A Meca da Social-Democracia

Publicidade em Estocolmo: "Sim, mamã, estou a usar o chapéu". Tinha eu vinte anos quando um ministro da educação cavaquista, Couto dos Santos, me explicou sorrindo porque Portugal deveria subir as propinas nas universidades. "O que vocês querem", disse, "é o que tentaram fazer os suecos, que praticamente não têm propinas. Ora hoje em dia está mais do que provado que o modelo sueco falhou. A Suécia e os outros países escandinavos estão numa crise terrível porque os seus sistemas de bem estar social não vão aguentar." Passados pouco mais de dez anos, sabemos bem como a Suécia entrou em queda-livre enquanto Portugal, devidamente impulsionado por dez anos de cavaquismo e agora três de neocavaquismo, vai rebentando com os índices de desenvolvimento humano e de competitividade, globalização económica e produtividade em simultâneo. Fica aqui a minha singela homenagem à preclara lição de Couto dos Santos, uma mente invulgar que hoje em dia combate o despesismo à frente da Casa da Música. Enfim. Já que na próxima campanha eleitoral vamos assistir à competição entre duas versões fajutas da social-democracia, deixo aqui aos leitores do Barnabé este interessante artigo da Dissent sobre como o modelo sueco, depois de ter sido ameaçado durante o curto governo de direita de 1991-1994, regressou reinventado pelos sociais-democratas e conseguiu fazer da Suécia uma economia competitiva sem ameaçar o bem estar social. Ou, melhor dito, conseguiu fazer da Suécia uma economia competitiva porque não ameaçou o bem estar social. Já agora, devo confessar que ler sobre a verdadeira Meca da social-democracia é para mim parecido com jogar no totoloto. Pelo menos sonha-se durante uns minutos. E sonhar, por fútil que seja, é das poucas coisas que os maus governos ainda não conseguiram tirar-nos. Pode ser que com o aquecimento global seja mais simpático emigrar para Norte de Couto dos Santos.

-----

Comment Posted by: timshel
Até que enfim, gostei muito dum artigo do Barnabé. Perguntava-me a mim próprio se vocês andavam a competir com o Blasfémias em matéria de baixo nível de posts...

Comment Posted by: Daniel Marques
Independentemente das virtudes ou defeitos do modelo sueco digamos que o autor não é propriamente um especialista nem é especialmente feliz em algumas parte do texto. Passou apenas um autono na Suécia e ficou fascinado com toda a gente ter telemóvel e com a "sofisticação"(SIC) da IKEA e da H&M... Faz-me lembrar alguns amigos americanos que prezam as virtudes do McDonalds destacando a limpeza, fiabilidade e preço adequado à qualidade! Agora numa coisa o Rui Tavares tem razão: É permitido sonhar. A Suécia tem zero vantagens competitivas em relação a Portugal. Ou melhor tem uma, mas emigra para o Algarve no Verão...

Comment Posted by: Paulo
eheheh... parece que o grande Daniel anda a preparar a campanha!

Comment Posted by: pikkolo
Isso mesmo. A falácia da competitividade não é difícil de desmascarar. E é importante fazê-lo porque uma mentira repetida 1000 vezes torna-se verdade, principalmente quando a embalagem retórica da eficiência como verdade universal esconde conteúdos ideoleógicos claros (com o rabo de fora). Ver meu post de ontem sobre o mesmo assunto.

Comment Posted by: Luis Lavoura
Eu a mim parece-me que, nem a fraca performance da economia portuguesa é causada pelo mau governo (a Itália tambem é pessimamente governada, mas a sua economia porta-se lindamente), nem a boa performance económica da Suécia é causada pelo seu bom governo (o Kerala também é bem governado, mas permanece um dos estados mais pobres da Índia). Isto de atribuir o progresso ou recessão económicos de um país às boas ou más virtudes da sua governação, e à sua inclinação mais esquerdista ou mais direitista, parece-me genericamente um erro. Eu diria antes que o povo sueco é trabalhador e rigoroso. O povo português é desleixado e economicamente apático. Essa é que é essa.

Comment Posted by: Pedro Azevedo
Fantástica a forma como Rui Tavares identifica os problemas da educação em Portugal, e mostra qual o caminho a seguir. Se continua a mostrar tal sagacidade e capacidade criativa, não tenho grandes dúvidas que José Sócrates o convidará para ser o próximo ministro da Educação, já que depois de ter resolvido o problema do crescimento económico, do desemprego e do défice público, só lhe falta mesmo ter a felicidade de contar com o iluminado Tavares.

Comment Posted by: Jean-Luc
Luís, O típico auto-preconceito em relação aos portugueses a manifestar-se. Presumo que já trabalhaste com suecos para dizeres o que dizes. O que sei, é que até à pouco tempo cerca de 20% da força de trabalho das grandes companhias suecas faltava à segunda de manhã (por causa de se puder declarar baixa sem médico). E de não trabalharem na tarde antes da maioria dos feriados. Eu estou a tirar um curso de sueco à distância actualmente e a universidade (serviços administrativos) fechou para Natal/Ano Novo de 23/12 a 10/01. Em comparação, estou agora a trabalhar em Portugal e é comum ver pessoas a trabalhar ás vezes até as 23.00. Diz isso a um sueco típico... Para não falar nas licenças de maternidade/paternindade de quase 2 anos... E por aí fora. O nosso drama é querermos compensar falta de organização com quantidade de trabalho. Assim não vamos lá. Concordo no entanto com a questão do rigor, mas em relação ao resto sugeria sinceramente que te informasses mais antes de falar. Sugeria... rigor. Infelizmente não tenho a referência, mas os países onde se trabalha menos horas na Europa é a Noruega e a Suécia... precisamente aqueles que têm o melhor índice de desenvolvimento humano do mundo.

Comment Posted by: sueco
Bem bem bem Quem diria, um blogue de esquerda e simpatizante do Bloco a defender os Suecos... Muito bem. Afinal tava tudo enganado. Durante muito tempo julguei que o V/ modelo era o Soviético. Afinal é o Sueco. Com mais um esforço acabará por ser o Americano. Força!

Comment Posted by: Luis Lavoura
Está bem Jean-Luc, errei ao dizer que o povo sueco é mais trabalhador do que o português. Mas o cerne do meu comentário mantem-se: não é (essencialmente) por Portugal ser mal governado que a economia anda tão mal. Nem (sobretudo) por a Suécia ser bem governada que a sua economia anda bem.

Comment Posted by: Jean-Luc
Aproveito para contar uma pequena história com 1 dos colegas suecos que tive: Cidade: Amsterdão No trabalho Chefe: Russo Subordinado: Sueco 1. Subordinado embebeda-se à noite (1 única vez num ano). No dia seguinte de manhã telefona e, como Sueco que é, diz a verdadinha toda: estou de ressaca, não apareço. 2. Subordinado pede sempre compensações por qualquer hora extra que faça. 3. Resultado: Subordinado não vê contrato renovado Outra Cidade: Amsterdão No trabalho Chefe: Russo (o mesmo) Subordinado: Português (eu) 1. Subordinado embebeda-se à noite (1 única vez num ano). No dia seguinte de manhã email (para não se ouvir a voz) a dizer que está muito doente. 2. Subordinado fica sempre meia horita extra a surfar na web para parecer que está a trabalhar. 3. Resultado: Subordinado é oferecido contrato definitivo (praticamente indespedivel) e aumento de salário. Subordinado despede-se alguns meses depois (para ir ter um chefe com cultura de um país em que respeitem os trabalhadores). Nota: não estou a inferir que os suecos (a amostra com que trabalhei) não são profissionais. São-no, e muito. Ser profissional não quer dizer que trabalhem 12 horas por dia, que sejam perfeitos ou finjam ser perfeitos.

Comment Posted by: Bolhão
Mais alguém entra num joguinho da sueca?

Comment Posted by: Ricardo Fernandes
Fui ensinado a respeitar a pluralidade de ideias, porque a civilização em si assenta nessa diversidade. Mas sempre com um dado adquirido:é necessario um determinado nivel de formação para assimilar a informação. Cá no burgo convivemos com um nivel de ileteracia funcional a rondar os 70%, sim setenta por cento(entenda-se portador de I.L. alguem que depois de ler um texto "jornalistico" o consegue reproduzir pelas suas palavras). E é com base nesta lacuna, fomentada pelos diferentes executivos que os mesmos manipulam de uma forma bacoca e a seu belo prazer factos desconteixtualizados. A saber: os Suecos de sexta a domingo vivem num coma alcoolico, mas no resto da semana têm que cumprir objectivos laborais muito rigidos, A tal de falencia do sistema social é medida com base em critérios proprios que ao serem aplicados à nossa realidade deixariam todo e qualquer sistema sob a alçada do Estado fora da escala,sem nunca esquecer que estamos a falar de um povo que em meados dos anos oitenta levou a cabo uma esterilização (sem conhecimento dos individuos sujeitos à respectiva intervenção) a nivel nacional de individuos com um pouco mais de melanina que o vulgo "lexivia" autocone, etc.. eu prefiro indignar-me com o que é nacional que continua a ultrapassar o meu fraco entendimento

Comment Posted by: danieloliveira
Paulo, por acaso tenho a Suécia como bom modelo. Por isso é que não voto no PS. Tenho a Suécia como bom modelo, não o modelo latino de socialista, que pouco ou nada deixa de herança.

Comment Posted by: Serafim
Apenas duas perguntas: 1ª Quanto é que os suecos pagam de impostos? 2ª Qual é a percentagem de latinos na população sueca? Muito obrigadinho a até à próxima.

Back To Index