Existe uma rua no Porto que muitos continuam a chamar de Santo António. Já o foi, já deixou de o ser, já voltou a sê-lo, nunca mais o foi. Mudou pela primeira vez de nome em 1910 e recuperou a toponímia religiosa em 1940. Por fim, abandonou-a algures após o 25 de Abril. Hoje chama-se Rua 31 de Janeiro, tal como a baptizaram na I República. Mas há quem ainda insista no nome do santo, por amor ao próprio, por hábito herdado da ditadura ou por amor à monarquia.
No dia 31 de Janeiro de 1891, pelas duas horas da madrugada, vários regimentos de cavalaria, infantaria, caçadores e guarda fiscal convergiram no Campo de Santo Ovídio. Ao mesmo tempo, no quartel de infantaria 18, na actual Praça da República, duas companhias arrombaram as portas do aquartelamento e juntaram-se aos revoltosos. “Nisto aparece a música do 10 de infantaria, que forma à frente das tropas executando A Portuguesa. As cornetas tocaram, e as forças puseram-se em marcha, enquanto alguns populares a saudavam e os sinos da Lapa tocavam a rebate” (Ilustração Portuguesa, 1891).
Faz hoje precisamente 114 anos que Portugal fez a primeira tentativa para se livrar de vez da monarquia. É, e deverá ser para sempre, um dia de regozijo.
O golpe, como se sabe, correu mal. Vinte dias depois do programa do Partido Republicano ter sido aprovado, tropas e povo eram escorraçados num banho de sangue Rua de Santo António abaixo pela guarda municipal instalada nas escadarias dos balaústres da igreja de Santo Ildefonso. A República tinha durado uma manhã, proclamada por Alves da Veiga na varanda da Câmara. Porque falhou? Porque, opina José Augusto Seabra, os revolucionários, “apesar da coragem dos oficiais, dos sargentos e dos soldados, ladeados pelo povo anónimo e conduzidos por chefes como o alferes Malheiro, o capitão Leitão ou o tenente Coelho”, iam “às ordens dos chefes civis empolgados mas pouco preparados para o combate às armas”. Ou porque, diz Maria de Fátima Bonifácio, “os maiorais do partido [Republicano] abandonaram à sua má sorte” os sargentos da guarnição do Porto que fizeram a revolta.
O 31 de Janeiro é, antes de mais, o movimento de pensadores como Sampaio Bruno, Basílio Teles e João Chagas, homens que estão nos fundamentos democráticos e socialistas que sempre tiveram abrigo na cidade do Porto e na base de uma das mais esquecidas e vibrantes aventuras intelectuais da segunda década do século XX, a Renascença Portuguesa.
E tudo isto é ainda mais, diz-nos o recentemente desaparecido José Augusto Seabra: “Em todo o caso, como escreveu João Chagas, o 31 de Janeiro foi ‘o mais luminoso e viril movimento de emancipação que ainda sacudiu Portugal no último século’. E por isso mesmo Basílio Teles aduziu, em defesa dos republicanos do Porto, que ‘os erros que cometeram, prejudicando, talvez, a obra concebida por inteligências mais lúcidas e ânimos mais decididos, a posterioridade lhos perdoaria em atenção ao que sofreram, enquanto a monarquia roubava’. É que, com o seu sacrifício, os heróis do 31 de Janeiro fecundaram o húmus de onde iriam brotar as sementes vivas que no 5 de Outubro de 1910 haveriam de germinar na República democrática enfim vitoriosa” (artigo completo, incitando a Porto 2001 Capital Europeia da Cultura a celebrar o 31J, aqui.)
E quem tem tudo isto a ver connosco? Pergunto num sentido lato, bem para além das esquerdas e libertarismos que convergem no Barnabé, nestes tempos em que somos insistente e exageradamente apelidados de “o blogue do Bloco” (epíteto que gostaria que as pessoas fossem deixando de lado, porque só quem não lê com atenção as opiniões dos aqui oito escreventes é que não percebe as profundas diferenças de opinião que nos unem – sim, diferenças que nos unem). Perguntava: que tem o 31 de Janeiro a ver com todos nós?
Quero com esta pergunta chegar a isto: à ignorância, ou silêncio, a que a direita vota a história do liberalismo e do republicanismo português. Continuo a não perceber porque é que, num campo exclusivo de evocações de valores, e não de análises históricas, a direita não se reclama também herdeira das lutas que libertaram o país do absolutismo e da monarquia (a ditadura salazarista é outra conversa, claro). Falo, é óbvio, da direita com quem se pode ainda dialogar, uma direita ilustrada. Só vejo um motivo para este branqueamento: o medo de associação aos extremismos – e isso é absurdo. Mas, acima de tudo, ignorância. Qualquer manual de história moderna ensina-nos que também no liberalismo e na I República houve direita democrática – portanto, há um património que a direita de hoje pode reclamar com todo o à vontade. No entanto, nada disso acontece, e com isso, queira a direita ou não, para o melhor e para o pior, nesta discussão é a “esquerda histórica” que fica sempre com saldo positivo na história do progresso em Portugal.
Que tem então o 31 de Janeiro a ver com todos nós? Que devia ser uma data comemorada por todos. Em relação a isto sou totalmente patriótico. As consequências históricas do acontecido nesta data transformaram aquele dia no Porto numa referência total.
Em 10 de Abril de 1848, tão só 14 anos depois do liberalismo ter triunfado na Guerra Civil, o republicano Casal Ribeiro publicava o panfleto anónimo É tarde e terminava este texto, no mínimo embaraçoso para D. Maria II, anunciando o inevitável final da monarquia: “Se alguém duvidar, dir-lhe-emos – esperem e verão!”. E todos viram, em 1910, o resultado da obra de anos a fio, de uma forma ou de outra, de um conjunto enorme de lutadores anónimos ou conhecidos, civis ou militares, maçons, carbonários, saint-simonianos, proudhonianos, positivistas, socialistas, comunistas, anarquistas ou simples democratas à procura de um país mais humano.
No topo deste post está a fotografia dos combatentes civis do 31 de Janeiro, condenados ou absolvidos. Entre eles, João Chagas (terceiro da fila da frente a contar da esquerda), o abade Pais Pinto (quinto da terceira fila), Aurélio da Paz dos Reis (sétimo da segunda fila), Homem Cristo (na última fila, de chapéu) (foto retirada do catálogo Manual do Cidadão Aurélio da Paz dos Reis, Centro Português de Fotografia, 1998). Que gente civilizada! Presos, mas a ler o jornal! E de tranquilíssimas e convictas faces. Como se nos dissessem: “Esperem e verão!”.
Por acaso costumo vê-los quando vou à minha cidade, ali pelos lados da Baixa, subindo ou descendo a Rua 31 de Janeiro.
Ainda a propósito da entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã (ver posta seguinte), aproveito para lamentar o facto de nenhum dos dois saber quem foi o Almirante Cândido dos Reis, o chefe da revolta republicana de 1910 que se suicidou na madrugada do dia 4 de Outubro por lhe terem transmitido informações que asseguravam a derrota do movimento. A educação anda de mal a pior e para cima dos 40 anos já ninguém sabe nada.
Meditemos, jovens, sobre o Almirante Reis. Ele ensina-nos duas coisas preciosas, a saber, que para se ter uma vida longa é necessário 1) dispôr da informação correcta e 2) não ser pessimista.
Para os agarrados do telelixo, o escândalo supremo do ano televisivo deu-se logo aos primeiros minutos quando Alexandre Frota pespegou um beijo na boca a José Castelo-Branco. Para os agarradinhos da política o momento equivalente deveria ser a entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã na última Sábado.
Muitas vocações desviou a arrogância – a verdadeira – dos monopolistas da realidade que estiveram no governo, daqueles que passaram três anos a dizer que não poderia ser de outra forma, que o país não chegava lá a não ser por aquela mistura tão peculiar de tacanhez, incompetência e autismo. Já tivemos Cavaco, Marcelo e Pacheco contra Santana e agora Freitas com Sócrates. Mas em nenhum caso a mudança foi tão coquette como com MEC.
Ameaçou aqui:
MEC: Até agora, só disseste coisas de senso comum, como diria um social-democrata dos mais antigos. FL: Fico muito contente [...] MEC:É que são mesmo... FL:Ainda bem que pensas assim. MEC:Oha, pela parte que me toca, também fico contente.
É impossível ler estas frases sem largar um cínico "vá lá! dêem lá um beijinho...". Mas como Louçã é do tipo arredio, MEC teve que concretizar mais à frente, na crónica que escreveu para acompanhar a entrevista. O chocho vem logo no título provocador por excelência: chamar "O Senhor Senso-Comum" àquele que tem sido o maior ódio daqueles que julgam ser herdeiros desse conceito (que proclamam aos sete ventos ser apenas e só britânico como o chá das cinco – inventado por Dona Catarina de Bragança) há de ter deixado despenteadas algumas consciências aprumadinhas (a começar pelo próprio Bloco de Esquerda). E prossegue:
«É esse atraso – e o facto de o Bloco de Esquerda estar empenhado, nas actuais circunstâncias, em partir pedra multissecular para alcançar os mínimos modernos dessa dignidade – que me leva a recomendar que qualquer pessoa de direita que esteja momentaneamente desencantada com os partidos que procuram representá-la não hesite em votar no Bloco, se a alternativa for abster-se ou votar em branco. Por agora – mas só por agora...! – faz todo o sentido.»
Repare-se. Não foi um beijo apaixonado nem um linguado de quem já perdeu a cabeça e agora que se lixe. Foi um chocho de quem sabia muito bem o que estava a fazer e a quem ia chocar no meio do bailarico. Porque esta entrevista foi um bailarico, como diz o próprio MEC, lamentando-se por Louçã não saber dançar um "fox-trot conservador" e terem tido de se encontrar num "consensual cha-cha-cha". E foi um bailarico porque nos bailaricos há sempre aquelas velhotas sentadas num banco corrido que tapam a boca com a mão e lançam "aahhs" e "oohhs" prolongados de cada vez que os jovens ameaçam namoriscar. E também não faltaram aqui, sob a forma da própria direcção da Sábado que resolveu escrever um editorial intitulado "Pense bem antes de votar no Bloco", avisando os seus ingénuos leitores de que o Bloco é um partido "revolucionário a sério" (e se calhar até eles acham que são...) e só faltando insinuar que se procurarmos bem ainda havemos de achar na sede dos bloquistas as ementas dos famosos pequenos-almoços com criancinhas.
Os meios podem ser outros, mas a mentalidade de aldeia sobrevive.
[Pedro Sales]
Santana está de novo com gripe e parou a campanha. Talvez o PSD recupere qualquer coisa.
Diz-se que votaram 60% dos iraquianos. Estou confuso. Há 27 milhões de iraquianos, o que deverá corresponder a 20 milhões de adultos. Votaram oito milhões. Ou seja, os 60% ou 70% que votaram só podem, mais coisa menos coisa, corresponder apenas ao universo de 14,5 milhões que estavam registados. Como é normal, quem não tencionava votar nem sequer se registou. Ou seja, terão votado pouco mais de 40% dos iraquianos que teriam, numa situação normal, direito a voto.
Isto tudo, esquecendo o facto de, e esse é que foi várias vezes referido como um problema central para o futuro do Iraque, a esmagadora maioria dos sunitas ter ficado de fora do acto eleitoral e da representação política. E esquecendo o facto de não haver praticamente jornalistas nas zonas sunitas. E de não haver observadores internacionais no Iraque. Estão a observar de longe, na Jordânia. As eleições foram acompanhadas por iraquianos treinados por eles, mas sem nenhumas garantias de independência. Dantes, em qualquer outro país, ninguém daria um chavo por estes números. Mas, no Iraque, o que interessa é cantar vitória.
Depois do "choque tecnológico" de Sócrates e do "choque de gestão" de Santana, Portas vem dizer que aquilo de que Portugal precisa é de um "choque de valores".
Depois de uma pausa para o fim-de-semana, o nosso passatempo São Bordalo regressa para excitar a emulação entre os nossos leitores. A jornada de sexta-feira foi difícil, pois tanto ao croupier como aos jogadores faltava frescura anímica. Ainda assim, quatro prestações ficaram na retina do júri, que numa competição renhidíssima decidiu por voto de qualidade atribuir o prémio ao Tulius Detritus d'A Memória Inventada. Não é preciso blogue para concorrer, minha gente! Habilitem-se a ganhar um livro do Barnabé autografado pelos autores (não, não vem embrulhado em folha d'ouro).
Estamos no segundo semestre de 1886. Fontes Pereira de Melo já não era primeiro-ministro desde o início do ano. São Bordalo fechara O António Maria e fundara o Pontos nos ii. Havia um novo governo, agora progressista e chefiado por José Luciano de Castro (que talvez seja a figura da direita), mas formado por sugestão do próprio Fontes, apesar de o seu Partido Regenerador ter maioria no parlamento. Estranho? É bem verdade. Mas poucos meses passaram antes que Fontes ressuscitasse para a política activa, embora jurasse que não, começando a escrever nos jornais cartas sibilinas, para escândalo do progressista Mariano de Carvalho que vemos ali atrás...
Esta é apenas uma explicação. A outra é que o enviado especial de Pontos nos ii ao início do século XXI tenha testemunhado algo que traduziu para os seus leitores de oitocentos em termos que eles pudessem compreender. Que viu ele?
Têm até à meia-noite para nos dizer.
“E é ver o Paulo Portas, já com um olho no burro e outro no cigano”. Ainda antes de ter terminado a frase, julgo que Jerónimo de Sousa se deu conta de que tinha acabado de cometer uma terrível gaffe (a voz tremeu-lhe ligeiramente no fim). Se fosse um político de direita a proferi-la, quase que aposto que hoje teríamos o SOS Racismo a pedir-lhe contas. Como é o Jerónimo, é possível que façam vista grossa (e daí não sei, o SOS Racismo é uma daquelas organizações de “frente” do Bloco, e nesta altura todos os votos contam).
Espero que sim. Sei que a minoria cigana no nosso país é uma minoria pouco estimada e que tem de enfrentar toda a espécie de preconceitos e perseguições. Mas a expressão “ter um olho no burro e outro no cigano” é tão castiça e eu já não a ouvia há tanto tempo que me sinto tentado a desculpar o Jerónimo, que também é um dos líderes mais castiços que temos por cá. E, afinal de contas, vamos lá saber, quantas vezes é que não gritaram “Cigaaannoo!” na última vez que foram à bola?
O défice financeiro em relação a Bruxelas não me preocupa. Com mais ou menos rigor, esticando de um lado ou de outro, resolve-se. E também, se não se resolver... Agora o défice pimba em relação a Bruxelas, o défice da política tablóide, esse, não sei como é que um governo de esquerda, seja ele qual for e tenha ele os apoios que tiver, vai poder resolver. Como é que se chegou até aqui? Não vai haver tempo para perceber, mas vamos ouvir muitas vezes que a culpa é do povo. Claro, está à vista que a culpa é do povo.
É sempre com imenso gosto que apresento o blogue de um amigo aqui no Barnabé. Desta vez trata-se d’O Sinédrio, blogue unipessoal de Gonçalo Curado. Bem-vindo, Gonçalo, e longa vida ao teu blogue!
Confesso que me surpreende a sanha com que ontem, no programa “Eixo do Mal”, Pedro Mexia se referiu a Freitas do Amaral. Quer dizer, eu percebo que os intervenientes do programa tenham todos de ter o seu momento mais contundente, mas às vezes convém calibrar bem as críticas. Se o Pedro desancasse Freitas do Amaral pelas suas simplórias peças de teatro, ou pela sua medíocre biografia de Dom Afonso Henriques, por exemplo, eu até percebia. Mas criticar Freitas por ser um reles vira-casacas, isso é que já me parece mais questionável. Se nós tivermos em mente o que era a Democracia Cristã na Europa das décadas de 60 a 80, por exemplo, eu diria que Freitas se tem mantido razoavelmente coerente em relação a essa matriz ideológica (não obstante a sua participação em comícios anti-guerra do Iraque em 2003, ao lado de Soares, Pintassilgo, Ferro Rodrigues e Louçã).
Finalmente, a relação de Freitas com o Estado Novo. Pedro Mexia sugeriu ontem que no seu livro de memórias (O Antigo Regime e a Revolução, 1995) Freitas se referia fugazmente ao marcelismo, por exemplo (confesso que àquela hora – 00:45 - eu já estava a cabecear, por isso corrijam-me se eu tiver percebido mal).
Ora, eu vou refrescar a memória do Pedro. A governação de Marcelo Caetano (1968-74), e o relacionamento pessoal e político de Freitas com o seu antigo mestre e colega de faculdade, estão amplamente documentadas no livro. Têm direito a um capítulo de 63 páginas, as quais incluem vários relatos de conversas de Freitas com Marcelo Caetano (se fielmente reproduzidos ou não, isso já é outra história). Freitas, aliás, nunca negou a admiração que sempre nutriu pelo sucessor de Salazar, em especial no plano intelectual e académico. Julgo até que foi um dos proponentes da sua reintegração, a título póstumo, na Faculdade de Direito de Lisboa, não há muitos anos atrás.
As mães de Bragança [Foto Lusa/Estela SIlva]
As galinhas têm dentes. Os porcos voam. Santana Lopes defende a família tradicional.
Meu caro Luciano, enganas-te. O que se está a passar hoje no Iraque não é a democracia em acção. É uma eleição. São coisas diferentes.
Subitamente, o tema dos “valores” irrompeu na campanha. Entramos, pois, em terreno minado. Santana desafia Sócrates a tomar posição sobre os casamentos homossexuais e Luís Filipe Meneses alerta os portugueses para o risco da “primeira medida” de um Governo PS ser a legitimação da adopção de crianças por homossexuais. Por seu turno, Louçã responde dizendo que essa é uma questão que deve ser deixada aos tribunais, pois há precedentes de juízes portugueses terem entregue a tutela paternal de uma criança a um pai (homossexual), em detrimento da mãe (que não reunia as condições, possivelmente emocionais ou outras, para assumir a guarda da criança). Ou seja, aparentemente, o Bloco de Esquerda (à semelhança do que sucede com o PS) também não se propõe legislar já no próximo parlamento sobre a possibilidade de casais homossexuais virem a adoptar crianças (uma coisa bastante diferente da tutela paternal).
E a meu ver bem. Sou completamente favorável à possibilidade dos gays se casarem pelo registo civil e desfrutarem todos os direitos e regalias de um casal hetero. Já a questão da adopção de crianças me parece bem mais problemática. Exige um amplo debate nacional e, sobretudo, que se evitem os voluntarismos “fracturantes” da nossa esquerda jacobina, apenas susceptíveis de galvanizarem as forças mais conservadoras da sociedade portuguesa.
“Este homem é conhecido pela sua natureza sedutora”.
Augusta Ferreira, doméstica, no almoço das mil mulheres com Santana, 29 de Janeiro“Ele ainda é do tempo em que os homens escolhiam as mulheres para suas companheiras”.
Manuela Cardoso, funcionária pública, idem
“Bem-hajam os homens que amam as mulheres”.
Idem, ibidem
“O outro candidato [José Sócrates] tem outros colos. Estes colos sabem bem”.
Pedro Santana Lopes, idem
Fonte: texto de Alexandre Praça no Público de hoje.
“Este homem já sabem quem é”, de Ana Sá Lopes.
Todos temos as nossas irritações. Mas quando se escreve não basta saber que se está irritado, é preciso saber como se está irritado.
Não é assim com Helena Matos. Helena Matos escreve com a espinal medula. Os seus leitores de direita não dão por isso e até os há que a admiram. É porque reconhecem nela aquilo que sentem, e esse reconhecimento, como uma música que regressa ao seu tom, produz uma satisfação que apazigua neles as imperfeições e as contradições do que leram. Já para mim, o discordar de Helena Matos até é o menos – o problema está em segui-la. Eu bem vejo que ela está zangada; ela lá saberá porquê, mas não me sabe explicar-se. Falta-lhe o como, o distanciamento em relação aos seus próprios sentimentos (de raiva contra a esquerda, de medo em relação ao futuro, etc.), a frieza que lhe permita descrevê-los com um mínimo de exactidão. Há cronistas de direita com quem discordo mais ainda mas cuja argumentação acompanho quase sem dar por isso. Os textos de Helena Matos são viagens num carro sem suspensão por uma estrada esburacada; como é natural, a condutora vai o tempo todo aos berros.
Esta semana escreve sobre Espanha e, como de costume, só ela viu, só ela se escandaliza, só ela se preocupa. Só ela viu que Carod-Rovira, líder dos independentistas da Esquerda Republicana Catalã – no governo da Generalitat –, veio a Lisboa dar uma conferência. Só ela se escandaliza por ele não "discursar num encontro obscuro ou na sede dum movimento extremista", mas na Fundação Mário Soares. Só ela se preocupa por causa da nossa "inconsciência assombrosa" ou da nossa "assombrosa capacidade" de "nos distrair do essencial e perdermo-nos com o acessório".
O artigo chama-se "A Natureza do Mal" e nele tudo é assombroso. Assombroso que Carod-Rovira tenha falado de Portugal como uma "região da Ibéria". Assombroso que ele tenha dito que, com a independência da Catalunha e de outras nações espanholas, a Península passe a ser uma realidade política multipolar. Assombrosa a nossa passividade perante estas declarações: "Em Portugal, nós já escutámos Rovira dizer-nos qual é o nosso futuro estatuto. Esperemos que não seja demasiado tarde quando tivermos percebido o que ele, de facto, disse. Não sobre a Espanha. Mas sobre Portugal."
Vamos então por partes. Desde logo, se entendermos "Ibéria" por "Península Ibérica" é óbvio que Portugal é uma região da Ibéria (como é uma região da Europa) e não precisamos que venha cá nenhum catalão dizer-nos isso. Escandaloso seria que Carod-Rovira nos dissesse que não somos uma região da Ibéria, ou então que nos dissesse que somos uma região de Espanha (embora isso só se tenha tornado escandaloso a partir de finais do século XVII). Se Helena Matos fosse norueguesa imagino que estivesse agora com os nervos em franja por descobrir-se escandinava.
Em segundo lugar, seria certamente uma mudança chocante se a Espanha se separasse, e Portugal seria provavelmente o estado estrangeiro a ter de se preocupar mais com essa mudança, caso ocorresse. Mas que propõe Helena Matos que façamos nós? Que os obriguemos a ficarem juntos? Que tratemos os independentistas catalães como párias? Nós somos só os vizinhos do lado; se a família se decidir divorciar de pouco nos serve arrancarmo-nos os cabelos ou deixar de falar a um dos cônjuges.
Não deixa de ser um tema crucial para se pensar. Mas isso mesmo – para se pensar. Não para gritar fogo nem para abanar os outros pelos ombros nem para chamá-los de irresponsáveis. A nossa capacidade de intervenção aqui é limitada por natureza e ainda auto-limitada por opção. E uma pessoa que escreve num jornal não deve apenas irritar-se; já que nos vai fazer gastar o nosso tempo, deve também saber para quê está irritada.
Christian Parenti é jornalista, um dos poucos que estando no Iraque tratou de fazer reportagem tanto do lado das tropas americanas como da resistência iraquiana. Numa entrevista recente à MotherJones descreve o que era a normalidade do quotidiano de Abu Ghraib. Os dois parágrafos que transcrevo são contundentes em relação à inexistência de uma estratégia para o período de ocupação e descrevem o ambiente de terror que se vivia dentro da prisão.
This is just pathetic and ridiculous. It represents a blatant admission of defeat -- they have no idea how to fight the resistance, so they are just going to round up Iraqis and throw them into Abu Ghraib. That’s not a strategy and this soldier, who is completely pro-war, was extremely worried about that. Imagine if you were pro-war and wanted to invade Iraq, which is what this soldier believed, the way they are doing it is just insane. You grab a bunch of civilians and then throw them into prison camps where there are actually people active in the resistance. You basically allow people who are pissed off to associate with those active in the war and the prison becomes this massive recruiting center."
Quanto à liberdade, Akeel, iraquiano de 26 anos, residente em Baghdad, disse isto quando interrogado sobre a nova vida no novo Iraque livre: "Ah, the freedom. Look, we have the gas-line freedom, the looting freedom, the killing freedom, the rape freedom, the hash-smoking freedom. I don't know what to do with all this freedom."
So how does it feel?
A vaga de frio nacional, como sabemos, foi peculiar: chegou um pouco atrasada em relação ao resto da Europa e constituiu-se em torno de algumas manifestações esporádicas.
Ou seja: pode ter surpreendido o metereologista, mas não surpreendeu o historiador da arte.

Paulo Portas declarou que o objectivo do CDS/PP para as eleições é ficar à frente do PCP e do BE. Deve achar que somos todos desmemoriados. O objectivo declarado do CDS/PP, até hoje, era ter mais votos do que o PCP e o BE juntos, o que é completamente diferente. Se reduziu as expectativas, que o diga claramente. Agora não pode é andar a redefinir na calada o que seria uma derrota para si de forma a disponibilizar-se permanentemente para o poleiro. Já estou a vê-lo, na noite das eleições, declarar vitória porque teve mais votos do que aquilo que eu lhe desejo...
Via A Lâmpada Mágica, consulto os documentos mais idiotas deste país: as listas de nomes admitidos e não admitidos no registo civil. Fique então o leitor a saber que, se gerar vida e lhe quiser dar um nome, o nosso prestimoso estado ordena o seguinte:
Pode chamar-lhe Ingeburga, mas não pode chamar-lhe Ingrid.
Pode chamar-lhe Habacuc, mas não pode chamar-lhe Adorinda.
Pode chamar-lhe Xenócrates, mas não pode chamar-lhe Orfeu.
Eu compreendo a boa intenção de não querer que os pais lixem a vida aos filhos com um nome ridículo (por estranho que pareça alguém quis dar o nome "Lúpus" a um recém-nascido, em 2001), embora fosse mais simples permitir que as pessoas mudassem o nome a partir de certa idade. Mas é uma boa intenção vazia, porque qualquer pai que queira mesmo lixar a vida aos seus filhos pode ir à lista dos nomes admitidos e escolher sem problemas Messias, Maria Ranú, Singeverga, Micaek de Jesus, Maria da Agonia, Anália ou, por exemplo, Cristiano Ronaldo.
Pensando bem, este talvez não.

Outdoor de Santana Lopes

A identificação com Henry James é democrática. Mas faltou acrescentar que hoje se escrevem posts em vez de romances. Não é que não gostasse, mas isso é que já não é para todos.
Ao sábado, combinava-se ir a um teatro ao West End. Antes disso, dava-se uma volta pelo Hyde Park, passava-se pelo clube de gentlemen e despachavam-se umas cartas. Agora combina-se um cineminha em Montparnasse, e antes disso mata-se o tempo no café do bairro e a escrever uns emails aos amigos. É bom à mesma e dá para todos. Afinal sempre há Progresso, é preciso é procurá-lo.
«Expresso - A actual Coreia do Norte não é um embaraço para o PCP?
Jerónimo de Sousa - Há muitas diferenças e divergências, o nosso rumo será diferente. Mas num momento em que, à escala planetária, o capitalismo tenta impor o seu poder absoluto, quem resiste a essa ordem única merece atenção e acompanhamento. Valorizamos esse facto, sem silenciar as diferenças.»
Mas haverá embaraços para um estalinista?
António Vitorino admite vir um dia a candidatar-se à liderança do PS
Dois importantes contributos para elevar a fasquia da nossa exigência em relação a um futuro governo do PS. O primeiro de André Freire, o segundo de Teresa de Sousa.
Para aqueles que ainda estão a tentar recuperar-se da vitória do George W.Bush, uma notícia interessante (sem link disponível, de dia 12 de Janeiro e do Financial Times, e que só ontem é que descobri..sorry guys pelo atraso...): um grupo de multimilionários liderados por George Soros (Grande!, como diria o meu amigo italiano) reuniu-se, em porta fechada, em São Francisco (só podia ser aqui!) e decidiu doar milhões de dólares (não se sabe o valor certo, mas fala-se em 100 milhões para os próximos 15 anos!) a organizações/instituições que promovam ideias progressistas nos E.U.A., num esforço para contrabalançar os “emergentes” conservadores dos últimos anos activos principalmente através de think tanks como o Heritage Foundation. O Center for American Progress e o Open Society Institute serão provavelmente os responsáveis pela gestão dos donativos. Afinal nem tudo está perdido!!!God Bless America!
Alguns dados sobre a Fauna Humana em Davos...
66 por cento são homens
41 por cento estão nos seus 50s
70 por cento vêm da América do Norte e Europa
Só 15 por cento dos delegados vêm da Ásia, onde habita mais de metade da população mundial e onde estão actualmente as economias mais dinâmicas do mundo....(segundo uma sondagem electrónica citada pelo Financial Times, 27.01.2005)
Vocês façam a vossa interpretação dos dados....e comparem com a fauna humana em Porto Alegre....
Pergunto eu: A diversidade é importante?
P.S: Dois blogs que valem a pena do pessoal do Open Democracy: http://opendemocracy.typepad.com/wsf/ e http://opendemocracy.typepad.com/davos/
«PSD desafia Sócrates a revelar rendimentos».
Sabem, no fundo acho que adoro este gajo.
Nuno Melo [CDS-PP], agora na RTP-N: "Bem, antes de fugir a essa questão, eu quero – antes de responder, antes de responder..."
Quase não pude acompanhar as celebrações dos 60 anos da libertação do campo Auschwitz-Birkenau. Mas queria partilhar convosco esta entrevista com a historiadora Annette Wieviorka, no Libération de ontem. Trata-se de alguém que tem trabalhado sobre a questão da memória na história ocidental recente, uma questão que se tornou particularmente visível de há uns anos para cá. Wieviorka procura ganhar distância perante a força emocional das imagens do Holocausto. Isto nada tem a ver com negar a importância única do acontecimento, como é evidente. É o contrário: é preciso continuar a compreendê-lo racionalmente, isto apesar do peso esmagador da memória, marcada pelo testemunho das vítimas e pelo efeito de presença dos lugares. Wieviorka critica por exemplo a forma como em França se organizam excursões de escolas secundárias a Auschwitz sem se preparar as crianças para o que vão ver (que, na realidade, parece ser muito pouco chocante se não houver previamente uma forte sensibilização histórica). Nesta outra entrevista a autora desenvolve mais as suas ideias.
Relativamente a este caso que o Pedro aqui refere abaixo, podia-se acrescentar que psicanalítico não é Freitas, mas a relação que o PP tem com Freitas.
A mim o que me faz confusão (mas guardo-a para mim logo depois deste desabafo, estejam descansados) é que Maria José Nogueira Pinto ainda não tenha percebido que todas as pessoas, quer queiram quer não, são casos psicanalíticos.
A sanha com que a direita reagiu ao artigo de Freitas é digna de se ver. Passando por cima dos insultos que o lumpen do PP imediatamente lhe dirigiu, custou-me ver uma pessoa inteligente como Maria José Nogueira Pinto juntar-se à vozearia. Ontem à noite, no debate com Luís Fazenda na SIC-Notícias, MJNP referiu-se às recentes tomadas de posição de Freitas como um caso psicanalítico. Não tarda nada, alguém há de pedir o internamento do senhor. A liberdade de pensamento é realmente uma coisa esquisita neste país.
Freitas do Amaral deu-me duas alegrias na vida. A primeira, faz este mês quase vinte anos, foi quando perdeu as eleições presidenciais para Mário Soares. A cara de enterro dos betinhos do Pedro Nunes, encafuados nos seus lodens verdes e "palhinhas", é uma daquelas imagens sublimes que me tem acompanhado pela vida fora. A segunda foi ontem, com o seu artigo na Visão apelando ao voto no PS. Bem-Haja, professor Freitas, bem-haja.
Paulo Portas: «Não sei se é o mesmo professor Freitas do Amaral que eu conheci».
Freitas do Amaral anuncia que vai votar no PS. E eu que já estava a contar com o voto dele.
PS 46% - PSD 28% - PCP 8% - BE 8% - PP 6%
Sondagem da Universidade Católica

Guterres apoia Sócrates. Tão simples facto, noutros tempos, seria mesmo só isso: um facto simples. Mas a tradição já não é o que era. Vejam-se os casos do PPD/PSD e do CDS/PP. Cavaco, preocupado com a sua carreira académica, quer distância daquilo em que Santana transformou o partido que outrora liderou. Freitas, independente, há muito que vê a reencarnação do seu partido afastar-se velozmente de si e declara-se agora apoiante do PS. É lógico que o faça. Que mais não fosse, tem uma carreira académica a defender. Mas a verdade é bem outra, a verdade é que no próximo dia 20, tanto o PPD/PSD como o CDS/PP que se apresentam a votos são apenas degenerescências daquilo que outrora foram. É só isso o que Cavaco e Freitas nos querem dizer. Ainda por cima, no caso de Cavaco, com graça.

Raphael Bordallo Pinheiro, O cache-nez barometro, in O Antonio Maria, 3 de Fevereiro de 1881. Clique para aumentar.
Differentes aspectos do instrumento. / Vento ou Chuva. / Variavel. / Bom tempo./ Bom tempo fixo. / Indicação no momento presente: Tempestade.
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A jornada de ontem do nosso passatempo foi até agora a mais participada. A nossa escolha foi difícil, mas o vencedor foi o Jorge Candeias, do excelente blogue de bibliofilia e ficção científica A Lâmpada Mágica. À terceira tentativa foi de vez, e o Jorge Candeias derrotou ontem o até agora invicto Pedro Vieira. Mas há vários novos concorrentes a espreitar o prémio principal – um livro do Barnabé autografado por nós. Vejam a jornada de ontem e a resposta vencedora aqui.
Muito bem, vejamos como é que se safam desta, escolhida de propósito para ilustrar a nossa vaga de frio – que afinal não foi um flop. "O cache-nez barómetro" representa o Duque de Ávila – açoriano do Faial que acompanhou as primeiras décadas do liberalismo e que era, à época desta caricatura, fiel da balança entre Regeneradores e Progressistas. Morreria três meses depois da publicação deste desenho. São Bordalo gostava de o representar com o seu cache-nez, que utiliza aqui como indicador das relações entre os dois partidos, aqui representados pelos seus líderes, Anselmo José Braamcamp e Fontes Pereira de Melo. Na última vinheta o cache-nez indica tempestade para os próximos tempos.
Mas o que é que isto quer dizer? Têm 24 horas para responder.
O vencedor da jornada é Tulius Detritus d'A Memória Inventada com a seguinte leitura:
Tudo começará por acaso, mas é a história de um futuro inexorável. De visita a uma fábrica da moribunda indústria têxtil, o primeiro recebe um cachecol violeta, Sem perder um directo no jornal da noite, a Secretaria de Imagem do Primeiro,- entidade ainda embrionária no governo anterior, em breve reciclada e com orçamento de ministério- faz do cachecol um símbolo de compromisso com o povo. Rezarão as crónicas que o Primeiro se comprometeu a usar o cachecol todos os dias, enquanto a tragédia do Vale do Ave se arrastar. De início a jogada parece ter sido de mestre. De uma assentada, legitima-se a vaidade natural do Primeiro e capitaliza-se na imagem forte que é ver o frágil pescoço de um líder à mercê de uma promessa. Só que ninguém podia prever o que sucederá (assim mesmo). O cachecol violeta passa a ser a obsessão da imprensa e o objecto predilecto dos cartoonistas. Das acusações de fomentar o culto da personalidade, à demagogia, instala-se um clima de chacota. O povo usa a peça de roupa em piadas que saem ao ritmo de fornadas de pão. Porém, em pouco tempo, da chacota passa-se à desconfiança, e o povo - alucinado pela frustração- troca o violeta do cachecol pelos reflexos húmidos da pele de uma anaconda. De coagido, o Primeiro passa logo a constrangido e acaba quasi-sufocado em pleno Verão, este sim, um Verão mesmo quente. Cada vez mais perturbado com a crise, o Primeiro é agora representado como uma múmia violeta. Tudo é material para especulação: cada dobra do cachecol, cada jeito novo, cada borboto captado pelo zoom de um canal privado. Especialistas na interpretação das vísceras reciclam-se em cursos de formação. A astrologia floresce, o investimento decresce. De pantanas, o governo cai antes do Natal. A gota de água? Ainda o cachecol, claro. É certo que o Primeiro vai honrar o promessa, mas alguém descobrirá que, afinal, o modesto cachecol foi a dada altura trocado por um outro, de material- como dizer isto sem ofender a briosa gente do Vale do Ave?- menos sintético. Hugo Boss emitirá um telegrama de pesar, aproveitando para declinar qualquer envolvimento no episódio.

Os patrões da Indústria, do Comércio e Serviços, do Turismo e da Agricultura vão apresentar ao próximo Governo propostas para ultrapassar a crise. Na imagem, os distintos cavalheiros ensaiam a coreografia antes de entrarem na conferência de imprensa de ontem.
A respectiva notícia do Público.
Por falta de tempo ainda não fiz a minha declaração de voto. Virá antes das eleições. Mas hoje, na Visão, Freitas do Amaral encarregou-se de me roubar alguns argumentos. Por vingança faço dele o meu Donaldo. A minha posição é simétrica à sua, ou seja: chegamos à mesma solução vindos de lados exactamente opostos, ainda que ele esteja mais entusiasmado do que eu. Embora não subscreva tudo, há uma noção muito clara do que é realmente importante e do que é acessório na situação portuguesa nas palavras do político português mais solitário. Vão ter que comprar a revista para ler, já que não há link. Eu voltarei ao tema um pouco mais tarde.
«O centro é um lugar ideologicamente vazio». Maria José Nogueira Pinto, na SIC Notícias, a propósito de Freitas do Amaral.
Pelos visto o que há é a direita da esquerda e a esquerda da direita. Para passar de um lado para o outro é preciso saltar uma vala rodeada de arame farpado. Antes de repetir lugares comuns (uma coisa é o centrão sociológico, outra o centro ideológico), Maria José Nogueira Pinto bem que podia ir estudar um pouco de ciência política e, já agora, a história do partido para onde entrou há apenas seis anos.
«O Dr. Freitas do Amaral já participou numa manifestação ao lado do Dr. Louçã e da Dra. Odete Santos.». Telmo Correia, SIC Notícias.

Oitenta por cento dos jovens portugueses não usa preservativo

Sobreviventes nas comemorações dos 60 anos da horrenda frase proferida por Francisco Louçã em resposta a Paulo Portas na campanha eleitoral de 2005.
[NOTA: Sou de opinião que o holocausto é uma excepção a muitas regras gerais – entre as quais nomeadamente à de que se pode brincar com qualquer coisa. Vejo que alguns leitores interpretaram erradamente este post como sendo uma piada com ou sobre o holocausto. É esse tipo de erro que me obriga a abrir outra excepção: a de explicar uma piada, o que lhe tira todo o interesse. Neste caso, a piada refere-se às pessoas que compararam a frase de Louçã (que eu próprio aqui chamei de "argumento de autoridade intolerável", e portanto estou à vontade para falar) com o neofascismo, o salazarismo, e quejandos. É a essas pessoas, e não a mim, que devem ser pedidas contas pelo exagero e pelo mau gosto – e é isso que eu aqui satirizo. Quem entendeu, entendeu. Quem não entendeu, tem agora este esclarecimento, por uma vez sem exemplo. Não quero ofender ninguém – ou melhor, querer até quero – mas não em assuntos de holocausto.]
Caro Mac, ainda bem que me perguntas isso. Intelectuais públicos aqui na minha zona não há nenhum. Há dois intelectuais, que sou eu e o meu vizinho luxemburguês. Mas não fazemos mal a uma mosca: ele porque está ali sossegadinho num quarto forrado de livros, coitado, a dar umas explicações de vez em quando que mal lhe devem dar para viver, e eu porque simplesmente sou boa pessoa. Mas não somos públicos. Aqui em França também não há muitos intelectuais públicos que restem. A não ser que se considere o Bernard-Henri Lévy um intelectual, mas aí já estamos a usar um conceito um bocado abrangente de intelectual. Lá público, sim, isso ele é. Portanto, os intelectuais públicos já não atacam aqui na minha zona. A única hipótese... peraí pá... A única hipótese é que o Francis Fukuyama e o Samuel Huntington tenham dado recentemente uma volta aqui por Paris. Espera aí... É pá, sim, sim. Estou-me a lembrar, pá... Passaram por cá sim senhor. Vi-os os dois todos contentes, até estavam juntos sim senhor, estavam ali os dois a indignarem-se com o facto de haver fotos do Sartre à venda em postais, ali nos bouquinistes, ali à beira Sena. Esse crápula, esse criador de teorias legitimadoras prontas a usar por governantes com pouco escrúpulos. Sim, sim, foi isso mesmo. Só mesmo Paris para nos proporcionar estas cenas. Já nem me lembrava desta história, vê lá tu.
O PS, caso deseje maioria absoluta, deve fazer um pouco mais por ela. Actuar como actua presentemente é, claramente, cumprir os mínimos. E o que é isso de cumprir mínimos numa questão tão delicada como esta? Bem, tão somente esperar que o eleitorado à sua esquerda vote PS apenas porque tem medo da direita. Queira-se ou não, é pouco. Posto isto, caso não a consiga só poderá imputar responsabilidades a si próprio, pela simples razão de não ter sabido capitalizar com uma situação de fragilidade do PSD que, a meu ver, não se repetirá tão cedo (não acredito que melhorem muito, impossível é descer mais baixo). O PS precisa de um golpe de asa que entusiasme o centro-esquerda mais esquerda que centro.
Assim, e ainda caso o PS não obtenha maioria absoluta, a grande questão é saber o que farão as esquerdas com qualquer coisa como 55 a 60% dos votos dos eleitores. Porque esses votos, numa perspectiva ainda de esquerda mas suprapartidária, representam também algo muito simples: uma clara reprovação à governação de direita. Senis e imaturos parecerão, aos olhos do eleitorado, todos os dirigentes que desbaratarem tamanho capital eleitoral. As consequências, num eventual cenário de novas eleições antecipadas, podem ser devastadoras. Nessa altura, no limite, teríamos evoluído num ápice de um regime de alternância democrática para outro de inexistência de alternativa democrática. Seria triste.
A BBC World está em directo de Auschwitz, numa emissão muito digna. Em voice over, o jornalista vai identificando as personalidades que chegam ao campo de exterminação. A certa altura diz, algo em estilo National Geographic Magazine, como se tivesse descoberto uma espécie em vias de extinção:
"... e também está cá Simone Veil, uma das mais estimadas intelectuais públicas da França. Sim, essa figura curiosa, o intelectual público, continua a existir em França..."
Ó André, tens visto muitos aí na tua zona? São perigosos? Tens fotografias? Rosnam aos britânicos?
Nos últimos dias, tem sido patente o esforço de vários dirigentes e activistas do Bloco em empurrar para debaixo do tapete a gaffe de Louçã. “Caramba, já enjoa”, “É injusto reduzir o Bloco a uma frase mal compreendida”, “Não nos desviemos do objectivo central que é derrotar a direita” – enfim, uma lenga-lenga que já se vai tornando familiar.
O próprio Louçã sentiu necessidade de enviar um texto para o Público, em resposta às críticas de Ana Sá Lopes e Eduardo Dâmaso (ignorando assim as de Graça Franco nas páginas do mesmo jornal). Depois, em intervenções de campanha, tem deixado cair frases ambíguas, que aparentam algum “arrependimento”, mas que na realidade não retiram uma vírgula à feia acusação que dirigiu a Paulo Portas no debate da 5ª feira passada (e que atingem um universo de indivíduos bem mais vasto do que aquele que o líder do Bloco teria em mente).
Este episódio é significativo a vários títulos. Vale a pena esmiuçá-lo um pouco mais para se compreender a verdadeira natureza do Bloco.
Foi um episódio revelador porque expôs o moralismo jacobino do Bloco – a obsessão com a transparência e a sinceridade, duas virtudes tipicamente jacobinas que também integravam a cultura puritana de extrema-esquerda que moldou a personalidade de muitos dos seus dirigentes. O corte com essa cultura foi feito, mas alguns tiques permanecem. E, pelos vistos, não serão assim tão poucos.
Em segundo lugar, ele revelou a dificuldade do Bloco em lidar com a crítica. Especialmente em temas que definem a sua imagem de marca. O Bloco está sempre na ofensiva, sempre de dedo apontado aos outros, aliás como é próprio dos partidos anti-sistema. Quando os holofotes se viram contra eles, a sensação de desconforto é grande.
Depois, o culto da personalidade, bem patente naquele cerrar de fileiras que se seguiu às declarações de Louçã. Gostava de deixar claro que sou um admirador da inteligência e das capacidades políticas de Francisco Louçã. Há muitos anos, de resto. Mas impressiona-me a idolatria de que é alvo por parte de muitos dos seus companheiros de partido. “Eh pá, os artigos que o Francisco publica lá fora…”, “E o último livro dele, os elogios que recebeu em Inglaterra…” “É um geniozinho, um geniozinho”. Quanto a mim, isto não gera um ambiente saudável. Quando um dirigente é colocado neste género de pedestais, torna-se difícil contestar a sua autoridade - por muito democráticos que sejam os mecanismos formais de participação e decisão dentro dos partidos. Em suma, o princípio da chefia carismática é um princípio bem mais enraizado na cultura do Bloco do que aquilo que os seus membros estão dispostos a admitir
O que nos leva ao quarto aspecto revelado pelo incidente da semana passada: o unanimismo do Bloco. Perante a sociedade, o Bloco gosta de se apresentar como um partido democrático e transparente – por oposição às redes de caciques e clientes que são os partidos do mainstream. Mas, na verdade, nós sabemos muito pouco acerca da vida interna do Bloco. Preguiça dos nossos jornalistas? Falta de sentido crítico? Talvez uma mistura das duas coisas. Por muito que a sua pequenez seja invocada como argumento, não deixa de ser estranho que nunca venham a público notícias de dissidências internas no Bloco. Nunca se vêem artigos de jornal desafiando a linha oficial, zangas, tomadas de posição divergentes – enfim, a conflitualidade típica de qualquer organização plural e aberta. Mais do que um partido, o Bloco é uma seita de fiéis.
“Declarámos uma guerra feroz contra o princípio da democracia e a todos os que o tentam levar a cabo”.
Abu Musab al-Zarqawi, líder da Al-Qaida no Iraque, 23 de Janeiro, Público, 24.1.2005
“Votas, morres”.
Frase pintada em várias paredes de Bassorá, sul do Iraque, Janeiro, Público, 25.1.2005
“Quem não votar na Aliança Iraquiana Unida [frente eleitoral xiita] deve preparar-se para responder perante Deus no Dia do Julgamento”.
Imã Jalal al-Deen al-Shagher perante os fiéis reunidos na mesquita xiïta de Boratha, Bagdade, meados de Janeiro, Público de 26.1.2005
“Sobre o distrito de Aveiro, eu, infelizmente, vi, da janela da casa da minha avó, muita gente ser atropelada na passagem de nível de Espinho (…) não foi em Coimbra ou em Faro que eu vi isso, foi no distrito de Aveiro”.
Manuel Pinho, cabeça de lista do PS por Aveiro, Público, 26 de Janeiro
António Mexia: As "metas aspiracionais" laranja não são promessas".

Défice: Governo acredita que é possível cumprir PEC
Nobre Guedes denuncia hipótese de Bloco Central.
O que diz o site do Partido da Terra sobre Santana Lopes, que abriu as listas do PSD a dois deputados terráqueos:
«Pedro Santana Lopes é "xenófobo", tem um "discurso bolorento" e produziu um programa de go-verno que era um "conjunto de vacuidades". Enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa cometeu "atentados aos direitos dos lisboetas" com atitudes de "arrogância, prepotência e desrespeito pelas regras da democracia" em questões como a construção do Túnel do Marquês de Pombal, obra "inútil, perigosa e despesista". [...] [O programa do Governo Santana] "é um conjunto de vacuidades" ditado pelo "neoliberalismo instalado no poder". De resto, sublinhava então o Partido da Terra, Santana já habituara o País a "algumas tiradas enriquecedoras do anedotário nacional". O MPT criticou também o "discurso bolorento e mesmo xenófobo" do primeiro-ministro na tomada de posse, apelando a Jorge Sampaio para ter a "coragem de o demitir".» [via Diário de Notícias]
O post Pedro Burmester a Ministro da Cultura, que analisa as propostas dos partidos para a política cultural, foi actualizado - nomeadamente por só agora ter lido o programa eleitoral do Movimento Partido da Terra.
Quanto aos outros partidos inscritos para as eleições: à excepção do Partido Humanista, cujas ideias para a cultura passam apenas por acções municipais, não há nada que se saiba do POUS, Frente Socialista Popular, Partido Nacional Renovador ou FER (que, aliás, parece ter feito uma deriva à direita e aproximou-se do BE). Nem o Movimento do Doente apresenta ideias.
O site do CDS também continua em baixo.
...quando um Benfica-Sporting era um Benfica-Sporting.
Enquanto os restantes companheiros se digladiam sobre o sentido de voto nas próximas eleições nacionais, gostaria de continuar a contribuir para que não mantivessemos uma relação tão intensa com o nosso umbigo...por isso, peço aos leitores do Barnabé que estejam atentos a dois grandes eventos internacionais que aí estão a acontecer...e maravilhem-se com o comportamento do Lula (sim ainda gosto muito dele!) que promete aparecer num e noutro e mostrar como é um líder essencial na luta contra a pobreza por esse mundo fora.
Para visitar o Forum Social Mundial em Porto Alegre (Brasil), clicar aqui.
Para visitar o Fórum Económico Mundial em Davos (Suiça), clicar aqui.
Pires de Lima recusa abrir "polémicas públicas" com o PSD

Jardim Gonçalves escolheu Paulo Teixeira Pinto para lhe suceder na presidência do Millenium BCP. E a família Espírito Santo? Será que vai escolher um Legionário de Cristo?

Raphael Bordallo Pinheiro, O Peixe que Preside aos Destinos da Marinha, in O António Maria, 15 de Fevereiro de 1883. Clique para aumentar numa nova janela.
«Por emquanto.............................nada»
«NOTA: Collorindo-o com o almagre com que pinta os tijolos da chaminé, terá o leitor um bonito adorno para a sua casa de jantar.»
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A jornada de ontem foi novamente ganha pelo Pedro Vieira [autor do interessante blogue "Vida Agridoce"] com outra bela análise iconológica que lhe valeu três votos, contra um voto para o leitor "Jorge" por uma também óptima leitura que vale uma menção honrosa. O André Belo também participou ilegalmente, uma vez que faz parte do júri, mas foi o único a identificar correctamente o contexto cronológico e a desmascarar o Professor Marcelo como atirador de facas chinesas nesta imagem. Como a safra foi boa, puxámos os três comentários para o post respectivo. Veja a jornada de ontem.
A imagem de hoje não estava prevista, mas temos de comemorar condignamente o facto de "só Portugal" ter "turismo e mar" [Paulo Portas]. Temos assim um esplêndido aquário, sustentado na coroa postiça de Fontes Pereira de Melo, e em cujo interior flutua o ministro da Marinha, José de Melo Gouveia. Alguém tem ideia do que isto possa querer dizer? Escrevam os vossos comentários até ao meio-dia de amanhã e habilitem-se a ganhar um livro autografado do Barnabé, que para já parece que vai direitinho para as mãos do Pedro Vieira. Mas haverá de ir sem luta?
Vencedor da jornada: Jorge Candeias, com a seguinte entrada: "O peixe é um cherne, animal outrora conhecido pelo impronunciável ápodo de Durão Barroso, e actualmente transmutado num tal José Manuel Barroso. Nada placidamente no aquário dourado da comissão europeia, alheio aos mesquinhos detalhes da vida política do seu charco de origem, embora ainda e sempre suportado por um cidadão Sampaio, cabeça coroada republicana e laica, que lhe terá garantido a pés juntos ("eu seja cego, surdo e mudo, pá!") que não dissolveria o parlamento nem convocaria eleições antecipadas. Cedo piaste, cedo piaste...". Parabéns e até amanhã.
No reboliço de alinhavar por aqui as primeiras linhas, disse ao Rui e ao Celso que não sabia como começar. Eles, lestos, “escreve um post sobre qualquer coisa pá”. (Obrigado rapazes)
Pensei então ir buscar umas palavras a “Wide Open Road”, magnífica canção de David McComb (The Triffids), em que depois da vida queimada se levanta a cabeça e olha-se em frente e “It’s a Wide Open Road”... pensei, “três anos de terra queimada e agora, dia 20, it’s a Wide Open Road”...
E que tal qualquer coisa do Townes Van Zandt? Não sei. O nosso cowboy deprimido de voz roufenha preferido? Talvez não, para tristezas já basta o Portas aos saltinhos mas cheio de sentido de estado.
Ou o Zeca? Do Zeca há sempre qualquer coisa. Sim, se “o país vai de carrinho” porque não o Zeca? Ou até umas palavras do Barnabé João (na realidade o pintor António Quadros, que o Zeca musicou em mais que uma ocasião). Tinha tudo a ver com o blogue...
Às tantas levantei a cabeça e olhei para o ecrã... E ei-lo! É um post sobre qualquer coisa. Nem mais, é um post assim como quem anda em busca de um começo.
Saudações barnabitas.
Citando Paulo Auster em A Noite do Oráculo (tradução de José Vieira Lima, Edições ASA, 2005):
"Pessoa é um dos meus escritores preferidos. Deitaram abaixo Salazar e agora têm um governo decente. O terramoto de Lisboa inspirou Voltaire a escrever Candide. E Portugal ajudou milhares de judeus a fugirem da Europa durante a guerra. É um país bestial. Eu nunca lá estive, é claro, mas, queira ou não queira, é lá que eu vivo agora. Não, Portugal é perfeito."
Esta vaga de frio está a ser um flop.
Os novos barnabés já têm a chave da casa e, deixem-me confessar isto, tiveram entradas em grande, o Luís Mah lembrando um documento essencial para o combate à pobreza global que pouca discussão tem entre nós, e o João Macdonald fazendo uma coisa que até não vi sequer em nenhum jornal, rádio ou televisão – um dossier comentado sobre os programas dos partidos na área da cultura.
Já agora, para eles e para os leitores menos habituados, gostaria de mostrar aqui dois cantos da casa. Estão um bocado empoeirados mas vamos voltar a usá-los. O Barnabé Rebelo de Sousa, ali tão conveniente no canto superior da direita, serve para ir disponibilizando documentos do mundo exterior: já lá coloquei o site dos Objectivos do Milénio de que falou o Luís Mah. O Barnabé XL, na coluna da esquerda que é a nossa janela virada para dentro, prolonga no tempo a consulta de textos volumosos como o do João Mac.
Porque seria uma pena que a posta corrente soterrasse textos interessantes como estes eles ali ficam , sempre ao vosso dispôr. E de borla.
Pedro, não podias ter escolhido pior exemplo do que o da Reforma Fiscal. O Bloco de Esquerda insistiu tanto nessa questão e esteve de tal forma disponível para acordos que participou numa negociação que durou meses e que envolveu Ricardo Sá Fernandes, Francisco Louçã e Octávio Teixeira. De repente, o PS tirou o tapete ao BE, ao PCP e ao seu próprio secretário de Estado. Tudo foi enterrado. Pouco depois negociava o Orçamento com Daniel Campelo sem nunca tentar negociar com PCP ou BE. Foi uma escolha, em que Sócrates e Coelho tiveram um papel central, não foi uma imposição.
Quando o PS enterrou o seu próprio projecto de Reforma Fiscal, e, agarrado a ele, o seu autor, o BE reapresentou a proposta do PS, sem lhe mudar uma linha, tal e qual fora desenhada por Sá Fernandes. Foi até Sá Fernandes que apresentou o projecto do BE aos jornalistas, junto com Louçã, em conferência de imprensa. O BE, nesse momento, continuou disponível para negociar, encontrando em Pina Moura e António Guterres um muro de silêncio.
Se isto é apenas "zurzir no PS", estamos conversados. Escolheste, por isso, mal o exemplo. Porque se há assunto em que o Bloco tem sido pragmático (e até pouco ideológico), indo buscar propostas do PP de Aznar e da lei Norte Americana, é mesmo a política fiscal. E porque se há assunto em que o PS mostrou não merecer maioria absoluta é a sua política fiscal. Contraria-se sempre e vai triturando todos os que, sendo moderados, têm, dentro do PS, algum brio político.
Pode sempre dar-se o caso de tu achares que os acordos e os entendimentos fazem-se sem conteúdo político nenhum. Não é assim que são feitos em Espanha, que são feitos na Suécia, ou na Alemanha. Mas se é isso que defendes, tens razão: o PS precisa de maioria absoluta. Mas aí terás de dizer as coisas de modo diferente: que defendes um cheque em branco por quatro anos, seja para o que for. É uma alternativa. Parece-me é fraca.
Não vou reiterar os argumentos que desenvolvi no meu último post, mas gostaria de sublinhar um ponto que talvez não tenha ficado suficientemente claro. Ao votarmos, convém que não percamos de vista a “lei das consequências não-intencionadas”. As pessoas que desejam derrotar a direita, mas vacilam entre o voto em branco, o voto no Bloco e o voto no PS (ou seja, a maioria dos frequentadores deste blogue), devem estar cientes do cenário que poderá emergir de uma maioria relativa do PS. Nesse cenário dificilmente haverá lugar para coligações à esquerda. Já o referi, mas torno a explicar-me. Ao contrário do que se possa julgar, não é por Sócrates representar a ala mais à direita e tecnocrática do PS que um entendimento com o Bloco fica comprometido. Na minha opinião, isso até ajudaria a concretizá-lo, pela parte do PS. Sócrates está livre da reputação “esquerdista” de Ferro Rodrigues, logo isso torna-o um negociador mais credível entre os seus militantes e eleitores, e também entre os líderes de opinião deste país. As diferenças ideológicas e programáticas entre os dois partidos não são irrelevantes, mas não julgo que constituíssem um obstáculo insuperável. Como nunca haveria uma coligação governativa, mas apenas acordos de incidência parlamentar, isso permitiria aos dois partidos conservarem a sua autonomia numa série de questões que não afectam crucialmente a governação do país (participação portuguesa na NATO, política externa). O problema está no Bloco, por muito que os seus dirigentes e propagandistas o queiram esconder. O Bloco não quer sujar as mãos com o exercício do poder e o inevitável jogo do “toma lá, dá cá”. Quer conservar a aura de superioridade moral que o torna tão atractivo para alguns segmentos do eleitorado, e capitalizar a erosão de quem está no poder. Dir-me-ão que nos últimos anos do Guterrrismo, o Bloco foi um parceiro do PS nalgumas iniciativas legislativas que poderiam ter feito a diferença – nomeadamente, a reforma fiscal de Sá Fernandes. Vale a pena recordar o que sucedeu na altura. O governo de Guterres sofreu um ataque cerrado da parte dos interesses financeiros, com João Salgueiro e outros porta-vozes da banca a desdobraram-se em advertências e ameaças (fuga de capitais, perda de competitividade dos nossos bancos, etc.). E o que fez o Bloco? Por acaso mobilizou as suas energias para defender a reforma fiscal? Não. Preferiu zurzir a “tibieza” e falta de coragem do PS e, mais uma vez, emergir como o partido da imaculada virtude. Exemplar.
Portanto, é isso que nos espera num cenário de governo minoritário do PS. José Sócrates não tem autoridade para emular o Cavaco Silva que em 1987 (se não estou em erro) se recusou a formar governo sem ter a maioria absoluta. Irá pois liderar um executivo onde pontificarão as figuras de segunda linha no PS – a “tralha guterrista”. Será um governo altamente pressionado para distribuir a boda aos pobres, pois as autárquicas são já no fim do ano e “grandes combates” aguardam o PS. Já estou a ouvir o coro….
A grande incógnita neste cenário é o futuro da liderança do PSD. Tudo dependerá da extensão da derrota de Santana Lopes. Se for grande, adeus até mais nunca. Se for curta, o homem aguenta-se. E aí será o inferno. À esquerda o PCP e o Bloco a ladrarem contras as “traições” de Sócrates, à direita Portas e Santana a incendiarem o país com a sua demagogia.
Penso que hoje as pessoas sensatas do PSD já terão percebido que uma maioria absoluta de Sócrates não será tão má quanto isso para o próprio PSD. Abre espaço para uma renovação na liderança e, claro está, para a candidatura presidencial de Cavaco Silva. E um Cavaco Silva a caminho de Belém exercerá, sem dúvida, uma influência determinante na escolha do futuro líder do PSD. É claro que quatro anos longe do poder, das suas benesses e meios de patrocínio, é uma coisa dura para um partido com as características do PSD. Mas não é o fim do mundo. Terão tempo de se reorganizar e fazer uma oposição consistente. Não gosto muito de brincar aos nomes, mas julgo que um PSD liderado por alguém como Miguel Cadilhe, por exemplo, ajudaria a dignificar a nossa tão degradada vida política.
Umas notas finais.
Rui: essa ideia de que não deve haver inimigos à esquerda no momento que atravessamos comigo não pega. Não pega porque o Barnabé é só um blogue, e por muito eficazes que consigamos ser na nossa guerrilha diária contra as forças do mal, acho improvável que venhamos a ter qualquer espécie de impacto no desfecho das eleições. E não pega porque, se queres que te diga, eu não abdico do meu diletantismo.
Daniel: a ferocidade do teu post chocou-me um pouco, mas já a esperava. Atribua-a ao nervosismo que parece ter-se instalado nas fileiras do Bloco desde a quinta-feira negra. E já agora, não pensas que poderás ter exagerado um bocadinho, pronto, só assim um bocadinho, quando descreveste o PS como um partido “profundamente ultraconservador”. O que serão, então, o PSD e o CDS?
Queria também agradecer a amável referência do José Pachco Pereira no Abrupto ao meu post e sossegá-lo quanto à violência dos comentários. Não se preocupe: é assim que as máscaras caem.
Antes de tudo, saudações aos barnabitas e aos leitores.
O meu primeiro post no Barnabé só podia ser sobre aquilo que mais tem ficado de fora do actual debate pré-campanha: as políticas culturais. À frente analiso o essencial das propostas eleitorais dos vários partidos.
A pobreza do debate cultural na pré-campanha só tem sido furada pelo PS e pelo BE. A 19 de Janeiro, numa sessão do Fórum Novas Fronteiras (com a presença de Manuel Maria Carrilho, Lídia Jorge, Rui Vieira Nery e Augusto Santos Silva), José Sócrates disse que “o livro e a leitura” e “o cinema e o audiovisual” são as prioridades do seu partido no que diz respeito a corrigir os cortes orçamentais efectuados nos últimos três anos. Anunciou ainda o lançamento de um “passe cultural” que permitirá o acesso à vários equipamentos culturais do país (informação fútil, que não revela política alguma). Junte-se isto a duas singelas linhas no resumo do programa eleitoral do PS (tanto quanto consegui ler na Internet): rever o sistema de apoio às artes dos espectáculos e a percentagem do Orçamento do Estado para a cultura – e aí está tudo o que se sabe. O mais foi o “plano tecnológico” como estratégia que também vai na linha de um livro que Carrilho emprestou ao secretário-geral do PS: The Rise of the Creative Class do economista norte-americano Richard Florida (best seller nos EUA, publicitado em www.creativeclass.org).
Já o BE reuniu no passado 15 de Janeiro, na Faculdade de Letras de Lisboa, um fórum alargado sobre vários temas, entre os quais a cultura. Estiveram presentes, entre outros, António Mega Ferreira, Alberto Seixas Santos, Maria João Seixas e Miguel Portas. Não tenho informação sobre que assuntos em concreto foram debatidos.
Espera-se que surjam mais ideias na próxima sessão do Novas Fronteiras dedicada à cultura, que acontece amanhã às 21h30 no Hotel Tuela, no Porto, onde estarão o arqueólogo e professor universitário Vítor Oliveira Jorge, o ex-jornalista e documentarista Jorge Campos e Manuela Melo.
Tanto quanto sei, mas posso estar errado, nenhum outro partido promoveu um debate público sobre o assunto, ou sequer algum candidato referiu políticas culturais em entrevistas. Do CDS sabe-se apenas que Telmo Correia tem a pasta de um tal de Ministério da Cultura e Turismo (!). O BE e o PCP dedicam algumas páginas e algumas boas ideias nos seus programas eleitorais, a Nova Democracia não refere o assunto (na respectiva secção do seu site tem apenas um artigo delirante de José Adelino Maltez sobre o ensino) e o PCTP/MRPP tem mais com que se preocupar (não me dei ao trabalho – talvez erradamente – de pesquisar as ideias para a cultura de outros partidos minoritários).
Três ideias mestras para a política cultural, que à frente pormenorizo, são absolutamente comuns ao PSD, MPT, PS, PCP e BE (o site do CDS está em baixo, pelo que não pude aceder ao seu programa eleitoral). Ao desbravar (o que não é nada difícil) os respectivos parágrafos nos programas, quis perceber, e criticar, as linhas que predominam. Nenhum esforço, ou pouquíssimo, tem sido feito por todos estes partidos para fazer passar a sua mensagem cultural, pelo que, como bom eleitor, enfiei-me de cabeça nos tais documentos. Agradaram-me alguns e o do PSD deu-me calafrios. Optei por não escrever sobre a questão do mecenato e da língua portuguesa por serem assuntos que merecem mais tempo, e que ficarão para outra altura.
Se o PS ganhar as eleições, o próximo ministro da Cultura será muito provavelmente um destes três (reproduzo o que se comenta nos bastidores do meio jornalístico – não tomem isto como garantia alguma): José Mariano Gago, Lídia Jorge ou o já uma vez ministro Augusto Santos Silva.
Proponho um quarto nome: Pedro Burmester. Independente, com conhecimentos mais do que suficientes na gestão cultural, sério, frontal e a viver o momento ideal para se chegar à frente. Os nomes atrás referidos por certo dignificariam o cargo, mas eu acho que Burmester estabeleceria um corte positivo no estilo governativo da cultura. Mais tarde desenvolverei esta ideia, mas para já afirmo que Burmester seria o nome ideal para forçar aquilo que julgo ser o mais urgente – extremamente urgente, diria – na política cultural: acabar de vez com o fosso entre Educação e Cultura.
E aqui vai agora a pedra que parti…
Política cultural: três pontos comuns à esquerda e à direita
Há mais pontos em comum do que se poderá pensar (ou não?) entre as várias propostas eleitorais para a cultura. Pelo menos três medidas são idênticas nos programas do PSD, MPT, PS, PCP e BE, mais palavra menos palavra: 1) descentralização do acesso à cultura; 2) aumento do conjunto de verbas estatais para o MC tendo como referência um 1% do Orçamento do Estado (o PCP e o MPT preferem indexar este mesmo valor ao PIB); 3) transversalidade: articulação da cultura com todas as políticas sectoriais.
São três necessidades que parecem óbvias e prioritárias. Gostaria de pensar que esta coincidência de propostas dita que a consciência das deficiências do apoio e promoção da cultura não está tão mal como isso no seio dos partidos.
A primeira ideia é mais do que válida, mas perversa quando implica o deslocamento dos centros de decisão, tal como aconteceu no governo Santana (deslocar a Secretaria de Estado dos Bens Culturais para Évora, por exemplo) e que continua neste programa do PSD. Onde se leram essas acções como populismo puro e duro, eu li disseminação do Poder (prefiro-o em Lisboa, todo junto, onde é mais fácil vigiá-lo). Por outro lado, e nisso todos os partidos concordam, o apoio à cultura fora do Porto e de Lisboa passa pela já lançada rede de bibliotecas, teatros, cinemas e centros de artes e, acima de tudo, creio, pela definitiva resolução do problema de financiamento das autarquias, para as quais deveria funcionar a mesma regra de 1% aplicada ao OE. A outra acção em falta é também óbvia: mais campanhas de informação regionais sobre os apoios que a UE tem para a área.
Não tendo dados que me permitam afirmar sem sombra de dúvidas que o já famoso 1% é mais do que suficiente (será mesmo? é ainda pouco?), mas aceitando-o como razoável, atiro-me à terceira ideia: um MC em plena ligação a todos os outros ministérios, ou pelo menos aos directamente relacionados: os do ensino e da ciência.
Escreve Catarina Molder (cantora lírica) no Fórum Novas Fronteiras do PS: “Lutar contra o grande abismo ainda existente entre a Cultura e a Educação”. O PCP fala de “reformulação e expansão do ensino artístico, integrando o ensino obrigatório, como uma verdadeira iniciação às diferentes formas de expressão artística”. O BE desenvolve: “Assumir o contacto com a arte como essencial à construção de identidade e proporcionar ao público escolar um contacto com arte mais abrangente do que o simples complemento pedagógico aos programas curriculares, desenhando programas transversais aos Ministérios da Cultura e Educação que permitam integrar nos currículos escolares matérias que desenvolvam a compreensão das linguagens artísticas contemporâneas”. O PSD, sintético, diz que “o Governo atribui à política cultural um papel central e transversal no conjunto de todas as políticas sectoriais”.
Os pressupostos são radicais, urgentes, e temo que não estejam para acontecer numa próxima legislatura. Não querendo entrar no assunto das reformas educativas – onde a necessidade quase pungente é a de estabilidade, seja a curricular ou a das carreiras –, suspeito que a maior parte dos docentes, por puro corporativismo, oferecerão grande resistência à criação de um ensino onde disciplinas artísticas ganhem obrigatoriedade nos currículos do básico e do secundário. No entanto, este é claramente o caminho para contrariar a escola enquanto elemento da “sociedade disciplinar” definida por Foucault, que a incluía numa tríade com a prisão e o hospital. Mais do que isso, é a rota certa para abolir mecanismos familiares cerceadores (queria evitar o termo “preconceituosos”, mas não consigo) de vocações artísticas. Correndo o risco de parecer ingénuo, estou convencido de que a existência de disciplinas de arte obrigatórias em todas escolas, sujeitas a avaliação como quaisquer outras, significa mais liberdade, isto é, a não formatação de seres humanos que venham a encarar o mercado de trabalho como um campo de actividades pré-determinadas exclusivamente em função da necessidade de produzir. E ainda mais: estas disciplinas – que deveriam ser artes visuais e música (esta é obrigatória em dois países: Hungria e Japão) –, só poderão conduzir a melhores resultados nas disciplinas mais críticas, consequência da transdiciplinariedade que está na sua natureza.
E daqui para a ciência, naturalmente. Sendo terreno muito delicado, remeto para o documento Ano Internacional da Física 2005 – Enquadramento, objectivos, intervenientes, uma celebração proposta por Portugal (com o apoio do Brasil e da França) à ONU, e que constituiu um autêntico “programa eleitoral” onde cultura, ensino e ciência combinam-se de modo exemplar, subscrevível por todos os que não saibam o que fazer em relação ao assunto (sendo que José Mariano Gago é um dos autores do documento).
Parêntesis 1
Alguns aspectos do programas do BE (terá Mário Soares também passado os olhos por estes parágrafos?) surpreendem pela positiva. Os bloquistas propõem “transformar a RTPi no canal internacional da cultura portuguesa”; “considerar os ‘custos de periferia’ de Portugal na Europa no financiamento de projectos de itinerância além fronteiras e apostar na ligação entre estruturas e criadores nacionais e internacionais de forma a colocar a criação nacional nas plataformas de circulação internacional” e, mais do que o aumento de verbas, “um plano de emrgência no apoio e salvaguarda do património cultural”.
Atrai-me particularmente a ideia relativa à televisão do Estado. Apesar de megalómana, seria um modo altamente eficaz de acabar de vez com um dos piores exemplos de instrumento de propaganda governamental que escapa ao controlo das comunidades espalhadas pelo mundo. Imagino uma RTPi versão canal Arte+Mezzo, em língua nossa.
Parêntesis 2
O carácter intermitente dos profissionais das artes do espectáculo, e em particular o dos que exercem actividades de alto desgaste físico (bailarinos e artistas de circo, por exemplo) está nas preocupações do BE e do PCP, ao pedirem a reformulação ou criação de um estatuto sócio-profissional do artista que lhe garanta protecção social.
Em boa verdade, o governo de Durão Barroso avançou muito neste sentido, com um projecto-lei considerado pelos profissionais da dança (representados pela REDE – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea) como quase ideal e até melhor do que o do PS. A sua aprovação foi adiada por Maria João Bustorff para uma próxima legislatura. Seja qual for o partido que ganhe as eleições, aprovar esta lei constitui uma obrigação moral.
Parêntesis 3
Apesar de ter escrito que não queria, para já, entrar na questão do mecenato, acho importante realçar uma proposta do Movimento Partido da Terra por apresentar uma alternativa a esta questão: "Redacção e aplicação urgente de uma do Lei do Incentivo Cultural que permita e
flexibilize a comparticipação rápida por parte de empresas ou particulares no financiamento de eventos culturais, com a correspondente dedução fiscal e possibilidade de retorno em caso de boa exploração,substituindo a actual Lei do Mecenato e complementando assim a política geral de apoio à criação".
O folclore cultural do PSD
Convirão agora algumas linhas sobre a natureza perversa do programa cultural do PSD (e do PP?), disfarçada no documento sob o título de “Políticas de Acção Externa”. Ainda antes disso, uma questão não referida no dito: a do cinema.
A tendência mercantil do PSD é bem clara quando propõe reforçar a produção cultural evoluindo para o “conceito de indústria criativa” (lê-se no programa), seja lá o que isto quiser dizer. Um único exemplo ocorre-me: o da mais recente alteração à Lei das Artes Cinematográficas, aprovada pelo governo em Setembro. A principal novidade foi a criação de um Fundo de Investimento que deveria ser preenchido por distribuidores, operadores e canais de televisão, assim como entidades públicas e privadas – ou seja, a progressiva morte do cinema de autor (o único território de criação fílmica onde apresentamos trunfos) em consequência do principal financiamento dos apoios combinados pelo ICAM provir das empresas que controlam a maioria das salas de cinema e estações de televisão (imaginem um panorama cinematográfico dominado por Leonéis Vieiras, Joaquins Leitões, Cunhas Telles e respectivos clones).
Mas Maria João Bustorff teve um momento de lucidez e resolveu, também aqui, passar a batata quente ao próximo Executivo, não tendo chegado a regulamentar a lei. Por uma “questão de ética política”, justificou a governante em Dezembro último. António Pedro Vasconcelos, da Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisual (ARCA – a favor da lei) ficou muito aborrecido com a história, e João Mário Grilo, da Associação Portuguesa de Realizadores de Filmes (APRF – contra a lei) disse que a ministra agiu bem, lamentando uma lei que “permite quase tudo”. Grilo tem toda a razão e cabe ao próximo ministro da Cultura matar a coisa, porque outro nome o projecto não merece.
Há mais, é claro. A meio caminho entre a “imbecilização” da cultura e um conceito repetitivo para “rentabilizar” regionalmente a mesma, o PSD propõe o desenvolvimento do chamado “Turismo Cultural” (criação de circuitos em torno de vilas e centros históricos – uma acção lançada por Cavaco em 1994 e desde então actualizada pelos governos seguintes), a que acrescenta a invenção de umas “Zonas Demarcadas”, e aqui já entramos nas grandes planícies do disparate.
Dizem eles: “O facto de [os pólos culturais de grande interesse] serem identificados e tratados como produtos específicos permite uma rentabilização muito particular de determinadas zonas (…) propõe-se a criação de zonas culturais demarcadas, que permitirão, inclusivamente, a rotação de projectos efémeros específicos, como as Capitais da Cultura” (Perfeito. O que é que se seguiria, depois da inconsequente e mal gerida Coimbra e da próxima e “desorçamentada” Faro? O Entroncamento?). O mais perturbante é esta ideia de “zona demarcada”. Ao lê-la, a primeira coisa que me vem à cabeça é a frase “Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal”, epíteto oferecido àquela localidade da Beira Baixa por um concurso do SNI em 1938.
Eis aqui um belo exemplo de como o projecto cultural do PSD, por mais que fale de criação contemporânea e de património (e até bem: prometem “afectar 1% do valor de todas as empreitadas públicas ou obras com participação de capitais públicos para a conservação e restauro do património artístico, incluindo prospecções de natureza arqueológica”), aponta para a folclorização da cultura. O princípio de “zona demarcada” enuncia algo que parece assustador: o controlo, dir-se-ia mesmo a censura, da produção cultural das regiões para onde seriam transferidos mais centros de decisão, tendo em vista preservar uma qualquer identidade tradicional regional que estaria sempre à frente de nova produção cultural. (Recordo que Telmo Correia é o titular de um “Ministério da Cultura e Turismo” do PP.)
Em suma, o objectivo cultural do PSD pode ser descrito assim: uma marca bafienta – algo como “Portugal, o país mais português da Europa” – piscando o olho à turistada à caça do very typical, combinada com uma indústria do audiovisual que só apoiará projectos incaracterísticos e supostamente rentáveis, promovendo uma imagem de cosmopolitismo que só existe na tela. Ou seja, uma fábrica de ilusões sobre nós próprios. Era aqui que eu podia começar a citar Guy Debord, mas não vale a pena.
Em relação a tudo isto, sublinho uma orientação muito pertinente do programa para a cultura do PCP: “O levantamento e denúncia de todos os condicionamentos que, sob diferentes formas, têm um efeito censório e autocensório sobre a actividade criadora, sejam eles de origem ideológica, comercial ou económica”.
Retire-se aquela ideia do contexto do programa do PCP – não me parece que um governo seja capaz de exercer tal proposta… –, coloque-se a mesma na responsabilidade de cada cidadão e aqui está o primeiro artefacto mental para sermos portugueses, agentes artísticos ou não, que defendem o direito à cultura, tanto como qualquer outro.
Isto ainda agora começou.
(Já agora: nestas eleições, voto Bloco.)
Já que estamos todos a manifestar o nosso voto num ou noutro partido político (mas sempre de esquerda), eu gostaria de dizer que o meu apoio vai para aquele que se dignar subscrever o relatório “Investir no Desenvolvimento: Um Plano Prático para Alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio” [link fica também ali à direita, no Barnabé Rebelo de Sousa] entregue por Jeffrey Sachs, na semana passada, ao Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan.
Estive a ler os programas dos principais partidos políticos portugueses, à excepção do do CDS/PP porque o site não estava disponível para pesquisa, e nenhum menciona os Objectivos do Milénio e a sua importância na definição da política externa do nosso país. É triste, muito triste que um dos países mais ricos do mundo (sim somos e é bom que ninguém se esqueça disso!) continue alheado das verdadeiras causas pelas quais todos nós deveríamos lutar. Parece que o nosso umbigo ainda é mais importante. Quem é que falou em maturidade?
A gravação vídeo confirmará que eu não estava bêbado quando ouvi Paulo Portas hoje na SICnotícias proclamando que Portugal não podia competir com a agricultura espanhola e que portanto tinha de apostar em
«...coisas que só Portugal tem: turismo e mar.»
As pessoas acreditam em tudo, desde que seja com sentido de estado.
Estou a gostar imenso do jogo do Bordalo e até já mandei a minha posta de pescada naquele ali em baixo das facas. Mas, como a vitória no concurso me está vedada pela qualidade dos demais participantes, quero antes dar a minha opinião sobre o post do Pedro chamado "Maturidade". Estou completamente dentro daquele perfil de votante que ele aponta. E acho, como várias pessoas que reagiram negativamente ao que o Pedro disse, que a argumentação dele é mesmo um pedido de cheque em branco a Sócrates. Não se pede aos eleitores a maioria absoluta primeiro como garantia de boas políticas depois. É exactamente o contrário que se tem de fazer.
Devo também dizer que, vendo daqui de longe (e daqui de longe não se vê bem), duvido que haja assim tanta gente a mudar o seu sentido de voto do Bloco para o PS depois da frase de Louçã. Eu, pelo menos, posso apresentar um exemplo que vai em sentido contrário. A mim, o episódio Louçã (que considero ter sido infeliz nas afirmações que fez, e sobretudo muito demagógico), transformado em seguida em ataque "Ad Blocum", está a ter o efeito contrário. Se a lógica da política mediática é a da amplificação de episódios e frases, não de esclarecimento, se ela tritura em si tudo, prefiro então ser pragmático e escolher os meus inimigos principais. Louçã mereceu levar porrada. Mas é injusto (e puritano) que a sua frase sirva para revelar uma suposta "verdadeira face" do Bloco ignorando-se o currículo que este partido tem, mormente na questão do aborto.
Indeciso crónico entre o PS e o Bloco, pensava ter resolvido há um mês o problema do voto com a especificidade do meu círculo eleitoral (Europa) e com o facto de a distribuição de deputados se fazer aqui apenas entre os dois principais partidos, PS e PSD. Votar no Bloco parecia-me completamente inútil e entregar o ouro ao PSD (para além de que não me identifico minimamente com os candidatos do Bloco aqui). Agora começo a ter dúvidas sérias sobre o que fazer. É verdade que Sócrates teve pouco tempo para se apresentar ao eleitorado. Mas a recusa dos debates da parte de Sócrates e a formação das listas são já gestos políticos que estou a considerar. Volto portanto ao meu crónico papel de indeciso e preciso de melhores argumentos do que os do Pedro para votar PS.
Pois eu também quero mandar uma posta de pescada na polémica da "maturidade" entre os Oliveiras, lançada aqui pelo Pedro e respondida aqui pelo Daniel. Três pontinhos apenas:
1. Em primeiro lugar, parece-me que o Pedro – como o PS em geral – está a meter o carro à frente dos bois. Nesta altura do campeonato não me parece que seja de exigir maturidade ao eleitorado. Pelo contrário, é aos políticos que se deve exigir maturidade, nomeadamente para nos governarem com o panorama político que sair das eleições, como fizeram Cavaco e Guterres nos seus primeiros governos, que foram de minoria e os melhores de cada um deles. A obrigação é pegar no país e tirá-lo do fosso, sem exigências nem chantagens. Insinuar que só se governa com maioria absoluta é que é, do meu ponto de vista, infantil.
2. Mas se o BE estiver, como diz o Pedro e eu concordo, empenhado numa estratégia de crescimento a médio prazo que o faz menosprezar as responsabilidades do apoio ao PS, também isso não deixa de ser uma infantilidade. Enquanto eleitor de esquerda, os prazos do BE não me interessam para nada, e vejo que a situação do país não está para brincadeiras. O BE terá de entender que um programa do PS com influência moderadíssima sua será melhor do que deixar o PS escapar-se para negociar com o PP (o que há dez dias atrás era só delírio meu...) – o que permitiria ao BE jogar o jogo da vitimização, confortável para alguns, mas de resultados nefastos para todos.
3. Mas como estamos a pôr o carro à frente do bois, há uma infantilidade que é a pior de todas, que é a de lançar ataques à esquerda. Engana-se quem acha que é fácil ganhar eleições a um governo em gestão de propaganda com um líder na luta pela sobrevivência. Num quadro de hiper-erosão da memória, será preciso explicar às pessoas o que foram estes dois últimos governos até ao último minuto da campanha. A chave da vitória está aí. O PS não ganhará nem perderá a maioria absoluta pelo 1 a 1,5% que consiga roubar ao BE que não a ganhe nem perca muito mais rapidamente pelos 5% que deixar Santana recuperar (e deve, aliás, abandonar completamente as ilusões de alguma vez conseguir esvaziar os mais de 10% à sua esquerda que sempre existiram desde 74). Caso contrário, estas eleições serão uma revisitação de Durão - 2002: Sócrates começará a pedir a maioria absoluta para terminar a suspirar de alívio por a campanha não durar mais duas semanas.

Raphael Bordallo Pinheiro, O Jogo das Facas pelo Professor Marianang-Fó-Cyril-Thsing-Ló, in O António Maria, 6 de Setembro de 1883. Clique para aumentar numa nova janela.
«O argumento é fraco, porquanto é certo que até ao momento de começar a arrepender-se ninguem ainda se arrependeu. Só da pescada diz o povo, que antes de ser já o era. Ora el-rei sempre tem sido mammifero terrestre, e não consta que manifestasse nunca a minima propensão para o peixe que tão bem arranja o Re[?]ão do Porto. (Palavras cabalísticas do professor Marianang, pronunciadas ao atirar as facas). – Se não te emendas dou-te uma facada em cheio no vazio.»
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Houve quem ontem se queixasse de que a actualização da caricatura de São Bordalo estava demasiado fácil e quem se queixasse também de termos colocado a imagem demasiado tarde. Vamos então tentar