Como e para quê

Todos temos as nossas irritações. Mas quando se escreve não basta saber que se está irritado, é preciso saber como se está irritado. Não é assim com Helena Matos. Helena Matos escreve com a espinal medula. Os seus leitores de direita não dão por isso e até os há que a admiram. É porque reconhecem nela aquilo que sentem, e esse reconhecimento, como uma música que regressa ao seu tom, produz uma satisfação que apazigua neles as imperfeições e as contradições do que leram. Já para mim, o discordar de Helena Matos até é o menos – o problema está em segui-la. Eu bem vejo que ela está zangada; ela lá saberá porquê, mas não me sabe explicar-se. Falta-lhe o como, o distanciamento em relação aos seus próprios sentimentos (de raiva contra a esquerda, de medo em relação ao futuro, etc.), a frieza que lhe permita descrevê-los com um mínimo de exactidão. Há cronistas de direita com quem discordo mais ainda mas cuja argumentação acompanho quase sem dar por isso. Os textos de Helena Matos são viagens num carro sem suspensão por uma estrada esburacada; como é natural, a condutora vai o tempo todo aos berros. Esta semana escreve sobre Espanha e, como de costume, só ela viu, só ela se escandaliza, só ela se preocupa. Só ela viu que Carod-Rovira, líder dos independentistas da Esquerda Republicana Catalã – no governo da Generalitat –, veio a Lisboa dar uma conferência. Só ela se escandaliza por ele não "discursar num encontro obscuro ou na sede dum movimento extremista", mas na Fundação Mário Soares. Só ela se preocupa por causa da nossa "inconsciência assombrosa" ou da nossa "assombrosa capacidade" de "nos distrair do essencial e perdermo-nos com o acessório". O artigo chama-se "A Natureza do Mal" e nele tudo é assombroso. Assombroso que Carod-Rovira tenha falado de Portugal como uma "região da Ibéria". Assombroso que ele tenha dito que, com a independência da Catalunha e de outras nações espanholas, a Península passe a ser uma realidade política multipolar. Assombrosa a nossa passividade perante estas declarações: "Em Portugal, nós já escutámos Rovira dizer-nos qual é o nosso futuro estatuto. Esperemos que não seja demasiado tarde quando tivermos percebido o que ele, de facto, disse. Não sobre a Espanha. Mas sobre Portugal." Vamos então por partes. Desde logo, se entendermos "Ibéria" por "Península Ibérica" é óbvio que Portugal é uma região da Ibéria (como é uma região da Europa) e não precisamos que venha cá nenhum catalão dizer-nos isso. Escandaloso seria que Carod-Rovira nos dissesse que não somos uma região da Ibéria, ou então que nos dissesse que somos uma região de Espanha (embora isso só se tenha tornado escandaloso a partir de finais do século XVII). Se Helena Matos fosse norueguesa imagino que estivesse agora com os nervos em franja por descobrir-se escandinava. Em segundo lugar, seria certamente uma mudança chocante se a Espanha se separasse, e Portugal seria provavelmente o estado estrangeiro a ter de se preocupar mais com essa mudança, caso ocorresse. Mas que propõe Helena Matos que façamos nós? Que os obriguemos a ficarem juntos? Que tratemos os independentistas catalães como párias? Nós somos só os vizinhos do lado; se a família se decidir divorciar de pouco nos serve arrancarmo-nos os cabelos ou deixar de falar a um dos cônjuges. Não deixa de ser um tema crucial para se pensar. Mas isso mesmo – para se pensar. Não para gritar fogo nem para abanar os outros pelos ombros nem para chamá-los de irresponsáveis. A nossa capacidade de intervenção aqui é limitada por natureza e ainda auto-limitada por opção. E uma pessoa que escreve num jornal não deve apenas irritar-se; já que nos vai fazer gastar o nosso tempo, deve também saber para quê está irritada.

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Comment Posted by: André Militão
Epá nãoooooooooooooooooooooooooooooo! LooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! A parte da Ibéria está de mais!

Comment Posted by: miguel
É assim, num mundo fraternal acho que a hipotese de espanha se desmambrar em varios retalhos (galegos, catalães, bascos, asturianos etc etc) seria bem vinda com a criação de uma "federação iberica", isto é, cada regiao com o seu governo e primeiro ministro, partidos locais, regionais e os federais (ps, Psoe, tinham que se entender e ficar um sei lá). dessa união iberica (o nome soava bem, ou federação iberica de regioes ) saia um parlamento federal e a eleição de um presidente da pressuposta republica iberica. para rematar tudo isso acho que era ideal criar de raiz uma cidade exemplo de urbanismo onde funcionasse o parlamento federal bem como simbolizasse essa uniao de povos que vivem sob a mesma jangada (jangada de pedra). essa polis era fruto da mestria dos nossos melhores arquitectos e artistas e espelhava essa dinamica que seria a uniao iberica. ja agora para simbolizar mais a dita polis capital ficaria no centro geometrico da peninsula iberica.enfim que acham ?? e o que se fazias à monarquia espanhola ??

Comment Posted by: Plus
Falam falam falam e nao dizem nada. Este topico está : Horrendo !!

Comment Posted by: Fernando Martins
Portugal não é uma região da Ibéria. É uma nação da Ibéria (como a Galiza, a Catalunha e o País Basco). A Constituição espanhola reconhece a Galiza, a Catalunha e o País Basco como as três "nações históricas" de Espanha. Regiões são a Estremadura, a Comunidade de Madrid, a Cantábria, Aragão, a Andaluzia, as Canárias, etc.. Por outro lado, será interssante discutir se a balcanização de Espanha favorece os espanhóis e, claro, os portugueses e Portugal. Não me parece que haja alguém capaz de dar uma resposta demagógica. Finalmente, parece-me positivo que Rovira tenha vindo a Portugal fazer uma conferência, merecendo a FMS o meu aplauso por o ter convidado.

Comment Posted by: rui tavares
O termo "região" não tem concretização política, refere-se apenas a uma extensão de território. Portugal é, evidentemente, uma região da Ibéria. Além disso, tens razão em afirmar que é uma nação da Ibéria (acepção etno-linguística, tradicional, comunitária, o que lhe quiserem chamar), um país da Ibéria, um dos dois (ou três, se contarmos Andorra) estados da Ibéria. Não seria certamente Rovira, um independentista catalão, que se viria referir a Portugal como uma "região" no sentido que tanto chocou Helena Matos – o de uma "província" de Espanha – isso sim seria insultuoso para muito de nós, eu incluído.

Comment Posted by: RF
O Rui Tavares do Barnabé aos gritos ou sussurros gritou em contra dos gritos alheios. Gritou que quem escreve não grita, não deve gritar. Rui, grita quem pode e quem quer, e quem grita por gosto é capaz de estar fazendo um filho. É capaz. Mas, sem gritarias, sussurro que estranho como Helena Matos estranha, diz o Rui Tavares que gritando, que um senhor com muito pouco de novo e interessante para gritar ou sussurrar em catalão, espanhol ou português, haja ido gritar ou sussurrar o que sussurrou ou gritou na Fundação Mário Soares. Existe uma gente em Portugal que magoada pela história se alegra e se contenta com possíveis divisões no país ao lado. Esta gente termina simpatizando com "coisas" como ETA e que tais. Há gente dessa na direita e na esquerda portuguesa. Gente que ás vezes grita ou sussurra nas mesas de café, nos jornais e também nas fundações, sabemos agora. Quando estava no Brasil existia um grupito absurdo de pessoas que defendia a separação do Estado de São Paulo do resto do Brasil. A razão para eles era que este país resultante teria um PIB per capita comparável a Suíça. "O rei vai nú mas eu desperto porque tudo cala frente ao facto de que o rei mais bonito nú!" (Caetano Veloso - Estrangeiro) Desta sinceridade não são capazes os europeus, está claro... Esta sinceridade faria gritar até o Rui Tavares amante dos sussurros, que como todos sabemos é aquilo que se faz sempre no Barnabé. Sussurrar. Eu gosto dos sussurros do Barnabé, ás vezes, só que não saia que eram sussurros. Assim que para alguns europeus, incapazes da sinceridade deselegante e indiscreta destes paulistas, contra vontade brasileiros, lhes vem muito bem ter uma língua diferente á mão, mesmo que como no caso dos bascos tenham que resgatar uma língua rural sem forma escrita (uma espécie de Mirandês) e transformar a sua história na do reino de Navarra e os seus montes em virgens romanas e o seu sangue em ariano pré-histórico. A Galiza não tem apresentado muitos sinais de sinal de separatismo últimamente. Digo isto não para desiludir portugueses saudosos de um menos pequeno Portugal. Mas para que pensem nas razões PIBescas, deselegantes, indiscretas e nada românticas de tão sinceros separatismos. Já cada vez menos pessoas cantam a Internacional, e menos ainda em Portugal a propósito dos "reinos de Espanha".

Comment Posted by: RF
O Rui Tavares do Barnabé aos gritos ou sussurros gritou em contra dos gritos alheios. Gritou que quem escreve não grita, não deve gritar. Rui, grita quem pode e quem quer, e quem grita por gosto é capaz de estar fazendo um filho. É capaz. Mas, sem gritarias, sussurro que estranho como Helena Matos estranha, diz o Rui Tavares que gritando, que um senhor com muito pouco de novo e interessante para gritar ou sussurrar em catalão, espanhol ou português, haja ido gritar ou sussurrar o que sussurrou ou gritou na Fundação Mário Soares. Existe uma gente em Portugal que magoada pela história se alegra e se contenta com possíveis divisões no país ao lado. Esta gente termina simpatizando com "coisas" como ETA e que tais. Há gente dessa na direita e na esquerda portuguesa. Gente que ás vezes grita ou sussurra nas mesas de café, nos jornais e também nas fundações, sabemos agora. Quando estava no Brasil existia um grupito absurdo de pessoas que defendia a separação do Estado de São Paulo do resto do Brasil. A razão para eles era que este país resultante teria um PIB per capita comparável a Suíça. "O rei vai nú mas eu desperto porque tudo cala frente ao facto de que o rei mais bonito nú!" (Caetano Veloso - Estrangeiro) Desta sinceridade não são capazes os europeus, está claro... Esta sinceridade faria gritar até o Rui Tavares amante dos sussurros, que como todos sabemos é aquilo que se faz sempre no Barnabé. Sussurrar. Eu gosto dos sussurros do Barnabé, ás vezes, só que não sabía é que eram sussurros. Assim que para alguns europeus, incapazes da sinceridade deselegante e indiscreta destes paulistas, contra vontade brasileiros, lhes vem muito bem ter uma língua diferente á mão, mesmo que como no caso dos bascos tenham que resgatar uma língua rural sem forma escrita (uma espécie de Mirandês) e transformar a sua história na do reino de Navarra e os seus montes em virgens romanas e o seu sangue em ariano pré-histórico. Tudo isto aos gritos e bombazos. A Galiza não tem apresentado muitos sinais de tendências separatistas últimamente. Sussurro isto não para desiludir portugueses saudosos de um menos pequeno Portugal. Mas para que pensem, sem gritarias, nas razões PIBescas, deselegantes, indiscretas e nada românticas de tão sinceros separatismos. Já cada vez menos pessoas cantam, sussurram ou gritam a Internacional, e menos ainda em Portugal a propósito dos "reinos de Espanha".

Comment Posted by: OLP
Muita estrada esburacada e muitos gritos se ouvem neste sussuro. Ao postar fizeste um autoretrato perfeito da raiva que te consome.De poco vale em tres palavras substimares essa raiva que te consome porque qualquer um a pode sentir nas tuas palavras. Foste buscar o assunto menos directo para despejar a tua raiva em quem tem posto o dedo em muitas feridas de forma serena ( e este não é o exemplo ). É natural que sintas falta de suspenção na tua viatura e te sintas assombrado.Pouco do que defendes tem suspenção e muito do que te assombra são as realidades. Cristalizaste nos ódios, nas raivas,nos gritos, nas invejas.Sabendo que isso é terreno fácil de angariação de "apoiantes" rebates na tecla chamando a ti os que fazem disso motor para em seu devido tempo ( se tivesses oportunidade) os expurgares. Essa foi a estrada de um passado distante que tu percorres sentindo como se de um novo caminho se tratasse. O mundo e as gentes ( também devido ao facto de ter percorrido essa dolorosa estada) está um pouco melhor embora tu não repares.

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