminado, Estorvo era um bom romance, mas não se aproximando da "outra" obra do autor, deixava um gosto a desilusão.
Quando saiu Benjamim, o segundo romance da maturidade, não fiz esforço para o procurar ler.
No mais recente livro de Chico Buarque, Budapeste [ed. Companhia das Letras; ed. port. será da Dom Quixote], a editora decidiu colocar um excerto do início do romance logo na capa. Não sei se foi propositado, pode não ter sido por nenhuma razão em particular, às vezes faz-se isto por maneirismo. Mas tem certamente a virtude de dar logo a ver, a quem tenha medo de se desiludir, que isto não é um livro simplesmente bom, como Estorvo. Que isto, afinal, é outra coisa:
Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi, querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo.
Quando se abre o livro e se lêem, ainda na livraria, as primeiras páginas, verifica-se que há mais e até melhor de onde aquele veio. E acabou. Já estamos nas mãos dele. Se aquele é o tipo que fazia a música da nossa infância não têm a mínima importância.
Como quem não quer a coisa, palavra atrás de palavra, facto atrás de facto, a intriga toma caminhos estranhos. O protagonista é um escritor de discursos para políticos e colunistas de jornal, pago, confidencial, com brio profissional e vaidade no seu trabalho quando vê as pessoas no café comentar a frase do candidato, o achado do cronista, a gravidade do editorial. O protagonista é um homem que não sabe se ama a sua mulher, que tem medo que ela não o ame. O protagonista é um homem que acabou de tropeçar e cair numa língua estranha e com isso perdeu o seu eixo. Daí surgem palavras em húngaro, frases em húngaro, desejo de ouvir falar uma língua que não se compreende. E depois o romance sai disparado aos solavancos.
Costuma muito falar-se em page-turners, ou seja, livros que não se consegue abandonar. Budapeste é certamente um desses livros mas não pelas razões habituais, que são muitas vezes agradáveis. Não conseguimos abandonar o livro porque a partir do momento em que a vida do protagonista se estilhaça a escrita parte numa corrida desenfreada por fazê-lo sair do sufoco e nós, enquanto leitores tomados de asfixia, queremos sair também. Talvez seja dos verdadeiros page-turners, não aqueles que queremos continuar a ler porque gostamos deles ou para ver como acaba, mas como aqueles em que somos mero instrumento das páginas que se querem virar sozinhas.
Mal damos por isso estamos em Budapeste e vivemos com uma húngara chamada Kriska. O protagonista de nome banal, José Costa, tornou-se num duplo invertido, os húngaros torceram-lhe, como é sua tradição, o nome, acham que o seu nome próprio é Costa, Kosta Zsoze. Mas agora, chega. Como uma pessoa que nada mal e está no meio duma piscina, o remédio é dar aos braços e chegar ao outro lado logo. Com esta mesma urgência Chico Buarque é bem capaz de se ter chegado à frente na literatura na nossa língua. O malandro.

Depois de vários compreensíveis mas intermináveis discursos de quase todas as bancadas sobre Fehér, no Parlamento, os deputados da maioria, hoje, ao fim da tarde, dedicaram-se a dois votos de congratulação pela vitória de um português em “body board” e outro sobre um bom resultado de uma equipa de vela. Quem defende que o Parlamento português não representa o país, não sabe o que diz: quando as coisas não correm bem, fala-se de desporto.
O PSD e o PP decidiram que uma petição com mais de 120 mil assinaturas não terá direito a mais do que uma votação rápida num agendamento potestativo do PCP, que se destina a discutir o aborto e não o referendo. A petição fica assim sem tempo para qualquer debate. Isto, apesar das petições populares com mais de 75 mil assinaturas terem direito a um agendamento próprio, como diz a Lei. Ainda há a esperança que o PCP perceba que está a ajudar quem quer que o debate sobre a questão do aborto seja rápido e indolor. Espera-se, a qualquer momento, uma alteração de posição. É bem-vinda.
Entretanto, Guilherme Silva já disse que os seus deputados têm liberdade de votar em consciência, já que, segundo sabe, irão votar todos contra porque a sua consciência não esquecerá o “compromisso eleitoral do PSD”. Por aquelas bandas a liberdade é, portanto, condicional.
O Barnabé chegou às 150 mil visitas e nós quase que deixávamos passar a coisa. A todos vós, muito muito obrigado.
Uma das coisas melhores é quando as saídas parecem estar todas fechadas e, no último momento, uma porta se abre onde não se esperava, como no Snake. O jogo recompõe-se em aspecto harmónico, uma quantidade nova de visões do mundo e de possibilidades de acção aparecem, e ao fundo ouvem-se violinos.
«As pessoas que escrevem nos blogues, como muitas das que escrevem nos jornais, como as que falam na televisão, dão aquilo que elas julgam que serão opiniões. Políticos falhados, jornalistas frustrados e tanta outra gente completamente iletrada, que não conhece os assuntos, e podiam dizer aquilo, ou o contrário, que era igual ao litro. Mesmo a maior parte dos cronistas são ignorantes, e o que escrevem são crónicas desnecessárias ou desabafos, aquilo a que chamo jornalismo da indignação. Mas faz muito sucesso, porque como as indignações são básicas, há muita gente a partilhá-las, e a ficar feliz por o senhor X, que até escreve no jornal, pensar como elas.» Vasco Pulido Valente ao "Notícias Magazine".
Retirei a citação do blogue abre-latas, que também se indigna com alguma facilidade. Não li a entrevista que o "Notícias Magazine" fez a Vasco Pulido Valente. Porquê?
1 - Porque nunca leio o "Notícias Magazine".
2 - Porque Vasco Pulido Valente já não diz mal de ninguém. Limita-se a dizer mal de toda a gente.
3 - Porque Vasco Pulido Valente, apesar de ser muito inteligente e ainda mais talentoso, está sempre demasiado indignado.
4 - Porque Vasco Pulido Valente, em entrevistas, já diz sempre o que eu quero ouvir e a mim apetecia-me ouvir qualquer coisa que ele ainda não tivesse dito.
5 - Porque, apesar de tudo, se é para ser sempre neste estilo, acho mais graça ao Luiz Pacheco. Também é inteligente, também é talentoso e leva-se menos a sério. Nunca se indigna.
Antes que o tom triunfalista dos recém-convertidos ao carisma de Blair desabe sobre nós, vale a pena recordar um dado importante. O Inquérito Hutton não foi um inquérito às causas que levaram o governo britânico a atacar o iraque. O Inquérito Hutton foi sobre as circunstâncias que levaram o cientista David Kelly ao suicídio. Lorde Hutton ilibou o governo Blair da responsabilidade directa pela morte de Kelly ao concluir que da parte do Ministério da Defesa ou de Downing Street não houve qualquer estratégia malévola para desgraçá-lo publicamente. Hutton concluiu também serem infundadas as acusações dirigidas ao governo por um jornalista da BBC acerca da adulteração de informações sobre o arsenal de ADM iraquianas (os célebres «45 minutos» que bastariam a Saddam para atacar Israel e alguns países europeus com mísseis balísticos). Finalmente, Hutton reservou palavras bastante severas para a direcção da BBC ao considerar que o seu sistema de gestão editorial apresentava falhas graves, nomeadamente por permitir a difusão de acusações gratuitas à integridade do governo.
Ao contrário do que se esperava, Hutton foi tudo menos salomónico e quem ficou com as orelhas a arder foi mesmo a direcção da BBC (o seu presidente, aliás, acaba de se demitir). Eu nunca foi ao site do Inquérito Hutton, e limitei-me a acompanhar o desenrolar do processo pelos jornais. Não conheço os «termos de referência» do magistrado, nem a metodologia da investigação. Pelo que fui ouvindo hoje nos canais de cabo (Sky e BBC), Hutton não terá feito uso de toda a informação a que teve acesso e muita gente questiona já o sentido de algumas das suas conclusões. Há quem diga que se a direcção editorial da BBC tivesse feito uma defesa menos encarniçada de Gilligan a reprimenda não teria sido tão severa. É possível. De qualquer forma, vale a pena atentar em algumas dessas reprimendas. Por exemplo, Gilligan é acusado de falta de profissionalismo por não ter feito anotações verbatim da conversa que teve com Kelly no hotel de Charing Cross, quando a ausência de gravador e bloco de notas pode ter sido necessária para pô-lo mais à vontade (não vejo mal nenhum nisto e gostava de saber quantos jornalistas guardam os seus blocos de apontamentos). Depois, se Kelly, cuja integridade ninguém questiona, se sentiu compelido a procurar alguém da imprensa para manifestar o seu desagrado pela forma como o governo lidara com a informação sobre as ADM, então algo de errado se terá mesmo passado. Ora, aqui é que bate o ponto. O mais provável é que nenhum dos relatórios dos serviços de espionagem britânicos contivesse quaisquer «falsidades». O que eles continham eram informações lacunares, imprecisas, fragmentárias. Nenhum seria suficientemente taxativo para tornar imbatível o argumento de Blair. O que o governo fez foi valorizar as informações que reforçavam a sua posição, e negligenciar aquelas que podiam comprometê-la. Mas a decisão política de ir para a guerra, essa estava tomada há bastante tempo. E à mesma hora que Lorde Hutton lia as suas conclusões, David Kay, o director demissionário do Iraq Survey Group, fazia as seguintes declarações ao comité das forças armadas do Senado americano: «As nossas buscas foram suficientemente exaustivas para poder afirmar o seguinte: é altamente improvável que stocks significativos de armas químicas e biológicas venham a ser encontrados no Iraque. E isto é um facto muito perturbante». Ora, se basear uma decisão como a de ir para a guerra em meras suposições não é uma imoralidade, então eu gostava de saber o que é uma imoralidade. Disto, dificilmente Blair poderá ser ilibado.
Uma nota final. Eu percebo que muita gente se sinta incomodada com o facto da BBC não se ter rendido à atmosfera jingoista durante a guerra do Iraque (daí a considerá-la uma estação «anti-guerra» é um passo que só a direita mais lunática poderá dar). As pressões para coarctar a autonomia editorial da empresa aumentarão quando chegar a altura de rever a sua Carta (creio que é já em 2006). Mas, francamente, será a Fox News a alternativa que esses críticos têm em mente? Se Orwell escrevesse 1984 nos nossos dias, o mais provável é que uma das suas mais famosas passagens desse nisto: «Se queres uma imagem do futuro, pensa na cara do Murdoch num écran de televisão. Para sempre».
pessoas assinaram a petição para realização de um referendo à descriminalização do aborto. Número final.

Fui ao jardim da Celeste,
giroflé, giroflá,
fui ao jardim da Celeste,
giroflé, flé, flá.
O que foste lá fazer?
giroflé, giroflá,
O que foste lá fazer?
giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uns descontos,
giroflé, giroflá,
Fui lá buscar uns descontos,
giroflé, flé, flá.
P’ra quem é esse dinheiro,
giroflé, giroflá,
P’ra quem é esse dinheiro,
giroflé, flé, flá.
É p’ra a menina Manela,
giroflé, giroflá,
É p’ra a menina Manela,
giroflé, flé, flá.
Mas isso não é legal,
giroflé, giroflá,
Mas isso não é legal,
giroflé, flé, flá.
A lei não é para o Estado,
giroflé, giroflá,
A lei é só para os tansos,
giroflé, flé, flá.
Não sou cristão. O meu cristianismo é inconsciente. O que admiro no exemplo de Cristo é o seu radicalismo. Social, por exemplo ('um rico dificilmente entrará no reino dos céus"). Mas não apenas: o radicalismo da sua crença e da sua missão. O mesmo que lhe fazia invectivar os que o seguiam quando duvidavam: "homens de pouca fé!". Sendo eu próprio um homem de pouca fé, considero-me no entanto mais perto do exemplo de Cristo (que não quero seguir conscientemente) do que o reaccionário que apenas usa o cristianismo como o adorno de que precisa para legitimar as suas concepções conservadoras da sociedade - e não ousa acreditar. O que este cínico carente de outra legitimação usa não é Cristo mas a exuberante aura estética de séculos de cultura cristã. Ao contrário da melhor desta arte, a estética está-lhe ao serviço da política, não da fé.
Nas duas últimas semanas voltou a falar-se sobre imigração. Tive dificuldade em escrever sobre este assunto que se me tem tornado cada vez mais penoso.
1. Em primeiro lugar, notemos o que diz a "sociedade civil". Não falo da Solidariedade Imigrante nem do SOS Racismo. Bastam estas três vozes: a Igreja Católica, pela voz do bispo Januário Torgal Ferreira, que tem a seu cargo este pelouro, veio duas vezes neste últimos dias dizer que a politica de imigração do governo é desumana; o bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, afirmou que tem a certeza de que a nova lei da imigração é inconstitucional e que só lamenta não ter poder para a mandar fiscalizar; o governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, avisa que Portugal vai ter de aceitar muitos mais imigrantes nos próximos anos para manter a economia competitiva e entrarem receitas fiscais e de segurança social que permitam manter o estado a funcionar.
2. Depois há o que dizem o PSD e o PP. Há exactamente uma semana, Feliciano Barreiras Duarte reagia violentamente na TSF contra as vozes discordantes desta política, chamando-as de irresponsáveis para baixo. A esta invulgar agressividade não será estranha a ideia, divulgada nos últimos dias na imprensa, de que o PP condiciona a política do governo. E de facto Nuno Magalhães, num encontro com militantes deste partido, veio gabar-se de as posições do PP terem vingado na lei da imigração.
3. Depois existe aquilo que da política passa cá para fora. Aparentemente, tratar-se-ia de uma política restrictiva, mas menos "humana". Na verdade, os portugueses sabem muito pouco acerca de como as coisas se passam. Descansam-se com a ideia de que os brasileiros serão legalizados, e até dão os parabéns aos brasileiros que conhecem. Não fazem ideia de que em 31 mil brasileiros haviam sido legalizados 75 em três meses. Ouvem dizer que quem pague impostos e segurança social será legalizado. Não sabem que na verdade a burocracia envolvida vai deixar de fora a maior parte dos imigrantes nesta situação, que o governo estima como sendo menos de 10 mil – número absolutamente irreal.
4. Depois existe a maneira como as coisas se passam lá dentro, isto é, no processo de obtenção de vistos. E aí, meus caros amigos, tenho impressão de que não há imigrante que, por muito má que seja a lei, não a preferisse ver aplicada do que sofrer a situação de arbitrariedade reinante. Não exagero, e conheci outros países onde ser imigrante não é pêra-doce: o SEF trata vergonhosamente os processos que lhe são entregues. Na União Europeia não existe pior. Não existe um único processo que seja decidido nos prazos legais. Ao imigrante que tentou legalizar-se, o prémio pela sua atitude é fazê-lo esperar dois anos num limbo legal. Porque faz o SEF isto? Porque a sua tutela, pertencente ao PP, não conseguiu endireitar o serviço em dois anos? Então haveria aí caso para demissão. É que se não é incompetência, é pior ainda: é o SEF a não cumprir sequer a lei inconstitucional e injusta que o governo nos dá. Ainda que inconstitucional e injusta, deixem-nos a lei.
5. Para ilustrar isto, lamento muito, mas vou ter que dar o meu exemplo: há 17 meses que a minha mulher entregou o seu pedido de visto. Ainda não tem resposta. Já fomos ao SEF 17 vezes desde Setembro de 2002: entregar documentos redundantes, pedir informações, carimbar o rísivel recibo azul, cada vez mais gasto, que lhe dá um semblante de legalidade durante um mês por cada carimbo. Cada ida ao SEF representa uma manhã ou tarde de trabalho perdidas. Em Agosto fizémos um pedido de urgência na avaliação do nosso processo, invocando razões académicas relacionadas com o seu doutoramento. A resposta ao pedido de urgência, que nos disseram demorar 15 dias, ainda não chegou. Sete meses para responder a um pedido de urgência, quando a resposta ao pedido de visto tem de ser dada no prazo de um mês! Esta situação de ilegalidade reflecte-se em dominó por uma cadeia de aspectos da nossa vida: demorámos dez meses para convencer a conservatória a casar-nos; a carta de condução estrangeira da minha mulher não pode ser trocada por uma portuguesa e ela não pode conduzir em Portugal; das boas propostas de trabalho perguntam imediatamente se ela já tem autorização de residência – e depois desistem. Para piorar tudo isto, o imigrante está sequestrado em Portugal, pois o SEF ameaça com os riscos de se sair de Portugal e voltar a entrar enquanto ainda não se tem autorização de residência. Após mais de um ano de espera e com o nosso pedido de urgência sem ser respondido há seis meses, não aguentámos e fomos visitar a família dela pelo Natal. Esperávamos que o visto chegasse entretanto. Não chegou, e a tensão à medida que a data da sua chegada ao aeroporto se aproxima é destrutiva. Se eu não soubesse que isto iria atrasar ainda mais o processo, a minha vontade seria meter o Estado em tribunal por causa dos danos morais provocados por esta situação.
6. Reparem que não são só os direitos do cidadão estrangeiro a ser violados, mas os do cidadão português também, que não pode na prática viver em paz e na legalidade com o seu cônjuge por causa das más políticas e piores práticas do seu governo. Mas nem tudo é péssimo. Apesar de tudo eu sei que é ilegal negarem-nos o visto. Muito pior é a situação dos outros estrangeiros.
Eu sei que é fastidioso relatar a portugueses situações de desrespeito na administração pública que todos estão habituados a viver em primeira mão. Mas agora chegou a altura de pensarmos numa coisa. Se precisamos de mais imigrantes para trabalhar no nosso país, como diz o governador do Banco de Portugal, não podemos pensar que eles sejam como maquinaria que se desligue no fim da jornada. Esta gente vai compartilhar o seu quotidiano connosco. Andar nos transportes, trabalhar ao nosso lado, ter os seus filhos na escola com os dos portugueses. Está no momento de começar a preparar um bom Portugal futuro. E esse não se faz com uma mentira repetida de uma "política humana" que é, no fundo, uma fábrica de ilegais. Só se faz voltando a subir a escada da dignidade para todos nós. Para começar, talvez perguntando à Ordem dos Advogados, à Igreja Católica e ao Banco de Portugal o que seria uma política legal, humana e realista de imigração.
Não vi a a entrevissta de karluss Karvalhass à Xicnotíxuas à essepxão dus últímuss ssegunduss, quando uss jornalisstass lhe perguntaram que marca ele kueria deissar como ssecretárioo-xeral do PXP. a ressposssta foi a que sse experava: nenhwma. O Pxp é um kulecctivu. Eu não kero ke Karluss Karvallhass tenha wma krize de perssonalijmu y diga qwe qwer fajer ystórya komo u wltymo líder...zbroyng... du PXP... nem ke nus wenha dizer... ke tenn wma atytwde estétycca perante a pwlyytica aw outra deeletanxia qualker, maszzzrtfhg...zbrgabumk...zbrggg... nem ke é u wltímo lyder do PXP, mas ke dyyabbo... doix myl y kuatro, é tempoo de haver vyda...zrgh... dentro do PXP y senão wida au menos xente...pffffzbringzbring...pfeuf
P.S.
Este Post foi transcrito no mais estrito rigor e observância da linguagem do secretário geral do Partido Comunista Português. À comunidade galega residente em Portugal e ao bom povo beirão queremos dizer que não se trata de qualquer pífia e desengraçada caricatura mas, simplesmente, da observação de um robot que está a meter àgua.
Lamento, André, mas não tens razão na polémica dos 30 mil jovens que vão copiar manualmente o texto integral da Bíblia, numa iniciativa da Sociedade Bíblica de Portugal. A Bíblia é palavra sempre viva e actual. A informação não ocupa lugar e a leitura da Bíblia abre novos horizontes à juventude e poderá até ajudar à resolução de problemas da nossa sociedade.
Pensemos, por exemplo, na actual crise da justiça, e vejamos alguns preceitos do Deuteronómio. Em caso de homicídio não esclarecido,
Rápido, expedito e barato. Quanto ao problema, sempre lembrado por João Carlos Espada, da falta de autoridade paternal:
O respeitinho é garantido.
Pensemos ainda na violência nos namoros dos nossos adolescentes, que recentemente fez correr tanta tinta:
Também será proveitoso aos jovens de hoje saber que
e aprender normas de convivência em acampamentos:
Se ao menos as pessoas lessem mais a Bíblia.
Copiar a Palavra pode afastar os jovens da xenofobia e da influência das letras de heavy-metal. Veja-se Sofonias 1:
A profecia seguinte,
afastará os nossos jovens da Zara e outras lojas espanholas e dará o tão necessário empurrão à indústria nacional.
Por fim, também no Novo Testamento os nossos liceais encontrarão motivos de interesse, pois facilmente se vê que diante de
e do restante Apocalipse, Marylyn Manson é droga leve, tanto na temática como na qualidade poética.
Claro que existem alguns riscos nesta iniciativa, nomeadamente pela descontextualização de alguns excertos que pode dar uma ideia errada do texto sagrado. Isso no entanto resolver-se-ia da seguinte forma: em vez dos trinta mil jovens copiarem a Bíblia sequencialmente, cada um deles copiaria o texto integral. E assim, – derradeira vantagem –, a Sociedade Bíblica teria introduzido em Portugal 29.997 ateus, – e três agnósticos.
Sobre Celeste Cardona: "Ladrão que rouba a Bagão, só pode ser parceiro da coligação". Dos nossos irmãos da Laranja Amarga.

A petição para o referendo à despenalização do aborto será entregue amanhã na Assembleia da República. Correu bem: tinha, nas últimas contas, 95.000 assinaturas. No fim da contagem deverá chegar às cem mil.
PS: Nas últimas contas, a esta hora, já se tinha chegado a 110.000 assinaturas. É uma das maiores petições de sempre, em Portugal, e a primeira a obrigar a um debate sobre um referendo.
Desde o início do ano, três reclusos suicidaram-se na cadeia do Linhó. Os reclusos falam de pressões dos guardas. Não sei. Mas sei que não sabemos quase nada do que se passa nas cadeias portuguesas e o que sabemos dá-nos muito poucas razões para estar descansados. E sei que é muito estranho que haja três suicídios em pouco mais do que 20 dias.

Celeste Cardona tentou o velho truque de descontar o dinheiro da segurança social a trabalhadores com contratos a prazo e depois não o dar a quem de direito. Alguns empresários do Vale do Ave devem estar indignados pela concorrência desleal.
Dez cêntimos foi quanto Manuela Ferreira Leite ofereceu aos funcionários públicos de aumento de subsídio de refeição. Eu sei o que acontecia à ministra se ela oferecesse tão generosa quantia a uns rapazes da minha rua que arrumam carros. Ou muito me engano ou nos próximos meses a titular das finanças vai ter mais problemas do que um carro riscado.
A Rosa Pomar colocou na ervilha cor de rosa um texto seu sobre a praga dos forwards transmitidos por email. Útil, informativo, ecológico. A ler, aqui ou no Barnabé Rebelo de Sousa.
Nos últimos dias tenho apanhado um bocado de porrada e sem dúvida porque me pus a jeito para isso. Também procuro devolver.
A propósito das bíblias manuscritas responderam-me em desacordo, se não erro, um católico, o Miguel Marujo da Cibertúlia, e um protestante, o Tiago de Oliveira Cavaco da Voz do Deserto. Não vou insistir muito na questão da laicidade a propósito do projecto de cópia manuscrita da Bíblia: não vivo em Portugal, aqui onde estou vejo mal o que se passa, falta-me informação para avaliar bem. Mas, lendo só a notícia que saiu no Público, mantenho as minhas dúvidas. Penso que se, como diz o Miguel Marujo, a laicidade do Estado se joga "na pluralidade de todas as religiões no espaço público", ela deve ter em conta o peso relativo que essas religiões já têm nele. Estamos, se a distância não me enviesou muito a percepção, a falar de um país em que a presença de actos e símbolos religiosos em actos eminentemente estatais (como a inauguração de estradas) é tão habitual que ninguém se indigna por aí além.
É possível que isto das bíblias manuscritas não tenha importância nenhuma. Aliás, a principal razão porque me "arrepio", como se pode ler no post, é porque é uma iniciativa estúpida, em que não se vai aprender nada. A copiar aprende-se a copiar, mais nada. Copiar na era da "Internet nas escolas" daria vontade de rir a qualquer copista medieval. E copiar umas linhas de bíblia por aluno, por mais que custe à missão civilizadora do Tiago, não vai fazer os jovens portugueses ficarem a conhecer um texto que desconhecem. Ler é outra coisa.
A este propósito, uma última observação: é normal que cada um dos Barnabés individuais seja colado à imagem que o blogue colectivamente transmite. Na blogosfera essa imagem tem muita importância, e ninguém é virgem na matéria. Não me importa nada ser colado a um partido em que nunca votei mas em que espero vir a ter ocasião para votar (o Bloco de Esquerda) e de ser considerado todas as coisas que andam associadas ao Barnabé, para uns boas, para outros más, para mim muito boas. O Tiago, como não me conhece, também não tem a obrigação de saber que a minha relação com o cristianismo é assim como a do Obélix para a poção mágica. Caí no caldeirão quando era pequeno. Mas, se o Tiago me permite, devolvo-lhe o convite para ir escrevinhar versículos para o liceu. Estou farto de que me mandem ir para o liceu. Olhe, vá você.
Hoje, Lisboa vai acordar com quase todos os cartazes em defesa do referendo à despenalização do aborto, no caso, do Bloco de Esquerda, vandalizados. A jornada de destruição massiva aconteceu ontem à noite e era já visível por toda a cidade. As letras que apelam à petição tapadas com tinta branca, a côr da pureza e da castidade. Já há dois anos acontecera o mesmo. A destruição de outdoors relacionados com a despenalização do aborto é já uma tradição e o crime segue sempre a mesma metodologia: na mesma noite, em quase toda a cidade, quase todos os cartazes são destruídos. É organizado e metódico, não é coisa de fedelhos inconscientes. Que este bando de fanáticos viva mal com a liberdade de expressão e com a democracia, ora aí está uma coisa que não me espanta.

Confesso que não esperava ver o País Relativo (ou parte dele) a defender o indefensável: o cartaz do PS sobre a insegurança em Lisboa. O Filipe Nunes diz, em resposta ao Barnabé, no post com o título «O pior cego é aquele que não quer ver», que «enquanto o discurso da segurança for monopólio da direita, a esquerda dificilmente volta a ganhar». Concordo que a esquerda tem um problema no debate sobre a segurança. Tem o problema de se limitar às causas (questão central) e achar pouco importante as consequências. Ainda não é desta que irei contrariar este hábito. Lá irei, com tempo, brevemente. Fico-me, por agora, pelo cartaz.
O que o cartaz faz é a mais pura das demagogias. Há imensa coisa por onde atacar Santana. O que não falta é tema. Mas nada de fundamental que Santana tenha feito tem qualquer relação com a insegurança em Lisboa. Ele, de facto, não gere as polícias. Ele não inverteu a desastrosa política de habitação social, que tem muito de habitação e nada de social, mas ela vem de todos os executivos anteriores (Sampaio, que apoiei convictamente, incluido).
O cartaz limita-se, pela foto e pelo resto, a apelar ao medo e a criar alarmismo sem qualquer conteúdo político. E Filipe, digo-o com pesar, tu fazes o mesmo: «quem nunca foi assaltado na Lisboa de Santana que atire a primeira pedra». Eu nunca fui mas podia ter sido. Na de Santana, na de Soares, na de Sampaio e na de Abecassis. Claro que não se deve deixar o exclusivo de nenhum tema à direita. Mas se é para dizer o mesmo que eles, se é para dizer "socorro, tenham medo, tenham muito medo», mais vale ficar calado. Porque o demagogo acaba sempre por levar com a sua demagogia na cara. Que o diga Fernando Gomes. Que o diga, agora, Santana Lopes.
É que há um cego pior do que aquele que não quer ver: o que finge que está a ver tudo. Esse estatela-se no chão.
Não existe anti-semitismo na Europa? Existe sim senhor. Abram alas para a prova nº 1: Cardeal Joos, recentemente nomeado pelo Papa, de quem foi colega e é amigo pessoal, o que explica o facto de ter subido de pároco a cardeal num só pulo.

Além de possuir a melhor garrafeira de Gand, na sua Bélgica natal, o octagenário Gustaaf Joos é senhor do seu nariz e disse o seguinte a um jornalista: "Seria capaz de escrever com meu próprio sangue que, de todos quantos se dizem lésbicas e homossexuais, não haverá nem 5% ou 10% que o sejam de facto. Os outros não passam de prevertidos (...) Exijo que você o escreva. Se vierem todos protestar à minha porta, estou-me nas tintas". Provavelmente preocupado com o facto de vir a ser retratado exclusivamente enquanto homofóbico, sua eminência decidiu então fazer a sua perninha no anti-semitismo: "Clinton era um maníaco sexual que só foi eleito com o apoio dos judeus". Isto um defeito nunca vem só.
David Kay, inpector americano para as AMD no Iraque, demitiu-se e diz não acreditar que as armas alguma vez tivessem existido. Colin Powell "admite que o Iraque poderia não ter armas proibidas".
Em Portugal, por norma, o disparate não paga imposto. As declarações ou profecias mais extravagantes podem ser desmentidas pelos factos, mas é muito raro que alguém se sinta compelido a fazer um mea culpa ou a admitir, muito humildemente, que se enganou (uma das excepções foi o deputado José Magalhães, que em tempos pintou a cara de preto numa sessão do Flashback, já não sei a propósito de quê). Suponho que uma explicação para este nosso (mau) costume residirá na ausência de uma pressão efectiva para pedir contas a quem intervém no espaço público. Veja-se o caso das armas iraquianas (um dos ossos preferidos do Barnabé). Durão Barroso teve o desplante de dizer que viu «provas» acerca das ADM iraquianas e que essa foi uma das razões que levou o Governo português a apoiar a intervenção anglo-americana. Desconheço qualquer iniciativa parlamentar ou investigação jornalística para confrontar o nosso p-m com o conteúdo das suas declarações. Um dos comentadores mais beligerantes da nossa praça foi mesmo ao ponto de garantir que se as ADM não aparecessem, ele estava disposto a despir-se no Rossio (o que, diga-se de passagem, dificilmente seria um espectáculo digno de se ver). Ora, em democracias mais amadurecidas do que a nossa, como a norte-americana e a britânica, o disparate paga mesmo imposto. As reputações são constantemente escrutinadas e quem se engana sente que deve uma explicação ao público – ou, então, como sucede no caso dos políticos, é mesmo obrigado a dá-la. Enquanto decorre a contagem decrescente para a divulgação do Relatório Hutton, sugiro-vos a leitura de dois artigos da edição de Janeiro/Fevereiro da Atlantic Monthly. Um é assinado por Kenneth M. Pollack, autor de The Threatening Storm: the case for Invading Iraq (recenseado no NYRB em 2003), antigo analista da CIA e asssesor do NSC durante a administração Clinton. Pollack foi um dos mais convictos defensores da política de «mudança de regime» no Iraque e, embora com muitas ressalvas, manifestou a sua concordância em relação ao rumo de acção adoptado pela administração Bush após o Verão de 2002. Agora, com a ausência de quaisquer indícios palpáveis de que o programa nuclear iraquiano estaria suficientemente avançado para justificar a intervenção, Pollack procede a um exame exaustivo da forma como a administração Bush distorceu a informação que tinha ao seu dispor para vender a «urgência» da guerra à opinião pública. O segundo artigo («Blind into Bagdad»), do jornalista James Fallows, é bem mais devastador para a reputação de Bush & Cª. O que é notável nesta peça é o seu tom sóbrio, ponderado, meticuloso. Fallows demonstra para além de qualquer dúvida de que o governo americano tinha toda a informação de que precisava para evitar o caos que se seguiu à fase pós-bélica no Iraque. Espiões, militares, académicos, exilados iraquianos, gente das ONG’s, submeteram aos vários departamentos todos os cenários possíveis e imaginários para um planeamento cuidadoso e responsável da ocupação do Iraque. O único problema é que todos esses prognósticos colidiam com as certezas e os preconceitos de algumas figuras carismáticas da administração, a começar pelo vice-presidente e pelo Secretário de Estado da Guerra (Rumsfeld foi ao ponto de proibir oficiais do Pentágono de assistirem a seminários da CIA sobre o pós-guerra no Iraque...). Sempre que elementos de agências humanitárias solicitavam uma audiência a membros do governo, era-lhes dito que «o presidente já gastou uma hora com as questões humanitárias». Entre várias citações possíveis, esta parece-me sintetizar bem as conclusões de Fallows: «None of the government working groups that had seriously looked into the question had simply ‘imagined’ that occupying Iraq would be more difficult than defeating it. They had presented years’ worth of experience suggesting that this would be the central reality of the undertaking. Wolfowitz either didn’t notice this evidence or chose to disbelieve it. What David Halberstam said of Robert McNamara in The Best and the Brightest is true of those at OSD [Office of the Secretary of Defense] as well: they were brilliant, and they were fools» (infelizmente, o artigo de Fallows só está disponível na edição em papel).
O Tiago de Oliveira Cavaco arrepia-se com a chegada das orelhas manuscritas. Espera não haver "a sociedade da palavra nem escrituras laicas à opção de comércio e moral".
O que eu mais gosto nesta catequese angustiada dos copistas escarlates é a sua cantiga ternurenta. Gentilmente vigiada pela participação dos felinos do lado. A religião vendilhona de Portugal é exterior: arrebita a Bíblia assim que ouve o projecto republicano. A sua ignorância é pressurosa: o demónio Barnabé chega-lhes pelo exorcismo do André Belo.

Berlusconi terá feito uma plástica. A intervenção não foi suficientemente radical. Os italianos e os tribunais ainda o conseguem reconhecer.
Eu não espero estar de acordo em tudo com um bispo. A posição formalista de D. Januário Torgal Ferreira em relação à questão do aborto reflecte todos os impasses filosóficos a que a Igreja chegou (não só nesta questão mas em quase tudo o que, de perto ou de longe, se relaciona com a sexualidade, como a contracepção, o celibato, ou a homossexualidade). Mas isto não me impede de reconhecer o comportamento corajoso do Bispo das Forças Armadas no que respeita à lei da imigração e o modo como denuncia uma mentalidade dominada por medos irracionais e completamente desfazada da realidade social portuguesa. Há coisas em que a Igreja não pode mesmo fazer política (fazer tocar os campanários a favor deste ou daquele partido, por ex.), noutras, porém, é uma obrigação.
João Soares, ao DN: “Hoje sinto-me mais à direita do que o meu pai”.
As partilhas ficam assim: nós ficamos com o pai, a direita com o filho e o Espírito Santo de Maria fica para João Carlos Espada. Ámen. Acho que não ficamos a perder.
E a trágica morte de Feher, sobre a qual pouco mais haveria a acrescentar, para além de recordar a brilhante carreira do futebolista, noticiar a sua morte e o seu funeral, dizer o que aqui foi dito por Rui Tavares e respeitar a sua morte, transformou-se na nova obsessão mediática. Até o absoluto do fim da vida se consegue banalizar. O sofrimento, dantes, resolvia-se com o luto. Hoje resolve-se com directos e três milhões de adjectivos. E aí está uma coisa em que sou conservador: com a morte.
Um exemplo, entre muitos: Você tem um leitor de DVD’s da zona europeia. Um amigo trouxe-lhe um filme dos Estados Unidos que ainda não saiu na Europa. O seu leitor, claro, não o lê. Não vale a pena comprar um leitor multi-regiões. Menos ainda tentar arranjar software que ultrapasse esta situação. Segundo as novas directivas comunitárias, se você tentar qualquer uma destas duas coisas está a cometer um crime com pena até três anos de prisão. A directiva europeia vai ser transposta para a legislação portuguesa, abrange todas as áreas electrónicas e informáticas – excepção feita aos programas de computador, graças à pressão das pequenas empresas de software e utilizadores de software livre – e foi aprovada pelo Parlamento Europeu. Eles adoram a internacionalização dos mercados. Mas só quando ganham alguma coisa com ela.
Amanhã será o dia mais longo da vida de Tony Blair: os rebeldes do Labour confrontam o primeiro-ministro britânico com o drástico aumento das propinas universitárias, transformadas em empréstimo, e o Inquérito Hutton, sobre a morte de David Kelly, é-lhe entregue.
No primeiro caso, Tony Blair fez questão de considerar a aprovação desta lei como o tira-teimas da sua autoridade no Partido Trabalhista, e a coisa pode acabar numa moção de censura. No segundo caso, que acontece poucas horas depois, os candidatos a sacrificar Blair estão em todas as bancadas e, sobretudo, fora do Parlamento.
A coincidência dos dois momentos levou o Guardian a comparar este dia com o da série "24 hours". Amanhã, Tony Blair poderá ter parte do seu partido contra si, a oposição pronta a fritá-lo e a sua credibilidade desfeita. É o próprio a reconhecer que o seu lugar está em risco.
Às 12.30 Blair e os envolvidos recebem o relatório do Inquérito Hutton e começa, no Parlamento, o debate sobre o aumento de proprinas. Às 19, é votada a Lei. Se o governo vencer, tudo bem. Se perder, deverá ser apresentada, pelos conservadores, uma moção de censura. A saga, que já deve ter estão o desfecho definido, continua no dia 28. Às seis da manhã, o Relatório Hutton será conhecido pela oposição. E pouco depois do meio-dia o relatório será apresentado ao país. Às 14.30 Blair não terá outro remédio se não falar do assunto no Parlamento. E no dia 29, caso tenha sido apresenta a moção de censura, esta será votada. Esse será o dia de alívio ou último dos dias de Blair no poder. Poderia bem ser um grande dia para a Europa.

Ser do Benfica já não tem sido, nos últimos tempos, motivo para grandes alegrias. Agora, ver um puto de 24 anos, aparentemente de boa saúde, sorrir, cair no chão, e depois morrer, deixa um gajo muito lixado com o destino. Eu sei que isto é dizer nada, mas que se pode dizer afinal? Vocês como nós: depois de vermos o que vimos, como se fosse assim à frente dos nossos olhos, não podemos deixar de ficar muito mal dispostos. Que dia cretino.
A blogosfera é a Casa da Mãe Joana. Duas horas de blogues é o suficiente para se perceber isto. Vê-se gente a ter discussões que duram meses, a atacarem-se e a darem-se razão (Ivan Nunes: Contra os Comentários; André Belo: Tens Razão), e outros a meterem-se onde não foram chamados. Será o meu caso.
No tema em questão, não faço ideia sobre se a presença maioritária da janela de comentários nos blogues de esquerda é ou não um sinal de "superioridade moral" sobre os blogues de direita, que raramente têm os ditos comentários. Podemos até guardar "superioridade moral" para temas efectivamente importantes. Ainda por cima, esta é capaz de não ser exactamente uma questão ética. Ou até mais estética do que ética.
É o que parece quando o Ivan diz: «Não tenho nada a favor dos comentários. Pelo contrário, acredito que há um estímulo excessivo à opinião avulsa e irresponsável. Não custa muito a quem quer falar - desde que tenha um computador e uma ligação à net - fazer um blog e escrever, se quiser até no anonimato, aquilo que pensa; também não custa, se quer estabelecer o diálogo com uma pessoa que escreveu, mandar-lhe um email.» É uma posição Caco Antibes: gosto muito de visitas em casa desde que elas me avisem com uma semana de antecedência. Moralmente é perfeitamente aceitável: afinal a casa é de quem?
Aqui o Barnabé é a Casa da mãe Joana, e ainda bem. Claro que há para aqui gajos que vem só escrever o que lhes dá na gana. Um veio fazer merda e teve de ser corrido. Às vezes temos de nos pegar com eles porque dizem que nós dizemos coisas que não dissémos. Mas de resto há café feito, a porta está aberta, o que é que querem mais? Desde que não mexam nos CD's do Celso, não me toquem nesse bife que é para eu comer antes de ir para o trabalho e tomem cuidado com o Daniel que o gajo tem um mau humor dos diabos a seguir a acordar, tudo bem. E se não quiserem ficar, olhem amiguinhos: têm aí uma porradona de links ao lado para irem à vossa vida e procurarem outro pouso.
Dito isto, é verdade que a direita, com o seu fetichismo da aristocracia e da propriedade privada, é mais Caco Antibes. E que a maior parte dos blogues de esquerda devem ter pensado, como nós fizémos, que para quem defende as ideias que defende, a Casa da mãe Joana seria a melhor opção. Diz o Ivan, citando Lou Reed: "I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard". Bem este era daqueles casos em que valia a pena tentar mais um bocadinho, mas ele é que sabe.
Atenção: esta é uma posição casuísta. Se eu tivesse um blog literário, era capaz de me fechar aos comentários para me proteger da minha falta de confiança. No entanto, quando são blogues de política de autores como o Ivan, o Pedro Lomba, o Luciano Amaral, ou o Pacheco Pereira (o Pedro Mexia deixou de escrever sobre política), é já mais difícil de perceber: todos têm mais do que arcaboiço intelectual para aguentar porrada.
E, já agora, deixem-me dizer que o pior snob da blogosfera é Pacheco Pereira. O pior porque o mais sonso. Mais do que não ter comentários faz-me muita impressão que em meses e meses de blogosfera ainda não tenha aprendido a fazer uma lista de links. Na casa da mãe Joana, é ele o hóspede que, por muito que publique as letras de músicas que lhe mandam e que diga os "bons dias", não gosta de falar com ninguém.
O Ivan, com a sua meiguice inconfundível, deu-me porrada forte sobre a afirmação de que os blogues de esquerda eram moralmente superiores aos de direita quando aqueles têm janelas de comentários e estes não. Ele tem razão. Esta é uma questão ética que não tem nada a ver com esquerda e direita, mas com a forma como as pessoas individualmente decidem discutir.
Segundo o Público de ontem 30000 alunos de escolas portuguesas vao copiar em conjunto a Bíblia à mão, por iniciativa de uma editora bíblica, com o apoio da igreja católica e de uma igreja evangélica. Espero sinceramente que seja uma medida laica, isto é, sem a participação do Estado nem de alunos e professores exteriores à opção de religião e moral. Alfredo Abreu, coordenador do projecto, diz que este se destina a pôr os alunos a interagir com o texto bíblico e apresenta os copistas medievais como modelo. Podia ter usado o exemplo da enorme tradição de cópia manuscrita do Corão. Mas vê-se que, percebendo talvez muito da venda de bíblias, Alfredo Abreu não percebe nada de copistas, sejam eles cristãos ou muçulmanos. Os copistas caligrafam e iluminam. Só lêem para depois transcrever. Fazem com o texto um trabalho artesanal que tem o objectivo de exaltar na forma física do texto a beleza da palavra de deus. Italo Calvino escreveu: "Por momentos pareceu-me perceber qual devia ter sido o sentido e o fascínio duma vocação hoje inconcebível: a do copista. O copista vivia simultaneamente em duas dimensões temporais, a da leitura e a da escrita; podia escrever sem a angústia do vazio que se abre diante da caneta; ler sem a angústia de que o próprio acto se não concretize em nenhum objecto material”. (Se numa noite de inverno um viajante)
Dando mais uma vez provas de que por trás do idealismo, dos princípios e da coerência férrea apregoados em cada post se esconde um político frio, capaz de apunhalar pelas costas os amigos mais próximos, o Daniel celebrou hipocritamente os 20 anos do Macintosh. Profano que fala do que não sabe e se passeia como um turista auto-convencido em momento de oração no templo. Que ignora o que ignora. Que fala do fruto da sabedoria, mas que nunca o provou: que não lhe adivinha o sabor nem as origens.
Não pode ser expulso do paraíso quem nunca o conheceu.

Cartaz do PS: "Socorro!! Estou a ser ASSALTADA!!". Faça alguma coisa dr. Santana Lopes.
Fátima Felgueiras vai recorrer da sua prisão preventiva. Diz o seu advogado que «não é juridicamente compatível que seja presidente e continue em prisão preventiva». É de facto indecente que a mulher continue presa quando tem tanto que fazer na Câmara. Sobretudo por causa das distâncias. Só por milagre é que Fátima tem conseguido dormir no Linhó, trabalhar em Felgueiras e viver no Rio de Janeiro.
O advogado diz ainda que «não há nada que exclua a possibilidade de exercer o cargo, estando ausente, porque as novas tecnologias o permitem». Mais uma vez, tem toda a razão. Hoje em dia, com as novas tecnologias, as tranferências bancárias internacionais estão bastante simplificadas.

O Mac fez ontem 20 anos. O André e o Rui esqueceram-se. Eu sabia, mas não lhes disse nada. Só para provar que a militância, fora do PC, deixa muito a desejar. A minha relação com PC é já só quase emocional. Sei que o PC respeita pouco o pluralismo e a diferença. Mas o que é que querem, foi o meu primeiro computador...
A greve da Função Pública, marcada pelas duas centrais sindicais, com altíssimas adesões em todo o lado, deveria ter servido de alerta. O congelamento dos salários acima de mil euros brutos não é só demagógico - quem ganha mil euros brutos está longe de ser rico - é insultuoso. Este tique de continuar a tratar os funcionários públicos como se não fossem bem trabalhadores é um dos sinais mais claros do destino que a direita pretende dar aos serviços públicos. Estarão satisfeitos quando nem um único técnico competente estiver disposto a aturar tamanha falta de respeito e debandar para o privado.
Mas a maioria continua sem perceber nada do que se passa à sua volta. Contrariando as evidências, o governo avançou com o disparatado número de 25% de adesão. A credibilidade deste número é tão pouca que até a secretária de Estado da Administração Pública, quando falava para a televisão, teve um acto falhado: «os números avançados pelos sindicatos também estão muito longe da realidade». Ou seja, Susana Toscano também não acreditou.
No país relativo, o João H. de Jesus comentou o meu post sobre a maneira de votar no Iowa. E nos comentários do blogue deu informação substantiva sobre esse método, distinguindo-o do voto de braço no ar. Cito:
Nas primárias, vota-se nas urnas. No caucus, "pratica-se" um método parecido com o de Hondt: Os eleitores reúnem-se em grupos, onde cada um apoia um candidato. Durante meia hora discutem-se as matérias a escrutínio. Ao fim desse tempo, conta-se o número de pessoas em cada grupo. Se for inferior a 15%, o grupo dissolve-se e os seus membros têm que ir apoiar outro candidato. O processo continua até que todos os grupos tenham mais do que 15% de membros.
Depois da manifestação internacional conduzida por integristas islâmicos da semana passada, agora são os representantes da religião sikh a manifestarem-se contra a lei anti-véu francesa. Segundo um artigo do Libération, ameaçam mesmo ir-se embora de França, dizendo que não querem viver num país intolerante. O medo de que esta lei possa servir a Le Pen tem portanto fundamento.
O pomo da discórdia em relação aos sikhs é o turbante. Enquanto há quem no governo lhes prometa que eles não são abrangidos pela lei, outros governantes têm medo de que tal possa ser considerado pelas outras religiões uma excepção ao espírito da lei, que quer proibir todos os símbolos religiosos na sala de aula. Só que, respondem os sikhs, o problema é que o turbante não é um símbolo religioso. O turbante serve para proteger o cabelo que, esse sim, é um símbolo religioso (aqui está um dos problemas da lei: meteram-se numa espiral interpretativa sem fim. Nunca vão saber onde começa e onde acaba a religião). Luc Ferry, ministro da educação, defendeu que os sikhs poderiam usar turbantes invisíveis. A esta solução do tipo o rei vai nu os representantes dos sikhs responderam com muita fineza: sendo a França um dos países com melhores estilistas do mundo, eles que confeccionem uma solução.

Na impossibilidade de outra comunhão de sentimentos pela manhã, eu deixo-vos a letra e vocês lêem cantando. Em termos de tecnologia de alta fidelidade ainda não se inventou melhor. E o Barnabé, que tem falado pouco de Zeca Afonso, fica mais bonito.
De não saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia
Vítima de só haver vaga
Entre uma mó e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda
Viemos pelo sol nascente
Vingámos a madrugada
Mas não encontrámos nada
Sol e água sol e água
De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta
Há bastante tempo que as televisões não nos dão nomes sonantes de suspeitos de pedofilia. A coisa já chegou a um ponto que temos de nos contentar com um Farfalha qualquer. Todos os dias acordamos com esta sensação de perda. Os shares assim não aguentam. Os jornais não vendem. O país não se indigna.
Desde que este ciclone foi para os Açores, Portugal está mudado. Mais triste. Sem uma causa pela qual sofrer, sem um crime "hediondo", sem jantares na Casa Pia, sem jogos de futebol de solidariedade, sem marchas brancas. Sem o Namora e o Granja, sem a Catalina e o Rui Teixeira. Este meu país está desanimado. Agora passa-se tudo lá longe. Voltámos ao ram-ram do costume.
Descemos tão baixo que até já andamos a discutir a lei da imigração e as previsões económicas do Banco de Portugal. Não me admirava nada que um dia destes houvesse gente a querer conversa sobre as instituições de apoio a crianças em risco, redimensionamento das estruturas de internato e o diabo a sete. Seeeecaaaaa!!!!!
Como querem, assim, que os portugueses se interessem pela política? Ainda por cima, quando nenhum dos deputados que aparece na televisão está envolvido num escândalo sexual.
Finalmente encontro alguém na blogosfera que achou o mesmo que eu do In The Cut. E o título do seu post ("É o clitóris, estúpidos") recordou-me a inquetação que senti ao ver o filme: como é que uma mulher demora 40 anos a conhecer um homem que saiba o que se pode fazer a um clitóris?
Metade das pessoas que conheço adorou esta pepineira. O que me assustou em relação aos conhecimentos anatómicos dos meus amigos e à felicidade das minhas amigas. Só por isto, por ter verificado que também nos filmes que gostamos estamos de acordo e por ainda por cima ele ser do Sporting, passei a ser quase fã do Babugem . Mas li o resto do seu blogue. Dizia-me, outro dia, o Rui Branco, do País Relativo, citando o Caetano Veloso: "se tu em política fores como és em estética, estamos feitos". No caso do Babugem, a máxima não se aplica: que bom era que ele fosse em política como é em estética. Assim, salva-o o cinema. E o Sporting. Não é pouco.
Se querem rir a sério, vejam esta falsificação do discurso de Bush à União. Uma vergonha, esta montagem, dirão os nossos visitantes bushistas. Hilariante, digo eu. A base não foi o deste ano, foi o do ano passado. Bem, é indiferente, foram quase iguais. Riam-se.
Mais uma vez, para ver o filme têm de ter o QuickTime.
A nova directora-geral do SIS, Margarida Blasco, admitiu que o seu Serviço poderia vir fazer escutas ilegais. Por isso, quando falar ao telefone, não se esqueça do vasto auditório. Comece assim: “Senhor Juiz, Senhor Agente do Serviço de Informações de Segurança, Senhor Agente do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares, Senhor inspector da Polícia Judiciária, Senhor Procurador do Ministério Público, minhas Senhoras e meus Senhores: então estás onde, Paula? Vens jantar?»
Oiça as declarações de Bush e de outros responsáveis da Administração Norte-Americana e o resultado dessa mentira. Mais do que as imagens, interessa recordar a mentira que, apesar de ter sido repetida milhares de vezes, nunca se transformou em verdade.
Um post recente meu sobre o modo de votar nas primárias do Iowa levou-me a uma suave irritação com alguns comentadores do Barnabé. Já não é a primeira. Mas as irritações, malta, há que sublimá-las. Como entretanto as bocas que ali se mandaram me conduziram a uma reflexão profundíssima sobre argumentos de autoridade e anonimato, levem lá com ela.
Senhores comentadores que não me conhecem e têm o descaramento de discutir comigo a origem histórica da democracia: o facto de eu estar a fazer um doutoramento em história não me traz nenhuma autoridade especial para esta discussão. Já é tempo que todos no Barnabé e no mundo saibam esta coisa simples: apesar dos pergaminhos que normalmente andam associados aos historiadores, uma pessoa que estuda história, como um físico ou um poeta, especializa-se num ramo. Não sabe tudo sobre a história desde a Lucy aos nossos dias. Eu sobre a revolução francesa, americana ou a democracia grega não tenho mais informação do que o comum dos cidadãos que se tenha dado ao trabalho de ler algumas coisas sobre o assunto. A única coisa de que percebo um bocadinho é da história de um jornal português do século XVIII (e de futebol, mas não vem ao caso). Bem, exagero. Há uma outra coisa que tenho: uma certa sensibilidade para a interpretação dos fenómenos históricos (que são fenómenos sociais). Isso faz-me desconfiar de explicações simples e de remissões ingénuas para a "objectividade dos factos".
Mas aqui nos blogues estamos todos em pé de igualdade. É aliás a única vantagem que vejo no anonimato que a Internet permite em termos de discussão intelectual: posso estar a discutir a mudança climática com um especialista e nem me aperceber disso. Não há títulos, insígnias, togas universitárias ou livros ricamente encadernados na estante. O argumento de autoridade fica muito desvalorizado o que, num país de senhores doutores, é uma coisa muito boa. Mas há muita ignorância e muita demonstração de ignorância. A qual, evidentemente, cabe a cada um tentar compensar ou pelo menos tratar da sua. Cada qual é que tem de saber o que ignora, sinal supremo de inteligência e que, pela minha parte, me vai dar ainda muito trabalhinho pela vida fora. Mas também acho que temos todos a obrigação moral de pensar bem porque essa é uma das coisas melhores da vida e porque pensar bem transforma a vida de todos. Mas sem bússolas para além do próprio entendimento.
Por cortesia do Ivan, oferecemo-vos hoje as memórias de 50 anos de Economist de uma jornalista que se acaba de reformar, Barbara Smith. É um texto muito instrutivo e, se me permitem, comovente. Gostei especialmente de duas revelações: a) que Kim Philby era um dos correspondentes da revista no Médio Oriente (e um óptimo correspondente, por sinal); b) que nos últimos 50 anos a redacção se dividiu ao meio em torno de duas questões: a Guerra do Vietname e a II Guerra do Iraque.
>Half a century at The Economist
>Not so hard labour
>Dec 18th 2003
> Barbara Smith, who has just retired, looks back at the publication she joined >in 1956
>
> PRETEND you are God, a long-ago senior editor advised a nervous new
> recruit faced with writing a leader. A much more recent, and not at all
> nervous, intern walked out after her first week because she could not
> stand the superior, faintly ironic, white-male aura of the place. Leaving
> The Economist, after almost half a century of writing and editing articles
> for it, I can just about recognise what both the editor and the intern
> were saying.
>
> We are a bit cocky in our glass tower gazing down on Westminster and
> Buckingham Palace: we cheerfully tell American and Soviet and French
> presidents to pack up and go. I've even done a bit of it myself, though
> for lesser fry, like Arab dictators or Israeli prime ministers. We are
> brought down to earth by our howlers. But our excellent advertising people
> spur us on by telling us we are read in the best houses, and influence the
> great and good-though my own target-audience tends to be an elderly,
> querulous relative.
>
> I joined the foreign editorial department of The Economist in 1956,
> sneaking over from the Economist Intelligence Unit. The sister
> organisations were in the same building, a rambling, dusty house of twisty
> corridors on the site now occupied by the brutalist 1960s tower that The
> Economist lives in today. The EIU, sniffily believing itself to be as good
> as the newspaper, made my crossover akin to leaping the Berlin Wall. But
> my bluff at handing out economic advice to unfortunate clients who were
> paying good money for it was wearing thin, and I made my escape at a
> Christmas party.
>
> Naturally, the paper was different then. Our circulation was 55,000
> copies, mostly in Britain, compared with 900,000, 40% of it in America,
> now. Though, even then, we were a venerable organisation, and felt pretty
> self-important, our not very prepossessing name did not mean much to most.
>
> Communication with "abroad" was rigidly limited by expense and technology.
> We had a wire service, and a handful of British newspapers, but in those
> economical, pre-web days we foreigners really couldn't do much research,
> relying instead on instinct and the fabulous memories of our librarians
> (dear reader, fear not, that was then, and now is now). All long-distance
> telephone calls were resolutely frowned on: the American department would
> gather round when the Washington correspondent made his very rare, very
> brief call to London. If he called more than, say, once a month, he was
> rebuked.
>
> We did what we could. Copy rolled in slowly by airmail or-very
> occasionally, in dire emergencies-by cable. Contributors would send
> background stories, many based on the foreign newspapers that were
> unavailable to the editors and to most readers. These would be wound into
> a dense section of a dozen pages called International Report, which, after
> I had been on the staff a few years, I edited.
>
> Sometimes, their connection with the news was tangential: I remember a
> usually tolerant editor gagging politely at a 1,500-word homily on Syrian
> land reform that I had rather fancied. Not that the news was ignored:
> leaders aside, political news went into a section called Notes of the
> Week, in which we clever young staffers rewrote newspaper cuttings,
> providing The Economist's trademark, even then, of polish, punditry and
> puns.
>
>
>
> Getting lost
> Editorial tightfistedness, and the fact that I was, at least at first,
> entirely dispensable, worked to my wonderful advantage, sending me on
> smashing freebies (now sternly forbidden) from the northernmost point of
> Canada to American warships in the eastern Mediterranean. Every new
> recruit to the foreign department was given Latin America, but most moved
> swiftly on since, at that time, the continent held little interest for the
> British. I stuck it out for quite a bit, having found I could get lost to
> head office while happily traipsing from one Latin American dictatorship
> to the next.
>
> My regret, as I explored new places, was that, as a young woman, I could
> not comfortably loiter in the streets. Ironically, I was deeply envious of
> a more adventurous travelling journalist, James Morris, who, a little
> later, changed himself into a no less adventurous woman, Jan Morris.
>
> The one stipulation from my office was that I should not spend much money.
> No problem: staying at brothel-like hotels, living on buns. Dissidents, of
> all colours, were kind and forthcoming. Every so often, I would try, with
> timid subtlety, to ask a dictator when he was going to let in a little
> political light, but in my horrible Spanish the questions would come out
> crude and rude. Visiting Cuba soon after Fidel Castro's revolution was
> eye-opening: people interviewed in the street actually liked their new
> young government. Sometimes, especially if I stepped inside a British
> embassy, concerned messages from my forbearing foreign editor would catch
> up with me, and I would quickly type out something or other, and send it
> to him with all the speed of airmail.
>
>
>
> Israel, Palestine and all that
> But, at the back of my mind, the Middle East was calling. A couple of
> months after I joined The Economist, Britain, France and Israel conspired
> to do down Gamal Abdel Nasser, Egypt's dictator, in the traumatic Suez
> Canal affair. The foreign editor, the same beloved man who allowed me my
> head in Latin America, let me write an angry paragraph of his angry
> leader. The Economist's Middle East editor, the great Elizabeth Monroe,
> generously encouraged me to try to get myself quickly to Nasser's Egypt.
> Once in Cairo, warm with spices and jokes, I was hooked.
>
> Eventually, after Elizabeth retired, I was dropped into her shoes. Our
> correspondent in Beirut, whom we shared with the Observer, was Kim Philby,
> who was spying for the Soviet Union. His work for The Economist was
> excellent but there was not enough of it. My embarrassing job was to be
> sent out, on at least two occasions, to urge Kim to file more regularly.
>
> Kim, who was under rather different pressures at the time, would sensibly
> go to ground. He was contactable only through the barman at the Normandie
> Hotel, and that considerate fellow always told me that Mr Philby had flu.
> I would hang around, feeling silly, and eventually Kim would emerge and we
> would drink and talk. I don't think I ever got around to scolding him for
> his inadequate copy. Shortly before his 1963 disappearance to Moscow, I
> had dinner with him and his wife Eleanor at their apartment, spending most
> of the evening on our knees trying to catch a fox cub that had escaped its
> cage. He was fun in an elusive way, but no help to an aspiring novice.
> Once, when I was going to Iraq, then being run by a pre-Baathist Communist
> regime, I asked Kim, who had just been there, for contacts. He gave me the
> names of British diplomats.
>
> I didn't have a clue about what he was really up to. In retrospect, I
> remember the tension of double-edged talk, even the strained laughter in
> one conversation about "the third man" that took place in my office
> between Kim and a rather curious American oil man briefly recruited to The
> Economist's staff. But I was in Colombia when the foreign editor
> telephoned (exceptional in itself) to ask if I knew where Kim had vanished
> to, and my fear was that he was drunk in a Beirut gutter.
>
> If shame for Britain's part in the Suez affair set off my exasperated
> affection for the Arab world, a far deeper, European, shame fed my
> passionate advocacy of Israel's existence, a passion that survived, just,
> my first visit to the Middle East. My way to Israel led through the
> Palestinian refugee camps in Lebanon, and the gross injustice of evicted
> Palestinians paying for Europe's guilt. That tempered my delight in Israel
> in the late 1950s and early 1960s. But delight there was: the eagerness
> and courage, the idealism of the early kibbutzim, the fun and the rough
> ways, the heartbreaking beauty of the place before concrete and
> breeze-blocks took over.
>
> The scene changed after the 1967 war, a war in which Israel captured all
> the rest of the land that the Palestinians could call home. Some Israelis
> argued, in the years immediately after that great military victory, that
> it would be wise to return the land, but there were not enough of them,
> and the Palestinians were not ready for any sort of bargain. It was the
> first of the many opportunities tragically missed.
>
> Over the past 36 years there have been bad times and worse times, and
> occasional shafts of hope, but the basic Israeli-Palestinian equation has
> remained stuck. In the early 1980s I went to America and stopped writing
> about the Middle East for ten years. The depressing thing was that, when I
> restarted, I could do so almost as if the intervening years had not
> happened.
>
>
>
> The elusive obvious
> Yet the solution is blindingly obvious. The land has to be peacefully
> shared, with an independent Palestine set up in the territories that
> Israel seized in 1967, and small land-swaps where geography or settlements
> call for them. Since most Israelis and most Palestinians now accept a
> decent two-state solution, they must, eventually, implement one-but not
> until the Israelis choose a prime minister who also believes in it, which
> Ariel Sharon does not.
>
> In the meantime, Israel's electorate seems in a coma, traumatised by the
> collapse of the peace talks three years ago, and by the violence and
> terrorism that followed, indifferent to the unusual cruelty dealt out to
> ordinary Palestinians. In despair, a few respected Israeli voices are
> calling for peace to be imposed from outside. But the American government,
> which would have to be in the van of such an endeavour, is light-years
> away from it.
>
> The terrorism that now dominates American and Israeli thinking was present
> in earlier years too, when the Palestinians were making a name for
> themselves for hijacking aircraft and murdering sportsmen. Did that bout
> of terrorism work? A distasteful case can be made that it did, forcing the
> world to be more aware of Palestinians than of other dispossessed people.
>
> But The Economist itself took time to accept the idea of an independent
> Palestinian state: Israelis can be persuasive and Arab propaganda, at
> least in those years, was thunderously counter-productive. The Palestinian
> cause was dented when an editor was entranced by the wit of an Israeli
> corporal encountered in a bunker, and finished off when a foreign editor
> dutifully paid a round of visits to fossil-like Arab rulers. So my editors
> and I argued interminably, on and on, and round and round. We knew our
> lines by heart, and our colleagues were bored rotten.
>
> The paper's Monday meetings in the editor's office (round a table, when I
> joined, now with a huge overflow) have always been commendably democratic,
> at least in appearance. Every hack, including the newest and youngest, can
> have his or her say, and is usually listened to with reasonable
> tolerance-though one editor used to have a gin and tonic to hand to
> survive the tedium. Brash newcomers may even win the day, if they argue
> well and the topic is of no national or international importance (though
> it is often on trivialities that the argument is most passionate). When
> the subject is of consequence, the editor or his senior deputies lay down
> the line, as indeed they should.
>
> In its time, The Economist has recruited its share of cranks and liars and
> snobs and ideological hard cases. It has always given a berth to
> eccentrics: the blue-blood who cherished Queen Victoria's stockings, the
> hot-blood who, by legend, threw telephones through glass doors, the
> splutterers and snuff-takers, the deputy editor who laughed so much at his
> own jokes that nobody could understand what he was saying, which was a
> pity since he was, and is, a very clever man.
>
>
>
> On to Vietnam and Iraq
> Through the mists of hot air and dissolving memory, old arguments emerge.
> Though the paper accepted, in a general way, that European empires had had
> their day, we argued heatedly over the timing and the pace of Britain's
> departure from Cyprus, Aden, huge chunks of Africa. My only nose-to-nose
> meeting with Geoffrey Crowther, a renowned editor who had left just before
> I joined but continued to overshadow his unfortunate successor, was in the
> building's (rather slow) lift. Valiantly making conversation, I suggested
> that the colonial secretary of the day was doing rather well, but Crowther
> harrumphed, "Yes, if you want him to give the whole damn lot away." But
> away they went anyhow, and good riddance.
>
> Darker are the cold-war memories, some of them better to forget: the staff
> member who danced through the corridors, shouting "My enemy is dead," on
> the day that Salvador Allende was murdered in Chile; the graphic
> celebration of carpet-bombing Vietnam in a biased reporting piece; the
> inside information on everything that turned out to be flowing from
> Mossad, Israel's military security agency. On the other hand, I remember,
> with proper embarrassment, gazing at a fuzzy photograph in 1962 and
> writing a bold piece (thankfully scrapped by my editor) that declared
> there to be little evidence of Russian missiles in Cuba.
>
> One way and another, it has been a steamy half-century. Inevitably, I have
> often disagreed with the paper's policies: for instance, when, from time
> to time, we veered sharply to the right, when we supported anti-communist
> third-world monsters-in cold-war terms, bastards but our bastards-or when,
> as at present, we seem to me to be much too closely identified with
> official America. During two crises the paper was painfully split. The
> first was the Vietnam war, which we supported, and the second was this
> year's Iraqi war, which we also supported. Neither occasion, I would
> submit, was our finest hour.
>
> Yet, did those of us who disagreed strongly with the paper's line, resign
> on principle? We did not. Shameful that, I agree. Over the years, I've
> invented excuses for myself, but the truth of the matter is that The
> Economist is too enticing a place to leave easily. Indeed, a few people
> have left-tempted by higher salaries, more prestigious positions, the
> chance to get one's name known (the anonymity of the paper is a bother for
> aspiring writers) or just because it is boring and unadventurous to stay
> in the same job-only to return after a few years in the cold world.
>
> I was invited, in the late 1950s, to a summer school at Harvard that Henry
> Kissinger then ran for "promising" people. We were followed up, to see if
> we had fulfilled our promise, and I had always, rather shamefacedly, to
> admit to be still doing the same old thing. For The Economist is a relaxed
> and easy place in which to work; most people get the chance to blast off,
> and the writing-reporting spiced with opinion (or, as we like to call it,
> analysis)-is fun once one has got the hang of it.
>
> And editors of The Economist, from the top boss down, have a pleasing
> history of leniency and liberalism, of giving writers their head. There
> was the kind editor who sent me off for superb years in Washington (armed
> with a list of the toppest of top people plus instructions, never I fear
> carried out, to buy a dining table big and grand enough to entertain them
> all). The editor who appointed me, stuck in a wheelchair and haunted by
> his powerful predecessor, used to write comments like "good" in green ink
> on my wretched little offerings, and I would have died for them.
>
> I was not qualified for much, but I was female and therefore cheap. Now
> there's a difference. Female applicants for jobs on The Economist were
> rather supposed to have private incomes (which I had not), and not to need
> much more than pin money. We groused among ourselves, but accepted our
> lower status in a way that seems extraordinary to me now.
>
>
>
> Women at work
> Once we had children, we accepted an even more extraordinary custom:
> while, in those days, we were seen to be our children's main (or indeed
> sole) carers, the brats should in no way intrude on our work. Their
> demands had to be dealt with in a magical way that did not interfere with
> printing schedules. With three young children, my life was a hurdle race,
> with hurdle after hurdle crashed into.
>
> A wonderful female colleague and I worked it out. There was no problem at
> all in being sick oneself: the men were all hypochondriacs anyhow. It was
> allowed for a child to have a serious illness. Out of bounds were everyday
> maladies and crankiness, let alone the black despair caused by an au pair
> who felt sick or, worse, absconded. So, sorry for the deceit, we concluded
> that in emergencies we just had to be sick ourselves. Of course this meant
> we could never be actually sick; luckily, we were both pretty sturdy.
>
> Yet, forget all that. When I started on a quirky regimen for a disabled
> child, which meant a 16-hour timetable of complicated physical and mental
> exercises, my foreign editor gave me all the time and space I needed. I
> carried on with the regimen for about 18 months, and the dear man never
> even suggested putting me on an official part-time list. That generosity
> alone tied me to The Economist. Of course, over nearly half a century, I
> have often thought of leaving, tempted to go away and do something
> completely different. But, for a journalist, I sincerely believe there is
> no better place to spend your working life.
>
«Agora, sobretudo depois que Saddam foi preso e o número de mortes americanas no Iraque diminui a cada mês que passa, a atenção dos eleitores começa a voltar-se para os problemas domésticos»
Do editorial do director do Público, quatro dias depois de um atentado que causou mais de 30 mortos iraquianos em Bagdade
Não sei bem como traduzir esta expressão. «Denunciante» parece-me demasiado forte, embora os whistleblowers sejam um pouco isso: pessoas que seguem a sua consciência e decidem revelar segredos ou informações confidenciais. Um deles tornou-se universalmente famoso a semana passada: Paul O’Neill, antigo Secretário de Estado do Tesouro da administração Bush, ao descrever em livro o modo de actuação da camarilha que rodeia o actual presidente. Outro é o malogrado Martin Straight, espião a favor da URSS, antigo editor da New Republic, e cuja desconcertante carreira é descrita, com fina ironia, no obituário do último Economist. Finalmente, a minha whistleblower preferida: Katherine Gun, uma tradutora no Quartel-Geral de Comunicações de Cheltenham, levada a julgamento esta semana por violar a lei britânica de segredos do Estado. Gun terá sido responsável por uma fuga de informação que fornecia detalhes sobre um plano americano para espiar membros do CS da ONU nas vésperas da intervenção no Iraque. Em sua defesa, a tradutora alega que qualquer quebra de confidencialidade pela qual tenha sido responsável se ficou a dever a um imperativo de consciência: a necessidade de expor a conduta ilegal das autoridades americanas e a tentativa de evitar uma guerra que causaria a morte de milhares de civis iraquianos e de soldados britânicos. O mais famoso whistleblower da história americana, Daniel Ellsberg (o homem dos Pentagon Papers), é uma das personalidades americanas empenhadas na campanha de apoio a Katherine Gun. A história está toda aqui.

Este homem é um príncipe a comentar assuntos internacionais (e não só: é também um descendente de príncipes russos). Algumas das mais lúcidas análises que li acerca da política externa americana pós-11/9 foram assinadas por ele: Anatol Lieven, investigador associado do Carnegie Endowment for International Peace (já aqui citado a propósito do relatório sobre o arsenal de Saddam), antigo correspondente do The Times na Rússia, autor de um livro sobre a guerra na Tchetchénia e de um outro sobre a Ucrânia pós-comunista. Lembro-me que alguns dias após os atentados de Nova Iorque e Washington, a Prospect trazia um ensaio de Lieven («Strategy for Terror») onde este fazia um diagnóstico desassombrado da relação da América com o Médio Oriente e adiantava uma série de sugestões para um combate eficaz (e não comprometedor dos valores básicos das democracias liberais) a esta nova versão do Islão militante. De então para cá, Lieven tornou-se o meu comentador de referência. Suponho que a razão da minha empatia reside mais ou menos nisto: até Bush chegar ao poder, Lieven parecia ser um liberal moderadamente optimista e, genericamente, um crente na bondade da hegemonia americana. A entrada em cena de Bush e da sua camarilha obrigou-o a repensar algumas coisas, e radicalizou-lhe o discurso. Lieven move-se no seio do establishment político e académico da costa Leste dos EUA e isso dá-lhe uma certa vantagem em relação a outros analistas. É uma espécie de insider e por isso as suas críticas parecem tão acutilantes. Mesmo quando usa um vocabulário mais contundente, nunca cai naquele tom rebarbativo que caracteriza um John Pilger ou um Christopher Hitchens.
Alguns dos textos publicados por Anatol Lieven estão acessíveis a partir da sua homepage no CEIP. Portugal é um país razoavelmente marginal no circuito das conferências internacionais na área das relações internacionais. Poucas instituições têm meios para trazer cá comentadores de algum gabarito. No entanto, não deixa de ser lamentável que aqueles que os têm só convidem personalidades alinhadas com o consenso dominante, invariavelmente para debitarem as beatices do costume acerca dos «laços transatlânticos». Eu gostava de ver cá gente como o Lieven, o Perry Anderson, o Will Hutton, o Fred Halliday ou o John Gray (reparem que, tirando o Anderson, nenhum deles pode ser etiquetado de radical), gente capaz de nos oferecer leituras políticas alternativas, mas longe das ladainhas entediantes de alguma esquerda.
Num Mundo dominado pelo espectáculo, posso tolerar que haja um Donald na Administração americana.

Mas é mesmo indispensável que também lá esteja o Pateta?
A Microsoft pôs um puto de 17 anos em tribunal porque tem um site que se chama mikerowesoft.com. O petiz bem argumentou que se chama Mike Rowe e que tem uma empresa que faz páginas web, trabalhando com software. Ou seja Mike Rowe, de nome, e Soft de Software. A multinacional quis comprar o nome do site e ofereceu ao rapaz 10 dólares. Ui! Vejam a fortuna! O rapaz ficou indignado. Não queria, naturalmente, acabar com o seu domínio e mandar para as malvas investimento em dinheiro e em tempo. Pediu dez mil dólares. A Microsoft, que deve ter dificuldades em pagar tanta dinheirama, meteu o miúdo em tribunal. Os advogados vão sair mais caros que os dez mil dólares, mas há que dar o exemplo. Estes putos são loucos? Devem julgar que podem ter os nomes que lhes dá na gana, não? Já não há respeito pelo direito à propriedade.
O Grupo Parlamentar do PSD queixou-se à Alta Autoridade para a Comunicação Social porque a RTP a discriminava. A AACS considerou que devia respeitar a autonomia editorial da estação pública. Reacção de Guilherme Silva: “Se já não houvesse razões para extinguir a AACS, o modo como aprecia a queixa do PSD valeria só por si para essa extinção".

"Key provisions of the Patriot Act are set to expire next year. The terrorist threat will not expire on that schedule. Our law enforcement needs this vital legislation to protect our citizens you need to renew the Patriot Act."
(George Bush: State of the Union ).

"No one can now doubt the word of America."
(George Bush: State of the Union ).

"We are seeking all the facts already the Kay Report identified dozens of weapons of mass destruction-related program activities and significant amounts of equipment that Iraq concealed from the United Nations."
(George Bush: State of the Union ).

"Some critics have said our duties in Iraq must be internationalized. This particular criticism is hard to explain to our partners (...) From the beginning, America has sought international support for operations in Afghanistan and Iraq, and we have gained much support. There is a difference, however, between leading a coalition of many nations, and submitting to the objections of a few. America will never seek a permission slip to defend the security of our people."
(George Bush: State of the Union ).

"All skills begin with the basics of reading and math, which are supposed to be learned in the early grades of our schools. Yet for too long, for too many children, those skills were never mastered."
(George Bush: State of the Union ).
"Abstinence for young people is the only certain way to avoid sexually transmitted diseases."
"All of us parents, schools, government must work together to counter the negative influence of the culture, and to send the right messages to our children."
"Our nation must defend the sanctity of marriage."
(George Bush: State of the Union ).
PS: estes posts foram separados para dispersar os seguidores de Bush, que ganharam o hábito de acampar nas nossas caixas de comentários.
Lembrei-me que por causa do meu texto abaixo, ainda alguém é capaz de me chamar nazi (como fizeram hoje ao Daniel). Como o texto abaixo é sobre a vandalização de uma obra de arte, essa atitude seria também ela um pouco nazi. Nós já sabíamos que a coisa era assim, mas agora há uma lei científica da autoria do jurista e cientista americano Mike Godwin, que o prova:
[Bem; isto no fundo foi só um pretexto para vos sugerir a sempre fantástica Question of the Year da The Edge. Este ano a pergunta feita a 164 cientistas, filósofos e escritores foi: What's Your Law?]
Como é do conhecimento público, o embaixador de Israel na Suécia vandalizou uma obra de arte, aliás uma "monstruosidade" em que era mostrado o retrato de uma terrorista do Hamas. Ariel Sharon agradeceu ao seu embaixador a acção firme contra uma obra que glorificava o terrorismo e representava mais um degrau na escalada anti-semita na Europa. Bem, vandalizar uma obra de arte é muito grave mas glorificar o terrorismo também o é. E se o homem viu de repente num museu qualquer uma foto de uma terrorista que matou 21 dos seus compatriotas? Bem, um homem não é de ferro.
Só que.
Só que a obra chamava-se "Branca de Neve e a Loucura da Verdade". E a fotografia da terrorista aparecia num barco que flutuava num mar de sangue. E os autores da instalação são um casal israelo-sueco que fez acompanhar a obra de um texto que era bastante claro na sua condenação da espiral de violência de ambas as partes. E o embaixador entretanto confirmou que a sua acção foi premeditada, o que torna tudo menos desculpável.

É delicioso o cartaz contra a pirataria de MP3 que o Ivan publicou n'A Praia:
No entanto, detecto-lhe algumas incongruências. Em primeiro lugar, o rapaz usa um iMac. Como já defendi nestas páginas (páginas?), os bons usam mac e os malvados usam PC. O que faz com que o rapaz não esteja a fazer nada de mal. Por outro lado, já alguém imaginou Lenine a usar outra coisa que não PC? É evidente que não. Ora isso faz dele, desde logo e independentemente de tudo o resto, um malvado.
Já sei que vocês me vão apresentar todo o género de objecções. Mas não têm razão.
O André lembrou aqui o sistema de votação dos caucus do Iowa, em que o voto não é secreto, e houve logo quem achasse que havia ironia na coisa. Eu, conhecendo o André, acho que ele seria incapaz de denegrir um tipo de votação que sempre deu tão bons resultados: por exemplo nos comissários de bairro cubanos e no Partido Comunista Português. Como sabe qualquer pessoa que se esclareceu junto de um camarada cubano, não há democracia mais perfeita do que a de Cuba. Nem sequer a do Iowa! Se mais fosse preciso, a prova de que o sistema é perfeitamente democrático é o que diz a reportagem de Pedro Ribeiro no Público de ontem: "a Administração americana está a pensar em usar um processo semelhante aos "caucus" para introduzir a democracia no Iraque". Sempre é uma garantia.
O mar do Barnabé em Janeiro é assim: as ondas assustam à entrada, mas basta passar a rebentação que deixa logo de puxar. E o mar fica tranquilo, um belo Mediterrâneo (vento metafórico soprando daqui e daqui).

E a forma de votar nas primárias do Iowa? Há perto de 2000 locais (chamados "caucus") onde as pessoas se dirigem para votar. Ginásios, auditórios ou simples casas particulares, como na foto. Depois a votação passa-se sem urnas e sem voto secreto. As pessoas reúnem-se todas à mesma hora e anunciam publicamente a sua intenção de voto. Pode-se gritar, discutir, pressionar. Em suma: uma espécie de janela de comentários do Barnabé.
Isto da democracia americana parece mais complicado do que o que conseguimos ver a partir do nosso cantinho; já na altura das malfadadas eleições em que Bush chegou à presidência, com aquela confusão dos furinhos na Florida, se tinha ficado com a noção de que as maneiras de votar e de fazer o escrutínio (que são tudo menos abstractas e puras, em qualquer país) nos Estados Unidos são singulares. E algo fetichistas: não se mexe num sistema instituído, por mais tecnologicamente atrasado que ele hoje pareça. No Iowa devem votar assim desde o século XVIII. O mundo inteiro depende do que se passa na casa daqueles senhores ali.
Prescrição de leitura post-scriptum: quem lê neste post uma crítica à democracia americana vem para este blogue com o MP3 riscado

Erasmo de Roterdão ao teclado usando um iMac.
(Adaptação de Stephanie Miller do retrato de Erasmo de Hans Holbein o Novo).
PS: como é evidente, os nossos compromissos comerciais são apenas com Erasmo.
A julgar pelos resultados no Iowa, as primárias começaram mal para Howard Dean.

«Como é que eu classificaria Jacques Chirac? Bem, Chirac é aquele tipo que entra numa cozinha, vê um frasco de compota e abre a tampa. Primeiro, vai tirando uns bocadinhos com a colher; depois, entusiasma-se e começa a rapar o frasco com os dedos. Às tantas, já tem os dedos, a cara e o nariz completamente lambuzados de compota. De repente, alguém entra na cozinha e exclama: Jacques, não sabia que gostavas tanto de compota? Ao que Chirac responde: Compota? Eu? Naaa.»
François Mitterrand citado por Julian Barnes no documentário da BBC-World sobre os 100 anos da Entente Cordiale.
Joaquim Chissano recebeu uma casa de 1,6 milhões de euros para não se candidatar à Presidência.
Deixa cá fazer as contas. Votaram, nas últimas presidenciais de primeiro mandato (1996), à esquerda, cerca de três milhões de eleitores. A coisa pode mudar, mas dá para as nossas contas. Vamos imaginar que, destes três milhões, um milhão acredita que Guterres pode ganhar à direita. Eu devo estar louco com tanta generosidade. Somos, então, cerca de dois milhões. Se cada um der um eurico, juntamos dois milhões e ainda lhe damos uma casa melhorzinha. É capaz de valer a pena. Aceitam-se donativos.
Na guerra surda entre PSD e PP, o PP soma e segue. Primeiro foi no aborto, depois na prescrição da cannabis, agora é na imigração. O que o governo, por imposição de Bagão Félix, decidiu nesta matéria resume-se a isto: um processo de regularização impossível de cumprir pelos imigrantes. Cheira-me que nem a ridícula quota de 6.500 imigrantes legalizados será cumprida.
O Pedro já aqui falou do MoveOn. Neste site podem encontrar alguns anúncios televisivos anti-Bush. Geniais.
Este fala-nos de uma administração que está a transformar os EUA num país cada vez mais fundamentalista.
Este podia aplicar-se ao governo português. É dos mais simples e dos mais eficazes.
Este também. É sobre as prioridades orçamentais desta administração.
Este ainda mais: explica em 30 segundos como se pode aumentar o défice e cortar nas despesas sociais. Nós sabemos. Ficou em primeiro.
Este dedica-se às mentiras compulsivas de Bush.
Para fazer o download tem de ter o QuickTime.
Governo francês vai apoiar o próximo filme de Manoel de Oliveira. Felizmente para nós, há uma direita europeia que não puxa da pistola cada vez que ouve falar em subsídios à criação cultural. Pelo menos sabemos que se o discurso dos intelectuais-políticos do momento vingar, talvez haja quem nos salve.
Um daqueles cromos dos movimentos "pró-vida" que nos sai na rifa cada vez que temos de debater a questão do aborto, disse, no "Prós & Contras", que, conhecendo uma mulher que tenha sido violada e que, por isso, tenha engravidado, a aconselharia a ter a criança. Esta gente é só amor, é só humanidade, é só dádiva. As pessoas é que não lhes interessam grande coisa.
Na versão impressa da London Review of Books, encontro um poema de Natal de Eric Korn, antiquário e livreiro:
This is the one about Jesus
And his father who constantly sees us
Like CCTV from above
But they call it heavenly love;
And the other a spook or a bird
Or possibly merely a Word.
Rejoice! We are ruled thru'infinity
By this highly disfuncional Trinity
Tentei fazer uma versão livre em português e aceito propostas para a melhorar:
Escutai esta sobre Jesus
E seu Pai, que nos vê nús
Como num circuito video interno
A que dá o nome de amor eterno;
E o outro passaroco ou alma penada
Ou talvez apenas – Arrazoada.
Glória! Seremos governados por toda infinidade
Por esta disfuncionalíssima Trindade!
[Dedicado ao Bom Selvagem, que hoje se transfigurou em Espírito Santo aqui no Barnabé]
O governo vai legalizar 6.500 imigrantes. Uiiii. Tantos? Estão-se a passar. Se o Paulo Portas sabe…
Eu estou por São Tomé de Negrelos. Abaixo os de Vila de Aves. São Tomé de Negrelos merece ter o seu nome na estação. Vila de Aves é lambareira e quer lá estar sozinha. São Tomé de Negrelos é a mai linda. Em Vila de Aves são todos uns esparvoados. São Tomé de Negrelos é que é catita. Os Vila de Aves são uns zorros. Há uma crise económica, o desemprego não pára de aumentar, vem aí o alargamento e a situação fiscal está em estado pré-comatoso. Onde é que eu ia? Já sei. São Tomé de Negrelos devia era dar uns carolos aos piolhosos de Vila de Aves. Querem tudo para eles, os esterloucados. Com umas cachaporradas naquelas cabaças é que isto ia lá.
Gonçalo Capitão e Jorge Nuno de Sá, os dois do PSD, até eram a favor da descriminalização do aborto. Até queriam liberdade de voto. E agora querem votar contra. Livremente, claro. Porquê? Por causa da esquerda. Queriam que a esquerda fosse mais discreta, para que houvesse consenso entre todos os partidos. Um consenso em torno da questão do aborto entre o Bloco e o CDS, aí está uma coisa que eu gostava de ver. Mas o mais bonito é mesmo este pedido de discrição. Estes deputados são muito liberais, muito liberais, mas baixinho, muito baixinho. Agora, que chegou a altura dos votos contarem, preferem olhar para o lugar que não querem perder. Espero que alguma imprensa, aquela que encheu Nuno de Sá, presidente da JSD, de setinhas para cima, entenda finalmente para que servem as jotas: fazer campanha para os jovens e obedecer aos velhos. Eles podem ser jovens, mas não são parvos.
O Rui Branco ficou zangado porque eu disse, sobre o facto dele ter gostado do In The Cut, que, lá por ser do PS, o País Relativo não tinha de tolerar tudo.
Rectificações: 1 – O Rui Branco não é do PS; 2 – O País Relativo não foi ver o In The Cut, só mesmo o Rui Branco; 3 – O Rui consegue ter sentido de humor quando se socorre de Caetano Veloso.
Estes três pontos provam quatro coisas: 1 – O Rui Branco não está completamente perdido; 2 – O País Relativo não está completamente perdido; 3 – Caetano salva muita gente; 4 – No meio disto, só não se arranja maneira de salvar o PS e, claro, o In The Cut.
§1º [e único] Começar como bilionário.
[adaptado daqui]
O "Público" e a RTP pediram à Universidade Católica uma sondagem sobre o aborto. Nem a chamada à primeira página teve direito. 2/3 de uma página par e é uma sorte. Ficamos a saber que mais de 70 por cento dos portugueses querem novo referendo. Nem o silêncio nem um debate parlamentar destinado à derrota e à vaidade. Um referendo.
E, se procurarmos muito bem, numa caixa pequena, escondido a meio do texto, sem gráfico nem título, ficamos também a saber que 68% votaria hoje “sim”, 25% “não”, 7% não sabe ou não responde. A pergunta central, para o "Público", parece ser um pormenor. Mas, seja como for, venha então o referendo e o “sim”, para que finalmente se mude esta Lei.
No artigo de Sexta-Feira que tanto enfureceu o Luciano, Miguel Sousa Tavares profetiza mais cinco anos de Bush e lamenta a ingratidão dos eleitores americanos em relação a Bill Clinton e respectivo legado «progressista». Eu não consigo dizer mal do MST, cuja recente reconversão ao estilo «contrário» que sempre o distinguiu, me parece a melhor coisa que aconteceu à «esquerda» portuguesa desde 2002. No entanto, sempre que escreve acerca da sociedade e política americanas MST incorre em demasiadas simplificações, tratando geralmente os americanos como uma cambada de infantilóides anestesiados pela cultura de massas do capitalismo. Ora, em dia de primárias democratas no Iowa, é justo que destaquemos aqui no Barnabé um dos mais imaginativos movimentos cívicos dos últimos tempos. Estou-me a referir, claro está, ao MoveOn.org - Democracy in Action, que, segundo me disse ontem o Ivan, já foi noticiado na nossa blogosfera. De qualquer forma, o Branabé nunca se lhe referiu e por isso aqui vai o site. MoveOn.org foi fundado por um casal de empresários de Sillicon Valley (Joan Blades e Wes Boyd), que em vez de se retirarem e viverem dos rendimentos, decidiram dedicar-se à política usando as potencialidades da Internet. Aquilo que os motivou foi, precisamente, o affaire Lewinsky/Clinton e a tentativa de impeachment orquestrada pela direita puritana. Blades e Boyd sentiram que o escândalo estava a paralisar a política americana e a desprestigiar a imagem externa do país e acharam que era altura de «seguir em frente» (daí o nome MoveOn). Através de um website, conseguiram mobilizar centenas de milhar de compatriotas igualmente indignados com o rumo que o caso estava a seguir e, aparentemente, os e-mails e faxs enviados ao Congresso obtiveram grande impacto. Durante a crise iraquiana, MoveOn.org dinamizou uma campanha em prol das inspecções da ONU como alternativa à intervenção militar, e desempenhou um papel-pivot na organização das manifestações anti-guerra em várias cidades americanas. Ultimamente, MoveOn.org aproximou-se da candidatura de Howard Dean e recebeu uma generosa doação de outro magnata pouco convencional: George Soros.
Ainda sobre a estratégia americana para combater o Terrorismo, vale a pena chamar aqui a atenção para o artigo de Jeffrey Record sobre o assunto, no site do Strategic Studies Institute. Professor na Academia da Força Aérea Americana (um viveiro de lunáticos durante a Guerra Fria), o autor faz uma análise bastante certeira das inconsistências que a actual administração Bush foi somando desde o 11/9 à luz de premissas tipicamente «realistas» - entre outras coisas, Record não parece muito convencido do sentido da reforma em curso nas forças armadas americanas (ênfase na high-tech, forças especiais, redução dos efectivos humanos dos três ramos, etc.), que favorece uma estratégia de intervenções rápidas e curtas, nem da substituição do conceito de «dissuasão» pelo de «prevenção», e muito menos ainda da política de «mudança de regime» tão cara aos ideólogos neo-cons. Entre outras coisas, o texto alerta para o perigo das verbas afectadas a operações bélicas no estrangeiro estarem a desviar fundos para os serviços públicos de emergência nos EUA (coisas simples como aparelhos de rádio para os bombeiros, por exemplo), e critica o excessivo ênfase colocado na dimensão puramente militar da «guerra contra o Terrorismo». Eu estou muito longe de partilhar todas as premissas do autor (que parece aceitar sem grandes rebuços o actual status quo autocrático do Médio Oriente, por exemplo), mas esta é uma análise sobre a qual vale a pena meditar.
Agradeço ao meu amigo Bruno Cardoso Reis o link para este artigo
Se isto não fosse trágico, até dava vontade de rir. Depois de terem anunciado a intenção de reduzir o dispositivo militar americano no Iraque, e acelerar o processo de devolução do poder aos iraquianos, a Administração Bush, pela mão de Paul Bremer, vai hoje pedir a Kofi Annan um maior envolvimento da ONU no Iraque. Isto depois do atentado de ontem em Bagdade ter feito mais de 20 mortos e 100 feridos, demonstrando assim que o actual contingente americano está longe de assegurar as condições de segurança necessárias à presença do pessoal das Nações Unidas. Foi também interessante assistir às declarações de Bremer durante o fim-de-semana tentando apaziguar o Ayatollah al-Sistani, o principal líder da comunidade xiita que rejeitou o plano americano para a transferência de poder e eleição de uma assembleia constituinte (basicamente, por não respeitar o princípio de «um voto, um homem»). Como é evidente, um Iraque minimamente estável terá de basear-se num modelo constitucional que consagre uma partilha do poder entre as principais comunidades etno-religiosas, preferencialmente segundo linhas federalistas. O problema é que isto desagrada profundamente à maioria xiita, cuja quietude tem impedido que o Iraque deslize para uma situação ainda mais caótica. O bluff americano não pode durar muito mais tempo.

William Henry Brown, Perfil de Dixon Hall Lewis, [senador Democrata célebre pelo seu tamanho: sentado no Congresso ocupava dois lugares], 1845.
Há quem ache que gastar 1 bilião de dólares por ano para chegar a Marte é um disparate. E 1,5 bilião para promover o "casamento saudável"? Quimera por quimera...
"A França foi uma super-potência, a Inglaterra também, agora é a vossa vez... Vamos encarar a coisa: quem gosta de um império?" Boaventura? Chomsky? Lula? José Maria Aznar...
Vou-lhe fazer um favor. Eu não quero que sofra e só por isso faço isto. É por piedade. Se gosta de sofrer, não continue a ler este post. Se, como o País Relativo, acha que lá por ser do PS é obrigado a tolerar tudo, pare por aqui.
Eu fui ver o "In the Cut". O filme junta a complexidade do "Dallas", com a audácia do "9 semanas e 1/2", a excitação do "Vale Abraão" e a sofisticação sexual de um chat para adolescentes.
É por que gosto de si: o assassino é (faça a si próprio um favor e leia no link em baixo, para que não tenha passar por aquilo que eu passei)...
é uma assassina: Jane Campion, a realizadora do filme. Mata-nos de tédio.
O Ivan, n'A Praia, chama a atenção para a resposta de Pedro Magalhães a um artigo de José Cutileiro sobre os defeitos dos Portugueses. Segundo Cutileiro, os portugueses deveriam ser mais ambiciosos e optimistas e, de caminho, dar uma mão ao governo, que vai no caminho certo e faz o que tem de ser feito mas não anda a ser ajudado pelo resmungão e desconfiado cidadão comum.
Quem nunca se sentou à mesa do café a mandar umas bocas de "os portugueses são assim" ou os "portugueses são assado" que mande a primeira pedra. Ora, o que acontece é que é precisamente enquanto conversa de café que o artigo de Cutileiro é nulificado pelos argumentos de Pedro Magalhães. Este chama a atenção para a, afinal, "normalidade" dos portugueses em termos internacionais e mostra a inexistência de base empírica para o texto de José Cutileiro.
Pedro Magalhães também remete para outro aspecto que me parece essencial, principalmente porque é uma característica genética da maioria que governa o país, – e não só da maioria "política" como também da opinião publicada que a tem apoiado. É que ao resmungar acerca dos defeitos dos portugueses, esta opinião inutiliza a política e demite-se do pensamento político para se constituir numa vaga censura moral que tem tanto de útil para a consciência do emissor como de inútil para a sociedade em geral. Estou certo de que os portugueses gostariam de ser optimistas se tivessem condições para isso. Eu também me queixo do pessimismo todos os dias mas tenho de admitir que com as nossas pensões e salários mínimos, com os nossos professores de liceu a ficar ano-sim ano-não no desemprego, e com todos os entraves que os bancos actualmente colocam a quem queira fundar uma empresa, fica difícil ser-se optimista. Ou seja, se o governo começasse por nos dar uma mão seria mais fácil corresponder-lhe. Mas isso este governo nunca pensou em fazer.
Não se trata apenas, nem principalmente, da opinião de Cutileiro. Este tem até a vantagem de nos querer motivar. As intenções parecem boas. Só que esta mania de querer trocar o debate político pelos enunciados psico-morais tornou-se, infelizmente para nós, dominante nos últimos anos – e não só em Portugal. Por aqui, e tanto quanto me lembro, começou com João Carlos Espada lamentando-se pelo desaparecimento dos "gentlemen" e de pais que soubessem ser firmes com os filhos. E tornou-se numa posição cómoda que fez escola, de António Barreto a Luís Delgado, de Helena Matos a Maria Filomena Mónica, de Vasco Graça Moura a Francisco José Viegas, atingindo a sua forma paradigmática em debates como os do pacote laboral, das propinas ou da educação. Aqui há um ano lembro-me de ver José Manuel Fernandes dizer num "Prós e Contras" sobre o pacote laboral qualquer coisa como "se todos os portugueses chegassem a horas ao emprego, se todos cumprissem com as suas obrigações, se todos entregassem as coisas no prazo, o país estaria melhor". Claro que estaria. Se fôssemos todos óptimos, então, ainda estaria melhor. Só que a ideia é tão lapalissiana que já nem pertence à política. Tal como não lhe pertence toda a tinta que se gasta com a frouxidão dos pais, com o hedonismo dos filhos, com o relativismo dos intelectuais. Nem com a desconfiança e o pessimismo dos portugueses na versão José Cutileiro.
Ou o assunto é legislável e regulável e então legisle-se e regule-se, ou então é uma mera enunciação de preceitos de vida e os autores estariam melhor como pastores de uma congregação evangélica do que como comentadores políticos. Porque para ler acerca da personalidade portuguesa nos jornais há muito melhor por onde escolher. Miguel Esteves Cardoso, por exemplo. Não se arma em sério nem profundo e ao menos gosta de nós como somos.
Isto não seria nada se o governo nos seus primeiros anos não tivesse optado uma versão prática desta posição. Substituiu o estado de graça que não teve por um estado de desgraça e de desconfiança em que a sua mediocridade se disfarçasse. Foi o "deviam estar presos" de Manuela Ferreira Leite para os funcionários dos CTT, as diatribes contra os estudantes preguiçosos, os trabalhadores retardatários e os funcionários públicos relaxados. Como nunca deixarão de existir preguiçosos, retardatários e relaxados, o país lançou-se numa espécie de gigantesca discussão de café acerca de quem o era mais, cada um convencido da sua própria virtude, e o governo aproveitou para ser preguiçoso, retardatário e relaxado. Aí chegou a Casa Pia, e esta espessa catarse foi substituída por outra que não tem fim à vista. Como na citação de José Mario Branco que o Ivan lembrou, cada um de nós é sempre óptimo, todos juntos é que somos péssimos.
Do PP, então, pouco vale a pena falar. O proclamado patriotismo do PP é um patriotismo meramente facial. Paulo Portas gosta do hino e da bandeira mas nota-se que se sentiria melhor se lhe tivesse saído outro povo mais à medida das suas ambições.
Só me espanta que José Cutileiro, experimentado diplomata, tão pragmático e tão culto, se tenha juntado a esta tendência informe no esquecimento da primeira regra de Espinosa: a política faz-se para os homens tal como eles são e não como nós gostaríamos que eles fossem.
"Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda a espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através dos seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efectivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem". [Tratado Político, I-1]
Li Pereira Coutinho. Tinha-o feito duas vezes, desde um post que me dedicou. Uma, indo ao seu site, porque me disseram que lá, entre pecados e virtudes, tem um espacinho dedicado à humildade. Ia à espera de ser surpreendido. Não o fui e desisti. Outra, no "Independente", em que Coutinho começava uma croniqueta assim: «Marxistas são aqueles que nunca leram Marx». Acompanhava-se depois o que o rapaz tinha a dizer sobre Marx e chegava-se à perturbante conclusão que, pelo menos seguindo a sua máxima, estávamos perante um marxista dos quatro costados.
Hoje pequei de novo. E à terceira não há perdão. Li, no "Expresso", o seu texto "Os abutres". E resolvi acabar com o meu periodo de "nojo" para dar expressão ao dito.
Descobri que há uma maneira de argumentar em defesa da criminalização da prática de aborto e contra a punição das mulheres, em simultâneo. É não perder tempo com argumentos e insultar quem as defenda: «um drama que, obviamente, não os incomoda nos jantares das docas ou numa noite de copos no Bairro Alto. Porque esta é a suprema hipocrisia: estes arautos, do alto das suas vidas de intriga e privilégio, gostam de falar em nome de quem nunca pediu que eles falassem».
Suponho que as mulheres que estão a ser julgadas em Aveiro foram visitar Coutinho à Cova da Moura, onde vive distante de privilégios e de copos, isolado da intriga e em completo jejum, para que este as defendesse da esquerda necrófila. E fizeram bem. Porque a profundidade da sua argumentação, mais ou menos entre Manuel Monteiro e Jorge Coelho, esmaga qualquer um.
Se isto é a nova direita, venha a velha. Sempre se dá ao trabalho de pensar.
Escreveu Pacheco Pereira:
Εδώ ας σταθώ. Κι ας δω κ’ εγώ την φύσι λίγο.
Θάλασσας του πρωιού κι ανέφελου ουρανού
λαμπρά μαβιά, και κίτρινη όχθη• όλα
ωραία και μεγάλα φωτισμένα.
Εδώ ας σταθώ. Κι ας γελασθώ πως βλέπω αυτά
(τα είδ’ αλήθεια μια στιγμή σαν πρωτοστάθηκα)•
κι όχι κ’ εδώ τες φαντασίες μου,
τες αναμνήσεις μου, τα ινδάλματα της ηδονής.
E disse depois: "muita gente se vai irritar com o grego, muita gente se irrita com o que ignora". Pela minha parte, não fiquei nada irritado. Foi mesmo das poucas vezes que Pacheco Pereira não me irritou.
Durante a primavera foi demolido um velho armazém na 24 de Julho, ao lado de onde trabalho. O trabalho foi feito em duas semanas, com apoio policial, trânsito interrompido, tudo muito profissional. Eu, que apanhei com o meu pai e os velhotes da idade dele a mania de ficar de boca aberta a olhar para as obras na cidade, perguntava-me o que dali sairia. Passado umas semanas li no Local do Público que ali se ergueria um edifício comercial inovador, da autoria de Norman Foster, que se dedicaria à área do design. Achei estranho a falta de informação à volta do assunto, mas fiquei todo contente por Lisboa ter um Foster. No lugar onde o edifício foi demolido passou a estar um cartaz da CML que dizia o seguinte «VOCÊ NEM IMAGINA O QUE AÍ VEM! (Mas sem demoras)». Passado mais umas semanas o solo começou a ser asfaltado. Que estranho, pensei, este edifício não tem fundações? O chão vai ser de asfalto? Deve ser qualquer ideia nova do Norman Foster, pensei, imaginando já um edifício sem piso térreo.
Os meses passaram. O out-door continuava exclamando a sua promessa de qualquer coisa que eu «nem imaginava» mas que viria «sem demoras». Expectativa. Mas aquilo que via todos os dias começava a lembrar-me estranhamente um parque de estacionamento. O perímetro foi cercado com barreiras de betão e eu dizia, não pode ser, então e o edifício? Foram levantadas duas entradas para carros de cada lado e eu pensava, então e a promessa do cartaz? Começaram a pintar umas marcas brancas no chão e eu estranhava, ou o Foster quer fazer uma homenagem aos desenhos extraterrestres do planalto do Perú, ou esta brincadeira é mesmo um parque de estacionamento. Os carros começaram a estacionar lá dentro, eu próprio lá entrei com o meu, peguei no meu bilhete e paguei a minha conta, e ao fazê-lo devo ter sido o último lisboeta a convencer-se de que aquilo era um parque de estacionamento.
Há uns dias tiraram o cartaz. E, meses depois da demolição, na falta de qualquer informação oficial da CML sobre o que ali se vai fazer, penso que das duas uma: ou a CML acha que os lisboetas não têm imaginação para perceber que "ali vinha" mais um parque de estacionamento, ou o parque foi desenhado por Norman Foster, o que seria um desperdício de talento. Pelo sim pelo não nunca mais acredito no Santana nem no seu cartaz. Vade Retro, Santanaz!
Começo a desconfiar que não era só Saddam Hussein que tinha duplos. Por razões de segurança ou para o livre exercício da esquizofrenia política, também Durão Barroso parece sofrer de um fenómeno de desmultiplicação capaz de confundir os seus mais próximos colaboradores. Havia um Durão para o choque fiscal e outro para apertar o cinto; havia um Durão para o emagrecimento do déficite e outro para o perdão para as grandes potências europeias. Parece agora que nem as questões de consciência sobrevivem ao milagre da duplicação. Depois de ter assegurado que antes de 2006 não haveria alteração da lei que penaliza o aborto e de ter recusado qualquer liberdade de voto (gostava de saber o que fariam agora Pacheco Pereira, Rui Rio e Silva Marques), Durão disse numa reunião da comissão política laranja que era favorável à despenalização da IVG. Confusos? Eu também. Mas eu não faço parte da bancada parlamentar do PSD. A esses penitentes parece só restarem duas hipóteses: pensar o menos possível ou deitar fora qualquer réstia de consciência.

Acabei de ler, por razões de trabalho, o livro de Ricardo Sá Fernandes sobre a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Há algum tempo que estava convencido da tese do atentado. Mas "O Crime de Camarate" é de um rigor exaustivo esmagador, quase cansativo. Não deixa nada por tratar. E o meu convencimento intuitivo transformou-se, assim, numa sólida convicção.
Mas a principal razão porque falo aqui do livro é outra: o papel dos tribunais, do Ministério Público, da Polícia Judiciária e do poder político em todo o processo.
A incompetência da investigação é assustadora. Primeiro, as contradições, as falhas, as omissões, os preconceitos sucedem-se sem qualquer brio profissional. O desprezo por todas as provas que vão surgindo, os erros processuais grotescos, numa investigação que apenas se quer justificar a ela própria, ditam, desde a primeira hora, o final desta triste história. Cada decisão de cada instância já só serve para esconder o erro anterior. A PJ e a Direcção-Geral da Aviação Civil entram numa luta de galos que tem a verdade dos factos como um mero pormenor que atrapalha. O Ministério Público recusa-se a investigar seja quem for e como for, recusa-se a ouvir peritos e suspeitos, porque decidira há muito pela tese do acidente. Os tribunais consideram que quem defende a tese do atentado é movido por interesses políticos, e a política é para ficar à porta do tribunal.
Quem investiga realmente? As comissões de inquérito parlamentar. Por mais estranho que pareça, tudo, mesmo tudo, o que se soube e se investigou foi obra do poder político. Apesar de, a cada momento, os tribunais se recusarem sempre a fornecer documentos e informação ao Parlamento. A arrogância aproxima-se, por vezes, da comédia. Um juiz chega mesmo a justificar a sua recusa com o argumento de que estas comissões seriam inconstitucionais. Outra juiza diz que só tem, levemente, em conta as informações das comissões parlamentares - todas elas bastante mais relevantes do que a "investigação" do MP - para justificar o dinheiro gasto pelos contribuintes. Só cedem perante a intervenção do Tribunal Constitucional.
Os tribunais entram na lógica de braço de ferro com os políticos. Nela, aceitar que, a 4 de Dezembro de 1980, acontecera um atentado seria perder a face.
23 anos depois, os principais suspeitos, José Esteves e Lee Rodrigues, estão em liberdade, nunca tendo sido realmente investigados. Porquê? Porque os tribunais não queriam ser pressionados e fizeram de um julgamento uma luta corporativa.
Não digo mais. Apenas aconselho a leitura do livro. Muito pedagógico nos tempos que correm. Sobretudo para os que vêem na justiça um agente neutral e sem mácula, que não tem interesses e que nunca deve ser questionado.

Em Natchez, rica e bonita cidade histórica já no estado do Mississippi, tínhamos feito duas visitas a grandes casas de plantação bastante decepcionantes: as guias tinham idade para estar já em casa a descansar, um cerrado sotaque do Sul e só nos falavam de coisas tão interessantes como a origem italiana dos mármores, a origem alemã da manufactura do piano, ou o valor em prata dos candelabros. Quando, de novo na Louisiana, chegámos à Laura Plantation e o guia, que era também o dono, começou a falar para o grupo, percebemos logo que estávamos perante outra coisa.
Quando Norman e Sand Marmillion compraram a casa e parte de uma velha plantação de cana de açúcar na margem direita do Mississippi, já tinham o olho no negócio: explorar turisticamente o local. Mas o trabalho que fizeram depois mostra que, mais do que isso, tinham um bom conceito para vender e sensibilidade histórica. Pesquisaram, procuraram descendentes dos antigos donos para conhecerem a história das famílias que tinham possuído a plantação, rasparam a pintura branca que estava, levantaram as cores antigas e quentes da casa, recuperaram algumas cabanas de escravos, e, a dada altura, encontraram uma mina de ouro: as memórias manuscritas de Laura Locoul Gore, última herdeira da família Duparc-Locoul, senhora que morreu mais do que centenária, tendo nascido em 1861, quando governava Lincoln e a guerra civil americana rompia, e morrido em 1963, durante a presidência de Kennedy. A visita-guiada à plantação vive muito deste manuscrito, estudado e editado pelos seus actuais proprietários. Apesar de alguma tendência para fazer da história da família Duparc-Locoul um romance policial, perfeitamente desculpável aliás, o senhor Marmillion, a partir do conhecimento por dentro de uma história familiar e do sentido da performance, abre-nos, ao longo de uma hora, uma porta fugaz para aspectos bem mais profundos da história do Sul dos Estados Unidos nos séculos XVIII e XIX do que o verniz turístico habitual.
Começa por explicar-nos que a família de Laura era uma família "crioula" e o que isso quer dizer na história e na cultura do sul do que veio a ser os Estados Unidos. Uma família de origem francesa, falando francês, católica, desprezando a cultura anglo-saxónica e protestante daqueles a quem chamavam com desprezo "les américains" ou mesmo "les animaux". Dos quais se distinguiam ou desejavam distinguir-se em termos sociais e morais. Para os crioulos os "américains" eram os novos-ricos das plantações do norte, que ostentavam a sua riqueza e não tinham maneiras. Crioula era, ao longo dos séculos XVIII e XIX, toda a cultura social francófona da Louisiana, predominante na colónia francesa até 1803 quando Napoleão a vendeu aos Estados Unidos, e mesmo bem depois dessa venda. Era a cultura não apenas das classes ricas exploradoras do negócio do açúcar e do algodão, mas uma cultura partilhada por brancos e negros, livres e escravos, dominantes e dominados. A família de Laura não era francesa, eram americanos, nascidos na América, de língua francesa, tendo como modelo a Europa (onde eram vistos como "americanos", não como europeus) e buscando o enorme poder cultural de legitimação que o velho continente dava ao novo. Eram esclavagistas como o resto dos Estados Unidos e bateram-se ao lado dos Confederados na guerra civil, embora com regimentos autónomos. O processo de "americanização" da sociedade crioula, com a expansão da língua inglesa, a repressão do francês, a conquista progressiva da propriedade das famílias crioulas é, certamente, uma história cheia de interesse e pontos de contacto com os processos de criação de uma cultura nacional na Europa. Fez-se com conflitos, resistências e integração, dolorosa tomada de consciência de uma identidade comum.
Laura Locoul Gore é, ela própria, um excelente exemplo dessa "americanização". Decidiu, ainda jovem, contrariando os seus pais, que o seu futuro não passaria pela exploração da plantação, frequentou as festas e a boa sociedade de New Orleans e, mais além, da West Virginia, casou com um "americano" do Missouri, educou os seus filhos em inglês. Nos anos de 1930, sentindo chegar o momento em que a memória do seu mundo de infância ia desaparecer, escreveu as suas memórias, em inglês, para os filhos. Que hoje, graças ao talento e ao sentido do negócio de Norman e Sand Marmillion, se vendem como pãezinhos quentes na gift shop da plantação. Nós trouxemos dois exemplares. Quem disse que a história não serve para nada?
O Pedro Mexia tem hoje uma crónica simplesmente notável («Automobilizados») na Grande Reportagem, distribuída aos sábados com o DN. Espero que o formidável Manuel João Ramos, presidente da Associação dos Cidadãos Automobilizados, a possa colocar no respectivo site e arranjar outras formas de lhe dar a maior publicidade possível. Já agora, aproveito também para divulgar o blogue Paz na Estrada, animado por vários membros daquela que é, sem dúvida, uma das mais originais associações cívicas surgidas em Portugal nos últimos anos.

Aguardo, impaciente, a opinião do Ivan Nunes e do Pedro Mexia sobre este conto marxista e libertino.
Durão Barroso convidou vários ex-dirigentes do MRPP para cargos de responsabilidade.
O juiz Ricardo Cardoso gosta pouco de ser criticado e aplicou uma multa de 445 euros a cada um dos benfiquistas que lhe escreveu a protestar contra a prisão de Vale e Azevedo. Há gente que nasceu para ser roubada. Mas, ainda assim, sempre gostava de saber a quanto me sairia, na tabela deste magistrado, uma frase deste estilo: «o meretíssimo juiz Ricardo Cardoso ficava muito bem a dirigir um Tribunal Plenário». Era o que eu lhe escreveria se andasse melhor de finanças.
Caro Pedro Lomba,
O teu post "boas ideias" merece simpatia e um pequeno comentário: se tivesse sido o Daniel a escrevê-lo, tinha ficado pelo Durão Barroso ou pelos seus parceiros de governo, onde já haveria matéria para encher o país de bairros sociais desvalorizados. E não falaria dos políticos em geral.
Diz o Ivan, e eu, que não li, acredito se ele o diz, que Boaventura Sousa Santos se referiu, na "Visão", aos arguidos da Casa Pia, como "presumíveis culpados". Apesar do meu respeito intelectual por BSS, tenho mais uma prova do que nem de prova precisava: o populismo não tem nada a ver com a inteligência. Só tem a ver com a honestidade.
PS: Está aqui, com a ajuda de um comentador, o link para o texto de BSS. Li e devo dizer que, apesar de ser evidente que a expressão "presumíveis crininosos" (foi esta que foi usada) é um discuido, ela é imperdoável, vindo de quem vem.
Aconselho-vos vivamente o artigo de opinião que José Augusto Seabra publicou hoje no DN sob o título "Congresso entre Igreja e Maçonaria". Começa assim:
Eu li depois do almoço e há muitos anos que não dormia uma sesta tão profunda.
Terá hoje lugar uma reunião na Casa Branca cujo objectivo é o de melhorar o plano de reconstrução do Iraque. Se fossem liberais a sério, seguiriam o conselho do The Onion: dar 3.544 dólares e 91 cêntimos a cada iraquiano e deixar o mercado livre fazer o resto.
Andam para aí uns deputados do PSD a dizer que querem liberdade de voto, pelo menos em relação à direcção da bancada do PP. É na cannabis para fins terapêuticos, é na questão do aborto. Está tudo doido, ou quê? Julgam que a maioria é deles, não?
Como disse João Almeida, esse grande vulto da política portuguesa, ao líder da JSD,«o BE não precisa de embaixadores no Governo». Ouviram? Toca lá então a ter juizinho antes que o João vos tenha de mostrar a porta da saída.

Lembram-se daquele gajo que cantava "filingues, ououououou filingues" em karaoke entre dois massacres e uma perseguição? Pois bem, vai candidatar-se à Presidência da República da Indonésia.
Post-scriptum: numa primeira versão, a memória e escrevi que a canção era "streinjérs ine de naite, larailaraila". Foi o leitor jcd que me corrigiu o erro. E convenhamos que ser a "filingues" a sua canção favorita dá toda uma outra luz sobre a personagem.
A partir de ontem o Barnabé mudou. Somos agora um blogue respeitável. Queremos estar no arco constitucional. No consenso europeu. Estamos preocupados com a situação das classes médias. Com a estabilidade orçamental. Fazemos oposição construtiva. Crítica propositiva. Temos aspirações governativas. Vocação transatlântica. Temos massa critica e quadros superiores para fazer face aos desafios da modernidade. Confiamos nos cidadãos, no bom-senso e na retoma. Somos optimistas.
Ao Abrupto e ao Meu Pipi, propomos um Pacto de Regime. Pela defesa dos interesses nacionais e das aspirações de todos os portugueses. Estamos prontos para aceitar as nossas responsabilidades para com o país. Agora somos um blogue de poder.
PS: Candidatos a director-geral, assessor técnico ou quadro da administração local, é favor deixarem o vosso contacto na caixa deste post.
Com tantos leitores, é bom agarrarmos as boas oportunidades para estarmos calados. Retiro o que disse sobre o sistema 10 da Apple num post recente. Era a brincar, mas há adjectivos, como fascista, que só se devem usar a brincar quando se sabe com o que é que se está a brincar. O novo sistema permite novas liberdades magníficas. Podem ir lá ao post e onde se lê Mac substituir por papas Cérélac, por exemplo.

Joshua Benoliel, [Manifestação dos guarda-chuvas], c. 1910.
[Com um abraço às 3.084 pessoas que aqui vieram neste dia chuvoso]
Começa agora o Fórum Social Mundial. O Blogo SocialPortuguês está sempre em cima do acontecimento. E o site indiano do FSM ainda mais. Não se prevêem montras partidas. Por isso, não se prevêem notícias de telejornal. Têm de se contentar com a blogosfera.

Entretanto, o site do movimento para a realização de um referendo à descriminalização do aborto já está disponível. É aqui. A petição já tem 50.000 assinaturas.
O Liberdade de Expressão comentou o meu post sobre os alunos com dificuldades de aprendizagem. Antes de mais, escreveu um texto com menos de 40 parágrafos, 250 premissas, 1300 máximas liberais e com zero (zero!) pontos ou alíneas. Se era só para amesquinhar, conseguiu.
De resto, ataca-me usando de um relativismo moral radical (também tu?): “E se, o apartheid educativo for mesmo a melhor solução ?”. Pode ser que seja. Pode até ser que a melhor solução seja umas boas reguadas até que aprendam. Como diz o próprio, «a melhor solução para cada circunstância depende de características particulares que ninguém conhece». Nem ele.
Não o costumo fazer, mas resolvi publicar aqui o texto que hoje escrevi para A Capital. Porque o debate tem aqui estado presente, a propósito da Casa Pia:
Sobre a comunicação social, tem sido dito que não vale a pena tentar matar o mensageiro quando não se gosta da mensagem. Como muito bem escreveu José Vítor Malheiros, no “Público”, tentar diferenciar o mensageiro da mensagem é desresponsabilizar o mensageiro e tratar a mensagem como se ela fosse neutra. Não o é. Por isso existem jornalistas. Eles não são estafetas nem pé de microfone. São técnicos que devem estar tecnicamente preparados para distinguir o essencial do irrelevante, o facto do boato, a informação da manipulação. A verdade é feita de verdades contraditórias, não é uma maçã pendurada numa árvore à espera que alguém a apanhe.
Durante o caso da Casa Pia acentuaram-se características da comunicação social que não são, no entanto, novas. Resumiria assim: rapidez, inconsequência e vulnerabilidade.
Com o reforço relativo do papel da televisão, marcado primeiro pelo nascimento das televisões privadas, depois pela televisão por cabo e por fim pelos canais noticiosos, o ritmo do conjunto da comunicação social acelerou drasticamente. O papel, que era das rádios, passou a ser cumprido pelas televisões. O telejornal das oito transformou-se no epílogo de um longo dia noticioso. Quando chega a essa hora, já a notícia foi esventrada até ao seu mais ínfimo pormenor. Quando, no dia seguinte, chega aos jornais, está morta. O directo, que substituiu a notícia, é inviável nos jornais. Por isso, incapazes de cobrir as “curvas longas” da informação, os jornais ocuparam um lugar de complementaridade das televisões. Eles agarram no que não morreu no dia anterior. Ou seja, o acessório.
A rapidez com que as notícias (os “escândalos”) se sucedem, são impossíveis de acompanhar quer pelo cidadão comum, quer pelos sujeitos noticiados, quer por quem deve reagir a elas, quer pelos próprios jornalistas. Esta rapidez faz com que todas as notícias, cada uma delas, isoladamente, sejam inconsequentes. Elas são sempre devoradas pela notícia seguinte. Os leitores e telespectadores só entendem o sentido geral das notícias, ou seja, ficam com o desconforto sem compreenderem a sua origem. Os agentes, por exemplo, políticos, optam pela reacção de efeito rápido, sem terem de se preocupar com a resolução do “problema” referido pela notícia. Os jornalistas sentem-se desobrigados a acompanhar as consequências das suas histórias e até a veracidade das mesmas. Se um jornalista, no fim, quiser desmentir uma notícia sua, já ninguém se lembrará o que está ele a desmentir. O ritmo alucinante da informação e a overdose de factos não seleccionados cria um buraco na memória de todos. Sabemos, com todos os escândalos que nos têm inundado, que o excesso de informação não é diferente da completa ausência de informação.
Por fim, temos assistido a dois fenómenos nas redacções: concentração e desregulação. A concentração da propriedade dos meios de comunicação social, aliada a contratos precários dos jornalistas, à confusão entre funções administrativas e informativas dos directores e à restrição de meios – técnicos, humanos e de conhecimento –, transformou os jornalistas numa mistura explosiva: frágeis perante as pressões, poderosos perante a opinião pública.
Esta situação da comunicação social (rápida, inconsequente e vulnerável) é hoje um dos maiores perigos para a democracia. Porque as soluções não são rápidas, porque as decisões não podem ser inconsequentes, porque a opinião pública não pode ser vulnerável.
A solução não existe, mas existem caminhos. Passam todos pela regulação, num tempo que é de desregulação. Três, pelo menos, são urgentes: uma Autoridade Reguladora competente, credível, despartidarizada e desgovernamentalizada, que faça aplicar a Lei; regulação da propriedade dos meios de comunicação social; e garantias (laborais e funcionais) da autonomia dos jornalistas e responsáveis editoriais em relação aos proprietários dos meios de comunicação social. É por aqui, e não pela limitação da liberdade de imprensa, que a democracia se defende. Porque atacar a liberdade nunca é a forma de a defender.

Gosto de blues e gosto de mulheres que cantam blues. Um dos meus discos preferidos é uma colectânea da Bessie Smith, comprada em Paris, que o Celso e outros amigos me ofereceram há uns anos valentes.
Felizmente, há tantas actualidades quanto pessoas. Hoje, na biblioteca da minha escola, estava uma senhora, freira, a ler este livro.
44% dos 801 professores que votaram num inquérito de um site da Porto Editora acham que os alunos com necessidades educativas especiais devem ser mandados para escolas especiais. Saber que quase metade de professores, mesmo que o estudo não seja científico, preferem o apartheid educativo ao esforço, aí está uma coisa que me preocupa. Muito mais do que a velha e vazia conversa do facilitismo em relação às crianças.
Tem toda a razão José Manuel Fernandes. Não tem razão na inutilidade da declaração de Sampaio. Ela só foi aproveitada pela maioria por completa falta de vergonha na cara. Não tem razão sobre a inevitabilidade de aumento de impostos para manter um investimento público não residual. Não tem razão quando defende que a disciplina orçamental deve ter como exclusivo objectivo reduzir os impostos. Todos cumpram, que chega para isso e para muito mais.
A receita de José Manuel Fernandes está a ser experimentada. Resultado: mais 42% de falências, 36% de aumento do desemprego, 10% de queda do investimento e nenhum sinal de equilíbrio orçamental.
Não tem razão quando diz que Sampaio foi ideológico. Aquilo em que José Manuel Fernandes tem razão é quando diz que Sampaio deixou por dizer coisas fundamentais. A mais importante: não há consenso possível no debate sobre a política orçamental e não vale a pena, por isso, fazer apelos vazios de sentido político. Porque a política orçamental é a base da própria política. No dia em que, para descer aqui ao nosso pequeno mundo, eu estiver, nesta matéria, de acordo com José Manuel Fernandes, ou ele mudou muito, ou eu mudei muito, ou algum de nós não está a dizer a verdade. A política faz-se, muito poucas vezes, de consenso. Mas é no dissenso que ela se clarifica.
E aí está mais um estudo sobre a sexualidade dos jovens. Este tem, num entanto, um elemento preocupante: vinte por cento dos rapazes batem nas suas namoradas.
O que gostei mais foi das opiniões populares numa reportagem da SIC: a culpa é da violência na televisão. A televisão é, de facto, um electrodoméstico com grande utilidade: resolve-nos todos os problemas.
Mas as estatísticas dão para tudo. Se o estudo diz que 20% dos rapazes agridem as namoradas, também diz que 43% das raparigas agridem verbalmente os rapazes. Estou à espera que venham os argumentos reaccionários: 23% dos rapazes são insultados sem reagir.
Onde as questões políticas hoje se colocam com maior acuidade é nos sistemas operativos de computadores. Isto toda a gente sabe. Mas, movido por um puro amor da liberdade e do conservadorismo, tenho que acrescentar: os conservadores da direita são revolucionários onde não deviam ser (política internacional) e não defendem as boas, as verdadeiras causas conservadoras. Tudo começou naquelas tardes em que, em casa do meu amigo Diogo (coitado, a paciência que ele teve de ter…), nós fazíamos trabalhos escolares e projectos de jornal. Num desses dias o Benfica ganhou um campeonato nas Antas (dois golos de César Brito). Noutro e mais outro, apaixonei-me pelos computadores elegantes e sofisticados da Apple, amor que se tornou impossível largar. Anos e anos a desenvolver hábitos, a cultivá-los, a pregar a boa nova. E hoje chego ao sistema 10. Ora o sistema 10, há que dizê-lo com frontalidade, é um bocado fascista. É bonito, é moderno, é forte, é extremamente veloz, talvez arraste multidões, mas é fascista. Trata as pessoas como se elas fossem burras, coisa que os Macs, na sua extrema simplicidade, nunca fizeram. Tornam a personalização do computador mais difícil, às vezes impossível. Eu digo: nunca fui um ás dos computadores, mas também sempre me desembaracei. Sou um chato, eu sei: maniento, birrento, impaciente. Enfim, tenho as minhas manias. Gosto que o computador me deixe continuar a fazer as coisas à minha maneira, aprendida com a sageza dos anos. Porque ser politicamente conservador em matéria de sistema operativo é isto: achar que o passado , a acumulação dos hábitos, têm uma sabedoria intrínseca. Ora, o novo sistema do Mac é revolucionário: obriga-nos a uma ruptura nunca vista, a mudar de hábitos tão enraizados como a ordem dos factores champô-sabonete no duche. Durante 10, 15 anos, desde que me lembro, desde que o Benfica não ganha, que o aspecto do sistema não mudou. Só melhorou devagar, lentamente, aperfeiçoando-se, juntando beleza à beleza. E personalizou-se ao gosto e desvelo de cada um, como um manuscrito antigo. Agora o novo sistema chega e, de um dia para o outro, muda toda a concepção da coisa. Eu bem devia ter desconfiado daquele paleio inicial hipócrita das instruções sobre tudo o que se mantinha igual. Uma ova! Muda o finder, muda o menu da maçã, mudam os comandos do word, os nomes dos ficheiros tornam-se PC de modo ignóbil («Em defesa do conservadorismo po.doc», grava-me o gajo!). Não há questão mais política do que esta: eu vivo de trabalhar em computador; se me mexem no computador, mexem-me nos métodos de trabalho. Revolucionariamente, sem aviso prévio, atacam-me os direitos laborais.
E repito: o novo sistema é burro e ignorante, feito a pensar em utilizadores burros e preguiçosos. Ora, como ensina a sociologia da cultura mais fixe, é menos burro o burro em si do que o burro que antecipa a burrice dos outros. Para cúmulo, certas operações desaparecem ou tornam-se indisponíveis. Sim, porque o sistema 10 (ou "sistema X", em típica estética fascista) primeiro é revolucionário e depois transforma-se num fascistóide indisponível: torna-se num computador de antes da diferença entre direita e esquerda. Mas é bonito, moderno, forte, veloz, arrasta multidões. E eu, como sou conservador mas não sou reacças, vou ter que ir atrás.
[PS: já sei que o Rui, que é um bocado maCineísta nestas coisas, vai dizer que não é nada disto e que eu sou um ignorantão que ainda não percebeu nada do novo sistema; tenho a certeza de que ele tem razão. Mas não há nada a fazer: o conservadorismo político não é uma atitude racional]
Mas antes quer ir à Lua. Os militares americanos já se habituaram a ocupar satélites.
Bush quer ir a Marte. Parece que os serviços secretos norte-americanos garantiram haver ligações mais do que suspeitas entre os marcianos e a Al Quaeda.
Proponho um brinde à decisão do Tribunal Constitucional italiano considerando ilegítima a lei de imunidade para as mais altas figuras do estado, incluindo o presidente do Conselho. A lei tinha sido feita à medida de um processo de corrupção de juízes implicando Berlusconi. Tudo indica que agora o chefe do governo italiano tenha mesmo de ir a tribunal, como o resto dos acusados.
Este é o post nº 1.000. Se se imprimissem todos os nossos textos e se colassem uns aos outros, a faixa daí resultante cobriria uma parte não desprezível da Rua da Betesga. Os 2 ou 3 megabytes do Barnabé, se reunidos, caberiam em duas ou três disquetes. Por outro lado, se cada um dos caracteres que escrevemos tivesse um hectar de área, o texto integral do Barnabé era muito bem capaz de se estender por todo o território nacional, incluindo Olivença (alô Amigos de Olivença). Não sei se assim é, não fui contar os caracteres e não fui fazer os cálculos. Mas se cada um dos caracteres fosse sólido e tivesse 100 quilómetros de comprimento, talvez se pudesse fazer uma ponte suspensa à volta do planeta. E daí talvez não, quem souber que o diga.
Ainda assim, é impressionante.
Enfim: se o Fernando Martins não comentar isto, se a direita em peso não vier aqui espancar-nos, se o Luciano Amaral não fizer um link para ele fazendo-nos elogios caridosos primeiro, para nos maltratar depois, então este post terá sido excepcional. É isso que se quer.
Hoje, em dois continentes, dois presidentes da república anunciaram objectivos ambiciosos e propuseram ampliar os horizontes do real. Nos EUA, George W. Bush anunciou a projecto de colonizar a lua e a partir daí fazer viajar humanos por outros planetas do sistema solar. Em Portugal, Jorge Sampaio, não se ficou e foi mais além, tentando que a política orçamental do governo passe a ser mais racional e menos bruta.
Luís, eu falei da confusão entre o público e o privado porque julguei que tu tinhas falado da confusão entre o público e o privado porque os blogues tinham falado da confusão entre o público e o privado no programa sobre o teu pai. Afinal, fiz confusão. Como vez, a minha “superioridade moral” não me resolve os problemas de concentração.
Seguindo o grande timoneiro Alberto João Jardim, o Mata-Mouros anda por aí a defender uma IV República. Eu, que não gosto de ficar para trás, sou pela VII República. Mas com o tempo que se espera nos serviços do Estado, mais vale ir tomar um café enquanto não chega a minha vez.
Sampaio, num discurso interminável, lido, para piorar a coisa, por Mota Amaral, criticou a política orçamental do Governo. A maioria aplaudiu e afirmou que não podia concordar mais com a intervenção do Presidente. Desconfio que lhes aconteceu o mesmo que a 99% dos portugueses. Adormeceram a meio. É pena. Desta vez o Presidente disse coisas. Mas, compreende-se, um gajo não está à espera.
Pergunta-me o No Quinto dos Impérios como é que eu trato as pessoas da minha agremiação. Por camaradas, claro. “Amigos”, reservo para os amigos. “Companheiros”, para situações que exijam alguma diplomacia. Para a direita em geral uso esta maravilhosa expressão: “tropa fandanga”. No que toca a sectarismo, eu aprendo sempre com os melhores.
O bruxo Alexandrino quer ser candidato à Presidência da República. Conta que anda a fazer hipnotismo nas discotecas para convencer as pessoas a votar nele.
Celeste Correia, deputada do PS, concorreu ao "Quem quer ser Milionário". Não foi apurada para a final. Resta-lhe concorrer à câmara de Oeiras. Costuma resultar.
Soube da notícia através do Quinto dos Impérios. Informa a BBC: Fidel Castro fez aprovar uma nova lei que reserva o acesso à internet a funcionários públicos, a funcionários do Partido e a médicos. Para o resto, fica a propaganda oficial.
O sentimento de muitos cubanos para com regime que os oprime só se consegue resumir nesta frase de Che Guevara. Vai em castelhano, como as costumam escrever os que ainda conseguem ver alguma réstea de revolução na ditadura castrista: «Solo hay una cosa mas grande que el amor a la libertad: el odio a quien te la quita».

Para algumas pessoas, trata-se de um lugar que promove uma imagem estereotipada de Portugal. Para mim, Ferry Street foi amor à primeira vista. Na altura, eu comparava o que via com os acabrunhados portugueses de França, centenas de milhar deles quase invisíveis que cruzamos todos os dias. E essa comparação não me deixou quaisquer dúvidas de que a Europa tem muito para aprender com o Novo Mundo em matéria de imigração. Nem tudo é rosas. Mas, caramba, estão umas décadas à nossa frente. Em Newark os portugueses andam descontraídos, falam português alto na rua, já receberam cerca de 50% de brasileiros e outros lusófonos entre si sem complexos de maior, imprimem jornais com resultados do campeonato português brasileiro e angolano, vendem bacalhau. Os galos de barcelo são pirosos? Por acaso até nem acho.
É por tudo isso que é para mim um prazer ler este artigo do New York Times sobre o bairro português de Newark.

«Democracia no Iraque bom, democracia em África mau». Esta parece ser a máxima que continua a orientar a política de muitos governos, incluindo o nosso, em relação a Angola. O Human Rights Watch divulgou hoje um relatório arrasador para o regime de Luanda. Para onde é que foi o dinheiro do petróleo, pergunta aquela organização? Pois nada melhor do que lhes enviar um dos últimos números da revista Caras, aquele que traz a reportagem do casório da Tchizé Santos.

Já sabíamos, desde o III Reich, que juristas moralmente corruptos são capazes de justificar o injustificável. O conselheiro jurídico do Colin Powell acaba de nos oferecer mais um exemplo dessa triste verdade. Leiam vocês mesmos.

Caro Celso: da próxima vez que fores à redacção do Expresso, és capaz de deixar uma latinha de chá para o JPC? A avaliar pelo estilo caceteiro do rapaz, os papás não lhe devem ter dado as doses suficientes na idade certa.
Boa tarde.
[Dedicado a Pedro Lomba, Ivan Nunes e mais 3527 bloggers portugueses.]
Andamos nós aqui a discutir as problemáticas do véu islâmico em França e do uso ofensivo de bandeiras confederadas e fogos cerimoniais no Sul dos EUA, quando temos aqui à porta de casa temas bem mais complexos. Liberdade de expressão Vs. discriminação? Vejam lá o que é que acham desta. Já aconteceu com muito sucesso em Beja, agora com muito menos em Lisboa: «Comerciantes do Campo Grande Tentam Afastar Ciganos Recorrendo a Sapos».
Se os blogues querem ser fazedores de opinião para lá da blogosfera, então a chamada de atenção do Rui para uma publicidade javarda do jornal Record deve dar origem a um texto a publicar num jornal, subscrito por bloggers de diferentes tendências que estejam de acordo com ele.
Qualquer dia ainda me acusam de explorar trabalho infantil, mas a propósito dos cromos, apetece-me contar esta: a minha filha de três anos de idade chegou-me há dias a casa e disse: «pai, tenho Palestina nos sapatos». Imaginam a minha fúria ao supôr, por momentos, que a propaganda israelita já tinha chegado aos infantários portugueses. Ia eu vociferar (cá em casa é tudo à bruta) «pequeno coiote sionista vê lá se queres que te ponha fora de casa antes dos quatro anos!!!», quando ela arranca do sapato um minúsculo e colorido pedaço de.... plasticina. Enfim, beijei-a com os olhos marejados de lágrimas e não se falou mais no assunto.
Leiam este post do luciano , intitulado «Grandes Cromos». Não só tem muita graça, como - e sou insuspeito para o dizer - tem razão na substância. Uma coincidência rara.
Eu, ao contrário da maioria dos meus correligionários do Barnabé leio o Expresso. Faço-o com interesse, às vezes, por obrigação, outras. Devo dizer, aliás, que suspeito logo quando um intelectual português diz que não lê o Expresso (o mesmo já vai acontecendo com o Público). Cheira-me a falácia e a prosápia, como se tivessemos um diversificado leque de possibilidades entre os nossos periódicos… Foi por isso com expectativa que acompanhei a estreia do João Pereira Coutinho como colunista da casa. Uma coisa é já constatável: nada mudou em J.P.C. Nem o estilo, nem a direcção regressiva. Neste caso, falar em injecção de sangue novo é referirmo-nos aos dados do Bilhete de Identidade do colunista. Se não, apreciem um pouco desta prosa sobre o mais recente filme da série «O Senhor dos anéis»: «O ataque à Verdade [em caixa alta e sem aspas] começou com Kant , aprofundou-se com a trupe romântica, estabeleceu-se como programa pelo “movimento” modernista – e ganhou honras de extermínio com Foucauld [sic] e Derrida e restante tropa fandanga». O relambório continua com elogios à capacidade de o filme mostrar «o bem e o mal em confronto perpétuo», terminando com a conclusão esperada de que «o sucesso de Tolkien é a prova acabada de que o pós-modernismo está morto». Bin Laden não diria melhor: é o regresso à «moralidade cristã», à verdade com «V» grande, devidamente expurgada da crítica kantiana, da subjectividade, da relatividade antropológica, de tudo aquilo que a colocou um passo acima do Concílio de Trento e a libertou da obsessão do grande Satã. O bem e o mal em confronto perpétuo. Sim senhor, acendam-se as fogueiras.
A denúncia de que há pedofilia na Madeira é uma campanha de comunistas, diz o nosso sempre querido Alberto João. Ele bem nos tinha dito que «já perdeu a vergonha». Ficamos nós com ela, de o ter como presidente de um governo regional.
Vi uma reportagem sobre a pedofilia nos Açores e a opinião que as pessoas têm sobre a matéria. «É uma criança estar a ser violada sem os pais saberem», disse uma mulher. Ainda nos faltam tantos séculos para sermos um país civilizado. Bolas.
José Mourinho foi eleito treinador do ano numa votação do site da UEFA que teve a participação de mais de um milhão de votantes. É bom, é muito bom. O Barnabé já não está só na patriótica tarefa de elevar o prestígio internacional de Portugal.
Alberto João Jardim disse, na SIC Notícias, que era «uma velha meretriz que já perdeu a vergonha». Ok, quem somos nós para o desmentir? O que é preocupante é que a meretriz vinha acompanhada, quando fez a sua confissão, por Bagão Félix. Seria colega? Seria cliente? Seria a gestora do prostíbulo?
Benvindos ao maravilhoso do Clube do Chiado, um novo cenáculo político fundado por José Lamego, o representante português na administração do Iraque. O Clube do Chiado, apesar de contar principalmente com a participação de guterristas, não é uma vulgar rede clientelar com o projecto de subir na hierarquia de um partido político em particular. Não. "Não somos conexionados com qualquer estrutura partidária", diz José Lamego, comprovando que a influência de Bush e Rumsfeld já se faz sentir ao nível das estruturas gramaticais mais profundas. O Clube do Chiado abrirá as portas aos jovens, porque "os jovens têm dificuldade de participar e criar conexões".
No primeiro debate do Clube do Chiado, falou-se de Europa. E José Lamego explicou por que era contra o referendo: «manifestou a sua discordância por entender que matérias como o tratado constitucional, ou seja, "decisões de longo prazo" não deviam sentir o peso da "participação excessiva da opinião pública"». Aliás: «aproveitou este assunto para lançar uma farpa ao primeiro-ministro, Durão Barroso: "Desconfio sempre de quem já exerceu cargos na área da política externa defender um referendo sobre esta matéria"».
Pessoal! Façamos como Lamego. Lamegar é chic. Comecemos por conexionar por aí. Conexionemos muito, principalmente os jovens. Mas atenção, amigos: sem "peso excessivo da opinião pública", que é um bocado indigesta.
... que já nem se preocupa em arranjar bocas novas para mandar?
Jorge Coelho, ontem no Público
Vou poder reencontrar o George ou a Elaine, do Seinfeld. O Seinfeld, propriamente dito, ou o Kramer, dizem-me pouco. Mas o George e a Elaine... Sempre que os vejo, revejo-me no que eu gostava de ser e nunca terei coragem. Ando a trabalhar para isso. São os meus heróis. Tenho tantas saudades deles... Estarão em DVD em Dezembro.
A 2ª Guerra Mundial causou milhões de mortos, nem sei quantos, nem tenho vontade de ir ver. As bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki mataram, tanto quanto me lembro, centenas de milhares de pessoas. E os donos do diário desportivo português Record, que devem certamente pensar com a unha do polegar do pé direito, acham óptimo fazer uma campanha publicitária a um coleccionável qualquer sobre a 2GM com esta imagem:

Jogadas? Eh pá, lembram-se daquela em que o Eichmann mandou os gajos entrar pela porta da esquerda e as bilhas de gás pela porta da direita? E daquela vez que o Enola Gay sobrevoou Nagasaki? Viste aquela curva que o gajo fez antes de largar a bomba?
É tão divertido, não é? Então os senhores do Record que tentem fazer um favor à gente: imaginem o que sentirá um japonês que viva em Portugal e veja uma porcaria destas. E já agora, se alguém da Embaixada nipónica me estiver a ler: por favor processem aqueles irresponsáveis que é para ver se eles aprendem.
Que a invasão do Iraque foi decidida ainda antes do 11 de Setembro, já desconfiávamos. Hoje sabemos que foi em 2001, logo na primeira reunião do Conselho Nacional de Segurança. O antigo Secretário do Tesouto, Paul O'Neill, meteu a boca no trombone. A investigação está no The Independent e no 60 minutes, da CBS. Não foi por causa das armas de destruição massiva, não foi por causa da Al-Qaeda, não foi por causa do 11 de Setembro. Os créditos da mentira estão esgotados. Game Over.
Aproveitando a maré de conselhos de leitura, aqui está a entrevista ao escritor paquistanês Tariq Ali, em que este examina a hegemonia dos Estados Unidos e o cariz militar e ideológico da Nova Ordem Económica. Fica ali guardadinha no Barnabé Rebelo de Sousa. Para quando tiverem paciência.
E, já agora, comprem a revista de que este vosso amigo é editor, o “Manifesto”. Este 4º número é sobre “trabalho, produtividade e conflito social”. Lá podem encontrar: uma entrevista a Carvalho da Silva; um artigo de Elísio Estanque sobre trabalho e acção sindical; um ensaio de Yann Boutang, sobre rendimento incondicional de subsistência; uma conversa com Robert Castel, à volta dos conceitos de trabalho nas sociedades modernas; um texto de André Gorz, sobre trabalho imaterial; e um artigo de Luciana Castellina, sobre Cancun e a Organização Mundial do Comércio. Esta é uma cunha que meti a mim mesmo. Em qualquer livraria, a partir de dia 15.
A julgar pelos valores da blogshares, Portugal é um sucesso na blogosfera internacional. E o Barnabé, contrariando a ideia de que a esquerda se dá mal com as bolsas de valores, é terceiro nacional e um sucesso no mercado internacional de humor. O 9º, entre os blogues de “sarcasmo” em todo o Mundo, apenas seis lugares abaixo do mítico The Onion. E em 7º, também em todo o Mundo, no “humor”, à frente do Meu Pipi e do Gato Fedorento. Não concordam? Nós também não. Mas o mercado tem sempre razão.
(vejam no link aqui em baixo)
Portugal
1. Weblog em Portugal
2: Abrupto
3: barnabé
4: O meu Pipi
5: Gato Fedorento
6: BdE - Blogue de Esquerda (II)
7: blogolista
8: Aviz
9: Liberdade de expressão
10: Ponto Media
11: Dicionário do Diabo
12: Desejo Casar
Sarcasmo
1: Fark
2: Scripting News
3: The Onion
4: Daily Dish
5: The Register
6: this modern world
7: Bad Samaritan
8: caffeinated spite!
9: barnabé
10: all noise all the time
Humor
1: Boing Boing Blog
2: Dave Berry
3: I Built My Dreams Around You
4: Bad Samaritan
5: eBaum's World
6: newgrounds
7: barnabé
8: O meu Pipi
9: Gato Fedorento
10: Davezilla
Há nomes de lugares que pesam toda a vida sobre as pobres almas que lá habitam. Nos Açores, em Santa Cruz das Flores, 80 tristes portugueses habitam em Caveira. Ali, entre a Moita e o Montijo, há os que se habituaram a viver com Sarilhos Grandes e outros, menos sofridos, com Sarilhos Pequenos. Em Celorico da Beira, uns tantos desgraçados estão enfiados na Ratoeira, que é assim mesmo que se chama o lugar que lhes calhou em sorte. Pouco esperam da vida os pobres homens e mulheres que nasceram e hão de morrer no Vale dos Azares, sobretudo os que estão nas redondezas de um dos principais monumentos da terra, o Calvários de Azares.
Mas a ninguém tinha ainda calhado nome de tanta má fortuna. É uma urbanização em Gondomar. Ali, claro, só vivem realojados. Só mesmo não tendo casa se aceita tamanho ultraje. Com este peso viverão para sempre os moradores da urbanização Durão Barroso.
Inês: nós aqui no Barnabé conhecemos bem os teus pais e gostamos muito deles. Entre outras razões, porque eles são daquela gente de deixar tudo um pouco melhor do que encontrou. Fazem-no com as pessoas, com os lugares, com as amizades. E, pelo menos para nós, fizeram-no com o próprio mundo no dia de hoje à meia-noite e cinquenta e dois, que foi o minuto em que tu nasceste, saudável e já de olhos abertos.
Não há nada de muito definitivo para dizer acerca deste lugar a que chegaste. Levamos uns anos disto sempre um bocado indecisos no que diz respeito a um juizo geral. Mas pode dizer-se que algumas coisas são fantásticas. Um exemplo – que não é dos menores – é esta história de cada um ter qualquer coisa que o faz diferente dos outros. Já do lado das coisas piores, olha, pode dizer-se o seguinte: como este é aparentemente o único mundo e a única vida que temos, tudo é para encarar como bom humor, coragem e vontade.
Aceita então as nossas boas-vindas emocionadas, esta fotografia (que está logo ali acima) de uma árvore muito grande chamada embondeiro, e um beijinho de todo o Barnabé.
Não demos por nada e por isso não agradecemos devidamente o 5.000º comentário. Foi no sábado. Obrigados a todos. Aos que comentam e aos que nem por isso.
Os israelitas estão a dar um novo sentido à máxima hippie «Make love not war». Oiço na Sic Notícias que a natalidade cresceu imenso durante o período da Segunda Guerra do Golfo e o mesmo já tinha acontecido na primeira. A explicação é simples: aconselhados pelo governo a permanecerem em casa em quartos calafetados para se protegerem de eventuais retaliações iraquianas, os israelitas aborrecem-se de morte e redescobrem os prazeres do sexo. A guerra tem destas ironias: o Iraque desta vez não só não atacou Israel como ainda contribuiu para a multiplicação do infiel. Não resisto porém a uma pergunta muito ignorante: em Israel não há televisão?
O último suplemento literário do Courrier International (n° de 24 de Dezembro a 7 de Janeiro) é dedicado às relações entre arte e política. Inclui nomeadamente um artigo muito interessante, oriundo do Diario della Settimana, sobre a obra de Mark Lombardi. Este pintor norte-americano, que morreu em março de 2000 num aparente suicídio em que alguns dos seus amigos se recusam a acreditar, construiu uma obra totalmente original que consistiu na criação de grandes telas com diagramas que reconstituem ligações perigosas nos meios político-financeiros internacionais. Elaborou, nomeadamente, várias representações dos laços que terão unido, ao longo de vários anos, George W. Bush e a família de Bin Laden. O que é que, à primeira vista, parece muito original no trabalho de Lombardi? Aliar a beleza da composição gráfica ao rigor da descrição de redes sociais. Ou a forma da rede com o seu conteúdo político.
Segundo o artigo em que me baseio, a pesquisa de Lombardi era feita de forma meticulosa e obsessiva (cerca de 12000 fichas com nomes), mas com base apenas no que saía nos jornais, o que, possivelmente, protegia a liberdade criativa do autor e o impedia de ser acusado de difamação. Ou de produzir teorias da conspiração. Ou melhor, ele conspirava e muito, mas na medida em que a arte conspira sempre. Privado, como qualquer um de nós, do acesso aos segredos dos negócios da alta política e finança, Lombardi considerava especialmente informativas as notícias publicadas após a bancarrota dos bancos: é nesse momento que vêm a lume na imprensa uma série de dados relevantes sobre as relações financeiras dessas empresas que anteriormente não se podiam conhecer.
Lombardi, cuja obra interessou o FBI imediatamente após o 11 de Setembro, descrevia-se a si mesmo como pintor de paisagens "a meio caminho entre o ideal e o real". Para vermos os seus quadros, para já, é preciso ir aos Estados Unidos (exposição "Global Networks" em San Francisco de 17 de Janeiro até Abril) ou ao Canadá. Ou ver pequenas reproduções em artigos como este. Leia também o artigo original, da autoria de Enrico Deaglio, aqui ao lado, no Barnabé Rebelo de Sousa.

George W. Bush, Harken Energy and Jackson Stephens, c. 1979-90, 5th Version, 1999 [pormenor]
Ontem, na SIC Notícas, Durão Barroso afirmou que tinha sido óptimo para as nossas relações com a França e com a Alamanha a posição que tomámos em relação ao seu não cumprimento do PEC. E garantiu-nos que a França não tinha ficado zangada com a nossa lealdade para com outro aliado, mais forte, durante a guerra do Iraque. E ainda achou que Portugal não tinha de estabelecer alianças preferenciais no debate europeu. Que depende de cada momento. E considerou, por fim, que Portugal não deve receber contrapartidas financeiras pela base das Lajes. Porque não somos clientes, somos amigos. De facto, devemos evitar que haja dinheiro envolvido neste tipo de relações. Há que manter as aparências, não vão os "nossos aliados" julgar que nos dedicámos à mais antiga profissão do Mundo. Se é para sermos comidos por todos ao mesmo tempo, eles que julguem que o fazemos por prazer.
É a história daquele gajo que sobreviveu a um dos mais violentos combates na Somália, escapou por pouco a um cancro nos testículos e depois andou a chatear a cabeça aos seus superiores para o mandarem para o Iraque – acabando por morrer quinta-feira num helicóptero que foi abatido em Faluja. O pai dele quer que tirem de lá o outro filho, um soldado chamado Ryan. Depois há aquela dos gangs lealistas na Irlanda do Norte que, não contentes com andarem à porrada com os católicos, começaram também a perseguir chineses, pretos e paquistaneses, ou melhor, os poucos que foram doidos o bastante para terem emigrado para lá. A Irlanda do Norte, 99% branca, está a tornar-se numa capital do racismo na Europa. Para quem já acha que o Barnabé é o porta-estandarte do relativismo moral, tomem lá: este gajo defende o Michael Jackson, e este outro aqui pergunta mas afinal o que há de errado com o canibalismo entre adultos de livre e espontânea vontade?
E, para terminar, uma dica. Quando chegarem atrasados ao trabalho usem a desculpa do Woody Allen: "Acordei na sexta-feira e como o Universo está em expansão demorei mais um bocado a achar a minha roupa".
Os políticos normais já costumam prometer a Lua. Quando se é George W. Bush, tem que se prometer a Lua e Marte. Sempre é mais fácil do que as ADM no Iraque...
Sábado é dia de jornais, e o Barnabé decidiu acrescentar alguns títulos à sua lista. Nela encontrarão agora o dominicano El Caribe (dedicado a Inês Thomas e João MacDonald), o muito interessante Iraq Daily, o Jerusalem Times da Palestina, o argentino La Nación, o El Pais do Uruguai, o Pravda (com edição em inglês e em português!), e o Tehran Times da capital iraniana.
Como os países não se medem aos palmos, foram contemplados jornais de dois micro-estados: o Kuensel, jornal nacional do Reino do Butão; e L'Osservatore Romano do Vaticano, com o seu belo desenho gráfico, e em cuja edição portuguesa se pode ler tudo sobre o sempre momentoso tema "A maternidade divina de Maria". Bom proveito.

«Um cego rodeado de surdos» - é assim que o ex-Secretário de Estado do Tesouro norte-americano, Paul O’Neill, acaba de descrever a administração Bush ao Washington Post. Sempre me palpitou que o Bono Vox lá teria as suas razões para dar boleia a este cavalheiro.
Como seria de prever, o advogado de Bibi não será também advogado de Saddam. A notícia, que nasceu no caderno de humor do “Público”, foi repetida no caderno do humor do Expresso (o primeiro caderno). Um grupo de advogados enganou Martins e o próprio enganou o “Expresso”. Diga-se, em abono da verdade, que são os dois fáceis de enganar. O desmentido veio no Jornal de Notícias. A coisa funciona assim: quando contarem uma piada ao Saraiva, expliquem-lhe que é no gozo. Não se esqueçam que ele leva a sério até os editoriais que escreve.

Foi ontem divulgado o relatório do Carnegie Endowment for International Peace sobre o Iraque e as Armas de Destruição Maciça. Elaborado por uma equipa que incluía, entre outros, o director do projecto de não-proliferação do instituto, o relatório apresenta um conjunto de conclusões que irá pôr as orelhas a arder a muita gente. Ora tomem lá nota: o arsenal iraquiano não constituía uma ameaça iminente; as inspecções da ONU estavam a surtir efeito; os serviços de informações falharam e/ou foram manipulados pelos governos da coligação; a conexão entre o regime de Saddam e a Al-Qaeda nunca foi provada; a busca das ADM no pós-guerra ignorou as indicações dos peritos da UNMOVIC; a guerra não era a única (ou sequer a melhor) opção para desarmar o Iraque. Um dos argumentos de quem defendeu a expedição militar era mais ou menos este: como o sistema internacional assenta no princípio da soberania dos estados (e no seu corolário, a não-ingerência), a única forma que ingleses e americanos tinham de legitimar a intervenção no Iraque passava pela invocação do espectro da «ameaça iminente». Uma guerra essencialmente punitiva foi, pois, apresentada como «defensiva». Eis uma mentira piedosa que não devemos perder de vista.
Agradeço ao Pedro Viana o link para as conclusões do relatório.
Sempre que andamos às turras com a Glória Fácil, as minhas mui estimadas Ana e Maria José sacam do argumento do género. Agora chamam à unidade barnabenta solidariedade masculina. Deve ser para pôr o meu auto-censor de esquerda a funcionar. Sabem o que é realmente trágico? É que funciona.

PS: Através do link do "Diário dos Açores" vão ter à página da notícia em causa, que permite deixar comentários, podendo aí ser transmitida a indignação que esta notícia merece. Suponho que será lido pelo "jornalista" em causa e pelo director do jornal.
No segundo canal e na SIC Radical vimos morrer o que de melhor se faz na televisão. Acabou “The Royle Family”, “The Office”, “South Park” e “O Porteiro”. Felizmente ainda há (não consigo saber para que horário foi) o “Daily Show”, o “Babilon Five” e, convenhamos, sem densidade narrativa do canal 18, o “Gostas Pouco Gostas”. E regressou o “Six Feet Under”.
Mas a grande notícia é a estreia, hoje, às nove, na SIC Radical, do “Gato Fedorento”. Isto é que é serviço público. Ricardo Araújo Pereira é a esperança da esquerda. Diogo Quintela é a esperança da direita. O Gato Fedorento é a esperança das instituições democráticas. Eles sim, são a sociedade civil.

Souto Moura que se cuide. É este o futuro reservado aos ex-procuradores.
com agradecimentos a rodion e metrografista
O movimento para a realização de um novo referendo sobre o aborto promove este fim-de-semana, por todo o país, bancas de recolha de assinaturas. Já estão recolhidas 35 mil. Neste fim-de-semana é para acelerar e alcançar, o mais rapidamente possível, as 75 mil assinaturas necessárias à promoção de uma petição popular.
Se não puder participar, temos aqui (em PDF) o abaixo-assinado que, depois de imprimir e recolher as assinaturas de eleitores com mais de 18 anos (com a assinatura e o nome igual ao BI e respectivo número), deve enviar para esta morada: Movimento por um Referendo para a Descriminalização do Aborto, Rua Augusta, nº 246, 2º, 1100-056 Lisboa.
Mas melhor ainda seria participar na recolha de assinaturas, este fim-de-semana, nos locais e datas que pode consultar no link que está no fim deste texto.
Fim-de-Semana Nacional de recolha de assinaturas
Lisboa
Sexta-feira
19.30h: Concerto de Maria Rita, no Coliseu.
Sábado de manhã
9.00 h: Mercado de Benfica
9.30 h: Mercado da Ajuda
10.00h: Olivais Shopping
10.30h: Feira da Ladra
Sábado de tarde, todas às 15 horas
Baixa-Chiado (Brasileira)
CC Vasco da Gama
CC Colombo, CC Fonte Nova.
Sábado à noite
19.30h: Concerto de Maria Rita, no Coliseu.
Domingo
15.00h: Mega-banca no CC Colombo.
Algés
Sábado
10.00h:Junto ao Mercado de Algés.
Alverca
Domingo
10.00h:Jumbo.
Loures
Sábado
10h30 - Mercado de Sacavém
Cascais
Sábado
10.00h:Mercado da Parede.
Sintra
Domingo
10.00h : Feira de São Pedro.
Vila Franca de Xira
Sábado
10.00h : Largo da Câmara.
Porto
Sábado
10.00h: Rua Santa Catarina (ao Via Catarina)
10.00h: Rotunda da Boavista (à loja da Buondi/Bom Sucesso)
Domingo
10.00h: Parque da Cidade (à rua António Arouso, cruzamento com a Rua Boavista)
15:00h à porta do Arrábida Shopping, em Gaia.
Espinho
Domingo
15.00h: Marginal.
Beja
Sábado
10.00h: Junto ao Centro Comercial Modelo.
Castro Verde
Sábado
15.00h: Largo da Cooperativa de Consumo.
Braga
Sábado
10.00h: Avenida Central.
Barcelos
Sábado e domingo
Largo do Porta Nova
Castelo Branco
Sábado
11.00h: Em frente ao mercado.
Coimbra
Sexta-feira
18.00h: Estação da CP, Coimbra A.
18.00h: Central de camionetas da Rodoviária Nacional.
Sábado
10.30h: Praça 8 de Maio.
Setúbal
Sábado
9.30h: Mercado do Feijó.
11.30h:Mercado de Corroios.
Domingo
12.00: Sesimbra,
15.30h:Pinhal Novo, com a presença de Fernando Rosas
Santarém
Sábado
15.00h: Em frente ao Centro Comercial W Shopping.
Torres Novas
Sexta-feira
21.00h: Praça 5 de Outubro.
Entroncamento
Domingo
15h - Centro Cultural do Entroncamento
Viseu
Sábado
10 até às 17 h: Rua formosa (4 esquinas)
22.00 h: Recolha de assinaturas pelos bares de Viseu
Faro
Sábado
10h - Rua de Santo António (centro de Faro)
Caldas da Rainha
Sábado
10h30 - Praça da Fruta (junto à PSP)
Falei aqui ontem do texto Pacheco Pereira. Fiquei-me pelas incoerências de Pacheco. Miguel Sousa Tavares vai muito mais longe e responde-lhe ao pormenor.
A “tralha guterrista” reuniu-se no Chiado para prestar homenagem a Lamego, por causa das supostas ofensas que Ana Gomes lhe terá dirigido. Alguns “penetras”, como João Soares e Carrilho, também foram ao jantar. Mas o resto da galeria é nossa velha conhecida: Jorge Coelho, António José Seguro, Fernando Serrasqueiro, José Apolinário, Rui Oliveira e Costa, Capoulas Santos, Fausto Correia. Tudo bons rapazes. Vê-los, todos juntos, de Coelho a Lamego, de Oliveira e Costa a Fausto Correia, fez-me voltar ao passado. Definitivamente, nenhumas saudades.
Vital Moreira, que entrou muito bem na blogosfera portuguesa e que consegue escrever mais posts diários do que o Barnabé, diz que aqui o nosso blogue "deve muito protagonismo a um dos seus autores". Isso até pode ter sido verdade no início. Mas, diga-se em abono da verdade, desde Setembro que a Rosa Pomar não escreve aqui. Andamos a trabalhar e os outros é que ficam com os louros.

Bonfire de Natal da corporação de bombeiros de Gramercy, na margem esquerda do Mississippi, cerca de 50 milhas a norte de New Orleans

Harrison Putney, The Great Layton, Circus Performer, 1885.
[Venham ver! Pacheco Pereira e a teoria da cabala anti-cabala!]
Nem sempre o carácter cruzado da blogosfera facilita a comunicação. A Maria José Oliveira acusa-me de transformar o Luiz Pacheco numa personagem e de não ter lido os seus livros. Se a primeira eu reafirmo, a segunda parece-me um bocado arriscada: como é que MJO sabe que eu não li ou passei a ler os livros do Pacheco? Pelos vistos não é só na televisão que as tarólogas fazem sucesso. Pronto, vou fazer um strip-tease literário. Eu li e conheci pessoalmente o Pacheco. Li o Teodolito, li a Comunidade, li um texto muito interessante chamado «o bife», li as cartas. Penso coisas diferentes e desiguais de cada um desses textos. Isto é uma coisa. Uma coisa literária que pode ser discutida em termos literários se a MJO quiser. E nada obsta a que eu considere o Pacheco um dos mais importantes editores da segunda metade do século (editou primeiros livros do Herberto Helder, do cesariny, da Natália Correia). Dou tudo isso de barato, mas não será a maior prova de menoridade de um escritor ter que se justificar a sua importância literária com a sua importância editorial? Não se trata de glória fácil, mas cada coisa no seu campo.
O centralismo democrático não tem futuro (de democrático, nem passado tem) e por isso tenho que vir aqui pegar-me com o Celso. Concordo com algumas das coisas que ele escreveu sobre o Luiz Pacheco. Sobretudo com a ideia de que a maior injustiça que Luiz Pacheco fez a si próprio (nem falo das que fez a outros) foi a de se ter transformado numa personagem. As personagens são boas para as entrevistas, não são grande coisa para o resto. Mas, de resto, não posso concordar com o Celso. Pacheco é um bom escritor. Tem um texto admirável: "A Comunidade". E outros muito bons, como "O Teodolito" ou "O libertino passeia-se por Braga", que eu ofereci ao Pedro Oliveira, há uns anos, depois de o encontrar num alfarrabista, com erros corrigidos à mão e tudo.
Mas, acima de tudo, deveria ter ficado na história como editor. Não como editor, propriamente dito, mas como caçador de talentos. Pela sua mão passaram alguns dos melhores escritores portugueses da segunda metade do século. Escolheu ser entrevistado profissional e nisso o Celso tem razão. E quem o entrevista gosta mais disso do que do resto.
Já agora, a Maria José Oliveira faz o pior que se pode fazer para contraditar uma opinião. Mandar ir ler. Eu não concordo com tudo o que o Celso disse sobre Pacheco, mas sei que ele só escreve sobre autores que leu. A Maria José, que, segundo sei, não conhece o Celso de lado nenhum, devia partir do mesmo princípio. E, mais a mais, o Celso ignorou tanto, no seu post, os livros de Pacheco, como a Maria José e o Nuno Simas, que não os referiram. Essa arrogância sem qualquer sentido, como diria Pacheco, é abaixo de Namora.
Saramago e Lobo Antunes são o Paulo Coelho e a Margarida Rebelo Pinto da classe A e B...?... comparar o Luis Pacheco com o Borges...? Estás cansado Luciano?, não te apetece discutir?, deixa lá, a mim às vezes também não. Não é muito importante, é este ritmo infernal do dia-a-dia... Um conselho de amigo: tira o disco do Luis Represas do hi-fi. A coisa melhora logo.
Pacheco Pereira escreveu hoje, no Público, sobre o caso da Casa Pia, defendendo a tese de que o PS ou a defesa de Paulo Pedroso (ou as duas coordenadas) estão a tentar destruir este processo:
«Quantos mais nomes vierem a público nas circunstâncias dos de Sampaio e Vitorino, menos importância tem a carga simbólica da acusação sobre os nomes dos que são efectivamente acusados.»
«Porquê só os nomes do PS? A soma de mais um nome de topo do PS tem dois resultados que parecem desejados pelo autor da fuga. Um, a ideia de que o processo da Casa Pia é um processo contra o PS, envolvendo toda a elite socialista. Outro é o de que cada nome acrescentado, em particular nomes com forte efeito de inverosimilhança, desvaloriza todos os anteriores.
«Não foram a acusação a Carlos Silvino, Carlos Cruz, Hugo Marçal, Diniz Ferreira, ou mesmo o embaixador Ritto que levaram à politização do processo. Tudo começou quando se chegou ao deputado e porta-voz do PS. Aí abriu-se uma avalancha de processos de intenção e de fugas de informação, de teorias conspirativas, que acaba por negar qualquer fundamento do processo Casa Pia. Não teria tudo sido inventado?»
Pacheco Pereira diz três coisas: que a fuga de informação é feita pelos advogados de defesa com o contributo do Partido Socialista, que os nomes de Vitorino e Sampaio servem para criar esta confusão (não refere Gama e Ferro, de onde depreendemos que os inclui nos suspeitos) e que o Partido Socialista está a tentar, assim, destruir um processo que visa julgar adultos que violaram crianças.
Pacheco Pereira escreveu, a 24 de Julho, também no Público, um outro texto (“Nada disto acontece por acaso”) sobre as acusações feitas por Ferro Rodrigues a este processo, exigindo a clarificação da origem da maquinação, do seu funcionamento e da identificação exacta do centro de “coordenação de pressões” e considerando que acusações de Ferro eram demasiado graves para não serem explicadas.
Hoje, Pacheco Pereira insinua que o maior partido de oposição está a tentar impedir que um julgamento de pedófilos se faça. É das mais graves acusações que já se fizeram na vida democrática portuguesa. Pacheco Pereira, tal como Ferro Rodrigues, é um político com responsabilidades. Não pode fazer acusações de tal gravidade, sem mais. Tem de se exigir a Pacheco Pereira o mesmo nível de pormenor que ele exigiu a Ferro Rodrigues. Pacheco Pereira diz coisas concretas e que têm que ser verificáveis. Socorro-me do seu texto de 24 de Julho:
«Exactamente porque o tomo a sério, é que ele me deve a mim e aos que têm a mesma atitude, explicações mais detalhadas. Pode Ferro Rodrigues estar genuinamente enganado, mas o que diz é suficientemente grave para não ser tomado por trivial, ou como retórica política. Ferro diz coisas concretas e que têm que ser verificáveis. Há acusações que não podem ser feitas pela metade.»
Um estudo recente sobre o pessimismo coloca Portugal como o quinto entre os mais acabrunhados do mundo. Querem melhor razão para estarmos optimistas? Ainda há quatro à nossa frente.
Francisco José Viegas indignou-se, há uns tempos, com todos os que «deviam manifestar algum juízo e, pelo contrário, se puseram a citar Kafka a propósito e a despropósito do inquérito judicial.» E explicou: «na verdade, esta reacção contra «os perigos do inquérito judicial» só é possível num país que atravessou meio século de censura e de vida subterrânea – durante esse meio século a vida da Casa Pia foi silenciada e todos os rumores escondidos debaixo do tapete». Hoje escreve: «Está em causa um processo complexo; a forma sórdida como o assunto é muitas vezes tratado, desfazendo-se ou refazendo-se em redor de suspeitas e de informações que ninguém pode confirmar, também não ajuda» Ontem queria barulho contra os rumores escondidos debaixo do tapete, hoje pede silêncio contra suspeitas que ninguém pode confirmar. Registado.
Primeiro foi Pacheco Pereira, agora é o seu eco. São cada vez mais os partidários da teoria da cabala. Nada como a calúnia ser mais democrática para assistirmos a um sobressalto de cidadania.
Aparecendo tocando chegando sorrindo pedindo entrando parecendo sentindo enganando fugindo aguentando inquirindo repetindo seduzindo deitando escondendo falando saindo voltando correndo.
Aos franco-portugueses, não falar mais de azulejos nem de fado nem das descobertas. Falar-lhes sim das casas de taipa e adobe, dos Xutos e dos imigrantes de leste. Falarmos tantas vezes disto durante tantos anos até que sejam estes os clichés. E depois estudarmos pela primeira vez os azulejos, o fado e as descobertas.
O Governo assume que hospitais públicos com a gestão empresarializada podem dar preferência aos beneficiários de seguradoras. Começaram por dizer que era só para agilizar a gestão. Acabam por nos confessar o que todos sabíamos: que agenda deste governo pode ser oculta, mas é muito previsível. Entre um Estado incompetente e um privado selvagem, ficamos com o pior dos dois mundos: um Estado selvagem chulado por privados incompetentes.
o Luciano tem um problema com a cultura. Não é bem um problema com a cultura, mas com a cultura que ele não consome. Gosta de fazer uns números linguísticos batendo nos lugares comuns do EPC (uns são, outros não), nos clichês das artes plásticas, nos discos que estão no top (um pecado claramente lesa elite). Funciona, mais ou menos, como o detective que, distraidamente, descobre uma fraude cultural acoitada em cada moita, mas à custa de tanta vontade de demarcação acaba como um corrector ortográfico dinamarquês da literatura portuguesa. Desta vez resolveu chatear o Lobo Antunes e o Saramago com o Luís Pacheco. Mais propriamente com uma entrevista do Pacheco. O problema é que isso é um combate desigual. A literatura mais relevante que o Pacheco produziu foram as suas entrevistas. Eu gostava de ver o Luciano sair em defesa de um grande romance do Pacheco (não tem que ser pelo tamanho) para se atirar ao Lobo Antunes. Pessoalmente, eu gosto muito do Luis Pacheco, mas também por isso tenho obrigação de reconhecer que o Pacheco é uma personagem, não é um autor, é um megafone de maledicência normalizador que nunca escolheu trigo no meio do joio (as coisas horríveis que ele disse, por exemplo, do Cardoso Pires). Eu sei que há por aqui muita coisa empolada e que o mercado luso está proteccionista mas convenhamos que, ao pé das «parvoíces abjectas» do Saramago e do Lobo Antunes, o Pacheco é rastilho curto...
PS. Por lapso, onde devia ter ficado «sucessivas parvoíces» ficou «parvoíces abjectas».

Anónimo: O Czar Nicolau, a Czarina Alexandra e a Rainha Vitória em torno da princesa Tatiana, Balmoral, 1896.
Que bom saber que ando a poupar dinheiro sem sair de casa. Não compro o Expresso e cada vez o dinheiro que eu não gasto vale mais. Não gastando três euros eu já conseguia não ler o João Carlos Espada. E agora vou passar a não ler o João Pereira Coutinho. Afinal, sempre há almoços grátis.
Na TVI, Manuela Moura Guedes disse, sobre a indignação dos deputados com o tratamento jornalístico que tem sido dado ao caso da Casa Pia, que os ditos políticos serão "fotossensíveis". Nem "fotossensíveis", nem telessensíveis. Aguentam, por dever profissional, ver e ouvir, diariamente, Manuela Moura Guedes a fazer comentários ignorantes de esplanada num telejornal sem sofrerem de distúrbios gástricos. Querem maior prova de resistência?
Nunca concordei com a ideia de que atacando a televisão se promove a leitura. Acho que está por provar que uma coisa leve à outra. E acho este tipo de medidas ainda mais inaceitáveis quando são feitas de forma pouco clara e não explicitada. É que ao ver a capa do "24 horas" sobre o pénis de Carlos Cruz ficou para mim claríssimo porque codificaram o canal 18.
1. Ora aconteceu que, como prometido, voltei ao mundo dos vivos no dia 7 de Janeiro, depois de um período de hibernação provocado pelo festejos da época. N'O Companheiro Secreto ficaram um bocado chateados com esta história de um gajo ateu dizer que anda porreiro da vida, e acusaram o Barnabé de viver "numa corrida, a qualquer preço, pela felicidade": "Se eles soubessem que a infelicidade é, por vezes, a única forma digna de sermos, de continuarmos humanos!"
Este pessoal nunca se decide. Se um gajo anda triste, é porque anda longe de Deus. Se um gajo anda porreiro, é porque não percebeu que ser infeliz é a única forma digna de se continuar humano. E por último, desculpem dizer-vos que o Pedro d'O Companheiro Secreto não entendeu patavina dessa questão do preço: quem lhe disse que o Barnabé vive "numa corrida, a qualquer preço, pela felicidade"? É simplesmente absurdo. Eu não quero ser feliz a qualquer preço. Eu só quero ser feliz se for de graça.
2. Enquanto estive fora, o Pedro Oliveira disse que o Rembrandt era o meu pintor favorito. Eu não sei se é. Mas é um pintor que se deixa gostar sem compromisso.
3. O André Belo, por outro lado, diz que eu sou o pai da expressão "mau ganhar". Eu gostaria de ser, mas acho que não sou. Por outro lado, eis um defeito de carácter que eu lamento verdadeiramente. Acho escandaloso que os lagartos se venham para aqui gabar da derrota infligida ao meu clube. Eu ainda ante-ontem derrotei sem contemplações o meu amigo Frank ao xadrez e ninguém me viu vir para a blogosfera propagandear o facto, não é?
[Com um abraço ao Frank Marcon e à Taís Figueiredo pela hospitalidade – e por me terem deixado ganhar.]
Vi ontem a RTP 2. Chamo-lhe assim porque ainda não dei pela a diferença. A sociedade civil deve ter ficado a servir os cafés aos convidados.
Rui Rio decidiu fechar uma cantina e ofereceu-se para fornecer marmitas aos trabalhadores. Sabes qual é o teu problema, Rui? Preocupas-te demais com as pessoas. E julgas que elas te agradecem?
Ontem ouvi Dias Loureiro, no Prós & Contras, falar sobre a situação do país. Repetiu 245 vezes a palavra "mérito", sobretudo a propósito da avaliação dos funcionários públicos. Tem legitimidade para isso. Pelo menos a julgar pela assiduidade do seu trabalho parlamentar, percebe-se que o deputado Dias Loureiro dá mais valor à qualidade do que à quantidade.
A maioria de direita está indignada, e bem, com a publicação do nome de Mota Amaral, numa revista, envolvendo-o no processo da Casa Pia. Sejam bem-vindos. Mas não há fome que não dê em fartura, e já pedem limitações à liberdade de imprensa e, não fazem a coisa por menos, alterações na Constituição. Do silêncio, quando é com os outros, à histeria, quando lhes bate à porta. Guilherme Silva falou até de "orquestração" para destruir o processo. Dói, não dói?
Caro Ivan: parece-me que isto da pirraça é um bocado como o vinho: há o bom e há a zurrapa. Com argumentos tão "emintentemente racionais" como um golo falhado em frente à baliza ou um cruzamento genial, o Benfica mereceu perder e o Sporting mereceu ganhar, apesar do árbitro vos ter começado por dar um empurrão. Por isso, se queres fazer boa pirraça, faz com o centro do Pedro Barbosa ou com o tosco do Sokota e não com o árbitro. Mas isto é um detalhe.
Já o que não é um detalhe é a bola. Tu citas-me Nélson Rodrigues, e eu gosto muito. Mas, vamos e venhamos, Nélson Rodrigues, sendo um grande escritor, é um esteta da bola. E na bola também há ética, não há só estética. Nesta ética, o amor à bola é essencial e o desprezo por estar a sempre a falar dos árbitros também (o meu post era sobre isso). O Pelé e o Garrincha jogavam por amor à bola, que é sempre um instrumento para outras coisas. Mas, de tanto nos satisfazer à conta de Pelés e Garrinchas, a bola-instrumento transforma-se na chincha que se acaricia. A chincha, ela própria, redondinha que nem uma chincha feita de "catchumbo", como se dizia na escola primária. Também foi a jogar à bola que eu e tu nos conhecemos, ainda antes de sermos amigos. Portanto, a bola é essencial.
Costa Freire está a ser julgado. Para depor em tribunal, como peritos, terão sido chamados vários arqueólogos.
A coisa que deve deixar um burocrata mais desamparado é quando uma lei chega e elimina todos os papéis e vistos que eram obrigatórios antes. É um milagre diabólico, uma alquimia: de repente, tudo aquilo que dava um carácter quase sagrado ao documento desaparece por completo. Esvai-se toda aquela argumentação redonda, limada dia após dia para convencer o cidadão impaciente do sentido fundamental daquele carimbo. Num dia não se podia viver sem ele. No seguinte não resta nada, nada a que o burocrata se possa agarrar. Então ele fica como o sujeito amoroso da canção de Chico Buarque e Vinícius: Sim, vai e diz/ Diz assim/ Que eu chorei/ Que eu morri/ De arrependimento/ Que o meu desalento/ Já não tem mais fim/ Vai e diz/ Diz assim/ Como sou infeliz/ no meu descaminho/ Diz que estou sozinho/ E sem saber de mim.
Isto do documento burocrático desaparecer por alquimia não acontece muito, mas às vezes acontece. Por exemplo, aconteceu agora com a autorização de residência (permis de séjour) em França, que deixou de ser obrigatória para os cidadãos da União Europeia. Infelizmente, a nova lei que liberta alguns de um documento que era um entrave à liberdade de circulação, agrava o policiamento (sem burocracias) de todos os outros estrangeiros, a grande maioria dos não comunitários. Assim reina o ministro Sarkozy à frente da administração interna: uma ligeirinha no cravo e outra bem pesada na ferradura. É por estas e por outras que ele é um homem perigoso.
Anda tudo muito maçado por se voltar a falar do aborto. O meu caro João Miguel Tavares, que muito aprecio e que até defendeu a legalização do aborto (fico contente), seguiu essa linha, pouco original, na sua última coluna: “Oh não, outra vez o aborto!”. É um tique dos tempos: tudo o que dure mais de um mês torna-se insuportável e já ninguém tem paciência. Pois eu acho muito bem que seja outra vez o aborto. Gosto do debate? Não. Mas sei que as coisas não mudam só porque o João Miguel escreve sobre elas. Há quem se dê ao trabalho de agir politicamente para que as coisas mudem. Uns melhor, outros pior. Nem todos como eu gostaria. Mas se o João Miguel quer que a lei mude, e dá bons argumentos para essa mudança, alguém tem de fazer por isso. Alguém que tenha paciência. Por mim, lido mal com este enfado sistemático, que faz escola.
A comunicação social já está a cumprir o pedido de Jorge Sampaio, divulgando pormenores sobre os órgãos genitais de arguidos e sobre uma suposta remoção de sinais. Muito bem. Estamos no bom caminho.
Continuamos à espera e nada. Depois do que disse o Presidente da República, Souto Moura ainda não se demitiu. Se tivesse vergonha na cara...
Sabem o que é ter coragem? Eu não, nunca a experimentei a sério. Sei que não é nem matar, nem morrer. Imagino que é, quando todos estão loucos à nossa volta, recusarmo-nos a matar e a morrer por uma loucura. É, entre outras coisas que agora me ocorrem, ser, com pouco mais de vinte anos, objector de consciência, por razões políticas bem claras, em Israel. É que resistir a quase todos é muito mais dificil do que sofrer. Exige uma convicção de ferro.
Parecia que era simples fazer rir com coisas simples. Mas, nunca mais ninguém o conseguiu como Jacques Tati. A ver, no Nimas: Playtime.
E, já que estamos numa de recomendar filmes: vejam também o Roger Dodger, uma espécie de Sexo na Cidade, mas de homens para homens. E, apesar disso, um pouco menos lúdico. A não ver, pelo primarismo de todas as caricaturas: as "Invasões Bárbaras".
Mas são tudo opiniões. Façam como eu, desconfiem das bolas pretas e ainda mais das cinco estrelinhas. Vão ver todos.
Pedindo emprestada uma definição inventada pelo meu grande amigo Rui, vou dizer que o meu grande amigo Ivan tem um certo mau ganhar. Ainda mais do que a própria vitória, ama a derrota do rival. O Sporting ontem ganhou com justiça, apesar de o primeiro penalti não existir, o que não é despiciendo aos sete minutos de um jogo. Mas quem só fala de árbitros é porque não tem outros argumentos. É cúmplice da sede de venda dos jornais desportivos e da chicanazinha semanal que dá cabo dos jogos ao fim de semana. E no futebol só conheço os seguintes argumentos, todos ele eminentemente racionais: para além de ter bons jogadores para atacar individualmente, ter uma equipa equilibrada nos vários lugares, com uma defesa que defenda a sério e um bom organizador de jogo; psicologicamente, manter a cabeça fria em momentos de pressão e ser disciplinado; entre outras coisas que ignoro ou não me vêm agora à cabeça. Mas o mais importante, em resultado da articulação dos bons argumentos parciais, é mesmo ter uma equipa. O que aflige no Benfica é chegar a Janeiro e parecer não ter uma equipa. Já o Sporting, podendo ter menos vedetas, tem uma equipa.
P.S.: os Tigers da LSU, da Universidade da Louisiana, situada em Bâton Rouge, ganharam o Sugar Bowl aos Sooners da Universidade de Oklahoma por 21-14. Os de amarelo e púrpura ganharam aos de vermelho escuro. Não vi o jogo e, se tivesse visto, não teria percebido nada. Gosto mais da cor da camisola dos Sooners, mas tenho uma especial inclinação por uma Tiger.
Engulo tudo o que escrevi. Percebi tudo o que Sampaio disse. Espero que todos tenham percebido. Claríssimo. Pôs na ordem quem tinha de pôr. Que o Procurador-Geral da República tome nota num caderninho de cabeceira. Nada a acrescentar.
No seu tempo de antena, Durão Barroso atacou os que fogem aos impostos. Acho mal. É assim que se trata um homem que deu tanto ao PSD e a Oeiras?
Portugal apareceu, num estudo americano, como o 6º melhor país (em 80) para as crianças. O primeiro é a Bélgica. Cheira-me que o estudo foi encomendado pela Diocese de Boston.
A 2, canal de televisão criado por Morais Sarmento depois de ameaçar extinguir qualquer segundo canal público, arranca hoje. Embora já se conheça a grelha tipo, parece-me cedo para ter opinião. A televisão vê-se primeiro, e discute-se depois. Pouco nos importa, por exemplo, que se anuncie que o canal vai ter um magazine cultural diário, ele pode ser muito interessante ou um sonífero. Entretanto, a grande expectativa vai para a retoma, já hoje, de um dos melhores produtos que o velhinho segundo canal oferecia, a magnífica série americana Six feet Under/ sete palmos de terra. Quanto ao resto, a ver vamos como diz o invisual subalimentado.
Quem viu ontem o telejornal da SIC, ficou a saber que Pacheco Pereira já acredita na teoria da cabala. Não é a mesma cabala, é aquela que lhe dá jeito. Afinal o problema de Pacheco com a teoria não era ela ser absurda, era ser politicamente inconveniente.
Cinco dias depois da mensagem de Ano Novo, Sampaio vai falar ao país, às oito horas. Duas dúvidas: vai falar da carta anónima? Nós vamos perceber o que ele vai dizer?
A retoma vem aí, diz Durão Barroso. Você vai senti-lo. Se não comer pão vai senti-lo. Se não acender a luz vai senti-lo. Se não beber água, se não tomar banho, se não andar de transportes, se não pagar a prestação da casa, vai senti-lo. Se não tiver custas judiciais, se não pagar seguro do carro, se não fumar, se não pagar portagens... Se não pensar nos aumentos, vai senti-lo. Se conseguir dar pelo aumento do seu salário, se não perder o emprego, se não ficar doente, vai senti-lo. Aprenda de uma vez por todas: a retoma é um estado de espírito. Está tudo na sua cabeça.
Adelino Granja faz parte da direcção da Refundação Comunista. O PCP está a atrasar-se. Quando é que Pedro Namora chega ao Comité Central?
Não sei o que é pior, se ouvir Pedro Namora na TVI, se ouvir a resposta de Adelino Granja na RTP.
Despedir jornalistas por serem dissonantes com o discurso nacional em relação à guerra do Iraque começa a ser um hábito. Nos EUA, foi Peter Arnett, em França, do lado oposto da barricada, foi Alain Hertoghe.
“Se tivéssemos recuado, nunca seríamos capazes de confrontar esta ameaça [a das armas de destruição massiva] noutros países onde ela existe". Tony Blair, em Bassorá.
O SIS está em risco de paralisar. Parece que, lá para a Rua Alexandre Herculano, acabaram as tesouras e a cola, para os recortes de imprensa.
A Nova Democracia criou um grupo de trabalho para tratar da política de imigração.
Não tenho SporTV. Não pude ver o jogo. Chegam-me comentários de benfiquistas indignados a dizer que foram roubados. Os sportiguistas dizem que não. Não sei, respondo. Não vi, garanto. Mas sei que ganhámos e que me estou nas tintas para a justiça. Vivó Sporting.
No próximo post prometo voltar à racionalidade.
Hoje é dia de jogo grande. Enquanto dezenas de milhares de adeptos se dirigem ao ultra-moderno estádio, milhões seguem na televisão. É isso mesmo: o pontapé de saída da final do campeonato universitário de futebol americano Sugar Bowl, opondo os Tigers da Louisiana State University aos Sooners da Oklahoma University, começa daqui a menos de três horas.
O processo da Casa Pia está agora a entrar na sua fase mais difícil. São de adivinhar os mais diversos "casos", manobras de diversão, de contra-informação e de intoxicação. Há muito que todos percebemos que se joga bem mais, neste caso, do que o julgamento do que aconteceu naquela instituição. Todos o lamentamos, mas o mal está há muito feito.
Desde o início, não faltou quem chamasse a atenção para o facto deste processo exigir mais rigor do que qualquer outro. A emocionalidade do caso era demasiado apetitosa para todos os que, mais insensíveis ao drama que ali se viveu, sentiam que podiam dele tirar proveito. O facto de dois dos investigados – agora arguidos - serem das mais mediáticas das figuras públicas portuguesas (Carlos Cruz e Herman José) garantia a curiosidade popular. E o envolvimento directo do porta-voz do maior partido da oposição e indirecto de várias figuras do mesmo partido tornava o julgamento explosivo, quer nas relações sempre duras entre os vários agentes políticos, quer na sempre tensa relação entre o poder judicial e o poder político. Em todos os processos que envolveram figuras políticas, desde que existe uma separação de poderes, assim aconteceu. Porque os políticos são poderosos? Nem tanto. Em Portugal os empresários são mais e não assistimos a este fenómeno. Acima de tudo, porque poder político e poder judicial disputam espaços comuns. Pensar que juízes, Ministério Público e Polícia Judiciária não se preocupam com a sua influência seria a maior das ingenuidades. Pensar que um partido que está no poder, sobretudo em tempo de crise, não se deleita com a degradação da imagem do maior partido da oposição, é apenas idiota.
Por outro lado, a crise económica e social cria uma crise de confiança e uma frustração dificil de gerir. Este caso resolve, sem danos para quem governa, a frustração que se sente hoje no cidadão comum.
Perante este cenário, várias medidas eram fundamentais, desde o início. Que o juiz de instrução e o procurador responsáveis pelo processo fossem profissionais muito experientes, respeitados, de enorme bom senso e que, em nenhum momento da investigação, deixassem espaço para contestação. Que o Procurador-Geral da República, o Conselho Superior da Magistratura e o director da Polícia Judiciária estivessem preparados para todo o tipo de aproveitamentos. Que a nova Provedora da Casa Pia nunca se envolvesse publicamente no assunto, concentrando-se na tentativa de regresso à normalidade na instituição. Que a comunicação social peneirasse bem toda a informação que lhe chegava, evitando transformar-se em correia de transmissão de agentes envolvidos.
Nada aconteceu desta forma. E o resultado está à vista. O processo foi sendo construído com os pés, cheio de falhas formais e factuais; a Casa Pia transformou-se num palco de vaidades e fonte de intrigas para os jornais; o PGR, quando falou, mais valia que estivesse calado; a comunicação social contribuiu mais para a confusão do que para o esclarecimento; e o Partido Socialista não conseguiu gerir o caso com a calma que ele exigia, mesmo que isso significasse engolir, por vezes, alguns sapos do tamanho de elefantes.
Olhando para o que se vai sabendo do processo, este caso tem já um fim provável: poucos dos arguidos serão condenados. E, igualmente mau, poucos deles serão inocentados. Ou seja, nem as crianças da Casa Pia verão a justiça ser feita, nem os inocentes verão o seu nome limpo. E o país ficará com um sabor amargo na boca. Pode ser que assim não seja, mas, com um processo com datas erradas, factos desmentiveis num dia, falhas processuais permanentes, é para aqui que tudo começa a apontar.
Os nomes de suspeitos que não são arguidos correm pelas redacções e pelos corredores do poder. A suspeita generalizada ajuda à completa dessensibilização do processo. Ou muito me engano, ou parte do que aconteceu nestes meses tinha este objectivo: transformar este processo num caos impossível de esclarecer.
Por tudo isto, contra as "marchas brancas" e frases do tipo "ouço falar muito dos arguidos mas parece que se esqueceram das vítimas", muitos foram dizendo que apenas um processo rigoroso e limpo poderia servir as vítimas. Os que o disseram, e, aqui, neste modesto canto o fomos escrevendo, foram muitas vezes apelidados, no melhor dos casos (porque não se trata de nenhum insulto), de "amigos do Pedroso", e, já no desvario completo, de cúmplices de pedófilos.
Mesmo assim, não se deve desistir. A confusão só serve aos criminosos. E serve, de caminho, a quem não tendo argumentos políticos aposta na auto-destruição do adversário; a quem queira, por meios menos claros, conquistar poderes que estão reservados a quem recebeu, pelo voto, a legitimação democráticas; e à imprensa tablóide que de tudo faz um espectáculo mórbido.
Este processo começou mal e pode acabar pior. Se assim for, no fim, a justiça ficará descredibilizada. A democracia perderá o pouco respeito que ainda merece dos cidadãos. Todos os populismos, mascarados de bons sentimentos, ficarão a ganhar. A frase de Manuel Monteiro, "no meu partido não há pedófilos", é só o anúncio do que nos pode esperar no fim desta embrulhada: o triunfo dos porcos.
Como o Luciano gosta de dizer, façam um favor a vocês mesmos e vejam o primeiro episódio da History of Britain, um documentário escrito e apresentado pelo historiador Simon Schama. Passa amanhã na BBC World às 12:10 e 20:10. Radicado há vários anos nos EUA (mais concretamente, na Universidade de Columbia), Schama é hoje uma das personalidades mais bem pagas da TV britânica - por apresentar programas de história, vejam lá! Eu não conheço a sua obra como historiador de Arte e dos Países-Baixos (ele é autor, entre outros, de Patriots and Liberators, uma história da revolta holandesa de 1787, e de Rembrandt’s Eyes, uma biografia do pintor preferido do Rui Tavares). Mas o livro que fez a sua fama internacional, Citizens. A Chronicle of the French Revolution (1989) é, a seguir a Tocqueville, a melhor coisa que alguma vez li sobre a Revolução Francesa. Como diz um amigo meu, é um daqueles livros cuja escalada exige algum esforço; mas quando alcançamos o topo a vista é simplesmente sublime. Muda por completo a nossa percepção das causas, da dinâmica e dos conceitos revolucionários. Depois de pousarem o livro, os eventos e os personagens mais emblemáticos da Revolução (Luís XVI, Maria Antonieta, Mirabeau, Laffayette, Talleyrand, Robespierre), garanto-vos, nunca mais voltarão a ser os mesmos. Há quem diga que ultimamente Schama se tornou uma caricatura de si próprio, com os seus maneirismos e modos pedantes. Pode ser que sim. Mas eu já pus o vídeo a gravar.
O Inimigo Público já o havia noticiado numa das suas tiradas mais hilariantes, mas é mesmo verdade: José Maria Martins, o advogado de Carlos Silvino, foi, segundo o próprio, convidado pela Liga Árabe a participar na defesa de Saddam Hussein. A partir de agora é preciso levar a sério este suplemento. O mundo está esquisito e a vida dos humoristas cada vez mais difícil.
Dentro de poucos dias conheceremos as conclusões do Inquérito Hutton no Reino Unido. Quem acompanhou pela imprensa os interrogatórios a que foram submetidos os responsáveis e jornalistas da BBC, os assessores de Downing Street e o próprio Tony Blair, não ficou certamente indiferente a esta prova de maturidade da democracia britânica. Ora, nos últimos meses o Tricycle Theater de Londres teve em cena uma peça chamada Justifying War. Scenes from the Hutton Inquiry, escrita pelo editor de questões de segurança do Guardian, Richard Norton-Taylor. Como o título indica, trata-se de uma dramatização ficcionada dos eventos relacionados com a morte do cientista David Kelly, o perito do Ministério da Defesa que se suicidou depois de ter sido revelado publicamente que era ele a principal fonte das reportagens da BBC sobre o exagero governamental da «ameaça» iraquiana. A nós fazia-nos falta algo de parecido, embora eu me inclinasse mais para outra temática. Que tal: A Cabala: Cenas do Processo da Casa Pia. Havia um problema, claro: uma vez que a revelação de novos nomes parece não ter fim à vista (a SIC acaba de anunciar que as cartas anónimas que denunciam Sampaio e Vitorino referem mais 12 personalidades ligadas ao PS e PSD), quando é que se fixavam as Dramatis Personae?
Depois do «implementar», das «sinergias», do «assertivo», da «janela de oportunidade», do «pró-activo», precisamos urgentemente de uma nova buzz-word para 2004. A pensar no ano político e judicial português, e também na mais que provável vitória de George Bush nas eleições de Novembro, sugiro a adopção do adjectivo «prepóstero», que o Oxford English Dictionary define como «contrário à natureza, razão ou senso comum; monstruoso, perverso; totalmente absurdo, ultrajante».
O procurador João Guerra juntou ao processo da Casa Pia uma carta anónima que envolvia o Presidente da República. A carta foi considerada irrelevante, mas o procurador achou que as acusações de um anónimo ao chefe de Estado deviam ser públicas. Para quem ainda tinha dúvidas e "total confiança na justiça", o ano começa com uma revelação: o caso Casa Pia foi entregue a um doido varrido. Há quem defenda um processo disciplinar. Acho arriscado. Estou convencido que João Guerra vai declarar-se inimputável. E com toda a razão.
Ontem, em centenas de milhares de lares portugueses, milhões de pessoas juntaram-se em pequenos ou grandes grupos. Esperaram pela meia-noite, beberam, gritaram, dançaram juntas. À mesma hora, no mesmo minuto, no mesmo segundo, quando o novo ano chegou, abraçaram-se e comeram 12 passas. Tudo isto tinha um objectivo: tentar que 2004 fosse melhor que 2003. Hoje, fui a correr às bancas de jornais. Tenho uma péssima notícia: não resultou. Durão Barroso continua a ser o nosso primeiro-ministro.