Existe uma rua no Porto que muitos continuam a chamar de Santo António. Já o foi, já deixou de o ser, já voltou a sê-lo, nunca mais o foi. Mudou pela primeira vez de nome em 1910 e recuperou a toponímia religiosa em 1940. Por fim, abandonou-a algures após o 25 de Abril. Hoje chama-se Rua 31 de Janeiro, tal como a baptizaram na I República. Mas há quem ainda insista no nome do santo, por amor ao próprio, por hábito herdado da ditadura ou por amor à monarquia.
No dia 31 de Janeiro de 1891, pelas duas horas da madrugada, vários regimentos de cavalaria, infantaria, caçadores e guarda fiscal convergiram no Campo de Santo Ovídio. Ao mesmo tempo, no quartel de infantaria 18, na actual Praça da República, duas companhias arrombaram as portas do aquartelamento e juntaram-se aos revoltosos. “Nisto aparece a música do 10 de infantaria, que forma à frente das tropas executando A Portuguesa. As cornetas tocaram, e as forças puseram-se em marcha, enquanto alguns populares a saudavam e os sinos da Lapa tocavam a rebate” (Ilustração Portuguesa, 1891).
Faz hoje precisamente 114 anos que Portugal fez a primeira tentativa para se livrar de vez da monarquia. É, e deverá ser para sempre, um dia de regozijo.
O golpe, como se sabe, correu mal. Vinte dias depois do programa do Partido Republicano ter sido aprovado, tropas e povo eram escorraçados num banho de sangue Rua de Santo António abaixo pela guarda municipal instalada nas escadarias dos balaústres da igreja de Santo Ildefonso. A República tinha durado uma manhã, proclamada por Alves da Veiga na varanda da Câmara. Porque falhou? Porque, opina José Augusto Seabra, os revolucionários, “apesar da coragem dos oficiais, dos sargentos e dos soldados, ladeados pelo povo anónimo e conduzidos por chefes como o alferes Malheiro, o capitão Leitão ou o tenente Coelho”, iam “às ordens dos chefes civis empolgados mas pouco preparados para o combate às armas”. Ou porque, diz Maria de Fátima Bonifácio, “os maiorais do partido [Republicano] abandonaram à sua má sorte” os sargentos da guarnição do Porto que fizeram a revolta.
O 31 de Janeiro é, antes de mais, o movimento de pensadores como Sampaio Bruno, Basílio Teles e João Chagas, homens que estão nos fundamentos democráticos e socialistas que sempre tiveram abrigo na cidade do Porto e na base de uma das mais esquecidas e vibrantes aventuras intelectuais da segunda década do século XX, a Renascença Portuguesa.
E tudo isto é ainda mais, diz-nos o recentemente desaparecido José Augusto Seabra: “Em todo o caso, como escreveu João Chagas, o 31 de Janeiro foi ‘o mais luminoso e viril movimento de emancipação que ainda sacudiu Portugal no último século’. E por isso mesmo Basílio Teles aduziu, em defesa dos republicanos do Porto, que ‘os erros que cometeram, prejudicando, talvez, a obra concebida por inteligências mais lúcidas e ânimos mais decididos, a posterioridade lhos perdoaria em atenção ao que sofreram, enquanto a monarquia roubava’. É que, com o seu sacrifício, os heróis do 31 de Janeiro fecundaram o húmus de onde iriam brotar as sementes vivas que no 5 de Outubro de 1910 haveriam de germinar na República democrática enfim vitoriosa” (artigo completo, incitando a Porto 2001 Capital Europeia da Cultura a celebrar o 31J, aqui.)
E quem tem tudo isto a ver connosco? Pergunto num sentido lato, bem para além das esquerdas e libertarismos que convergem no Barnabé, nestes tempos em que somos insistente e exageradamente apelidados de “o blogue do Bloco” (epíteto que gostaria que as pessoas fossem deixando de lado, porque só quem não lê com atenção as opiniões dos aqui oito escreventes é que não percebe as profundas diferenças de opinião que nos unem – sim, diferenças que nos unem). Perguntava: que tem o 31 de Janeiro a ver com todos nós?
Quero com esta pergunta chegar a isto: à ignorância, ou silêncio, a que a direita vota a história do liberalismo e do republicanismo português. Continuo a não perceber porque é que, num campo exclusivo de evocações de valores, e não de análises históricas, a direita não se reclama também herdeira das lutas que libertaram o país do absolutismo e da monarquia (a ditadura salazarista é outra conversa, claro). Falo, é óbvio, da direita com quem se pode ainda dialogar, uma direita ilustrada. Só vejo um motivo para este branqueamento: o medo de associação aos extremismos – e isso é absurdo. Mas, acima de tudo, ignorância. Qualquer manual de história moderna ensina-nos que também no liberalismo e na I República houve direita democrática – portanto, há um património que a direita de hoje pode reclamar com todo o à vontade. No entanto, nada disso acontece, e com isso, queira a direita ou não, para o melhor e para o pior, nesta discussão é a “esquerda histórica” que fica sempre com saldo positivo na história do progresso em Portugal.
Que tem então o 31 de Janeiro a ver com todos nós? Que devia ser uma data comemorada por todos. Em relação a isto sou totalmente patriótico. As consequências históricas do acontecido nesta data transformaram aquele dia no Porto numa referência total.
Em 10 de Abril de 1848, tão só 14 anos depois do liberalismo ter triunfado na Guerra Civil, o republicano Casal Ribeiro publicava o panfleto anónimo É tarde e terminava este texto, no mínimo embaraçoso para D. Maria II, anunciando o inevitável final da monarquia: “Se alguém duvidar, dir-lhe-emos – esperem e verão!”. E todos viram, em 1910, o resultado da obra de anos a fio, de uma forma ou de outra, de um conjunto enorme de lutadores anónimos ou conhecidos, civis ou militares, maçons, carbonários, saint-simonianos, proudhonianos, positivistas, socialistas, comunistas, anarquistas ou simples democratas à procura de um país mais humano.
No topo deste post está a fotografia dos combatentes civis do 31 de Janeiro, condenados ou absolvidos. Entre eles, João Chagas (terceiro da fila da frente a contar da esquerda), o abade Pais Pinto (quinto da terceira fila), Aurélio da Paz dos Reis (sétimo da segunda fila), Homem Cristo (na última fila, de chapéu) (foto retirada do catálogo Manual do Cidadão Aurélio da Paz dos Reis, Centro Português de Fotografia, 1998). Que gente civilizada! Presos, mas a ler o jornal! E de tranquilíssimas e convictas faces. Como se nos dissessem: “Esperem e verão!”.
Por acaso costumo vê-los quando vou à minha cidade, ali pelos lados da Baixa, subindo ou descendo a Rua 31 de Janeiro.
Ainda a propósito da entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã (ver posta seguinte), aproveito para lamentar o facto de nenhum dos dois saber quem foi o Almirante Cândido dos Reis, o chefe da revolta republicana de 1910 que se suicidou na madrugada do dia 4 de Outubro por lhe terem transmitido informações que asseguravam a derrota do movimento. A educação anda de mal a pior e para cima dos 40 anos já ninguém sabe nada.
Meditemos, jovens, sobre o Almirante Reis. Ele ensina-nos duas coisas preciosas, a saber, que para se ter uma vida longa é necessário 1) dispôr da informação correcta e 2) não ser pessimista.
Para os agarrados do telelixo, o escândalo supremo do ano televisivo deu-se logo aos primeiros minutos quando Alexandre Frota pespegou um beijo na boca a José Castelo-Branco. Para os agarradinhos da política o momento equivalente deveria ser a entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã na última Sábado.
Muitas vocações desviou a arrogância – a verdadeira – dos monopolistas da realidade que estiveram no governo, daqueles que passaram três anos a dizer que não poderia ser de outra forma, que o país não chegava lá a não ser por aquela mistura tão peculiar de tacanhez, incompetência e autismo. Já tivemos Cavaco, Marcelo e Pacheco contra Santana e agora Freitas com Sócrates. Mas em nenhum caso a mudança foi tão coquette como com MEC.
Ameaçou aqui:
MEC: Até agora, só disseste coisas de senso comum, como diria um social-democrata dos mais antigos. FL: Fico muito contente [...] MEC:É que são mesmo... FL:Ainda bem que pensas assim. MEC:Oha, pela parte que me toca, também fico contente.
É impossível ler estas frases sem largar um cínico "vá lá! dêem lá um beijinho...". Mas como Louçã é do tipo arredio, MEC teve que concretizar mais à frente, na crónica que escreveu para acompanhar a entrevista. O chocho vem logo no título provocador por excelência: chamar "O Senhor Senso-Comum" àquele que tem sido o maior ódio daqueles que julgam ser herdeiros desse conceito (que proclamam aos sete ventos ser apenas e só britânico como o chá das cinco – inventado por Dona Catarina de Bragança) há de ter deixado despenteadas algumas consciências aprumadinhas (a começar pelo próprio Bloco de Esquerda). E prossegue:
«É esse atraso – e o facto de o Bloco de Esquerda estar empenhado, nas actuais circunstâncias, em partir pedra multissecular para alcançar os mínimos modernos dessa dignidade – que me leva a recomendar que qualquer pessoa de direita que esteja momentaneamente desencantada com os partidos que procuram representá-la não hesite em votar no Bloco, se a alternativa for abster-se ou votar em branco. Por agora – mas só por agora...! – faz todo o sentido.»
Repare-se. Não foi um beijo apaixonado nem um linguado de quem já perdeu a cabeça e agora que se lixe. Foi um chocho de quem sabia muito bem o que estava a fazer e a quem ia chocar no meio do bailarico. Porque esta entrevista foi um bailarico, como diz o próprio MEC, lamentando-se por Louçã não saber dançar um "fox-trot conservador" e terem tido de se encontrar num "consensual cha-cha-cha". E foi um bailarico porque nos bailaricos há sempre aquelas velhotas sentadas num banco corrido que tapam a boca com a mão e lançam "aahhs" e "oohhs" prolongados de cada vez que os jovens ameaçam namoriscar. E também não faltaram aqui, sob a forma da própria direcção da Sábado que resolveu escrever um editorial intitulado "Pense bem antes de votar no Bloco", avisando os seus ingénuos leitores de que o Bloco é um partido "revolucionário a sério" (e se calhar até eles acham que são...) e só faltando insinuar que se procurarmos bem ainda havemos de achar na sede dos bloquistas as ementas dos famosos pequenos-almoços com criancinhas.
Os meios podem ser outros, mas a mentalidade de aldeia sobrevive.
[Pedro Sales]
Santana está de novo com gripe e parou a campanha. Talvez o PSD recupere qualquer coisa.
Diz-se que votaram 60% dos iraquianos. Estou confuso. Há 27 milhões de iraquianos, o que deverá corresponder a 20 milhões de adultos. Votaram oito milhões. Ou seja, os 60% ou 70% que votaram só podem, mais coisa menos coisa, corresponder apenas ao universo de 14,5 milhões que estavam registados. Como é normal, quem não tencionava votar nem sequer se registou. Ou seja, terão votado pouco mais de 40% dos iraquianos que teriam, numa situação normal, direito a voto.
Isto tudo, esquecendo o facto de, e esse é que foi várias vezes referido como um problema central para o futuro do Iraque, a esmagadora maioria dos sunitas ter ficado de fora do acto eleitoral e da representação política. E esquecendo o facto de não haver praticamente jornalistas nas zonas sunitas. E de não haver observadores internacionais no Iraque. Estão a observar de longe, na Jordânia. As eleições foram acompanhadas por iraquianos treinados por eles, mas sem nenhumas garantias de independência. Dantes, em qualquer outro país, ninguém daria um chavo por estes números. Mas, no Iraque, o que interessa é cantar vitória.
Depois do "choque tecnológico" de Sócrates e do "choque de gestão" de Santana, Portas vem dizer que aquilo de que Portugal precisa é de um "choque de valores".
Depois de uma pausa para o fim-de-semana, o nosso passatempo São Bordalo regressa para excitar a emulação entre os nossos leitores. A jornada de sexta-feira foi difícil, pois tanto ao croupier como aos jogadores faltava frescura anímica. Ainda assim, quatro prestações ficaram na retina do júri, que numa competição renhidíssima decidiu por voto de qualidade atribuir o prémio ao Tulius Detritus d'A Memória Inventada. Não é preciso blogue para concorrer, minha gente! Habilitem-se a ganhar um livro do Barnabé autografado pelos autores (não, não vem embrulhado em folha d'ouro).
Estamos no segundo semestre de 1886. Fontes Pereira de Melo já não era primeiro-ministro desde o início do ano. São Bordalo fechara O António Maria e fundara o Pontos nos ii. Havia um novo governo, agora progressista e chefiado por José Luciano de Castro (que talvez seja a figura da direita), mas formado por sugestão do próprio Fontes, apesar de o seu Partido Regenerador ter maioria no parlamento. Estranho? É bem verdade. Mas poucos meses passaram antes que Fontes ressuscitasse para a política activa, embora jurasse que não, começando a escrever nos jornais cartas sibilinas, para escândalo do progressista Mariano de Carvalho que vemos ali atrás...
Esta é apenas uma explicação. A outra é que o enviado especial de Pontos nos ii ao início do século XXI tenha testemunhado algo que traduziu para os seus leitores de oitocentos em termos que eles pudessem compreender. Que viu ele?
Têm até à meia-noite para nos dizer.
“E é ver o Paulo Portas, já com um olho no burro e outro no cigano”. Ainda antes de ter terminado a frase, julgo que Jerónimo de Sousa se deu conta de que tinha acabado de cometer uma terrível gaffe (a voz tremeu-lhe ligeiramente no fim). Se fosse um político de direita a proferi-la, quase que aposto que hoje teríamos o SOS Racismo a pedir-lhe contas. Como é o Jerónimo, é possível que façam vista grossa (e daí não sei, o SOS Racismo é uma daquelas organizações de “frente” do Bloco, e nesta altura todos os votos contam).
Espero que sim. Sei que a minoria cigana no nosso país é uma minoria pouco estimada e que tem de enfrentar toda a espécie de preconceitos e perseguições. Mas a expressão “ter um olho no burro e outro no cigano” é tão castiça e eu já não a ouvia há tanto tempo que me sinto tentado a desculpar o Jerónimo, que também é um dos líderes mais castiços que temos por cá. E, afinal de contas, vamos lá saber, quantas vezes é que não gritaram “Cigaaannoo!” na última vez que foram à bola?
O défice financeiro em relação a Bruxelas não me preocupa. Com mais ou menos rigor, esticando de um lado ou de outro, resolve-se. E também, se não se resolver... Agora o défice pimba em relação a Bruxelas, o défice da política tablóide, esse, não sei como é que um governo de esquerda, seja ele qual for e tenha ele os apoios que tiver, vai poder resolver. Como é que se chegou até aqui? Não vai haver tempo para perceber, mas vamos ouvir muitas vezes que a culpa é do povo. Claro, está à vista que a culpa é do povo.
É sempre com imenso gosto que apresento o blogue de um amigo aqui no Barnabé. Desta vez trata-se d’O Sinédrio, blogue unipessoal de Gonçalo Curado. Bem-vindo, Gonçalo, e longa vida ao teu blogue!
Confesso que me surpreende a sanha com que ontem, no programa “Eixo do Mal”, Pedro Mexia se referiu a Freitas do Amaral. Quer dizer, eu percebo que os intervenientes do programa tenham todos de ter o seu momento mais contundente, mas às vezes convém calibrar bem as críticas. Se o Pedro desancasse Freitas do Amaral pelas suas simplórias peças de teatro, ou pela sua medíocre biografia de Dom Afonso Henriques, por exemplo, eu até percebia. Mas criticar Freitas por ser um reles vira-casacas, isso é que já me parece mais questionável. Se nós tivermos em mente o que era a Democracia Cristã na Europa das décadas de 60 a 80, por exemplo, eu diria que Freitas se tem mantido razoavelmente coerente em relação a essa matriz ideológica (não obstante a sua participação em comícios anti-guerra do Iraque em 2003, ao lado de Soares, Pintassilgo, Ferro Rodrigues e Louçã).
Finalmente, a relação de Freitas com o Estado Novo. Pedro Mexia sugeriu ontem que no seu livro de memórias (O Antigo Regime e a Revolução, 1995) Freitas se referia fugazmente ao marcelismo, por exemplo (confesso que àquela hora – 00:45 - eu já estava a cabecear, por isso corrijam-me se eu tiver percebido mal).
Ora, eu vou refrescar a memória do Pedro. A governação de Marcelo Caetano (1968-74), e o relacionamento pessoal e político de Freitas com o seu antigo mestre e colega de faculdade, estão amplamente documentadas no livro. Têm direito a um capítulo de 63 páginas, as quais incluem vários relatos de conversas de Freitas com Marcelo Caetano (se fielmente reproduzidos ou não, isso já é outra história). Freitas, aliás, nunca negou a admiração que sempre nutriu pelo sucessor de Salazar, em especial no plano intelectual e académico. Julgo até que foi um dos proponentes da sua reintegração, a título póstumo, na Faculdade de Direito de Lisboa, não há muitos anos atrás.
As mães de Bragança [Foto Lusa/Estela SIlva]
As galinhas têm dentes. Os porcos voam. Santana Lopes defende a família tradicional.
Meu caro Luciano, enganas-te. O que se está a passar hoje no Iraque não é a democracia em acção. É uma eleição. São coisas diferentes.
Subitamente, o tema dos “valores” irrompeu na campanha. Entramos, pois, em terreno minado. Santana desafia Sócrates a tomar posição sobre os casamentos homossexuais e Luís Filipe Meneses alerta os portugueses para o risco da “primeira medida” de um Governo PS ser a legitimação da adopção de crianças por homossexuais. Por seu turno, Louçã responde dizendo que essa é uma questão que deve ser deixada aos tribunais, pois há precedentes de juízes portugueses terem entregue a tutela paternal de uma criança a um pai (homossexual), em detrimento da mãe (que não reunia as condições, possivelmente emocionais ou outras, para assumir a guarda da criança). Ou seja, aparentemente, o Bloco de Esquerda (à semelhança do que sucede com o PS) também não se propõe legislar já no próximo parlamento sobre a possibilidade de casais homossexuais virem a adoptar crianças (uma coisa bastante diferente da tutela paternal).
E a meu ver bem. Sou completamente favorável à possibilidade dos gays se casarem pelo registo civil e desfrutarem todos os direitos e regalias de um casal hetero. Já a questão da adopção de crianças me parece bem mais problemática. Exige um amplo debate nacional e, sobretudo, que se evitem os voluntarismos “fracturantes” da nossa esquerda jacobina, apenas susceptíveis de galvanizarem as forças mais conservadoras da sociedade portuguesa.
“Este homem é conhecido pela sua natureza sedutora”.
Augusta Ferreira, doméstica, no almoço das mil mulheres com Santana, 29 de Janeiro“Ele ainda é do tempo em que os homens escolhiam as mulheres para suas companheiras”.
Manuela Cardoso, funcionária pública, idem
“Bem-hajam os homens que amam as mulheres”.
Idem, ibidem
“O outro candidato [José Sócrates] tem outros colos. Estes colos sabem bem”.
Pedro Santana Lopes, idem
Fonte: texto de Alexandre Praça no Público de hoje.
“Este homem já sabem quem é”, de Ana Sá Lopes.
Todos temos as nossas irritações. Mas quando se escreve não basta saber que se está irritado, é preciso saber como se está irritado.
Não é assim com Helena Matos. Helena Matos escreve com a espinal medula. Os seus leitores de direita não dão por isso e até os há que a admiram. É porque reconhecem nela aquilo que sentem, e esse reconhecimento, como uma música que regressa ao seu tom, produz uma satisfação que apazigua neles as imperfeições e as contradições do que leram. Já para mim, o discordar de Helena Matos até é o menos – o problema está em segui-la. Eu bem vejo que ela está zangada; ela lá saberá porquê, mas não me sabe explicar-se. Falta-lhe o como, o distanciamento em relação aos seus próprios sentimentos (de raiva contra a esquerda, de medo em relação ao futuro, etc.), a frieza que lhe permita descrevê-los com um mínimo de exactidão. Há cronistas de direita com quem discordo mais ainda mas cuja argumentação acompanho quase sem dar por isso. Os textos de Helena Matos são viagens num carro sem suspensão por uma estrada esburacada; como é natural, a condutora vai o tempo todo aos berros.
Esta semana escreve sobre Espanha e, como de costume, só ela viu, só ela se escandaliza, só ela se preocupa. Só ela viu que Carod-Rovira, líder dos independentistas da Esquerda Republicana Catalã – no governo da Generalitat –, veio a Lisboa dar uma conferência. Só ela se escandaliza por ele não "discursar num encontro obscuro ou na sede dum movimento extremista", mas na Fundação Mário Soares. Só ela se preocupa por causa da nossa "inconsciência assombrosa" ou da nossa "assombrosa capacidade" de "nos distrair do essencial e perdermo-nos com o acessório".
O artigo chama-se "A Natureza do Mal" e nele tudo é assombroso. Assombroso que Carod-Rovira tenha falado de Portugal como uma "região da Ibéria". Assombroso que ele tenha dito que, com a independência da Catalunha e de outras nações espanholas, a Península passe a ser uma realidade política multipolar. Assombrosa a nossa passividade perante estas declarações: "Em Portugal, nós já escutámos Rovira dizer-nos qual é o nosso futuro estatuto. Esperemos que não seja demasiado tarde quando tivermos percebido o que ele, de facto, disse. Não sobre a Espanha. Mas sobre Portugal."
Vamos então por partes. Desde logo, se entendermos "Ibéria" por "Península Ibérica" é óbvio que Portugal é uma região da Ibéria (como é uma região da Europa) e não precisamos que venha cá nenhum catalão dizer-nos isso. Escandaloso seria que Carod-Rovira nos dissesse que não somos uma região da Ibéria, ou então que nos dissesse que somos uma região de Espanha (embora isso só se tenha tornado escandaloso a partir de finais do século XVII). Se Helena Matos fosse norueguesa imagino que estivesse agora com os nervos em franja por descobrir-se escandinava.
Em segundo lugar, seria certamente uma mudança chocante se a Espanha se separasse, e Portugal seria provavelmente o estado estrangeiro a ter de se preocupar mais com essa mudança, caso ocorresse. Mas que propõe Helena Matos que façamos nós? Que os obriguemos a ficarem juntos? Que tratemos os independentistas catalães como párias? Nós somos só os vizinhos do lado; se a família se decidir divorciar de pouco nos serve arrancarmo-nos os cabelos ou deixar de falar a um dos cônjuges.
Não deixa de ser um tema crucial para se pensar. Mas isso mesmo – para se pensar. Não para gritar fogo nem para abanar os outros pelos ombros nem para chamá-los de irresponsáveis. A nossa capacidade de intervenção aqui é limitada por natureza e ainda auto-limitada por opção. E uma pessoa que escreve num jornal não deve apenas irritar-se; já que nos vai fazer gastar o nosso tempo, deve também saber para quê está irritada.
Christian Parenti é jornalista, um dos poucos que estando no Iraque tratou de fazer reportagem tanto do lado das tropas americanas como da resistência iraquiana. Numa entrevista recente à MotherJones descreve o que era a normalidade do quotidiano de Abu Ghraib. Os dois parágrafos que transcrevo são contundentes em relação à inexistência de uma estratégia para o período de ocupação e descrevem o ambiente de terror que se vivia dentro da prisão.
This is just pathetic and ridiculous. It represents a blatant admission of defeat -- they have no idea how to fight the resistance, so they are just going to round up Iraqis and throw them into Abu Ghraib. That’s not a strategy and this soldier, who is completely pro-war, was extremely worried about that. Imagine if you were pro-war and wanted to invade Iraq, which is what this soldier believed, the way they are doing it is just insane. You grab a bunch of civilians and then throw them into prison camps where there are actually people active in the resistance. You basically allow people who are pissed off to associate with those active in the war and the prison becomes this massive recruiting center."
Quanto à liberdade, Akeel, iraquiano de 26 anos, residente em Baghdad, disse isto quando interrogado sobre a nova vida no novo Iraque livre: "Ah, the freedom. Look, we have the gas-line freedom, the looting freedom, the killing freedom, the rape freedom, the hash-smoking freedom. I don't know what to do with all this freedom."
So how does it feel?
A vaga de frio nacional, como sabemos, foi peculiar: chegou um pouco atrasada em relação ao resto da Europa e constituiu-se em torno de algumas manifestações esporádicas.
Ou seja: pode ter surpreendido o metereologista, mas não surpreendeu o historiador da arte.

Paulo Portas declarou que o objectivo do CDS/PP para as eleições é ficar à frente do PCP e do BE. Deve achar que somos todos desmemoriados. O objectivo declarado do CDS/PP, até hoje, era ter mais votos do que o PCP e o BE juntos, o que é completamente diferente. Se reduziu as expectativas, que o diga claramente. Agora não pode é andar a redefinir na calada o que seria uma derrota para si de forma a disponibilizar-se permanentemente para o poleiro. Já estou a vê-lo, na noite das eleições, declarar vitória porque teve mais votos do que aquilo que eu lhe desejo...
Via A Lâmpada Mágica, consulto os documentos mais idiotas deste país: as listas de nomes admitidos e não admitidos no registo civil. Fique então o leitor a saber que, se gerar vida e lhe quiser dar um nome, o nosso prestimoso estado ordena o seguinte:
Pode chamar-lhe Ingeburga, mas não pode chamar-lhe Ingrid.
Pode chamar-lhe Habacuc, mas não pode chamar-lhe Adorinda.
Pode chamar-lhe Xenócrates, mas não pode chamar-lhe Orfeu.
Eu compreendo a boa intenção de não querer que os pais lixem a vida aos filhos com um nome ridículo (por estranho que pareça alguém quis dar o nome "Lúpus" a um recém-nascido, em 2001), embora fosse mais simples permitir que as pessoas mudassem o nome a partir de certa idade. Mas é uma boa intenção vazia, porque qualquer pai que queira mesmo lixar a vida aos seus filhos pode ir à lista dos nomes admitidos e escolher sem problemas Messias, Maria Ranú, Singeverga, Micaek de Jesus, Maria da Agonia, Anália ou, por exemplo, Cristiano Ronaldo.
Pensando bem, este talvez não.

Outdoor de Santana Lopes

A identificação com Henry James é democrática. Mas faltou acrescentar que hoje se escrevem posts em vez de romances. Não é que não gostasse, mas isso é que já não é para todos.
Ao sábado, combinava-se ir a um teatro ao West End. Antes disso, dava-se uma volta pelo Hyde Park, passava-se pelo clube de gentlemen e despachavam-se umas cartas. Agora combina-se um cineminha em Montparnasse, e antes disso mata-se o tempo no café do bairro e a escrever uns emails aos amigos. É bom à mesma e dá para todos. Afinal sempre há Progresso, é preciso é procurá-lo.
«Expresso - A actual Coreia do Norte não é um embaraço para o PCP?
Jerónimo de Sousa - Há muitas diferenças e divergências, o nosso rumo será diferente. Mas num momento em que, à escala planetária, o capitalismo tenta impor o seu poder absoluto, quem resiste a essa ordem única merece atenção e acompanhamento. Valorizamos esse facto, sem silenciar as diferenças.»
Mas haverá embaraços para um estalinista?
António Vitorino admite vir um dia a candidatar-se à liderança do PS
Dois importantes contributos para elevar a fasquia da nossa exigência em relação a um futuro governo do PS. O primeiro de André Freire, o segundo de Teresa de Sousa.
Para aqueles que ainda estão a tentar recuperar-se da vitória do George W.Bush, uma notícia interessante (sem link disponível, de dia 12 de Janeiro e do Financial Times, e que só ontem é que descobri..sorry guys pelo atraso...): um grupo de multimilionários liderados por George Soros (Grande!, como diria o meu amigo italiano) reuniu-se, em porta fechada, em São Francisco (só podia ser aqui!) e decidiu doar milhões de dólares (não se sabe o valor certo, mas fala-se em 100 milhões para os próximos 15 anos!) a organizações/instituições que promovam ideias progressistas nos E.U.A., num esforço para contrabalançar os “emergentes” conservadores dos últimos anos activos principalmente através de think tanks como o Heritage Foundation. O Center for American Progress e o Open Society Institute serão provavelmente os responsáveis pela gestão dos donativos. Afinal nem tudo está perdido!!!God Bless America!
Alguns dados sobre a Fauna Humana em Davos...
66 por cento são homens
41 por cento estão nos seus 50s
70 por cento vêm da América do Norte e Europa
Só 15 por cento dos delegados vêm da Ásia, onde habita mais de metade da população mundial e onde estão actualmente as economias mais dinâmicas do mundo....(segundo uma sondagem electrónica citada pelo Financial Times, 27.01.2005)
Vocês façam a vossa interpretação dos dados....e comparem com a fauna humana em Porto Alegre....
Pergunto eu: A diversidade é importante?
P.S: Dois blogs que valem a pena do pessoal do Open Democracy: http://opendemocracy.typepad.com/wsf/ e http://opendemocracy.typepad.com/davos/
«PSD desafia Sócrates a revelar rendimentos».
Sabem, no fundo acho que adoro este gajo.
Nuno Melo [CDS-PP], agora na RTP-N: "Bem, antes de fugir a essa questão, eu quero – antes de responder, antes de responder..."
Quase não pude acompanhar as celebrações dos 60 anos da libertação do campo Auschwitz-Birkenau. Mas queria partilhar convosco esta entrevista com a historiadora Annette Wieviorka, no Libération de ontem. Trata-se de alguém que tem trabalhado sobre a questão da memória na história ocidental recente, uma questão que se tornou particularmente visível de há uns anos para cá. Wieviorka procura ganhar distância perante a força emocional das imagens do Holocausto. Isto nada tem a ver com negar a importância única do acontecimento, como é evidente. É o contrário: é preciso continuar a compreendê-lo racionalmente, isto apesar do peso esmagador da memória, marcada pelo testemunho das vítimas e pelo efeito de presença dos lugares. Wieviorka critica por exemplo a forma como em França se organizam excursões de escolas secundárias a Auschwitz sem se preparar as crianças para o que vão ver (que, na realidade, parece ser muito pouco chocante se não houver previamente uma forte sensibilização histórica). Nesta outra entrevista a autora desenvolve mais as suas ideias.
Relativamente a este caso que o Pedro aqui refere abaixo, podia-se acrescentar que psicanalítico não é Freitas, mas a relação que o PP tem com Freitas.
A mim o que me faz confusão (mas guardo-a para mim logo depois deste desabafo, estejam descansados) é que Maria José Nogueira Pinto ainda não tenha percebido que todas as pessoas, quer queiram quer não, são casos psicanalíticos.
A sanha com que a direita reagiu ao artigo de Freitas é digna de se ver. Passando por cima dos insultos que o lumpen do PP imediatamente lhe dirigiu, custou-me ver uma pessoa inteligente como Maria José Nogueira Pinto juntar-se à vozearia. Ontem à noite, no debate com Luís Fazenda na SIC-Notícias, MJNP referiu-se às recentes tomadas de posição de Freitas como um caso psicanalítico. Não tarda nada, alguém há de pedir o internamento do senhor. A liberdade de pensamento é realmente uma coisa esquisita neste país.
Freitas do Amaral deu-me duas alegrias na vida. A primeira, faz este mês quase vinte anos, foi quando perdeu as eleições presidenciais para Mário Soares. A cara de enterro dos betinhos do Pedro Nunes, encafuados nos seus lodens verdes e "palhinhas", é uma daquelas imagens sublimes que me tem acompanhado pela vida fora. A segunda foi ontem, com o seu artigo na Visão apelando ao voto no PS. Bem-Haja, professor Freitas, bem-haja.
Paulo Portas: «Não sei se é o mesmo professor Freitas do Amaral que eu conheci».
Freitas do Amaral anuncia que vai votar no PS. E eu que já estava a contar com o voto dele.
PS 46% - PSD 28% - PCP 8% - BE 8% - PP 6%
Sondagem da Universidade Católica

Guterres apoia Sócrates. Tão simples facto, noutros tempos, seria mesmo só isso: um facto simples. Mas a tradição já não é o que era. Vejam-se os casos do PPD/PSD e do CDS/PP. Cavaco, preocupado com a sua carreira académica, quer distância daquilo em que Santana transformou o partido que outrora liderou. Freitas, independente, há muito que vê a reencarnação do seu partido afastar-se velozmente de si e declara-se agora apoiante do PS. É lógico que o faça. Que mais não fosse, tem uma carreira académica a defender. Mas a verdade é bem outra, a verdade é que no próximo dia 20, tanto o PPD/PSD como o CDS/PP que se apresentam a votos são apenas degenerescências daquilo que outrora foram. É só isso o que Cavaco e Freitas nos querem dizer. Ainda por cima, no caso de Cavaco, com graça.

Raphael Bordallo Pinheiro, O cache-nez barometro, in O Antonio Maria, 3 de Fevereiro de 1881. Clique para aumentar.
Differentes aspectos do instrumento. / Vento ou Chuva. / Variavel. / Bom tempo./ Bom tempo fixo. / Indicação no momento presente: Tempestade.
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A jornada de ontem do nosso passatempo foi até agora a mais participada. A nossa escolha foi difícil, mas o vencedor foi o Jorge Candeias, do excelente blogue de bibliofilia e ficção científica A Lâmpada Mágica. À terceira tentativa foi de vez, e o Jorge Candeias derrotou ontem o até agora invicto Pedro Vieira. Mas há vários novos concorrentes a espreitar o prémio principal – um livro do Barnabé autografado por nós. Vejam a jornada de ontem e a resposta vencedora aqui.
Muito bem, vejamos como é que se safam desta, escolhida de propósito para ilustrar a nossa vaga de frio – que afinal não foi um flop. "O cache-nez barómetro" representa o Duque de Ávila – açoriano do Faial que acompanhou as primeiras décadas do liberalismo e que era, à época desta caricatura, fiel da balança entre Regeneradores e Progressistas. Morreria três meses depois da publicação deste desenho. São Bordalo gostava de o representar com o seu cache-nez, que utiliza aqui como indicador das relações entre os dois partidos, aqui representados pelos seus líderes, Anselmo José Braamcamp e Fontes Pereira de Melo. Na última vinheta o cache-nez indica tempestade para os próximos tempos.
Mas o que é que isto quer dizer? Têm 24 horas para responder.
O vencedor da jornada é Tulius Detritus d'A Memória Inventada com a seguinte leitura:
Tudo começará por acaso, mas é a história de um futuro inexorável. De visita a uma fábrica da moribunda indústria têxtil, o primeiro recebe um cachecol violeta, Sem perder um directo no jornal da noite, a Secretaria de Imagem do Primeiro,- entidade ainda embrionária no governo anterior, em breve reciclada e com orçamento de ministério- faz do cachecol um símbolo de compromisso com o povo. Rezarão as crónicas que o Primeiro se comprometeu a usar o cachecol todos os dias, enquanto a tragédia do Vale do Ave se arrastar. De início a jogada parece ter sido de mestre. De uma assentada, legitima-se a vaidade natural do Primeiro e capitaliza-se na imagem forte que é ver o frágil pescoço de um líder à mercê de uma promessa. Só que ninguém podia prever o que sucederá (assim mesmo). O cachecol violeta passa a ser a obsessão da imprensa e o objecto predilecto dos cartoonistas. Das acusações de fomentar o culto da personalidade, à demagogia, instala-se um clima de chacota. O povo usa a peça de roupa em piadas que saem ao ritmo de fornadas de pão. Porém, em pouco tempo, da chacota passa-se à desconfiança, e o povo - alucinado pela frustração- troca o violeta do cachecol pelos reflexos húmidos da pele de uma anaconda. De coagido, o Primeiro passa logo a constrangido e acaba quasi-sufocado em pleno Verão, este sim, um Verão mesmo quente. Cada vez mais perturbado com a crise, o Primeiro é agora representado como uma múmia violeta. Tudo é material para especulação: cada dobra do cachecol, cada jeito novo, cada borboto captado pelo zoom de um canal privado. Especialistas na interpretação das vísceras reciclam-se em cursos de formação. A astrologia floresce, o investimento decresce. De pantanas, o governo cai antes do Natal. A gota de água? Ainda o cachecol, claro. É certo que o Primeiro vai honrar o promessa, mas alguém descobrirá que, afinal, o modesto cachecol foi a dada altura trocado por um outro, de material- como dizer isto sem ofender a briosa gente do Vale do Ave?- menos sintético. Hugo Boss emitirá um telegrama de pesar, aproveitando para declinar qualquer envolvimento no episódio.

Os patrões da Indústria, do Comércio e Serviços, do Turismo e da Agricultura vão apresentar ao próximo Governo propostas para ultrapassar a crise. Na imagem, os distintos cavalheiros ensaiam a coreografia antes de entrarem na conferência de imprensa de ontem.
A respectiva notícia do Público.
Por falta de tempo ainda não fiz a minha declaração de voto. Virá antes das eleições. Mas hoje, na Visão, Freitas do Amaral encarregou-se de me roubar alguns argumentos. Por vingança faço dele o meu Donaldo. A minha posição é simétrica à sua, ou seja: chegamos à mesma solução vindos de lados exactamente opostos, ainda que ele esteja mais entusiasmado do que eu. Embora não subscreva tudo, há uma noção muito clara do que é realmente importante e do que é acessório na situação portuguesa nas palavras do político português mais solitário. Vão ter que comprar a revista para ler, já que não há link. Eu voltarei ao tema um pouco mais tarde.
«O centro é um lugar ideologicamente vazio». Maria José Nogueira Pinto, na SIC Notícias, a propósito de Freitas do Amaral.
Pelos visto o que há é a direita da esquerda e a esquerda da direita. Para passar de um lado para o outro é preciso saltar uma vala rodeada de arame farpado. Antes de repetir lugares comuns (uma coisa é o centrão sociológico, outra o centro ideológico), Maria José Nogueira Pinto bem que podia ir estudar um pouco de ciência política e, já agora, a história do partido para onde entrou há apenas seis anos.
«O Dr. Freitas do Amaral já participou numa manifestação ao lado do Dr. Louçã e da Dra. Odete Santos.». Telmo Correia, SIC Notícias.

Oitenta por cento dos jovens portugueses não usa preservativo

Sobreviventes nas comemorações dos 60 anos da horrenda frase proferida por Francisco Louçã em resposta a Paulo Portas na campanha eleitoral de 2005.
[NOTA: Sou de opinião que o holocausto é uma excepção a muitas regras gerais – entre as quais nomeadamente à de que se pode brincar com qualquer coisa. Vejo que alguns leitores interpretaram erradamente este post como sendo uma piada com ou sobre o holocausto. É esse tipo de erro que me obriga a abrir outra excepção: a de explicar uma piada, o que lhe tira todo o interesse. Neste caso, a piada refere-se às pessoas que compararam a frase de Louçã (que eu próprio aqui chamei de "argumento de autoridade intolerável", e portanto estou à vontade para falar) com o neofascismo, o salazarismo, e quejandos. É a essas pessoas, e não a mim, que devem ser pedidas contas pelo exagero e pelo mau gosto – e é isso que eu aqui satirizo. Quem entendeu, entendeu. Quem não entendeu, tem agora este esclarecimento, por uma vez sem exemplo. Não quero ofender ninguém – ou melhor, querer até quero – mas não em assuntos de holocausto.]
Caro Mac, ainda bem que me perguntas isso. Intelectuais públicos aqui na minha zona não há nenhum. Há dois intelectuais, que sou eu e o meu vizinho luxemburguês. Mas não fazemos mal a uma mosca: ele porque está ali sossegadinho num quarto forrado de livros, coitado, a dar umas explicações de vez em quando que mal lhe devem dar para viver, e eu porque simplesmente sou boa pessoa. Mas não somos públicos. Aqui em França também não há muitos intelectuais públicos que restem. A não ser que se considere o Bernard-Henri Lévy um intelectual, mas aí já estamos a usar um conceito um bocado abrangente de intelectual. Lá público, sim, isso ele é. Portanto, os intelectuais públicos já não atacam aqui na minha zona. A única hipótese... peraí pá... A única hipótese é que o Francis Fukuyama e o Samuel Huntington tenham dado recentemente uma volta aqui por Paris. Espera aí... É pá, sim, sim. Estou-me a lembrar, pá... Passaram por cá sim senhor. Vi-os os dois todos contentes, até estavam juntos sim senhor, estavam ali os dois a indignarem-se com o facto de haver fotos do Sartre à venda em postais, ali nos bouquinistes, ali à beira Sena. Esse crápula, esse criador de teorias legitimadoras prontas a usar por governantes com pouco escrúpulos. Sim, sim, foi isso mesmo. Só mesmo Paris para nos proporcionar estas cenas. Já nem me lembrava desta história, vê lá tu.
O PS, caso deseje maioria absoluta, deve fazer um pouco mais por ela. Actuar como actua presentemente é, claramente, cumprir os mínimos. E o que é isso de cumprir mínimos numa questão tão delicada como esta? Bem, tão somente esperar que o eleitorado à sua esquerda vote PS apenas porque tem medo da direita. Queira-se ou não, é pouco. Posto isto, caso não a consiga só poderá imputar responsabilidades a si próprio, pela simples razão de não ter sabido capitalizar com uma situação de fragilidade do PSD que, a meu ver, não se repetirá tão cedo (não acredito que melhorem muito, impossível é descer mais baixo). O PS precisa de um golpe de asa que entusiasme o centro-esquerda mais esquerda que centro.
Assim, e ainda caso o PS não obtenha maioria absoluta, a grande questão é saber o que farão as esquerdas com qualquer coisa como 55 a 60% dos votos dos eleitores. Porque esses votos, numa perspectiva ainda de esquerda mas suprapartidária, representam também algo muito simples: uma clara reprovação à governação de direita. Senis e imaturos parecerão, aos olhos do eleitorado, todos os dirigentes que desbaratarem tamanho capital eleitoral. As consequências, num eventual cenário de novas eleições antecipadas, podem ser devastadoras. Nessa altura, no limite, teríamos evoluído num ápice de um regime de alternância democrática para outro de inexistência de alternativa democrática. Seria triste.
A BBC World está em directo de Auschwitz, numa emissão muito digna. Em voice over, o jornalista vai identificando as personalidades que chegam ao campo de exterminação. A certa altura diz, algo em estilo National Geographic Magazine, como se tivesse descoberto uma espécie em vias de extinção:
"... e também está cá Simone Veil, uma das mais estimadas intelectuais públicas da França. Sim, essa figura curiosa, o intelectual público, continua a existir em França..."
Ó André, tens visto muitos aí na tua zona? São perigosos? Tens fotografias? Rosnam aos britânicos?
Nos últimos dias, tem sido patente o esforço de vários dirigentes e activistas do Bloco em empurrar para debaixo do tapete a gaffe de Louçã. “Caramba, já enjoa”, “É injusto reduzir o Bloco a uma frase mal compreendida”, “Não nos desviemos do objectivo central que é derrotar a direita” – enfim, uma lenga-lenga que já se vai tornando familiar.
O próprio Louçã sentiu necessidade de enviar um texto para o Público, em resposta às críticas de Ana Sá Lopes e Eduardo Dâmaso (ignorando assim as de Graça Franco nas páginas do mesmo jornal). Depois, em intervenções de campanha, tem deixado cair frases ambíguas, que aparentam algum “arrependimento”, mas que na realidade não retiram uma vírgula à feia acusação que dirigiu a Paulo Portas no debate da 5ª feira passada (e que atingem um universo de indivíduos bem mais vasto do que aquele que o líder do Bloco teria em mente).
Este episódio é significativo a vários títulos. Vale a pena esmiuçá-lo um pouco mais para se compreender a verdadeira natureza do Bloco.
Foi um episódio revelador porque expôs o moralismo jacobino do Bloco – a obsessão com a transparência e a sinceridade, duas virtudes tipicamente jacobinas que também integravam a cultura puritana de extrema-esquerda que moldou a personalidade de muitos dos seus dirigentes. O corte com essa cultura foi feito, mas alguns tiques permanecem. E, pelos vistos, não serão assim tão poucos.
Em segundo lugar, ele revelou a dificuldade do Bloco em lidar com a crítica. Especialmente em temas que definem a sua imagem de marca. O Bloco está sempre na ofensiva, sempre de dedo apontado aos outros, aliás como é próprio dos partidos anti-sistema. Quando os holofotes se viram contra eles, a sensação de desconforto é grande.
Depois, o culto da personalidade, bem patente naquele cerrar de fileiras que se seguiu às declarações de Louçã. Gostava de deixar claro que sou um admirador da inteligência e das capacidades políticas de Francisco Louçã. Há muitos anos, de resto. Mas impressiona-me a idolatria de que é alvo por parte de muitos dos seus companheiros de partido. “Eh pá, os artigos que o Francisco publica lá fora…”, “E o último livro dele, os elogios que recebeu em Inglaterra…” “É um geniozinho, um geniozinho”. Quanto a mim, isto não gera um ambiente saudável. Quando um dirigente é colocado neste género de pedestais, torna-se difícil contestar a sua autoridade - por muito democráticos que sejam os mecanismos formais de participação e decisão dentro dos partidos. Em suma, o princípio da chefia carismática é um princípio bem mais enraizado na cultura do Bloco do que aquilo que os seus membros estão dispostos a admitir
O que nos leva ao quarto aspecto revelado pelo incidente da semana passada: o unanimismo do Bloco. Perante a sociedade, o Bloco gosta de se apresentar como um partido democrático e transparente – por oposição às redes de caciques e clientes que são os partidos do mainstream. Mas, na verdade, nós sabemos muito pouco acerca da vida interna do Bloco. Preguiça dos nossos jornalistas? Falta de sentido crítico? Talvez uma mistura das duas coisas. Por muito que a sua pequenez seja invocada como argumento, não deixa de ser estranho que nunca venham a público notícias de dissidências internas no Bloco. Nunca se vêem artigos de jornal desafiando a linha oficial, zangas, tomadas de posição divergentes – enfim, a conflitualidade típica de qualquer organização plural e aberta. Mais do que um partido, o Bloco é uma seita de fiéis.
“Declarámos uma guerra feroz contra o princípio da democracia e a todos os que o tentam levar a cabo”.
Abu Musab al-Zarqawi, líder da Al-Qaida no Iraque, 23 de Janeiro, Público, 24.1.2005
“Votas, morres”.
Frase pintada em várias paredes de Bassorá, sul do Iraque, Janeiro, Público, 25.1.2005
“Quem não votar na Aliança Iraquiana Unida [frente eleitoral xiita] deve preparar-se para responder perante Deus no Dia do Julgamento”.
Imã Jalal al-Deen al-Shagher perante os fiéis reunidos na mesquita xiïta de Boratha, Bagdade, meados de Janeiro, Público de 26.1.2005
“Sobre o distrito de Aveiro, eu, infelizmente, vi, da janela da casa da minha avó, muita gente ser atropelada na passagem de nível de Espinho (…) não foi em Coimbra ou em Faro que eu vi isso, foi no distrito de Aveiro”.
Manuel Pinho, cabeça de lista do PS por Aveiro, Público, 26 de Janeiro
António Mexia: As "metas aspiracionais" laranja não são promessas".

Défice: Governo acredita que é possível cumprir PEC
Nobre Guedes denuncia hipótese de Bloco Central.
O que diz o site do Partido da Terra sobre Santana Lopes, que abriu as listas do PSD a dois deputados terráqueos:
«Pedro Santana Lopes é "xenófobo", tem um "discurso bolorento" e produziu um programa de go-verno que era um "conjunto de vacuidades". Enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa cometeu "atentados aos direitos dos lisboetas" com atitudes de "arrogância, prepotência e desrespeito pelas regras da democracia" em questões como a construção do Túnel do Marquês de Pombal, obra "inútil, perigosa e despesista". [...] [O programa do Governo Santana] "é um conjunto de vacuidades" ditado pelo "neoliberalismo instalado no poder". De resto, sublinhava então o Partido da Terra, Santana já habituara o País a "algumas tiradas enriquecedoras do anedotário nacional". O MPT criticou também o "discurso bolorento e mesmo xenófobo" do primeiro-ministro na tomada de posse, apelando a Jorge Sampaio para ter a "coragem de o demitir".» [via Diário de Notícias]
O post Pedro Burmester a Ministro da Cultura, que analisa as propostas dos partidos para a política cultural, foi actualizado - nomeadamente por só agora ter lido o programa eleitoral do Movimento Partido da Terra.
Quanto aos outros partidos inscritos para as eleições: à excepção do Partido Humanista, cujas ideias para a cultura passam apenas por acções municipais, não há nada que se saiba do POUS, Frente Socialista Popular, Partido Nacional Renovador ou FER (que, aliás, parece ter feito uma deriva à direita e aproximou-se do BE). Nem o Movimento do Doente apresenta ideias.
O site do CDS também continua em baixo.
...quando um Benfica-Sporting era um Benfica-Sporting.
Enquanto os restantes companheiros se digladiam sobre o sentido de voto nas próximas eleições nacionais, gostaria de continuar a contribuir para que não mantivessemos uma relação tão intensa com o nosso umbigo...por isso, peço aos leitores do Barnabé que estejam atentos a dois grandes eventos internacionais que aí estão a acontecer...e maravilhem-se com o comportamento do Lula (sim ainda gosto muito dele!) que promete aparecer num e noutro e mostrar como é um líder essencial na luta contra a pobreza por esse mundo fora.
Para visitar o Forum Social Mundial em Porto Alegre (Brasil), clicar aqui.
Para visitar o Fórum Económico Mundial em Davos (Suiça), clicar aqui.
Pires de Lima recusa abrir "polémicas públicas" com o PSD

Jardim Gonçalves escolheu Paulo Teixeira Pinto para lhe suceder na presidência do Millenium BCP. E a família Espírito Santo? Será que vai escolher um Legionário de Cristo?

Raphael Bordallo Pinheiro, O Peixe que Preside aos Destinos da Marinha, in O António Maria, 15 de Fevereiro de 1883. Clique para aumentar numa nova janela.
«Por emquanto.............................nada»
«NOTA: Collorindo-o com o almagre com que pinta os tijolos da chaminé, terá o leitor um bonito adorno para a sua casa de jantar.»
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A jornada de ontem foi novamente ganha pelo Pedro Vieira [autor do interessante blogue "Vida Agridoce"] com outra bela análise iconológica que lhe valeu três votos, contra um voto para o leitor "Jorge" por uma também óptima leitura que vale uma menção honrosa. O André Belo também participou ilegalmente, uma vez que faz parte do júri, mas foi o único a identificar correctamente o contexto cronológico e a desmascarar o Professor Marcelo como atirador de facas chinesas nesta imagem. Como a safra foi boa, puxámos os três comentários para o post respectivo. Veja a jornada de ontem.
A imagem de hoje não estava prevista, mas temos de comemorar condignamente o facto de "só Portugal" ter "turismo e mar" [Paulo Portas]. Temos assim um esplêndido aquário, sustentado na coroa postiça de Fontes Pereira de Melo, e em cujo interior flutua o ministro da Marinha, José de Melo Gouveia. Alguém tem ideia do que isto possa querer dizer? Escrevam os vossos comentários até ao meio-dia de amanhã e habilitem-se a ganhar um livro autografado do Barnabé, que para já parece que vai direitinho para as mãos do Pedro Vieira. Mas haverá de ir sem luta?
Vencedor da jornada: Jorge Candeias, com a seguinte entrada: "O peixe é um cherne, animal outrora conhecido pelo impronunciável ápodo de Durão Barroso, e actualmente transmutado num tal José Manuel Barroso. Nada placidamente no aquário dourado da comissão europeia, alheio aos mesquinhos detalhes da vida política do seu charco de origem, embora ainda e sempre suportado por um cidadão Sampaio, cabeça coroada republicana e laica, que lhe terá garantido a pés juntos ("eu seja cego, surdo e mudo, pá!") que não dissolveria o parlamento nem convocaria eleições antecipadas. Cedo piaste, cedo piaste...". Parabéns e até amanhã.
No reboliço de alinhavar por aqui as primeiras linhas, disse ao Rui e ao Celso que não sabia como começar. Eles, lestos, “escreve um post sobre qualquer coisa pá”. (Obrigado rapazes)
Pensei então ir buscar umas palavras a “Wide Open Road”, magnífica canção de David McComb (The Triffids), em que depois da vida queimada se levanta a cabeça e olha-se em frente e “It’s a Wide Open Road”... pensei, “três anos de terra queimada e agora, dia 20, it’s a Wide Open Road”...
E que tal qualquer coisa do Townes Van Zandt? Não sei. O nosso cowboy deprimido de voz roufenha preferido? Talvez não, para tristezas já basta o Portas aos saltinhos mas cheio de sentido de estado.
Ou o Zeca? Do Zeca há sempre qualquer coisa. Sim, se “o país vai de carrinho” porque não o Zeca? Ou até umas palavras do Barnabé João (na realidade o pintor António Quadros, que o Zeca musicou em mais que uma ocasião). Tinha tudo a ver com o blogue...
Às tantas levantei a cabeça e olhei para o ecrã... E ei-lo! É um post sobre qualquer coisa. Nem mais, é um post assim como quem anda em busca de um começo.
Saudações barnabitas.
Citando Paulo Auster em A Noite do Oráculo (tradução de José Vieira Lima, Edições ASA, 2005):
"Pessoa é um dos meus escritores preferidos. Deitaram abaixo Salazar e agora têm um governo decente. O terramoto de Lisboa inspirou Voltaire a escrever Candide. E Portugal ajudou milhares de judeus a fugirem da Europa durante a guerra. É um país bestial. Eu nunca lá estive, é claro, mas, queira ou não queira, é lá que eu vivo agora. Não, Portugal é perfeito."
Esta vaga de frio está a ser um flop.
Os novos barnabés já têm a chave da casa e, deixem-me confessar isto, tiveram entradas em grande, o Luís Mah lembrando um documento essencial para o combate à pobreza global que pouca discussão tem entre nós, e o João Macdonald fazendo uma coisa que até não vi sequer em nenhum jornal, rádio ou televisão – um dossier comentado sobre os programas dos partidos na área da cultura.
Já agora, para eles e para os leitores menos habituados, gostaria de mostrar aqui dois cantos da casa. Estão um bocado empoeirados mas vamos voltar a usá-los. O Barnabé Rebelo de Sousa, ali tão conveniente no canto superior da direita, serve para ir disponibilizando documentos do mundo exterior: já lá coloquei o site dos Objectivos do Milénio de que falou o Luís Mah. O Barnabé XL, na coluna da esquerda que é a nossa janela virada para dentro, prolonga no tempo a consulta de textos volumosos como o do João Mac.
Porque seria uma pena que a posta corrente soterrasse textos interessantes como estes eles ali ficam , sempre ao vosso dispôr. E de borla.
Pedro, não podias ter escolhido pior exemplo do que o da Reforma Fiscal. O Bloco de Esquerda insistiu tanto nessa questão e esteve de tal forma disponível para acordos que participou numa negociação que durou meses e que envolveu Ricardo Sá Fernandes, Francisco Louçã e Octávio Teixeira. De repente, o PS tirou o tapete ao BE, ao PCP e ao seu próprio secretário de Estado. Tudo foi enterrado. Pouco depois negociava o Orçamento com Daniel Campelo sem nunca tentar negociar com PCP ou BE. Foi uma escolha, em que Sócrates e Coelho tiveram um papel central, não foi uma imposição.
Quando o PS enterrou o seu próprio projecto de Reforma Fiscal, e, agarrado a ele, o seu autor, o BE reapresentou a proposta do PS, sem lhe mudar uma linha, tal e qual fora desenhada por Sá Fernandes. Foi até Sá Fernandes que apresentou o projecto do BE aos jornalistas, junto com Louçã, em conferência de imprensa. O BE, nesse momento, continuou disponível para negociar, encontrando em Pina Moura e António Guterres um muro de silêncio.
Se isto é apenas "zurzir no PS", estamos conversados. Escolheste, por isso, mal o exemplo. Porque se há assunto em que o Bloco tem sido pragmático (e até pouco ideológico), indo buscar propostas do PP de Aznar e da lei Norte Americana, é mesmo a política fiscal. E porque se há assunto em que o PS mostrou não merecer maioria absoluta é a sua política fiscal. Contraria-se sempre e vai triturando todos os que, sendo moderados, têm, dentro do PS, algum brio político.
Pode sempre dar-se o caso de tu achares que os acordos e os entendimentos fazem-se sem conteúdo político nenhum. Não é assim que são feitos em Espanha, que são feitos na Suécia, ou na Alemanha. Mas se é isso que defendes, tens razão: o PS precisa de maioria absoluta. Mas aí terás de dizer as coisas de modo diferente: que defendes um cheque em branco por quatro anos, seja para o que for. É uma alternativa. Parece-me é fraca.
Não vou reiterar os argumentos que desenvolvi no meu último post, mas gostaria de sublinhar um ponto que talvez não tenha ficado suficientemente claro. Ao votarmos, convém que não percamos de vista a “lei das consequências não-intencionadas”. As pessoas que desejam derrotar a direita, mas vacilam entre o voto em branco, o voto no Bloco e o voto no PS (ou seja, a maioria dos frequentadores deste blogue), devem estar cientes do cenário que poderá emergir de uma maioria relativa do PS. Nesse cenário dificilmente haverá lugar para coligações à esquerda. Já o referi, mas torno a explicar-me. Ao contrário do que se possa julgar, não é por Sócrates representar a ala mais à direita e tecnocrática do PS que um entendimento com o Bloco fica comprometido. Na minha opinião, isso até ajudaria a concretizá-lo, pela parte do PS. Sócrates está livre da reputação “esquerdista” de Ferro Rodrigues, logo isso torna-o um negociador mais credível entre os seus militantes e eleitores, e também entre os líderes de opinião deste país. As diferenças ideológicas e programáticas entre os dois partidos não são irrelevantes, mas não julgo que constituíssem um obstáculo insuperável. Como nunca haveria uma coligação governativa, mas apenas acordos de incidência parlamentar, isso permitiria aos dois partidos conservarem a sua autonomia numa série de questões que não afectam crucialmente a governação do país (participação portuguesa na NATO, política externa). O problema está no Bloco, por muito que os seus dirigentes e propagandistas o queiram esconder. O Bloco não quer sujar as mãos com o exercício do poder e o inevitável jogo do “toma lá, dá cá”. Quer conservar a aura de superioridade moral que o torna tão atractivo para alguns segmentos do eleitorado, e capitalizar a erosão de quem está no poder. Dir-me-ão que nos últimos anos do Guterrrismo, o Bloco foi um parceiro do PS nalgumas iniciativas legislativas que poderiam ter feito a diferença – nomeadamente, a reforma fiscal de Sá Fernandes. Vale a pena recordar o que sucedeu na altura. O governo de Guterres sofreu um ataque cerrado da parte dos interesses financeiros, com João Salgueiro e outros porta-vozes da banca a desdobraram-se em advertências e ameaças (fuga de capitais, perda de competitividade dos nossos bancos, etc.). E o que fez o Bloco? Por acaso mobilizou as suas energias para defender a reforma fiscal? Não. Preferiu zurzir a “tibieza” e falta de coragem do PS e, mais uma vez, emergir como o partido da imaculada virtude. Exemplar.
Portanto, é isso que nos espera num cenário de governo minoritário do PS. José Sócrates não tem autoridade para emular o Cavaco Silva que em 1987 (se não estou em erro) se recusou a formar governo sem ter a maioria absoluta. Irá pois liderar um executivo onde pontificarão as figuras de segunda linha no PS – a “tralha guterrista”. Será um governo altamente pressionado para distribuir a boda aos pobres, pois as autárquicas são já no fim do ano e “grandes combates” aguardam o PS. Já estou a ouvir o coro….
A grande incógnita neste cenário é o futuro da liderança do PSD. Tudo dependerá da extensão da derrota de Santana Lopes. Se for grande, adeus até mais nunca. Se for curta, o homem aguenta-se. E aí será o inferno. À esquerda o PCP e o Bloco a ladrarem contras as “traições” de Sócrates, à direita Portas e Santana a incendiarem o país com a sua demagogia.
Penso que hoje as pessoas sensatas do PSD já terão percebido que uma maioria absoluta de Sócrates não será tão má quanto isso para o próprio PSD. Abre espaço para uma renovação na liderança e, claro está, para a candidatura presidencial de Cavaco Silva. E um Cavaco Silva a caminho de Belém exercerá, sem dúvida, uma influência determinante na escolha do futuro líder do PSD. É claro que quatro anos longe do poder, das suas benesses e meios de patrocínio, é uma coisa dura para um partido com as características do PSD. Mas não é o fim do mundo. Terão tempo de se reorganizar e fazer uma oposição consistente. Não gosto muito de brincar aos nomes, mas julgo que um PSD liderado por alguém como Miguel Cadilhe, por exemplo, ajudaria a dignificar a nossa tão degradada vida política.
Umas notas finais.
Rui: essa ideia de que não deve haver inimigos à esquerda no momento que atravessamos comigo não pega. Não pega porque o Barnabé é só um blogue, e por muito eficazes que consigamos ser na nossa guerrilha diária contra as forças do mal, acho improvável que venhamos a ter qualquer espécie de impacto no desfecho das eleições. E não pega porque, se queres que te diga, eu não abdico do meu diletantismo.
Daniel: a ferocidade do teu post chocou-me um pouco, mas já a esperava. Atribua-a ao nervosismo que parece ter-se instalado nas fileiras do Bloco desde a quinta-feira negra. E já agora, não pensas que poderás ter exagerado um bocadinho, pronto, só assim um bocadinho, quando descreveste o PS como um partido “profundamente ultraconservador”. O que serão, então, o PSD e o CDS?
Queria também agradecer a amável referência do José Pachco Pereira no Abrupto ao meu post e sossegá-lo quanto à violência dos comentários. Não se preocupe: é assim que as máscaras caem.
Antes de tudo, saudações aos barnabitas e aos leitores.
O meu primeiro post no Barnabé só podia ser sobre aquilo que mais tem ficado de fora do actual debate pré-campanha: as políticas culturais. À frente analiso o essencial das propostas eleitorais dos vários partidos.
A pobreza do debate cultural na pré-campanha só tem sido furada pelo PS e pelo BE. A 19 de Janeiro, numa sessão do Fórum Novas Fronteiras (com a presença de Manuel Maria Carrilho, Lídia Jorge, Rui Vieira Nery e Augusto Santos Silva), José Sócrates disse que “o livro e a leitura” e “o cinema e o audiovisual” são as prioridades do seu partido no que diz respeito a corrigir os cortes orçamentais efectuados nos últimos três anos. Anunciou ainda o lançamento de um “passe cultural” que permitirá o acesso à vários equipamentos culturais do país (informação fútil, que não revela política alguma). Junte-se isto a duas singelas linhas no resumo do programa eleitoral do PS (tanto quanto consegui ler na Internet): rever o sistema de apoio às artes dos espectáculos e a percentagem do Orçamento do Estado para a cultura – e aí está tudo o que se sabe. O mais foi o “plano tecnológico” como estratégia que também vai na linha de um livro que Carrilho emprestou ao secretário-geral do PS: The Rise of the Creative Class do economista norte-americano Richard Florida (best seller nos EUA, publicitado em www.creativeclass.org).
Já o BE reuniu no passado 15 de Janeiro, na Faculdade de Letras de Lisboa, um fórum alargado sobre vários temas, entre os quais a cultura. Estiveram presentes, entre outros, António Mega Ferreira, Alberto Seixas Santos, Maria João Seixas e Miguel Portas. Não tenho informação sobre que assuntos em concreto foram debatidos.
Espera-se que surjam mais ideias na próxima sessão do Novas Fronteiras dedicada à cultura, que acontece amanhã às 21h30 no Hotel Tuela, no Porto, onde estarão o arqueólogo e professor universitário Vítor Oliveira Jorge, o ex-jornalista e documentarista Jorge Campos e Manuela Melo.
Tanto quanto sei, mas posso estar errado, nenhum outro partido promoveu um debate público sobre o assunto, ou sequer algum candidato referiu políticas culturais em entrevistas. Do CDS sabe-se apenas que Telmo Correia tem a pasta de um tal de Ministério da Cultura e Turismo (!). O BE e o PCP dedicam algumas páginas e algumas boas ideias nos seus programas eleitorais, a Nova Democracia não refere o assunto (na respectiva secção do seu site tem apenas um artigo delirante de José Adelino Maltez sobre o ensino) e o PCTP/MRPP tem mais com que se preocupar (não me dei ao trabalho – talvez erradamente – de pesquisar as ideias para a cultura de outros partidos minoritários).
Três ideias mestras para a política cultural, que à frente pormenorizo, são absolutamente comuns ao PSD, MPT, PS, PCP e BE (o site do CDS está em baixo, pelo que não pude aceder ao seu programa eleitoral). Ao desbravar (o que não é nada difícil) os respectivos parágrafos nos programas, quis perceber, e criticar, as linhas que predominam. Nenhum esforço, ou pouquíssimo, tem sido feito por todos estes partidos para fazer passar a sua mensagem cultural, pelo que, como bom eleitor, enfiei-me de cabeça nos tais documentos. Agradaram-me alguns e o do PSD deu-me calafrios. Optei por não escrever sobre a questão do mecenato e da língua portuguesa por serem assuntos que merecem mais tempo, e que ficarão para outra altura.
Se o PS ganhar as eleições, o próximo ministro da Cultura será muito provavelmente um destes três (reproduzo o que se comenta nos bastidores do meio jornalístico – não tomem isto como garantia alguma): José Mariano Gago, Lídia Jorge ou o já uma vez ministro Augusto Santos Silva.
Proponho um quarto nome: Pedro Burmester. Independente, com conhecimentos mais do que suficientes na gestão cultural, sério, frontal e a viver o momento ideal para se chegar à frente. Os nomes atrás referidos por certo dignificariam o cargo, mas eu acho que Burmester estabeleceria um corte positivo no estilo governativo da cultura. Mais tarde desenvolverei esta ideia, mas para já afirmo que Burmester seria o nome ideal para forçar aquilo que julgo ser o mais urgente – extremamente urgente, diria – na política cultural: acabar de vez com o fosso entre Educação e Cultura.
E aqui vai agora a pedra que parti…
Política cultural: três pontos comuns à esquerda e à direita
Há mais pontos em comum do que se poderá pensar (ou não?) entre as várias propostas eleitorais para a cultura. Pelo menos três medidas são idênticas nos programas do PSD, MPT, PS, PCP e BE, mais palavra menos palavra: 1) descentralização do acesso à cultura; 2) aumento do conjunto de verbas estatais para o MC tendo como referência um 1% do Orçamento do Estado (o PCP e o MPT preferem indexar este mesmo valor ao PIB); 3) transversalidade: articulação da cultura com todas as políticas sectoriais.
São três necessidades que parecem óbvias e prioritárias. Gostaria de pensar que esta coincidência de propostas dita que a consciência das deficiências do apoio e promoção da cultura não está tão mal como isso no seio dos partidos.
A primeira ideia é mais do que válida, mas perversa quando implica o deslocamento dos centros de decisão, tal como aconteceu no governo Santana (deslocar a Secretaria de Estado dos Bens Culturais para Évora, por exemplo) e que continua neste programa do PSD. Onde se leram essas acções como populismo puro e duro, eu li disseminação do Poder (prefiro-o em Lisboa, todo junto, onde é mais fácil vigiá-lo). Por outro lado, e nisso todos os partidos concordam, o apoio à cultura fora do Porto e de Lisboa passa pela já lançada rede de bibliotecas, teatros, cinemas e centros de artes e, acima de tudo, creio, pela definitiva resolução do problema de financiamento das autarquias, para as quais deveria funcionar a mesma regra de 1% aplicada ao OE. A outra acção em falta é também óbvia: mais campanhas de informação regionais sobre os apoios que a UE tem para a área.
Não tendo dados que me permitam afirmar sem sombra de dúvidas que o já famoso 1% é mais do que suficiente (será mesmo? é ainda pouco?), mas aceitando-o como razoável, atiro-me à terceira ideia: um MC em plena ligação a todos os outros ministérios, ou pelo menos aos directamente relacionados: os do ensino e da ciência.
Escreve Catarina Molder (cantora lírica) no Fórum Novas Fronteiras do PS: “Lutar contra o grande abismo ainda existente entre a Cultura e a Educação”. O PCP fala de “reformulação e expansão do ensino artístico, integrando o ensino obrigatório, como uma verdadeira iniciação às diferentes formas de expressão artística”. O BE desenvolve: “Assumir o contacto com a arte como essencial à construção de identidade e proporcionar ao público escolar um contacto com arte mais abrangente do que o simples complemento pedagógico aos programas curriculares, desenhando programas transversais aos Ministérios da Cultura e Educação que permitam integrar nos currículos escolares matérias que desenvolvam a compreensão das linguagens artísticas contemporâneas”. O PSD, sintético, diz que “o Governo atribui à política cultural um papel central e transversal no conjunto de todas as políticas sectoriais”.
Os pressupostos são radicais, urgentes, e temo que não estejam para acontecer numa próxima legislatura. Não querendo entrar no assunto das reformas educativas – onde a necessidade quase pungente é a de estabilidade, seja a curricular ou a das carreiras –, suspeito que a maior parte dos docentes, por puro corporativismo, oferecerão grande resistência à criação de um ensino onde disciplinas artísticas ganhem obrigatoriedade nos currículos do básico e do secundário. No entanto, este é claramente o caminho para contrariar a escola enquanto elemento da “sociedade disciplinar” definida por Foucault, que a incluía numa tríade com a prisão e o hospital. Mais do que isso, é a rota certa para abolir mecanismos familiares cerceadores (queria evitar o termo “preconceituosos”, mas não consigo) de vocações artísticas. Correndo o risco de parecer ingénuo, estou convencido de que a existência de disciplinas de arte obrigatórias em todas escolas, sujeitas a avaliação como quaisquer outras, significa mais liberdade, isto é, a não formatação de seres humanos que venham a encarar o mercado de trabalho como um campo de actividades pré-determinadas exclusivamente em função da necessidade de produzir. E ainda mais: estas disciplinas – que deveriam ser artes visuais e música (esta é obrigatória em dois países: Hungria e Japão) –, só poderão conduzir a melhores resultados nas disciplinas mais críticas, consequência da transdiciplinariedade que está na sua natureza.
E daqui para a ciência, naturalmente. Sendo terreno muito delicado, remeto para o documento Ano Internacional da Física 2005 – Enquadramento, objectivos, intervenientes, uma celebração proposta por Portugal (com o apoio do Brasil e da França) à ONU, e que constituiu um autêntico “programa eleitoral” onde cultura, ensino e ciência combinam-se de modo exemplar, subscrevível por todos os que não saibam o que fazer em relação ao assunto (sendo que José Mariano Gago é um dos autores do documento).
Parêntesis 1
Alguns aspectos do programas do BE (terá Mário Soares também passado os olhos por estes parágrafos?) surpreendem pela positiva. Os bloquistas propõem “transformar a RTPi no canal internacional da cultura portuguesa”; “considerar os ‘custos de periferia’ de Portugal na Europa no financiamento de projectos de itinerância além fronteiras e apostar na ligação entre estruturas e criadores nacionais e internacionais de forma a colocar a criação nacional nas plataformas de circulação internacional” e, mais do que o aumento de verbas, “um plano de emrgência no apoio e salvaguarda do património cultural”.
Atrai-me particularmente a ideia relativa à televisão do Estado. Apesar de megalómana, seria um modo altamente eficaz de acabar de vez com um dos piores exemplos de instrumento de propaganda governamental que escapa ao controlo das comunidades espalhadas pelo mundo. Imagino uma RTPi versão canal Arte+Mezzo, em língua nossa.
Parêntesis 2
O carácter intermitente dos profissionais das artes do espectáculo, e em particular o dos que exercem actividades de alto desgaste físico (bailarinos e artistas de circo, por exemplo) está nas preocupações do BE e do PCP, ao pedirem a reformulação ou criação de um estatuto sócio-profissional do artista que lhe garanta protecção social.
Em boa verdade, o governo de Durão Barroso avançou muito neste sentido, com um projecto-lei considerado pelos profissionais da dança (representados pela REDE – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea) como quase ideal e até melhor do que o do PS. A sua aprovação foi adiada por Maria João Bustorff para uma próxima legislatura. Seja qual for o partido que ganhe as eleições, aprovar esta lei constitui uma obrigação moral.
Parêntesis 3
Apesar de ter escrito que não queria, para já, entrar na questão do mecenato, acho importante realçar uma proposta do Movimento Partido da Terra por apresentar uma alternativa a esta questão: "Redacção e aplicação urgente de uma do Lei do Incentivo Cultural que permita e
flexibilize a comparticipação rápida por parte de empresas ou particulares no financiamento de eventos culturais, com a correspondente dedução fiscal e possibilidade de retorno em caso de boa exploração,substituindo a actual Lei do Mecenato e complementando assim a política geral de apoio à criação".
O folclore cultural do PSD
Convirão agora algumas linhas sobre a natureza perversa do programa cultural do PSD (e do PP?), disfarçada no documento sob o título de “Políticas de Acção Externa”. Ainda antes disso, uma questão não referida no dito: a do cinema.
A tendência mercantil do PSD é bem clara quando propõe reforçar a produção cultural evoluindo para o “conceito de indústria criativa” (lê-se no programa), seja lá o que isto quiser dizer. Um único exemplo ocorre-me: o da mais recente alteração à Lei das Artes Cinematográficas, aprovada pelo governo em Setembro. A principal novidade foi a criação de um Fundo de Investimento que deveria ser preenchido por distribuidores, operadores e canais de televisão, assim como entidades públicas e privadas – ou seja, a progressiva morte do cinema de autor (o único território de criação fílmica onde apresentamos trunfos) em consequência do principal financiamento dos apoios combinados pelo ICAM provir das empresas que controlam a maioria das salas de cinema e estações de televisão (imaginem um panorama cinematográfico dominado por Leonéis Vieiras, Joaquins Leitões, Cunhas Telles e respectivos clones).
Mas Maria João Bustorff teve um momento de lucidez e resolveu, também aqui, passar a batata quente ao próximo Executivo, não tendo chegado a regulamentar a lei. Por uma “questão de ética política”, justificou a governante em Dezembro último. António Pedro Vasconcelos, da Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisual (ARCA – a favor da lei) ficou muito aborrecido com a história, e João Mário Grilo, da Associação Portuguesa de Realizadores de Filmes (APRF – contra a lei) disse que a ministra agiu bem, lamentando uma lei que “permite quase tudo”. Grilo tem toda a razão e cabe ao próximo ministro da Cultura matar a coisa, porque outro nome o projecto não merece.
Há mais, é claro. A meio caminho entre a “imbecilização” da cultura e um conceito repetitivo para “rentabilizar” regionalmente a mesma, o PSD propõe o desenvolvimento do chamado “Turismo Cultural” (criação de circuitos em torno de vilas e centros históricos – uma acção lançada por Cavaco em 1994 e desde então actualizada pelos governos seguintes), a que acrescenta a invenção de umas “Zonas Demarcadas”, e aqui já entramos nas grandes planícies do disparate.
Dizem eles: “O facto de [os pólos culturais de grande interesse] serem identificados e tratados como produtos específicos permite uma rentabilização muito particular de determinadas zonas (…) propõe-se a criação de zonas culturais demarcadas, que permitirão, inclusivamente, a rotação de projectos efémeros específicos, como as Capitais da Cultura” (Perfeito. O que é que se seguiria, depois da inconsequente e mal gerida Coimbra e da próxima e “desorçamentada” Faro? O Entroncamento?). O mais perturbante é esta ideia de “zona demarcada”. Ao lê-la, a primeira coisa que me vem à cabeça é a frase “Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal”, epíteto oferecido àquela localidade da Beira Baixa por um concurso do SNI em 1938.
Eis aqui um belo exemplo de como o projecto cultural do PSD, por mais que fale de criação contemporânea e de património (e até bem: prometem “afectar 1% do valor de todas as empreitadas públicas ou obras com participação de capitais públicos para a conservação e restauro do património artístico, incluindo prospecções de natureza arqueológica”), aponta para a folclorização da cultura. O princípio de “zona demarcada” enuncia algo que parece assustador: o controlo, dir-se-ia mesmo a censura, da produção cultural das regiões para onde seriam transferidos mais centros de decisão, tendo em vista preservar uma qualquer identidade tradicional regional que estaria sempre à frente de nova produção cultural. (Recordo que Telmo Correia é o titular de um “Ministério da Cultura e Turismo” do PP.)
Em suma, o objectivo cultural do PSD pode ser descrito assim: uma marca bafienta – algo como “Portugal, o país mais português da Europa” – piscando o olho à turistada à caça do very typical, combinada com uma indústria do audiovisual que só apoiará projectos incaracterísticos e supostamente rentáveis, promovendo uma imagem de cosmopolitismo que só existe na tela. Ou seja, uma fábrica de ilusões sobre nós próprios. Era aqui que eu podia começar a citar Guy Debord, mas não vale a pena.
Em relação a tudo isto, sublinho uma orientação muito pertinente do programa para a cultura do PCP: “O levantamento e denúncia de todos os condicionamentos que, sob diferentes formas, têm um efeito censório e autocensório sobre a actividade criadora, sejam eles de origem ideológica, comercial ou económica”.
Retire-se aquela ideia do contexto do programa do PCP – não me parece que um governo seja capaz de exercer tal proposta… –, coloque-se a mesma na responsabilidade de cada cidadão e aqui está o primeiro artefacto mental para sermos portugueses, agentes artísticos ou não, que defendem o direito à cultura, tanto como qualquer outro.
Isto ainda agora começou.
(Já agora: nestas eleições, voto Bloco.)
Já que estamos todos a manifestar o nosso voto num ou noutro partido político (mas sempre de esquerda), eu gostaria de dizer que o meu apoio vai para aquele que se dignar subscrever o relatório “Investir no Desenvolvimento: Um Plano Prático para Alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio” [link fica também ali à direita, no Barnabé Rebelo de Sousa] entregue por Jeffrey Sachs, na semana passada, ao Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan.
Estive a ler os programas dos principais partidos políticos portugueses, à excepção do do CDS/PP porque o site não estava disponível para pesquisa, e nenhum menciona os Objectivos do Milénio e a sua importância na definição da política externa do nosso país. É triste, muito triste que um dos países mais ricos do mundo (sim somos e é bom que ninguém se esqueça disso!) continue alheado das verdadeiras causas pelas quais todos nós deveríamos lutar. Parece que o nosso umbigo ainda é mais importante. Quem é que falou em maturidade?
A gravação vídeo confirmará que eu não estava bêbado quando ouvi Paulo Portas hoje na SICnotícias proclamando que Portugal não podia competir com a agricultura espanhola e que portanto tinha de apostar em
«...coisas que só Portugal tem: turismo e mar.»
As pessoas acreditam em tudo, desde que seja com sentido de estado.
Estou a gostar imenso do jogo do Bordalo e até já mandei a minha posta de pescada naquele ali em baixo das facas. Mas, como a vitória no concurso me está vedada pela qualidade dos demais participantes, quero antes dar a minha opinião sobre o post do Pedro chamado "Maturidade". Estou completamente dentro daquele perfil de votante que ele aponta. E acho, como várias pessoas que reagiram negativamente ao que o Pedro disse, que a argumentação dele é mesmo um pedido de cheque em branco a Sócrates. Não se pede aos eleitores a maioria absoluta primeiro como garantia de boas políticas depois. É exactamente o contrário que se tem de fazer.
Devo também dizer que, vendo daqui de longe (e daqui de longe não se vê bem), duvido que haja assim tanta gente a mudar o seu sentido de voto do Bloco para o PS depois da frase de Louçã. Eu, pelo menos, posso apresentar um exemplo que vai em sentido contrário. A mim, o episódio Louçã (que considero ter sido infeliz nas afirmações que fez, e sobretudo muito demagógico), transformado em seguida em ataque "Ad Blocum", está a ter o efeito contrário. Se a lógica da política mediática é a da amplificação de episódios e frases, não de esclarecimento, se ela tritura em si tudo, prefiro então ser pragmático e escolher os meus inimigos principais. Louçã mereceu levar porrada. Mas é injusto (e puritano) que a sua frase sirva para revelar uma suposta "verdadeira face" do Bloco ignorando-se o currículo que este partido tem, mormente na questão do aborto.
Indeciso crónico entre o PS e o Bloco, pensava ter resolvido há um mês o problema do voto com a especificidade do meu círculo eleitoral (Europa) e com o facto de a distribuição de deputados se fazer aqui apenas entre os dois principais partidos, PS e PSD. Votar no Bloco parecia-me completamente inútil e entregar o ouro ao PSD (para além de que não me identifico minimamente com os candidatos do Bloco aqui). Agora começo a ter dúvidas sérias sobre o que fazer. É verdade que Sócrates teve pouco tempo para se apresentar ao eleitorado. Mas a recusa dos debates da parte de Sócrates e a formação das listas são já gestos políticos que estou a considerar. Volto portanto ao meu crónico papel de indeciso e preciso de melhores argumentos do que os do Pedro para votar PS.
Pois eu também quero mandar uma posta de pescada na polémica da "maturidade" entre os Oliveiras, lançada aqui pelo Pedro e respondida aqui pelo Daniel. Três pontinhos apenas:
1. Em primeiro lugar, parece-me que o Pedro – como o PS em geral – está a meter o carro à frente dos bois. Nesta altura do campeonato não me parece que seja de exigir maturidade ao eleitorado. Pelo contrário, é aos políticos que se deve exigir maturidade, nomeadamente para nos governarem com o panorama político que sair das eleições, como fizeram Cavaco e Guterres nos seus primeiros governos, que foram de minoria e os melhores de cada um deles. A obrigação é pegar no país e tirá-lo do fosso, sem exigências nem chantagens. Insinuar que só se governa com maioria absoluta é que é, do meu ponto de vista, infantil.
2. Mas se o BE estiver, como diz o Pedro e eu concordo, empenhado numa estratégia de crescimento a médio prazo que o faz menosprezar as responsabilidades do apoio ao PS, também isso não deixa de ser uma infantilidade. Enquanto eleitor de esquerda, os prazos do BE não me interessam para nada, e vejo que a situação do país não está para brincadeiras. O BE terá de entender que um programa do PS com influência moderadíssima sua será melhor do que deixar o PS escapar-se para negociar com o PP (o que há dez dias atrás era só delírio meu...) – o que permitiria ao BE jogar o jogo da vitimização, confortável para alguns, mas de resultados nefastos para todos.
3. Mas como estamos a pôr o carro à frente do bois, há uma infantilidade que é a pior de todas, que é a de lançar ataques à esquerda. Engana-se quem acha que é fácil ganhar eleições a um governo em gestão de propaganda com um líder na luta pela sobrevivência. Num quadro de hiper-erosão da memória, será preciso explicar às pessoas o que foram estes dois últimos governos até ao último minuto da campanha. A chave da vitória está aí. O PS não ganhará nem perderá a maioria absoluta pelo 1 a 1,5% que consiga roubar ao BE que não a ganhe nem perca muito mais rapidamente pelos 5% que deixar Santana recuperar (e deve, aliás, abandonar completamente as ilusões de alguma vez conseguir esvaziar os mais de 10% à sua esquerda que sempre existiram desde 74). Caso contrário, estas eleições serão uma revisitação de Durão - 2002: Sócrates começará a pedir a maioria absoluta para terminar a suspirar de alívio por a campanha não durar mais duas semanas.

Raphael Bordallo Pinheiro, O Jogo das Facas pelo Professor Marianang-Fó-Cyril-Thsing-Ló, in O António Maria, 6 de Setembro de 1883. Clique para aumentar numa nova janela.
«O argumento é fraco, porquanto é certo que até ao momento de começar a arrepender-se ninguem ainda se arrependeu. Só da pescada diz o povo, que antes de ser já o era. Ora el-rei sempre tem sido mammifero terrestre, e não consta que manifestasse nunca a minima propensão para o peixe que tão bem arranja o Re[?]ão do Porto. (Palavras cabalísticas do professor Marianang, pronunciadas ao atirar as facas). – Se não te emendas dou-te uma facada em cheio no vazio.»
***
Houve quem ontem se queixasse de que a actualização da caricatura de São Bordalo estava demasiado fácil e quem se queixasse também de termos colocado a imagem demasiado tarde. Vamos então tentar subir no grau de dificuldade e descer no horário. Contextualização: neste desenho, o malabarista chinês é Mariano Cirilo de Carvalho, então deputado às cortes pelo círculo de Timor (antes tinha-o sido pela Chamusca e pelo Porto, e ainda viria a sê-lo pelo Cartaxo) e grande polemista nos jornais, que lança facas com as palavras "piadas", "república", "abdicação" sobre o rei Dom Luís. Não consigo saber quem é o seu pequeno ajudante (será o próprio príncipe Dom Carlos?). A cena é observada pelo "pássaro bisnau" Hintze RIbeiro e pelo "dragão chinês" Fontes Pereira de Melo. As regras são as seguintes: aceitam-se comentários com leituras actualizadas do desenho acima, incluindo as que de alguma se referirem a cidadãos ilustres de Celorico de Basto (não resisti). O melhor comentário da jornada será publicado aqui junto à entrada principal. O vencedor do passatempo (depois de todas as jornadas) ganhará um livro do Barnabé autografado por todos os barnabés. Se entretanto arranjarmos mais prémios avisamos.
Menção honrosa: Jorge. «É impossível actualizar por completo esta caricatura, dadas as muito explícitas e datadas mensagens nas facas. Esquecendo-as, no entanto, torna-se fácil. A rotunda personagem de bigodes e grandes bochechas é a democracia portuguesa aqui representada por um dos seus "pais-fundadores", Mário Soares. O chinoca das tranças bem arrumadinhas com gel e brilhantina é um tal Santana que vai atirando facas sobre facas ao sistema democrático ao mesmo tempo que se queixa de todas as facadas que lhe terão espetado nas espáduas. Diz que é das suas próprias costas que arranca o molho de facas que segura na mão, mas o ajudante, um Paulo Portas em versão mais gordinha e de nariz mais arrebitado, desmente-o, entre o casual e o propositado, apresentando-lhe cerimoniosamente um novo maço de projécteis como quem diz "vá, lança mais! e vê mas é se acertas!" Observando a cena com interesse, o abutre Bagão Félix aguarda uma oportunidade para se refastelar com algum bocadinho de carniça. Empoleirado no espaldar do cadeirão José Sócrates esboça uma defesa verbal do seu rotundo correligionário, balbuciando um "então, vejamos, sejamos sérios, paremos com esta campanha feita de política de arremesso que não leva a lado nenhum", mas abstendo-se, sabe-se lá por que razão, de fazer um gesto concreto que ultrapasse o palavreado, o que se comprova pelo seu aspecto relaxado e confortável.»
Menção honrosa ilegal: André Belo. «Esta imagem é muito datada. É de antes do escândalo da TVI e do contraditório. O gajo das facas é o Rebelo de Sousa. (professor Marianang, está mesmo a dizer). E el-Rei D. Luís, é o nosso Pedrito, claro, um verdadeiro mamífero terrestre. As referências à pescada são evidentes alusões ao cherne Durão Barroso, entretanto mudado para moule-frites em Bruxelas, graças à sua agilidade marítima. O gajo do Porto que arranja o peixe — e que não é mais do que o tipo que deixa que Marcelo lhe roube as facas em vez de as mandar ele próprio — é Jorge Sampaio, que permitiu a fuga do cherne. O dragão é o Pinto da Costa (alusão muito subtil de Bordalo a um circo mediático de TV's dominado pela bola). Já o pássaro bisnau não parece representar ninguém em concreto. Podemos ver ali uma alusão aos interesses instalados: homens muito finos que só agem para o mal, plantados no mais altos ramos.»
Imagino este PS com maioria absoluta. Jaime Gama, ministro dos Negócios Estrangeiros. Pina Moura na Economia. Jorge Coelho nas Obras Públicas. Lello a tratar do futebol. Lamego a influenciar a politica para o Iraque. Capoula dos Santos na Agricultura. A tralha coelhista a inundar secretarias de Estado, direcções-gerais e institutos públicos. Imagino o Guterrismo sem Ferro Rodrigues na Segurança Social. Ou seja, o guterrismo sem rendimento mínimo e conversas para a esquerda. Mais oco e mais oportunista. Imagino as clientelas e os caciques locais de mãos livres. Por 4 anos, sem limites nem controle.
Imagino tudo isto quando leio o Pedro a pedir maioria absoluta para o PS. E farto-me de rir quando o Pedro lembra as palavras de Francisco Louçã no debate com Portas para justificar o voto no PS. Oh Pedro, há limites para a demagogia! Ficas hipersensível com a frase do Louçã e apresentas como alternativa o partido de Lello e Candal? De facto, Pedro, nem a campanha eleitoral em que definitivamente entraste permite tamanho desplante. A diferença entre uma frase vinda do Bloco (que tem sido a principal força contra o conservadorismo neste país) e um PS profundamente ultraconservador, salta à vista e não deixa grande espaço contra oportunismos argumentativos.
O resto é campanha eleitoral. Não há eleição em que não venha a conversa do voto útil, a governabilidade, a responsabilidade. Caiu, porventura, Santana por o PSD não ter maioria absoluta? Caiu, porventura, Guterres por não ter a maioria absoluta? Caíram de podres em guerras internas e facadas nas costas.
Maturidade? Onde estava a maturidade de Guterres quando não deu nem um passo para se entender com a esquerda, e, em vez disso, preferiu, com a ajuda de Coelho e Sócrates, a esperteza saloia de dar uns trocos a um deputado do CDS? Maturidade? Onde estava a maturidade do PS quando andou, durante 2 anos, a bombardear o seu próprio líder enquanto Durão governava tendo como oposição um partido com 3 por cento? Maturidade? Onde estava a maturidade de Sócrates quando, perante a primeira vitória do PS – nas europeias -, fez tudo para a desvalorizar e para enfraquecer Ferro Rodrigues? Maturidade? Onde está a maturidade de Sócrates quando se limita a esperar que o poder lhe caia no colo, sem se bater por ele? Maturidade? Onde está a maturidade de um partido que vota contra a lei das rendas, para depois a defender em campanha, que faz dos benefícios fiscais o alfa e o ómega da oposição ao Orçamento para depois dizer que afinal deixará tudo na mesma?
Pedro: podes estar empenhado, mas o ambiente não favorece a conversa do costume. Maturidade não é votar com medo. É ler os programas, ouvir os debates e votar com convicção.
Pedro, como apoiante de Sócrates, devias-lhe pedir uma coisa simples e bem mais eficaz do que a conversa sobre a minoria absoluta. Que dissesse ao que vem. É verdade que Sócrates não foi protagonista de nenhum dos episódios que, com uma selectividade talvez excessiva, escolheste. Mas isso acontece porque, pura e simplesmente, não abre a boca e não se confronta com ninguém. Era bom que fosse aos debates. Que se confrontasse com a direita e que abandonasse o discurso vazio. Porque não é sinal de maturidade esquecer o que é o PS sem estar condicionado à sua esquerda. Isso será, se for a esperança de que Sócrates seja diferente, sinal de infantilidade. Se for só falta de memoria, sinal de senilidade.
Não foram dois, nem três, os eleitores do Bloco de Esquerda que este fim-de-semana - ainda sob o efeito do choque das palavras de Louçã no debate com Portas - me confessaram a sua intenção de deixar de o ser (aliás, basta dar um giro pela blogosfera para verem que não exagero). Vêm juntar-se ao contingente de indecisos que no dia 20 de Fevereiro decidirá se o PS ganha com maioria absoluta ou relativa. Esta é, já toda a gente percebeu, a principal questão que está em jogo nestas eleições.
É gente que votou em Guterres em 1995 e desde então tem alternado entre o voto em branco e o Bloco. Lamentaram o regresso ao poder da direita em 2002 mas, porventura com alguma razão, acharam que o PS merecia uma cura de oposição. Com o Barrosismo veio a austeridade e as terapias dolorosas da direita. Com menos dinheiro no bolso, os anos de Guterres começaram a ser recordados com nostalgia, mas a memória d episódios como o “totonegócio”, o referendo ao aborto ou o orçamento limiano, tornou muito difícil a reconciliação com o PS. Até que entra em cena Santana Lopes. A mera possibilidade desta criatura continuar politicamente activa, liderando com Portas a oposição de direita a um governo minoritário do PS, incutiu-lhes as primeiras dúvidas.
Alguns não ficaram mal impressionados com a prestação de Sócrates nas eleições para a liderança do PS. A sua atitude conciliatória em relação a Manuel Alegre caiu bem. Mas… Mas os preconceitos de esquerda são uma coisa terrível. Sócrates não encaixa no perfil do líder de esquerda a que nos habituámos (passado anti-fascista ou militância activa no PREC, cultura humanista, carreira na universidade ou num escritório de advocacia). Vai ao ginásio, guia um Mercedes, é pouco visto nos concertos da Gulbenkian. A sua entourage parece dominada pela “tralha guterrista” (sobre este ponto, ver o meu último parágrafo).
Pois bem, a estes meus amigos eu digo o seguinte: chegou a hora de revelarem maturidade. Dominem os vossos instintos tribais, não deixem que os vossos preconceitos identitários levem a melhor. A vida é feita de compromissos. Se quiserem aliviar as vossas consciências, votem no Bloco. Se quiserem dar um pequeno contributo para mudar o actual estado de coisas, e travar a “peronização” do nosso regime político, então o PS é a vossa escolha. Dou-vos três razões concretas.
Em primeiro lugar, estabilidade governativa. No momento crítico que atravessamos, é muito importante tê-la. Precisamos de nos livrar dos folhetins baratos que nos consumiram nos últimos meses. Precisamos de um governo que faça o seu trabalho durante quatro anos e seja julgado no fim. Precisamos de espaço para debater os grandes desafios do país – as opções de política económica, a reforma da administração e dos serviços públicos, o estado calamitoso da educação, as questões europeias. Precisamos de um executivo que se sinta seguro para enfrentar resistências corporativas e interesses particulares.
Não tenho nada contra governos de coligação, mas o nosso panorama à esquerda não as facilita. O PCP é um partido estalinista, irreformado e irreformável. O Bloco, por enquanto, não reúne as condições para ser um parceiro fiável. Entre outras coisas, as suas posições em matéria de política de segurança e defesa e integração europeia são demasiado radicais. Mas o principal obstáculo a um entendimento PS-Bloco é, aliás, o próprio Bloco. O Bloco tem uma estratégia de crescimento a longo prazo, e como tal não se quer macular com o exercício do poder e deixar o PCP recuperar o papel de único partido de protesto. Para chegar aonde os Verdes alemães chegaram, o Bloco quer ter uma base mais sólida.
Em segundo lugar, uma maioria absoluta do PS seria a primeira maioria absoluta de esquerda da história da nossa democracia. Podem dizer que de todos os líderes que o PS teve, Sócrates é o que menos fez por ela. Seja. Mas agora pensem: lembram-se de viver um momento tão incerto e angustiante como este nos últimos vinte anos? Eu não.
Por fim, o programa e a equipa. Mau-grado as suas insuficiências, o programa de governo do PS não se afasta da matriz social-democrata europeia. Talvez lhe falte alguma ambição, mas prometer mais sem primeiro conseguir coisas como a flexibilização dos critérios do PEC seria desonesto e irresponsável.
Um governo de maioria fará toda a diferença em relação ao recrutamento de pessoal de qualidade. Uma coisa é oferecer um horizonte de quatro anos a uma pessoa para desenvolver e aplicar um projecto governativo; outra é aliciá-la para uma experiência que pode não sobreviver às próximas eleições presidenciais. Um governo minoritário será um governo dominado pelos apparatchiks, dispostos a tudo para se manterem no poder (inclusive a negociar com Portas); um governo maioritário não terá essas tentações e poderá atrair independentes de gabarito.
Só hoje vi os simpáticos elogios que Pedro Mexia dirigiu ao Barnabé (blog e livro) na coluna diária que mantém no DN ("Ministério da Cultura"). Obrigado, Pedro, pela tua generosidade. Só espero que esta nova manifestação de "deslealdade orgânica" não te custe mais umas quantas admoestações da parte dos zelotas PP.
Paulo Portas, que não tem programa eleitoral – nem [¡AVISO! COMENTÁRIO NEOFASCISTA] filhos – , acusou José Sócrates de não dizer quais vão ser os seus ministros. Nós aqui no Barnabé não queremos ser apanhados desprevenidos; também não temos programa, mas temos cargos para distribuir. Depois de um ano e quatro meses sempre com a mesma formação – bateria, baixo, teclados e duas guitarras – decidimos fazermo-nos acompanhar por seis novos barnabés. Estamos só à espera que se dupliquem as chaves para que eles possam entrar em casa e ser sujeitos às nossas praxes, como cozinhar para os fundadores ou responder ao Homem a Dias por nós.
Sem mais delongas, são eles:

João Macdonald é jornalista. Como bom republicano de esquerda, celebra sempre o 31 de Janeiro e o 5 de Outubro. Nos outros dias do ano, é libertário. Pratica terrorismo de cidadania. Vive em Lisboa mas é ramaldense, portuense e cosmopolitense.

Luís Mah é um ONGista, doutorou-se sem saber como na London School of Economics e está a procurar soluções para os grandes problemas deste mundo.

Nuno Sousa era formador globetrotter (eufemismo para traficante de conhecimento) há 5 anos mas descobriu que não gosta de aeroportos e parou até ver. Sulista e sportinguista – dribla tão bem com o pé esquerdo como com o direito, embora mal com ambos – pode ser visto, em datas importantes como o 25 de Abril e o 1º de Maio, a dar milho aos pombos em jardins públicos da Grande Lisboa... nos outros dias também.

Pedro Sales, directamente da caixa de comentáríos para o blogue, é bloquista, biciclista, falador e pai-de-fresco.
E ainda dois barnabés aos quais é justo prestar desde já um agradecimento especial. Os nossos homens da sombra:

[Pedro] César de Carvalho: parte do nosso contingente luso-africano (o Celso, o Luís e o Nuno nasceram em Moçambique, ele em Angola), é ecofisiologista vegetal, cultor do baixo acústico sem trastos. Será o nosso webmaster.

Olímpio Ferreira: velho amigo, brilhantíssimo paginador do livro do Barnabé, tipógrafo, fonógrafo, daltónico. Também é pai – ora toma. É o gajo mais culto do Barnabé, razão pela qual diz que não sabe se vai escrever. Será o nosso director artístico.
Como acabam de ver, aprendemos qualquer coisa com o capitalismo avançado: não pagamos nada, mas oferecemos cargos com títulos pomposos. Estamos honrados com este novo pessoal. Agora é que vai ser bom.
Está achado o primeiro vencedor do nosso passatempo Barnabé/São Bordalo. E foi logo um golo do meio da rua: uma primeira leitura iconográfica de tal qualidade que desencorajou os possíveis rivais. O autor foi Pedro Vieira, a quem endereçamos os nossos parabéns, e que escreveu o seguinte comentário à imagem abaixo. Ora considerem:
«Leitura que salta os olhos e me bate na cara qual estalada de luva de cor à escolha. O personagem secundário do governo usa a coroa e garante a estabilidade do seu CDS. A expressão é de agonia mas insiste em olhar em frente. A seu lado o líder máximo limita-se a ter enfiado o boné de São Bento por via dinástica de José Barroso. Olha para o representante dos "media" com desconfiança, sente-se alvo de cabala não intencional. Estão unidos pelo estômago porque de intelecto estamos conversados. Têm os portugueses na barriga, pensam eles. Do lado frígio vem a mão contemporizadora ao jeito do Presidente Cenoura. Apaziguar não evita a desgraça, gritam os da carbonária do Largo do Rato; ele faz orelhas moucas porque tem-nas tapadas pelo barrete. O da imprensa brande o serrote, não gosta de uniões de fraque, que para isso bastam os cobradores da oposição. Não se sabe se age assim por temperamento de Delgado, também Luis, ou se conjura na dita cabala. Será corte e costura e desejo de protagonismo à arquitecto Saraiva. Tenho para mim que dos quatro é o mais enigmático, talvez porque usa a ferramenta da escrita. E essa Serra Lopes que se farta.»
[Resumo as regras: todos os dias publicaremos uma obra do padroeiro dos blogues e receberemos nas caixas de comentários leituras "actualizadas" dessa caricatura. O vencedor do dia será publicado junto ao texto principal e o vencedor do passatempo terá direito a, para já pelo menos, um livro do Barnabé autografado pelos autores.]
Esperando contar com a colaboração dos restantes barnabés, dou hoje início à rubrica “Pérolas da Campanha”. Aqui vão as primeiras três:
"Dr. Paulo Portas, esta iniciativa [apresentação do "elenco governativo" do CDS] significa que o senhor se perfila como candidato a primeiro-ministro? Minha senhora [Portas a falar] vou-lhe responder como me ensinaram nas Forças Armadas: Afirmativo."
TSF, 20.2005
"O Senhor não sabe o que é gerar uma vida. Não tem a mínima ideia do que isso é. Sei o que é o sorriso de uma criança. Sei o que é gerar uma vida"
Francisco Louçã, debate com Paulo Portas na SIC-Notícias, 20.1.2005
"Esta atitude do engenheiro Sócrates [recusa em participar em alguns debates televisivos] lembra-me aqueles meninos que na escola não queriam brincar no recreio, e a quem os outros meninos chamavam um nome feio. E eu digo: pois é bem feito que lhes chamassem esse nome”.
Pedro Santana Lopes, comício em Coimbra, 22.1.2005, RTP 1, citado de memória por mim.

Por ter gerado uma vida há pouco tempo, e levar muito a sério os meus deveres paternais, não posso ir à Cornucópia ver a "Morte de Romeu e Julieta", na encenação de António Pires (produção Ar de Filmes). Mas, uma vez por outra, não me levam a mal se eu brincar um bocadinho ao Marcelo Rebelo de Sousa, pois não?
«Santana adia debates com PP, BE e PCP.»
Guterres apoia José Sócrates.

Rafael Bordalo Pinheiro, Os Siamezes da Política, in O Antonio Maria, 5 de Julho de 1883." Clique para aumentar numa nova janela.
"O melhor é não os separar, porque se o mais alto estica o pernil, logo o mais gordo espicha a canella. Lembrem-se de que estão unidos pelo estomago, que representa actualmente um orgão mais importante de que o próprio coração."
***
Os siameses são Fontes Pereira de Melo (de coroa) e o Rei Dom Luís (de chapéu). Em baixo são vigiados por Mariano de Carvalho, director do Diário Popular (que é representado como um serrote) e Manuel de Arriaga, de barrete frígio, que tinha acabado de ser eleito como deputado republicano pelo círculo do Funchal.
Com a publicação desta imagem de São Bordalo damos início ao nosso grandioso concurso Barnabé/Bordalo. As regras são as seguintes:
1. Os leitores devem apresentar na caixa de comentários leituras actualizadas (ou seja, referentes à actualidade portuguesa ou internacional em 2005) das obras de Bordalo que forem sendo publicadas pelo Barnabé.
2. Ao fim do dia será publicada a melhor "actualização" de cada entrada junto ao texto principal, isto salvo nos casos de falta geral de qualidade.
2. O autor da melhor "actualização" de todo o concurso ganhará um livro do Barnabé autografado por todos os barnabés, velhos e novos (se houver possibilidade ainda juntamos mais uns premiozinhos – para o que se pede colaboração a eventuais interessados).
3. O júri é despótico.
Bagão Félix chamou neo-fascista a Francisco Louçã.
Estou à espera que Jerónimo de Sousa chame estalinista a Paulo Portas, Paulo Portas chame salazarista a Manuel Alegre, Manuel Alegre chame jacobina a Maria José Nogueira Pinto, Maria José Nogueira Pinto chame beato a Fernando Rosas, Fernando Rosas chame comunista a César das Neves, César das Neves chame bafiento a Manuel Maria Carrilho, Manuel Maria Carrilho chame elitista a Avelino Ferreira Torres, Avelino Ferreira Torres chame corrupta a Maria José Morgado, Maria José Morgado chame moralista a Alberto João Jardim, Alberto João Jardim chame histérico a Jaime Gama, Jaime Gama chame soporífera a Odete Santos, Odete Santos chame exibicionista a Álvaro Barreto, Álvaro Barreto chame banana a Pinto da Costa, Pinto da Costa chame amigo a Rui Rio...
Santana Lopes acha incoerente o facto de Sampaio se ter preocupado com a interrupção dos comentários de Marcelo na TVI e não dizer nada sobre a recusa de Sócrates em ir a alguns debates. Desta vez estou completamente de acordo com Santana. Sócrates devia ficar em prisão domiciliária até aceitar debater. Se não resultar, todos nós sabemos que há outros métodos mais eficientes para o obrigar a falar.
O PS propõe o aumento da idade de reforma tendo como referência, sempre, o aumento da esperança de vida. Ou seja, viver mais deixou de ser uma boa notícia para quem espera chegar ao fim da vida com o direito a algum descanso com alguma saúde. A reforma em tempo útil para a gozar é uma conquista civilizacional, como o horário de trabalho das 40 horas, a semana inglesa e o mês de férias. Ser a esquerda a propor este recuo é chocante.
Para além do mais, como disse a economista Teodora Cardoso, «aumentar a idade da reforma é trocar aposentados por desempregados». Estas pessoas não continuarão a trabalhar – o mercado de trabalho não as quer –, apenas não terão direito à reforma.
Para quem ache que o problema é a sustentabilidade da segurança social, espero ouvi-los na defesa sem tréguas da entrada de imigrantes no país e sua consequente legalização, única solução – e a que é, humanamente, mais justa – para estancar o envelhecimento da população.
Irei, quando tiver tempo, a outros aspectos do programa do PS e do PSD. Nunca concordei com a ideia de que PS e PSD fossem parecidos. Mas, nestas eleições, olhando para os dois programas, arrisco-me a dizer que José Sócrates está a fazer um esforço assinalável para que eu mude de opinião.
PS: Queria fazer aqui um link para os programas eleitorais. O PSD diz que o dele só estará disponível ao fim do dia, o PS também ainda não o tem disponível, o CDS, esse, só apresentou os candidatos a ministros, mas esqueceu-se de dizer o que eles vão fazer. Em PDF, aqui vão o links para os programas eleitorais do Bloco de Esquerda e do PCP. Os restantes, acrescentarei aqui quando existirem em versão digital.
Foi finalmente apresentado o programa de governo do PS. Durante semanas Sócrates foi fustigado, à esquerda e à direita, por se manter silencioso em relação às propostas concretas do PS para a governação do país. Também não me admiro que alguém venha agora zurzir no secretário-geral do PS pelo facto de vários elementos da Comissão Nacional terem aprovado as bases programáticas sem as terem lido. Este é um caso clássico de “preso por ter cão e preso por não ter”: por um lado, o secretário-geral do PS demora muito tempo a anunciar o seu programa (mas, se assim não fosse, as “Novas Fronteiras” e os contributos dos independentes não teriam sido uma farsa?); por outro lado, ao fazê-lo corre o risco de ser acusado de desprezar o debate interno.
Quanto ao programa propriamente dito. Escrevo este post conhecendo apenas a versão resumida por João Pedro Henriques no Público de hoje. Nos próximos dias, especialistas das várias áreas elencadas irão certamente escrutinar as várias medidas com elementos que eu não possuo. Por exemplo, até que ponto será exequível a proposta de reestruturação da administração pública (reformas antecipadas e admissão de novos quadros mais qualificados)? Como garantir a generalização do ensino do Inglês com os actuais docentes vinculados ao Ministério da Educação? Se o “choque tecnológico” é a grande aposta socialista, porque não generalizar também o ensino da Matemática até ao 12º ano, aumentando assim o leque de escolhas dos alunos à saída do liceu, como sucede em França?
Numa leitura superficial, o documento ontem apresentado parece-me traduzir uma combinação equilibrada de ambição e realismo. Os tempos são de austeridade e seria irresponsável prometer aquilo que o Estado não está em condições de oferecer – expansão dos serviços públicos, abatimentos fiscais para as classes médias, etc. No entanto, fazer do saneamento das finanças públicas uma das prioridades máximas dum futuro governo PS sem referir medidas concretas de combate à evasão fiscal e à “informalidade económica”, não deixa de ser decepcionante. Para um Partido comprometido com o ideal da justiça e da coesão social, essa deveria ser uma questão absolutamente prioritária – e muito importante para fidelizar votos que correm o risco de migrar para o Bloco de Esquerda. Enfim, espero que seja apenas uma distracção minha e que em breve tenhamos notícias animadoras sobre esta matéria.
Um apontamento final: a convocação de eleições antecipadas apanhou o PS desprevenido em relação às propostas governativas. De forma injusta, Sócrates viu ser-lhe colada a imagem do político de plástico, vazio de ideias. Injusta, desde logo, porque a sua eleição para secretário-geral teve lugar em Julho e a dissolução da AR foi decretada em Novembro, graças às trapalhadas indecorosas de Santana. Seja como for, um grande partido como o PS não pode estar vulnerável a estas oscilações. Independentemente do estilo e da personalidade dos seus líderes, o partido deve fomentar o estudo e a elaboração de propostas que possam ir ao encontro das necessidades e desafios da sociedade portuguesa. Ora isso só pode ser feito quando o improviso e o amadorismo acabarem no Largo do Rato. O que é feito, por exemplo, do Gabinete de Estudos do PS, que teve no sociólogo António Barreto um dos seus primeiros mentores? Aqui há uns anos, estava entregue ao Jorge Coelho! Que fazem as Fundações ligadas ao Partido? A Fundação José Fontana, que eu saiba, limita-se a editar uma revista respeitável, mas semi-clandestina (Finisterra, dirigida por Eduardo Lourenço). Está longe de ser o viveiro de ideias que é, por exemplo, a Fabian Society no Reino Unido (um dos vários think-tanks ligados ao Partido Trabalhista). A dinamização deste tipo de organismos, capazes de estabelecer uma ligação entre a liderança e os quadros disponíveis para colaborar com o partido, e de trazer a Portugal gente de outros partidos sociais-democratas, seria muito importante.

Arnaldo Fonseca [1868-1936?], Raphael Bordallo Pinheiro, Lisboa, c. 1900.
...artista naquele género Portugal não tem mais nenhum. E não se faz; por ai ainda não se faz; fazem-se conselheiros, fazem-se deputados, fazem-se desta comissão e daquela e da outra, fazem-se medalhões, mas não se fazem Rafaéis Bordalos.
Júlio César Machado, 1876.
Com apenas meia-dúzia de telefonemas e sem a trapalhada que costuma caracterizar a burocracia romana, o Barnabé encerrou favoravelmente o seu primeiro processo de canonização.
Canonizamos Rafael Bordalo Pinheiro [1846-1905], doravante São Bordalo, pelo milagre da sátira contra o martírio da monotonia. E proclamamo-lo padroeiro da blogosfera portuguesa pelo seu papel pioneiro na imprensa, arte, cerâmica, teatro e boémia oposicionistas e verrinosas em Portugal, no Brasil e na Europa.
Em honra deste avô dos blogues entramos num período de celebração que começa hoje no centenário da sua morte e que durará enquanto nos der gozo a nós e aos leitores. Mudámos por ele o cabeçalho do Barnabé. E preparamos algumas surpresas. A divulgação diária de imagens de São Bordalo, a realização de um concurso e – muita atenção – a entrada de novos barnabés para o blogue serão apenas as primeiras. As outras hão-de ir sendo divulgadas conforme as confirmarmos.
Toda a gente em Portugal acha que conhece São Bordalo porque já viu um Zé Povinho; mas quando se volta a olhar verdadeiramente para tudo o que ele fez, ficamos maravilhados. Então mas afinal nós temos uma coisa assim tão inesperada, tão torrencial, tão brilhante? Aqui no Barnabé estamos agora nesse estado e queremos comunicá-lo da melhor forma que pudermos. São Bordalo merece-o e nós precisamos, porque hoje em dia em Portugal continuam a fazer-se deputados, comissões disto daquilo e daqueloutro, medalhões – mas continuam a não se fazer Rafaéis Bordalos.
Mas não termino hoje sem dizer qualquer coisa simpática acerca do CDS. Paulo Portas ganhou o debate com Louçã. Não pela sua prestação ter sido melhor do que a do seu opositor, mas, sobretudo, porque nos próximos dias vai poder capitalizar o tremendo disparate cometido por Louçã nos minutos finais do debate. O mais inquietante na afirmação do dirigente do BE é que, aparentemente, ela não foi apenas um deslize, uma frase infeliz proferida no calor da discussão (“O Senhor não sabe o que é gerar uma vida. Não tem a mínima ideia do que isso é. Sei o que é o sorriso de uma criança. Sei o que é gerar uma vida”). Ontem, vários dirigentes nacionais do Bloco vieram a público solidarizar-se com Louçã e subscrever o conteúdo das suas afirmações (com a honrosa excepção de Luís Januário, candidato a deputado por Coimbra e autor do blogue A Natureza do Mal). O deputado João Teixeira Lopes, por exemplo, incentivou Portas a levar o seu conservadorismo “até às últimas consequências” - uma declaração carregada de insinuações.
Já há muito que suspeitávamos, agora temos a confirmação – o moralismo jacobino é um elemento intrínseco à cultura política do Bloco de Esquerda. Ai que modernos que eles são…
Esta semana, Paulo Portas decidiu brincar aos governos. Juntou um conjunto de "notáveis" do CDS numa cerimónia pública e distribuiu-lhes um conjunto de pastas. Registamos o esforço mas não resistismos a perguntar: o que é que aconteceu ao Nuno Fernandes Tomás e à Tegui? Quem é a misteriosa Rosário Ventura que destronou estes dois formidáveis candidatos à pasta da Defesa?
Fisco devolve indevidamente milhões de euros a empresas.
Nos últimos dias, alguns dos “atlantistas” da nossa praça têm-se manifestado esperançosos quanto à possibilidade de George Bush corrigir no segundo mandato os "excessos" do primeiro em matéria de política externa. Sem ter de se preocupar com a reeleição, o presidente estará sobretudo apostado em garantir o seu lugar na história, porventura como o artífice de um acordo definitivo para o conflito israelo-palestino. Em abono desta tese, são invocados vários precedentes. Nixon e a paz no Vietname, Reagan e a mão estendida a Gorbatchov, Clinton e as conversações de Camp David com Arafat e Barak. O facto de Bush ter recentemente apontado Lincoln como o presidente que mais admirava (relegando assim para segundo plano Teddy Roosevelt, o favorito de Busho no primeiro mandato), também seria um sinal auspicioso. Finalmente, a nomeação de Condoleezza Rice e de Robert Zoellick para o Departamento de Estado assinalaria o retorno da Administração às tradições diplomáticas do internacionalismo republicano.
Infelizmente, o wishful thinking tende a toldar alguns espíritos. Em primeiro lugar, a personalidade do presidente não é um dado irrelevante. Bush é um líder inseguro e manipulável. Ao contrário de Reagan, Bush não exibe qualquer interesse por um assunto internacional em concreto. Reagan, por exemplo, preocupava-se genuinamente com a hipótese de um confronto nuclear com a URSS. Assim que encontrou um interlocutor no Kremlin, não hesitou. Os conselhos de prudência dos seus conselheiros mais próximos não o perturbaram: a consulta à cartomante da Nancy foi o suficiente para se sentir seguro de si. Alguém está a ver Bush ser capaz de uma ousadia destas?
Em segundo lugar, a permanência de Cheney, Bush, Wolfowitz e Douglas-Feith em lugares-chave da Administração. Muitos esquecem-se que o Departamento de Estado tem vindo progressivamente a perder influência para o Pentágono, em virtude do crescimento do poderio militar da América. O Pentágono tem hoje um peso muito maior na feitura da política externa americana do que tinha há uns anos atrás. Na verdade, nos dias de hoje a função do Secretário de Estado consiste essencialmente em explicar ao mundo as decisões tomadas pelo Secretário da Defesa. A vice-presidência e o Pentágono são uma coutada dos nacionalistas da linha dura e dos neo-conservadores, a aliança que comandou o baile no primeiro mandato de Bush. Também para eles, a “revolução” está apenas a meio do caminho.

A capacidade de auto-ilusão de José Manuel Fernandes nunca deixa de me surpreender. No início do segundo mandato de George Bush, o director do Público decidiu adoptar o seu melhor tom solene para dissertar sobre o lugar que a presidência Bush poderá vir a ocupar na história americana ("Escolher a Liberdade")
JMF elogia o actual presidente pelo seu estilo de governação concentrado, metódico e persistente. Gaba-lhe a ambição de determinadas metas (luta contra as tiranias, expansão da liberdade e da democracia) e o seu empenho em persegui-las “sem os zigue-zagues que caracterizam muitos dos políticos modernos”.
Como ao fim de quatro anos os ganhos da liberdade e da democracia nas regiões que mais sentiram o impacto do intervencionismo americano (Golfo, Ásia Central) são no mínimo incertos, sobra-nos a determinação canina de Bush. Mas será isto uma qualidade suficiente para definir o “estofo” de um estadista? No caso de Bush, até que ponto é que a sua determinação não se confunde com uma perigosa teimosia e arrogância?
Para alguns sectores de opinião, tornou-se de bom-tom lamentar a superficialidade dos “políticos modernos” e louvar a consistência dos estadistas da Guerra Fria. Há uma boa dose de revisionismo neste exercício. Aquilo que em larga medida definiu a “grandeza” de um Harold Macmillan, um Charles De Gaulle ou um Willy Brandt, por exemplo, foi exactamente a sua maleabilidade táctica e capacidade de adaptação – ou, nalgumas circunstâncias, o seu oportunismo. Como um dia disse Mário Soares, só os burros é que não mudam. Por outro lado, as sociedades onde operam os “políticos modernos” – as sociedades da era da globalização – são, por razões que não vale a pena estar aqui a desenvolver, incomparavelmente mais complexas e difíceis de governar do que as democracias europeias do pós-guerra. Nos nossos dias, a governação está transformada na arte de descontentar o menos possível.
Bush foi reconduzido na Casa Branca com a maioria do voto popular, é certo, e mostrou como é possível somar êxitos eleitorais mandando o compromisso e a moderação às urtigas. As desigualdades sociais aumentaram, alguns dos problemas crónicos da sociedade americana permanecem por resolver (criminalidade violenta, exclusão social, assistência médica), a reputação da América no mundo deteriorou-se como há muito não se via, mas aparentemente isso não incomoda uma parte significativa dos americanos, nem um europeu moderado como JMF. Estranhos tempos estes.
A “revolução de Bush”, uma mistura de individualismo económico extremo, puritanismo e ambições imperiais, está ainda a meio do seu trajecto. Não sabemos até onde nos levará. Mas algo me diz que muito dificilmente Bush verá o seu rosto esculpido no Monte Rushmore junto de outros “revolucionários americanos”. Não vos parece?
Santana Lopes quer que Portugal seja o país com mais qualidade de vida de toda a União Europeia.
"Há uma vida que tem o direito a nascer, ou não. De acordo com o BE, não tem; de acordo connosco, tem", disse Paulo Portas. Se lá estivesse (Nossa Senhora de Fátima me livre) diria assim: nem mais uma vez lhe tolero, não lhe dou esse direito, como pessoa e como pai, que diga que eu não respeito a vida ou que a respeito menos que você. Só é possível que o diga se não souber do que está a falar. Foi assim mesmo que interpretei a resposta de Francisco Louçã.
Como pai, sinto-me indignado quando, em debates e discussões, insinuam que eu não respeito a vida. Ou seja, quando me dizem que sou um monstro insensível que não respeita a vida de crianças. Irrito-me, sinto-me insultado e compreendo quem sinta o mesmo e quem, o sentindo, descarregue. Se isto não é pessoal, o que é então pessoal? De qualquer das formas, a ideia de que houve uma referência à intimidade de Portas não faz qualquer sentido e seria, aliás, contra-natura.
De resto, foi um debate que agarrou à cadeira. Sendo suspeito, limito-me a concluir isto: ficará na história. Resumi-lo aos últimos minutos, só com muita desonestidade. Estou seguro que haverá, no entanto, quem o tente.
Segundo o Público de hoje, o professor Cliff Arnall da Universidade de Cardiff chegou à conclusão de que a próxima segunda-feira, dia 24 de Janeiro, será o pior dia do ano no Reino Unido. A fórmula calculada inclui factores como condições meteorológicas, dívidas a satisfazer, e um período significativo de tempo que decorreu desde as festas do Natal e (isto é essencial) suficiente para fazer fracassar as nossas resoluções de Ano Novo. Quem prometeu deixar de fumar ou passar a fazer desporto já terá agora percebido quão lastimavelmente incumpriu. Quanto a mim, o senhor professor acertou em cheio. Como é que ele conseguiu? Nem sequer sabe que segunda-feira terei de ir às finanças e ao banco!
Já os leitores do Barnabé que se afastarem do nosso convívio durante o fim-de-semana terão direito a surpresas que ajudarão a suavizar o embate da Segunda-Feira Negra. Digo mais: o Barnabé será outro. E mais ainda: haverá mais surpresas nas próximas semanas.
Sim, isto é um teaser. Ou, em português, um chatarrão.
De uma embolada entre Zeca Baleiro e Elba Ramalho ["Drumembéis" in Pet Shop Mundo Cão]: "Tá todo o mundo / com medo do fim do mundo / mas pior que o fim do mundo / para mim / é o fim do mês".

Vi a segunda metade do debate entre Francisco Louçã e Paulo Portas, na SIC notícias. Uma coisa é certa: meio debate entre eles vale dois anos de debates entre Santana e Sócrates. Depois de ter acabado, ainda passei pelo Estado da Nação, mas não me demorei cinco segundos sequer. Depois de passar pela droga dura – puro karaté político entre dois cinturões negros – nenhum agarradinho da política se deixa convencer por cerveja morna, não é? Neste momento, em Portugal, apenas Louçã e Paulo Portas são desafio suficiente um para o outro e, pelos vistos, sabem-no.
Falei de karaté político, mas é uma expressão enganadora. Em primeiro lugar, apesar de se terem interrompido algumas vezes, deu para ouvir o que era dito. Por outro lado, não quero passar a ideia de que se tratou de um jogo puramente intelectual. Havia – e sentia-se – nervosismo, irritação, ansiedade. Passava até a ideia de que os dois se temiam e de que – não faço ideia de se isto é verdade ou não – não gostavam pessoalmente um do outro.
Não vou cair no erro de tentar dizer quem ganhou o debate. Desde logo porque, tendo perdido o início, pode ter-me escapado algum momento decisivo. Mas mais do que isso – porque sendo os dois altamente competentes e constituindo ícones políticos tão opostos, num dia normal nenhum esmagará o outro. Quem gosta de um achará que ele ganhou – e se eu viesse aqui dizer o contrário, cair-me-iam em cima furiosamente. Mas principalmente quem detesta um deles achará que ele foi exposto naquilo que tem de mais detestável – porque Louçã e Portas são as figuras mais "prontas-a-detestar" pela direita e pela esquerda – e a sua alegria será uma reverberação desse detestar.
Seja como for, este debate lembrou-me o gozo-frémito que há de ter sentido quem viu o célebre Soares-Cunhal. Passamos o tempo todo a dizer que já não há políticos como os dos anos 70-80, e de repente temos aqui dois que têm esse estofo – sim, têm-no, não adianta negar. Eu gostaria que o CDS/PP tivesse dois por cento dos votos e um deputado, mas isto não muda nada do que vou dizer: Paulo Portas já é a figura mais importante da direita na última década – desde que foi àquele famoso programa do Herman. É de longe o seu político mais inteligente, mais hábil, mais cerebral – e o mais perigoso do meu ponto de vista. E Louçã é também a figura mais importante da esquerda portuguesa actual. Atenção: não lhes chamo "líderes", digo que são as personagens mais densas e, se quiserem, as mais inspiradoras.
Louçã tem um vocabulário quase brutal para os nossos hábitos políticos – de tal forma que as suas acusações chegam a perder força por não serem mais sibilinas, como o português gosta. Portas contra-ataca caracterizando-o como arrogante, mas as suas objecções formais não chegam: para quem acabou de ouvir dizer que o governo "mentiu", que o país está a ser "roubado" ou que isso é "vergonhoso", seria necessário que Portas conseguisse antes dizer que não, ninguém mentiu, o país não está a ser roubado e que, portanto, não há vergonha nenhuma.
No momento final – e mais tenso – do debate, Louçã disse a Portas que ele não tinha o direito de falar de vida na questão do aborto – até porque ele, Portas, nunca tinha gerado vida. Pareceu forçado e desnecessário, e uma pequena volta pelos comentários de direita na blogosfera permite ver que esse comentário foi entendido como um argumento de autoridade inaceitável e logo erigido em momento mais significativo do debate. Quando comparado, contudo, com a equiparação do aborto ao assassinato, insinuando que os defensores da despenalização são no fundo defensores da morte de "bébés" ou "crianças", o aparte de Louçã nem chega a ser uma resposta proporcionalmente violenta.
Visto da esquerda, no entanto, o momento do debate foi outro – e um que entra para a divisão do "olhe que não, olhe que não" de Cunhal. Para evitar responder a uma acusação, Paulo Portas fez um longo intróito sobre a arrogância da esquerda. Instado a responder mais directamente pelos jornalistas, perdeu o fio da palavra enquanto dizia "depois desta... depois desta..." – "fuga", completou Louçã. Portas ficou calado uma eternidade televisiva, desbaratado como nunca o vi. Depois pôs o dedo em riste e disse, extraordinariamente, "não precisa de me esticar o dedo", ou algo assim. A incongruência daquela combinação simultânea do célebre dedo hirto de Paulo Portas enquanto acusava o seu adversário de lhe fazer exactamente isso, mas brilhantemente desmentido pela realização num écran dividido ao meio, foi de um efeito tremendo. Desopilante, sucinto, inesperado. Não me admira nada que seja esta a imagem escolhida pelos resumos televisivos para ilustrarem o debate. Na imprensa, o ataque de Louçã a propósito da "vida" terá mais destaque. Nesse as palavras foram cruciais, naquele as imagens foram cruéis.
Palavras ou imagens, escolha o seu momento. Quando é que repetem outro debate a sério, que eu não quero perder?
Tanta coisa a acontecer e eu sem me conseguir aproximar do computador. Um primeiro-ministro despedido cheio de brio, um ministro da defesa carregado de assessores que ganham mais do que ele para nos explicar como moralizar o Estado, um líder da oposição em birra permanente, o apito dourado a chegar às autarquias, e eu longe da banda larga, da curta ou de outra banda qualquer. Sim, estou em campanha eleitoral, de terra em terra, naquela que será a minha última tarefa como burocrata partidário. Isto foi só para dizer que estou vivo, se é que isto interessa a alguém para além da minha mãe. De resto, como seria de esperar, o Rui, o Pedro, o André e o Celso têm-se encarregado de mostrar que o Barnabé está óptimo sem mim. Mesmo assim, eu volto já. Se me quiserem, claro.
PROMETO TENTAR RECENSAO MAL ACABE LIVRO E HAJA TEMPO INQUALIFICAVEL QUANTIDADE TRABALHO OBRIGADO LODGE CONTA JAMES ESCREVIA TELEGRAMAS COMO SMS PRA CORRIGIR PEÇAS TEATRO
Agora em futebolês: Timothy Garton Ash é capaz do melhor e do pior, e é capaz também do bastante bom, do mais-ou-menos e do medíocre – corre o espectro todo. Mas há muito tempo que não lia (se é que alguma vez li) um texto dele em que ao mesmo tempo fosse acenando que sim com a cabeça e sorrindo, como se eu mesmo gostasse de ter escrito aquilo que ia lendo.
Trata-se de uma artiguito de opinião, chamado "Louvor da Blasfémia", e foi motivado pelos esforços de fundamentalistas cristãos em evitar a difusão pela BBC2 do musical Jerry Springer - The Opera, "obsceno, ofensivo, blasfematório", bem como dos esforços de fundamentalistas sikh – infelizmente bem sucedidos – de impedir a peça Behzti, de Gurpreet Kaur Bhatti, de continuar em cena num teatro de Birmingham.
Citação-chave:
Aqui está a escolha que enfrentam as nossas sociedades cada vez mais multiculturais. Podemos tentar proteger um número eternamente crescente de "culturas", definidas pela religião, raça, tradição étnica ou preferência sexual de comentários que são por elas entendidos como sendo grosseiramente ofensivos. Há argumentos a favor desta posição, mas vamos ser claros acerca do resultado. Este será o seguinte: teremos inevitavelmente menos liberdade de expressão. Os historiadores do futuro poderão vir a considerar as últimas três décadas do século XX como o auge da liberdade de expressão que nunca mais voltou a ser atingido. Poderá haver benefícios colaterais – paz cívica, por exemplo –mas haverá menos liberdade.Em alternativa, podemos defender que, precisamente porque a Grã-Bretanha é cada vez mais multicultural, todas as variantes da religião, todas as "culturas" – incluindo, evidentemente, o ateísmo, o darwinismo devoto, etc. – se terão de habituar a viver com um grau maior de insulto público. Ou se tenta proteger toda a gente do insulto, ou se permite o insulto em doses iguais a toda a gente. Sou enfaticamente do partido dos insultos-para-todos.
[in The Guardian, via o sempre excelente Political Theory Daily Review]
Depois de uma visita "privada" ao Bispo de Coimbra, para a qual foram chamados jornalistas, Zita Seabra declarou que "temos de viver com os nossos valores, que são os valores católicos!" e acrescentou que "ao não reconhecer essa tradição, alguns países da Europa - como a França, a Alemanha e a Espanha - correm um risco sério de perda de identidade".
Santana Lopes tentou ontem tapar as 72 nomeações que efectuou já como primeiro-ministro de gestão com uma nomeação de Sócrates que afinal foi feita com as assinaturas de Isaltino Morais e Durão Barroso. Hoje, Miguel Almeida, membro da comissão política do PSD, já veio dizer que não era aquela mas a outra nomeação que o Primeiro-Ministro se referia. Não há mesmo nada a fazer, é toda uma cultura.

A primeira vez que reparei nas cretinices do engenheiro Nuno Cardoso foi em 2000, quando ele (já presidente da Câmara) decidiu convocar uma nova sessão de fogo de artifício para o dia 6 ou 7 de Janeiro, a fim de compensar os portuenses pelo fiasco da noite da passagem de ano. As suas declarações de ontem, insinuando que as investigações de que é alvo são motivadas politicamente, devem levar o PS a reflectir sobre o grau de impreparação política deste tipo de personagens.
TGV no Porto. Mais duas pontes em Lisboa. E agora metro em Coimbra.
O país tem duas soluções.
Ou só ter governos de gestão. Ou ter eleições todos os anos.
Santana Lopes compara governo a "trabalhador despedido".
Diz-me o João Miranda que o meu texto de ontem sobre a China quase o fez mudar de ideias e passar a defender o bloqueio a Cuba. É curioso, porque pensei que correr em tropel mendigando um pedaço do mercado local, enriquecendo a nomenclatura enquanto se diz compreender a "situação" dos direitos humanos é que seria o remédio infalível...
O Público On-Line fez um inquérito aos leitores sobre se concordavam com a proposta do Presidente de facilitar a obtenção de maiorias absolutas. O resultado foi 69% contra, 31% a favor.
Mas pensando bem, aqueles 31% são quase uma maioria, não são?
Não vou aqui dizer o quanto aprecio o Pedro Mexia enquanto benfiquista e enquanto blogger, que é para não falhar o meu tiro. Também gosto muito dos filmes de Clint Eastwood e confesso a minha curiosidade em ver para trás todos os Dirty Harrys (confesso que a cultura esquerdalha só me trouxe para cá do Bird, com duas incursões no Western Spaghetti — O Feio, o Mau e o Vilão e Por mais um punhado de dólares). Enfim, gosto de um bocado de sangue e de tiros dados por gajos violentos mas bons lá no fundo. Mas desde que seja no cinema: abençoar Clint Eastwood por este publicamente ameaçar matar Michael Moore é que não me parece lá muito cristão. E é uma leitura um bocado tortuosa da Bill of Rights da parte do nosso amigo Clint. É que há aqui um conflito insanável entre a primeira e a segunda emenda que importa considerar. A não ser que consideremos que resolver divergências a tiro é na realidade uma forma de liberdade de expressão. E daí talvez, mas trata-se de um regresso aos tempos da guerra civil. (Tom Waits é que conta a história de uma bala que perfurou o testículo de um soldado e depois se foi alojar no óvulo de uma rapariga. E dizia que, se pensarmos bem, esta é uma forma de penetração. Mas não é para todos). Enfim, se no plano da fantasia a eficácia do tiro não admite dúvidas, do ponto de vista da realidade este não deixa de ser um mau guião.

Morreu Bezerra da Silva, o grande símbolo do samba castiço carioca.
Para quem ainda não conhece, uma mini-biografia deste notável compositor e cantor dos morros do Rio pode ser encontrada aqui, e outra aqui. Há pouco vi as imagens do funeral do sambista, que acabou como era de esperar: com o pessoal todo no boteco da esquina a cantar, batucar e dançar.
Divertidíssima a incongruência cénica da sessão do CDS/PP no Café Nicola em Lisboa. Por cima do público as câmaras de televisão apanhavam o quadro em que Bocage insulta dois frades, uma das mais anti-clericais das pinturas portuguesas. Ao lado do púlpito, naquela estátua, eu iria jurar que vi um sorrisinho malandro na facha triste, por debaixo do nariz ao meio (e não pequeno). E que quando Paulo Portas se aproximou já de dedo em riste a preparar o seu discurso, Bocage revirou os olhos e recordou estes versos:
Deixa em sossego o miserável mundo
E entre a maldita, réproba canalha
Lá bem longe de nós, lá bem no fundo,
Arde, murmura, amaldiçoa e ralha

Um manifestante pró-democracia com uma imagem de Zhao Ziyang, Hong-Kong. Foto Reuters.
Para todos os que passámos a noite acordados – na época a ouvir a rádio de hora a hora – nos dias em que se acumulava a tensão que precederia o massacre, a moderação de Zhao Ziyang constituía uma pequena esperança de que o pior não acontecesse. A sua morte recorda outra vez que o pior aconteceu mesmo – e duas vezes. Aconteceu quando morreram aquelas centenas ou milhares de estudantes e acontece hoje quando deixamos que aquela tragédia ainda tão recente seja normalizada pela ascensão económica da China e pela globalização gradual do seu mercado, os mesmos factores que levam Sampaio a dizer que é "compreensível" a situação dos direitos humanos na China.
Vale a pena ler o que se vai publicando sobre a situação na China nestes dias para se compreender que não, o facto de haver por lá muitos supermercados, estaleiros de obras e empregos bem pagos não quer dizer que os chineses possam fazer algo tão simples como dizer o que pensam. Para nós que o fazemos a toda a hora aqui na blogosfera não deixa de ser perturbante esta notícia do Washington Post, onde nos é explicado como nos grupos de discussão os chineses vão publicando elogios a Zhao Ziyang no conhecimento de que, minutos ou horas depois, os seus textos serão diligentemente apagados pelos censores profissionais que varrem noite e dia a rede.
Extraordinário é também ver a polémica que, a este propósito, se tem feito no Blasfémias entre CAA e os restantes blasfemos. Extraordinário não só por ver que a liberdade económica é supervalorizada pelos liberais de direita, ao contrário da mais fundamental liberdade política. Mas extraordinário principalmente pelo determinismo dos argumentos dos Blasfemos que discordam com o CAA. Desde que o marxismo morreu que estes liberais empresarialistas se comportam como se a história tivesse deixado de dar razão ao socialismo "científico" para dar razão às suas apologias "científicas" do capitalismo. Não, não; a história nunca deu foi razão a ninguém – é isto que entrou à força nas cabeças marxistas mas ainda não chegou às dos seus adversários. Como tal, o debate deu uma volta e é ver agora a direita a proclamar leis da história e João Miranda ou PMF a dizer que a China não é liberal, mas que "para lá caminha" e que a liberdade económica vai "inevitavelmente" democratizar a China.
Chegámos à terra das "inevitabilidades" e das "inexorabilidades" históricas. Estão encontrados os herdeiros de Marx.
Só me espanta que não conheçam exemplos de regimes que viveram durante décadas com todos os aparatos do capitalismo – propriedade privada, bolsas de valores, sociedades anónimas – sem que as liberdades tenham avançado um milímetro sequer e sem que as sociedades se tenham "inevitavelmente" democratizado. Espanta-me, apenas porque calha termos vivido durante 48 anos num desses regimes. Ah, bem sei, não era o mercado livre perfeito – não faz mal, também a URSS não era o socialismo perfeito.
Sim, a ditadura chinesa há-de acabar um dia. Mas não será por causa da chamada "abertura económica", que pode até ajudar a prolongá-la (leia-se também este texto do International Herald Tribune onde aparece uma expressão dos ideólogos do PCC que é reveladora: a China prossegue uma via de "relaxamento externo e vigilância interna"). Será apenas porque todas elas acabam – mais tarde ou mais cedo – e cada uma por razões diferentes.
Até lá, a solução não é enterrar os mortos de Tiananmen e os presos políticos sob uma pilha de óptimas oportunidades de negócio.
ERRATA: Por engano o blasfemo PMF aparece aqui citado em vez do LR; foi este último que escreveu que a China "não é liberalismo, mas para lá caminha" e que "o livre comércio é a forma mais harmoniosa de promover a criação de riqueza e o desenvolvimento à escala global e este trará consigo, inevitavelmente, o embrião da liberdade política" [meu itálico]. O PMF escreveu também sobre o assunto, mas mais procurando delimitar e enquadrar a questão. A ambos as minhas desculpas.
A Marta Amaral – uma grande amiga que é também leitora do Barnabé – escreveu-nos a lembrar que ontem foi Dia de Martin Luther King nos EUA e confessar o seu espanto (as palavras não são estas) ao ler pela primeira vez o célebre discurso "do sonho", de 28 de Agosto de 1963, tantas vezes glosado. Eu fui repetir a experiência e fiquei tambem encantado com esta jóia da oratória onde a influência parenética – dos sermões religiosos – se casa tão naturalmente com as reivindicações jacobinas – sim – da luta dos direitos civis. E onde um homem enorme diz o que sente sem a mínima preocupação de se há-de parecer infantil aos cínicos. Fica aqui a seguir o texto completo, via o blogue de Kate Allison Granju:
"I Have a Dream"
Dr. Martin Luther King, Jr.
I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.
Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon of hope to millions of Negro slaves, who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity. But one hundred years later, the Negro is still not free. One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacle of segregation and the chains of discrimination.
One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languishing in the corners of American society and finds himself an exile in his own land So we have come here today to dramatize a shameful condition.
In a sense we have come to our Nation's Capital to cash a check. When the architects of our great republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir.
This note was a promise that all men, yes, black men as well as white men, would be guaranteed to the inalienable rights of life liberty and the pursuit of happiness.
It is obvious today that America has defaulted on this promissory note insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check, a check that has come back marked "insufficient funds."
But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation. So we have come to cash this check, a check that will give us upon demand the riches of freedom and security of justice.
We have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of Now. This is not time to engage in the luxury of cooling off or to take the tranquilizing drug of gradualism.
Now is the time to make real the promise of democracy.
Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice.
Now is the time to lift our nation from the quicksands of racial injustice to the solid rock of brotherhood.
Now is the time to make justice a reality to all of God's children.
It would be fatal for the nation to overlook the urgency of the moment and to underestimate the determination of it's colored citizens. This sweltering summer of the Negro's legitimate discontent will not pass until there is an invigorating autumn of freedom and equality. Nineteen sixty-three is not an end but a beginning. Those who hope that the Negro needed to blow off steam and will now be content will have a rude awakening if the nation returns to business as usual.
There will be neither rest nor tranquility in America until the Negro is granted his citizenship rights. The whirlwinds of revolt will continue to shake the foundations of our nation until the bright day of justice emerges.
But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds.
Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred. We must ever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force.
The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. They have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom. We cannot walk alone.
And as we walk, we must make the pledge that we shall always march ahead. We cannot turn back. There are those who are asking the devotees of civil rights, "When will you be satisfied?" We can never be satisfied as long as the Negro is the victim of the unspeakable horrors of police brutality.
We can never be satisfied as long as our bodies, heavy with the fatigue of travel, cannot gain lodging in the motels of the highways and the hotels of the cities.
We cannot be satisfied as long as the Negro's basic mobility is from a smaller ghetto to a larger one.
We can never be satisfied as long as our children are stripped of their selfhood and robbed of their dignity by signs stating "for white only."
We cannot be satisfied as long as a Negro in Mississippi cannot vote and a Negro in New York believes he has nothing for which to vote.
No, no we are not satisfied and we will not be satisfied until justice rolls down like waters and righteousness like a mighty stream.
I am not unmindful that some of you have come here out of your trials and tribulations. Some of you have come fresh from narrow jail cells. Some of you have come from areas where your quest for freedom left you battered by storms of persecutions and staggered by the winds of police brutality.
You have been the veterans of creative suffering. Continue to work with the faith that unearned suffering is redemptive.
Go back to Mississippi, go back to Alabama, go back to South Carolina go back to Georgia, go back to Louisiana, go back to the slums and ghettos of our modern cities, knowing that somehow this situation can and will be changed.
Let us not wallow in the valley of despair. I say to you today, my friends, that even though we face the difficulties of today and tomorrow. I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.
I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed. We hold these truths to be self-evident that all men are created equal.
I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.
I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.
I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today.
I have a dream that one day down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of interposition and nullification; that one day right down in Alabama little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.
I have a dream today.
I have a dream that one day every valley shall be exalted, and every hill and every mountain shall be made low, the rough places will be made plains and the crooked places will be made straight and the glory of the Lord shall be revealed and all flesh shall see it together.
This is our hope. This is the faith that I will go back to the South with. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope.
With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood.
With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to climb up for freedom together, knowing that we will be free one day.
This will be the day when all of God's children will be able to sing with new meaning "My country 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the Pilgrim's pride, from every mountainside, let freedom ring!"
And if America is to be a great nation, this must become true. So let freedom ring from the hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York.
Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania.
Let freedom ring from the snow-capped Rockies of Colorado.
Let freedom ring from the curvaceous slopes of California.
But not only that, let freedom, ring from Stone Mountain of Georgia.
Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi and every mountainside.
And when this happens, when we let freedom ring, when we let it ring from every tenement and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old spiritual, "Free at last, free at last. Thank God Almighty, we are free at last."
Logo agora que tenho tanta preguiça e tanto trabalho, pus-me a ler um daqueles livros que pede uma leitura lenta, a desfrutar os ambientes, como nos bons filmes. No outro dia, estava eu a entrar na FNAC da rue de Rennes e — isto mesmo comigo a acabar de entrar na loja, como se houvesse ali um plano qualquer — ouço o altifalante: "lembramos que no 1° andar desta loja o escritor inglês David Lodge vai agora fazer a apresentação do seu novo livro...". Corri, pois David Lodge é um dos escritores actuais de que realmente gosto e era a ocasião para ver ao vivo o Autor, o Autor. Este é precisamente o nome do último romance de Lodge, que começa com a morte do escritor anglo-americano Henry James e depois volta atrás para falar de momentos centrais da vida deste e das pessoas que fizeram parte dessa vida. O escritor, a vida do escritor (e na vida Lodge inclui o corpo, a inveja, a frustração, não apenas a alma e a aura literária), é o objecto do romance. Lodge é rigorosamente fiel aos factos da biografia de James, apenas inventa uma personagem insignificante, para além, é claro, de tudo o resto e que é muito (diálogos, sentimentos dos personagens, imaginação de lugares e ambientes). O que coloca evidentemente a obra do lado da ficção: a biografia de James funciona essencialmente como constrangimento criativo. E para aqui ando a ler o livro e a fascinar-me com a forma como o romancista cumpre a função que neste caso é a dele: a de apagar bem as passagens, de modo a que ninguém as note, entre os documentos históricos e aquilo que inventa. E talvez pela primeira vez dá-me a vontade de fazer uma recensão a uma obra de literatura. Mas não sei se farei, porque quanto mais devo trabalhar mais preguiço.
Passou mais um domingo. Saiu o número dois de Domingo Liberal, um novo semanário onde, aparentemente, escreve o João Miranda do Blasfémias, entre outros. Em contenção orçamental para dominar o meu próprio défice, não pude comprar um exemplar, embora queira saudar o aparecimento de mais um jornal e logo um em que as opções ideológicas vêm bem claras no título, o que é saudável. Desejo-lhe uma longa vida, certamente mais longa do que a d'O Liberal, de Pedro Santana Lopes, que durou tão pouco, tão pouco, que foi apenas um pouco mais do que o actual governo, também de Pedro Santana Lopes. Aproveito para lembrar que o jornal político mais longevo é A Batalha, anarquista e fundado em 1919, vai agora fazer 86 anos. Na 1ª República era diário, hoje em dia é trimestral – e ria-se quem conseguir levar o seu jornal aos 86 anos.
Como apenas vi o exemplar de Domingo Liberal em banca, posso só comentar a arte gráfica e o título. Do grafismo digo que é pouco consentâneo com um jornal liberal, que deveria ser discreto, elegante e levemente antiquado e não ter o cabeçalho berrante e a tipografia desconexa que este apresenta – uma crítica que pretendo construtiva, porque o grafismo errado gera confusão entre os leitores.
Depois há este título, Domingo Liberal, que é curioso porque remete para uma certa periodicidade das convicções, para uma ideologia hebdomadária que irrita os fanáticos da coerência com "c" pequeno [e logo os dogmáticos liberais de direita portugueses] mas a mim me agrada – porque sim. "Olha hoje vou ter um domingo liberal", diria eu para mim mesmo se andasse com dinheiro para comprar o jornal, "um domingo magnânimo mesmo" se ao jornal juntasse mais uma revista, um filmezinho e um sorvete. O domingo liberal teria certamente sido precedido por uma madrugada de sexta-feira libertária e por um sábado situacionista, e a ele teria forçosamente que se suceder uma segunda-feira trabalhista, uma terça-feira revisionista, uma quarta-feira reformista, mais a quinta-feira progressista e a sexta-feira reviralhista.
Já agora: vocês não acham que o Domingo é o dia dos títulos esquisitos? O meu preferido é o do programa "Diga lá, Excelência!", que dá no 2º canal, em colaboração com o Público e a Rádio Renascença. Chamar "Diga lá, Excelência!" a um programa é uma ideia tão pateta que parece vir da falta de imaginação de um chefe de redacção em pré-reforma numa estação de rádio artrítica dos anos 50 – hipótese que se confirma, visto que o programa é da Radio Renascença. "Diga lá, Excelência!" é um título que merece meio post porque é das poucas oportunidades que eu tenho para usar a palavra bota-de-elástico. Eis uma palavra que, note-se, não quer só dizer "desactualizado". Bota-de-elástico é uma palavra desactualizada que quer dizer "desactualizado", o que em si mesmo é um prodígio de redundância cuja utilização está reservada a ocasiões raras, em racionamento perpétuo, por assim dizer.
Agora o que eu nunca tinha reparado, para além do toque bota-de-elástico (só mais esta vez) de "Diga lá, Excelência!", era naquele ponto de exclamação ali no fim, que acrescenta uma pitada aberrante a toda a ideia do título. Se aquele "diga lá" é todo ele Portugal salazarista, a pedir de chapelinho na mão ao senhor doutor que por favor se digne a proferir umas palavrinhas para o estimado público, aquele ponto de exclamação é uma insolência que é incongruência. Eu explico. Para haver coerência aquele título tinha evidentemente de terminar com reticências. Diga lá excelência... se puder ser agora. Diga lá excelência... se não for incómodo para vossa excelência. Diga lá excelência... que eu sempre fui tão amigo do seu paizinho. Agora ponto de exclamação é que nunca. Vocês conseguem a imaginar alguém de voz sumida a pedir diga lá por obséquio... e a terminar sua excelência que é como quem diz vocês são é todos iguais excelências como tu papo-as eu ao pequeno almoço? Pois é isso que aquele ponto de exclamação ali no final quer dizer. E ali vão as pobres excelências ao engano, os patrões da indústria, os grandes economistas, os presidentes de agências estatais, bancos centrais e da própria república, e nem se dão conta de que aquele ponto de exclamação ali no final está a fazer pouco deles. Que é assim uma coisa como quem diz eu gosto muito de os chamar de doutor para aqui e doutor para acolá mas quero é que vão todos dar uma grande volta que eu tenho a minha vida para tratar.
No fundo, aquele título, mas só e apenas se for acompanhado do ponto de exclamação final, é o melhor resumo do portugal actual que conheço. A casca ainda é a do respeitinho mas lá por dentro o pessoal marimba-se para tudo e todos. O que quer dizer que afinal não é bota-de-elástico, é pós-moderno.
Porra, vou ter de reescrever isto tudo.

Dois artigos na última edição da Foreign Affairs, um de James Dobbins e outro de Edward Luttwak (este não disponível on-line), reflectem sobre o dilema dos Estados Unidos no Iraque. O primeiro conclui que as hipóteses da democracia iraquiana singrar dependem da capacidade dos iraquianos moderados de se distanciarem da potência americana. O segundo preconiza a adopção de uma estratégia de “disengagement” o mais rapidamente possível.
Fala com os ministros todos os dias?
Sim. Quase todos os dias, com alguns.
5x2
Desigual nos seus vários “episódios”, 5x2 é um excelente filme sobre o fim e o começo do amor. Começa com o fim, como se tivesse sido sempre assim. Continua no meio, como se tivesse sempre a acabar. E acaba no princípio, quando outro fim se adivinha e o começo promete ser perfeito.
Maria cheia de Graça
Os que querem viver melhor fazem o mesmo que todos: o que podem. O tráfico de droga visto do lado de lá. Apesar de não ser grande fã deste estilo “realista”, para primeiro filme, Joshua Marston promete.
Melinda e Melinda

De tanto se repetir, Woody Allen acaba por já não ter nada para dizer. "Melinda e Melinda" é o pior filme da sua carreira. O que é sério é desinteressante, o que é para ter graça não a tem. Para mim, uma enorme desilusão.
Uma reportagem da Visão desta semana revela-nos mais alguns pormenores irresistíveis sobre a composição das listas de candidatos a deputados à Assembleia da República. Para sermos justos, há que referir que o empenho de Pedro Santana Lopes no recrutamento de figuras mediáticas está longe de constituir uma novidade na nossa vida política. Há uns anos atrás, o PS decidiu incluir a maratonista Rosa Mota nas suas listas, salvo erro em lugar elegível, pelo Porto. O PP de Monteiro e Portas em 95 cooptou a locutora Manuela Moura Guedes, a qual cumpriu um inglório mandato na Assembleia da República. Nas últimas europeias, até o sempre moralista Bloco de Esquerda não resistiu à moda e lá arregimentou a vocalista Xana, dos Rádio Macau, para a sua lista. Nestes casos, porém, as celebridades cumpriam um papel basicamente ornamental. Ora, na elaboração das listas do PSD 2005, o estatuto mediático tornou-se um dos critérios essenciais para a selecção de candidatos. Ao ponto de tocar as raias do absurdo. De acordo com o artigo da Visão, o Conselho Nacional do PSD teve mesmo de vetar alguns dos nomes que Santana Lopes tinha na manga, como a corredora de automóveis Joana Lemos ou a comediante Marina Mota. Dias antes tinha-se sabido que a romancista “light” Margarida Rebelo Pinto resolvera infligir mais uma humilhação ao infeliz líder do PSD ao recusar integrar as listas do partido por Lisboa.
A reportagem da Visão desvenda ainda outros factores que terão pesado na elaboração das listas, desde as amizades pessoais dos líderes às conexões empresariais de alguns candidatos. Só é pena que não tenham alargado a investigação a outros domínios. Por exemplo, seria muito interessante saber quantos candidatos têm ligações ao mundo do futebol, através da participação em órgãos sociais de clubes. Ou, não menos significativo, o peso dos apelidos familiares –provavelmente uma das piores chagas do Partido Socialista.
O Público de sexta-feira passada dava conta de um ultimato feito pelo governo de Luanda à França para que as suas autoridades não perseguissem judicialmente o traficante de armas Pierre Falcone, um francês com passaporte angolano. Para que não restassem dúvidas, o governo do MPLA ameaçou Paris com a anulação de um contrato de 10 milhões de dólares obtido pela petrolífera Total, a par de outras retaliações económicas contra a Air France e a Alcatel.
Que a ditadura angolana se permita encenar esta chantagem diz algo acerca da política externa francesa. Há dias, uma pessoa bem informada expôs-me a sua teoria acerca das relações da França com os regimes despóticos e corruptos do Terceiro Mundo. O problema, dizia-me essa pessoa, não pode ser reduzido a uma dimensão estritamente moral. É importante ter em conta o perfil das exportações francesas. Enquanto países como a Itália ou a Dinamarca, ou até mesmo a Alemanha, vendem artigos a indivíduos, como os brinquedos Chicco e Lego, ou os Volkswagens Golf, a França vende coisas que só os estados podem comprar. Assim, estar de bem com os ditadores que Washington colocou na sua lista negra é o que permite a Paris arranjar uns nichos de mercado para obter contratos petrolíferos, por exemplo, ou para vender os seus aeroportos de chave na mão, sistemas de telecomunicações, os seus submarinos e helicópteros, etc.
Fui pensando nesta teoria ao volante do meu Peugeot. Continuei a meditar nela já em casa enquanto acenava à minha filha bebé com um coelho da Prénatal. Mais ao fim do dia, ao bebericar um copo de Bordéus, acompanhado de um pouco de queijo Roquefort, disse cá para comigo: Naaah, há qualquer coisa nesta teoria que não bate certo. Os franceses não têm é mesmo vergonha na cara.
A ler, o relatório da Human Rights Watch sobre a situação dos direitos humanos em Angola, com especial destaque para a conduta das FAA em Cabinda.
«VER A NOITE / NÃO VER A NOITE
Há uma hora, a humidade baixa não deixava ver nada. Agora, com surpresa, até o cometa se vê a olho nu (mal, mas vê), e o céu está o melhor de há mais de um mês.»
Vai ser assim até 20 de Fevereiro, entre o êxtase dos novos descobrimentos e as saudades do encoberto?
"A nossa sociedade tem algo de infantil, mas sem a vivacidade das crianças. O português não é um adulto autónomo". José Gil, em entrevista à Pública.
"A sociedade portuguesa... é uma sociedade suavemente paranoica". José Gil, em entrevista à Pública.
A propósito de paranoia, devo acrescentar que estou desconfiado de que está gente a ler estas palavras a partir de um outro terminal de computador. Não quero parecer alarmista, mas não consigo deixar de pensar nisto.
"Em Portugal a inveja não é um sentimento, é um sistema". José Gil, em entrevista à Pública.
Tenho um amigo, que vocês até conhecem, que diz que o segredo do futebol é ser muito parecido com a vida: umas vezes ganha-se, outras, perde-se, outras, empata-se. Depois do cenário de impotência da semana passada, mais do que ganhar, soube-me pela vida ver o puto renascer. Por isso, com uma autoridade que a Maya não desdenharia, aqui declaro esta, a semana Mantorras. Haja esperança, caramba. Também na bola.
«O CDS passou a ser, agora, a fonte de todas as virtudes. Já tive isso na campanha de Lisboa. O dr. Paulo Portas era o herói da Esquerda.» Pedro Santana Lopes, em entrevista ao JN.
"Espero que haja muita memória" por parte do CDS/PP, diz Pedro Santana Lopes ao JN.
A João Pereira Coutinho, por ter dado o título "Uma Campanha Alegre" a uma crónica sua sobre as eleições [hoje no Expresso]. Mais o menos o equivalente a escolher "As Quatro Estações" para banda sonora de um anúncio a aparelhos de ar condicionado.

SIC/Expresso/RR
Sharon cortou relações com Mahmoud Abbas ainda antes de este tomar posse, por causa do atentado de ontem. Disse o porta-voz israelita que não há mais conversas até um homem que foi eleito há cinco dias «fazer um esforço real para parar o terrorismo». E o ministro Yitzhak Herzog foi ainda mais lapidar: «Abu Mazen não tem 100 dias de graça». Nem 100, nem um, ao que parece. Para quem acreditava na boa-vontade de Sharon, aqui ficou a resposta. Só estava à espera do primeiro argumento (mesmo que ele tenha vindo antes de tempo) para voltar à novela do costume. Os terroristas agradecem a Sharon e a Pavlov.
Sócrates continua com a estratégia de recusar quase todos os debates. Sócrates não é primeiro-ministro e é líder há uns meses. Nunca ninguém, nas suas circunstâncias, se pôs em tal posição de altivez, mais a mais quando o actual primeiro-ministro, que já não tem nada a perder, se mostra disponível para ir a todas. Da imagem de excesso de medo ou de excesso de confiança não se livra. Para quem quer dar uma imagem de credibilidade aos eleitores, já vi estratégias mais brilhantes.
Ou eu sou um tipo muuito desconfiado ou a campanha do CDS/PP traz água no bico. Paulo Portas tem pedido ao eleitorado uma votação de mais de dez por cento no CDS/PP, afirmando que esta votação é essencial para os dois objectivos do partido para estas eleições, a saber:
– impedir uma maioria absoluta do PS;
- impedir uma maioria de esquerda.
Mas uma análise às circunstâncias actuais não permite acreditar plenamente nestes objectivos. Em primeiro lugar, e ao contrário do que Paulo Portas afirma, um voto no CDS não é um voto roubado ao PS, mas sim ao PSD. Isso quer dizer que um voto no CDS não aproxima a direita da maioria, nem impede a maioria absoluta ao PS, apenas enfraquece o PSD. Por outro lado, em face dos dois objectivos acima, toda a gente concordará que apenas o primeiro deles (impedir uma maioria absoluta do PS) é plausível. Impedir uma maioria de esquerda, quando a esquerda está com 20% de vantagem nas sondagens é... bem, enfim, nesta coisas não há impossíveis – mas só não é impossível mesmo porque nestas coisas não há impossíveis. Enfim; impedir uma maioria de esquerda é neste momento um pouquinho menos do que impossível, tal como eu ganhar o Euromilhões esta semana é um pouco menos do que impossível.
Continuemos a pensar em voz alta. Não quero com este preâmbulo dizer que o CDS/PP não peça sempre mais votos, vindos de onde quer que venham. Mas não deveria o CDS/PP apenas tentar subir o seu score sem falar em impedir uma maioria absoluta do PS, quando toda a gente imagina que um PS sem maioria absoluta possa vir a ter de negociar com o Bloco de Esquerda, essa grande bête noire da direita? Ponho-me no lugar de alguém de direita (o que não exige grande esforço mental) e penso: se eu fosse de direita preferiria uma maioria absoluta do PS a vê-los governar com apoio dos (cruz credo) comunistas do Bloco ou dos (abrenúncio) comunistas dos comunistas. Restaria ao CDS tentar crescer o mais possível, lutar por uma maioria de direita com fé e habituar-se à ideia de passar uns anos na oposição.
A não ser que...
A não ser que Paulo Portas, depois de uma campanha em que insistiu no enorme sentido de estado do CDS, que o levou sempre a ser um dique contra as crises e rebéubéubéu-pardais-ao-ninho, revele mais uma vez o seu enorme sentido de estado ao disponibilizar-se para impedir que a horrenda extrema-esquerda chegue ao governo do nosso belo Portugal, assinando com enorme sentido de estado um qualquer acordo com o PS. E imagino que na ala direita do PS não faltará gente a lamentar as exigências irrealistas do BE (ou do PCP) que os levaram a esta situação, que encaram também com enorme sentido de estado. Já o PP não terá feito exigências irrealistas nenhumas, até porque realismo é coisa que nunca faltou ao PP.
Eu sei – deliro. Parece que foi assinado um acordo em que os dois partidos da direita prometem não coligar-se com nenhum outro partido, mas também não me parece que tenha sido estipulada nenhuma indemnização em caso de incumprimento. Claro que isto corresponderia àquele momento em que o tio preferido estrangula no berço o bébé metafórico de Pedro Santana Lopes. Como o tio preferido é Paulo Portas, trata-se de um cenário perfeitamente plausível – depois de as águas eleitorais de três meses de campanha e formação de governo tiverem passado por debaixo da ponte da memória dos portugueses.
Jardim Acusa Paulo Portas de "Exercício Colonial de Soberania".
Odete Santos Aponta "drama Psicanalítico do PS".
António Sala escreve hoje no Público um artigo no qual confessa as suas dúvidas sobre a existência de Deus após a catástrofe do terramoto-maremoto na Ásia. Nos primeiros parágrafos recorda a tragédia, expondo com as suas observações e pontuando tudo com uma pergunta: "Nesse dia, afinal, onde é que Ele estava?", confessando por fim que "naquele dia e hora, não sei onde Ele estava".
Entretanto, passaram dias. E "agora mais a frio, e de forma mais racional, é tempo de ver mais nítido". E vendo mais nítido e mais racional, Deus aparece de novo. Ali o vê António Sala, no meio dos médicos que se voluntariam para ajudar, das pessoas que não dormem à noite para reconstruir, daquelas que se organizam para reunir alimentos.
Por muito que me apetecesse comentar um Deus parecido com certos amigos daqueles que não se encontram nos momentos difíceis para aparecer no meio do bem-bom, tenho antes vontade de louvar a sinceridade com que António Sala diz que continua a perguntar-se a mesma coisa "sem perder a fé, desta forma contraditória". Louvar a sinceridade e a contradição, porque como já dizia Álvaro de Campos ao censurar Fernando Pessoa, a única maneira de termos sempre razão é contradizermo-nos, e a contradição é uma forma de pensamento a refinar e não a eliminar.
O objecto desta posta é, no fim de contas, mais político do que teológico. Lembrei-me eu ao ler o texto de António Sala que o Deus ali descrito corresponde sem tirar nem pôr ao perfil ideal de Presidente da República proposto pelo PPD/PSD. Porque não, doutor Pedro Santana Lopes, inspirar-se Nele, no fundo aquela figura tão portuguesa que nos diz: "ó meus amigos, eu sei bem que tendes razão, mas não vedes que eu não posso fazer nada? Estou de pés e mãos atados! Agora, se quiserdes trabalhar em conjunto para melhorar a situação, tendes todo o meu apoio e motivação"?.
Fica o meu contributo.
Bem podemos choramingar que estamos de tanga. Eles, nem as fraldas nos perdoam.

Publicidade em Estocolmo: "Sim, mamã, estou a usar o chapéu".
Tinha eu vinte anos quando um ministro da educação cavaquista, Couto dos Santos, me explicou sorrindo porque Portugal deveria subir as propinas nas universidades. "O que vocês querem", disse, "é o que tentaram fazer os suecos, que praticamente não têm propinas. Ora hoje em dia está mais do que provado que o modelo sueco falhou. A Suécia e os outros países escandinavos estão numa crise terrível porque os seus sistemas de bem estar social não vão aguentar."
Passados pouco mais de dez anos, sabemos bem como a Suécia entrou em queda-livre enquanto Portugal, devidamente impulsionado por dez anos de cavaquismo e agora três de neocavaquismo, vai rebentando com os índices de desenvolvimento humano e de competitividade, globalização económica e produtividade em simultâneo. Fica aqui a minha singela homenagem à preclara lição de Couto dos Santos, uma mente invulgar que hoje em dia combate o despesismo à frente da Casa da Música.
Enfim. Já que na próxima campanha eleitoral vamos assistir à competição entre duas versões fajutas da social-democracia, deixo aqui aos leitores do Barnabé este interessante artigo da Dissent sobre como o modelo sueco, depois de ter sido ameaçado durante o curto governo de direita de 1991-1994, regressou reinventado pelos sociais-democratas e conseguiu fazer da Suécia uma economia competitiva sem ameaçar o bem estar social. Ou, melhor dito, conseguiu fazer da Suécia uma economia competitiva porque não ameaçou o bem estar social.
Já agora, devo confessar que ler sobre a verdadeira Meca da social-democracia é para mim parecido com jogar no totoloto. Pelo menos sonha-se durante uns minutos. E sonhar, por fútil que seja, é das poucas coisas que os maus governos ainda não conseguiram tirar-nos. Pode ser que com o aquecimento global seja mais simpático emigrar para Norte de Couto dos Santos.
Completamente de acordo com o Paulo Gorjão. Não se pode dizer o pior de uma medida e depois mantê-la com o argumento mais deslavado do mundo. Sócrates tem de se fazer compreender e ter posições coerentes. Se não o fizer, só dará razão aos que, à sua esquerda e à sua direta, mais por agenda pessoal do que por análise o tentam esvaziar. O centro está ganho, mas as margens só se ganham se se perceber um projecto e uma alternativa. Se se deixar passar a ideia de que o que se oferece é apenas uma alternância ninguém sairá do seu cómodo voto afectivo-ideológico para apoiar uma mudança em Portugal. Depois queixem-se que não lhes deram uma maioria absoluta. Não basta pedir.
Deliciosa posta a que transcrevo a seguir, pelo Random Precision, um blogue recente (tem apenas três meses) com uma boa produção de comentários sobre política nacional e justiça que vale bem a pena ir acompanhando.
«Em Setembro de 2002 foi publicada na II Série do Diário da República a aposentação do Exmº. Senhor Juiz Desembargador Dr. José Manuel Branquinho de Oliveira Lobo, a quem foi atribuído o número de pensionista 438.881.De facto, no dia 1 de Abril de 2002 o Dr. Branquinho Lobo havia sido sujeito a uma “Junta Médica” que, por força de uma doença do foro psiquiátrico, considerou a sua incapacidade para estar ao serviço do Estado, o que foi determinante para a sua passagem à aposentação.
De acordo com o disposto na alínea a) do nº 2 do artigo 37º do decreto-lei nº 498/72 de 9 de Dezembro, em caso de aposentação motivada por incapacidade ou doença, constitui regalia dos magistrados judiciais auferirem a sua pensão de aposentação por inteiro, como se tivessem todo o tempo de serviço para tal necessário. Por esse motivo, o Dr. Branquinho Lobo passou a auferir uma pensão de aposentação no montante de € 5.320,00.Contudo, por resolução proferida no dia 30 de Julho de 2004, o Conselho de Ministros do Governo do Dr. Pedro Santana Lopes nomeou o Dr. Branquinho Lobo como Director Nacional da Polícia de Segurança Pública.
Desde então, o Dr. Branquinho Lobo acumula a sua pensão de aposentação por incapacidade com o vencimento de Director Nacional da P.S.P.Moral da história:
Para ser Director Nacional da P.S.P. não é preciso ser doido.
Mas, pelos vistos, ajuda muito...»
Sua excelência o Primeiro-Ministro levantou-se hoje cedo; despachou o correio com os senhores secretários de Estado; conferenciou com o seu ministro da saúde, o excelentíssimo senhor Professor X; saiu para um breve passeio pelos jardins de São Bento enquanto lhe eram lidos, em voz alta, trechos dos artigos da imprensa estrangeira e trocou ideias, via telefone móvel, com alguns laureados com o prémio Nobel da economia. Depois de um almoço frugal tomou um duche frio para evitar o sono pós-prandial e visitou incógnito dois orfanatos e uma leprosaria. O Senhor ministro da Agricultura, Floresta e Pescas foi entronizado na Confraria do Bacalhau, que se considerou muito honrado com o facto. O Senhor Ministro da Presidência já recuperou de um leve ferimento na perna que sofreu ao serviço da Pátria.
Lisboa, 12 de Janeiro de 1805.
Como já referiram vários blogues, o Pedro Magalhães criou o Margens de Erro para analisar sistematicamente as sondagens que vão ser publicadas nos próximos — longos — meses, marcados por vários actos eleitorais. Ele propõe, e está já a fazê-lo a bom ritmo, uma coisa que fazia realmente falta: falar criticamente sobre estes números que "falam por si" e influenciam as nossas escolhas eleitorais. Caro Pedro: o Barnabé manda-te um abraço e as boas-vindas.
Quero manifestar o meu apoio a Nuno Morais Sarmento nesta questão da sua viagem a São Tomé e Príncipe. As críticas ao fretamento de um avião e ao mergulho na ilha do Príncipe quando em trânsito para entregar material de vídeo em São Tomé são mesquinhas, próprias de gente pequenina que nunca viu os céus aos comandos de um falcon ou a imensidão das profundezas marinhas ao largo do ilhéu Bom-bom. Espero apenas que o senhor ministro não se tenha esquecido de tomar as suas vacinas antes de viajar, não vá dar-se o caso de apanhar paludismo ao serviço da nação. Isto poderia forçar o erário público a indemnizar o intrépido governante dos seus gastos com saúde. E sabemos como são nocivas para os limites do défice estas despesas sociais com os funcionários públicos.
Todos os partidos receberam esta importante mensagem: «Encarrega-me Sua Excelência o Ministro da Agricultura, Pescas e Floresta, de informar que no próximo dia 23 de Janeiro, pelas 11.00 horas, se deslocará a Ilhavo, a fim de ser entronizado como Confrade de Honra da Confraria Gastronómica do Bacalhau».
Quem quer ir para o governo a pensar em mergulhos em águas mornas, fica a saber que a vida de um ministro não é fácil. Ser entronizado com bacalhau, é o que vos espera.
O mais perigoso gang cultural está de regresso ao Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz. Ninguém mudou de clube. Ninguém mudou de opção política. Ninguém mudou de sexo. São exactamente os mesmos em campo, só que alguns jogarão em posições diferentes. Uma coisa os une: a vontade de falar do país da maneira em que o país está. Ou seja: de uma forma alegremente anárquica. Ah, e falar de cultura, claro. Desta vez é o Ricardo Araújo Pereira quem apresenta e, como sempre, faz o stand-up final. A Anabela Mota Ribeiro lança a discussão. O Daniel Oliveira (eu mesmo), o João Miguel Tavares, o José Mário Silva, o Nuno Costa Santos e o Pedro Mexia (eles mesmos) fingem que têm uma agenda cultural interessante e vão também falar do que não andam a ler. A coordenação é de Nuno Artur Silva/Produções Fictícias. O tema desta primeira edição é o grande combate e/ou dialéctica “Cultura Popular vs Cultura Elitista”. O nosso convidado especial é o ensaísta e programador António Pinto Ribeiro a propósito do seu recente livro “ Abrigos – Condições das Cidades e Energia da Cultura”. O resto é convosco. Hoje, às 18h30.
Segue o exemplo de Morais Sarmento. Sê solidário com os PALOP's. Coopera. Marca um fim-de-semana num hotel de luxo, aluga um Falcon e dedica-te aos desportos náuticos. Viagens de cooperação para Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Principe. Trata com a nossa agência de viagens, especializada em despedidas de governos.
Mais tarde que cedo, aqui vão:
Exposições:
Antony Gormley - Mass & Empathy, Fund. C. Gulbenkian
Discos:
American Music Club - Love Songs for Patriots
Feist - Let it Die
J.J. Cale - To Tulsa and Back
Franz Ferdinand - Franz Ferdinand
Jill Scott - Beautifully Human, words & Sounds Vol.II
Livros:
Philip Roth - A Mancha Humana
Manuel Gusmão - Migrações do Fogo
Filmes:
Lost in translation - Sofia Coppola
Les Triplettes de Belle Ville - Sylvain Chomet
DVD:
Gato Fedorento
"Contra ventos e marés
A favor de Portugal"
Cartaz do PSD
O Tsunami começa a perder força. Os telejornais já só lhe dedicam pouco mais de meia hora de video-clips.
Porque fico contente quando a minha equipa ganha apesar de ter passado uma insuportavel hora e meia a ver uma coisa que dificilmente poderia ser chamada de futebol.
Com a devida autorização da entidade empregadora, aqui vai a minha coluna semanal (Choque e Pavor) no "Expresso":
A coisa
Ele quer mobilizar Portugal. Quer que o País olhe para o futuro. Que os portugueses acreditem no futuro. Que tenham a esperança que tanto tem faltado. Ele não é do contra. Aliás esse é um dos aspectos negativos na vida política portuguesa que ele vai mudar. Este hábito de, quando se chega ao governo, destruir tudo o que foi feito.
Ele não deixa espaço para dúvidas. Garante que haverá sentido de Estado, diálogo, responsabilidade e ponderação como se exige a um primeiro-ministro.
Ele tem um projecto. Um projecto ambicioso e, no entanto, responsável e realista. Um projecto que vai mobilizar o país. Um projecto inovador. Que dará a Portugal um desígnio. Ele está convicto de que acreditando, fazendo as apostas certas, Portugal pode ser uma nação moderna e preparada para os grandes desafios do Século XXI.
Por mim, estou mobilizado. Tenho esperança e olho para o futuro com optimismo. Com José Sócrates, eu acredito. Só me falta conhecer alguns pormenores. Nada de especialmente relevante. O que é que José Sócrates pensa sobre qualquer coisa? Não sou esquisito, qualquer coisa serve. Qualquer uma.
A forma está encontrada. Falta só saber se tem algum conteúdo.
A coisa, só nos falta a coisa.
O prisioneiro
Amanhã, a Palestina vai a votos. Esperar destas eleições uma mudança substancial para o Médio Oriente não é apenas uma ingenuidade. É má-fé. A Palestina não é nem será uma democracia plena porque as democracias exigem estados viáveis e autónomos. Pedir à Palestina democracia e controlo da segurança é o mesmo que pedir a um prisioneiro que guarde a sua prisão.
Por agora, a Palestina ainda será o que Israel quiser que a Palestina seja. Israel, que goza de um estranho estatuto de excepção na comunidade internacional, tem tornado aquele território ingovernável. Não há democracia dentro de muros. Dentro de muros só pode haver caos, violência e corrupção. E só quando Israel compreender – ou a comunidade internacional obrigar Israel a compreender – que viverá melhor com uma Palestina livre e viável é que poderá encontrar, em conjunto com o lado de lá do Muro, a paz. O seu futuro está preso às gigantescas prisões que são a hoje a Cisjordânia e Gaza.
Uma mais do que improvável vitória de Mustafa Barghouti, primo de um outro Barghouti mais conhecido, e defensor de uma terceira via de desobediência civil não armada e de combate à corrupção, seria a melhor notícia para a Palestina. Mas nem tamanha surpresa faria esquecer as demolições, as execuções e a humilhação diária dos checkpoints. Por enquanto, a democracia na Palestina está nas mãos do seu carrasco.
Mau ambiente no balneário. O PS ia galvanizado para a partida no Estádio do Dragão, contando com o decisivo Pinto da Costa. O PSD reforçou o seu plantel, e fez entrar Pôncio Monteiro para o 11 inicial. Ainda o jogo estava nos primeiros minutos e já Pôncio, numa entrada por trás, derrubava o capitão da sua própria equipa. O treinador manda Pôncio para o balneário. Mau prenúncio para a equipa laranja.
Um queijo real. Se o PS não tiver maioria absoluta, haverá sempre a possibilidade de negociar com os quatro deputados do PPM e MPT. Parece piada? E se alguém tivesse falado, há cinco anos, de Daniel Campelo, o que pareceria?
Quem quer casar com a carochinha? Manuel Monteiro está disponível para viabilizar um orçamento do PS ou um orçamento do PSD.
Portugal, o salão de festas da Europa. Para diminuir o deficit, o Estádio de Leiria vai aceitar casamentos e baptizados.
Que mil guantanamos floresçam. A imprensa diz que os suspeitos de terrorismo sem culpa formada podem passar o resto das suas vidas em centros de detenção, vigiados pelas autoridades norte-americanas.
Um amor com direitos de autor. Yoko Ono proibiu a inclusão de “Yesterday” na colectânea “Paul McCartney Love Songs”.
O PS começou a trocar os cartazes que tinha nas ruas por novos com o rosto de José Sócrates. Eu acho que fazem muito bem, porque o slogan anterior punha o carro à frente dos bois. Estamos em época de eleições. Neste momento, não deve tratar-se de ninguém "voltar a acreditar em Portugal". Trata-se de fazer, bem pelo contrário, com que Portugal volte a acreditar neles.
É bem verdade que a vida pode acabar com um estalar de dedos, mas que idade tem Woody Allen? Para aí 65, 70 anos no máximo, não é? Ainda terá portanto idade para fazer mais uns dez filmes, a um filme cada ano?
É uma aritmética macabra, estou bem ciente disso. Mas conto com que nenhum parente do Woody Allen saiba português e/ou leia o Barnabé (em barnabês...). No meu sentimentalismo interesseiro, faço contas e imagino que possa ver um filme novo de Woody Allen por ano até aos meus 42 anos, quando morrer atropelado em frente às finanças onde fora comprar a minha quindécima caderneta de recibos verdes.
É por isso que não me chateia que Woody Allen faça sempre o mesmo filme. O Outono e a Primavera também fazem todos os anos as mesmas coisas, e Woody Allen já alcançou esse estatuto quasi-natural de um regularidade que nos lembra que mais um ano passou e estamos vivos. Como as primeiras chuvas.
Além disso, todos sabem que é injusto dizer que Woody Allen faça sempre o mesmo filme. Ele faz sempre os mesmos dois filmes, o sério e o divertido, e este ano deu-se ao descaramento de fazer um filme que é os mesmos dois filmes em simultâneo. E que sendo igual aos de sempre, é melhor do que a média. É até o melhor desde há uns anos a esta parte. Woody Allen já escreveu e filmou muito, é um daqueles velhos professores que nos pode dar uma lição sem se cansar.
Isto se descontarmos aquele efeito curioso, que já observei uma série de vezes e que vou tentar descrever pela primeira. Visualizem a coisa. Há um novo filme de Woody Allen. O primeiro amigo vai ver. Então que tal o filme perguntamos nós. É bestial é óptimo fartei-me de rir. Nós vamos e não achamos nada de mais. Ou então o amigo diz que o filme é fraquinho fraquinho e vamos nós ver e é bestial é óptimo fartamo-nos de rir.
É por isso que eu prefiro deixar-vos com esta mensagem. O filme é fraquinho. O filme não é nada de especial. O filme [Melinda & Melinda, em cartaz desde a semana passada em vários cinemas] até é uma rica bosta.
Os dois artigos que citei abaixo têm em comum a ideia de que há coisas imprevisíveis no planeta que são superiores à humanidade, uma força de desordem que no fundo é impossível conter. Um (o físico Tapponnier), mais confiante no trabalho da investigação científica, defende, para contrariar a desordem, o investimento na pesquisa para criar um sistema global de prevenção dos movimentos sísmicos. Outro (Naipaul), mais céptico, defende que temos de aprender a viver com a desordem, com a dor, com o sofrimento.
É em qualquer caso curioso ver que, diante da catástrofe, reaparece uma reflexão que evoca aquela que o terramoto de 1755, com a destruição parcial de Lisboa, despoletou. Nessa altura Voltaire defendeu, contra a ideia de uma ordem divina inabarcável (que integraria a necessidade do mal como parte de um bem superior), que o terramoto era a prova de que o mal existia como realidade própria, autónoma em relação ao bem, e injustificável: "Existe mal sobre a terra (...) A expressão 'tudo está bem' [de Alexander Pope], tomada em sentido absoluto e sem esperança num futuro, não passa de um insulto às dores desta vida". Para Voltaire, olhar o mal de frente era o primeiro passo para o combater e para combater todas as injustiças. O artigo de Naipaul vem um pouco retomar a posição de Voltaire contra os Panglosses que agora por aí aparecerem: nada de bom pode sair desta desgraça. Mas, diferentemente de Voltaire, Naipaul acha que hoje devemos olhar o mal de frente sem grande esperança.
Por uma triste coincidência (o 26 de dezembro de 2004 pertence a 2005), comemoram-se neste ano que entra os 250 anos do terramoto de Lisboa. As comemorações que se fizerem serão certamente marcadas pela tragédia do sudeste asiático. Qualquer programa de TV, exposição ou colóquio sobre a catástrofe histórica terá por trás uma leitura que incorporará obrigatoriamente a percepção da catástrofe presente. Não havendo, como diz Naipaul no seu texto, nada de bom que possa sair do funesto acontecimento de 26 de dezembro passado, há pelo menos aqui uma boa ocasião para ligar presente e passado, para perceber que, na ordem do conhecimento histórico (que não é mais que uma maneira de ver o mundo), é inevitavelmente o presente que comanda o passado e não o inverso. O terramoto de 1755 não é hoje mas é hoje.
Da imprensa francesa e italiana, dois artigos que ajudam a pensar mais friamente sobre a catástrofe no Índico. Este, do director de um instituto de física da terra, que diz não saber se seria capaz de prever o maremoto e assim salvar vidas se estivesse em Phuket na altura do sismo (advertência contra quem acredita em histórias bonitas de crianças que salvam cem pessoas graças aos seus conhecimentos de geografia aprendidos na escola). E este outro, do escritor inglês V.S. Naipaul, afirmando que, mesmo com toda a generosidade dos donativos dos países ricos, os países do sudeste asiático terão mesmo de se virar sozinhos lá mais para a frente, quando a solidariedade esmorecer.
Não temos por hábito publicar os reenvios de mails que nos chegam à caixa do correio porque, no fundo, já toda a gente os conhece. Mas há sempre uma excepção e este era imperdível. Um agradecimento ao leitor José Ferreira que nos fez chegar a imagem abaixo com o título acima.

Alexandre Frota escreveu um livro num fim-de-semana.
Sempre com o seu extraordinário sentido de oportunidade, Jorge Sampaio achou por bem, em vesperas de eleições, num programa de televisão da SIC_Notícias, defender uma coisa tão pequenina como a alteração do sistema eleitoral. Sobre o fundamental do assunto, o Rui já disse o que eu teria a dizer. Sobre o tempo e o modo, só me ocorre dizer uma coisa: temos como Presidente da República um homem que se cala quando devia falar, que fala quando se devia calar e que em ambos os casos o faz quase sempre no lugar errado.
"Jorge Ferreira enfrenta Paulo Portas em Aveiro".
Alguém me há de explicar a relevância da candidatura, em Aveiro, de um partido com menos votos que o MRPP. Em Aveiro, a Nova Democracia teve, nas últimas Europeias, 1,17% dos votos.
Pelo que se viu já na TV e na capa do DN, o tema do fim-de-semana será: "Sampaio defende novo sistema político para favorecer maiorias".
Como sempre no momento em que um dos maiores partidos torna o país ingovernável, começam a surgir as teorias do favorecimento à formação de maiorias, aqui expendidas por Pacheco Pereira e pelo próprio Presidente da República. E antes que vá toda a gente atrás da opinião da moda, talvez não fosse má ideia lembrar que o último governo a durar os quatro anos completos em Portugal foi um governo minoritário – o primeiro de Guterres. E que se este governo de agora caiu a meio do mandato não foi certamente por falta de maioria – ou será que a memória de Sampaio não arquiva factos com mais de um mês?
Se calhar antes de se criar um novo sistema para favorecer as maiorias podia pensar-se também nos seguintes:
– um novo sistema contra primeiros-ministros mimados;
– um novo sistema contra primeiros-ministros fujões;
- um novo sistema contra presidentes tótós;
- um novo sistema contra governos kamikaze;
tudo isso seria óptimo antes de se pensar em "reforçar o mecanismo, mantendo a proporcionalidade, para chegar à possibilidade de fazer maiorias com mais facilidade" – na inconfundível formulação Sampaiana. Ou na versão, também muito pessoal, de Pacheco Pereira: "temos um sistema eleitoral em que a pulsão do eleitorado é para um sistema bipolar [...] o eleitorado quer maiorias [...] devia ser feito um esforço para diminuir o número de votos necessários para ter um governo monocolor".
Porque é que, ao ler estas frases, fico logo com aquela sensação de que me estão a querer enfiar o barrete – com a sensação, segundo Ricardo Araújo Pereira, "do coiso"? Se o eleitorado quer maiorias, por que raio é preciso facilitá-las? Se se vai distorcer a proporção de votos no partido vencedor, como raio se vai manter a proporcionalidade?
Não e renão. O sistema português já facilita as maiorias, que começam por volta dos 43%. Cavaco teve duas. Se agora ninguém chegar lá, foi porque o eleitorado não quis e não precisa que se lhe interpretem "as pulsões". Convençam-nos antes a dar-vos uma maioria; caso contrário, desenrasquem-se com os votos que nós vos dermos.
Luís Delgado voltou à sua grande forma com esta coluna em que compara Santana Lopes a George W. Bush. Como sabe que se trata de uma comparação aberrante, tenta proteger-se dizendo que sabe que por fazê-la "não faltarão as toleimas do costume" – querendo com isso significar a ridicularização por parte dos seus críticos.
Ora isto deixa-me num dilema retórico. Por um lado não quero desiludir Luís Delgado precisamente no momento em que, depois de nos prometer a retoma milhentas vezes, faz pela primeira vez uma previsão correcta (a saber: que a sua comparação Bush/Santana será gozada). Por outro lado, confesso a minha impotência perante a tentativa azelha de animar as hostes santanistas ameaçando que também Bush, a dois meses das eleições, estava 10 a 15 pontos atrás de Kerry e que a esquerda exultava (o que, já agora, é mentira: entre outras, esta sondagem Zogby dava Bush com uma vantagem de 2 pontos a 2 de Setembro e quem então exultava era o próprio Luís Delgado). É por isso que baixo os braços: é impossível ridicularizar a mais recente crónica de Luís Delgado – pela simples razão de que não se pode torná-la mais ridícula do que aquilo que ela já é.
Os debates televisivos podem não ser muito elucidativos do ponto de vista programático. É pelos tiques subliminares que vamos lá: No debate da Nação (RTP) desta noite, Fernando Rosas não parou de dizer que o PS já ganhou as próximas eleições e António Pires de Lima de cada vez que se referia ao seu campo político dizia: o centro (e apontava para Dias Loureiro) e a direita (e virava os braços para si próprio). Humm, que cheirinho a campanha eleitoral...
Com a apresentação do relatório sobre a colocação de professores, já não tenho dúvidas: foi a Compta que meteu Pôncio Monteiro nas listas do PSD.
A descoberta do mundo é o nome do livro onde estão as crónicas de Clarice Lispector. Nelas, a grande escritora brasileira assume uma voz especial. Com um olhar que parece virgem sobre o mundo. Mas é falso que seja virgem: é o mais trabalhado dos olhares para poder parecer virgem.
A descoberta do mundo é o que fez ontem a Sara. É o que vai fazer daqui a um mês, daqui a três meses, cada vez mais, dia após dia. Dizem os italianos: evviva. Evviva Sara.
A descoberta do mundo é o que fazem desde ontem os pais da Sara, que por ela souberam esperar tão bem.
Afinal o crescimento do PIB vai ser de 1,6%.
Afinal o crescimento do investimento vai ser de 1,7%.
Afinal, se retirarmos as receitas extraordinárias não existissem, o déficit seria de 5% e ninguém faz ideia o que continuar a vender.
Afinal a retoma não está aí.
Afinal, o PSD agravou a crise, cortou nas despesas sociais mas não poupou um tostão.

Hoje a weblog esteve em baixo, deixando centenas de blogues – incluindo o Barnabé – tristes sem visitas e milhares de servos da bloga ansiosos por não poderem comentar para a posteridade mais um dia de trapalhadas de Pedro Santana Lopes.
Mas não se macem, ele amanhã já faz outras.
Margarida Rebelo Pinto recusa convite de Santana.
O PSD escolheu o – olha que disparate, agora ia chamar-lhe "historiador" – José Freire Antunes, autor desta entrevista a Marine Le Pen que aqui divulgámos, para substituir Pôncio Monteiro no segundo lugar da sua lista do Porto. Volta, Pôncio! Antes um fanático do FCP do que um branqueador do lepenismo.

Tony Soprano: How come you're late?
Christopher Moltisanti: The highway's jammed with broken heroes on a last chance power drive
Do último episódio dos Sopranos
Segundo a TSF, Cavaco Silva recusou a utilização da sua imagem nos cartazes do PSD por temer que isso pudesse interferir com a sua carreira académica.

«Pôncio Monteiro anunciou hoje que o PSD o retirou da lista de candidatos pelo Porto, de que era o "número dois", e acusou Santana Lopes de traição e de ter cedido às pressões do presidente da Câmara do Porto, Rui Rio.O líder do PSD "diz que tem as costas cheias de cicatrizes de facadas mas não se coibiu me dar a mim uma facada nas costas", acusou o economista, numa declaração aos jornalistas, ao início da noite. "Santana Lopes ligou-me cinco vezes num dia a convidar-me para integrar a lista e nem um telefonema me fez para me informar que eu saía, depois de ter sido pressionado por Rui Rio", acrescentou.
"Santana Lopes a mim não me engana, empurrando agora a responsabilidade pela minha saída para o Conselho Nacional", afirmou, antes de acrescentar: "Todos sabiam que era Rui Rio quem estava por trás, sem dar a cara, a pressionar para a minha saída".
Para o advogado, considerado muito próximo do presidente do FC Porto, com quem Rui Rio tem mantido relações conflituosas, este processo demonstra que Santana Lopes "nunca mais terá possibilidade de liderar o partido ou um Governo". "Quem não tem força para dominar o partido, também não tem capacidade para liderar o Governo", sublinhou.»
o Rui tem razão, é natural que, com a presumível chegada da esquerda ao poder, a polémica interna no Barnabé se agudize. Mas também não faz mal, ficamos mais parecidos com o PSD que também possui facções oposicionistas e governistas e é uma festa permanente.
Pôncio Monteiro já não faz parte das listas do PSD.

Cavaco Silva não permitiu este cartaz.
Depois das festas, dos feriados e da família, voltemos à bloga. Vem aí um ano bom para Portugal. Há muito que defendo eleições e não vejo agora razões para a forma enjoadinha como os media andam a encarar a escolha de 20 de Fevereiro. Pior do que estávamos não pode ser, pessoal. As eleições devem ser uma festa encarada com optimismo. Toda a questão está em que os partidos façam uma campanha eleitoral clara. E aqui, contrariamente ao hábito, não acho que a culpa de uma campanha ambígua deva ser atribuída em exclusivo aos políticos. A verdade é que o tratamento mediático também é uma lástima e mata o pouco de escolha que uma campanha ainda tem, favorecendo um estilo de leitura igual ao que podemos encontrar em qualquer mesa de café, só que com uma cara mais sisuda. Este modo dominante de comentar dividindo o mal pelas aldeias, além de ser intelectualmente cobarde, recompensa os políticos meias-tintas. Mas olha que se lixe: quem vai ganhar leitores e interesse com isso vai ser a blogosfera, onde ninguém tem medo de dar meia-bola e força a uma discussão.
Também estou curioso para saber como nos vamos adaptar por aqui aos resultados eleitorais. Deixaremos de estar na oposição? Terá piada? Dividir-nos-emos numa ala governista e numa ala oposicionista? Um ano interessante para seguir, também no Barnabé.
O último número do The Economist traz uma declaração assinada por vários académicos norte-americanos sobre o conflito israelo-palestino: “Ending the Israeli-Palestinian Stalemate will strengthen US National Security”. Como o título deixa adivinhar, a lista de signatários está longe de ser dominada pela esquerda militante: nela pontificam dois editores do The American Conservative, bem como muitas outras luminárias da ciência política e relações internacionais – nomes como Samuel Huntington, John Mearsheimer ou Kenneth Waltz. O anúncio foi pago pela Coalition for a Realistic Foreign Policy, uma associação de cidadãos, académicos, decisores políticos unidos – e agora sustenham a vossa respiração – pela “oposição ao império americano”. Mais informações no site da Coligação.
Santana Lopes é o primeiro-ministro em gestão e líder do PPD/PSD. Fernando Seara (PPD/PSD) o presidente da Câmara de Sintra. Pôncio Monteiro foi hoje anunciado como o número dois do PPD/PSD pelo círculo do Porto. E o Paulo Catarro? Não me digam que se esqueceram do Paulo Catarro?
Morreram mais de cem mil pessoas no Mundo numa das maiores catástrofes naturais das últimas décadas. O tempo que a comunicação social nacional dedicou a um embaixador e a pequenos dramas de turistas portugueses (lamentáveis, mas a léguas da dimensão da tragédia que ali se viveu) se não fosse apenas provinciano seria aviltante.
Sócrates chegará a dizer alguma coisa antes das eleições?
Santana volta para a Câmara Municipal de Lisboa?
E se não volta, em que casa vai morar?
Portas reforma-se da política?
O novo pesidente será Guterres ou Cavaco?
Depois da tralha guterrista tomar conta do PS, a tralha cavaquista tomará conta do PSD?
Se o PS não tiver maioria absoluta, repetirá o queijo limiano e negociará com os 4 deputados do PPM e do MPT?
As negociações com a Turquia para a sua adesão à UE começarão finalmente?
Se algum país europeu chumbar o tratado constitucional, este voltará à estaca zero?
Os Estados Unidos têm força suficiente para abrir as hostilidades com o Irão e manter a presença no Iraque?
Os americanos continuarão a aguentar os caixões de soldados seus vindos do Iraque?
Depois das eleições, os sunitas terão algum lugar no Iraque xiita?
2005 será o ano do terrorismo na Arábia Saudita?
Jorge Sampaio que PS e PSD se entendam sobre política saúde, finanças públicas e segurança social.
Visto das Portas do Sol e da Chueca, em Madrid, 2005 está com muito bom aspecto. Vamos lá ver como se porta.
Que 2004 foi uma porcaria, todo o mundo concorda – ou espera; todo o mundo menos José Manuel Barroso e aqueles dois casais a quem saiu o euromilhões.
Mas eu tenho cá uma fezada em que 2005 será melhor. Desde já, deve notar-se que o fogo de artifício no Porto funcionou. Já é um começo...
Já ninguém respeita nada. Ontem foi uma estação de televisão portuguesa que vendeu à publicidade, já não os segundinhos imediatamente antes da meia-noite, mas a própria meia-noite. Na SIC – acho que era a SIC -, tivemos a contagem descrescente incluída num anúncio publicitário da Super Bock. A fronteira entre a informação do relógio e o clip publicitário desapareceu. Em consequência, eu e os meus amigos, passas em punho e ansiedade sincrónica no rosto, só uns segundos mais tarde percebemos que já era meia-noite e que tínhamos falhado o momento exacto da passagem. Ao fazer-nos isto, a televisão roubou-nos o último restinho do crédito informativo que ela nos merecia. Ela tinha este poder notável: o poder de dizer quando é a meia-noite, o poder de fazer acertar os relógios. Tinha o crédito do tempo. Mas agora acabou-se tudo porque esse crédito que dávamos à televisão foi vendido de forma espúria por uma dúzia de passas. A televisão que se cuide: o Cronos e o Zeus das audiências não lhe perdoarão este gesto de aprendizes de feiticeiro. E nós, comuns mortais, voltaremos à rádio ou se, como é previsível, a rádio também já tiver vendido o seu sagrado share de autoridade sobre o tempo, voltaremos aos velhos métodos. Telefonaremos para um amigo que esteja em frente ao Big Ben. Alguém que esteja cara a cara com o tempo e que não nos aldrabe.