O fim do silêncio

Foi finalmente apresentado o programa de governo do PS. Durante semanas Sócrates foi fustigado, à esquerda e à direita, por se manter silencioso em relação às propostas concretas do PS para a governação do país. Também não me admiro que alguém venha agora zurzir no secretário-geral do PS pelo facto de vários elementos da Comissão Nacional terem aprovado as bases programáticas sem as terem lido. Este é um caso clássico de “preso por ter cão e preso por não ter”: por um lado, o secretário-geral do PS demora muito tempo a anunciar o seu programa (mas, se assim não fosse, as “Novas Fronteiras” e os contributos dos independentes não teriam sido uma farsa?); por outro lado, ao fazê-lo corre o risco de ser acusado de desprezar o debate interno. Quanto ao programa propriamente dito. Escrevo este post conhecendo apenas a versão resumida por João Pedro Henriques no Público de hoje. Nos próximos dias, especialistas das várias áreas elencadas irão certamente escrutinar as várias medidas com elementos que eu não possuo. Por exemplo, até que ponto será exequível a proposta de reestruturação da administração pública (reformas antecipadas e admissão de novos quadros mais qualificados)? Como garantir a generalização do ensino do Inglês com os actuais docentes vinculados ao Ministério da Educação? Se o “choque tecnológico” é a grande aposta socialista, porque não generalizar também o ensino da Matemática até ao 12º ano, aumentando assim o leque de escolhas dos alunos à saída do liceu, como sucede em França? Numa leitura superficial, o documento ontem apresentado parece-me traduzir uma combinação equilibrada de ambição e realismo. Os tempos são de austeridade e seria irresponsável prometer aquilo que o Estado não está em condições de oferecer – expansão dos serviços públicos, abatimentos fiscais para as classes médias, etc. No entanto, fazer do saneamento das finanças públicas uma das prioridades máximas dum futuro governo PS sem referir medidas concretas de combate à evasão fiscal e à “informalidade económica”, não deixa de ser decepcionante. Para um Partido comprometido com o ideal da justiça e da coesão social, essa deveria ser uma questão absolutamente prioritária – e muito importante para fidelizar votos que correm o risco de migrar para o Bloco de Esquerda. Enfim, espero que seja apenas uma distracção minha e que em breve tenhamos notícias animadoras sobre esta matéria. Um apontamento final: a convocação de eleições antecipadas apanhou o PS desprevenido em relação às propostas governativas. De forma injusta, Sócrates viu ser-lhe colada a imagem do político de plástico, vazio de ideias. Injusta, desde logo, porque a sua eleição para secretário-geral teve lugar em Julho e a dissolução da AR foi decretada em Novembro, graças às trapalhadas indecorosas de Santana. Seja como for, um grande partido como o PS não pode estar vulnerável a estas oscilações. Independentemente do estilo e da personalidade dos seus líderes, o partido deve fomentar o estudo e a elaboração de propostas que possam ir ao encontro das necessidades e desafios da sociedade portuguesa. Ora isso só pode ser feito quando o improviso e o amadorismo acabarem no Largo do Rato. O que é feito, por exemplo, do Gabinete de Estudos do PS, que teve no sociólogo António Barreto um dos seus primeiros mentores? Aqui há uns anos, estava entregue ao Jorge Coelho! Que fazem as Fundações ligadas ao Partido? A Fundação José Fontana, que eu saiba, limita-se a editar uma revista respeitável, mas semi-clandestina (Finisterra, dirigida por Eduardo Lourenço). Está longe de ser o viveiro de ideias que é, por exemplo, a Fabian Society no Reino Unido (um dos vários think-tanks ligados ao Partido Trabalhista). A dinamização deste tipo de organismos, capazes de estabelecer uma ligação entre a liderança e os quadros disponíveis para colaborar com o partido, e de trazer a Portugal gente de outros partidos sociais-democratas, seria muito importante.

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Comment Posted by: Jorge
Perante tanta expectativa e tanto fogo de vista, cabe perguntar se a socrática figura se irá realmente demarcar de uma abordagem que até agora se tem revelado puramente catódica. É que no fluxo e refluxo das modas, e depois do tsunami mediático que tem sido a política nos últimos anos, as pessoas anseiam por alguma autenticidade. Diria mesmo mais: estais lembrados do Verão de 75? Alguém lançou a ideia de um dia nacional da limpeza. A paisagem do país real sobretudo nas cidades era uma amálgama de lixo por recolher, grafitti e camadas sobrepostas de cartazes políticos. A coisa pegou de estaca. Eram velhos e novos, contaminados com, ou imunes ao, vírus da Revolução, de vassoura, balde e escova em riste lavando a cara da então recém-nascida democracia. O país precisa de causas e de projectos tangíveis. As pessoas precisam de acreditar que a sua participação na coisa pública é a Única maneira de mudar o país. Temos de uma vez por todas de deixar de esperar que o estado (não) resolva os nossos problemas. A inflação de “choques”, tecnológicos, de gestão, ou outros já nem sequer penetram na psique nacional. Quando muito acabarão por induzir o choque fatal que nos porá a todos, catatónicos, nos braços da Espanha...

Comment Posted by: rcs
Os meus coment'arios, assinados sempre por rcs (Ricardo Costa Santos), nunca foram autorizados no Barnabé desde que este sistem, que até acho o mal menor, começou. Nunca insultei ninguém, e ao chamar fascista a Louça e desonesto ao bloco estou num limite que acho aceita'vel e pelo qual posso responder, mesmo. Nao tenho a mania da presseguiçao e acho que até pode ter havido algum erro meu, inepto que sou para coisas de computadortes. De qualquer modo, se os meus comenta'rios tiverem sido excluidos, agradeço que me digam as razoes. é que voçes, que nunca foram excluidos de uma caixa de comenta'rios, nao tem autoridade para dizerem que comentario deve aparecer ou nao...ah ah ah! (desculpem, nao me contive). Obrigado pela atençao

Comment Posted by: Éme
Os partidos, à excepção do BE, ainda não publicaram os seus programas, o que é manifestamente mau. Deviam já estar todos online. O do PS parece-se com uma lista telefónica e o do PSD com um suplemento fininho. Vamos ver o que sai. Até lá só podemos mandar farpas. Éme www.haquemtenhaospesmaiores.blogspot.com

Comment Posted by: martin
Confesso que não sou grande admirador de Sócrates. Contudo, tento sempre fazer uma análise tão objectiva quanto possível; e o certo é que contra as acusações de politico ideologicamente vazio, no dia a dia, no concreto, ele não se tem esforçado muito para rebater essa ideia. Fica sempre a sensação que ele deixa a explicação séria ou de fundo para mais tarde, e se isso à uns tempos era compreensível, à medida que o tempo passa, torna-se preocupante.

Comment Posted by: dialogodesquerda
O importante é que os melhores quadros do País estejam presentes no futuro governo do PS, nas áreas adequadas à sua formação e experiência, de modo a que não se repitam casos de ex-directores de jornal a ocuparem cargos de ministros da defesa, sem terem qualquer vocação para a função.

Comment Posted by: Vitor Correia
Não vou comentar a totalidade do poste, que é muito denso. Vou-me limitar à Matemática. Para mim, é impensável que Português e Matemática não sejam obrigatórias durante a totalidade da escolaridade obrigatória que, segundo o programa do PS, será até aos 18 anos. O fraco aproveitamento dos estudantes portugueses a Matemática não é segredo. Causas? A Matemática não é (ou não deve ser) um papão... Também não seremos mais estúpidos do que os outros... E abre-se uma "janela de oportunidade": a Matemática será (já é) estruturante relativamente às outras ciências, designadamente a da computação. O que vem resolver, em grande parte, o problema da sua utilidade, às vezes difícil de discernir... Agora, dá trabalho, isso dá. Mas a modificação dos hábitos de trabalho em idades formativas será um efeito colateral que não podia calhar em melhor altura...

Comment Posted by: Real
É justamente por haver professores vinculados ao Ministério da Educação que é possível generalizar ao ensino básico. Mais, há neste momento professores vinculados a receber salário, sem turma a viver da "informalidade económica" (explicações). Esta é um medida sem custos e com vantagens. Estou em crer que a próxima legislatura [do barnabé] vai ser marcada pela governação do Pedro Oliveira e do Celso Martins ;)

Comment Posted by: Ricardo Teixeira
“1º CONCURSO NACIONAL DE BLOGS: -Consulte regulamento, disponível apenas entre as 00:01 e as 23:59 do dia 24Jan05 em http://nomadasperdidos.blogspot.com - -SEJA PROPRIETÁRIO DO BLOG MAIS RECONHECIDO DO PAÍS...”

Comment Posted by: ezer
Ok!Vamos lá falar do José Luis Judas,do Mesquita Machado,do Mata Cárceres,dos Saleiros,Fátimas Felgueiras,etc.Não é isso do que está a falar?Bem,desculpe-me,mas é que como o povo diz:'eles sõ todos os mesmos'-claro,os do PSD,CDS e PS!Afinal,são os mesmos que sempre lá estiveram!E se isto está mael(vide o último relatório do Eurostat e, aí se vê quão 'eficazes'foram as vossas politicas tão 'responsáveis'!

Comment Posted by: rui tavares
RCS: estranho o que me está a dizer. não me lembro de ter visto nenhum comentário seu, muito menos o de ter apagado. e já agora devo fazer um esclarecimento. desde que iniciámos este sistema, 99% por cento dos comentários são aprovados. o que quer dizer que, afinal, as pessoas sabiam muito bem onde é que deviam pôr os seus próprios limites, só que não lhes apetecia fazê-lo. é triste, bem triste...

Comment Posted by: Pedro Sá
Matemática até ao 12º ano na área de Humanidades PARA QUÊ ? O que têm a ganhar os estudantes com isso, quando a sua formação está claramente vocacionada para outras áreas que a dispensam ?

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